quarta-feira, setembro 24, 2008

DIDI-HUBERMAN, CLAUDIO MAGRIS, CIORAN, RAFFAELE MARINETTI, LIVIA TUCCI, ROGÉRIA HOLTZ & LITERÓTICA


 
Art by Raffaele Marinetti

LITERÓTICA – (Imagem: art by Raffaele Marinetti) I - BEM NA HORA: O meio-dia era ela. E eu com insolação para morrer afogado no seu mar. Era quando, bem na hora, meio dia em ponto, ela me afagava entre os seus domínios. E eu menino peralta me valia de suas correntes oceânicas para viver além de suas profundidades. Era o seu corpo de mar e as suas marés me embalando vida adentro com todos os brinquedos de seus tesouros. Até que me fizesse lua e ficasse orbitando ao ser redor, walkaround, virando comensal jubarte caçando seus cardumes de beijos, suas formas totais de encantos e carinhos que me davam a sua baía para minha invasão, surfando por suas ondas na minha satisfação frenética de recolher todos as suas mínimas expressões, a ponto de vasculhar sua lama e me relar no seu lodo e curtir sua imundície e saborear a sua deletéria emanação num banquete ginofágico que se fazia a terra onde vivo e sou predador, se fazia o planeta que me abriga, a nave que me leva inimputável, o porto de todos os meus abrigos. E dentro dela sou barco errante e teimoso a navegar num cruzeiro hedonista a brincar de luas e marés, marés de lua quando crescente eu estou rijo no cio para escalpelá-la com minhas sandices voluptuosas. E na lua cheia ela é madura no ponto para meu regozijo pleno. E na lua nova ela goza para me fazer o maior entre os mortais. E na minguante ela me recolhe letárgico no seio de todas as revigorantes paixões avassaladoras. E ela maré alta, eu rio Amazonas, o gozo em pororoca. – II - ENTREGA TOTAL: Ao seu encontro, o dia era tarde, pleno meio dia. Foi quando a minha nudez reluziu, todos os meus segredos – ou quase todos – haviam se revelados. Não menti, não poupei um só mínimo detalhe de tudo que transitava na minha vida. Desde os moinhos de ventos da minha inútil e quixotesca existência, dos muros e paredes levadas no peito, dos naufrágios e perfídias, da solidão e decepções, das guerras perdidas, das idas arrastando as malas, dos enterros voltando, das topadas e tranqueiras, das doidices e frustrações, dos arames farpados entre os dentes e a lágrima tolhida no peito. Nada ficou incólume de mim na vida, tudo em pratos limpos. Tudo isso porque amei desde o primeiro segundo aquela menina azul silente, tímida e inteiramente minha com seus olhos de Aleph e sua alma de rio cristalino para o meu deleite. Não precisei de bote ou remo, mergulhei suas correntezas, nadei sua superfície, boiei as profundezas de suas margens até chegar na terceira via onde o limite era o meu fôlego. Ela era a fonte e é meu elixir: boca que me seduz menino manhoso, seios de pomar delicioso, ventre de todas as primaveras mais fragrantes e embriagadoras, braços de ninho acolhedor, corpo de rio que me batiza e faz viver. Timbungando noitedia nela, aprendi o dia, o amor e a felicidade. E sua corredeira dava sempre no mais absoluto prazer que me fazia renascido a cada instante. E o prazer era repetidamente fascinante como a água límpida lavando a alma no mormaço da vida para quem se via recolhido das cinzas. E a vida era o seu corpo nu que me deu azo, riso e esperança. Hoje me dá muito mais: o prazer de ser vivo. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.


Art by Raffaele Marinetti


DITOS & DESDITOS - O romance é o gênero literário que representa o indivíduo na ‘prosa do mundo’; o sujeito sente-se inicialmente estrangeiro na vida, cindido entre sua nostálgica interioridade e uma realidade exterior indiferente e desvinculada. Pensamento do escritor germanista italiano Claudio Magris.

O SABER & NÃO SABER – [...] Tal será então a vantagem: saber, mas também pensar o não saber enquanto se aflige com restos de saber. Dialetizar. Para além do próprio saber, envolver-se na prova paradoxal de não saber (o que acabaria exatamente por negá-lo) mas pensar o elemento do não saber que nos deslumbra cada vez que pousamos nosso olhar sobre uma imagem artística [...] Não se trata mais de pensar um perímetro, uma vedação.... mas se trata de experimentar uma abertura constitutiva e central: lá onde a evidência , despedaçando-se, se evapora e se obscurece [...]. Trechos extraídos da obra Devant l ́Image (Minuit, 1990) do filósofo, historiador, crítico de arte e professor francês Georges Didi-Huberman. Veja mais aqui.

SOFRIMENTO & DESESPERO – [...] Existe algum critério objetivo de avaliação do sofrimento? Quem pode afirmar que meu vizinho sofre mais que eu, ou Jesus sofreu mais que todos nós? Não há medida objetiva para o sofrimento, pois ele não tem como ser medido por uma excitação exterior ou indisposição local do organismo, mas pelo modo como é percebido e refletido na consciência. Ora, desse ponto de vista, qualquer hierarquização se torna impossível. [...] Trecho extraído da obra Nos cumes do desespero (Hedra, 2008), do filósofo romeno Emil Cioran (1911-1995). Veja mais aqui.

TRÊS POEMAS ERÓTICOSSTRIPTEASE - Anoiteço árida, / adormeço úmida, / no emergir dos pêlos, / no arrepio dos passos, / quando a noite tece em nós / a opala túrgida. / E no dia seguinte, / sangüínea e dilatada, / outra vez, anoiteço. / E atenta a essa festa, recomeço. / Mostro, cubro, / desnudo a curva casta, / minhas partes mais pudendas, / as mais brancas, / e o show must go on / ao som de um blue. / E entre véus / e a fina blusa, entreaberta, / o lado claro do cenário / é a luz de um abajur. / Enquanto tento despir estrelas, / te dar um amor imenso, / dentro de minha blusa, entreaberta, / constróis a Via Láctea em silêncio. POR UM FIO - Arranha / esta aranha,/ côncava de pêlos;/ quem dera ser o fio/ nesta teia / de novelos;/ quem dera ter o ofício/ de tecer/ o que te enleia./ Aranha tecelã,/ arguta trepadeira,/ ah, meu amor,/ ara em mim / as tramas,/ com dedos / de fiandeira. REFAZENDA - Me apresento, / nua e bela, / uma metamorfose / de animais. / Roubo seus instintos, seus pêlos e cheiros,/ apores e sons, / o baque surdo / das patas / as ancas violentas, / num tremor infernal. / E me apresento, / sem distinção, / eqüina ou humana, / na dança dos quatro atos, / num jogo de entrega e fuga. / a tua pele, meus animais, / que inundam / campos, pradarias, os currais. / E corro, / voraz e bela, / por entre as cancelas / do teu coração. Poemas da cantora, escritora e professora Livia Tucci. Veja mais aqui e aqui.
Art by Raffaele Marinetti


MUSA DA SEMAN:A ROGÉRIA HOLTZ - A cantora paulista Rogéria Holtz está estabelecida há 20 anos em Curitiba.

Ela integrou durante oito anos o Grupo Vocal Brasileirão do Conservatório de Música Popular Brasileira.

Lançou em 2003 o cd Acorda

Depois lançou o cd No País de Alice.

Dela diz Egberto Gismonti: "Sua voz é uma beleza. Que beleza impressionante que é a sua voz! Gosto da mistura Brasileira no seu disco; gosto do seu estilo que se mistura e mostra nas caras que temos os nossos humores, os nãos e as contradições. Maneira bacana de ver o Brasil a sua. Viva!" Realmente, voz lindíssima, meritória de aplausos. Parabens, Rogéria!!!


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