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domingo, novembro 07, 2021

YASMINA REZA, ALICIA DUJOVNE ORTIZ, SEAMUS HEANEY, ROQUE DALTON, ANA SANTIAGO & LANGLOIS

 

 

TRÍPTICO DQP – Trevas da noite no céu do dia & vice-versa... – Ao som da pianista austríaca Emma Schmidt, interpretando obras de Busoni, Alban Berg e Schoenberg no álbum 3 Piano Pieces (Naxxo, 2015). – Sempre tive a impressão de que sou o que escapuliu do vão de quatro paredes e pernas no meio destes atordoados dias. Desde quando seja lá o que for dos caminhos inventados pelas palavras, atento a cada instante, o voo. É como se todo dia fosse véspera de um cataclismo e nada desse por conta, porque um holocausto silencioso e nada suave em sua ameaça. Minhas lembranças são como retratantigos na fabulação livre e sei, cioso em toda parte me espalhei pelas ruas e túmulos, entre vivos e mortos – mais mortos que vivos, eram ou são, não sei -, corpestranhos que professam seus repúdios de nada, soterrados pelos desmandos e complôs. Quão vão tudo se parece e não exagero nem superestimo, muita confusão entre a tenacidade e a intolerância, ceticismo e rancor (e o meu nome escondido na boca dum sapo qualquer, disseram e me rio). Na verdade, mais um momento interrompido – para quem lia O elogio ao ócio (GMT, 2002), de Bertrand Russel: A ideia de que os pobres devem ter direito ao lazer sempre chocou os ricos... O trabalho mantinha os adultos longe da bebida e as crianças afastadas do crime... Eu penso que o fato de se permitir que essas pessoas sejam ociosas não é nem de longe tão nocivo quanto o fato de se exigir dos assalariados que escolham entre o sobretrabalho e a privação... -, era um zunzunzum a tratar de Emma. Quem? Alguém apontou um saco cheio, logo ali abandonado. Aproximei-me e eram publicações, capas duras, brochuras. Logo deu pra ver o volume da Crônica de Lúcio Cardoso; e, ao remexer hesitante, entre outros, logo embaixo o Diário dele. De quem seria? Eram muitos. Mexer não devia, toda precaução. Alguém havia esquecido ali num canto alguns livros, ou jogado no lixo, parece – era prática que se tornou costumeira no país. Curioso, procurei por quem perguntar a posse daquilo. Ao invés disso, o que ouvi foi a respeito de Emma. De novo, quem? Saí acompanhando e constatei que não era a idolatrada ativista Goldman, nem a Bovary de Flaubert, era outra. Ora, quem? Era uma tal que se passava por Schmidt – só depois soubera, na verdade Anna Ecklund (1882-1941) -, que julgavam possuída por espírito maligno, ou coisa do gênero. Vôte! Disseram chamar por não sei quem, enquanto repetiam que era a Banga da Besta que reapareceu e havia endoidecido. De novo? Esse povo crédulo inventa cada coisa. Ah, como tudo anda tão confuso, de perder o fio. Aos sons e gemidos, apareceu-me a poeta argentina, Alicia Dujovne Ortiz: Quando a água / ferve / é / uma chuva calma que dura toda a / tarde mas / quando / o azeite é / frito / é / um aguaceiro violento no verão grandes / gotas quentes beijos de lábios que arrancam / os poros resposta de beijos grossos ou / gotas de pele e ouço / oh eu ouço a / tempestade das cebolas fritas o gemido da / carne na grelha e às vezes das xícaras sim / das xícaras que docemente choram / baixinho se eu as / encher de chá ai / meu Deus um ovo balança quando vou quebrá-lo meu cotovelo na mesa esmaga / parentes e aumento da / dor / pela minha casa pelos meus gestos uma voz conhecida / ! Devo dizer-lhe secretamente que, / na minha infância, mal / conseguia segurar uma / maçã viva / demais com minhas próprias mãos. Eu também, desde criança tudo me escapa entre os dedos, ou dissolve de nem me dar conta, até o sonho na perda da memória.

 


A vida não poupa ninguém... – Imagem: Cassandra implora vingança de Minerva contra Ajax, do pintor neoclássico francês Jerome-Martin Langlois (1779-1838) – Não demorou muito e mais adiante, novamente só no meio da loucura do trânsito inexorável, semáforos, frenagens, roncos de motores, zoadas sonoras, e lá estava mesmo era envolvido na trama do Deus da carnificina (Âyiné, 2021), da dramaturga francesa Yasmina Reza: crianças às agressões, os pais se envolvendo, incialmente, apaziguadores, até o escandaloso irascível de nenhuma conciliação: desaforos, sangue nas vestes, o risível e o patético, a ruína de gente e mundo. Para mim, ali a Loucura repulsiva, como se eu estivesse deveras nas cenas adaptadas por Polanski do teatro dela: aqueles que não se refazem ou não conseguem superar suas perdas e derrotas. Tento por todos os meios poupar a mãe dos salafrários e dos néscios, sobreviventes do genocídio como eu, quase impossível. Ou melhor, tal como Sobre nossa moral poética, do poeta salvadorenho Roque Dalton: Não confundir, somos poetas que escrevem / da clandestinidade em que vivemos / Não somos, pois, cômodos e impunes anônimos: / de frente estamos contra o inimigo / e cavalgamos muito perto dele, na mesma trilha. / E o sistema e os homens / que atacamos através de nossa poesia / com nossa vida lhes damos a oportunidade de que sejam cobrados / dia após dia. Sim, no fim é tudo muito tristalegre, confusainda, para quem já foi longalém: ainda sofro porque sei que tudo passa, nenhuma dor é maior que a esperança. Esta cidade é a minha – um hospício bizarro a céu aberto -, e algo me diz que ela não mais existe.

 


A mulher-biblioteca... – Imagens: Arte da artista Ana Santiago. - Desfiava então fiapos de sonhos e afazeres por trezentas vezes tantos dias de não deu ou deu não e extrema solidão. Porque a vida é o que vem depois de ser feliz na grama molhada com o cheiro de coisas agradáveis, até que enfim! E soletrava o nome de tudo que via, o mistério de cada ser e objetos. E a artista que soubera, repentinamente emergiu vigorosa e linda, como se me convidasse pelas dependências do seu ateliê. E fui, entrei e era tudo muito belo e ela me ofertou uma rosa e era o poema (para Marie) do poeta irlandês Seamus Heaney (1939-2013): Amor, aperfeiçoarei para você o menino / Que em meu cérebro com diligência manheira / Cava com pá pesada e faz com relva arrimo / Ou patinha no esterco de funda caleira. / Todo ano eu semeava o metro de jardim. / Com camadas de céspede o muro eu erguia / Para ter distantes galinhas e bacorim. / Todo ano, à entrada deles, o monte ruía. / Ou no lodo sugante eu chapinhava / Com gosto e representava fluidez da caleira, / Mas sempre meus bastiões de argila e vasa / Rompiam-se com a vinda da chuva-criadeira. / Amor, aperfeiçoe para mim este menino / De estreitos e imperfeitos limites quebrando ao léu: / Dentro em novos limites agora, ordene o domínio / E quadre o círculo: quatro paredes e um anel. Fiquei comovido e, ao mesmo tempo, surpreso: dos olhos dela os seus quadros e cerâmicas, cores e risos, e eu me deliciando de sua profusa arte no sorriso poético dos seios de versos e páginas que descobriam seu ventre e coxas e pernas e livros - na minha cabeça ela era bailarina estadunidense Trisha Brown (1936-2017) dançando nua para dinamitar meus pensamentos e emoções. E com a oferta de suas mãos livros emergiam e ela, a mulher-biblioteca, a me dispor do que jamais saberia de todas as coisas e me rendia em lê-la e tudo o mais, até detectar entre os volumes os 31 livros de poemas de Vital Corrêa de Araújo (entre eles, eu vi Revérberos do sal sublevado e Céu – estábulo de relâmpago), os 30 livros de Admmauro Gommes (entre eles Cláudio Veras e a alógica poesia de Vital Corrêa de Araújo e Vate Vital: aspectos da obra poética de Vital Corrêa de Araújo), e muitos outros que me ensinaram ser a vida uma pausa de ondas e luto pelos devires e nada mais restava a não ser inteiro na íntegra gratidão daquele momento. Até mais ver.

 

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segunda-feira, agosto 02, 2021

GEORGES PEREC, ARATA ISOZAKI, CHOPIN & FERNANDO MONTEIRO

 

 

TRÍPTICO DQP – Fragmentos do caos... - Ao som do álbum Chopin: Complete Nocturnes (Harmonia Mundi, 2010), na interpretação da pianista francesa Brigitte Engerer (1952-2012). – Meus passos perdidos pelas calçadas. À esquina, procurei a direção precisa e percebi a aproximação de alguém. Era o arquiteto japonês Arata Isozaki: Quando eu comecei a ter idade para entender o mundo, minha cidade foi incendiada. Paradoxalmente, a mudança se tornaria meu estilo. Assim também a minha terra, queimadas insanas da monocultura açucareira escondiam o rumo. Nem se despediu e mantive a caminhada até a praça, quando dei com um semblante familiar que me seguia. Ele sorriu e o que fazer, não sabia. Fitei melhor e era Georges Perec que me sussurrou: Je me Souviens... Sim? E continuou: Eu me lembro das horas passadas com minha irmã girando um globo terrestre, os olhos fechados, o dedo apontado acima, e de não mexê-lo até que o globo parasse, quando imaginávamos então viagens e encontros... Eu não me lembro do momento de meu nascimento... Je me souviens... Sentou-se e ao seu lado disse-lhe que também me lembrava de muito coisa, inclusive dele que eu sabia morto há muito tempo, como se ninguém desse por seu sumiço, deixando o inacabado 53 Jours, como única pista de um escritor que desapareceu e o leitor que era eu o único acusado pelo crime no seu romance policial. E mais sorriu como se me falasse do Les Choses: une histoire des années soixante (1965), do W, or the Memory of Childhood (1975) e tantas outras escondidas na memória, a ponto da gente perder a noção do tempo e não perceber que a tarde já era noite, hora de voltar. Um aceno de despedida e seguimos lados opostos, a minha cidade era outra tão estranha quanto nunca vista, assim o meu país que se apagou do mapa e me deixou à deriva, entre dores e delícias da vida perplexa, armadilhas de alto risco.

 


A solidão de Chopin... - Os tons pianísticos de longe seguiam meus passos. Logo me veio à memória que Fryderyk era da aldeia Zelowa Wola, polaco de nascimento incerto e que herdou o piano da sua mãe Tekla Justyna. Era uma criança aluada, pálida e sentimental que na escola fazia a vez do retratista talentoso e escritor mordaz, escrevendo cartas parodiando o noticiário. Com sua irmã nas aulas de piano, repassavam o que ainda menino das duas polonesas e logo a atração nos salões: a gola da camisa da criança prodígio. Já Frédéric era de Paris, aquele mesmo do noivado secreto com Maria Wodzińska, até o escancaro com George, ah, Amandine-Aurore Lucile, a baronesa Dudevant e seus inúmeros casos amorosos, o mosteiro de Valldemossa e os prelúdios, a Spring Waltz – mariage d’amour, os Noturnos, Etudes, quantas músicas que ouvi nos recitais de Olga e na sensualidade de Lola, a carta de amor. Não dava nem para lembrar os diagnósticos dos médicos de Mallorca: o primeiro disse que eu iria morrer; o segundo, que eu tinha um último suspiro; e o terceiro, que eu já estava morto. Dava para imaginar o verão de Nohant, a volta a Paris e a Lucrezia Floriani dela, era o fim e um poema de Proust: Chopin, mar de soluços, lágrimas, suspiros, / que um voo de ágeis borboletas atravessa, / a brincar com a tristeza, a apascentar seus giros / seduz, aquieta, sofre, agita, grita, apressa, / ama ou embala, e faz rolar em meio às dores / o doce olvido do capricho teu, fugaz, / como as borboletas embriagadas de flores. / Tua alegria é cúmplice da dor tenaz, / o alado torvelinho amaina os dissabores / das águas e da lua meigo confidente, / príncipe da aflição ou grão-senhor traído, / quanto mais pálido mais belo, entretido / com o sol a inundar teu quarto de doente, / tu te exaltas com a luz, a bem-aventurança / da luz que chora o seu sorriso de Esperança. Nada mais restava senão prosseguir.

 


De Recife & Fernando Monteiro... - Prossigo minha caminhada de volta e nunca chegar, quando alguém indagou: Você viu Mônica? Não. Pelo sotaque era um lusitano perdido na esquina da Guararapes e que voltou para me perguntar se eu tinha visto A mulher da Alameda Linhas Torres e mais uma vez respondi que não e que ele era Aspades que havia se desencontrado do ET que sumira na imaginação de Fernando Monteiro que, por sua vez, esperava Flaubert não sei onde. De resto eu só sabia desde o poema da Memória do mar sublevado (EdUFPE, 1973), uns do Ecométrica (1984) e da peça teatral O rei póstumo (1975), porque era o tempo que eu zanzava acimabaixo do Cais do Apolo ao Derby e que tinha avisado da chegada do Camilo Cela no premiad’A Cabeça no Fundo do Entulho, e só muito depois soube dos poemas de Hiléiade (Reis, 1984) e d’A interrogação dos dias (Encontro, 1984), d’A Múmia do Rosto Dourado do Rio de Janeiro (2001), d’O Grau Graumann (2002) e d’As Confissões de Lúcio (2006), mais nada e sei que tem muito mais de documentários, de prosas, ensaios e outrartes, porque o Recife é o mundo e muito mais. Vou catar, até mais ver.

 

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sexta-feira, janeiro 12, 2018

ADÉLIA PRADO, LÉVINAS, SUZANNE VALADON, FLAUBERT, STIGLITZ, FELIPE COELHO, TOULOUSE-LAUTREC, ANETTE NAIMAN & CLARICE FALCÃO.

DEVARZINHO & EU - Imagem: Sous-bois (1914), da pintora francesa Suzanne Valadon (1867-1938). - O menino Devarzinho passou apressado. Pronde vai nessa carreira? Sequer olhou pra mim, apenas riu gostosamente na correria. Cadê teu pai, menino? Mais se ria e se distanciava. Resolvi acompanhá-lo, chamando-o e ele mais depressa olvidando dos meus reclamos. Subiu uma escadaria íngreme que dava para um bairro periférico. Vai pra onde, meu filho? Ele só ria e seguia pelo aclive, eu ao seu encalço. Quando cheguei lá em cima dei de cara com umas passarelas feitas com táboas – como ele passou por aqui, hem? -, coisa difícil pra mim, tenho problemas com altura. Vi-o atravessando umas três delas, já se preparando para descer o morro do outro lado. Chamei-o e não obtive êxito. Equilibrando como quem via a hora se esborrachar lá embaixo, consegui vencer lentamente, uma a uma das pontes improvisadas e adiantei o passo para alcançá-lo já lá embaixo numa escadaria que ele já embolava aos choros e a perder de vista. Fiz o que pude para chegar rapidamente lá embaixo, quase me arrebento, até aterrissar esbaforido, só encontrei pessoas com olhares desconfiados. Cadê o menino? Ninguém respondia, fitavam-me com ares severos e hostis. Cadê o menino? Eles se entreolhavam e percebi que vinham de todos os lados em minha direção, como se tivesse chegado a hora de me capturar, também. Percebi o mal-estar, girei em torno e percebi todos ao meu redor, sisudos, vingativos. Andando de costas, tropecei em algo, era um misto de rifle/revolver, não sei, sei lá, nunca tinha visto. Era uma arma, empunhei, abri o tambor: duas balas calibre 12, de um lado; várias calibre 38, de outro. Fechei o tambor e encarei a turba, agora parada, à espreita. Vi quando se mexeram no interior de um compartimento com balcão e me dirigi para lá: Cadê o menino? Ignoravam minhas perguntas, me tinham por invisível. Vi um policial que vinha em minha direção. Agora vamos resolver, pensei comigo, a polícia já chegou. Ao contrário começou a me inquirir, logo apareceram outros. Pediram minha arma enquanto eu explicava o ocorrido. Um deles, parecendo-me de patente superior, veio conversar comigo em tom ameaçador. Fizeram-me sentar numa maca. Logo um dos policiais se aproximou de mim e cravou um instrumento metálico na minha nuca, dizendo: Não vai doer nada. Ao dizer isso, ouvi que outros tantos policiais e os demais populares que presenciavam tudo caíram na gargalhada. Senti algo penetrando pelo meu cérebro, rasgando até alcançar-me a boca pelo lado de dentro do meu crânio, como se fosse uma broca odontológica limpando meus dentes por dentro. Aos poucos fui ficando sonolento, perguntavam-me coisas que nem entendia o que era, uma dor de cabeça tremenda e a ordem do comandante pra que eu respondesse às suas perguntas. Um deles avançou sobre mim com ameaça, encostando um objeto pontiagudo sobre o meu arco zigomático, deslizando até a têmpora, no qual ouvi um estampido e fez-se um silêncio absurdo. Nada mais ouvia e, acho que adormeci. Despertei à beira de um lago que dava em um caminho sinuoso até uma mata. A paisagem me era familiar, acho, tinha a certeza de que depois da mata era Água Preta, essa a minha crença, o que me deu ânimo de levantar, seguir a estrada contornando o lago que mais parecia um brejo à segunda olhada, o brejo da minha infância no quintal da minha avó. Trilha que não sabia, temores inatos, a busca por abrigo. A paisagem mudava a cada passada, ora uma campina, doutra um agreste, chão quente sob os pés descalços, sertão dos mandacarus, litoral da areia praieira. Segui adiante e o mistério rondava os meus passos em cada estação que se confundia primavera a verão, outono a inverno. Enfrentei tudo na jornada, lua minguante, cheia, crescente e nova. Aprendi a cara ao vento, poeiras e pedras do solado às faces. Sempre me guiei pro leste. Mas não há só leste, e tive de percorrer de norte a sul, até o oeste, passando por frustrantes dificuldades, não sabia o que me esperava, superava empecilhos com espírito de explorador pelo inexplorado, cego sem guia. Peregrino solitário, eu decidi empreender minha jornada por meus próprios esforços e sacrifícios, a minha tribulação sem mapa, sem rumo certo, por vacilações e situações auspiciosas, trovões, relâmpagos. Ousava seguir pro desconhecido, a densa mata, treva na qual eu perdi a noção do tempo e espaço, sabia: estou real agora, sou eu. Quero ir mais longe, onde vivo, o lugar que ocupo, o papel que desempenho, ah, nem sei mais nem quem sou, e penetro por meu esforço até onde me levar, não sei, não há consenso, nunca haverá, não tenho convicções, estou perdido no breu profundo de uma noite sem estrelas, entre batidas de asas, bafos, grasnados, alaridos estranhos, lufadas, silvos, rastejados, estalidos, todos os fantasmas e as sinistras sensações da escuridão na minha caminhada. Eu só tinha a mim mesmo, nada mais. Quanto mais andava, mais sentia a vida se distanciando. Seguia, ia, não era a vida que se distanciava, agora eu sei, era eu mesmo que me descobria a mim mesmo. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.

RÁDIO TATARITARITATÁ:
Hoje na Rádio Tataritaritatá especiais com a música do violonista e compositor Felipe Coelho: Cata Vento, Musadiversa & Telhados; da cantora, atriz, compositora, roteirista e humorista Clarice Falcão: Monomania & Problema meu; & muito mais nos mais de 2 milhões de acessos ao blog & nos 35 Anos de Arte Cidadã. Para conferir é só ligar o som e curtir.

PENSAMENTO DO DIA - [...] A inovação está no coração do sucesso de uma economia moderna. A questão é como melhor promove-la. Os países em desenvolvimento são mais pobres não só porque têm menos recursos, mas porque há um hiato em conhecimento. Por isso, o acesso ao conhecimento é tão importante. [...]. Pensamento do economista e Prêmio Nobel de Economia de 2001, Joseph Stiglitz.

O DESEJO & A ALTERIDADE - [...] O desejo metafísico tende para coisa totalmente outra, para o absolutamente outro [...] Na base do desejo comumente interpretado encontrar-se-ia a necessidade: o desejo marcaria um ser indigente e incompleto ou decaído de sua grandeza passada. Coincidiria com a consciência do que foi perdido. Seria essencialmente nostalgia, saudade. Mas, desse modo, nem sequer suspeitaria o que é o verdadeiramente outro... Porque se fala levianamente de desejos satisfeitos ou necessidades sexuais ou, ainda, de necessidades morais e religiosas... O desejo metafísico tem outra intenção, deseja o que está além de tudo o que possa simplesmente completá-lo, como a bondade e o Desejado não o cumula mas o escava. Generosidade alimentada pelo Desejado, relação que não é desaparecimento da distância, não é aproximação ou, tomando de mais perto a essência da generosidade e da bondade, relação cuja positividade vem do distanciamento, da separação... Distanciamento que só é radical se o desejo não é possibilidade de antecipar o desejável, não pensa previamente e vamos para ele numa aventura, isto é, para a alteridade absoluta, inantigível, como vamos para a morte... [...] Para o Desejo esta alteridade, inadequada idéia, tem um sentido. É entendida como alteridade de Outrem e como do Altíssimo... Morrer pelo invisível, eis a metafísica. Extraído da obra Totalidade e infinito (70, 2008), do filósofo francês Emmanuel Lévinas (1906-1995). Veja mais aqui e aqui.

FRASES DE SUZANNE VALADON – [...] Não se pode fazer nada muito bem a não ser com muito amor. [...] A natureza me traz o controle da verdade sólida para a construção de minhas telas, concebidas por mim, mas sempre motivadas pela emoção da vida. [...] Três grandes mestres, tirei o melhor de cada um deles, de seu ensinamento e de seu exemplo. Eu me encontrei, me fiz e disse, creio, o que tinha a dizer. [...] Sou atéia, já que nunca vou à igreja. Sejamos francos, de que serve isso? No entanto, ninguém bate em vão à minha porta. Trechos extraído da obra Suzanne Valadon (Martins Fontes, 1989), de Jeanne Champion, sobre a pintora francesa pós-impressionista Suzanne Valadon (1867-1938), Marie-Clémentine Valade de nascimento, personalidade marcante na cena artística parisiense no período que precede o cubismo. Na sua vida de filha de mãe solteira que era lavadeira, foi garçonete dos cafés e acrobata, Por sua beleza impressionante, tornou-se modelo de Renoir, Puvbis de Chavannes e Toulouse-Lautrec e iniciou-se na pintura com Edgar Degas. Foi amante de Van Gogh, Guaguin, Picasso e Modigliani, além do compositor Erik Satie. Com exposições bvem sucedidas, logo a sociedade burguesa ficou muito chocada com a sua arte, que a par da sua conduta sexual, desafiava as convenções. Veja mais aqui.

SALAMBÔ - [...] Salambô apeara-se da liteira, mas continuava a caminhar sob o dossel, muito vagarosamente. Depois atravessou o terraço para ir assentar-se no fundo, numa espécie de trono, feito de uma casca de tartaruga. [...] Desde os tornozelos até aos quadris, estava envolvida numa rede malhas muito pequenas, imitando as escamas de um peixe e que luziam como nácar; o corpo era-lhe cingido por uma faixa azul, na qual, por duas aberturas em forma de crescente, se lhe viam os seios, de cujas pontas pendiam grandes pingentes de carbúnculos. [...] Salambô, tendo assim o povo a seus pés, acima da cabeça somente o firmamento, em torno de si a imensidade do mar, o golfo, as montanhas e as perspectivas das províncias, confundia-se resplandecente com Tanit e parecia ser o próprio gênio de Cartago, a sua alma personalizada. [...]. Trecho extraído do romance histórico Salambô (1862 - Chardon, 1905), do escritor francês Gustave Flaubert (1821-1880). Veja mais aqui, aqui, aqui e aqui.

COM PERDÃO DA PALAVRA, QUERO CAIR NA VIDA: Meu coração bate desamparado onde minhas pernas se juntam. É tão bom existir! 1. Objeto de amor: De tal ordem é e tão precioso / o que devo dizer-lhes / que não posso guardá-lo / sem a sensação de um roubo: / cu é lindo! / Fazei o que puderdes com esta dádiva. / Quanto a mim dou graças / pelo que agora sei / e, mais que perdôo, eu amo. 2. Entrevista: Um homem do mundo me perguntou: / o que você pensa do sexo? / Uma das maravilhas da criação eu respondi. / Ele ficou atrapalhado, porque confunde as coisas / e esperava que eu dissesse maldição, / só porque antes lhe confiara: / o destino do homem é a santidade. / A mulher que me perguntou cheia de ódio: / você raspa lá? Perguntou sorrindo, / achando que assim melhor me assassinava. / Magníficos são o cálice e a vara que ele contém, / peludo ou não. / Santo, santo, santo é o amor que vem de Deus, / não porque uso luva ou navalha. / Que pode contra ele o excremento? / Mesmo a rosa, que pode a seu favor? / Se "cobre a multidão dos pecados e é benigno, / como a morte duro, como o inferno tenaz", / descansa em teu amor, que bem estás. Poemas da escritora, professora e filósofa Adélia Prado. Veja mais aqui.

A ARTE ANETTE NAIMAN: NAVALHA NA CARNE & OUTRAS CENAS
A atriz formada em cinema e televisão e fundadora do Teatro Garagem, Anette Naiman, mantém sua trajetória com a proposta de fazer um teatro independente, libertário e transformador. Atualmente ela está em cartaz com o espetáculo Navalha na carne, de Plínio Marcos, com direção de Marcos Loureiro, todas as quartas e quintas, às 21hs, no Teatro Garagem - Rua Silveira Rodrigues, 331a – Vila Romana (SP). Informações (11) 99122-8696, temporada até o dia 08 de fevereiro. Veja mais aqui, aqui & aqui.

Veja mais:
A arte de Toulouse-Lautrec aqui, aqui e aqui.
A vida solta no calor do coração, a música de Teodora Dimitrova, a escultura de Carlos Baez Barrueto, a fotografia de Claudia Rogge & a pintura de Robert Delaunay aqui.
Ah esse olhar no Crônica de amor por ela, Marc Augé, Rubem Braga, Wolfgang Amadeus Mozart, Gabriela Mistral, Mitsuko Uchida, Analy Alvarez, David Nutter, Francisco Ribera Gomez, Kate Holmes, Carmen Verônica & Iolita Domingos Barbosa Campos aqui.
Tarsila do Amaral, Hannah Arendt, Edward Grieg, Eleanor Gibson, Lígia Moreno & Rubem Braga aqui.
De antemão & Fecamepa aqui.
A mulher celta aqui.
A mulher suméria aqui.
Prelúdio aqui.
Só a poesia torna a vida suportável aqui.
Escapando & vingando sonhos aqui.
Só desamparo no descompromisso social aqui.
Literatura e história do teatro aqui.
Pequena história da formação social brasileira de Manoel Maurício de Albuquerque aqui.
A linguagem na filosofia de Marilena Chauí aqui.
A poesia de Chico Buarque aqui.
Vigiar e punir de Michel Foucault aqui.
A teoria da norma jurídica de Norberto Bobbio aqui.
Como se faz um processo de Francesco Carnelutti aqui.
As misérias do processo penal de Francesco Carnelutti aqui.
Todo dia é dia da mulher aqui.
Livros Infantis do Nitolino aqui.
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CRÔNICA DE AMOR POR ELA
A arte da pintora francesa Suzanne Valadon (1867-1938). 
Veja mais aquiaqui.

segunda-feira, novembro 06, 2017

FLAUBERT, SOMERSET MAUGHAN, SOPHIA BREYNER, ELZA BARROSO, SONIA FÁTIMA DA CONCEIÇÃO, KENNETH BURKE, AMARAJI & ITINERÁRIO MUSICAL DO NORDESTE.

E ISSO É TUDO A VIDA TODA NO CAOS – Já vai longe o tempo em que eu me empolgava avexado na buraqueira, enfrentando os meus moinhos e dando azo à perseguição dos desejos. Ah, quanta coisa esdrúxula me era importante, já passou, não mais. Rio. Não era demais toda irrisão diante da minha conspícua investida na surpresa das inclementes quedas patéticas. Nada mais risível, avalie. Eu atraio estranhos afetos e coisas do outro mundo. Além do mais, vejo o imperceptível que é usualmente insignificante para todos: um desplante pra quem sempre foi tratado por disparatado. As surpresas ao final eram nada mais que previsíveis desastres. Batia, persistia, insistia e até perseverava na minha credulidade tola: jamais admitido em nada, estornado pelas costas ou por insultos tácitos. Precisei de muito até ser abatido pela ruína, às vezes me tornando cáustico, impertinente, metido em desregramentos, até obscenidades, esborrando revoltas que evanesciam ao primeiro sinal de chance proutras pelejas. Resignava insatisfeito, pudera. Cabeça a mil, aprendia, recomeçava do zero. Quando aprumava pro êxito, lamúrias alheias me faziam abdicar na horagá. Tanto renunciei que nem júbilos interessam mais, reduzi-me à existência enclausurada, apartada do mundo. Deixei para trás os arroubos, ambições, tudo esfacelado na dispersão do tempo: desapontamentos são lições valiosas. Deixei para trás coisas até hoje sem solução, acho. Pronde vou, sempre o rebanho humano em sentido contrário, uns atrás dos outros, aceno e me são indiferentes, seguem importunos pro cenário da libação das virtudes corrompidas, enquanto lívido e perplexo encaro os desafios dos conflitos de meu tempo. O que importa é que se deram bem, eu recomeço das cinzas, juntando pedaços que sobraram de mim mesmo, quase nada. Refaço silente e insistente, transgrido para padecer de dores por todo corpo, quando não sucumbo de vez entre a sístole e a diástole: não sou a primeira nem a última criatura entre o deleite e o desespero, desejos por satisfazer, sofrimentos por evitar. A despeito de mim mesmo, apesar de ignorado, parece que alguém me lê às escondidas, quase ninguém se atreve a me escrever, ninguém ousa interlocução. Os meus inimigos sempre estiveram dentro da minha casa, entre meus familiares, quando não ao redor e à espreita de qualquer bocejo meu. Nunca me importei com isso. Hoje desapressado – talvez sinal da minha precoce senectude -, ainda assim transgrido de mim mesmo reiterada e recorrente a duvidar do que penso ou de me ver equivocado com frases que possam ser particularmente felizes, ou não. Talvez acerte, quem sabe, aprendi o erro e persigo circunspecto pelos princípios imutáveis que governam as mudanças. E se vou longe, não sei, sirvo-me do horizonte para saber da infinitude que reluz oculta no meu coração. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.

RÁDIO TATARITARITATÁ:
Hoje na Rádio Tataritaritatá especiais do pianista, maestro e compositor Marlos Nobre: Yanomami for choir & guitar com o Coro Cervantes, Passaglia for Orchestra & Três Cantos de Yemanjá for cello & piano; da compositora russa Galina Ustvolskaya (1919-2006): Symphony nº 2 & Poem nº 1; do compositor, regente, professor e jornalista Gilberto Mendes (1922-2016): Alegres trópicos, um baile na Mata Atlântica, Piano solo & Saudades do Parque Balneário Hotel com a OSESP; e da pianista Miriam Ramos interpretando o compositor, regente e flautista Octavio Maul & o maestro e compositor Ricardo Tacuchian. Para conferir é só ligar o som e curtir.

PENSAMENTO DO DIA – [...] O que me parece mais belo, o que eu mais gostaria de fazer, seria um livro acerca de nada, um livro sem nenhum vínculo exterior, mas sustentado pela força interna do estilo [...] um livro que quase não tivesse assunto, ou pelo menos, em que o assunto fosse quase invisível, se tal é possível. As obras mais belas são as de menos matéria [...] Acredito que o futuro da arte esteja em tais canais. [...]. do escritor francês Gustave Flaubert (1821-1880). Veja mais aqui, aqui & aqui.

CAMBÃO TORTO, AMARAJI - O povoamento de Amaraji teve inicio em 1868. Tomou vulto, pouco a pouco, devida a uma geira que ali se realizava, o que deu lugar à construção de casas comerciais e muitas outras, para residência de moradores vindos de partes mais distantes para dedicar-se ao pequeno comercio e aos misteres agrícolas. O povoamento teve rapico desenvolvimento, e os viandantes e moradores chamavam a nascente povoação pelo de Cambão Torto. Depois de algum tempo, essa denominação foi mudada para São José da Boa Esperança, que teve o predicamento de vila pela Lei munciipal 2137, de 09 de novembro de 1889. Foi desmembrada do município de Escada. A sua instalação ocorreu em 11 de outubro de 1890. Tomou, então, o nome de Amaraji. Foi elevada à categoria de cidade pela Lei estadual 991, de 1 de julho de 1909. Administrativamente, o município é formado pelo distrito-sede e pelo povoado de Demarcação. Atualmente, no dia 01 de julho, Amaraji comemora sua emancipação política. [...]. Extraído da Enciclopedia dos municípios do interior de Pernambuco (FIAM/DI, 1986), Veja mais aqui.

A ARTE E O ARTISTA - [...] Toda a gente tem predicados de artista em criança, ainda mais verdade é que toda a gente tem índole de artista na adolescência [...]. De vez que a Arte, com tornar-se um fim em si mesma, se tornava um problema do indivíduo – ou, com tornar-se um problema do individuo, se tornava um fim em si mesma [...] A inteligência talvez seja um funcionamento inadequado dos instintos, ou os primórdios de instintos que ainda não se cristalizaram [...] em relação às estrelas, um homem não tem maior importância que um gafanhoto. [...] Um autor que vive a maior parte de sua vida mentalmente tem de cometer suas transgressões no papel. [...] A blasfêmia é um experimento sério, uma transgressão por via dos pecados alheios. Blasfemar é restabelecer os deuses perdidos renunciando a eles; a blasfêmia é a luta de uma natureza emotiva, um protesto contra o intelecto que tende a torná-lo estéril de êxtases religiosos. A blasfêmia é ímpia, mas não irreligiosa. [...] A verdade, em Arte, não é a descoberta dos fatos, não é um acréscimo ao conhecimento humano, no sentido científico do termo. É, antes, o exercício da propriedade humana, a formulação de símbolos que enrijecem nosso senso de equilíbrio e ritmo. A verdade artística é a exteriorização do gosto. [...]. Trechos extraídos da obra Teoria da forma literária (Cultrix, 1979), do filósofo e teórico da literatura estadunidense Kenneth Burke (1897-1993). Veja mais aqui.

FÉRIAS DE NATAL –[...] Dançar com uma moça inteiramente nua acima da cintura era para Charley uma sensação nova e emocionante. Ao pousar a mão naquele corpo e ao sentir aqueles seios nus colados a seu peito, perdeu o fôlego. A mão que segurava era pequena e macia. Charley, sendo um rapaz bem-educado, de boas maneiras, sentiu necessidade de entabular uma conversa polida. [...]. Trecho extraído da obra Férias de Natal (Globo, 2003), do escritor britânico William Somerset Maughan (1874-1965). Veja mais aquiaqui.

UM DIAUm dia, gastos, voltaremos / A viver livres como os animais / E mesmo tão cansados floriremos / Irmãos vivos do mar e dos pinhais. / O vento levará os mil cansaços / Dos gestos agitados irreais / E há-de voltar aos nosso membros lassos / A leve rapidez dos animais. / Só então poderemos caminhar / Através do mistério que se embala / No verde dos pinhais na voz do mar / E em nós germinará a sua fala.  Poema extraído da Antologia (Portugália, 1968), da poeta portuguesa Sophia de Mello Breyner Andresen (1919-2004). Veja mais aqui.

NEGRINHA, DE SÔNIA FÁTIMA DA CONCEIÇÃO
O olhar perde-se
infinidades de dúvidas
ondas em cirandas
cercando a infância
de sanhas insanas
decepastes as bonecas
em mares de indiferenças
mergulhei fundo, contive
em tuas entranhas, brincos
brincadeiras indescritíveis
arrastada às cozinhas abastadas
percorri impassível entre:
brilhos, bombril, resmungos,
choros da criança que sou
e que não era eu
O sol do meu sorriso
derrama-se em felicidades ingênuas
Irascível - a ira - derrama-se
incandescente em teu coração
Negrinha! Tiziu!Tição!
ressoam ventos adormecidos
em desertos de sal
Tu me atinges
O coração rios em chama
a margem - revolta
Torrentes tempestuosas
arremessam ao infinito
tua tentativa ingênua
de romper castelos, fadas
cirandas, infância.
Poema extraído dos Cadernos Negros (Autores, 1981), da escritora Sonia Fátima da Conceição. Veja mais aqui.

ITINERÁRIO MUSICAL DO NORDESTE
A coletânia Itinerário Musical do Nordeste (Massangana, 2011), lançado pela Fundação Joaquim Nabuco (Fundaj) reúne 10 cds e um livro com sonoridades de cultos afros-brasileiros, tais como cerimônia de Obori, jurema, orixás, tambor de mina e Casa Nagô, além de bandas de pífanos, ciranda, tambor de crioula, maneiro-pau, coco de embolada, aboio, incelência, reisado, guerreiro, histórias e cantigas. Os CDs reúnem Orixás, Jurema/Obori, Tambor de Mina/Casa de Nagô, Ciranda/Tambor de Crioula, Banda de Pífanos, Repentistas, Reisado/Guerreiro, Maneiro-Pau/Coco de Embolada, Aboio/Incelência e Histórias/Cantigas. A pesquisa foi realizada pelo então sociólogo da Fundaj, Enemerson Muniz, juntamente com os pesquisadores José Jorge de Carvalho, Rita Segato e Cristina Machado, registrando sonoridades apuradas em expedição realizada de Alagoas ao Maranhão, em uma parceria com o Instituto de Etnomusicologia e Folclore de Caracas (Um presente da conterrâneamiga Graça Lins, obrigado).

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CRÔNICA DE AMOR POR ELA
A arte da fotógrafa e artista plástica Elza Barroso
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sexta-feira, junho 12, 2009

FLAUBERT, SCHILLER, PETRÔNIO, LUMIÈRE, MARK MELLON, LAVOISIER, SOPHIE SCHOLL, CORDEL & POETAS DE PERBAMBUCO

 
Imagem: A Guide Through The Chaos, do pintor, escultor e desenhista estadunidense Mark Mellon.

O QUE A VIDA TEM ME ENSINADO – (Imagem: arte do pintor, escultor e desenhista estadunidense Mark Mellon) – UMA: DO QUE NÃO SE ESQUECE & VOLTA VEZ EM QUANDO ATORMENTANDO - De tudo que levei, apanhei ou perdi, ficaram algumas lembranças, outras perdidas, muitas revoltas e intermitentes. Quando menos espero, lá está viva na memória, doendo ou, às vezes, felicitando. Nem sempre a gente recorda coisas boas, até aquelas situações mais deprimentes se fazem de volta, viva, para envergonhar ou punir. Já dizia Flaubert: A recordação é a esperança do avesso. Olha-se para o fundo do poço como se olhou para o alto da torre. É isso, alguns segredos intocáveis, outras fraquezas irreconciliáveis. DUAS: UM PASSO EM FRENTE, QUANTOS ATRÁS - Sempre tive comigo de seguir em frente, houvesse o que fosse de abissal, nunca me intimidei. É certo que fiquei depois duns desapontamentos um bocado de tempo abatumado. Mas sempre levantei cuidando das fraturas e cortes. Foi Schiller quem me ensinou: É a vontade que faz o homem grande ou pequeno. E o melhor: foi ele mesmo que me ensinou a dar a cara à tapa: Breve é a loucura, longo o arrependimento. Nunca dei muito espaço para a compunção no palimpsesto da memória, se bem que os remorsos rondam invariavelmente ao travesseiro. TRÊS: SE LEVASSE A SÉRIO JÁ TERIA MORRIDO - Considero que sempre defendi causas, muitas delas difusas, algumas bem particularizadas. Estas as que me levaram a dar com a cara na parede, sempre por que achava que a coisa acertada, apalavrada, de papel passado e celebrado ao final, jamais perderia vigência. Acordo comigo é como fiapo de bigode: tirado, não volta mais, fechadíssimo. Não é lá muito bem assim as coisas desse meu Brasil do Fecamepa: coisas enterradas de décadas ressuscitam, desenvultam! Juro que não sabia. Sempre levei na conta do Lavoisier: Consideramos isso concluído e sem possibilidade de retorno à antiga ordem. Ledo engano, não era mesmo, por mais que eu insistisse: Depois da Constituição de 1988, meu país seguiria rumo à plena Justiça, nunca mais injustiça. Eu havia deixado escapulir essa do cientista: Não devemos confiar em nada além de fatos. Só que aqui os fatos também são escusos, só me salvo porque levo a Rosa Branca de Sophie Scholl no peito. Vou ali, até amanhã! © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados.


DITOS & DESDITOS - O que importa a minha morte, se através do nosso exemplo milhares de pessoas acordarão e começarão a agir. Pensamento da pacifista alemã Sophie Scholl (1921-1943). Veja mais aqui.

ALGUÉM FALOU: Ele deixou sua pegada na pedra. Ele mesmo seguiu. Provérbio Lamba, Zâmbia. Veja mais aqui.

A MATRONA DE ÊFESO - [...] Na noite seguinte, o soldado, que vigiava as cruzes para que ninguém pudesse retirar algum corpo e sepultá-lo, notou uma luz que brilhava mais forte entre as tumbas e ouviu um gemido lastimoso. Por um defeito da espécie humana desejou saber quem ou o quê os produzia. Desceu, pois, até o sepulcro, e tendo se deparado com uma belíssima mulher, primeiramente ficou perturbado, como se diante de algo sobrenatural ou de imagens infernais; em seguida, vendo também o corpo que jazia e considerando as lágrimas e o rosto machucado pelas unhas, convenceu-se (evidentemente, do que se tratava) de que a mulher não podia suportar a perda do falecido. Levou então para o sepulcro o seu parco jantar e começou a exortar aquela mulher em prantos a não permanecer numa dor inútil, não partir o coração em gemidos vãos: “A todos cabe o mesmo fim e a mesma morada”, e outras coisas que são ditas para a saúde de espíritos enfermos. Ela, porém, tocada por aquele consolo obscuro, feriu mais duramente o peito e arrancando cabelos lançou-os sobre o corpo que jazia. O soldado, no entanto, não recuou, mas com a mesma exortação tentou dar algum alimento à pobre mulher, até que a escrava, seduzida pelo aroma do vinho, primeiro estendeu a mão vencida à humanidade daquele tentador, em seguida, reanimada pela bebida e pelo alimento, começou a lutar contra a obstinação de sua senhora [...] Por que retardo por mais tempo? A mulher, na verdade, também não se absteve naquela parte [do corpo], e o soldado vitorioso ganhou uma e outra. Deitaram-se, pois, juntos não só essa noite, que a fizeram de núpcias, mas a seguinte e a terceira também, com a porta do sepulcro trancada, evidentemente, de forma que se alguém tivesse ido ao túmulo, conhecidos ou desconhecidos, teria pensado que a pudicíssima esposa havia expirado sobre o corpo do marido. [...] O soldado serviu-se do engenho daquela sapientíssima mulher, e no dia seguinte o povo se admirava de que forma o morto tinha voltado à cruz. [...]. Trecho extraído da obra Satyricon (Civilização Brasileira, 1970), do escritor e satirista romano Petrônio (27-66 dC). Veja mais aqui e aqui.


L'ARRIVÉE D'UN TRAIN EN GARE DE LA CIOTAT – O curta francês L'Arrivée d'un train en gare de La Ciotat (ou L'Arrivée d'un train à La Ciotat, 1895), dos irmãos Louis Lumière e Auguste Lumière, foi um dos primeiros filmes a serem apresentados publicamente pelos irmãos Lumière, na cave do Boulevard des Capucines em Paris. O filme possui a duração de apenas 1 minuto, com um plano em perspectiva diagonal a partir da estação e um argumento mínimo quase postal em movimento, criando pânico até hoje entre os espectadores que não estão preparados para a surpresa da ilusão cinematográfica. Durante a sua primeira exibição pública, os espectadores começaram a gritar e a fugir para o fundo da sala quando viram o comboio como se fosse soltar do ecrã. É o primeiro plano-sequência da história do cinema. Veja mais aqui e aqui.

POETAS DE PERNAMBUCO
CICERO MELO
JUAREZ CORREYA
RISOMAR FASANARO


SIDRIÃO E MARISTELA OU A GOIABA DA DISCÓRDIA



Sidrião e Maristela
Um casal recém casado
No fulgor da juventude
Cada qual mais empolgado
Procuravam o diferente
O ousado, o inusitado.

Dentro de casa não tinha
Mais lugar onde o casal
Já não tivesse explorado
Como cenário ideal
Para suas cenas tórridas
Cada qual mais radical.

Eis o motivo porque
Suas mentes criativas
Do lado externo das casas
Descobriram alternativas
De dar vazão aos desejos
De formas mais atrevidas.

Por isso quando um barulho
Lá no quintal foi ouvido
Por ser noite, Maristela
Foi junto com seu marido
Verificar o que diabo
Ali tinha acontecido.

Nada de errado viram
E por isso relaxaram
E sob um pé de goiaba
A lua cheia avistaram
E nesta contemplação
A mesma coisa pensaram.

Subiram na goiabeira
Sem qualquer dificuldade
Porque quando se é jovem
Tudo sempre é novidade
E o espírito de aventura
Promove a facilidade.

Procuraram entre os galhos
A posição ideal
E depois de acomodado
O criativo casal
Começou a brincadeira
No chamego trivial.

Goiabeira, todos sabem
Não tem copa tão frondosa
Se alguém passasse perto
Naquela hora ditosa
Haveria de flagrá-los
Nessa cena indecorosa.

Mas o breu que a noite trás
Camuflou a brincadeira
Ninguém ali percebeu
Essa dupla presepeira
Trepando de forma ambígua
Nos galhos da goiabeira.

No momento mais febril
No furor da emoção
Agitaram-se os galhos
Parecendo um furacão
Caíram tantas goiabas
Que chega cobriu o chão.

Primeiro foram as maduras
Depois caíram as inchadas
E até goiabas verdes
Também foram derrubadas
Dando idéia do alvoroço
Das cenas ali passadas.

Ao cair batiam neles
Pensa que se importaram?
Quanto mais frutos caíam
Mas eles se alvoroçaram
Até quando foi a hora
Que eles se acalmaram.

Tem coisa que acontece
E não tem explicação
Não é que uma goiaba
Ao cair não foi ao chão
Caiu no cofre dos peitos
Mas ela não deu fé não!

Desceu do pé de goiaba
O casal bem satisfeito
E no livro de aventuras
Escreveu mais este feito
Foi aí que Maristela
Viu a goiaba no peito.

Ela pegou a goiaba
E disse: - eu vou guardar
Como lembrança de hoje
E queira se controlar
Não toque nesta goiaba
Se não quiser apanhar.

E assim foram pra casa
Pro descanso merecido
Ela deitou-se primeiro
Não esperou o marido
Foi dormir bem satisfeita
Com o que tinham vivido.

Ele ficou por ali
Qual menino atrás de trela
Com pouco mais ... quem acorda?
Sua mulher, Maristela
Com o danado querendo
Comer a goiaba dela.

Maristela deu uma popa
Que o chão estremeceu
- Não vou dar minha goiaba
e você me prometeu
que a deixaria em paz
será que já se esqueceu?

Se eu lhe der minha goiaba
Sei que vai ser uma dor
Ela é muito especial
Tem importante valor
Por isso pode tirar
Cavalo da chuva, amor.

Por que não come outra coisa
Eu faço com todo gosto
Ele gritou: - Eu não quero!
Com sangue corando o rosto
Eu quero é sua goiaba
Não me dê esse desgosto.

Maristela, que besteira
Me dá logo essa goiaba
Vai terminar dando o bicho
Aí teu prazer de acaba
Ela disse um NÃO tão alto
Que quase a casa desaba.

Ela foi firme e não deu
Sua goiaba ao marido
Ele achou uma desfeita
Um capricho sem sentido
E desse dia em diante
Foi ficando aborrecido.

Com o tempo a tal goiaba
É claro que se estragou
Sidrião tomou abuso
A mulher abandonou
por causa duma goiaba
O casal se separou.

Esse aqui é um exemplo
Cabal de que arrogância
Desrespeito ao semelhante
O orgulho e a ignorância
Roubam paz, causam conflitos
Viva, então, a tolerância!

JOSÉ HONÓRIO – O poeta e bancário pernambucano, José Honório, é formado em Turismo pela Faculdade Integrada do Recife-FIR. Em 1984 publicou seu primeiro cordel: Recife-Carnaval, Frevo e Passo. A partir deste, já publicou cerca de cinqüenta folhetos jogados na praça, além de realizar palestras, oficinas e recitais. Já realizou palestras nas cidades como Genebra, Lousane, Zurich, Basel e Locarno, na Suiça, em 2005 e criou a União dos Cordelistas de Pernambuco-Unicordel. Confira o sitio de José Honório.



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