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domingo, fevereiro 15, 2026

LEÏLA SLIMANI, JANICE REBIBO, NARGES MOHAMMADI & AGUINALDO SILVA

 

Imagem: Acervo ArtLAM.

Ao som do Piano Concerto In E Flat Major & Violin Concerto in G Minor, da compositora, pianista e violinista britânica Alma Deutscher (Alma Elizabeth Deutscher), com a Orchestra of St. Luke's, sob a regência da maestrina Jane Glover, no Carnegie Hall (2019).

 


 Amorarte de Sabicaná... – O cantador violeiro, Ze Canário, vivia de xotes e toadas, na companhia de sua inseparável cadela, Caralâmpia, sua exclusiva ouvinte e vocal de apoio – enquanto ele se esgoelava blem blem, ela uivava uhuuu -, formando um duodeceto diuturno com a Lua – sua inquestionável Selenita - e o coral dum punhado de estrelas refulgentes. Assim, como um príncipe de poa, ensaiava com fibra a sua cantata narrando hestórias de alertas aos gases tóxicos e baixos níveis de oxigênio, dos quais alguns não resistiam finando emborcados. Porém, naquela noite, a despedida: Vou ganhar o mundo! Terras por conhecer, paisagens por explorar. Saudava a todos com o forró da dupla Carvalho & Zapata: Não precisa de dinheiro \ Pra me ouvir cantar \Eu sou canário do reino \ E canto em qualquer lugar... Presentes ali os sobreviventes de sempre: o Mineiro, DuReino, o Belga, Guirá-nheengatu, Turuna, Mutuca, incluindo o Azul Rejeitado da Fábula de Ledo Ivo e o seu primo que veio do estrangeiro, Harzer Roller, trazendo notícias do parente Cinzento: escondia-se da gata que ameaçava devorá-lo, mas não teve sorte, infelizmente foi capturado e preso numa gaiola, sofrendo muito de adoecer e morreu. Valha-me! Lamentaram a alma perdida e, logo em seguida, foram embalados com sua cantoria às batidas, trinados e rolos alternados. Muitas palmas e folia folgada. Ao final da seresta confessou ser aquele da antiga lenda celta do The Torn Birds da Colleen McCullough: cantaria pela última vez, a única na vida. E taciturno: Vou procurar um espinheiro alvar onde houver, para me empalar no acúlio mais comprido e agudo, no qual vou lançar meu lamento superlativo entre os galhos selvagens e um espinho cravado no peito sublimando a agonia para descansar em paz. Assim, pagarei meu preço, o mundo inteiro me ouvirá a pulso e Deus sorrirá no céu, quitando minha existência. Efusiva salva de palmas aos abraços solidários e tão abatumados com o frio da madrugada. Antes do nascer do Sol, ele partiu saudando o dia como um passarinho do açúcar. O último aceno no terminal rodoviário e, decidido a seguir em frente, ele a viu: olhos dela nele e vice-versa, fixados. Cruzaram mútuos, fisgados às passadas, viraram-se convergentes, ambos voltaram, um ao outro, defrontaram-se espantados, um sorriso recíproco. A iniciativa dela: Conheço você de algum lugar... E ele: Você também me é familiar. De onde? Nenhuma exatidão, especulavam e nisso ficaram: Será que... Não era. Por acaso... Nem, também. Checavam, nenhuma constatação plausível, nada batia. Nela o útero se revolvia; nele, um frio na barriga subindo pela coluna vertebral assanhando ideias. Aí, um verso de cá, uma rima de lá, ele dali e ela dacolá às estrofes e quadras. Ela puxava o mote, ele glosava, perguntas e respostas, vírgulas e pontos. E nisso iam tentando conversar. Mas eis que chegara a hora dele ir e dela ficar. Ele: Tenho de ir; e ela: Preciso prosseguir. Ele antecipava a saudade: Sua presença me trouxe bons presságios, quero escutá-la mais vezes pra valer a primavera. Ela: Será que ainda nos veremos? Quem sabe! É, quem sabe... Lamentaram a sorte, cada qual seguiu seu caminho, a sua sina: ela reconstruindo o passado, ele errando mundo afora. E se foram. Ele cantarolando: Sabiá canta na mata, descansa no pau agreste, um amor longe do outro, não dorme sono que preste! E invocou Catulo da Paixão Cearense: Sabiá lá no alto, da ingazeira serena, chorava como se fosse, uma viola de pena... E dizia pra si que precisava aprender a comer pimenta que nem sabiá. Ele se foi com suas perspectivas pelos 4 cantos do mundo; ela revolvendo memórias, desenterrando raízes, outros rizomas. Cada qual muitas noites e dias solitários, pensamento um no outro, inarredável, arrastavam-se esticando lonjuras. Batia a saudade nele e era Tom&Chico: Eu hei de ouvir cantar uma sabiá... Mas quem era ela? Menina achegada às pimenteiras, agarrada aos enviuvados passos da mãe carpideira, adolesceu no coral da igreja, enturmou-se no canto orfeônico, cantora lírica no conservatório, Diva estrelando espetaculares palcos de plateias estrangeiras. Nossa! Prali retornara para rever vivências antigas esgarçadas no tempo, os que se foram e o que restaria de seus laços íntimos, revolvendo ossos nas catacumbas das lembranças de seus entes queridos, desenterrando monturos no afã dum piso firme para sustentar seu lastro combalido. Nos baques da vida, fora iludida por um enrolão abastado, escapando de um aborto. Assim, um ano se passou e, num piscar de olhos, uma ou quase duas décadas, já era 5 de outubro de novo, aniversário dela, surpreendida pela reunião presencial de parentes longínquas de sabe-se lá quanto mais tempo: a Ponga, a Cavalo, Coca, Barriga-vermelha, Guaçu, Laranjeira, Una, Piranga, Gongá, Sabiacica, Sabiapiri, Sabiapoca, Sabiaúna, a do Peito-Roxo e a Da-Praia, todas as Túrdidas, até a prima Tordo-zorzal que veio da Patagônia. Ali juntaram transbordantes lágrimas emotivas e restos mortais, revivendo tempos de plantio e colheita, num culto à fertilidade, em louvor da Deusa-Mãe. Ao amanhecer, o momento zorzal: invocaram as ancestrais deusas Zoryas, as servas de Dazbog. A Utrennyaya logo abriu os portões celestiais da alvorada, era a estrela da manhã protegendo o mundo do escatológico cão Simargl. E delataram confidências ao meio dia e revelaram escondidos segredos ao entardecer. Ao crepúsculo, Vechernyaya, a estrela da noite, fechou os portões com o sexteto de Julian Cochran, enclausurando-as em sua festa noturna. Logo soaram as doze badaladas noturnas e trouxeram Polunochnaya, a Estrela da Meia Noite de Neil Gaiman, anunciando o regresso do amado. Ele ali retornara com os versos da Canção do Exílio, de Gonçalves Dias: Minha terra tem palmeiras, onde canta a sabiá... Ela sorriu felizarda, estava coroado seu presente de aniversário. E se atraíram exultantes e foram embalados pelo júbilo de uma sonata triunfal, um ensaio à dança nupcial. Suas mãos pegaram-se, seus corpos ascenderam estreitados e, agarrados cúmplices, levitaram aos ventos, flutuaram às alturas de nuvens oníricas e se deitaram entre árvores de folhagens densas na Lua minguante, como se reunissem arbustos, gravetos, flores, capim e cachos de banana para o ninho. Assim amaram e renasceram desejando o mesmo de Philemon e Baucis, nas Metamorfoses de Ovídio: seriam assim um carvalho e uma pessegueira entrelaçados de pé no terreno pantanoso da convivência a dois, voluntariamente consentidos pelos devires. Até mais ver.

 

Rebecca Goldstein: O que é o amor? Quando você ama alguém, quero dizer, todos nós queremos que coisas boas aconteçam conosco e que as ruins fiquem longe. Quando você ama alguém, você quer isso tanto para essa pessoa, ou até mais, do que para si mesmo... Veja mais aqui, aqui, aqui & aqui.

Helen Fielding: Está comprovado por pesquisas que a felicidade não vem do amor, da riqueza ou do poder, mas sim da busca por objetivos alcançáveis...Veja mais aqui, aqui & aqui.

Toni Morrison: Em algum momento da vida, a beleza do mundo se torna suficiente. Você não precisa fotografá-la, pintá-la ou mesmo se lembrar dela. Ela basta... Veja mais aqui, aqui, aqui & aqui.

 

PREPARANDO-ME PARA O ROSH HASHANÁ

Imagem: Acervo ArtLAM.

O que estou perdendo\ Uma porta de banheiro, \ um vidro \ na porta do box, \ um varão de cortina de chuveiro, \ a janela entre minha cozinha e a área de serviço, \ uma lâmpada fluorescente, \ painéis solares , \ um terço \ do trilho da porta de correr da varanda da frente, \ um apêndice e duas amígdalas – uma velha história \ (exame do útero) \ (e dois seios), \ um carinho , \ as crianças, \ dinheiro, \ um cartão de crédito… \ o enfeite da grade, \ minha antena, \ minha tampa de gasolina.

Poema da escritora israelense Janice Rebibo (1950-2015). Veja mais aqui.

 

SEXO & MENTIRAS - [...] Tornar-se mulher é uma jornada repleta de humilhações. Diante da polícia, do sistema judiciário e da esfera pública, ser mulher é uma desvantagem. [...] Um fardo pesado, de fato, para metade da população carregar. Idealizada e mitificada, a virgindade é claramente uma ferramenta de coerção concebida para manter as mulheres em casa e submetê-las à vigilância constante. É um objeto de preocupação coletiva, e não uma questão privada. Também se tornou uma dádiva econômica para aqueles que realizam dezenas de reconstruções de hímen todos os dias e para certos laboratórios que comercializam hímenes artificiais, supostamente projetados para sangrar durante a relação sexual. A miséria sexual, como veremos, é uma forma de capitalismo como qualquer outra. [...] Não se trata apenas de os direitos sexuais fazerem parte dos direitos humanos: sabemos que foi explorando a falta deles que os homens chegaram a dominar tantas civilizações. [...] Uma mulher cujo corpo é submetido a tal controle social não pode desempenhar plenamente seu papel como cidadã. [...]. Trechos extraídos da obra Sexe et mensonges: La vie sexuelle au Maroc (Les Arenes, 2021), da escritora e diplomata marroquina Leïla Slimani, que no seu livro Le parfum des fleurs la nuit (Stock, 2021), ela expressa que: […] Na minha opinião, nem o discurso que glorifica a riqueza da herança mista, nem aquele que se preocupa com ela, capta a complexidade de uma identidade dupla. Ela é, simultaneamente, um desconforto e uma liberdade, uma tristeza e uma fonte de exaltação. [...] As pessoas me perguntam de onde sou, e às vezes respondo que, não sendo nem um pedaço de carne nem uma garrafa de vinho, não tenho uma origem, mas uma nacionalidade, uma história, uma infância. Nunca exatamente daqui, nem exatamente de lá, por muito tempo me senti como se tivesse sido despojado de toda a minha identidade. Como um traidor, também, porque nunca consegui me integrar completamente ao mundo em que vivia. Eram sempre os outros que decidiam por mim quem eu era. [...] A dominação colonial —que acabou sendo entendida— não moldou apenas as mentes, mas também os coerpos, os constriñes e os encierra. O dominado não ousa mover-se, rebelar-se, ultrapassar os limites… ou os do seu bairro. Para expressar. [...]. Ela também é autora das obras La Baie de Dakhla: Itinérance Enchantée Entre Mer et Désert (Malika, 2013), Dans le jardin de l'ogre (Gallimard, 2014), Chanson Douce (Gallimard, 2016), Le diable est dans les détails (Éditions de l'Aube, 2016), Paroles d'honneur (Les Arènes, 2017) e Simone Veil, mon héroïne (Éditions de l'Aube, 2017). Veja mais aqui & aqui.

 

ATIVISMO CIVIL - Continuarei meus esforços até que alcancemos a paz, a tolerância à pluralidade de opiniões e os direitos humanos... Como ativista civil, sou uma das milhares de vítimas dessas torturas horríveis. Cheguei a esta conclusão: o objetivo do confinamento solitário é a lavagem cerebral, para que os prisioneiros, privados de condições normais de vida, percam suas características humanas únicas, seu raciocínio e suas ideias, e sua saúde física e psicológica. Tenho fé no caminho que escolhi, nas ações que tomei, assim como nas minhas crenças. Estou determinado a tornar os direitos humanos uma realidade e não me arrependo de nada. Se aqueles que dizem estar propagando a justiça são firmes em seu julgamento contra mim, eu também sou firme na minha fé e nas minhas crenças. Não vacilarei diante de punições tirânicas que limitam minha liberdade às quatro paredes de uma cela. Suportarei este encarceramento, mas jamais o aceitarei como legítimo, humano ou moral, e sempre me manifestarei contra esta injustiça. Não perdi a esperança, nem a motivação. Não podemos desistir. Ainda tenho esperança e acredito profundamente que os esforços incansáveis ​​dos nossos ativistas da sociedade civil acabarão por dar frutos... Pensamento da ativista iraniana Narges Mohammadi, Prêmio Nobel da Paz de 2023 e vice-presidente do Centro de Defensores dos Direitos Humanos (DHRC). Em 2016 ela foi condenada a 16 anos de prisão em Teerã, por sua campanha pela abolição da pena de morte, contra a opressão das mulheres no Irã e pela sua luta na promoção dos direitos humanos e a liberdade para todos. Foi libertada e novamente presa em meados de dezembro de 2025, durante uma cerimônia fúnebre em Mashhad, quando iniciou uma greve de fome em protesto contra a detenção, denunciando ter permanecido em isolamento absoluto e sem qualquer contato externo. Agora, em 2026, um tribunal do Irã condenou a mais sete anos e meio de prisão, ampliando a série de sentenças impostas à ativista desde 2021. A nova condenação ocorre em um contexto de repressão intensificada após protestos registrados no país entre dezembro e janeiro, desencadeados inicialmente pela desvalorização da moeda iraniana e que evoluíram para manifestações contra o regime. Veja mais aqui.

 

A ARTE DE AGUINALDO SILVA

[...] Meus pais eram pobres. Meu pai trabalhava num posto de gasolina da cidade, onde vendia peças para carros. Era um homem de pouca cultura e educação, mas tinha uma preocupação muito grande com a minha educação [...] Quando nos mudamos para o Recife, no bairro Aflitos, ao lado de minha casa morava um senhor. A filha dele, uma moça chamada Gleice – eles tinham uma biblioteca enorme que era possível ver do meu quintal –, um dia me notou e perguntou se eu gostava de ler. Quando respondi que sim, ela disse que me emprestaria os livros do pai dela. Foi aí que li tudo que se possa imaginar, inclusive coisas que não eram para a minha idade. Daí comecei a escrever [...] Fui preso no dia 5 de novembro de 1969 e solto no dia 10 de fevereiro de 1970. Daí, voltei para O Globo e fui aceito como se nada tivesse acontecido. Fizeram até uma feijoada numa sexta-feira esperando que eu contasse alguma coisa, mas não contei merda nenhuma. Fiquei traumatizado durante muito tempo [...] Mas não tenho a ilusão de que influencio de alguma maneira o universo, de que estou ajudando a mudar o mundo. Não, não é nada disso. Faço o meu trabalho, sou um profissional e dou tudo de mim. Sempre! [...].

Trechos da entrevista Do brincar de escrever na infância ao sucesso na TV: 80 anos de Aguinaldo Silva (Itaú Cultural, 2023), concedida pelo dramaturgo, escritor, roteirista, jornalista, cineasta e telenovelista Aguinaldo Silva (Aguinaldo Ferreira da Silva), autor de obras como Redenção para Job (1960), Cristo partido ao meio (1965), Canção de sangue (1968), Geografia do ventre (1972), Primeira carta aos andróginos (1975), O crime antes da festa: a história de Ângela Diniz e seus amigos (1977), República dos assassinos (1979), A história de Lili Carabina (1983), Inimigo público (1984), 98 tiros de audiência (2006), Turno da noite: memórias de um ex repórter de polícia (2016) e Vendem-se corações despedaçados (2021), entre outros. Veja mais aqui & aqui.

 

Osman Lins aqui.

Beth da Matta aqui.

Tunga aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.

Marilourdes Ferraz aqui, aqui & aqui.

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segunda-feira, outubro 15, 2012

RUMI, GOLDSWORTH, GÉRARD VINCENT, SURREALISMO & CRÔNICAS PALMARENSES

Foto: Givanilton Mendes, na quadra do Colégio Diocesano, Dia Mundial da Poesia, em 1976.



GRATIDÃO AOS PROFESSORES




Ilustrando o que eu já contei aqui, tudo, então, começa com minha tia-prima saudosa Sonia Cabral Ferraz, responsável por minha alfabetização ainda criança peralta, afastado que fui por causa do achocolatado no recreio do Grupo José Bezerra. Toda tarde, lá na casa de Pai Lula & Carma, ela se dedicava a me ensinar as primeiras letras e administrando minha inheta algazarra e a mania de grandeza já revelada de gastar cadernos por dia. É que ela tão dedicada me apresentava as vogais e consoantes, e eu, com a minha já desastrada forma de me expressar maior que meu próprio tamanho, usava a página inteira do caderno para exercitar na escrita. Quer dizer, para copiar cada letra eu me expandia cheio das pregas a desenhá-la ocupando a página inteira do caderno. Imagine quantos cadernos eu consumia por dia, mesmo tendo ela a preocupação de pacientemente me fazer apagá-las, vez que, não fosse isso, meu pai e parentes teriam que comprar uma fábrica de cadernos para dar vencimento ao meu disparate.

Daí, ao ser matriculado na Escola Fraternidade Palmarense, deu-se os ensinamentos com a maravilhosa professora Hilda Galindo Correia, aquela mesma responsável pela minha iniciação literária descabida, resultando na publicação das minhas primeiras quadrinhas no suplemento Júnior, do Diário de Pernambuco.

Dos exames de Admissão até repetir o segundo ano no Ginásio Municipal dos Palmares, tive excelentes professores. Os de Português: Elias Sabino de Oliveira, João José do Nascimento, Mariazinha Quaresma e a responsável por minha formação intelectual, afetiva, humana e que dedicou momentos preciosos do seu tempo para me encaminhar pra ser gente que preste pra alguma coisa, a professora e bibliotecária Jessiva Sabino de Oliveira. Também Brivaldo Leão de História, Edson Matos de Francês, bem como os demais que testemunharam minhas presepadas saindo da infância pra adolescência.

Os terceiro e quarto anos do ginasial eu concluí no Colegio José Ferreira Gomes que funcionava no horário noturno, no mesmo prédio do Ginásio Municipal. Lá encontrei o meu amigo Tininho, o Joventino de Melo Filho, que apesar de ser professor de Matemática, foi uma das pessoas mais importantes na minha vida e que foi responsável por minha formação educacional, literária e musical. Além dos outros professores, destaco a figura humana e boníssima de Lael Borba de Carvalho, o King, meu professor de Inglês, figura das mais queridas na minha estima.

Fui então pro Colégio Diocesano e lá Inalda Cavalcanti, Erivan Félix, João da Silva e José Duran y Duran, além do bispo que era diretor, Dom Acácio Rodrigues Alves, deram asas à minha imaginação, proporcionando espaço para que eu e minha trupe pudéssemos fazer recitais de poesia, shows musicais, apresentações de teatro e melodramas, enfim, foram eles que muito contribuíram para que eu me dedicasse às artes. Culpa deles mesmo. Também o professor Pedro Victório Paiva que era meu professor de Física e substituto no cartório da mãe dele, Dona Dulce, que foi outro que nos momentos de fuga nos afazeres do Fórum e nos espaços da escola, me iniciou na Filosofia com seus ensinamentos científicos, afora aprofundar meus conhecimentos na música erudita. Além disso, devo contar as tardes de finais de semana na casa do amigo José Duran y Duran que dedicou atenção especial para minha formação na arte espanhola, sobretudo a Literatura, Teatro e Artes Plásticas.

Foto: Wilson Fotografias, durante apresentação de show musical no auditório do Colégio Nossa Senhora de Lourdes, em 1977.

Depois de três anos no Diocesano, fui concluir o 2º grau no Colégio Nossa Senhora de Lourdes, depois até me tornando professor de Literatura, Filosofia e Sociologia. Lá, enquanto estudante concluinte do científico, a Madre Maria do Espírito Santo manteve a abertura de todo espaço para comentimento das minhas aspirações artísticas, possibilitando que eu e minha trupe fizéssemos shows, recitais e exposições de poemas e pinturas. Entre os professores, destaco a figura estimada e folclórica do professor e vizinho Barbosa que era professor de Desenho, mas que atuou ministrando aulas de Matemática, Física, Química, OSPB, Moral e Cívica, Religião e que, um dia, abriu a porta e sapecou na maior animação: “Vamos aprendê ingrês qui portugueis nós já sabe!”.

Daí fui pro curso de Letras na Famasul onde, ainda estudante, fui incubido pela professora titular da cadeira, de ministrar aulas de Literatura Brasileira e Portuguesa aos sábados, fato que me levou a ser mesmo antes de concluir o curso, professor em diversas escolas de Palmares, Novo Lino e Joaquim Nabuco. Lá aprendi Latim com o professor Helmut Raimundo Gress. Fui, então, concluir o curso em Recife, depois fazer Relações Públicas na Esurp e Jornalismo na Unicap, cursos não concluídos. Mas foi na Faculdade de Direito que conheci um professor que me influenciou positivamente: Ivan Brandão, de Sociologia. Pude privar da sua amizade dentro e fora da faculdade, o que me valeu ter tino e discernimento para melhor me aprumar artística e profissionalmente.

 Foto: Luiz Gulú Santos Braga, na varanda da sua casa, em 1975.

Claro que não foram somente os professores da educação formal quem contribuíram de verdade. Além deles, devo colocar no rol dos gurus as pessoas do meu parente poeta Afonso Paulo Lins, do meu parente e figura das mais queridas que é o advogado Paulo Roberto Cabral de Souza, o saudoso poeta e advogado Eliseu Pereira de Melo, o empresário Gilsádio Santana que dias e noites dedicava seu tempo para me falar das atividades teatrais palmarenses, sobretudo de Hermilo Borba Filho, bem como dos da minha a trupe de birita e vida, com quem aprendi e, consequentemente, ensinamos uns aos outros, como Fernando Bigodinho Melo Filho, Marquinhos Cabral, Vavá de Aprígio, Mauricinho Melo Júnior, Luiz Gulu dos Santos Braga, Célio Carneirinho, os compadres Javanci Bispo e Sandra Lustosa, Ozi dos Palmares, Zé Ripe, Chico Âneglo Meyer, Mazinho Jucimar Siqueira, Marco Hippie, Juareiz Correya, Wilson Fotografias, Paulo Profeta, o saudoso Givanilton Mendes, o pianista Sérgio David e, principalmente, meu pai, Rubem que era um boêmio poeta que vivia a dar colorido a tudo que eu queira de Literatura e Música.

A todos esses mestres, a minha gratidão. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui e aqui.

A arte do pintor russo Viktor Lyapkalo.

 

DITOS & DESDITOS - Muitas vezes esquecemos que NÓS SOMOS NATUREZA. A natureza não é algo separado de nós. Então, quando dizemos que perdemos nossa conexão com a natureza, perdemos nossa conexão com nós mesmos. Pensamento do escultor, fotógrafo e ambientalista britânico Andy Goldsworth.

 

ALGUÉM FALOU: Fugi do homem para morar na floresta. Não pertenço a movimentos. Os únicos movimentos são os dos astros, marés e ventos. A Natureza é a minha arte! – Como posso fugir desta realidade?... Pensamento do pintor, escultor, gravador, fotógrafo e artista plástico polonês Frans Krajcberg (1921-2017).

 

DE GATOS & SENTIMENTOS - Eu cresci tão acostumado a ter um gato mal-humorado, mas bonito que eu preciso alertar os visitantes sobre. Ela sobreviveu a todos os gatos que eu amava e todos os gatos que eu me liguei. E eu acho que ela cresceu se aproveitando de mim. Quando Zoe morreu, foi muito fácil de explicar às pessoas o quanto dói você perder um gato doce, gentil, que não passava de uma bola de amor total. Eu vou ter muito mais dificuldade em um dia, meses ou mesmo anos explicando a falta que me faz a perda da gata grumpiest mais perigosa e mais malvada que eu já encontrei... Depoimento do quadrinista, escritor e roteirista britânico Neil Gaiman. Veja mais aqui aqui.

 

UM GATO CONTA – [...] Aos gatos, que os intrigam e inquietam, os homens consagraram inumeráveis obras... [...] O homem atira-se aos títulos e às coisas. O gato satisfaz-se com o que é, contenta-se com o que tem. Ignora a inveja. A grama é sempre mais verde na margem fronteira, diz o japonês. Nossa própria margem nos basta. Sabemos que a idade de ouro não está atrás de nós, que o eldorado não está adiante. Não somos desesperados. Não esperamos nada, senão repetição... [...]. Trecho extraído da obra Akhenaton, a História do homem contada por um gato (Siciliano, 1995), do sociólogo, historiador, escritor e artista francês Gérard Vincent (1922-2013).

 

DESDE QUE CHEGASTE AO MUNDO DO SER, UMA ESCADA... - Desde que chegaste ao mundo do ser, / uma escada foi posta diante de ti, para que escapasses./ Primeiro, foste mineral; / depois, te tornaste planta,/ e mais tarde, animal. / Como pode isto ser segredo para ti? / Finalmente, foste feito homem, / com conhecimento, razão e fé. / Contempla teu corpo - um punhado de pó - / vê quão perfeito se tornou! / Quando tiveres cumprido tua jornada, / decerto hás de regressar como anjo; / depois disso, terás terminado de vez com a terra, / e tua estação há de ser o céu. Poema do poeta, jurista e teólogo sufi persa Mawlānā Jalāl-ad-Dīn Muhammad Rūmī (1207-1273). Veja mais aqui e aqui.

 

UM CÃO ANDALUZ & O SURREALISMO – O filme surrealista Un chien andalou (1928), dirigido e escritor por Luís Buñuel & Salvador Dali, passa de "era uma vez" direto para "oito anos depois", utilizando a lógica dos sonhos, baseado na psicanálise de Freud, sobre o inconsciente e as fantasias. Representa uma reunião de imagens oníricas, encadeadas como se fossem um pesadelo, repleto de cenas metafóricas. A primeira cena mostra uma mulher que tem seu olho cortado por uma navalha por um homem. O homem com a navalha é interpretado pelo próprio Buñuel. Numa cena seguinte aparecem formigas saindo da mão do ator, uma possível alusão literária à expressão francesa fourmis dans les paumes (formigas nas mãos) que significa "um grande desejo de matar". A ideia do enredo seria uma viagem à mente perturbada de um assassino e as suas confissões traduzidas em imagens, porém, o propósito passa pelo senso e a ordem natural das coisas ausentes, constituindo-se numa importante tentativa de rompimento com toda a lógica e linearidade narrativa com forte apelo e referência à dimensão onírica. A ideia derivada dos próprios sonhos dos autores, complementada pela justaposição de imagens apontadas pelos dois, criou um curta cheio de imagens desconexas, e algumas até chocantes, como a do globo ocular sendo seccionado. Em se tratando de Surrealismo, Maurice Nadeau, na sua Histoire du Surréalisme (Seuil, 1958), assinala que "O surrealismo é concebido por seus fundadores não como uma nova escola artística, mas como um meio de conhecimento, em particular de continentes que até então não tinham sido sistematicamente explorados: o inconsciente, o maravilhoso, o sonho, a loucura, os estados alucinatórios, em resumo, o avesso do que se apresenta como cenário lógico”. Foi por esse período que foi adotada a experiência da escrita automática d’Os campos magnéticos (1920), de Breton e Philippe Soupault, enquadrando o movimento como sendo: “Automatismo psíquico em estado puro mediante o qual se propõe exprimir, verbalmente, por escrito, ou por qualquer outro meio, o funcionamento do pensamento. Ditado do pensamento, suspenso qualquer controle exercido pela razão, alheio a qualquer preocupação estética ou moral”. Neste sentido, Sarane Alexandrian, na obra Le surréalisme et le rêve (Gallimard-Littérature, 1974) observa que: O Surrealismo repousa sobre a crença na realidade superior de certas formas de associação desprezadas antes dela, na onipotência do sonho, no desempenho desinteressado do pensamento. Tende a demolir definitivamente todos os outros mecanismos psíquicos e a se substituir a eles na resolução dos principais problemas da vida. Segundo ela os surrealistas foram precursores do psicodrama de Moreno, tendo-se a perspectiva embasada nos depoimentos dado por Aragon, Baron, Boiffard, Breton, Carrive, Delteil, Desnos, Éluard, Gerard, Limbour, Malkine, Morise, Naville, Noll, Péret, Picon, Soupault e Vitrac. Na obra Lambeaux maudits d'une phrase absurde", in Folie et psychanalyse dans l'expérience surréaliste (Z'Éditions, 1992), de Fabienne Hulak, encontra-se que: "As atividades de escrita automática serão constantemente a prática deste `ser cortado em dois'". Para conhecer melhor o Manifesto do Surrealismo (Nau, 2001), acesse aqui, aqui, aqui e aqui.

A arte do pintor russo Viktor Lyapkalo.

 


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