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quarta-feira, janeiro 09, 2019

DIDI-HUBERMAN, J. BORGES, MARIA PAULA COSTA REGO & O IMPERADOR & O GENRO

O IMPERADOR & SEU GENRO MALQUISTO – O que possuía de terra, tinha de ruindade. Era o Zé Imperador, antes só Zé: pobre, pedra-ruim. Revoltou-se contra tudo e todos, pense num cabra injuriado; dava um berro, o mundo tremia, vento parava, as águas se acovardavam. Venha cá, elas vinham. Cadê os peixes? Eles chegavam. Onde fica a Pedra Funda? Ninguém sabia. Descubram! Maior correria, só a piaba soube e disse. Foram pro fundo do mar. Chegando lá, a ordem: Vamos arrastá-la, nem saiu do lugar. Convocou o que podia, baleias vieram, toda força, a pedra à beira-mar. Pronto, voltem pros seus, cambada! Aí trouxe bodes, bois, búfalos e outros chifrudos até de um olho só, cada marrada na pedra, chega o chão estremecia. Arrocha! Ela racha ou eu não me chamo Zé. Sentou o cabelo até que a pedra se ventou e acabaram de arrebentar. Aos farelos, ele pegou uma coisa que tinha lá, ninguém sabia, desconversou, dispensou tudo e foi pro escuro do quarto. Ninguém sabe, só que ele enricou daí por diante. Estibado e mandão, casou com uma galegona jeitosa que o que tinha de quartos tinha de formosura, coisa mais bonita de se ver, chega dava água na boca de tão formosa. Do casal, um dia, a notícia: a filha nasceu. E ele lá nele: Tô mole. Era Fia, menina virada, parecia menino de tão desassombrada, talqualzinha um cafuçu. Cresceu feito macho, escritinha, num tinha quem não dissesse, era a peste, da pá virada. Vencia qualquer peleja, destronava qualquer valentão, viesse quem fosse, ela lá, vitoriosa. Isso até o dia em que enfrentou o filho do pescador que também era Zé. Esse, um dia pegou um peixe destamanho que lhe falou: Você vai me levar ou me jogar de volta pra trazer muitos outros peixes. Era o diabo, fez o pacto, agora afilhado dele e da santa de devoção. Cabra sabido. Jogou-lo de volta, um cardume ao seu dispor. Tangeu a tuia pra casa, não tinha tanta precisão. Fez festa com todos, pirão e farinha, enriqueceu-se e mandava no que era seu. Mas veio a bronca com a filha do Imperador, pensou que era outro, de igual pra igual, golpe aqui, tome ali, socadas, pernadas, murro na venta, o pau cantou por horas. Quando foi ver, era mulher. Mesmo assim, acochou e aprumou. Depois da contenda, rendeu-la, botou-la na garupa e na primeira moita, ela fechou os olhos e ele acunhou lavando a jega: ela se perdeu com ele. Emprenhou. Maior armada. E uma bronca medonha: Filha minha não fica à toa. Vou capar esse fidapeste. E a cabroeira ia e voltava. Toleimas, tudo frouxo. Ah, vai ser na marra, a pulso. A pugna, os dois geniavam: Parace que veio mandado. E se agarraram chega saía raio do litígio, acabaram os dois morre mas num morre. A Fia embuchada foi lá ver os dois moribundos. Ao lado deles um sujeito estranho. Quem é você? Vim buscar o que estão me devendo, a alma deles. Como é? Quando ela armou-se toda para enfrentá-lo, ele disse: Esse menino que taí no seu bucho serve, troco pelos dois, fechado? Mas, menino! Mesmo gestante, a mulher deu com a brabeza e enfrentou o Coisa-ruim. Oxe, quem era doido? Mulher dessa, nem o diabo podia e botou pra correr. Até agora ninguém sabe o fim da história, quem morreu, quem ficou vivo; de certo mesmo é que entrou pela perna de pinto e saiu pela perna de pato. Isso, quem souber que conte. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.

DITOS & DESDITOS
[...] Aristóteles pensou o coração como sede do pensamento. Depois a cabeça teve essa honra. Galiano designou diversas funções mentais para as diversas partes do cérebro. Mas como continua sendo difícil pensar (imaginar, apresentar, definir, mesmo questionar), esse lugar do pensamento! Sem dúvida, o interior de nossa cabeça continua invisível a nossos olhos. Quanto às impressões endógenas, às sensações kinestésicas, elas são pobres e sugerem unicamente, segundo os psicólogos, “um domo ou uma caverna” que enchemos com nossas imagens visuais e nossas invenções autoscópicas. [...] Nada saber disso, desse lugar. Mas como ele tem presa sobre nós, como o alcançamos, como nos toca? Os artistas sem dúvida não resolvem nenhuma das questões deste tipo. Pelo menos, deslocando os pontos de vista, revirando os espaços, inventando novas relações, novos contatos, sabem encarnar as questões mais essenciais, o que é bem melhor que acreditar responder a elas [...].
Trechos extraídos da obra Ser crânio: lugar, contato, pensamento, escultura (C/Arte, 2009), do filósofo, historiador, crítico de arte e professor francês Georges Didi-Huberman. Veja mais aqui e aqui.

A ARTE DE J. BORGES
O meu nome hoje é muito falado, mas não chega um quarto do que vai ser depois do meu fim.
A fama sem ter dinheiro nem a todo mundo agrada.
A fama pelo trabalho honesto, mesmo sem dinheiro é boa.
A fama vem sem estudos, mas nunca vem sem trabalho.
Na casa da inteligência, a burrice não se hospeda.
Extraído da obra Memórias e contos de J. Borges (Gráfica Borges, s/d), do artista cordelista J. Borges (José Francisco Borges). Veja mais aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
A arte da dança armorial da coreógrafa, dançarina, pesquisadora, professora e produtora cultural Maria Paula Costa Rego que atuou no Balé Popular do Recife e fundou, em 1997, o Grupo Grial.
Veja mais aquiaqui.
& muito mais na Agenda aqui.


quinta-feira, junho 21, 2018

DIDI-HUBERMAN, PROUST, JOYCE, BOURDIEU, JESSIER, TEIXEIRA LOPES, PHILIPH DVORAK, ALFARRÁBIOS & POESIA ABSOLUTA


ESCOLHA DAS MÃOS: O QUE VALE É VIVER! – Imagem: arte do pintor, desenhista e fotógrafo estadunidense Philiph Dvorak. - Já passei por debaixo da ponte de muitas broncas e, vez ou outra, depois de pelejar tanto, umazinha lá, no bambo, lograr êxito ao acertar na caçapa. Não é nada demais, uma vez lá que seja, acertar na mosca: tum! Também sou filho de Deus, né? Porquanto, nunca reclamei da sorte, assim mesmo sempre me achei privilegiado pelo que fiz e não tenho. Nunca usei das mãos pra brigar na marra, ou arrancar pra possuir, no máximo a ler as linhas da palma, porque sempre soube uma para alcançar o que se quer e, outra, para zis coisas, afora as duas, em concha, punho cerrado, expostas. Se uma abre caminho; a outra, arma o bote ou semeia e colhe. E as duas, pedido ou entrega, sejam destros ou canhotos, tudo do nada pode brotar inventando o que não há, reinventado a si e ao redor. Tanto faz ficar ou seguir, ir ou parar, a ocasião faz a hora de dormir ou acordar, senão sigo na minha: devagar e sempre. Ao livre arbítrio, quantas escolhas a todo átimo por cara ou coroa, quem não no lá ou loa, ímpar ou par, e acertar o negócio da China ou gorar a morte da bezerra, sujeito ao escalpelo ou covarde isento de gafes escondido pelas beiradas, seguindo retardatários pra se esboroar ao sacrossanto, ou rasgar o glossário do interdito pra saborear o limiar do pecado. Sempre soube quem foi pra voltar, quem vem pra desistir: enlaces e desencontros, erros e acertos, adesões e repulsões, guisado ou frito, subir ou descer, em pé ou deitado, tanto pelo insosso certo previsto, como pelo sedutor desconhecido misterioso, nunca se sabe. Qual é, entre todas e nenhuma, ou uma ou outra, e se passei batido e nem vi a bússola entre as agruras do céu e as delícias do inferno, sorri soprando o relado da pele no reboco dos muros com suas sombras a desfazer de sonhos por ocas desilusões ou vazias vicissitudes. Assim são as escolhas e sou quem não sabe delas as consequências, nem preciso, vivo o momento no sabor do imprevisível. A vida não tem ver de novo, vale a precisão do inesquecível, a memória acendendo a libido, cada vez única, de outra não se repete, revive sem saber aonde vai dar. Não há melhor que isso, nada de repeteco, coisas de parar, retroceder e consertar o que passou, nada disso, aconteceu e foi, já era. Só fica a vivência, o experienciado inupto, singular, da gente saber o que voga, se isso ou aquilo, distinguir depois da curva ou atrás do monte, ninguém sabe, nem adianta ficar matutando se tivesse ido pro outro lado ou se tivesse tempo de pular fora antes do acontecido. Nada disso. E tudo isso, ora. Tem até quem não sabe que escolheu e fala dos outros, como se incólume da desgraceira. As coisas vão pelo tino, assim como pra quem gosta de guerra, sou pela paz e voo de beija-flor que não sobrevive ao olhar, recolhendo a música das pedras e o ensurdecedor silêncio mortuário que vem das ruas da ancestralidade milenar. Deu ou não deu, não há pra chorar, só recomeçar, refazer-se, revelar-se. Se me perdi dos passos, não é nada, voluntário vou com o coração na mão, pulsando a fazer o que posso, de novo e resiliente, porque pra quem errou demais da conta é só aprender a lição, apagar o passado e sorrir esquecido de ontem se quiser ser feliz, senão nunca mais, pra nunca ser tarde de seguir de mãos dadas, depois do celebrado e mútuo aperto de mãos nos abraços de vida. O que vale é viver. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.

RÁDIO TATARITARITATÁ:
Hoje na Rádio Tataritaritatá especial com a música
da cantora, compositora e instrumentista Joyce: Visions of dawn, Revendo amigos, Aquarius & Ao vivo & muito mais nos mais de 2 milhões de acessos ao blog & nos 35 Anos de Arte Cidadã. Para conferir é só ligar o som e curtir. Veja mais aqui, aqui e aqui.

PENSAMENTO DO DIA – [...] se a unidade doméstica é um dos lugares em, que a dominação masculina se manifesta de maneira mais indiscutível (e não só através do recurso à violência física), o princípio de perpetuação das relações de força materiais e simbólicas que aí se exercem se coloca essencialmente fora desta unidade, em instancias como a Igreja, a Escola ou o Estado e em suas ações propriamente políticas, declaradas ou escondidas, oficiais ou oficiosas (basta, para nos convencermos disto, observar, na realidade imediata, as reações e as resistências ao projeto de contrato de união social). [...]. Trecho extraído da obra A dominação masculina (Bertrand Brasil, 2002), do sociólogo francês Pierre Bourdieu (1930-2002), que em outra publicação, A escola conservadora: as desigualdades frente a escola e à cultura (Vozes, 2003), assinala que: [...] Além de permitir à elite se justificar de ser o que é, a ideologia do dom, chave do sistema escolar e do sistema social, contribui para encerrar os membros das classes desfavorecidas no destino que a sociedade lhes assinala, levando-os a perceberem como inaptidões naturais o que não é senão efeito de uma condição inferior, e persuadindo-os de que eles devem o seu destino social (cada vez mais ligado ao seu destino escolar) à sua natureza individual e à sua falta de dom. [...]. Veja mais aqui.

TEMPO ATUAL – [...] O apocalipse continua sua marcha. Nosso atual “mal-estar na cultura” caminha nesse sentido, ao que tudo indica, e é assim que, com frequência, o experimentamos. Mas uma coisa é designar a máquina totalitária, outra coisa é lhe atribuir tão rapidamente uma vitória definitiva e sem partilha. Assujeitou-se o mundo, assim, totalmente como o sonharam - o projetam, o programam e querem no-lo impor - nossos atuais “conselheiros pérfidos”? Postulá-lo é, justamente, dar crédito ao que sua máquina quer nos fazer crer. É ver somente a noite escura ou a ofuscante luz dos projetores. É agir como vencidos: é estarmos convencidos de que a máquina cumpre seu trabalho sem resto nem resistência. É não ver mais nada [“C’est ne voir que du tout”, é ver “apenas o todo/o tudo”, ao contrário do “apesar de tudo”.]. É, portanto, não ver o espaço - seja ele intersticial, intermitente, nômade, situado no improvável - das aberturas, dos possíveis, dos lampejos, dos apesar de tudo [...]. Trecho extraído da obra Sobrevivência dos vagalumes (EdUFMG, 2011), do filósofo, historiador, crítico de arte e professor francês Georges Didi-Huberman, que em outra obra A imagem sobrevivente: história da arte e tempo dos fantasmas segundo Aby Warburg (Contraponto, 2013), expressa que: [...] Eis o que seria necessário fazer face ao esplendor e ao caos do mundo: enquadrar – isolar, para melhor o observar como que por dentro – cada fenômeno fecundo. E, para isso, seria importante também pegar no lápis, na pena e no pincel para preencher cadernos e folhas de desenho, que constituiriam ainda testemunhos dessa precisão poética que Goethe demonstra perante a diversidade do mundo sensível [...]. Veja mais aqui.

NOS CAMINHOS DE SWAN - [...] fazer penetrar a imagem de Odette num mundo de sonhos ao qual até então ela não tivera acesso e no qual ela impregnou-se de nobreza. E, ao passo que a visão puramente carnal que tivera daquela mulher enfraquecia seu amor, essas dúvidas foram dissipadas e esse amor assegurado quando teve por base os dados de uma estética exata; sem contar que o beijo e a posse, que lhe pareciam naturais e medíocres se concedidos por uma carne arruinada, vindo coroar a adoração de uma peça de museu, afiguravam-se-lhe sobrenaturais e deliciosos [...]. Trecho da obra Nos caminhos de Swan (Abril, 1979), do escritor francês Marcel Proust (1871 - 1922). Veja mais aqui e aqui.

DECLARAÇÃO UNIVERSAL DOS ESQUERDOS HUMANOSO cabôco pode ter todo defeito do mundo: / Ser assoprador de velas antes do parabéns / Aborteiro do amor / Cacundeiro de político / Pode ser desmancha-samba / Dizedor de palavrão. / Pode ter vício, desvio: / Ser tomador de cachaça / Putanheiro, maconheiro / Vivaldino, fanfarrão. / Ter tido uma desventura: Ser corno dum mulherão. / E também ser diferente: um domador de serpente / Mais pra lá do que pra cá, peneirinha, chibateiro. / Apoucado de tamanho: / Metade de Nelson Ned / Ou mesmo um caga-baixinho. / Mulher pode ser: / Megera, concordante, oferecida / Moita-crespa ao deus-dará / Ser tabaco-militar, das que só pega soldado. / O cabôco ser machista, moralista, de direita… / Não interessa: / Têm todo o esquerdo do mundo / De ser tratado dentro do vão dos direitos. / Pois o lado direito de quem olha / É o lado perfeito e benfazejo / Do esquerdo e sensível coração. Extraído da obra Berro Novo (Bagaço, 2009), do poeta, compositor e intérprete Jessier Quirino. Veja mais aqui.

VIVA FANZINE
Foi lançado no último dia 16/06, no Centro Cultural Paschoal Carlos Magno, em Niterói, o Fanzine Coletivo Alfarrábios VIII D'Além MAR!, com participação especial de Victor H. Rosa & mais: Adriana Mayrinck, Andreia Evangelista, Cláudia Lí, Jammy Said, João Ayres, Jordão Pablo de Pão, José Antonio C e Silva, José Glauco Ribeiro Tostes, Marco Valença, María Angélica Carter Morales, Mônica Firma Maciel, Spírito Santo, Tchello d'Barros, Thina Curtis & muito mais! Produção: Armazém de Quinquilharias e Utopias Brasil. PS: Alfarrábios não tem dono, não tem liderança, não visa lucro. As edições são a preço de custo e o valor de venda se destina a reposição do investimento, propiciando a auto sustentabilidade.
A Poesia Absoluta aqui & muito mais na Agenda aqui.
&
CRÔNICA DE AMOR POR ELA
A arte do escultor português Teixeira Lopes (1866-1942)
Veja mais aqui aqui.
&
Em cada esquina a vida passa, Era secular de Charles Taylor, A educação estética de Friedrich Schiller, o cinema de Lúcia Murat & Luciana Rigueira, a arte de Benjamin Cassiano & Sarau Poesia Revista aqui.

APOIO CULTURAL: SEMAFIL
Semafil Livros nas faculdades Estácio de Carapicuíba e Anhanguera de São Paulo. Organização do Silvinha Historiador, em São Paulo.


quarta-feira, setembro 24, 2008

DIDI-HUBERMAN, CLAUDIO MAGRIS, CIORAN, RAFFAELE MARINETTI, LIVIA TUCCI, ROGÉRIA HOLTZ & LITERÓTICA


 
Art by Raffaele Marinetti

LITERÓTICA – (Imagem: art by Raffaele Marinetti) I - BEM NA HORA: O meio-dia era ela. E eu com insolação para morrer afogado no seu mar. Era quando, bem na hora, meio dia em ponto, ela me afagava entre os seus domínios. E eu menino peralta me valia de suas correntes oceânicas para viver além de suas profundidades. Era o seu corpo de mar e as suas marés me embalando vida adentro com todos os brinquedos de seus tesouros. Até que me fizesse lua e ficasse orbitando ao ser redor, walkaround, virando comensal jubarte caçando seus cardumes de beijos, suas formas totais de encantos e carinhos que me davam a sua baía para minha invasão, surfando por suas ondas na minha satisfação frenética de recolher todos as suas mínimas expressões, a ponto de vasculhar sua lama e me relar no seu lodo e curtir sua imundície e saborear a sua deletéria emanação num banquete ginofágico que se fazia a terra onde vivo e sou predador, se fazia o planeta que me abriga, a nave que me leva inimputável, o porto de todos os meus abrigos. E dentro dela sou barco errante e teimoso a navegar num cruzeiro hedonista a brincar de luas e marés, marés de lua quando crescente eu estou rijo no cio para escalpelá-la com minhas sandices voluptuosas. E na lua cheia ela é madura no ponto para meu regozijo pleno. E na lua nova ela goza para me fazer o maior entre os mortais. E na minguante ela me recolhe letárgico no seio de todas as revigorantes paixões avassaladoras. E ela maré alta, eu rio Amazonas, o gozo em pororoca. – II - ENTREGA TOTAL: Ao seu encontro, o dia era tarde, pleno meio dia. Foi quando a minha nudez reluziu, todos os meus segredos – ou quase todos – haviam se revelados. Não menti, não poupei um só mínimo detalhe de tudo que transitava na minha vida. Desde os moinhos de ventos da minha inútil e quixotesca existência, dos muros e paredes levadas no peito, dos naufrágios e perfídias, da solidão e decepções, das guerras perdidas, das idas arrastando as malas, dos enterros voltando, das topadas e tranqueiras, das doidices e frustrações, dos arames farpados entre os dentes e a lágrima tolhida no peito. Nada ficou incólume de mim na vida, tudo em pratos limpos. Tudo isso porque amei desde o primeiro segundo aquela menina azul silente, tímida e inteiramente minha com seus olhos de Aleph e sua alma de rio cristalino para o meu deleite. Não precisei de bote ou remo, mergulhei suas correntezas, nadei sua superfície, boiei as profundezas de suas margens até chegar na terceira via onde o limite era o meu fôlego. Ela era a fonte e é meu elixir: boca que me seduz menino manhoso, seios de pomar delicioso, ventre de todas as primaveras mais fragrantes e embriagadoras, braços de ninho acolhedor, corpo de rio que me batiza e faz viver. Timbungando noitedia nela, aprendi o dia, o amor e a felicidade. E sua corredeira dava sempre no mais absoluto prazer que me fazia renascido a cada instante. E o prazer era repetidamente fascinante como a água límpida lavando a alma no mormaço da vida para quem se via recolhido das cinzas. E a vida era o seu corpo nu que me deu azo, riso e esperança. Hoje me dá muito mais: o prazer de ser vivo. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.


Art by Raffaele Marinetti


DITOS & DESDITOS - O romance é o gênero literário que representa o indivíduo na ‘prosa do mundo’; o sujeito sente-se inicialmente estrangeiro na vida, cindido entre sua nostálgica interioridade e uma realidade exterior indiferente e desvinculada. Pensamento do escritor germanista italiano Claudio Magris.

O SABER & NÃO SABER – [...] Tal será então a vantagem: saber, mas também pensar o não saber enquanto se aflige com restos de saber. Dialetizar. Para além do próprio saber, envolver-se na prova paradoxal de não saber (o que acabaria exatamente por negá-lo) mas pensar o elemento do não saber que nos deslumbra cada vez que pousamos nosso olhar sobre uma imagem artística [...] Não se trata mais de pensar um perímetro, uma vedação.... mas se trata de experimentar uma abertura constitutiva e central: lá onde a evidência , despedaçando-se, se evapora e se obscurece [...]. Trechos extraídos da obra Devant l ́Image (Minuit, 1990) do filósofo, historiador, crítico de arte e professor francês Georges Didi-Huberman. Veja mais aqui.

SOFRIMENTO & DESESPERO – [...] Existe algum critério objetivo de avaliação do sofrimento? Quem pode afirmar que meu vizinho sofre mais que eu, ou Jesus sofreu mais que todos nós? Não há medida objetiva para o sofrimento, pois ele não tem como ser medido por uma excitação exterior ou indisposição local do organismo, mas pelo modo como é percebido e refletido na consciência. Ora, desse ponto de vista, qualquer hierarquização se torna impossível. [...] Trecho extraído da obra Nos cumes do desespero (Hedra, 2008), do filósofo romeno Emil Cioran (1911-1995). Veja mais aqui.

TRÊS POEMAS ERÓTICOSSTRIPTEASE - Anoiteço árida, / adormeço úmida, / no emergir dos pêlos, / no arrepio dos passos, / quando a noite tece em nós / a opala túrgida. / E no dia seguinte, / sangüínea e dilatada, / outra vez, anoiteço. / E atenta a essa festa, recomeço. / Mostro, cubro, / desnudo a curva casta, / minhas partes mais pudendas, / as mais brancas, / e o show must go on / ao som de um blue. / E entre véus / e a fina blusa, entreaberta, / o lado claro do cenário / é a luz de um abajur. / Enquanto tento despir estrelas, / te dar um amor imenso, / dentro de minha blusa, entreaberta, / constróis a Via Láctea em silêncio. POR UM FIO - Arranha / esta aranha,/ côncava de pêlos;/ quem dera ser o fio/ nesta teia / de novelos;/ quem dera ter o ofício/ de tecer/ o que te enleia./ Aranha tecelã,/ arguta trepadeira,/ ah, meu amor,/ ara em mim / as tramas,/ com dedos / de fiandeira. REFAZENDA - Me apresento, / nua e bela, / uma metamorfose / de animais. / Roubo seus instintos, seus pêlos e cheiros,/ apores e sons, / o baque surdo / das patas / as ancas violentas, / num tremor infernal. / E me apresento, / sem distinção, / eqüina ou humana, / na dança dos quatro atos, / num jogo de entrega e fuga. / a tua pele, meus animais, / que inundam / campos, pradarias, os currais. / E corro, / voraz e bela, / por entre as cancelas / do teu coração. Poemas da cantora, escritora e professora Livia Tucci. Veja mais aqui e aqui.
Art by Raffaele Marinetti


MUSA DA SEMAN:A ROGÉRIA HOLTZ - A cantora paulista Rogéria Holtz está estabelecida há 20 anos em Curitiba.

Ela integrou durante oito anos o Grupo Vocal Brasileirão do Conservatório de Música Popular Brasileira.

Lançou em 2003 o cd Acorda

Depois lançou o cd No País de Alice.

Dela diz Egberto Gismonti: "Sua voz é uma beleza. Que beleza impressionante que é a sua voz! Gosto da mistura Brasileira no seu disco; gosto do seu estilo que se mistura e mostra nas caras que temos os nossos humores, os nãos e as contradições. Maneira bacana de ver o Brasil a sua. Viva!" Realmente, voz lindíssima, meritória de aplausos. Parabens, Rogéria!!!


VEJA MAIS:
MUSA DA SEMANA


Veja mais sobre:
Dignidade humana aqui, aqui e aqui.
Educação aqui, aqui e aqui.
Meio Ambiente aqui, aqui, aqui, aqui e aqui.

E mais:
Pra saber viver não basta morrer, Leonardo Boff, Luchino Visconti, Emerson & Lake & Palmer, Núbia Marques, Felicitas, Pedro Cabral, Psicodrama & Teatro Espontâneo aqui.
Literatura de Cordel: História da princesa da Pedra Fina, de João Martins de Athayde aqui.
A arte de Jozi Lucka aqui.
Robimagaiver: pipoco da porra aqui.
Dhammapada, Maslow, Educação & Responsabilidade civil da propriedade aqui.
O romance e o Romantismo aqui.
A arte de Syla Syeg aqui.
Literatura de Cordel: Brasi caboco, de Zé da Luz aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
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CANTARAU: VAMOS APRUMAR A CONVERSA
 Recital Musical Tataritaritatá - Fanpage.
Veja  aqui e aqui.



segunda-feira, setembro 01, 2008

SADE, GERTRUDE STEIN, DIDI-HUBERMAN, BHABHA, CARLO CARRÀ, VIVIANE MOSÉ, THOMAS BAK, CORDEL DO GETÚLIO & COISO REI

Arte do pintor italiano Carlo Carrà (1881-1966)

COISO REI, O AUTO DO COISONÁRIO – ATO 1 – CENA 1: ZÉ COISO VÊ A COISA – Lá ia Zé Coiso aos assobios numa tarde ensolarada, puxando da sua inseparável jumentinha Bisquí e o que restou do seu idílio com o abastado Crisipo, uma paixão proibida e da qual teve que fugir acusado de assassinato. Estava desenganado da vida e do amor, deixando-se levar noitedias sem paradeiro certo. Ao avistar a Coisa, vixe! Que estrupício! Pense num desmatelo! O seu coração ficou num vaivém medonho: Não, não era mais Crisipo; para ele, era a formosa Jocasta! A Coisa desconfiada: Quem Crisipo? Quem é Jocasta? E ele enamorado, cego de paixão. Para quem foi contrabandeado pelos irmãos e vitimado não só por uma, mas duas paixões avassaladoras: a proibida e amaldiçoada pelo mais belo e melhor dos seus amigos, o Crisipo; e a platônica pela mais graciosa e abastada das jovens da sua terra, a Jocasta. Não era pro bico dele nenhum dos dois, por isso fugia. Aquela que acabara de descobrir, era definitivamente para ele. E tudo fez. Ela, a Coisa, na retranca, só no canto dos olhos. Ele endoidecido, pelejando para tirar uma casquinha, pretendeu atacá-la para conseguir seus intentos. Assim o fez, só nos ajeitados, tomando umas e outras, altas horas da noite, resolve arrancá-la à força. Sequestra e sacode em cima da Bisquí já pronta colaborativa. E ali mesmo, completamente embriagado e fora de si, estupra Coisa. Foi uma contenda, ela o repugnava, aos gritos e chutes. Ele insaciável alcança seu objetivo e livre da repulsa, consegue copular depois de horas em arremetidas insistentes e gozo demorado. No dia seguinte, cadê Coisa? Lugar mais limpo. Saiu à sua caça dias, meses. Como não tirava Coisa da cabeça no afã de encontrá-la a qualquer momento e concretizar a sua felicidade, nem deu conta que Bisquí ficava roliça. Oxe! Será que essa jumenta está prenha? Muito menos percebeu que já doze meses se passaram, mas na cabeça dele só contava nove e foi aí que nasceu Coisinha, seu primogênito: o Coiso Júnior. Como é que pode? Quem emprenhou Bisquí? A jumenta de olho na fuça dele, como se dissesse: Destá, bestão! Foi assim. Finalmente podia se passar por pai pela primeira vez na vida, depois do malogro com Crisipo e Jocasta. Tomou na conta de seu, todo feliz. E falou carinhosamente para Bisqui: Será como se fosse meu, viu? Bisquí fechou a cara e falou: Não será como se fosse! Oxe, você fala? No dia que você quis estuprar aquela vadia e corre o mundo atrás dela, não foi nela que você esporrou de gozo, viu? O quê? Foi nimim e esse filho é seu. Como? Eu embuchei de você, seu lerdo. E desde quando você fala? Sempre, você que nunca viu que canto para você dormir, embalo suas noites e afago seu coração perdido por aquele safado do Crisipo, pela quenga da Jocasta e agora dessa fuleira Coisa; sou eu que nas horas de precisão você se alivia, seu traste! Como é que pode? Na hora do rala-e-rola, sou a melhor do mundo; quando é para levá-lo na cacunda para qualquer lugar, sou a única; quando é para distrair sua solidão, só a mim na face da terra. Já notou? Não pode ser. Mas é, ponto final. Depois da rusga, vem as pazes e um mar de rosas. Mas a vida nunca tem final feliz. Então, com o Cosinha também vieram outras broncas e a principal foi um presságio anunciado pelo Oráculo: ele seria assassinado por seu próprio filho que se casaria com sua mulher, a mãe dele. Cuma? Como é que pode? Basta um segundo de felicidade e logo tudo desmorona? Vou tirar isso a limpo com esse Oráculo! Bisquí ali ficou cuidando do seu rebento mais que amado. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais abaixo e aqui.


DITOS & DESDITOSNão há outro inferno para o homem além da estupidez ou da maldade dos seus semelhantes. A beneficência é sobretudo um vício do orgulho e não uma virtude da alma. As paixões humanas não passam dos meios que a natureza utiliza para atingir os seus fins. Antes ser um homem da sociedade, sou-o da natureza. Quem sabe se não teremos de ultrapassar muito a natureza para perceber o que ela nos quer dizer? A minha maneira de pensar, você diz, não pode ser aprovada. E que me importa? Bem idiota é aquele que adota uma maneira de pensar para os outros! Não foi a minha maneira de pensar que provocou a minha desgraça. Foi a maneira de pensar dos outros. Só me dirijo às pessoas capazes de me entender, e essas poderão ler-me sem perigo. Pensamento do escritor libertino francês Donatien Alphonse François de Sade, mais conhecido como Marquês de Sade (1740-1814). Veja mais aqui & aqui.

ALGUÉM FALOU: O homem precisa de algum conhecimento pra sobreviver, mas pra viver precisa da arte. A dor da alma nada mais é do que seus limites se rasgando para caber mais mundo. É porque sentimos dor que valorizamos tanto a alegria. Além do mais, não há um ser humano que não tenha vivido a dor. E se houvesse, ele não saberia também o que é alegria. A solidão é a base da dignidade. O homem é um ser que cria valores, e a consciência da morte instaura o primeiro valor: a vida. Tudo que nasce tende a morrer para que a vida continue. É porque sabemos que vamos morrer que temos urgência de viver. Se o homem é o único animal que sabe que vai morrer, ele também é o único que incessantemente cria, interfere, produz. Liberdade é saber lidar com os limites. Pensamento da poeta, filósofa, psicóloga e psicanalista capixaba, Viviane Mosé. Veja mais aqui.

O QUE VEMOS, O QUE NOS OLHA - [...] devemos fechar os olhos para ver quando o ato de ‘ver’ nos remete, nos abre um ‘vazio’ que nos olha, nos concerne e, em certo sentido, nos constitui [...]. Trecho extraído da obra O que vemos, o que nos olha (34, 1998), do filósofo, historiador, crítico de arte e professor francês Georges Didi-Huberman. Veja mais aqui.

LOCAL DA CULTURA – [...] A enunciação problemática da diferença cultural torna-se no discurso do relativismo, o problema perspectivo da distância espacial e temporal. A ameaça da “perda” de sentido na interpretação transcultural, que é tanto um problema da estrutura do significante como uma questão de códigos culturais (a experiência de outras culturas), torna-se então um projeto hermenêutico para a restauração da “essência” cultural ou da autenticidade. [...]. Trecho extraído da obra O local da cultura. (EdUFMG, 1998), do professor e crítico indiano Homi Bhabha.

A VIDA - Temos sempre a mesma idade por dentro. Quando estão sozinhos querem estar acompanhados, e quando estão acompanhados querem estar sozinhos. Isso faz parte de ser humano. A única coisa que torna possível a identidade é a ausência de mudança, mas ninguém acredita de fato que se seja semelhante àquilo de que se lembra. As pessoas que acreditam na inteligência, no progresso e no entendimento, são as que tiveram uma infância infeliz. Todos temem a morte e questionam seu lugar no universo. A função do artista, não é sucumbir ao desespero, mas sim encontrar antídotos para o vazio da existência. É preciso muito tempo para ser um gênio, você tem que ficar sentado sem fazer nada, realmente sem fazer nada. Pensamento da escritora e feminista estadunidense Gertrude Stein (1874-1946). Veja mais aqui.


O MISTERIO DO COISO – A obra O mistério do Coiso e outras histórias (Boca, 2010), do contador de história Thomas Bak, é um audiolivro em que histórias são contadas pelo próprio autor que narra e interpreta várias personagens, utilizando o Teatro e a Música, num espetáculo despojado e bem-humorado, grandes temas da existência, o estilo é brejeiro, inspirado na literatura tradicional e simultaneamente fruto de uma veia original e moderna. Os mais hilariantes contos jocosos, da fábula ao realismo fantástico, que levará o público do riso às lágrimas, conta com arranjo musical de Nuno Morão e ilustração de Nuno Saraiva.

COISO REI, O AUTO DO COISONÁRIO



A CHEGADA DE GETULIO VARGAS NO CÉU E O SEU JULGAMENTO

Rodolfo Coelho Cavalcante

Quando Getulio morreu
O manto da natureza
Tingiu-se todo de luto
Mostrando maior tristeza
Soluçando pelo astro
Que brilhou com mais grandeza.

De manhã o sol não quis
Demonstrar o seu fulgor
O mar sereno gemia
Num espetáculo de dor
E a lua no espaço
Perdeu toda a sua cor.

Os homens aqui da terra
Perderam suas razões
Em desespero gritavam
Como se fossem leões
Pela perda de seu líder
Amado pelas nações.

Os operários diziam:
- morreu o meu protetor
Um outro Getulio Vargas
Não nos manda o criador
Rolavam em todas as faces
O pranto do seu amor.

Enquanto isso o espaço
Turbado na escuridão
De marte, saturno e Vênus
Netuno, Capri, plutão
Sentia a grande tragédia
De Getulio nosso irmão.

Estava Jesus na corte
Do celeste paraíso
Quando o anjo São Miguel
Deu-lhe o doloroso aviso:
- Matou-se Getulio Vargas
As vossas ordens preciso!

- Eu mandei-te Miguel
Livrá-lo da tirania
Do deputado Lacerda
De Gregorio e companhia
Por que o deixaste sozinho
Sofrendo tanta agonia?

- Senhor eu mandei os vossos
Mais sublimes mensageiros
Porem o ódio crescia
Pelos falsos brasileiros
Para intrigarem Getulio
Com os planos traiçoeiros!

De qualquer maneira eu quero
Getulio no paraíso
Pois um sério julgamento
Com ele fazer preciso
Corra, vá ligeiro à terra
Com São Jorge e São Narciso.

Vinte e quatro de agosto
Daquele tristonho dia
Com São Narciso e São Jorge
São Miguel à terra descia
E no Catete chegaram
Numa hora mais sombria...

A esposa de Getulio
Chorava dilacerada
Dona Alzira como filha
Dizia penalizada:
- Morreste papai porém
Tua memória é honrada.

Osvaldo Aranha gritava:
- Getulio Vargas morreu!
Mataram meu grande amigo
Que pelo povo sofreu
Lutero também chorava
São Miguel entristeceu.

Enquanto o corpo estendido
Se achava no caixão
O espírito de Getulio
Estava em perturbação
Vagando no infinito
No vácuo da imensidão.

São Miguel chamou Getulio
Que estava tão aflito
Como se estivesse em sonho
Deu ele um tristonho grito
E ao ver os mensageiros
Ajoelhou-se contrito.

- Por que roubaste a vida
Que o Criador te deu?
Perguntou-lhe São Miguel
Getulio respondeu:
- Matei-me pelo meu povo
Que um dia me elegeu!

- Mas não sabias que era
Um crime muito maior
Para salvar o teu povo
Fazendo um ato pior
Disse Getúlio: - Porém
Foi o que achei melhor!

- deixemos de discussão
Que isto não adianta
Se prepare para ir
À Mansão Celeste Santa
Onde Jesus lhe ouvirá
Você ai se garanta!

Nos braços do anjo foi
Getulio Vargas levado
Quando por marte passaram
Foi ele homenageado
Em Vênus quarenta deuses
Cantaram: “Meu doce amado”.

Em jupiter vinte segundos
Getulio Vargas ficou
Para receber a faixa:
“Maior astro que brilhou”
Em saturno um grande almoço
A caravana aceitou.

Em plutão disse Getulio
Que ali não demorava
Recusou todos os convites
Porque Hitler ali estava
Trabalhando de mineiro
Pelo crime que pagava.

Em capela um ramalhete
De flores celestiais
Recebeu Getulio Vargas
Por dois grandes marechais
Deodoro e Floriano
Que se tornaram imortais.

Na região do amor
Foi Getulio recebido
Pelo grande Castro Alves
Onde é muito querido
No reino de Salomão
Também foi muito aplaudido!

Estava a Águia de Haia
Ao lado de Salomão
Com Sócrates e Aristófanes
Hermes, Pitágoras, Platão
Fizeram uma ode a Getulio
Numa alegre saudação.

Na lua entraram Adão
Moisés, David e Elias
Daniel e o rei Saul
Com Abraão e Isaías
recebeu Getulio Vargas
o diploma de Messias.

Duas horas mais ou menos
Viajou a caravana
Enquanto a terra sofria
Essa passagem tirana
Getulio chegou ao céu
Pela ajuda soberana.

Deixemos agora a terra
Num clima de confusão
Para falar de Getulio
Na celestial mansão
Como foi seu julgamento
Vamos dar a descrição.

Estava Jesus no trono
Já pronto para julgá-lo
São Libório, o promotor
Começou a acusá-lo
Enquanto a Virgem Santíssima
Chegou para advogá-lo.

Disse Libório: - Senhor
Getulio zombou demais
No tempo da ditadura
Encarcerou generais
Prendeu gente e matou gente
Como se fossem animais.

Nossa Senhora sorriu
E disse: - Não acredito
Quem governa leva a fama
De tudo que é maldito
O que fizeram em seu nome
Jamais foi por ele escrito!

Libório continuou:
- Se Lacerda o condenava
Tinha razão para isso
Pois o Catete estava
Cercado de pistoleiros
Que Getulio contratava.

Defendeu Nossa Senhora
Dizendo: Nunca Libório
Getulio se confiava
Isto já está notório
De toda sua tragédia
O culpado foi Gregório!

- Mesmo assim, por que Getulio
De uma vez que não devia
Não aguardou o julgamento
Que a oposição queria?
Seu suicídio provou
Qu´ele culpado sentia.

- Não acuse desta forma
Libório que não convem
Getulio Vargas sofreu
Como meu filho também
Para salvar os humildes
Sem ter ódio de ninguém.

Nisto Jesus ordenou
Que Getulio demonstrasse
As razões do suicídio
Se de fato não provasse
Seria expulso do céu
Antes que o dia findasse.

Disse Getulio: - Senhor
Eu não sei vos descrever
A vergonha que sofri
Sem cousa alguma dever
Vos que desceste à terra
Devereis melhor saber.

- Não sabes que ninguém pode
Sua própria vida tirar?
Não vistes como sofri
Todo martírio sem par
Mas não roubei minha vida?
Tua devias me imitar.

- Eu reconheço senhor
Do erro que cometi
Mas uma maldade humana
Como essa nunca vi
Indo até os sacrifício
Pelo meu povo morri.

- Eu te perdôo Getulio
Porque foste generoso
Lembraste dos pequeninos
Com teu modo caridoso
Mas voltarás ao Brasil
Por ordem do poderoso.

Se não fosse o suicídio
Isto não acontecia
Hoje o povo brasileiro
Sofre a maior agonia
E só tu podes livra-lo
Com melhor sabedoria.

Assim Getulio foi salvo
Do seu gesto delirante
O breve virá à terra
Como um chege triunfante
Para ajudar o poeta
Rodolfo C. Cavalcante.

RODOLFO COELHO CAVALCANTE – o jornalista, poeta e trovador alagoano Rodolfo Coelho Cavalcante (1917-1986) foi palhaço e camelô fazendo propagandas nas portas das lojas, membro de várias associações literárias e fundou alguns periódicos como “A voz do trovador”, “O trovador” e “Brasil poético”. Criou as agremiações, contam-se a Associação Nacional de Trovadores e Violeiros (ANTV) e o Grêmio Brasileiro de Trovadores (GBT). Também participou e organizou congressos de poetas populares. Fixou-se em Salvador, Bahia, onde publicou e vendeu os seus folhetos. Viveu de biscates e trambiques quando foi capturado por Lampião, sendo liberado pela sua insignificância. É autor, entre outros, dos seguintes: “O barulho de Lampião no inferno”; “A chegada de Lampião no céu”; “A chegada de Lucas da Feira no inferno”; “O encontro de Guabiraba com Lampião”; “O encontro de Rodolfo Cavalcante com Lampião Virgulino”; “Lampião e seus cangaceiros”. Sua produção literária alcança número superior a 270 folhetos. Ele foi objeto de tese universitária na Universidade de Sorbonne, escrita por Martine Kunz, denominada Rodolfo Cavalcante poète populaire du Nord-Est Brésilien.

FONTES:
BATISTA, Sebastião Nunes. Antologia da literatura de cordel. Natal: Fundação José Augusto, 1977.
CAVALCANTE, Rodolfo Coelho. Cordel. São Paulo: Hedra, 2003.
CARDOSO, Tania Maria de Sousa; Elementos para uma biografia de José Pacheco e Rodolfo Coelho. Natal: UERN, s/d.
CURRAN, Mark. J. A presença de Rodolfo Coelho Cavalcante – cordel. Porto Alegre: Nova Fronteira, 1987.

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