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segunda-feira, dezembro 09, 2024

SVETLANA ALEXIJEVICH, JANE HIRSHFIELD, MAYIM BIALIK & ASCENSO DE VILMAR!

 

 Imagem: Acervo ArtLAM. Veja mais aqui.

Ao som dos álbuns Labyrinth (2023), Solo (2022), Henry III (2021), Henry II (2018), Henry (2016) & Moncaup (2015), da premiada saxofonista & compositora alemã Nicole Johänntgen.

 

Viver de tudo qualquer punhado bom que seja... - Por via de dúvidas: a vida não disfarça – depende só tamanho de compreensão. Doidices digo a esmo: careço de saber das coisas que não tem nome apenas – e aprendi de ás, bês, mais cês, atés zês. E nunca quis medir perdas e colheitas: tudo era mais hoje, muito mais amanhãs. Já vim de lá, volto mais não. A vida dá voltas, quem duvida. O que escrevo tem o sangue dos meus nascidos e mortos: sei porque culpado me cobram no tanto da extorsão; e se me devem reduzem a nada de impune, foi pra conta do Criador. E sentia com o que se podia ter feito no voejo das cinzas pernoitando a solidão, de prontidão pras surpresas no pontual dos instantes e esbarrando no festival de desatinos e desesperos. E era mais do que se evitava e convivia, não disputava hora vã. Havia quem tolerasse e muitos em olvidar, mesmo assim não esmoreci diante dos que destilavam peçonhas, nem dos que se afiavam ou se raspavam quem quisesse de si apenas faca, com os lambuzados de gosto, praxe de misérias, de teres e usares regurgitando delírios, sufocando desdéns - a cada um seu tento e primazia, cada qual sua paga e prêmio. Apenas seguia. A morte está em toda parte. O silêncio fala dos mortos: só quem deu baixa escapou. Não estivesse o mundo tão estragado de coisas afins e assins, pela avareza de fomes e sedes, até o tanto da comoção de quantos vazios, noves e nadas, poderia ser outro. E tudo se resolveria não se sabe como, varando de após em depois no maior enganchado, quisera fosse um jogo de soma não zero. Tomara e sou grato pela fineza da atenção, porque vou torando tantas léguas por prazos e avessos, carregando os pesos da vida e o que não durou pelos nãos, senões e talvezes, a cismar pelos meus quês e teréns espalhados e trazidos de nascença: a vida sopra e vai levando a gente. Até mais ver.

 

Edna O'Brien: O amor... é como a natureza, mas ao contrário; primeiro ele frutifica, depois floresce, depois parece murchar, depois vai fundo, bem fundo em sua toca, onde ninguém o vê, onde se perde de vista e, por fim, as pessoas morrem com esse segredo enterrado em suas almas... Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.

Marina Tsvetaeva: Asas são liberdade somente quando estão bem abertas em voo. Nas costas de alguém, elas são um peso pesado... Veja mais aqui.

Sophie Kinsella: Olhe para o seu coração e vá atrás do que você realmente quer... Veja mais aqui.

 

DOIS POEMAS

Imagem: Poemagens - Acervo ArtLAM. Veja mais aqui.

PARA O QUE NOS UNE - Há nomes para o que nos une: \ forças fortes, forças fracas. \ Olhe ao redor, você pode vê-los: \ a pele que se forma em um copo meio vazio, \ pregos enferrujando os lugares que se juntam, \ As articulações se encaixavam em seu próprio peso. \ A maneira como as coisas permanecem tão solidamente \ Onde quer que tenham sido estabelecidos – \ E a gravidade, dizem os cientistas, é fraca. \ E veja como a carne cresce de volta \ através de uma ferida, com uma grande veemência, \ Mais forte \ do que a superfície simples e não testada antes. \ Há um nome para ele em cavalos, \ quando ele voltar mais escuro e levantado: carne orgulhosa, \ como toda a carne, \ Orgulha-se de suas feridas, as usa \ como honras dadas após a batalha, \ Pequenos triunfos presos ao peito - \ E quando duas pessoas se amaram \ Veja como é como um \ cicatriz entre seus corpos, \ mais forte, mais escuro e orgulhoso; \ Como o cordão preto faz deles um único tecido \ que nada pode rasgar ou consertar.

TODAS AS HORAS E MINUTOS DIFÍCEIS - Todas as horas e minutos difíceis \ são como ameixas salgadas em um pote. \ Enrugado, transforma-se abruptamente em si mesmos, \ eles murmuram algo da cor de tubarão para o copo. \ Assim, a calamidade se volta para a calma. \ Primeiro o frasco segura o umeboshi, então o arroz faz.

Poemas da poeta, ensaísta e tradutora estadunidense Jane Hirshfield. Veja mais aqui.

 

VOZES DA GUERRA – […] O medo é mais humano do que a coragem, você está com medo e sente muito, pelo menos por si mesmo, mas força o medo de volta ao seu subconsciente. [...] A vida era cheia de aventuras: aprendi o cheiro do perigo – agora tenho um sexto sentido para isso. Estamos com saudades disso, alguns de nós; é chamada de ‘síndrome afegã’[...]. Trechos extraídos da obra Zinky Boys: Soviet Voices from the Afghanistan War (Unabridged. 2016), da escritora e jornalista bielorrussa Svetlana Alexijevich (Svetlana Aleksandrovna Aleksiévitch), prêmio Nobel de Literatura de 2015, também autora do livro Voices from Chernobyl: The Oral History of a Nuclear Disaster (‎Picador, 2006), no qual expressa: […] A morte é a coisa mais justa do mundo. Ninguém nunca saiu dessa. A terra leva a todos - os gentis, os cruéis, os pecadores. Fora isso, não há justiça na terra. [...]. No seu livro Secondhand Time: The Last of the Soviets (Random House, 2017), ela expressa que: […] Ninguém nos ensinou como ser livres. Só nos ensinaram como morrer pela liberdade. [...]. E no seu livro The Unwomanly Face of War: An Oral History of Women in World War (Random House, 2017), ela expressa que : […] A guerra das mulheres tem as suas próprias cores, os seus próprios cheiros, a sua própria iluminação e a sua própria gama de sentimentos. Suas próprias palavras. Não existem heróis e feitos incríveis, existem simplesmente pessoas ocupadas fazendo coisas desumanamente humanas [...].

 

SABEDORIA & SENSO COMUM - Quando você está acostumado a rejeitar a sabedoria convencional, isso o deixa aberto para aprender mais… Vamos reservar o julgamento para as pessoas que batem em seus filhos, vendem suas filhas para a prostituição ou negam às mulheres o direito de tomar decisões sobre seus corpos e suas vidas... Pensamento da atriz, escritora e neurocientista estadunidense Mayim Bialik, autora de obras tais como: Mayim's Vegan Table: More than 100 Great-Tasting and Healthy Recipes from My Family to Yours (Da Capo Lifelong, 2014) e Beyond the Sling: A Real-Life Guide to Raising Confident, Loving Children the Attachment Parenting Way (2012). Veja mais aqui & aqui.

 

ASCENSO FERREIRA

[...] Um livro para professores da educação básica, porém, feito sob medida para todos os leitores interessados na vida e obra do poeta e folclorista Ascenso Ferreira [...] São orientações didáticas e metodológicas que visam a realização de projetos escolares sobre a vida e a obra de Ascenso Ferreira, organizadas conforme as habilidades do currículo e a necessidade de se vivenciar as memórias e histórias da cultura local de maneira efetiva e significativa. [...]

Trechos extraídos da obra Ascenso Ferreira para professores: história, literatura e pesquisa escolar (CriaArt, 2024), do poeta e professor Vilmar Carvalho. Veja mais aqui, aqui & aqui. 

 

OFERECIMENTO: MJ PRODUÇÕES ARTÍSTICAS & AMIGOS DA BIBLIOTECA

Apresentam:

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Dareladas – Centenário de Darel Valença Lins aqui.

Tem mais:

Livros Infantis Brincarte do Nitolino aqui.

Diário TTTTT aqui.

Cantarau Tataritaritatá aqui.

Teatro Infantil: O lobisomem Zonzo aqui.

Faça seu TCC sem traumas – consultas e curso aqui.

VALUNA – Vale do Rio Una aqui.

&

Crônica de amor por ela aqui.


 


terça-feira, janeiro 09, 2024

FLORENCIA ABADI, DORIS DÖRRIE, ISABEL SALAS DOMÍNGUEZ & A TRILOGIA DE VILMAR

 

 Imagem: Acervo ArtLAM.

Ao som da ópera Afət, Poema de Z. Ziyadoglu: hino "Petroleiros" para solista e orquestra, Canções e romances para poemas e Gecələr bulaq başi , além dos filmes Nəğməkar torpaq (1981), Bağişla (1983), Qayıdış (1992), Yalçın (2004) e Sən yadima düşəndə (2013), da compositora azerbaijana Elza Ibrahimova. Veja mais aqui.

 

ANÔNIMO, VIDA TORTA & MALOGRO... – Manhã olhabro, agoronde gritalmas quandoutros às disjunções, natureza pujante, desgraça iminente. É duro ter de encarar este mundo. Dobrar a primeira esquina é o que resta; intrépido quase, irrequieto talvez, esquecer certas coisas não é fácil, tem de ser. Mesmo na radiância dos ideais com a impetuosidade do Etna, entre o esquecimento e a morte: verdadeiro sangue vivo entre o fugaz e o permanente. Qual nada. O que sobra, noves fora deu zero. Não fosse Elena Ferrante: Toda relação intensa entre seres humanos é cheia de armadilhas e, caso se queira que dure, é preciso aprender a desviar-se delas... O que seria de mim, nem me vitimizo, cara e coração: sou lá de me arrear pelos cantos. Outragora, pertali apareceram dançantes caruás de Conceição das Crioulas às hipálages, ataraxias e atavios, de quase me levar à polução apodítica porque a dor do amor apertava-me o coração - como se eu fosse Caliban em busca de um par de seios robustos ao abrigo, porque jaziam longe os sonhos mais excitados. A gente sabe: o que é bom dura nadinha, não adianta pernadas a três por tanto. Ainda bem Abbas Kiorastami: Eu me sinto como uma árvore. Uma árvore não se sente obrigada a começar a fazer algo pela terra de onde ela vem. Uma árvore só precisa dar frutos, folhas e flores. Não parece grata à terra... Assim sou Anteu do meu chão. Quão miserável quandoutros amargamores na salescura. Ainda há gente, muita gente, que não resiste à oferta de um molho de cédulas, afã patrimonial, suntuosidade. E estes ocupam cargos lá pras alturas nas três esferas do poder e ademais até quem nem sabe. Fiz minha opção Bukowski: Descubra o que ama e deixe-se matar por isso. Você tem de morrer algumas vezes antes que você possa realmente viver... Assim vai o sonho, foi-se o dia, a mão ao peito, a boca íntima, amareluz, pálidolhar. Longe versamanhã, olhos de velacesa na escuridão. Um só instante para o insulto e a repulsa. Breve grito para mudez das grandes palavras. Pela portaberta eis quem chega, a brisa na franja a roubar-lhe pestanas dos fogolhos, lábios reluzentes, enquanto dócil portescancarada afagando meu prepúcio vigoroso a porfiar blandícias errabundas, à espera da ejeção da massa coronal. Aí sou o Sol. Ela pagava o preço e não me devia nada. Venhaqui! Exprobrou porque queria saldar pecados como quem fareja focinho escondido a remoer moinhos às cuspidas saltitantes e a cambalear derruída. Nem saí de perto, acho que enlouqueceu. Deixei que fizesse, tirei partido por mim nessa hora. Ela e os regalos, nada melhor. Manuscravia-me nela em choque pela noite pecaminosa e eu em xeque, ela retardatária a revolver minhas entranhas com seus ombros caídos a semear ademanes por seus grãos no inframundo sem fim. Também sou vivo e merecemos. O que da vida torta, só anônimo & malogro. Agora não, tiramos proveito de tudo que der. Até mais ver.

 

UM POEMA

Imagem: Acervo ArtLAM.

Eu abro minha boca em glória abençoada para você \ Abra a boca acumulada \ nu o verso sábio \ verso inchado que preenche meu verbo de saída \ lambido verbo que molha a sua garganta \ fruta melodiosa \ Queridos minhos que sobem a boca pelos dedos \ Quando você os caminha através da flor quente \ banhando-os em brethbine \ Dedos entregues entre as dobras \ Mel sustentado nas pontas \ Os meis que abrem a boca \ bocas saciadas com mel \ Eu abro minha boca com alegria encantada com você \ Estou procurando a mordida forte \ Eu abro o sexo em sua boca \ Acomodar o verbo servido \ Eu posso em sua boca minha mordida incitada.

Poema da psicóloga e poeta venezuelana Isabel Salas Domínguez.

 

PARA ONDE VAMOS A PARTIR DAQUI – [...] Ah, diz ela gravemente, quando uma campainha toca ou um telefone toca, simplesmente aproveitamos a oportunidade para desligar e abandonar todos os nossos planos e emoções - todos os nossos pensamentos sobre outras pessoas e sobre nós mesmos. Abandonar todas as nossas percepções humanas? Eu pergunto indignado. Nesse caso, o que resta para nós? Não, diz ela balançando a cabeça, refiro-me apenas à nossa concepção do mundo. Gosto da maneira como ela pronuncia a palavra “concepção” com seu sotaque holandês, como se estivesse quente e ela pudesse queimar os lábios. Eu gostaria de poder falar uma língua estrangeira tão fluentemente quanto você, digo a ela. Por favor, diga ‘concepção’ novamente. Explique-me isso. Qual é a diferença entre minhas percepções e minhas concepções? Resolutamente, ela vai até um café sob alguns plátanos cujas folhas lançam sombras decorativas nas toalhas brancas. Ela se senta e me olha com ceticismo, como se avaliasse se sou inteligente o suficiente para merecer uma resposta. Na maioria das vezes, diz ela, formamos uma opinião sobre as coisas sem realmente percebê-las. Ela aponta para uma senhora idosa andando pela praça carregada de sacos plásticos. Por exemplo, ela continua, eu olho para aquela mulher e penso: Como ela tem as pernas arqueadas e aquela saia! Uma cor medonha e curta demais para ela. Ninguém deveria usar saias curtas nessa idade. Minhas pernas ainda são boas o suficiente para saias curtas? Eu costumava ter uma saia azul. Onde está, eu me pergunto? Eu gostaria de estar usando aquela saia azul. Onde está, eu me pergunto? Eu gostaria de estar usando aquela saia azul agora. Mas se eu fosse como aquela mulher ali... Ela apoia a cabeça nas mãos e me olha com brilho nos olhos. Eu ri. Na verdade, não “percebi” a mulher, diz ela, apenas pensei nas saias, nas pernas e no processo de envelhecimento. Sou prisioneiro das minhas próprias ideias – em outras palavras, das minhas concepções. Veja o que quero dizer? Eu digo que sim, mas diria sim para uma série de coisas quando ela me olha desse jeito. Uma garçonete da idade de Franka anota nosso pedido. Ela está usando um suéter branco de crochê sobre os seios enormes e um avental branco bem amarrado em volta da barriguinha proeminente. Suas sandálias com sola plataforma, que lembram cascos, dão-lhe uma aparência desajeitada de potro. Agora é a sua vez, diz Antje. Adolescente francês, eu digo. Provavelmente foi intimidada para deixar de fazer um aprendizado e trabalhar no café dos pais. Sonha em ser esteticista. Não, protesta Antje, isso não serve. Você tem que dizer o que realmente está passando pela sua cabeça. Eu hesito. Vamos, quinta-feira. Eu suspiro. Por favor, ela diz. OK, mas não assumo nenhuma responsabilidade pelos meus pensamentos. Negócio! Mamãezinha sexy, eu digo. Peitos lindos, provavelmente fáceis de transar, não recusariam alguns francos por um suéter novo. Ela certamente se sentiria bem e gritaria Maintenant, viens! Aquela música da Jane Birkin, não ouço há anos. Eu me pergunto o que Jane Birkin está fazendo atualmente. Ela costumava ser a mulher dos meus sonhos. Mesmo assim, tenho certeza de que aquela garota não gosta de homens alemães e, além disso, eu poderia facilmente ser o pai dela, tenho uma filha da idade dela. Eu me pergunto o que minha filha está fazendo neste momento... Eu seco. Ufa, eu digo. Desculpe, essa era minha cabeça, não eu. Antje acena com a cabeça satisfeita. Ela se inclina para trás e suas tranças ficam penduradas nas costas da cadeira. Nada nos atormenta mais do que a cabeça, diz ela, fechando os olhos. Você tem que reconhecer que os budistas têm o dom de se desligar. É simplesmente maravilhoso. [...]. Trecho extraído da obra Where Do We Go From Here? (Bloomsbury, 2002), da escritora e cineasta alemã Doris Dörrie. Veja mais aqui.

 

O SACRIFICIO DE NARCISO – [...] Longe do amor próprio Narciso continua o destino do amante Aminias [...] Embora dói admitir, o desejo e o amor dependem não apenas de mecanismos diferentes, mas opostos [...] A crueldade, embora seja perturbadora admiti-la, está intrinsecamente ligada à vida [...] Quando termina a guerra do desejo começa a paz do amor [...] a confiança amorosa interrompe o impulso curioso e possessivo do desejo e deixa a alteridade ser […] o desejo e o amor trabalham com lógicas opostas [...]. Trechos extraídos da obra El sacrificio de Narciso (Punto de Vista, 2020), da filósofa e escritora argentina Florencia Abadi, que noutra obra, O Nascimento do Desejo (Pólvora, 2023), expressa: [...] Não desejamos o que queremos, o que nos é conveniente, ou o que nos dá bem-estar ou felicidade. O desejo se impõe fora da vontade e nos deixa na dolorosa situação de nos defendermos dele inutilmente [...]. Dela a frase: O narcisista acredita que não atingir o ideal é uma humilhação.

 

TRILOGIA PALMARES DE VILMAR

A viagem do afeto de partir e voltar é a linguagem rememora...

Trecho do poema Bagagens, extraído da obra Ruína e alfabeto: poemas acima da decadência (CriaArte, 2023), do poeta e professor Vilmar Carvalho, autor das obras Tirinetes e Espelhos: poemas da cidade pequena e Casa Imemorial: poemas da casa imemorial, todos recém lançados. Veja mais aqui, aqui e aqui.

 



sexta-feira, janeiro 24, 2020

CAMPBELL, PICABIA, NORMA DE SOUZA LOPES, VILMAR CARVALHO, AMANDA ARAÚJO, DAREL & ARTE PERNAMBUCANA


UMA CARTA ESQUECIDA – A dança do nascimento eu não sei, ao útero de minha mãe retornei a ser criança para crescer outra vez com a dor e disse sim. Não recusei meu destino, aceitei meu nascimento. Fui além do medo e do desejo, carreguei culpas invisíveis. Eu disse sim: sim ao meu não, ao meu nome, ao medo de fugir, à recusa do destino, à negação de tudo e me encontrei verdadeiro. Eu me afirmei ao me opor, do igual para o outro e fiz a aliança para me reconciliar com o passado. Eu me livrei da culpa e do horror, aceitei porque me vi maior que a minha doença: nunca fui escravo da emoção. Eu escolhi a minha vida, sou o vento que me carrega para a floração da primavera. O que meus pais esperavam de mim, não vinguei; e me tornei o que sou; e, certamente, os tenha decepcionado. Não poderia ser como eles; prevaleceu a impressão de que nem fui desejado, apenas aconteci para surpresa, sinto nos meus tornozelos. Provei do veneno e me curei. Desci ao inferno, enfrentei minhas sombras e os rancores no ventre. Sempre estive só e a palavra presa na garganta. Perdoei e pude digerir o peso do meu estômago. Teve uma hora tudo apodrecido ao meu redor, gente com cerviz dura e sem olhar, como se vissem nada, o vazio, e eu entre Erínias e as Eumênides, aprendendo que o guerreiro realizado não precisa de armas. Escutei meu corpo, ouvi histórias esquecidas, ignoradas. Colhi o inesquecível que olvidei de mim mesmo, o imperdoável: o inesquecível de cada momento vivido. Eu sequer sabia, nem lembrava. Fiz-me aspirante com os joelhos descobertos para a prece iniciática e o céu desceu à Terra. Vi todos os lados e direções: tudo é muito maior do que possa perceber. Tenho na mão o meu coração e todas as mudras para reencontrar a Estrela da Síntese. Sempre precisei dar um passo a mais, caminhar leve, pés alados e na viagem ao centro de mim, não era outra a descoberta senão a dor da Terra: tudo será decomposto. As minhas raízes eu sei, sou deste chão e levado, de argila sou feito; coxeio, na verdade danço, porque tenho em mim eu e meus irmãos, familiares e desconhecidos. Ao me encontrar com a minha vida escolhida, me tornei o rei de mim mesmo. O aprendizado com os terapeutas de Alexandria me trouxe a Árvore das Sephirot e a escada de Jacó, soube o que me foi dado e não recebi por completa inaptidão. Nada não, se perdi a razão encontrei Deus e o abrigo para o alheio. O que de mim restou, diante das provações da existência, ficarei de pé até o fim dos meus dias. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.

DITOS & DESDITOS: [...] O intelectual moderno não encontra dificuldades em admitir que o simbolismo da mitologia se reveste de um significado psicológico. Está fora de dúvidas, especialmente depois do trabalho dos psicanalistas, que tanto os mitos compartilham da natureza dos sonhos, quanto os sonhos são sintomáticos da dinâmica da psique. [...] As mitologias folclóricas tomam a história da criação apenas no ponto em que as emanações transcendentais irrompem em formas espaciais. Não obstante, em sua avaliação da circunstância humana, não diferem em nenhum ponto essencial das grandes mitologias. As personagens simbólicas que comparecem a essas histórias correspondem em importância e não raro em características e façanhas às personagens das iconografias mais sofisticadas, e o mundo maravilhoso em que se movem é precisamente o mundo das grandes revelações: o mundo e a época que se encontram entre o sono profundo e a consciência desperta, a zona em que o Uno se torna o múltiplo e os muitos se reconciliam com o Uno. [...]. Trechos extraídos da obra O herói das mil faces (Cultrix, 2015), do escritor, professor, mitologista e conferencista estadunidense Joseph Campbell (1904-1987). Veja mais aqui & aqui.

CRISE DA FORMAÇÃO DOCENTE: [...] A situação formação profissional do professor é invertidamente simétrica à situação de seu exercício profissional. Quando se prepara para ser professor ele vive o papel de aluno. O mesmo papel, com as devidas diferenças etárias, que seu aluno viverá tendo a ele como professor. [...] a formação do professor precisa tomar como ponto de referência a organização institucional e pedagógica dos cursos, a simetria invertida entre a situação de preparação profissional e o exercício futuro na profissão docente. A consciência da simetria invertida é, portanto, condição extremamente necesária. [...] Um profissional que acompanha os avanços de sua área de atuação, mediando formação inicial e continuada, buscando uma profissão docente mais preparada para lidar com o mundo contemporâneo. Não é excesso dizer que talvez estejamos formando professores como o foi no século XIX. Também, passando acríticos pela tecnocracia do século passado. Confrontados pela atualidade, estamos procurando inovar a ação docente para além das queixas da profissão. [...]. Trecho do artigo Prática pedagógica como componente curricular e crise da formação docente, extraído da obra História, educação e memória: coletânea de ensaios e palestras – 2008-2019 (Criaart, 2019), do poeta, historiador e professor Vilmar Carvalho. Veja mais do autor aqui, aqui & aqui, e sobre práticas pedagógicas contemporâneas aqui & aqui.

QUATRO POEMAS DE NORMA DE SOUZA LOPES
MAIS ALEM: disse por três vezes / nunca mas ambicionar validação alheia / olho no espelho e pisco / que bela senhora nos tornamos / tenho tempo e espaço para escrever / meu trabalho é uma beleza / e esses pássaros que me acordam / estão cheios de poesia / mas são tantas / as coisas sem serventia / que mantemos / uma roupa que não serve mais / um antigo CD / a coleção de garrafas vazias que sei / nunca vou usar / e esse olho latente / do Outro, a bradar / o que eu devo ser / não queria escrever poesia / como que faz filosofia / tantas palavras / quando bastava o silêncio
DIFERES: suspende tua sede / como quem / tem todo tempo / do mundo / ignora o agora inexorável / a triturar o tempo / entre os dentes
ALAVANCA: o que me mantém / suspensa no ar / é o amor e a morte / salto e queda / num abismo que arde / não se mira duas vezes / a inclassificável / substância da nudez / festa do corpo / deveria ser impossível / cair em si / dada a ausência / de ponto de apoio
EM CHAMAS: esta manhã eu fui uma mulher em chamas / e carreguei comigo o calor e as cores das chamas / por falta de um mapa de incêndios / e de companheiros incendiários / ardi em altas chamas / completamente desperdiçadas.
NORMA DE SOUZA LOPES - Poemas da poeta e professora Norma de Souza Lopes, autora dos livros De mim ninguém sai com fome (Patuá, 2017) e Borda (Patuá, 2014). Ela também edita o primoroso blog Norma Din, no qual ela expressa que: Escrever é essa costura cotidiana quando posso tecer e juntar as pontas soltas da memória.
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QUATRO POEMAS DE AMANDA ARAÚJO
RETORNO DOLORRISO: Sinto a solidez desse impasse / E carrego comigo o desgaste / Que é / Salvar amores / Sorrir dores / Torcer lençóis / Adiante o projeto desbota / Como alvos flamejantes / Se esvai num pestanejar / Resta os calos nos dedos / As alegrias amarelas / E o coração coral. / Venha tu / Vou-te a ti / Voltarei / Ao lençol desbotado / O flamejante e alvo sorriso.
PAISAGEM: À beira de um precipício / Pulando com uma asa só / Pendendo pro lado / Dando ponto sem nó / Deitado na rede / Ouvindo a seda remoer / Um passo de lá / De cá, lago de correr / Meia volta / Vou ver! / O frágil giz de cera / Rabiscava na pele / Sem pressa / Sem presa / Sem pesar.
CONTIGO, SEM TI: Fale de ti / Das notas da flauta / Dos acordes irracionais / Fale das cores nuas / Da lua lilás / Conte-me dos cantos / O lírico / E o sagaz / Mas leva-me contigo / Ou roube a minha paz / ... / Três pontos de luz me rondavam: / Ipê colorido / Pés descalços / Calçadas solitárias.
AMANDA ARAÚJO - Poemas da poeta e crítica literária Amanda Araújo, acadêmica de Letras pela UFPE (EaD), incluída nas antologias O futuro da poesia (2017) e Dezditos – Poemas Selecionados (2018), organizadas pelo poeta e professor Admmauro Gommes. Veja mais da Amanda aqui e mais poesia aqui.

A ARTE DE FRANCIS PICABIA
Os homens conseguem diplomas e perdem o seu instinto. A moral é a espinha dorsal dos imbecis. A melhor maneira de sermos seguidos é correr mais depressa do que os outros. Nossa cabeça é redonda para permitir ao pensamento mudar de direção.
FRANCIS PICABIA - A arte do pintor e poeta francês Francis Picabia (1879-1953), que foi vinculado ao cubusmo e foi membro do grupo Puteaux, publicou na Espanha o primeiro número da revista dadaísta 391, em 1916, além de ter criado com André Breton a revista 491 e ilustrar a obra Janela do caos, de Murilo Mendes. Veja mais aqui & aqui.

A ARTE PERNAMBUCANA
A arte do gravurista, pintor, desenhista, ilustrador e professor Darel Valença Lins (1924-2017) aqui, aqui & aqui.
A obra do sociólogo Gilberto Freyre (1900-1987) aqui, aqui & aqui.
A literatura do escritor Pelópidas Soares (1922 – 2007) aqui, aqui & aqui.
A arte do escritor, artista visual, professor, pesquisador, arquiteto e urbanista Gentil Porto Filho aqui.
Cinema, Aspirinas e Urubus, filme de Marcelo Gomes aqui.
A arte do quadrinista, ilustrador, desenhista, publicitário e webdesigner Nel Angeiras aqui.
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O Museu do Caxiado de São Joaquim do Monte aqui & aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
Veja mais aqui.


terça-feira, novembro 12, 2019

EZRA POUND, LUCHINO VISCONTI, ELIZABETH CADY STANTON, LINDE ERGO & OCIDENTE TARDIO DE VILMAR CARVALHO


OCIDENTE TARDIO – O poeta desenha a linha do verso: olhos marejados de azul, carregados de saudade. A cidade sob os pés nunca foi lugar de covardia, apesar da distância e degredo é intrusa a solidão; as escaramuças, o seu desbravamento. E ele caminha até não voltar sem resposta alguma: uma ode feita de exílio. A palavra se revelou ao tomar o caminho: sete pedaços de Sol e um soneto, fragmentos de imagem, narrativa de melancolia na estação das chuvas. A luz espalha o brilho: amplo é o universo, sem esperança é o vazio. Ali ninguém nunca esteve e se nunca falou não esqueceu o retorno de sempre ao endereço da alma e do amor, a poesia. É uma canção de amor que reacende amar no céu de dezembro e um país inteiro adormece como uma estrela cadente que cai entre as coisas do caldeirão mágico feito de mensagens de terras distantes. Fez-se janeiro breve porque o exílio e o abandono são outra parte da paixão, uma estranheza de pequenas ondas em que o verso é feito de si mesmo e conta demais horas eternas com hálito de fendas. Na angústia da poesia a palavra salvadora: abriu-se a última parábola como se o desabafo fosse perfume de escurecido astro. A falta de amor dói e a poesia viva não pode dizer adeus e celebra um recanto do Sol. A mulher deixou o vestido na sala e o que se preza não diz que é poeta ao escrever o soneto entreaberto na carne do silêncio alado, porque agosto é a única heresia: uma agonia distante nas areias do tempo e o que nunca fiz com as imposturas do texto. A terra que nasci sonhei três vezes, os signos telúricos na encardida sola dos pés e a fruta farta para provar como quem garimpa tesouro no quintal florido ou aquela roubada que é mais gostosa que o caldo da garapa, a cana e o bagaço. A lembrança é o fio da navalha na pele amolada, o coração agridoce na pedra transformada em brasa de Sol. A senhora das loas trouxe o repente na ponta da língua e dança o pífano na xilogravura do arrastado dos pés. O réquiem no rio que sorriu, a morte bate em retirada nas ondas que estrondam, para não esquecer o amor e a sorte e o que não aconteceu na memoria do passado. Sou escritos na garrafa jogada para não dar nome a nada na fúria da escuridão, porque a prova de amor no beijo roubado é como o caldo da espera no frevo de junho. Em maio a cidade consumada, reencantos de intimidade, apenas um lampejo: tenho tanto de tantas palavras. Nasceram trinta versos assim de repente e muitos poemas do jeito de contar história do tempo que a beleza nasceu, porque a cidade é uma mulher que o amor aprendeu palavra por palavra, nas pelejas que se viveu sobre poemas: não lembrar queima tanto, o idioma precisa de metáforas. Escrever pessoas são poemas e fica para depois na solidão, porque a cidade é a percepção do abismo: as astúcias do poeta e a descoberta de nunca esquecer das nuvens que se passaram. Cantei tudo e a tudo decantei o desencanto, enquanto os homens brincam com as feras da criação despertando o céu como não se fazia há séculos. Tudo é só ausência, são muitos dezembros e a eterna partida por onze palavras reencantadas: é preciso dormir muitas vozes e o que nunca se esconde na curva e seus mundos infinitos. O poema cumpriu seu destino, porque o poeta é saudade e distância. PS: Texto-colagem sobre poemas do livro Ocidente tardio (Tarcisio Pereira, 2017), do poeta, historiador e professor Vilmar Carvalho. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais abaixo e aqui.

DITOS & DESDITOS: O autodesenvolvimento é um dever maior do que o autossacrifício. No momento em que começamos a temer as opiniões dos outros e hesitamos em dizer a verdade que está em nós, e por motivos de política ficamos em silêncio quando deveríamos falar, as inundações divinas de luz e vida já não fluem em nossas almas. A prolongada escravidão das mulheres é a página mais negra da história da humanidade. A Bíblia e a Igreja sempre foram os maiores obstáculos para a emancipação feminina. O descontentamento de uma mulher aumenta na exata proporção do seu desenvolvimento. Eu estou sempre ocupada, o que talvez seja a maior razão pela qual eu estou sempre bem. A melhor proteção que uma mulher pode ter é a coragem. Pensamento da ativista social, abolicionista e feminista estadunidense, Elizabeth Cady Stanton (1815-1902), autora da Declaração de Sentimentos (1848)e líder do movimento pelos direitos das mulheres.

O CINEMA DE LUCHINO VISCONTI
A família: uma espécie de destino ao qual é impossível escapar.
LUCHINO VISCONTI – A obra do cineasta italiano Luchino Visconti (106-1976), merece destaque pelo filme La caduta degli dei (Os Deuses Malditos, 1969), o primeiro filme da trilogia alemã, contando a história de uma família industrial abastada que começou a negociar com os nazistas, quando o patriarca é assassinado, tendo o vice-presidente da empresa sido acusado pelos nazistas do crime. Outro que merece destaque é o drama Vaghe stelle dell'Orsa... (Vagas estrelas da Ursa, 1965), uma releitura dos mitos de Electra e Orestes, contando a história de uma bela mulher que se casa com um estadunidense, que investigam sobre campos de concentração nazista; ela toma conhecimento da história da família e a partir disso se desenrola uma série de situações. Outro de seus premiados filmes é Il Gattopardo (O leopardo, 1963), baseado no romance homonimo de Lampedusa (1896-1957). Por fim, Il lavoro, episodio do cineasta para a comédia Boccaccio ’70 (1962), baseado nos contos do clássico Decameron de Boccaccio. Veja mais aqui, aqui, aqui & aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
A arte da escultora belga Linde Ergo. Veja mais aqui & aqui.

A OBRA DE EZRA POUND
E se o velho frio estrangular sua loja, você será grato quando a noite passar.
A obra do poeta estadunidense Ezra Pound (1885-1972) aqui e aqui.
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A ARTE DE VILMAR CARVALHO
A arte do poeta, historiador e professor Vilmar Carvalho aqui, aqui, aqui, aqui e aqui.


GONÇAL MAYOS, MARINE PETROSSIAN, PÉTER NÁDAS & IRANDHIR SANTOS

  Imagem: Arrostar aporias , da série Caosmose & O poema nasce do visinvisível - Acervo ArtLAM .   Fábula dos embeiçados desavindos... ...