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sexta-feira, novembro 22, 2019

ALDOUS HUXLEY, FARADAY, LEJEUNE, ANA ELISA RIBEIRO & LAURA LIMA


ÚLTIMA CARTA PARA SALLY – Ah, Sally querida, desde aquela primeira em que maldizia da noção de amor, eu sei, como bem disse seu pai que filósofos tornam-se tolos ao amar, e eu a amei, graças aos céus, ao seguir sua fuga para Ramsgate e declarar-me para a sua decisão. Graças, mil graças à vida: tudo sou em você, minha Sally, minha querida. Não fosse a sua mão companheira de todos os dias, não teria eu vencido tantos degraus nos íngremes aclives das descobertas e desânimos. Não fosse o seu riso compreensivo de todas as horas, não teria eu vencido batalhas tão ferrenhas, constantes e indesejáveis. Não fosse o seu abraçabrigo materno de todos os meus choros inconsoláveis, não teria eu vitalidade e afinco para enfrentar tantos giros na roda da fortuna, nem triunfado sobre os mais repetidos sortilégios infames e procelosos percalços. Não tivesse a firmeza dos seus passos seguindo os meus e os meus os seus, não teria eu sido além de um entregador de jornais ou encadernador dos livros do patrão, a inventar uma gaiola protetora para o futuro e tantas outras coisas que brotavam da minha imaginação para confirmação louca da experiência. Não tivesse o seu jeito amável de me cuidar nas quedas e dores, não teria eu, filho de gente simples que queria ser simplesmente eu mesmo e nada mais até o fim, com instrução rudimentar, autodidata, a observar o pôr do Sol e dele apreender os mistérios da Natureza. Não fosse o seu afago nos meus desesperos, não teria eu me libertado da professora cruel e opressora do colégio e que sem ter para onde ir fui buscar a sorte nas calçadas de ouro da cidade da magia e dos prodígios, só com esperança e migalhas de pão – um pão apenas por semana, repartido entre os dias para quase não me deixar morrer de fome. Não fosse a sua volúpia nos meus desencantos, não teria eu evoluído da Filosofia Natural para aceitar o reflexo da vida e o esplendor do ocaso e a ressurreição na crisálida da noite para compreender a urdidura da Natureza. Não fosse as suas pernas apaziguadoras nas minhas aflições noturnas, não teria eu nada além de canhenhos, enquanto o mestre se ressentia porque para mim a vida dos mineiros era mais importante que a sua gloria e quantas inimizades para ser tratado por lacaio no cúmulo da mesquinhez, enquanto eu vivia solitário e fora das disputas frívolas, apenas para o saber e você. Não fosse o seu ventre quente acasalador nas minhas insônias ébrias de desenganos, não teria eu lido melhor os manuscritos de Deus, não passando de um ajudante zelador para assessor, enquanto lutava desesperadamente para vencer sem contar com a vitória, nenhuma vitória. Não fosse o seu desapego material nos meus esbanjamentos extravagantes, o seu nuto carinhoso nas minhas inconsequentes loucuras, a sua calma apaziguadora nas horas mais periclitantes, a sua entrega mais que providente quando das minhas insanas agonias deserdadas, eu não seria nem teria nada, absolutamente nada. Mais que isso: e se não fosse você o travesseiro para minha mente eu não poderia morrer em paz, minha querida, jamais. Por tudo isso, eu posso ir, já vou embora, Sally, minha querida, até sempre, meu amor. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais abaixo & mais aquiaqui.

DITOS & DESDITOS: [...] o autobiógrafo deve executar esse projeto de uma sinceridade impossível, servindo-se de todos os instrumentos habituais da ficção. Ele deve crer que há uma diferença fundamental entre a autobiografia e a ficção, ainda que, na verdade, para dizer a verdade sobre si mesmo, ele empregue todos os procedimentos de seu tempo [...] o pacto autobiográfico pode ser, no plano explícito, um pacto moral de 'sinceridade': mas isso muitas vezes se traduz por um pacto implícito do autor com o leitor: o engajamento de não se distanciar demais de um tipo de relato 'verossímil' [...] Interrogar-se sobre o sentido, os meios e o alcance de seu gesto, eis o primeiro ato da autobiografia: frequentemente o texto começa, não pelo ato de nascimento do autor (nasci no dia...) mas por um tipo de ato de nascimento do discurso, o “pacto autobiográfico”. Nisso, a autobiografia não inventa: as memórias começam ritualmente por um ato desse gênero: exposição da intenção, das circunstâncias nas quais se escreve, refutação de objetivos ou de críticas. [...] Logo, a autobiografia interroga a si mesma; ela inventa a sua problemática e a propõe ao leitor. Esse “comportamento” manifesto, essa interrogação sobre o que se faz, não cessam uma vez o pacto autobiográfico terminado: ao longo da obra, a presença explícita (por vezes mesmo indiscreta) do narrador permanece. É aqui que se distingue a narração autobiográfica das outras formas de narração em primeira pessoa: uma relação constante é estabelecida entre o passado e o presente, e a escritura é colocada em cena. [...] é o próprio autobiógrafo que criou e desenvolveu a problemática do gênero. [...] O pacto autobiográficos e alimentadas refutações que ele provocou. Seu objetivo é paralisar a crítica, ultrapassando-a: compreende-se que nesse jogo interessa mostrar-se tão ágil quanto ela [...]. Trechos da obra O pacto autobiográfico: de Rousseau à Internet (EdUFMG, 2008), do professor e ensaísta francês Philippe Lejeune que, conforme a professora e pesquisadora Ana Amelia Barros Coelho Pace, em seu estudo Aspectos do pacto autobiográfico em “L'autobiographie en France” (Darandina- FFLCH-USP, 2013), assinala que: [...] A construção de um discurso de verdade individual implica na observância de regras e convenções, mesmo que seja para colocá-las em xeque–tensão que reverbera no discurso crítico. Mesmo assim, nessa sobreposição de textos, leituras e releituras (seja mas de Lejeune, que faz de seus próprios textos, seja da minha), devemos considerar que a busca em esclarecer e redefinir o pacto é uma tarefa inacabável, sempre a recomeçar. E talvez aí resida o funcionamento do pacto, em seu poder incessante de mover leituras e escritas. [...].

A POESIA DE ANA ELISA RIBEIRO
PRENHEZ - estava grávida / naquela foto / o filho / não chegou / a nascer / a foto / nos mantém / à sua espera
ORAÇÃO DO OLVIDO - oxalá eu esqueça / os poemas que lavrei / em arquivos e em livros; / os poemas que inscrevi / em concursos perdidos; / os poemas que se arrependeram / em linhas inconclusas; / e todos esses que / apaguei das telas de computador; / e os que anotei em blocos / e jamais foram transcritos / em páginas aflitivas; / oxalá eu esqueça / os poemas que escrevi; / e que os que escreverei / não me venham; / e que os poemas / que quase foram escritos / sejam leais a sua / admirável quasidade.
INSTANTÂNEO #5 - Só mesmo uma foto / para nos flagrar / no auge / de um quase
O PRÍNCIPE E A MEGERA - Um príncipe / com casa, carro, filho & pensão / relógio de pulso / perfume importado / quarentão / bem-arranjado / até grisalho / fosse eu / e tudo isso / seria / defeito
TRÁGICA - meu galego / não conhecia minha ira / era dono do meu corpo / meu espírito de porco / sabia minha ginga / minha pletora, minha míngua / conhecia cada fresta / cada trinca, cada aresta / cada vinco, furo, fissura, / mau humor, amargura / mas da minha ira / condenada ira / ira da maldita / ira de mulher / fêmea exata / ana saliente / uterina, enfezada / ele não sabia nada / (meu galego dorme esta noite num cemitério improvisado)
ANA ELISA RIBEIRO – A poesia da poeta e professora Ana Elisa Ribeiro, autora de livros de crônica, conto e poesia, além de infanto-juvenis, entre eles Xadrez (Scroptum, 2015), Anzol de pescar infernos (Patuá, 2013), Fresta por onde olhar (2008), Álbum (Relicário, 2018) e Dicionário de imprecisões (Impressões de Minas, 2019). Veja mais aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
A arte da premiada artista Laura Lima. Veja mais aquiaqui.

A OBRA DE ALDOUS HUXLEY
O silêncio está tão repleto de sabedoria e de espírito em potência como o mármore não talhado é rico em escultura. Depois do silêncio, o que mais se aproxima de expressar o inexprimível é a música.
A obra do escritor inglês Aldous Huxley (1894-1963) aqui e aqui
&
A OBRA DE MICHAEL FARADAY
Nada é tão maravilhoso que não possa existir, se admitido pelas leis da Natureza. As cinco essenciais habilidades empreendedoras para o sucesso são concentração, discernimento, organização, inovação e comunicação.
MICHAEL FARADAY – A obra do físico e químico inglês Michael Faraday (1791-1867), que conviveu por longos anos com Sally (Sarah Barnard, posteriormente, Faraday – 1800-1879), e é considerado um dos cientistas mais influentes de todos os tempos, por suas contribuições com relação aos fenômenos da eletricidade, eletroquímica e do magnetismo, além de diversas outras nas áreas da física e da química. Veja aqui.


sexta-feira, outubro 26, 2018

ALDOUS HUXLEY, MILTON NASCIMENTO, DI CAVALCANTI & PINTANDO NA PRAÇA


O FUTURO É AGORA - Imagem O Beijo (1923), do pintor e caricaturista brasileiro Di Cavalcanti (1897-1976). - Dei por conta de mim: olhei pra trás e tudo era infinitamente distante, como se um filme de desagradáveis e tortuosas cenas tivessem que repassar constantemente como um caleidoscópio, na minha travessia entre meus vivos indiferentes e os mortos que sequer esqueci, de tão vivos se parecerem nos meus horrores e risadas. Lá na frente tudo o que não sei, vou sempre adiante, mesmo que não saiba se é mesmo adiante ou se estou andando em círculos ou me perdendo entre esquinas, curvas e acenos. Ao meu lado não há ninguém, isso eu sei há tempos, é que nunca segui procissões nem fui pra plateia dos palcos da prestidigitação, das promoções do mercado, do glamour da moda e da perda de tempo que é seguir porque outros seguem por puro prazer. É que me dei conta da fração de segundos entre o que é a vida e o que é a morte, e do meu tamanho ínfimo perante o universo. Há tempos deixei de esperar e mesmo que malogre porque nada é pra já, faço acontecer ao meu modo, já quantas aflições pelos segundos que duraram uma eternidade quando precisava e era de imediato, sobrevivendo sob o truque da imaturidade: o medo de tudo, a ameaça constante. Tantas vivências de expectativa pelo amanhã: tudo podia acontecer da espera à agonia pra ansiedade: o que será, nunca se sabia. O tempo parecia parar naquela hora, como sempre tudo passava e o que se desejava nem aparecia na esquina nem lá longe, nem adiantava apurar a vista ou ficar pra lá e pra cá, tonto de requerência. Inquietações assomavam e a balança aparentemente equilibrada não deixava visualizar se ia ou não, quem merece. A lentidão levava ao afobamento corroendo vísceras e unhas e por que não, se estava prestes a ser feliz e o que era a felicidade dava as costas escorrendo pelas minhas mãos e sumindo no triz da primeira piscada de olhos. Uma escolha e quantas consequências: o peso da resolução. Ao decidir eu construía o meu caminho. O que sou hoje é resultado de tudo que fiz e fui ontem. E eu havia me esquecido disso. Cada passo, cada sim, nãos, acenos, dobradas de esquina, relutâncias, teimosias, atalhos e subterfúgios, cansaço, aperreios, suspenses e arrepios. Hoje sou porque sinto: já deplorei minguando na solidão noites intermináveis e sofri pelo que não tinha, e morri pelo que até nem mesmo merecia. Tive que cuidar dos meus sentimentos, torná-los melhores para não quedar desamparado. Hoje sou porque penso: já sucumbi pelo mergulho de mirabolantes ideias, elegendo algozes e enfrentando os meus próprios moinhos de vento. Eu sequer me compreendia, só sentia e pensava. Tive que cuidar dos meus pensamentos e meus sonhos se tornaram factíveis sem que precisassem ser naquele instante porque são reais demais para serem ansiados ou preteridos conforme o capricho do querer. Hoje sou porque percebo: quão sutis são as coisas verdadeiras e nem precisei dos olhos bem abertos para tanto, bastou cerrar as pálpebras e hoje sinto, penso e percebo porque sei que não há destino, porque o passado construiu o meu presente e o futuro é agora. Tomei tento. Há uma razão para tudo, o acaso não existe. Faço agora porque sei amanhã: o futuro às minhas mãos. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.

DITOS & DESDITOS:
[...] A porta do helicóptero abriu-se, saindo um rapaz louro de rosto vermelho; depois com um calção de belbutina verde, uma blusa branca e, na cabeça, um boné de jóquei, apareceu uma moça. À vista da jovem, o Selvagem estremeceu, recuou, empalideceu. A moça ficou de pé, sorrindo para ele - um sorriso hesitante, púplice, quase abjeto. Passaram-se alguns segundos. Seus lábios moveram-se - ela dizia qualquer coisa; mas sua voz foi abafada pelo estribilho forte e repetido dos curiosos; "Nós-queremos-o-chicote! Nós-queremos-o-chicote!" A jovem apoiou as duas mãos no coração, e no seu rosto corado como um pêssego, lindo como o de uma boneca, apareceu uma expressão estranhamente incôngrua de aflição anelante. Seus olhos azuis pareceram dilatar-se, tornar-se mais brilhantes; e, subitamente, duas lágrimas rolaram-lhe pelas faces. Em voz inaudível, falou outra vez; depois, com um gesto vivo e apaixonado, estendeu os braços para o Selvagem e deu um passo à frente. "Nós-queremos-o-chicote! Nós-queremos..." E, de repente, eles tiveram o que pediam. - Cortesã! - O Selvagem avançou para ela como um louco. - Fuinha! – Como um louco, pôs-se a vergastá-la com seu chicotede cordas finas. Aterrorizada, ela virou-se para fugir, tropeçou e caiu no meio das urzes. - Henry! Henry! - gritou. Mas seu rubicundo companheiro correra a abrigar-se do perigo atrás do helicóptero. Com um bramido de excitacão deliciada, a linha rompeu-se. Houve uma corrida convergente para aquele centro de atração magnética. A dor era um horror que fascinava. - Ferve, luxúria, ferve! - Com frenesi, o Selvagem vergastou-a outra vez. Avidamente os curiosos os rodearam, empurrando-se e atropelando-se como porcos em redor do cocho. - Oh! A carne!, - O Selvagem rangeu os dentes. Dessa vez foi sobre seus próprios ombros que se abateu o chicote. - Mata! Mata! Atraídos pela fascinação do horror do sofrimento e, interiormente, impelidos pelo hábito da ação em comum, pelo desejo de unanimidade e comunhão, que o condicionamento neles implantara de forma tão indelével, os curiosos puseram-se a imitar o frenesi dos gestos do Selvagem, batendo uns nos outros, enquanto ele fustigava sua própria carne rebelde, ou aquela encarnação roliça da torpeza que se contorcia nas urzes a seus pés. - Mata, mata, mata... - continuava gritando o Selvagem. Depois, subitamente, alguém começou a cantar: "Orgião-espadão!" Num instante, todos repetiram o estribilho, e, cantando, puseram-se a dançar. Orgião-espadão, girando, girando, girando em círculo, batendo uns nos outros, em compasso de seis-oito. Orgião-espadão... Passava da meia-noite quando o último helicóptero levantou vôo. Entorpecido pelo soma e esgotado por um prolongado frenesi de sensualidade, o Selvagem jazia adormecido sobre as urzes. O sol já ia alto no céu quando ele acordou. Ficou imóvel um momento, os olhos piscando à luz, numa incompreensão de mocho; depois, repentinamente, lembrou-se de tudo. -Oh! Meu Deus, meu Deus! - cobriu os olhos com as mãos. Naquela tarde, o enxame de helicópteros que vinham zumbindo por sobre a crista de Hog's Back era uma nuvem escura de dez quilômetros de comprimento. A descrição da orgia de comunhão da noite anterior fora publicada em todos os jornais. - Selvagem! - gritaram os primeiros a chegar, enquanto desciam dos aparelhos. - Sr. Selvagem! Não tiveram resposta. A porta do farol estava entreaberta. Empurraram-na e entraram numa penumbra de janelas fechadas. Por um arco na outra extremidade da peça viam-se os primeiros degraus da escada que levava aos andares superiores. Exatamente sob o fecho do arco pendiam dois pés. - Sr. Selvagem! Lentamente, muito lentamente, como duas agulhas de bússola sem pressa, os pés voltaram-se para a direita: norte, nordeste, leste, sudeste, sul, sul-sudoeste; depois detiveram-se e, passados alguns segundos, recomeçaram a girar, com a mesma lentidão, para a esquerda. Sul-sudoeste, sul, sudeste, leste...
Trecho extraído do capítulo final da obra Admirável mundo novo (Globo, 1979), do escritor inglês Aldous Huxley (1894-1963). Veja mais aqui, aqui, aqui e aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
A arte do pintor e caricaturista brasileiro Di Cavalcanti (1897-1976). Veja mais aquiaqui e aqui.

AGENDA
Projeto Pintando na Praça & muito mais na Agenda aqui.
&
Pintando na Praça & Insituto de Belas Artes Vale do Una aqui, aqui e aqui.
&
Mandando ver no canto, Geoffrey Chaucer & Pier Paolo Pasolini, Maryse Condé, Altinho & Nelson Barbalho, Exaltação de Albertina Bertha, Fernando Lúcio, Mostra de Cinema & Direitos Humano do IFPE-Palmares, Chick Corea, Joyce Moreno, Edson Cordeiro & Teodora Dimitrova aqui.

RÁDIO TATARITARITATÁ:
Eu sou atlantica dor plantada no lado do sul
de um planeta que vê e que é visto azul
Mas essa primeira impressão, esse planeta blue
não é a visão mais real além de cor, 'blue' é também muito triste
pode ser o lado nu, o lado pra lá de cru, o lado escuro do azul
Eu sou um homem comum, eu sou um homem do sol
eu sou um 'african man' um 'south american man'
A fome continental miséria que o norte traz
a fome que a morte vem, a fome não vem da paz
O ódio que o ódio tem se espalha bem mais veloz
que a água que a chuva traz que o grito da nossa voz
Eu sou um homem qualquer estou querendo saber
se dá pra gente viver, se dá pra sobreviver
Quero saber de coração se nossa humanidade
e este planeta vão poder prosseguir
Quem sabe a terra segue o seu destino
bola de menino pra sempre azul
Quem sabe o homem mata o lobo homem
e olha o olhar do homem que é seu igual
Quem sabe a festa chega à floresta
e o homem aceita a mata e o animal
Quem sabe a riqueza? E toda a beleza estará nas mesas da terra do sul
Eu sou atlantica dor plantada no lado do sul
(Planeta blue, música de Milton Nascimento & Fernando Brant)
Hoje curta na Rádio Tataritaritatá a música do cantor e compositor Milton Nascimento: Uma travessia 50 anos ao vivo, Pietá ao vivo, Crooner ao vivo & Milagre dos Peixes ao vivo & muito mais nos mais de 2 milhões & 700 mil acessos ao blog & nos 35 Anos de Arte Cidadã. Para conferir é só ligar o som e curtir. Veja mais aquiaqui.
 

domingo, outubro 29, 2017

ALDOUS HUXLEY, JOSEPH CONRAD, SUSAN SONTAG, JOAN LA BARBARA, CELSO KELLY, MARC ATTALI, LIVRO, LITERÓTICA & MARYNA.

 
Curtindo a arte musical da cantora estadunidense Joan La Barbara.

LITERÓTICA: AS PERNAS DE MARYNA – Compenetrado nas minhas escrituras, a cigarra tocou. Não esperava ninguém àquela hora, quem seria, não sei. Abro a porta e o aroma de mulher invade o ambiente. Nada melhor que a surpresa. Era ela: Maryna sedutora, maneirosa, decotada, obscena, deliciosa. Ah, como é bom vê-chegar assim irresponsável, safada, matreira. Ao entrar empurrou-me incontinente, até sentar-me à cadeira da escrivaninha. Meus olhos fixos nela, quanta gostosura. Tirou o salto alto lentamente, descalça, o busto saltava do decote, o corpo enchia minha vista, a boca cheia d’água diante da sua apetitosa emanação. Trouxe o pé desnudo ao meu ventre, massageando delicadamente meu pênis já emergente. O corte da sia expôs suas esculturais pernas, a coxa roliça, permitia a visão da calcinha guardando seu ventre abundante: a fogueira para minha heresia priápica. Manhosamente enleava, convidava-me à sua safadeza sensual. Ela jogou a cabeça para trás, respirando fundo, mãos aos cabelos e as minhas aos seus fartos seios. Desabotoei os primeiros botões do vestido, invadi por baixo do sutiã, sua pele acetinada, minha ardente lasciva. Respirava com dificuldade pelo prazer abrasador das minhas mãos na sua carne perfeita para amar e gozar. Livrando-se do vestido, tirou a calcinha e sutiã, virou-se de quatro e me expôs as suas nádegas magistrais, ah, lauto banquete, fausto monumento. Passei a língua na sua vagina úmida e ela murmurava felina, porquanto submissa, apetitosa, propícia. Meus dedos percorriam suas ancas, acariciando seu ânus e clitóris, a sua carne viçosa, ah Vênus calipígica nua, suas pernas eram duas torres aprazíveis em que eu esfregava meu sexo duro e babento, a sua respiração suspensa, e eu mais lambia aquela fonte deliciosa de prazer. É por ali que eu devia seguir sem inibição e como uma ovelha desgarrada, levantei-me e aprumei meu pau rijo ns sua correnteza copiosa, a gemer com a minha estocada, disse-me: Ah, flauta mágica, a verdadeira. E nela trepei, empurrei, meus urros indecorosos, mais pedia, mais estocava, mais gemia, mais me acumulava entre suas coxas e gozava loucamente ao meu gozo estonteante. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aquiaqui e aqui.


DITOS & DESDITOSAs palavras têm sua propria firmeza. A palavra na página não pode revelar (pode esconder) a flacidez da mente que a concebeu. Todos os pensamentos são evoluções – ganham mais clareza, definição, autoridade ao serem impressos – ou seja, descolados da pessoa que os pensa. A escrita é uma pequena porta. Algumas fantasias, feito grandes peças de mobiliário, não passarão por ela. Pensamento da escritora e crítica estadunidense Susan Sontag (1933-2004). Veja mais aqui e aqui.

ALGUÉM FALOU: A castidade é a mais anormal das perversões sexuais. Adoro católicos. Se não insistissem tanto em misturar-se aos cristãos, já teria me convertido a eles. Pensamento do escritor inglês Aldous Huxley (1894-1963). Veja mais aqui.

ARTE & COMUNICAÇÃO: LIBERDADE DE EXPRESSÃO – A obra Arte e comunicação (AGIR/MEC, 1972), do jornalista, escritor, teatrólogo, professor, historiador e crítico de arte Celso Kelly (1906-1979), trata sobre arte e sociedade, o fato estético, a arte e o tempo, a criação artística, fundamentos estéticos da comunicação, artes plásticas e mensagens visuais, o espetáculo e a comunicação direta, uma nova linguagem, imagem e som, as novas linguagens e o espetáculo indireto, comunicação e literatura, linguagens poéticas, jornalismo e a publicidade na conjuntura da comunicação. Na obra ele expressa: [...] A liberdade de expressão que se reivindica nas comunicações em geral tem seu fundamento na necessidade de assegurar autenticidade às comunicações, de inspirar a mais sagrada confiança do público, de atingir originalidade na criação (inclusive no anúncio) e de garantir à sua clientela os benefícios da circulação e da audiência. Só bem utilizada, a liberdade de expressão proporciona aos veículos a penetração de público a q eue eles aspiram e a força de opinião que eles pretendem. Veja mais aqui.

JUVENTUDE: UMA NARRATIVA – [...] O mundo nada mais era que uma imensidão de enormes ondas espumantes nos perseguindo, sob um céu baixo o bastante para tocarmos as mãos, e negro como um teto fumegante. [...] Havia uma completude, algo sólido como um princípio e dominante como um instinto – uma revelação de algo secreto -, aquele algo escondido, aquela dádiva boa ou má que faz a diferença racial, que molda o destino das nações. [...] as faíscas voavam para cima como o homem gera seu próprio sofrimento [...] Juventude! Tudo pela juventude! A tola, encantadora, bela juventude! [...] o primeiro suspiro do Oriente em meu rosto. Jamais esquecerei isto. Era impalpável e escravizador, como um feitiço, uma promessa sussurrada de prazer misterioso. [...] O oriente misterioso estava diante de mim, perfumado como uma flor, silencioso como a morte, escuro como um túmulo. [...] o Oriente falou comigo, mas foi numa voz ocidental. Uma torrente de palavras jorrava no silêncio enigmático e fatal; palavras estrangeiras, zangadas, misturadas com palavras e mesmo frases inteiras em bom inglês, menos estranhas, mas por isso mesmo mais surpreendentes. A voz xingava e amaldiçoava violentamente; ela cifrava a paz solene da baía com uma saraivada de ofensas [...]. Trecjos extraídos da obra Juventude: uma narrativa (Paz e Terra, 2003), do escritor britânico Joseph Conrad (1857-1924). Veja mais aqui.

LES ÉROTIQUES DU REGARD
Imagens da obra Les érotique du regard (Balland, 1968), do fotógrafo Marc Attali.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
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quarta-feira, julho 26, 2017

ARQUÉTIPOS DE JUNG, MOACIR SANTOS, CONTRAPONTO DE HUXLEY, JACOB DE HAAN, MAWACA, ÉRICA GARCIA, JENNY SAVILLE & MARIE JOHNSON HARRISON

OS AVÓS SÓ BOTAM A PERDER – Imagem: Art by Marie Johnson Harrison - Vivi momentos felizes de muitas aventuras na minha infância com os meus avós. O primeiro neto que apareceu no meio de uma penca de tios e tias, pronto, virava eu o xodó e o centro das atenções, manhando dengoso no meio da maior plateia, isso no de menos. Na garupa do cavalo, meu avô Arlindo me levou por vales, rios e canaviais. Quando não, por ser o administrador de engenhos de cana de açúcar do Rio Grande Norte até terras no sul de Minas Gerais, eu podia gabola beiçudo impressionar os matutos com minhas invencionices e trelas de menino tagarela, tudo abestalhado com o meu poder de inventar pinóias cada uma pior que a outra: esse menino bebeu água de chocalho. Essa e muitas outras aventuras nos engenhos só paravam de mesmo quando meu avô ia pra casa dele em Água Preta, eram dias de reinação na bodega sortida de vó Benita, coisa de levar carão o dia todo e esperar pelos acalantos e histórias de trancoso que ela mandava ver pra me amedrontar arrepiado embaixo do cobertor. Os acalantos e histórias dela era coisa de ciúmes nos cabarés, soldados que se perderam, mães que se vingaram, mortes e brigas de famílias, afora coisas do outro mundo e presepadas de espíritos zombeteiros. Quando eu não tremia de medo, morria de rir, e ela mais ainda, até se esquecia das horas contando cada coisa. Findavam as férias e eu de volta pra casa, eram os tempos de ganhador aberto: Pai Lula mesmo todo dia trazia um Mané Gostoso, uma peteca, ioiô, cavalo de pau, boneco de barro, brinquedos de plásticos, doces, biscoitos, confeitos e guloseimas regionais, afora me atiçar com piadas e adivinhações que me premiavam independente de que eu acertasse ou não. Ganhava de todo jeito. Às vezes me levava pra casa dele e lá eu virava artista de cinema com Carma que me recepcionava com o sorriso mais lindo do universo. Depois eu puxava conversa e parava todo movimento da casa, Carma atenta às minhas leseiras, me tratando como um homenzinho que mais queria aparecer que crescer. Oxe, eu ficava contando coisas engraçadas só pra ver a risada de Carma, quando não me ressentia pra ela da minha mãe que não deixava eu brincar no quintal com minha irmã nem com meus primos, me amarrava no pé da mesa, não podia botar o pé descalço no chão, nem chacoalhando na água, nem atrepar no pé de fruta, nem no muro, nem por cima do quintal do vizinho, nem comer chocolate, vixe, ela não deixa, Carma, não deixa! E Carma ria me abraçando e me oferecendo doces e bolos os tantos. O melhor de tudo de todos os meus aprontamentos com meus avós, era que quanto mais eu folgava nas peraltices, mais eles me davam corda para mandar ver nas presepadas. Pois é, os avós botam mesmo tudo a perder, como eu que sou perdido de não prestar mais. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.

OS ARQUÉTIPOS E O INCONSCIENTE DE JUNG
[...] Uma existência psíquica só pode ser reconhecida pela presença de conteúdos capazes de serem conscientizados. Só podemos falar, portanto, de um inconsciente na medida em que comprovarmos os seus conteúdos. Os conteúdos do inconsciente pessoal são principalmente os complexos de tonalidade emocional, que constituem a intimidade pessoal da vida anímica. Os conteúdos do inconsciente coletivo, por outro lado, são chamados arquétipos. [...] Estou convencido de que o depauperamento crescente dos símbolos tem um sentido. O desenvolvimento dos símbolos tem uma conseqüência interior. Tudo aquilo sobre o que nada pensávamos e a que, portanto, faltava uma conexão adequada com a consciência em desenvolvimento, foi perdido. Tentar cobrir a nudez com suntuosas vestes orientais, tal como fazem os teósofos, seria cometer uma infídelidade para com a nossa história. Não caímos no estado de mendicância para depois posar como um rei indiano de teatro. Mais vale, na minha opinião, reconhecer abertamente nossa pobreza espiritual pela falta de símbolos, do que fingir possuir algo, de que decididamente não somos os herdeiros legítimos. Certamente somos os herdeiros de direito da simbólica cristã, mas de algum modo desperdiçamos essa herança. Deixamos cair em ruínas a casa construída por nosso pai, e agora tentamos invadir palácios orientais que nossos pais jamais conheceram. Aquele que perdeu os símbolos históricos e não pode contentar-se com um substitutivo, encontra-se hoje em situação difícil; diante dele o nada bocejante, do qual ele se aparta atemorizado. Pior ainda: o vácuo é preenchido com absurdas idéias político-sociais e todas elas se caracterizam por sua desolação espiritual. Mas quem não consegue conviver com esses pedantismos doutrinários vê-se forçado a recorrer seriamente à sua confiança em Deus. Embora em geral se constate que o medo é ainda mais convincente. Tal medo decerto não é injustificado, pois onde o perigo é maior, Deus parece aproximar-se. É perigoso confessar a própria pobreza espiritual, pois o pobre cobiça e quem cobiça atrai fatalidade. Um drástico provérbio suíço diz: "Por detrás de cada rico há um demônio e atrás de cada pobre, dois". Da mesma forma que os votos de pobreza material, no cristianismo, afastavam a mente dos bens do mundo, a pobreza espiritual renuncia às falsas riquezas do espírito, a fim de fugir não só dos míseros resquícios de um grande passado, a "Igreja" protestante, mas também de todas as seduções do perfume exótico, a fim de voltar a si mesma, onde à fria luz da consciência, a desolação do mundo se expande até as estrelas. Já herdamos essa pobreza de nossos pais. [...] Nosso intelecto realizou tremendas proezas enquanto desmoronava nossa morada espiritual. Estamos profundamente convencidos de que apesar dos mais modernos e potentes telescópios refletores construídos nos Estados Unidos, não descobrirem nenhum empíreo nas mais longínquas nebulosas; sabemos também que o nosso olhar errará desesperadamente através do vazio mortal dos espaços incomensuráveis. As coisas não melhoram quando a física matemática nos revela o mundo do infinitamente pequeno. Finalmente, desenterramos a sabedoria de todos os tempos e povos, descobrindo que tudo o que há de mais caro e precioso já foi dito na mais bela linguagem. Estendemos as mãos como crianças ávidas e, ao apanhá-lo, pensamos possuí-lo. [...].
Trechos extraídos da obra Os arquétipos e o inconsciente coletivo (Vozes, 2000), do psicoterapeuta suíço Carl Gustav Jung (1875-1961), trazendo fundamentações teóricas que descrevem arquétipos específicos num estudo sobre as relações deles com o processo de individualização e da psicoterapêutica. Veja mais aqui & aqui.

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CONTRAPONTO DE HUXLEY
[...] Era sempre demasiado fácil para ele dispensar os outros. Gostava muito de se fechar no fundo de seu próprio silêncio. Mas podia ter aprendido a se exteriorizar mais, se não sobreviesse aquele horrível acidente. [...] - Eu quisera que Phillip tivesse ido à guerra. Não por motivos belicosos ou patrióticos. Mas porque se me pudessem garantir que ele não morreria nem ficaria mutilado, teria sido tão bom para ele […] Podia ter-lhe quebrado a concha, podia tê-lo libertado de sua própria prisão. Liberdade sob o ponto de vista emocional, porque o seu intelecto já é bastante livre. [...] Duma maneira abstrata sabes que a música existe, e que é bela; mas não partas daí para fingir, ao escutar Mozart, que estás num arrebatamento que não sentes. Se procedes assim, transformas-te num desses esnobes musicais idiotas que se encontram na casa de Lady Edward Tantamount. Incapazes de distinguir Bach de Wagner, babando-se de êxtase quando os violinos se fazem ouvir. O mesmo se passa exatamente com Deus. O mundo está cheio de esnobes religiosos perfeitamente ridículos. Pessoas que não estão verdadeiramente vivas, que nunca praticaram um ato verdadeiramente vital, que não têm relação viva com coisa alguma; criaturas que não têm o menor conhecimento pessoal ou prático do que é Deus. Mas andam pelas igrejas, rosnam suas orações, pervertem e destroem a totalidade de sua existência sem brilho, agindo de acordo com a vontade duma abstração arbitrariamente imaginada a que resolveram dar o nome de Deus. [...] Tudo será incrível, se pudermos tirar a crosta de banalidade evidente que os nossos hábitos põem nas coisas. Todo objeto, todo acontecimento contêm em si uma infinidade de profundezas dentro de outras profundezas [...]
Trechos extraídos da obra Contraponto (Globo, 2014), do escritor inglês Aldous Huxley (1894-1963). Veja mais aqui, aqui & aqui.

RÁDIO TATARITARITATÁ:
Hoje é dia de especiais com o saudoso arranjador, maestro, compositor e multi-instrumentista Moacir Santos (1926-2006): Ouro negro & Coisas; com a multifacetada cantora, guitarrista, compositora, atriz & performer argentina Érica Garcia: Amorama & El Cerebro; do compositor holandês Jacob de Haan: Concerto d’ Amore, Ross Roy, Utopia & Pacifi Dream; e do grupo vocal e instrumental de pesquisa e recriação muscial Mawaca: Canto da Floresta & Gayatri Mantra. Para conferir é só ligar o som e curtir.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
A arte da pintora britânica Jenny Saville. Veja mais aquiaqui.

terça-feira, julho 19, 2016

EDGAR MORIN, ALDOUS HUXLEY, MILTON SANTOS, VIVALDI & MICHALA PETRI, DANIELE LUNGHIN, DAVE STEVENS, FEININGER, GIANLUCA MANTOVANI & JOSE DE LA BARRA


A ESPERANÇA EQUILIBRISTA (Equilibrista by Daniele Lunghin) – Bestinha nunca foi lá flor que se cheire. Pudera, com uma carga kármica pesada nos costados, tudo pra ele só finda em revertério. E ele parece que nem se dá conta, ou nem está aí pra quem pintou a zebra, sempre enrolado no seu sisifismo, aos trancos e barrancos. Quem sabe, um dia chega lá. Mesmo com o cotidiano carregado de um compromisso sempre irredutível e insuperável, uma espada de Dâmocles implacável: se não pagou no dia, fodeu; cadê a feira, o aluguel, mixaria pra condução, desata o nó cego, segura o trupe, seinadimpliu de mesmo, perde tudo e recomeça do zero, de ficar com uma mão na frente e outra atrás, quando não mãos à cabeça, arramcamdo os cabelos. Quando é benefício, se previsto para dia 1º, pode ser para 11, 21, 31 ou nunca mais; se perder, nunca mais acha. Foi, já era. Pois é; objetivos e metas traçados e pensados, mesmo que ao alcance da mão, viram sempre inalcançáveis: só língua de fora e espinhaço envergado. Quando tá achando pertinho o alvo, na horagá, mais distante é que fica. Estás vendo? Só no ver como é que faz, para ver como é que fica. Semáforo pra ele quando não está no vermelho, tá quebrado; se precisa, ou o sistema está inoperante, ou fora do ar; quando chega a sua vez, acabaram-se as fichas ou o expediente: só amanhã – e que nunca chega. E quando chega, não serve mais pra nada. Mas, sempre a esperança equilibrista, mesmo que só tenha meio fio pra caminhada e que tudo o mais seja só buraqueira na volta dos catombos. E ciente que não adianta estar armado de prumo, compasso, régua, cronogramas, afinal, pra ele, é tudo de viés e pro revestrés. Tudo cis, por um triz. Onde bota a mão é só arame farpado; vai comer, tá passado; se cozinha, passa do ponto; se vai colher, ou tá verde ou apodreceu; na hora de ficar cheiroso, solta um peido e a catinga come no centro. Bota tudo a perder. Que sina! Pronto, finda sozinho na rua da amargura. Quando procura uma mão amiga, só depara figa; basta uma brecha, a porta é fechada; se anda nas nuvens, pisa na merda; e se vai no embalo da onda, vê-se estrepado a cuidar das perebas. Fosse outro, já tinha desistido. Ele não, em riba da fivela, bate no peito e vai com fé. Um dia Deus dará. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui e aqui.

Imagem: a arte do desenhista estadunidense de história em quadrinhos Dave Stevens (1955-2008).

Curtindo o álbum Vivaldi - Concertos Op. 10 / Sammartini - Concerto In F Antonio Vivaldi: Concertos, Op. 10, Nos. 1-6, da flautista dinamarquesa Michala Petri.

PESQUISA:
 [...] O homem moderno é, talvez, mais desamparado que os seus antepassados, pelo fato de viver em uma sociedade informacional que, entretanto, lhe recusa o direito a se informar. A informação é privilégio do aparelho do Estado e dos grupos econômicos hegemônicos, constituindo uma estrutura piramidal. No topo, ficam os que podem captar as informações, orientá-las a um centro coletor, que as seleciona, organiza e redistribui em função do seu interesse próprio. Para os demais não há, praticamente, caminho de ida e volta. São apenas receptores, sobretudo os menos capazes de decifrar os sinais e os códigos com que a mídia trabalha. [...].
Trecho extraído da obra O espaço da cidadania e outras reflexões (Fundação Ulysses Guimarães, 2011), do geógrafo e professor Milton Santos (1926-2001). Veja mais aqui.

LEITURA
[...] castidade quer dizer paixão, neurastenia. E paixãoe neurastenia significam instabilidade. E a instabilidade é o fim da civilização. Não se pode ter uma civilização duradoura sem muitos vícios agradáveis. [...]
Trecho extraído da obra Admirável mundo novo (1932), romance distópico do escritor inglês Aldous Huxley (1894-1963), narrando um hipotético futuro no qual as pessoas são pré-condicionadas biologicamente e condicionadas psicologicamente a viverem em harmonia com leis e regras gerais, numa sociedade organizada por castas. Veja mais aqui e aqui.

PENSAMENTO DO DIA: 
[...] Nunca se sabe até que ponto eu falo, até que ponto eu faço um discurso pessoal e autônomo, ou até que ponto, sob a aparência que acredito ser pessoal e autônoma. Eu faço mais que repetir as idéias impressas em mim.
Extraído do livro Os sete saberes necessários à educação do futuro (Cortez/Unesco, 2000), do antropólogo, sociólogo e filósofo francês Edgar Morin. Veja mais aqui, aqui e aqui.

IMAGEM DO DIA:

 
A arte do fotografo e escritor estadunidense Andreas Feininger (1906 - 1999).

Veja mais sobre Brincarte do Nitolino, Herbert Marcuse, Vladimir Maiakovski, Jerzy Grotowski, Ken Loach, O Lobisomem Zonzo, Os saltimbancos de Chico Buarque, Edgar Degas & Meimei Corrêa aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
 Nude, do pintor italiano Gianluca Mantovani.
Veja mais aquiaqui e aqui.

CANTARAU: VAMOS APRUMAR A CONVERSA
 Equilibrista, by Jose De la Barra.
Recital Musical Tataritaritatá - Fanpage.
Veja aqui e aqui.



MARY OLIVER, ROSI BRAIDOTTI, VERONICA GORRIE & CHACRINHA

  Imagem: Acervo ArtLAM .   O segredo da brochura artesanal... - Uma fedentina tomou conta do lugar: Que fedor! De onde vem? Tem defunto...