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quinta-feira, novembro 12, 2020

FRANCA RAME, BUKOVSKI, IONESCO, ELIZABETH GASKELL, EIKOH HOSOE & MARGARIDA CARDOSO


  

TRÍPTICO DQC: QUANDONDE, AGORA!... - É noite e ouço movimento de passadas. Aguço a audição: são pisadas firmes. Inacreditável, mas sinto o inevitável: as pessoas estão se transformando em algo descomunal. Um vulto se aproxima e o reconheço com a proximidade. É Bukovski: Cheguei numa fase da minha vida que vejo que a única coisa que fiz até agora foi fugir, fugir de mim mesmo, do meu nada, e agora não tenho mais para onde ir, nem sei o que vou fazer, fui péssimo em tudo. Sim, eu compreendo. Para mim também está muito difícil. Todos, os descontentes agora conservadores, os hipócritas com a verdadeira face, a geração rivotril levada pelo vazio, enfim, o apogeu daqueles que tornaram a estupidez numa moda! Uma verdadeira manada de Fabos & Cafos: conformismo, submissão, fanatismo, alienação! Um Fecamepa! Todos com sua coleção de comprimidos, drágeas e cápsulas das mais diversas tarjas, mascarando enfermidades no conluio industrial de médicos e laboratório farmacêuticos, afinal têm remédio para tudo e uma infinidade de drogarias em cada rua -, e eu incomodado comigo, inconformado com tudo. Procurei por ele e não mais ali, era Niels Bohr: Ainda bem que chegamos a um paradoxo. Agora, há esperança de conseguirmos algum progresso. Esperança? Jogou-me na cara um provérbio chinês: Não importa quantos passos você deu para trás, o importante é quantos passos agora você vai dar pra frente. É verdade, só não sei se o que vai, realmente, segue mesmo adiante ou retroage, se evolui ou regressa, ou se qualquer movimentação para tanto, chega a algum lugar além da imobilidade, afora o certo e o errado. Ouço o Buda: Só há um tempo em que é fundamental despertar. Esse tempo é agora. Não sei mais o que passou, não importa; nem o que virá, nem quandonde, só sei o que é o agora e nada mais.

 


DA MONSTRUOSIDADE QUASE FERA - Lá fora o barulho aumentava, como se um monstro provocasse o alarido. Não era: as pessoas se tornaram quase feras e digladiavam delimitando seus territórios. Ou quase isso do período eleitoral. Há quem diga ser esse enfrentamento, aquele referido pelo Martin Esslin: o sentido do sem sentido da condição humana. O implacável horror, o absurdo. E duas pessoas invadiram o meu espaço. Não os identifiquei logo, mas ouvi uma parte diálogo: Psicose coletiva, senhor Dudard, psicose coletiva é o que isso é! É como a religião que é o ópio dos povos! Pelo que ouvi, reproduziam o que foi levado para cena nos palcos até hoje, desde 1959. Não restava dúvidas tratar-se de Botard e Dudard, a certidão me veio quando um deles disse mais adiante: Peço, desculpas, chefe, mas o senhor não pode negar que o racismo é um dos grandes erros deste século. Sim, sem dúvidas. Saíram e logo me apareceu mais alguém: Quem? Nunca vi mais gordo! Logo me disse: Devia ter seguido todos eles, enquanto era tempo. Agora é tarde demais! Infelizmente, eu sou um monstro, sou um monstro. Infelizmente, nunca serei rinoceronte, nunca, nunca! Nunca mais poderei mudar. Gostaria muito, gostaria tanto, mas já não posso. Não quero nem olhar para a minha cara. Tenho vergonha! (Vira as costas ao espelho) Como eu sou feio! Infeliz daquele que quer conservar a sua originalidade! (Tem um sobressalto brusco) Muito bem! Tanto pior! Eu me defenderei contra todo o mundo! Minha carabina, minha carabina! (Volta-se de frente para a parede do fundo onde estão as cabeças dos rinocerontes, sempre gritando) Contra todo o mundo, eu me defenderei! Eu me defenderei contra todo o mundo! Sou o último homem, hei de sê-lo até ao fim! Não me rendo! Ah, era o monólogo final de Bérenger para uma Daisy oculta. Presenciei tudo até cair o pano da noite na sátira mordaz de Ionesco. A solidão e a monstruosidade humana.

 


A PELE DA MAÇÃ – Imagem: arte do fotógrafo e cineasta japonês Eikoh Hosoe. – Tarde da noite e o escarcéu iluminava a cidade. Nem havia percebido que ela chegara nua para encenar Chame-me a bruxa, ou Ligue-me Witch, da atriz, escritora, dramaturga e ativista política italiana, Franca Rame (1929-2013): Não importa o que somos. Não importa o que você é ou quem você é. Você pode me chamar de bruxa. Por qualquer maneira minha natureza é essa. Desde sempre, desde o primeiro preguiçoso, ou a primeira vida, ou o primeiro tiro do mundo. Eu sou uma daquelas mulheres que têm alma, eu sou uma daquelas mulheres que têm visão e audição de um gato, eu sou uma daquelas mulheres que falam com árvores e formas, eu sou uma daquelas mulheres que têm o cérebro de Hipácia, Artemísia, Madame Curie. E eu sou linda. Tenho a beleza da luz, tenho a beleza da harmonia, tenho a beleza do mar tempestuoso, tenho a beleza de um tigre, tenho a beleza de dois girassóis, tenho lavanda e também tenho grama. É por isso que sou Bruxa. Sou Bruxa porque sou diferente, sou única, sou outra, sou igual, é pelas fileiras, é por dois esquemas, sou normal... sou! Eu sou uma Bruxa porque tenho orgulho de ser uma mulher-animal-cigana-artista e... engenheira maluca da minha vida. Sou Bruxa porque uso na cabeça, porque sempre digo ou penso, porque não tenho uma palavra maldosa e pruriginosa, dá uma palavra poderosa e poderosa. Sou Bruxa porque muitas vezes você odeia as Santas Inquisições deste milênio estranho, como Idade Media de tribunos da mídia apáticos. Eu sou uma Bruxa porque como ainda existem fogueiras e eu - mais cedo ou mais tarde - posso terminar dentro. E se fechou em copas. E não disse mais nada, cabeça baixa, braços espremendo os seios, mãos trêmulas cruzadas sobre o sexo túmido. Fui até ela com abraço solidário. Deitou a cabeça sobre meu ombro esquerdo e disse estudar noites a fio o texto A maçã de Eva, parceria da dramaturga com o marido, Dario Fo, e o filho, Jacopo. Alisei seus cabelos quando mencionou Elizabeth Cady Stanton: No momento em que começamos a temer as opiniões dos outros e hesitamos em dizer a verdade que está em nós, e por motivos de política ficamos em silêncio quando deveríamos falar, as inundações divinas de luz e vida já não fluem em nossas almas. E, um tanto hesitante, citou a escritora britânica Elizabeth Gaskell (1865-1810): Como é fácil julgar corretamente após vermos o mal que vem de julgar de forma errada. Sim, a vida é trânsito, vai e volta e torna a dar voltas sem parar. A gente não sabe o que diz, só resta viver e agora mais do que nunca! Até mais ver.

 

A ARTE DE MARGARIDA CARDOSO

A arte da atriz Margarida Cardoso (1916-1989), que tornou-se conhecida pela atuação em Song of The Sea (1953), Seara Vermelha (1964), Menino de Engenho (1965) e O Salário da Morte (1971) ela foi professora do antigo Departamento de Artes e Comunicação (DAC), que transformou-se em Departamento de Comunicação (Decom), da UFPB, tendo, também atuado no teatro ao lado de grandes nomes teatrais pernambucanos. Veja mais aqui e aqui.

 



terça-feira, novembro 12, 2019

EZRA POUND, LUCHINO VISCONTI, ELIZABETH CADY STANTON, LINDE ERGO & OCIDENTE TARDIO DE VILMAR CARVALHO


OCIDENTE TARDIO – O poeta desenha a linha do verso: olhos marejados de azul, carregados de saudade. A cidade sob os pés nunca foi lugar de covardia, apesar da distância e degredo é intrusa a solidão; as escaramuças, o seu desbravamento. E ele caminha até não voltar sem resposta alguma: uma ode feita de exílio. A palavra se revelou ao tomar o caminho: sete pedaços de Sol e um soneto, fragmentos de imagem, narrativa de melancolia na estação das chuvas. A luz espalha o brilho: amplo é o universo, sem esperança é o vazio. Ali ninguém nunca esteve e se nunca falou não esqueceu o retorno de sempre ao endereço da alma e do amor, a poesia. É uma canção de amor que reacende amar no céu de dezembro e um país inteiro adormece como uma estrela cadente que cai entre as coisas do caldeirão mágico feito de mensagens de terras distantes. Fez-se janeiro breve porque o exílio e o abandono são outra parte da paixão, uma estranheza de pequenas ondas em que o verso é feito de si mesmo e conta demais horas eternas com hálito de fendas. Na angústia da poesia a palavra salvadora: abriu-se a última parábola como se o desabafo fosse perfume de escurecido astro. A falta de amor dói e a poesia viva não pode dizer adeus e celebra um recanto do Sol. A mulher deixou o vestido na sala e o que se preza não diz que é poeta ao escrever o soneto entreaberto na carne do silêncio alado, porque agosto é a única heresia: uma agonia distante nas areias do tempo e o que nunca fiz com as imposturas do texto. A terra que nasci sonhei três vezes, os signos telúricos na encardida sola dos pés e a fruta farta para provar como quem garimpa tesouro no quintal florido ou aquela roubada que é mais gostosa que o caldo da garapa, a cana e o bagaço. A lembrança é o fio da navalha na pele amolada, o coração agridoce na pedra transformada em brasa de Sol. A senhora das loas trouxe o repente na ponta da língua e dança o pífano na xilogravura do arrastado dos pés. O réquiem no rio que sorriu, a morte bate em retirada nas ondas que estrondam, para não esquecer o amor e a sorte e o que não aconteceu na memoria do passado. Sou escritos na garrafa jogada para não dar nome a nada na fúria da escuridão, porque a prova de amor no beijo roubado é como o caldo da espera no frevo de junho. Em maio a cidade consumada, reencantos de intimidade, apenas um lampejo: tenho tanto de tantas palavras. Nasceram trinta versos assim de repente e muitos poemas do jeito de contar história do tempo que a beleza nasceu, porque a cidade é uma mulher que o amor aprendeu palavra por palavra, nas pelejas que se viveu sobre poemas: não lembrar queima tanto, o idioma precisa de metáforas. Escrever pessoas são poemas e fica para depois na solidão, porque a cidade é a percepção do abismo: as astúcias do poeta e a descoberta de nunca esquecer das nuvens que se passaram. Cantei tudo e a tudo decantei o desencanto, enquanto os homens brincam com as feras da criação despertando o céu como não se fazia há séculos. Tudo é só ausência, são muitos dezembros e a eterna partida por onze palavras reencantadas: é preciso dormir muitas vozes e o que nunca se esconde na curva e seus mundos infinitos. O poema cumpriu seu destino, porque o poeta é saudade e distância. PS: Texto-colagem sobre poemas do livro Ocidente tardio (Tarcisio Pereira, 2017), do poeta, historiador e professor Vilmar Carvalho. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais abaixo e aqui.

DITOS & DESDITOS: O autodesenvolvimento é um dever maior do que o autossacrifício. No momento em que começamos a temer as opiniões dos outros e hesitamos em dizer a verdade que está em nós, e por motivos de política ficamos em silêncio quando deveríamos falar, as inundações divinas de luz e vida já não fluem em nossas almas. A prolongada escravidão das mulheres é a página mais negra da história da humanidade. A Bíblia e a Igreja sempre foram os maiores obstáculos para a emancipação feminina. O descontentamento de uma mulher aumenta na exata proporção do seu desenvolvimento. Eu estou sempre ocupada, o que talvez seja a maior razão pela qual eu estou sempre bem. A melhor proteção que uma mulher pode ter é a coragem. Pensamento da ativista social, abolicionista e feminista estadunidense, Elizabeth Cady Stanton (1815-1902), autora da Declaração de Sentimentos (1848)e líder do movimento pelos direitos das mulheres.

O CINEMA DE LUCHINO VISCONTI
A família: uma espécie de destino ao qual é impossível escapar.
LUCHINO VISCONTI – A obra do cineasta italiano Luchino Visconti (106-1976), merece destaque pelo filme La caduta degli dei (Os Deuses Malditos, 1969), o primeiro filme da trilogia alemã, contando a história de uma família industrial abastada que começou a negociar com os nazistas, quando o patriarca é assassinado, tendo o vice-presidente da empresa sido acusado pelos nazistas do crime. Outro que merece destaque é o drama Vaghe stelle dell'Orsa... (Vagas estrelas da Ursa, 1965), uma releitura dos mitos de Electra e Orestes, contando a história de uma bela mulher que se casa com um estadunidense, que investigam sobre campos de concentração nazista; ela toma conhecimento da história da família e a partir disso se desenrola uma série de situações. Outro de seus premiados filmes é Il Gattopardo (O leopardo, 1963), baseado no romance homonimo de Lampedusa (1896-1957). Por fim, Il lavoro, episodio do cineasta para a comédia Boccaccio ’70 (1962), baseado nos contos do clássico Decameron de Boccaccio. Veja mais aqui, aqui, aqui & aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
A arte da escultora belga Linde Ergo. Veja mais aquiaqui.

A OBRA DE EZRA POUND
E se o velho frio estrangular sua loja, você será grato quando a noite passar.
A obra do poeta estadunidense Ezra Pound (1885-1972) aqui e aqui.
&
A ARTE DE VILMAR CARVALHO
A arte do poeta, historiador e professor Vilmar Carvalho aqui, aqui, aqui, aqui e aqui.


SÓNIA SULTUANE, MARCO NICOLINI, RUBY BRIDGES, JOÃO FALCÃO & MUITO MAIS!!!

    Imagem: Acervo ArtLAM .   Revestrés escatológico pra bufos e ranas... - Para quem não sabia, fingiu ou olvidou, muita coisa passou p...