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quarta-feira, agosto 05, 2015

LURIA, OVÍDIO, FELLINI, CANDIDO DE CARVALHO, AIRTO & FLORA, TUNGA, WAIN & A SUBMERSÃO DOS SENTIDOS!

VAMOS APRUMAR A CONVERSA? A SUBMERSÃO DOS SENTIDOS – Meus filhos não sabem da guerra! E nos seus olhos perdidos arreviro de noite. E vou me esvaindo sozinho, olhos secos nas noites em adagas, enquanto sigo com as chagas abertas no sol. Meus filhos não sabem da guerra! E sigo sozinho desenterrando segredos. Aqueles segredos que não pude conter por muito mais tempo no meu vário silêncio. Segredos sem fechaduras, sem dentes, alicates, segredos de dor e da alma de ontem. Registros de cartas aviltadas de sombrias desventuras, de resignação. Meus filhos não sabem da guerra! Soubessem, não me amavam sorrir. E seus olhos são velas acesas e eu no escuro com medo, em carne viva e beirando abismos menores que um triz. E eu afogado numa gota do escuro sem saber fugir, metido no medo da infância e da ruindade adulta. Meus filhos não sabem da guerra! Soubessem, não me amavam sorrir. Não sabem que sozinho amanheço de noite. Meu mundo é miúdo menor que um aceno, resignado à comunhão do rio da minha vida, completamente vadio no fastio do mormaço, porque ainda sonho sozinho na minha arredia solidão e sorrio verdades na minha ingênua fadiga. Meus filhos não sabem da guerra! Soubessem, não me amavam sorrir. Não sabem que sozinho amanheço de noite. Não sabem, meus filhos. Um que se foi, a outra que irá já tão tarde com a minha carne acesa no prisma da vida. (A submersão dos sentidos – Primeira Reunião. Bagaço: 1992). Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui e aqui.

 Imagem: A arte do escultor, desenhista e ator de performance artística Tunga - Antônio José de Barros de Carvalho e Mello Mourão. Veja mais aqui.


Curtindo o álbum The Colours of Life (In & Out Records, 1988), dos músicos Airto Moreira & Flora Purim.

BRINCARTE DO NITOLINO – Hoje é dia de reprise do programa Brincarte do Nitolino, no horário das 10hs e das 15hs, no blog do projeto MCLAM, com a luxuosa apresentação de Ísis Corrêa Naves. No blog muitas dicas de Psicologia Infantil e Escolar, bem como outras divulgações das áreas de Literatura, Teatro, Música, Educação e Direito das Crianças e dos Adolescentes. Para conferir o programa online é só clicar aqui ou aqui.

DESENVOLVIMENTO COGNITIVO – O livro Desenvolvimento cognitivo: seus fundamentos culturais e sociais (Ícone, 1990), do neuropsicólogo e um dos fundadores da psicologia cultural-histórica, Alenxander Luria (1902-1977), trata de temas como a percepção, generalização e abstração, dedução e inferência, raciocínio e solução de problemas, imaginação, auto-análise e autoconsciência, entre outros assuntos. Da obra destaco o trecho: Parece surpreendente que a ciência da psicologia tenha evitado a ideia de que muitos processos mentais sejam sócio-históricos em sua origem, ou de que manifestações importantes da consciência humana tenham sido diretamente formadas pelas práticas básicas da atividade humana e pelas formas da cultura existentes [...] Em um certo estágio de desenvolvimento social, a análise das próprias peculiaridades individuais frequentemente ceda lugar à análise do comportamento do grupo, e o eu individual era frequentemente substituído pelo nós coletivo, tomando a forma de uma avaliação do comportamento ou da eficiência do grupo ao qual o sujeito pertencia, (brigada, equipe, ou fazenda coletiva como um todo). Frequentemente as próprias qualidades (ou aquelas do grupo) eram avaliadas pela comparação do comportamento individual (ou grupal) com normas ou demandas sociais impostas ao individuo ou ao seu grupo. Apenas em estágios superiores – principalmente em pessoas jovens progressivamente envolvidas, de modo ativo, na vida social e com pelo menos alguma educação formal – poderíamos discernir um processo de escolha e avaliação das qualidades pessoais. Aqui, também, a análise permaneceu ligada, de muitas, à avaliação do sujeito sobre como tais qualidades individuais se relacionavam com as demandas da vida social. [...] [E particularmente importante o fato de que esse processo não se esgota numa mera mudança de conteúdo da consciência e uma abertura de novas esferas da vida para análise consciente (esferas da experiência social e das relações consigo mesmo, enquanto participante da vida social). Nós estamos lidando com mudanças muito mais fundamentais – a formação de novos sistemas psicológicos, capazes de refletir não apenas a realidade externa, mas também o mundo das relações sociais e, basicamente, o mundo interior da própria pessoa enquanto moldado em relação a outras pessoas. A formação de um novo mundo interior pode ser considerada uma das conquistas fundamentais do período tratado. [...]. Veja mais aqui, aqui, aqui e aqui.

OLHA PARA O CÉU, FREDERICO! – O romance Olha para o céu, Frederico! -  Romance acontecido em Campos dos Goitacazes nos dias do gramofone (José Olympio, 1974), do escritor, advogado e jornalista José Cândido de Carvalho (1914-1989), retrata com humor os negócios e a decadência moral das famílias do setor sucroalcooleiro de Campos dos Goitacazes, do qual destaco os trechos a seguir: Estávamos chegando. O guia avisou que tínhamos entrado nas terras do São Martinho. Era o fim. E a tarde caindo feito uma agonia por cima do mundo. Tarde vazia, sem cigarras pelos troncos. Uma vida bonita de dez anos ia ficar para trás, enterrada em Quiçamã do Limão. Com mais uma andada estaríamos vendo a chaminé do São Martinho. Sentia que era o princípio do meu desterro. Podia botar velar na mão. Pensei em meu tio José Nabuco de Sá Meneses. Onde andaria a prima Nilze de bondade de anho? Agora me levavam para o cemitério do São Martinho. Ficaria por lá enterrado vivo. Tiraria meu tempo feito um condenado carregadinho de crimes. Por onde andaria minha prima Nilza? [...] Quem visse Frederico assim de fala mole, com miséria nas conversas, era capaz de acreditar num São Martinho encalhado, de rodas mortas, com ninho de rato nas fornalhas. Conheci e vi morrer meu tio com esses lamentos que só acabaram quando sua boca se fechou vazia de palavras [...] Era alto como vela de promessa. Tanta gentileza acabou por trazer Dona Lúcia para a cama de Frederico. Os parentes é que não viam nada. Só olhavam a velhice de meu tio, a plantação que podia nascer em sua testa. Agora, com um simples negócio de altar, os mourões do São Martinho ficavam sendo as pitangueiras da praia. [...] O raposão do meu tio não mostrava as unhas. Na varanda, de tarde, esparramado na cadeira de preguiça, lia os jornais. Vinha gente tirar prosa com ele. Conversinhas de calor, da miséria de fim de vida que andava solta pelo mundo. [...] Os barões, dependurados em pregos de parede, por trás das barbas, espiavam meus desmandos. [...]. Veja mais aqui e aqui.

AS METAMORFOSES – A obra poética As metamorfoses, a magnun opus do poeta matino Público Ovídio Naso (43aC-18aC), é um poema narrativo inconcluso mostrando a constante mutação do mundo e alguns aspectos da soberania e sua família. Da obra destaco o fragmento do Livro I, traduzido por Raimundo Nonato Barbosa de Carvalho (USP, 2010): Faz-me o estro dizer formas em novos corpos mudadas. Deuses, já que as mudastes também, inspirai-me a empresa e, da origem do mundo ao meu tempo, guiai este canto perpétuo. Antes do mar, da terra e céu que tudo cobre, a natureza tinha, em todo o orbe, um só rosto a que chamaram Caos, massa rude e indigesta; nada havia, a não ser o peso inerte e díspares sementes mal dispostas de coisas sem nexo. Inda nenhum Titã iluminava o mundo, nem Febe, no crescente, os chifres renovava, nem a terra pendia no ar circunfuso, suspensa no seu peso, nem, por longas margens, os seus braços havia espraiado Anfitrite.E como ali houvesse terra e mar e ar, instável era a terra, a onda inavegável e o ar sem luz; a nada aderia uma forma, e cada coisa obstava outras, pois num só corpo o frio combatia o quente, o seco o úmido, o mole o duro, e o peso o que não tinha peso. Deus ou douta natura esta luta sanou, pois do céu separou a terra, e desta as ondas, e do ar espesso um céu límpido discerniu. E depois que os tirou do disforme conjunto, cada qual num lugar ligou, em paz concorde. Do céu convexo, força ígnea e sem peso surgiu e se alocou no mais alto da abóbada; o ar, dela, se aproxima em leveza e lugar; mais densa, a terra atrai os elementos grandes e é premida por seu peso; a água circunfluída ocupou o restante e cercou o orbe sólido. Assim aquele deus, fosse qual fosse, a massa, primeiro, dividiu em lotes e ordenou, para que igual ficasse em toda a parte, dando à terra a aparência de um imenso orbe. Então o mar romper-se com os ventos rápidos mandou e circundar os litorais da terra. Reuniu pântanos, fontes e grandes lagoas, por entre sinuosas margens cingiu rios, que em parte se absorvem em vários locais, em parte vão ao mar, e acolhidos no campo de águas livres, em vez de margens, tocam praias. Mandou dilatar campos, vales abaixar, selvas cobrir de folha, erguer montes rochosos. E, como há no céu duas zonas à direita e outro tanto à esquerda e uma quinta mais tórrida, assim um deus zeloso o globo dividiu por igual, e outras tantas plagas tem a terra. Por causa do calor, não se habita a mediana, cobre duas a neve; entre ambas pôs as outras, que, misturando fogo ao frio, temperou. Cobre-as o ar, que tanto é mais leve que a terra e a água, quanto mais pesado do que o fogo. Lá as névoas, e lá as nuvens, pendurar mandou, também trovões que aterram mente humana e os ventos que, com raios, rabiscam relâmpagos. O criador do mundo, entanto, não lhes deu a posse do ar ao léu; a custo, agora, impede-os embora cada qual assopre em sua rota de o mundo varrer, pois grande é a rixa entre irmãos. Euro se foi à Aurora, aos reinos nabateus, à Pérsia e às montanhas sob luz matutina; Vésper e as praias, mornas pelo sol poente, de Zéfiro estão perto; a Cítia e o Setentrião Bóreas frio invadiu; a região contrária se umedece de chuva e assíduas nuvens de Austro. Em cima pôs o éter límpido e sem peso, que nenhuma impureza terrena contém. [...] Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui, aqui e aqui.

DIDATICA DO TEATRO – O livro Didáctica do teatro – introdução (Almeida, 1979), do historiador português José Oliveira Barata, trata do quadro institucional e programas oficiais do jogo dramático português, as origens e o jogo como meio de conhecimento, jogo dramático e teatro, a leitura de um texto teatral, o teatro como linguagem, emissor e escritor/autor, emissor e o encenador, emissor e os acessórios não acessórios, o destinário e o público, a cidade e o Estado, texto e pretexto, os clássicos como modelo, os clássicos na escola, da teoria à prática, escrever e reescrever um texto, texto não dramático, representação de um texto não dramático, entre outos assuntos. Da obra destaco o trecho inicial: A utilização dos recursos e potencialidades do jogo dramático, postos ao serviço das modernas técnicas pedagógicas nos estabelecimentos pré-universitários desde há muito – mesmo muito antes de entre nós se começar a ouvir falar dessas perspectivas -, tem preocupado professores, pedagogos, sociólogos e, mesmo fora do âmbito estritamente escolar, homens de teatro, animadores culturais que vêem na escola um vastíssimo campo, particularmente receptivo, à iniciação teatral. [...] Vê-se que ele tem (ou pode ter) implicações diretas em todas as disciplinas – como forma especial de sensibilizar e captar a inteligência criadora e critica do jovem. Todavia, é particularmente relevante no domínio do Português e da Literatura Portuguesa. Será conveniente examinar o que é proposto nos programas, mas verificarmos se as boas intenções podem ser viabilizadas na prática. Não se esquecem as demais disciplinas e, sobretudo, a de Teatro, previsto como cadeira Vocacional no 9º ano de escolaridade obrigatória do Curso Secundário Unificado [...]. Veja mais aqui e aqui.


TOBY DAMMIT – No filme Histórias extraordinárias (1968) que reúne três cineastas para os contos do escritor, editor e crítico literário estadunidense Edgar Allan Poe (1809-1849), a parte dirigida pelo cineasta italiano Federico Felilini (1829-1993), é denominada Toby Dammit inspirado livremente no terceiro conto de Poe, contando a história do ator shakespeariano que afunda na carreira devido ao alcoolismo e para voltar ao sucesso faz um pacto com o diabo, perdendo a vida e a cabeça, num acidente com a Ferrari que ganhou como pagamento por seu último filme. Com este registro, fecha-se a divulgação da série Histórias Extraordinárias, filme que reúne além de Fellini, os cineastas Louis Malle e Roger Vadim, destacados em posts anteriores para registrar a criação cinematográfica baseada em contos de Poe. Este filme representa a reunião dos três maiores cineastas que, em conjunto, abordam a temática de forma criativa, inovadora e substancialmente representativa para o desenvolvimento da arte contemporânea. Veja mais aqui.

IMAGEM DO DIA
 
Imagem: a arte do desenhista britânico Louis Wain (1860-1939),

Veja mais no MCLAM: Hoje é dia do programa Quarta Romântica, a partir das 21hs, no blog do Projeto MCLAM, com a apresentação sempre especial e apaixonante de Meimei Corrêa. Para conferir online acesse aqui.

VAMOS APRUMAR A CONVERSA?
CRÔNICA DE AMOR POR ELA
Veja mais aqui.

segunda-feira, julho 06, 2015

DALAI LAMA, TOQUINHO, GILVAN LEMOS, VALÉRIA TARELHO, COCTEAU, WEDEKIND, CHAGALL, DEGAS & PRIMEIRA REUNIÃO!



VAMOS APRUMAR A CONVERSA? PRIMEIRA REUNIÃO – Quando publiquei o livro Primeira Reunião (Bagaço, 1992), reuni o que pude chamar de melhores poemas dos meus livros publicados anteriormente, como o Para viver o personagem do homem (Nordestal, 1982), A intromissão do verbo (Pirata, 1983), Raízes e Frutos (Bagaço, 1985), Canção de Terra (Bagaço, 1986) e Paixão Legendária (Bagaço, 1991). Na verdade, o volume foi dividido em duas partes: a primeira parte contemplando os melhores poemas dos livros já publicados; e a segunda parte, uma seleção com letras de canções por mim compostas e poemas inéditos até então cometidos. Com a edição completamente esgotada, tentei nos últimos anos, mas não consegui reeditá-la até agora, fato que me levou a tomar, posteriormente, a iniciativa de reunir alguns dos poemas do opúsculo em posts dos meus blogs, possibilitando, assim, que se possa ter acesso ao seu conteúdo. Para quem quiser conferir é só clicar aqui ou aqui.

 Imagem: Nude with Flowers, do pintor e ceramista francês Marc Chagall (1887-1985). Veja mais aqui e aqui.

Curtindo o dvd ao vivo Só tenho tempo para ser feliz (Biscoito Fino, 2005), do compositor e músico Toquinho. Veja mais aqui.

UMA ÉTICA PARA O NOVO MILÊNIO – O livro Uma ética para o novo milênio (Sextante, 2000), do atual Dalai Lama (Tenzin Gyatso) e líder religioso do Budismo, aborda temas como o fundamento da ética, sociedade moderna e a busca da felicidade, sem mágica e sem mistério, origem dependente e a natureza da realidade, redefinindo o objetivo, a suprema emoção, a ética e o individuo, a ética da contenção e da virtude, a ética da compaixão e o sofrimento, a necessidade de discernimento, ética e sociedade, responsabilidade universal, níveis de compromisso, paz e desarmamento, o papel da religião na sociedade moderna, entre outros assuntos. Da obra destaco o trecho: [...] A meu ver, criamos uma sociedade em que as pessoas acham cada vez mais difícil demonstrar um mínimo de afeto aos outros. Em vez da noção de comunidade e da sensação de fazer parte de um grupo, uma característica que achamos tão reconfortante nas sociedades menos afluentes (geralmente nas sociedades rurais), encontramos um alto grau de solidão e perda de laços afetivos. Apesar de milhares de pessoas viverem em grande proximidade, parece que muita gente, principalmente os velhos, não tem com quem falar a não ser com seus bichos de estimação. A sociedade industrial moderna às vezes me dá a impressão de ser uma imensa máquina autopropulsionada. Ao invés de os seres humanos acionarem a máquina, cada indivíduo torna-se um pequeno componente insignificante sem outra opção a não ser mover-se quando a máquina se move. O que gera essa situação é a retórica contemporânea de crescimento e desenvolvimento econômico, que reforça intensamente a tendência das pessoas para a competitividade e a inveja. E com isso vem a percepção da necessidade de manter as aparências - por si só uma importante fonte de problemas, tensões e infelicidade. Ainda assim, existe a probabilidade de que esse tipo de sofrimento psicológico e emocional tão comum no Ocidente reflita antes uma tendência humana latente do que uma deficiência cultural. Tenho verificado que formas semelhantes de sofrimento interior também são visíveis fora do Ocidente. Em algumas partes do sudoeste da Ásia pode-se observar que, com o aumento progressivo da prosperidade, as crenças tradicionais começaram a perder seu poder de influência sobre as pessoas. E, em consequência, o que se constata ali é uma inquietação generalizada muito semelhante à que se estabeleceu no Ocidente. O que indica que o potencial existe em todos nós e, da mesma forma que uma doença física reflete o ambiente em que vive a pessoa, o sofrimento psicológico e emocional surge dentro de um contexto de determinadas circunstâncias. Assim, nos países subdesenvolvidos do Hemisfério Sul, ou "Terceiro Mundo", encontramos enfermidades bastante restritas àquela parte do mundo, como as que decorrem de condições sanitárias insuficientes. Em contraposição, nas sociedades industriais urbanas vemos doenças manifestarem-se sob formas que são coerentes com aqueles ambientes. Em vez de doenças relacionadas à água, encontramos doenças relacionadas ao estresse. Tudo isso sugere que há fortes razões para supor que existe uma ligação entre a ênfase desproporcionada que é dada ao progresso exterior e a infelicidade, a ansiedade e o descontentamento da sociedade moderna. É uma avaliação que pode parecer muito sombria. Contudo, sem reconhecer a extensão e a natureza de nossos problemas, não será possível nem ao menos começar a tratar deles. Indiscutivelmente, uma das principais razões da verdadeira devoção que a sociedade moderna dedica ao progresso material é o próprio sucesso da ciência e da tecnologia. E mais do que isso, a maravilha desses tipos de atividade humana é o fato de trazerem satisfação imediata. São nesse sentido diferentes da oração, cujos resultados são, na maior parte, invisíveis - se é que na realidade as orações funcionam mesmo. E os resultados do progresso material são inevitavelmente impressionantes. Por isso, é normal que, lamentavelmente, essa devoção nos faça imaginar que as chaves da felicidade são, por um lado, o bem-estar material e, por outro, o poder conferido pelo conhecimento. Fica óbvio para quem reflete seriamente sobre o assunto que o primeiro por si só não nos traz felicidade, mas talvez seja menos evidente que o segundo também não traz. O conhecimento por si só não proporciona a felicidade resultante do desenvolvimento interior, que independe de fatores externos. Embora o conhecimento muito detalhado e específico dos fenômenos externos seja uma notável realização, a insistência em torná-lo objetivo principal de nossos esforços, longe de nos trazer felicidade, pode na verdade ser perigosa. Pode fazer-nos perder o contato com a realidade mais ampla da experiência humana e, de modo especial, com a nossa dependência dos outros. [...] Veja mais aqui.

MORTE AO INVASOR – O livro Morte ao invasor (Francisco Alves, 1984), do premiadíssimo escritor e membro da Academia Pernambucana de Letras, Gilvan Lemos, que é autor de vinte cinco livros entre romances, contos e novelas, reúne onze contos, entre eles o homônimo do qual destaco o trecho: [...] Té que certa madrugada despertou com o açoite aguardado, seguido dum berro lancinante, que lhe pareceu desmedidamente exagerado. Não teria sido outro sonho? Estranhou não tivesse a mulher acordado também. Apurou os ouvidos. De fato, havia alguém gemendo no quintal. Meteu os pés da cama, nem teve tempo de calçar os chinelos. Acendeu a luz de fora, abriu a porta da cozinha. Ali estava o tal sujeito, o entroncado, dobrado no chão, a segurar a perna, soprando gemidos, careteando de dor. A calça fora também estraçalhada, pelos rasgões via-se o sangue que não cessava de correr da parte descarnada, com o osso partido à mostra. Graciliano saiu, encarou-o. o desgraçado ergueu o rosto contraído, Graciliano não sabia dizer se de medo, sofrimento ou ódio: - Me tire daqui – pediu. Graciliano não se comoveu: - Oi, cadê sua arrogância? O outro mal podia falar: - Isso é coisa que se faça? Me tire daqui. – E o que você fez também foi decente? Me deixar todos esses dias... – Conversa mole, vai logo, me tira daqui. – Pra você vir roubar minha casa? – Corno! Eu devia ter matado você. Não matei porque não quis. Covarde! Só porque estou assim. – Ah, inda está valente? Vamos, se mexa, me mate. A luz abafada do sol cambiava na folhagem da mangueira, a elétrica se avermelhava, como que enfraquecendo. Os pardais puseram-se a acordar ruidosamente. – Mato mesmo. Quando eu sair daqui você vai ver. Graciliano estava quase cedendo: - Se você me pedir perdão, se humilhar, devolver o que me roubou, tudo, coisa por coisa... – Sacana! Filho duma égua. E, com muito esforço, levantou-se numa perna só. Agora, sim, era ódio, ódio o que havia em seu rosto de feições mal tralhadas. Coçava-se a mão no bolso traseiro. Teria um revolver? Graciliano viu-se com a trave de ferro na mão. Ficara com ela depois de abrir a porta da cozinha. Esquecera-a. lembrava-o, de sua presença, a frieza imparcial do ferro trabalhado. No quarto em penumbra Alice despertou com a discussão. Notou a ausência do marido: Graci, chamou, apreensiva. Enquanto se dirigia para fora, passou a ouvir aquele som de mau presságio, cavo, fofo, esbaforido. – Graci, pelo amor de Deus – clamou, ao ver o marido atingindo o ladrão com a trave de ferro. Gritava aflita por socorro. O dia vinha clareando. Os pardais já o possuíam na plenitude de sua irresponsabilidade. Quando os vizinhos acorreram, era tarde. O ladrão jazia, cabeça quebrada, rosto banhando em sangue, preso à perna pela corrente de ferro da armadilha. Veja mais aqui.

LEGADO & OUTROS POEMAS – A poeta Valéria Tarelho foi incluída na Antologia Brasileira de Poetas Contemporâneos (Tribo, 2004/2009) e no Panorama Literário Brasileiro 2004/2005 (CBLE, 2004). Edita os blogs Textura e Seleção de Poemas, entre os quais destaco Legado: possível até prever: / a paixão [perfume] / passará / como outras perdas / [performance de pétala] / fará parte de uma seca / paisagem / na certa [carlos] / um poema pedirá / passagem / venha com seda / ou pedra polêmica / na bagagem. Também A olho nu: meu olho, quando mergulha em teu olho, não vê: contempla. / é um ver mais nítido, que se admira ante achados e pedidos no fundo cristalino. / é um [m]olhar de êxtase, imerso nas transparências que a menina do teu olho vai despindo. O também belíssimo Poema para os poros do acaso: eis / a segunda pele / que me envolve / em fim de sol / : tua tez / película lúcida / que molda-se / à tônica / dessa minha / natureza / louca. Por fim, o seu Gata: quase toda / sexta-feira / a poesia se enfeita / usa meias / [palavras] / de seda / e salta da gaveta / travestida / de poema. Veja mais aqui, aqui e aqui.

O DESPERTAR DA PRIMAVERA – A peça teatral em três atos O despertar da primavera: a tragédia infantil (1890-1891), do escritor e dramaturgo do Expressionismo alemão Frank Wedekind (1864-1918), critica a sociedade alemã de finais do sec. XIX pela opressão à sexualidade, dramatizando fantasias eróticas entre os sonhos e devaneios, com uma profusão de personagens, ambientações e situações pelo sexual que irrompe na adolescência. Da obra destaco o trecho: MELCHIOR - Frio, muito frio. Queria abrir um buraco e me enterrar, mas não dá. Eu passei por tantas mortes e quase não chorei. Mas, às vezes, dependendo de como o sol se põe por trás da ponte ou de como as nuvens se debatem formando espirais de chumbo no céu, aí eu choro... Um choro que me sacode, que vem em soluços. Eu me entrego sem resistência, em espasmos de tristeza. Eu choro pelo fim da inocência, pela escuridão do coração humano e pela falta que me fazem o meu amigo (sempre os sonhos entre nós) e o meu amor - agora eu sei que era amor. Desculpe, eu esqueci de dizer o meu nome: é Melchior. ILSE - A alma humana é um abismo, que merda!... A Morte já esbarrou em mim tantas e tantas vezes. Eu perdi a conta de quantas vezes o Heinrich pôs o revólver dentro da minha boca e ameaçou: "É hoje, Ilse!". Mas eu entendo o Melchior Gabor. É que comigo, bom, comigo é diferente... Parece que ela não vai me pegar nunca, ou, pelo contrário, um dia, quem pega a Morte de surpresa sou eu!... HANSCHEN - Eu não sou muito de sentimentalismo. Por isso eu vou ser bem prático e claro. Meu nome é Hanschen. Hanschen Rilow. É verdade que um monte de coisas aconteceu desde a última primavera. Mas não interessa ficar aqui contando, agora. O que interessa é que aquele encantamento foi se apagando, aos poucos. Não foi, Ernst? E agora fica um vazio e uma saudade... Às vezes, eu acho que eu podia, com um gesto, talvez tivesse impedido que aquele anjo caísse. Mas eu estava ocupado demais, dormindo o sono dos amantes. THEA - Eu me chamo Thea e a Wendla Bergmann ainda é a minha melhor amiga. A mãe dela estava com os olhos tão inchados, parecia ter envelhecido dez anos em um. A Wendla gostava de me levar na casa da irmã - a gente passava tardes e tardes brincando com o bebê... O Karl é gordinho... Sempre achei que só os velhos morriam. Mas agora! Será que eu e a Martha pegamos a mesma doença dela e não sabemos? MARTHA - Todas as sextas-feiras eu planejo encontrar a Ilse, pra levarmos mais flores pro Moritz. Eu gostava dele. Ninguém mais comenta o que aconteceu. Já cheguei a fugir da escola e esperar durante horas e nada de ela aparecer. Mas eu sempre vou. Eu me deito no chão e falo baixinho pra ele: "Eu e a Ilse te oferecemos estas flores. Um beijo da sua amiga, Martha!". Wendla, a chuva não tem mais graça sem você. Volta logo... ERNST - Sabe, o Hanschen me disse uma vez que os adultos usam a autoridade deles pra justificar a sua estupidez. Que no fundo eles fazem tudo como a gente faz, as mesmas burrices. As mesmas idiotices. Essa é uma história cheia de burrice e de estupidez. Vocês vão ver tudo. E eu aposto como vocês vão me dar razão depois. Quando eu me lembro do que aconteceu fico até arrepiado. Agora tudo parece fazer sentido, o Moritz Stiefel foi um revolucionário. (Moritz Stiefel lê um livro) MORITZ - "A Lua cobre o rosto. E depois tira de novo o véu. Mas nem por isso parece ter alguma coisa a dizer. Vou voltar para o meu lugar. Endireitar a cruz que o louco idiota derrubou brutalmente. E quando estiver tudo arrumado, eu me deito outra vez de costas, me aqueço ao calor da minha putrefação. E sorrio". (arranca a página do livro e guarda no bolso do paletó) (Sala de estar dos Bergman) [...] Veja mais aqui.

LE TESTAMENT DE D'ORFEU – O filme Le Testament de D'Orfeu (O testamento de Orfeu, 1960), é um dos sete filmes realizados pelo escritor, dramaturgo, ator, encenador e cineasta do Surrealismo francês Jean Cocteau (1889-1963), conta a história da morte e ressurreição do poeta, atingido por uma bala ele viaja para momentos de vida e morte, presente e futuro, monstros e imaginação, medos e fantasias, sendo a vontade da biografia, conjugando com maestria os novos e velhos códigos verbais da linguagem de encenação e das tecnologias modernistas para criar um paradoxo com abordagem versátil e nada convencional. O destaque do filme vai para a atriz espanhola do teatro, cinema e televisão María Casares. Veja mais aqui.

IMAGEM DO DIA
 Imagens do espetáculo de dança O despertar da primavera (2009), baseado na obra de Frank Wedekind (1864-1918), dirigido por Charles Möeller e Claudio Botelho com música de Ducan Sheik e coreografia de Alonso Barros.

 
Veja mais sobre:
Cruzetas, os mandacarus de fogo, Concepção dialética da história de Antonio Gramsci, Sob o céu dos trópicos de Olavo Dantas, O escritor e seus fantasmas de Ernesto Sábato, a pintura de Eliseo Visconti, a fotografia de Rita-Barreto, a arte de Benício & a música de Rosana Sabença aqui.

E mais:
No colo do pai de Hanif Kureishi, Viagem nas primeiras horas de Wole Soyinka, A crise na América Latina de Emir Sader, Técnica teatral de Erwin Piscator, a arte de Václav Hollar, a pintura de Carl Kricheldor & Isaac Lazarus Israels, a música de João Bosco, o cinema de Stelvio Massi & Joan Collins aqui.
Curto e grosso: O balanço da copa, O anti-édipo de Deleuze & Guattari, poemas de Arthur Rimbaud, Infância, imagem & literatura aqui.
Dois poemetos de amor pra ela: Beiju & Gula voraz aqui.
Frínico & o povo chora, Direito Ambiental, Educação Sexual, Psicopatologia, Psicose, perversão & neurose aqui.
Nem te conto & Big Shit Bôbras, O lobo da estepe de Hermann Hesse, Repenso o mundo de Wislawa Szymborska, Elegias & sátiras de Xenófanes de Colofão, a música de Gluck & Sylvia McNair, o cinema de Phil Karlson & Marilyn Monroe, a pintura de Richard Geiger & Philippe de Rougemont, a arte de Osvaldo Jalil & Bia Sion aqui.
E se nada acontecesse, nada valeria, Agá de Hermilo Borba Filho, Fábulas de Leonardo da Vinci, a música de Tomoko Mukaiyama, As glândulas endócrinas de M. W. Kapp, Compassos Cia de Danças, a arte de Eric Gill & Perron, A pintura de Bruno Di Maio & Madalena Tavares aqui.
É domingo nas mãos, Cinema de Ascenso Ferreira, A obra de arte & a reprodução de Walter Benjamim, Cinema Brasileiro, O que será de Chico Buarque, a pintura de Giuseppe Cacciapuoti & Umberto Brunelleschi aqui.
Aprendendo no compasso da vida, A psicologia social de Arthur Ramos, Sharon & minha sogra de Suad Amiry, a música de Nação Zumbi, o pensamento de Roger Bacon, Hans Richter & Transhumance, a arte de Georges Ribemont-Dessaignes & Jiddu Saldanha aqui.
O dia amanhece e é maravilhoso viver, A literatura brasileira de Afrânio Coutinho, O teatro de Françoise Sagan & Catherine Deneuve, o pensamento de Aristóteles, a música de Maggie Cole & a Sinfonia Pornográfica de Charles Baptiste, a pintura de Orly Faya, a arte de Hannah Höch & Arte Yoga aqui.
A filharada de Zé Corninho, Travessia marítima de Thomas Mann, O casamento de Anne Morrow Lindbergh, a música de Charlotte Moorman, O homem & a natureza de Alan Watts, o cinema de Rainer Werner Fassbinder & Hanna Schygulla, Emmanuelle Seigner, a arte de Hansen Bahia & Attila Richard Lukacs aqui.
Faça seu TCC sem Traumas: livro, curso & consultas aqui.
Brincar para aprender aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.
Fecamepa – quando o Brasil dá uma demonstração de que deve mesmo ser levado a sério aqui.
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História da mulher: da antiguidade ao século XXI aqui.
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CRÔNICA DE AMOR POR ELA
 Imagem: Nude from the Rear, Reading, do pintor, gravurista, escultor e fotografo francês Edgar Degas (1834-1917)
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CANTARAU: VAMOS APRUMAR A CONVERSA
Paz na Terra:
Recital Musical Tataritaritatá - Fanpage.
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NÉLIDA PIÑON, OCTAVIO PAZ, AMIA SRINIVASAN, CONCEIÇÃO LIMA & NANÁ VASCONCELOS

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