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terça-feira, junho 12, 2018

DRUMMOND, SLOTERDIJK, ANNE FRANK, LÉVINAS, LOLA JOVANOVIC, JACI BORBA, CHICK COREA & ESTELA CEREGATTI


NÃO FOSSE A CHUVA, JAMAIS SABERIA O SOL – Imagem: arte da artista sérvia Lola Jovanovic - No meio quantas pedras na vida amotinada pelos devires e eu desancorado escancarando escaninho corpalma às desbordas, refém sou da hora iminente, um preito a atar uivos e versos até o ponto final, onde começa a impiedosa sucessão de réstias urdindo pêsames, porque perdi a meada inventada, quantas vezes tão inexata nas cartadas por esquadros simulados e eu sucumbindo à primeira volta. Não mais encontro o nexo, o que fazer da vida ao saber a cada dia três horas de morrer. Sei, a morte não é o fim, é como o complemento do sono, em que a gente não se está cônscio desse plano, a integrar algo bem maior que sequer possa compreender de tão aparentemente inacessível. Talvez a satisfação da etérea ubiquidade. É daí que nasce o meu sentimento visceral desmedido e quero dividir a emoção ao primeiro encontro aos que há tempos debandados da amizade, e falamos a mesma língua, não raro, me flagro como se utilizasse dialeto diverso, ninguém entende, sei lá! Como se a mesma frase, outros sentidos, e um cabo-de-guerra, inexorável condição. Sou impelido ao silêncio diante dos dentes à mostra, entre a paixão e o conflito, a punição e a recompensa, o senso de orientação enquanto conjugo ideias feitas e medidas, parece-me mais um colapso de significados. E de um para outro assunto, assim se confunde e nem se sei mesmo qual dos galhos escapuliu o sentido, escoou pra longe e é só mera conversa fiada sem nexo. Sei que ao lado do que quer que seja tem sempre outro, quando não muitos, e ter a acuidade de saber quando se é ou não na interação com essa descontínua, fragmentária e fugaz situação, decomposta na memória. Pra falar a verdade, nem lembro mais o que era mesmo dito, perdi-me no entusiasmo de não mais invisível estrangeiro do aceno, do aperto de mão, do abraço. Esqueci até mesmo pra onde ia e o que era pra fazer nessas ermas estradas emparedadas. Sei, não fosse o chão, jamais saberia água e morreria de sede no areal. Não fosse a água, nunca saberia a terra nas direções dos quatro cantos. Não fosse o ar, por certo, nem saberia o voo e a queda, em quantos sonhos eu me deixei levar para não acordar morrendo de sono. Não fosse o fogo, as cinzas não me ensinariam a luz das labaredas e a existência seria fria como grão abandonado em qualquer superfície inóspita. Devo saudar a chance de sobreviver no precipício das fronteiras e dos meus próprios abismos – os escuros abismos da inexistência -, a me salvar quando muito incólume no bálsamo do amor. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.

RÁDIO TATARITARITATÁ:
Hoje na Rádio Tataritaritatá especial com a música da compositor e pianista de jazz estadunidense Chick Corea: Eletric Band Live at North Sea Jazz, The Ultimate Adventure & Live Kongsberg Jazz Festival; da compositora, cantora instrumentista e professora, integrante da banda Monofoliar, Estela Ceregatti: Ar, Monofoliar & Ar Live; & muito mais nos mais de 2 milhões de acessos ao blog & nos 35 Anos de Arte Cidadã. Para conferir é só ligar o som e curtir. Veja mais aqui.

PENSAMENTO DO DIA – Acredito que só faz sentido praticar filosofia hoje reavivando a tradição sofista de poder participar de qualquer debate. Quer dizer, precisaríamos de mais formação retórica, precisaríamos reunir nos seres humanos muito mais conhecimento geral de vida, de política, de ciência, de arte. Precisamos voltar a atrair filósofos que sejam decatletas da disciplina teórica. Pensamento extraído de Fronteiras (2016), do filósofo alemão Peter Sloterdijk. Veja mais aqui.

ALTERIDADE & CONTEMPORANEIDADE – [...] É ali na alteridade que abriga infinitamente grande tempo num entretempo intransponível. O um é para o outro um ser que se desprende, sem se fazer contemporâneo do outro, sem poder colocar-se a seu lado numa síntese, expondo-se como tema, um-para-o-outro como um guardião-de-seu-irmão, como um responsável-pelo-outro. [...] a partir do seu rosto – que não está encerrado na forma do aparecer-nu, despojado de sua forma, desnudado de sua presença que o marcaria ainda como seu próprio retrato; pele enrugada, vestígio de si mesmo. [...] Descarga do ser que se desprende [...] Desfalecimento do ser que tomba em humanidade, fato este que não foi julgado digno de consideração pelos Filósofos [...]. Trecho extraído da obra Humanismo do outro homem (Vozes, 1993), do filósofo francês Emmanuel Lévinas (1906-1995). Veja mais aqui.

DEIXE-ME SER EU MESMA – [...] Deixe-me ser eu mesma e então estarei satisfeita [...] Eles sobem todos os dias e falam com os homens sobre negócios e política, com as mulheres sobre comida e dificuldades dos tempos de guerra, e com os jovens sobre livros e jornais. Estampam no rosto as expressões mais alegres, trazem flores e presentes nos aniversários e nos feriados, e estão sempre prontos para fazer tudo o que podem. Não devemos nos esquecer disso nunca; enquanto outros demonstram heroísmo nas batalhas ou contra os alemães, nossos benfeitores provam o seu com a alegria e o afeto. [...] É como que eu vejo as coisas. Temos que seguir em frente. Não importa o quão difícil seja. Não podemos ficar parados; uma vez que você para, está fora do jogo.’ Mas, no final de tudo, somos apenas humanos. E os seres humanos precisam ter algo em que possam se agarrar. Então eu continuei: ‘Naqueles dias sombrios da guerra, nós não ficamos parados, mas sim fizemos o possível para ajudar as pessoas. Arriscando nossas próprias vidas. Nós não podíamos ter feito mais’. [...]. Trechos extraídos da obra Deixe-me ser eu mesmo (Casa Anne Frank, 2015), contando a história de vida da escritora alemã Anne Frank (1929-1945). Veja mais aqui.

O ENTERRADO VIVO – É sempre no passado aquele orgasmo, / é sempre no presente aquele duplo, / é sempre no futuro aquele pânico. / É sempre no meu peito aquela garra. / É sempre no meu tédio aquele aceno. / É sempre no meu sono aquela guerra. / É sempre no meu trato o amplo distrato. / Sempre na minha firma a antiga fúria. / Sempre no mesmo engano outro retrato. / É sempre nos meus pulos o limite. / É sempre nos meus lábios a estampilha. / É sempre no meu não aquele trauma. / Sempre no meu amor a noite rompe. / Sempre dentro de mim meu inimigo. / E sempre no meu sempre a mesma ausência. Poema do poeta, contista e cronista Carlos Drummond de Andrade (1902-1987). Veja mais aqui e aqui.

AS TRAMAÇÕES: LINHA, DE JACI BORBA
Tramações: linha é a exposição da artista visual Jaci Borba, promovida pelo Centro de Artes e Comunicação - Graduação em Artes Visuais – Licenciatura & Programa Associado de Pós-Graduação em Artes Visuais UFPE/UFPB, como parte do projeto de pesquisa e extensão “Tramas na formação de professoras/es para questões de gênero e sexualidades”, fomentado pelo Edital de Apoio à pesquisa em Criação Artística/Proexc/UFPE e pelo Funcultura/2018.

VI Festival de Dança de Itacaré - realizado de 10 e 11 de setembro, no Teatro Municipal de Ilhéus, e de 12 a 16 de setembro, no Centro Cultural Porto de Trás, em Itacaré & muito mais na Agenda aqui.
&
CRÔNICA DE AMOR POR ELA
A arte da artista sérvia Lola Jovanovic.
Veja mais aqui.
&
A história é outra história, Um mundo só de Peter Singer, o cinema de Abbas Kiarostami, Juliette Binoche & Rin Takanashi, a música de Milton Nascimento & Shanghai Spring Art Salon aqui.

APOIO CULTURAL: SEMAFIL
Semafil Comércio de Livros Ltda divulgando os poetas de Palmares PE, nas faculdades Estácio de Carapicuíba e Anhanguera de São Paulo. Organização do Silvinha Historiador, em São Paulo.
 

segunda-feira, maio 07, 2018

QUINTANA, LÉVINAS, JOHN DONNE, ASCENSO FERREIRA, MONTESSORI, ANCA STEFANESCU, RILDO HORA & HÉLÈNE GRIMAUD

TOLINHO, DE PRÍNCIPE A SAPO – Imagem: arte da artista visual romena Anca Stefanescu. - Pronto, desembestou de vez! Ao atravessar o mata-burro de uma instituição bancária, com o intento de dar entrada na documentação de seus direitos securitário-laborais, Tolinho teve um alumbramento: deu de cara com as feições formosas de Enoildita! Bastou isso, das pálpebras dele pararem de piscar, imobilizado ali, plantado, catatônico, estatelado, a firmar um olhar quase hipnotizado pras bandas dela. Oxe, só saiu desse estupor por trombada de um apressado fulo da vida, recompondo-se da perdição. Ajeitou-se, olhou pros lados e entre as filas, escolheu justo a dela. Isso, o alvo. Ela na frente, singela e alheia, afiava sua cobiça, dele ficar de soslaio, tapiando, só conferindo a compleição sedutora, dos pés à cabeça: Essa é das boas, toitiço cheiroso, hummm, olhos agateados, beiços de cangula insultante, um primor; pele mimosa, peitinhos apetitosos, cinturinha de pilão, rabada ancha, coxas roliças, cambitos jeitosos, um colosso, pronta pra casar. Disse pra si: Se assunte, meu véio, você está na frente do povo. Deu-lhe uma comichão nas partes pudendas, dele ligar o alerta! Agoniou-se: Isso é hora de dar vexame, rapaz? Restabeleceu-se probo, pigarreou, apertou a venta, ajeitou a beca, deu nó nas ideias e ficou ali todo sem jeito. A fila andando, ele fazia de desentendido e às olhadelas pros contornos dela. Enfim, ela chegou ao guichê e ele inquieto: Até a voz da mulher é música. Tô lascado. Aí, ao ser atendida a coisa enganchou: faltava uma fotocópia. Virou-se pra ele e falou: O senhor guarda o meu lugar? Surpreendido, ele atordoado, olhos saindo fora: Guardo sim, pode ir. E ficou lá plantado na fila, só queria ser atendido depois dela. E mandou o de atrás passar na frente, e depois outro, mais outro, e assim ficou até ela retornar. Pronto, seu lugar está guardado, pode ir pro caixa. Ela agradeceu com um sorriso, ele quase cai de tontura com tal graciosidade. Não demorou muito, chega a vez dele e ela agradeceu com grande reverência, apertou-lhe a mão afetuosamente, de modo que o mondrongo deu sinal de vida dentro da cueca, e ele: Nada não, senhora. Senhorita. Ah, senhorita, nada não. Só despertou quando o funcionário devolveu-lhe os documentos devidamente carimbados, falando-lhe algo que nem escutou, estava no mundo da lua e sem saber como descer. O que valia mesmo fora a boa ação, mas com o término do atendimento, olhou pra hora: Pronto, perdi a condução de volta, lasquei-me. Ah, mas não perdeu a viagem, Enoildita estava ali na frente conferindo os papeis. Depois de desencontros muitos no quengo, resolveu ir até ela: Tudo certo na sua documentação? Tudo, obrigada. De nada. Eita, perdi a condução! O senhor perdeu o ônibus? Perdi. Ah, tem nada não, fica lá em casa, pode ser? Ah, não seria incômodo? Nada, vamos pra lá? Eu moro logo na entrada na cidade, no Sítio dos Sonhos. Ah, sei onde é, bonito lugar, dá certinho preu pegar o primeiro bigú que passar. Que bom, então vamos. Vamos. E saíram na maior conversa mole, ele pilheriando daqui, ela risadinha de lá, assim por ruas e becos. Ao chegarem ao sítio, os pais dela haviam viajado às pressas por internação de parente numa cidade distante. Os irmãos estavam pelo meio do mundo. Ele e ela, sozinhos. Vixe! O negócio enfeiou. – Pode entrar, se pai chegar, digo que você perdeu a condução e não queria me deixar sozinha, ficou tomando conta de mim. Menina astuta, pensou consigo. E lancharam, papearam a tarde toda, coisa disso, daquilo, gastando hora e anedotas. Na boquinha da noite ela teve um desmaio. Pronto. E agora? O que vão pensar os pais dela, os irmãos, os vizinhos. Ficou que nem uma pata choca: Valha-me, Deus! Depois de muito zanzar dum lado pro outro, qual providência, socorro nenhum, achou por bem de pegar a moça e levar pra primeira cama que encontrou, deitou-a, cobriu-a e ficou futucando ideia do que fazer, afinal. Depois dos pensamentos congestionados, ele não tinha a menor noção do que poderia resolver àquela altura do campeonato. Se saísse, alguém poderia ver; e se ela morresse, ele era o culpado; se ficasse, os pais chegassem, era tarado; não sabia se ficava, fugia ou o que pudesse inventar naquilo tudo. Seja lá o que Deus quiser. E passou a ajeitá-la, conferindo e a se aproveitar da situação. E se arrependia, avançava, o calcanhar, a batata da perna, isso é um estrupício! Os quadris, a pele, os seios, isso é uma desgrama! Começou a alisá-la, acariciá-la. Rapaz, que é que tu estás fazendo? - A voz da consciência dele não dava trégua. E aí, vai ou não vai? Hesitava. Ou trepa ou sai de cima! Ah, destá. Cuidou tanto, rezou pros santos todos, aproximou-se, arrependeu-se de ter ficado. Ah, virou a cara pro perigo, encostou-se nela, beijou-a e, pronto, ela virou-se ainda de olhos fechados, ele arregalou os olhos, retribuiu o beijo e se abraçaram e se acocharam e se esfregaram e crau! Pronto, estava feito. Ele só percebeu tudo quando o dia já amanhecia. Ela sorria do lado dele. Vôte! O que foi que eu fiz? Agora é tarde, pensava. E ela: Vamos tomar café da manhã, já aprontei. Ele levantou-se, dirigiu-se pro sanitário, asseou-se o que pode, voltou, mesa posta, conversaram, comeram e danaram-se a trocar curiosidades, afetos e memórias. Lá pras tantas da manhã, saíram até o portão de entrada, apaixonados, de mãos dadas. Ele nas nuvens, riso nas orelhas. No trajeto passa uma conhecida: Tolinho, rapaz, cadê tu, hômi? Aparece! Tá, tá. E passou uma, duas, três, outra: Tolinho, olha, tem uma encomenda que a Zefa deixou pra tu lá em casa, visse? Viu, vou pegar depois. E assim foi, a ponto de Enoildita ligar o desconfiômetro, olhou pra ele e disse: Olhe, de tudo que aconteceu entre nós, não haverá outra vez! E soltou a mão dele, determinando uma distância regulamentar entre ambos. O coração dele foi pros pés. Lívido, desencontrado, olhou pra ela firmemente e pensou: essa é pra casar. E acompanhou tudo, ela toda chameguenta, pé pra lá e pra cá, sedutora, nada dele nem pensar em voltar pra sua própria casa. Depois de muito queimar as ideias, assuntou: Vou casar com ela. E ali mesmo no acesso ao sítio, virou-se praqueles olhinhos de vida e formalizou o pedido: Quer voar comigo? Poetou, pronto pra deitar a maior lábia. Ela franziu o cenho: Não tenho asas e não sou muito achegada a andar pelos ares, não. E nesse diálogo atrapalhado de asas, céu, pássaros, avoações, frio na barriga, sobe e desce, largadas e chegadas, consumiram a tarde e entraram na segunda noite, ensaiando o voo. Depois do banho, ela de vestidinho curto, provocante e decotado, por baixo só a natureza. Ele não perdeu tempo, avançou e caiu nos beijos, vasculhando tudo no corpo dela, até empunhar no maior afã o sexo acariciando-o no dela, foi só encostar o dedo no pinguelo com jeito, dela ter uns estrimiligues danados, paroxismo dos brabos, do gozo descer perna abaixo fazendo uma poça no chão. Eita! Maior molhadeiro no assoalho. Lavaram a jega madrugada adentro, embaixo dos lençóis, atrás da porta, na pia da cozinha, no canto do quarto, no frio do escuro, no escancaro das janelas, nos arrepios da alma, na embriaguez do amor, nas labaredas das paixões. No outro dia, ela na varanda, ele encostado no muro, apareceu uma vizinha que vinha às carreiras: Tolinho, mãe quer falar com tu, visse? Tá, vou lá depois. E no maior proseado pela manhã entraram pela tarde até chegar a terceira noite, maior idílio, dela descontrolar-se, segurar firme no pingolim dele e ronronar: Se ciscar por aí, corto fora, quero vê-lo capado se me contrariar. Vixe! Tolinho quase teve um troço, do bregueço sair murchando de quase se esconder na pentelheira. Eita, encolheu, foi? Ah, tá com medo. Destá. Aí ela começou com uns beijinhos lá, do cotoco se reerguer sonso, aos pouquinhos, ela numas lambidelas só via a coisa tomar jeito, todo se estirando e ela tome beiçadas pra salivá-lo todinho da baba cair colhões abaixo. Vuque-vuque medonho, na gozada ele deu um curto-circuito de acender o poste. Danou-se! Estava agora amarrado pela paixão, feitiço dela. E pintaram e bordaram, um encangado no outro, até o dia amanhecer ensolarado, papo no oitão de casa, casal apaixonado, do nada surgiu uma daquelas mulheres de fechar quarteirão: Tolinho, meu filho, tem um serviço pra tu lá em casa! Tá, eu vou. Ah, Enoildita amarrou o bode e disse: Vai nada. Ela deu uma freada de fazer greve de beijinhos e sexo. O cabra quase endoida comendo o dia todo até a quarta noite, ele já como tudo quase em paz, se achava um da casa, todo ancho, pensava já em arrumar uma meia água e entocar-se com ela nos cafundós de todas as botas perdidas. Pronto. Ia tudo bem na conversa da calçada, quando cruzou uma ex-namorada dele atrapalhando o papo: Tolinho, rapaz, tais vivo? Saudade de tu, hômi. E foi-se. Aí o tempo fechou, deu o creu. Ela ficou tão amuada de ficar intrigada dele. Tolinho saiu de si. Pra empiorar, os pais dela chegaram e, com eles, um ex dela deu sinal de vida: os olhos dela brilharam, eita! Troca de olhares, cumplicidade. Explicações daqui e dali, os pais desconfiados dele, ela maior papo com o ex. Tolinho com a situação desconfortável e nada a favor, já ia arrumando os mijados pra cair fora, quando ela, então, dirigiu-se pra ele: Sinal amarelo, rapaz! Vixe! Ela mudou da água pro vinho: Vai ver se estou lá na esquina e só me apareça aqui quando eu chamar, tá entendendo? Pronto, acabou-se o mundo. O cabra só faltava chorar, saiu tão angustiado na maior careta, perdido, coçando os cornos e os possuídos, nem sabia pra onde ia nem nada. Conseguiu uma carona na caçamba duma camioneta e foi procurar Bestinha: Bonito pra sua cara! Estava desolado, todo chocho pelos cantos, faróis baixos: Vai se apaixonar, bicho besta, o fim é esse. Ele remexeu nos bolsos, amolegou a peia, enfincou-se na cachaça e até hoje anda enamorado pelas estrelas, luas, dias, ruas, ao léu. O amor é lindo. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.

RÁDIO TATARITARITATÁ:
Hoje na Rádio Tataritaritatá especial com a música do gaitista, violonista, compositor, arranjador, maestro e produtor musical Rildo Hora: O tocador de realejo, Interpreta Luiz Gonzaga & ao vivo Homenagem a Hermeto Pascoal; da pianista francesa Hélène Grimaud: Concerto nº 1 Brahms, Concerto nº2 Rachmaninoff & Concerto in G major Ravel; & muito mais nos mais de 2 milhões de acessos ao blog & nos 35 Anos de Arte Cidadã. Para conferir é só ligar o som e curtir. Veja mais aqui.

PENSAMENTO DO DIA – [...] E o Outro, cuja presença é discretamente uma ausência e a partir da qual se realiza o acolhimento hospitaleiro por excelência que descreve o campo da intimidade, é a Mulher. A mulher é a condição de recolhimento, da interioridade da Casa e da habitação. [...]. O rosto feminino reúne essa claridade e essa sombra. O feminino é o rosto em que a perturbação cerca e invade a claridade [...]. Na inversão do rosto pela feminilidade – nesta desfiguração que se refere ao rosto – a in-significância mantém-se na significância do rosto [...] é o acontecimento original da beleza feminina, do sentido eminente que a beleza assume no feminino [...]. A amada não se opõe a mim como uma vontade em luta com a minha ou como submissa a minha, mas ao contrário, como uma animalidade irresponsável que não diz verdadeiras palavras. A amada retorna à posição da criança sem responsabilidade – esta sedução, esta juventude, esta pura vida ‘um pouco animal’ –, deixou seu estatuto de pessoa. [...]. Trechos extraídos da obra Totalidade e infinito (Ed. 70, 1988), do filósofo francês Emmanuel Lévinas (1906-1995). Veja mais aqui.

EDUCAÇÃO, MAIS OUTRA – [...] a educação não é aquilo que o professor dá, mas é um processo natural que se desenvolve espontaneamente no indivíduo humano; que não se adquire ouvindo palavras, mas em virtude de experiências efetuadas no ambiente. A atribuição do professor não é a de falar, mas preparar e dispor uma série de motivos de atividade cultural num ambiente expressamente preparado. [...] Trecho extraído da obra Mente absorvente (Nórdica, 1949), da pedagoga italiana Maria Montessori (1870-1952), que na obra Pedagogia Científica: a descoberta da criança (Flamboyant, 1965), observou que: [...] A educação é compartilhada pela mestra e pelo ambiente. A antiga mestra ‘instrutora’ é substituída por todo um conjunto, muito mais complexo; isto é, muitos objetos (os meios de desenvolvimento) coexistem com a mestra e cooperam para a educação da criança. [...]. A professora não pode só ensinar. Ela deve ver dentro da alma, para ajudar a criança na sua cura. Ela deve formar a personalidade, não pelo ensino, mas falando à sua alma, ao seu espírito, a sua inteligência, com compreensão, humildade e respeito. [...] Veja mais aqui.

MEDITAÇÕES – [...] É muito pouco chamar um homem de um pequeno mundo; exceto por Deus, o homem é um diminutivo de nada. O homem consiste de mais peças, de mais partes que o mundo; não o que o mundo faz, mas sim o que o mundo é. E se aquelas peças fossem ampliadas [...] o homem seria um gigante, e o mundo, um anão. [...] Nenhum homem é uma ilha, completa em si mesma. Todo homem é um pedaço do continente, uma parte da terra firme. Se um pedaço de terra for levado pelo mar, a Europa fica menor, como se tivesse perdido uma montanha ou a casa de um amigo, ou a tua própria. A morte de qualquer homem me diminui porque faço parte da humanidade. Por isso, nunca mandes indagar por quem os sinos dobram. Eles dobram por ti. [...]. Trechos extraídos da obra Meditações (Landmark, 2007), do poeta, prosador e clérigo inglês John Donne (1572-1631). Veja mais aqui.

CINCO POEMAS - A CANÇÃO DA VIDA: A vida é louca / a vida é uma sarabanda / é um corrupio… / A vida múltipla dá-se as mãos como um bando / de raparigas em flor / e está cantando / em torno a ti: / Como eu sou bela / amor! / Entra em mim, como em uma tela / de Renoir / enquanto é primavera, / enquanto o mundo / não poluir / o azul do ar! / Não vás ficar / não vás ficar / aí… / como um salso chorando / na beira do rio… / (Como a vida é bela! como a vida é louca!) BILHETE: Se tu me amas, ama-me baixinho / Não o grites de cima dos telhados / Deixa em paz os passarinhos / Deixa em paz a mim! / Se me queres, / enfim, / tem de ser bem devagarinho, Amada, / que a vida é breve, e o amor mais breve ainda… EMERGÊNCIA: Quem faz um poema abre uma janela. / Respira, tu que estás numa cela / abafada, / esse ar que entra por ela. / Por isso é que os poemas têm ritmo — / para que possas profundamente respirar. / Quem faz um poema salva um afogado. OS POEMAS: Os poemas são pássaros que chegam / não se sabe de onde e pousam / no livro que lês. / Quando fechas o livro, eles alçam voo / como de um alçapão. / Eles não têm pouso / nem porto / alimentam-se um instante em cada par de mãos / e partem. E olhas, então, essas tuas mãos vazias, / no maravilhado espanto de saberes que o alimento deles já estava em ti… SEGUNDA CANÇÃO DE MUITO LONGE: Havia um corredor que fazia cotovelo: / Um mistério encanando com outro mistério, no escuro… / Mas vamos fechar os olhos / E pensar numa outra cousa… / Vamos ouvir o ruído cantado, o ruído arrastado das correntes no algibe, / Puxando a água fresca e profunda. / Havia no arco do algibe trepadeiras trêmulas. / Nós nos debruçávamos à borda, gritando os nomes uns dos outros, / E lá dentro as palavras ressoavam fortes, cavernosas como vozes de leões. / Nós éramos quatro, uma prima, dois negrinhos e eu. / Havia os azulejos, o muro do quintal, que limitava o mundo, / Uma paineira enorme e, sempre e cada vez mais, os grilos e as estrelas… / Havia todos os ruídos, todas as vozes daqueles tempos… / As lindas e absurdas cantigas, tia Tula ralhando os cachorros, / O chiar das chaleiras… / Onde andará agora o pince-nez da tia Tula / Que ela não achava nunca? / A pobre não chegou a terminar o Toutinegra do Moinho, / Que saía em folhetim no Correio do Povo!… / A última vez que a vi, ela ia dobrando aquele corredor escuro. / Ia encolhida, pequenininha, humilde. Seus passos não faziam ruído. / E ela nem se voltou para trás! Poemas do poeta, tradutor e jornalista Mário Quintana (1906-1994). Veja mais aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
A arte da artista visual romena Anca Stefanescu.
Veja mais aqui.


Semana Ascenso Ferreira, Coração de Areia de Vital Corrêa de Araújo & muito mais na Agenda aqui.
&
As aventuras de Tolinho & Bestinha aqui.
&
Da hipocondria ao aluamento, a música d’Os Mutantes, a fotografia de Omar Roble, a arte de Sergio Martinez Cifuentes & Filipe Gil aqui.
 

terça-feira, março 27, 2018

LÉVINAS, OCTAVIO PAZ, CARL SPITTELER, GÉRARD DE NERVAL, CLÁUDIO SANTORO & SARAH VAUGHAN, GINA PELLÓN, TEATRO & ARTUR AZEVEDO, NEUROEDUCAÇÃO

DE NOTICIÁRIOS, BOATOS E, AFINAL, O QUE É QUE É, HEM? - Imagem: Passagre de le Nuit, da pintura cubana Gina Pellón (1926-2014). - O movimento do blábláblá não tem fim, oh língua ferina! A Rádio Povo ganha nas estatísticas: pior que o boca-a-boca não há. Diz o riscado: caiu na roda ou foi, ou é, ou está pra ser! Todo dia Fulano diz que foi assim, Beltrano diz que foi assado e, ainda, Sicrano diz que não foi nada disso e começa embolando o meio de campo. Que coisa! Foi, não foi, cada um, uma versão. Uns dizem disso, outros daquilo, entender, que bom, ah, ninguém é normal. Tem quem goste de beber água na orelha dos outros e vice-versa. Bisbilhotar a vida alheia é uma prática perniciosa, já costumeira. Tem gente que não dorme antes de saber das últimas da fofocagem. Pois é, tem quem se preste para cada coisa! A calúnia mesmo já virou moda, a boataria já ganhou status de plantão, e como o levantamento de falso arrombou com o Direito brasileiro, agora é só dizer o que quer e bem entender, e se preparar para ouvir o que não quer. Ôpa! Basta cruzar na rua: Quais as novidades? Saber mesmo pra quê! Diz o ditado: a curiosidade matou o gato. Ah, mas quem acumula mais informação sobre um e outro, senão todos, é sabido, fica por dentro de tudo, não corre tantos riscos, livra-se da esparrela. Tem gente que já vive de vender leva-e-traz, ora. Afora os voluntários que adoram ver o circo pegar fogo. Sabia que aquele outro dia escorregou? Foi mesmo? Ah, nem te conto: aquelazinha ali já era. É mesmo!?! Também faliu Zé dos grudes! Nossa! A mulher dele, depois de duas de quinhentos, se mandou! Num diga! Sabe da última? E ainda tem? Nem é tão atual assim. Aí é só o repeteco: deitam amiudada a queimação de filme de quem caiu em desgraça. Tintim por tintim. Você não sabia? Você está por fora meeeesmo! E eu que não sei nem a diferença da repimboca da parafuseta da tarraqueta de Itapipoca? Desliguei. Ora, ora. Não é a mesma coisa? A mesma coisa é um caminhão carregado de japonês com um guará no volante da boleia pensando que é cana-de-açúcar! Aí, sim. Vixe! Ah, por que japonês não fotografa outro? Ué, porque só sai flash! Já dizia Millôr: Deus não existe; se existisse, os japoneses já tinham fotografado. Valha-me! O que é que é? Pronto, virou adivinha. E tem quem dê um doce pra quem matar a charada. E isso estampado em revista popular, nos canais de tevês e nas redes sociais. O povo gosta é de fofoca mesmo, hem? Voyeurismo puro. Onde é que tem um buraquinho pra brechar? Bem, os incomodados mandam logo procurar o da mãe – a dele -, né não? E queimam o próprio rabo: língua falou, cu pagou! Eu, hem! Por bem ou por mal confundiram tudo: comunicação é fuxico, senão difamação, especulação, falatório. Olhe lá onde vai botar esse focinho enxerido, viu? A vida dos outros não é brincadeira! Eu que livre meu espinhaço das más línguas, ô-rô! Tiro o meu da reta e fui! © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.

RÁDIO TATARITARITATÁ:
Hoje na Rádio Tataritaritatá especial com a música do maestro e compositor Cláudio Santoro (1919-1989): Sinfonia nº 5, Sinfonia nº 7 & Ponteio; da cantora estadunidense de jazz Sarah Vaughan (1924-1990): Live in the Michael Fowler Center, Berliner Jazztage & com Duke Ellington Live at the Berlim; & muito mais nos mais de 2 milhões de acessos ao blog & nos 35 Anos de Arte Cidadã. Para conferir é só ligar o som e curtir.

PENSAMENTO DO DIA – À medida que a esfera do trabalho se alarga, a do riso diminui. Tornar-se homem é aprender a trabalhar, a se mostrar sério. Mas se o trabalho humaniza a natureza, desumaniza o homem. Pensamento do escritor e diplomata mexicano Octavio Paz (1914-1998). Veja mais aqui e aqui.

ALTERIDADE - [...] As necessidades elevam as coisas, simplesmente dadas, ao nível de valores. Admiravelmente retas e impacientes na sua visada, as necessidades não se concedem múltiplas possibilidades de significação senão para escolher a via única ao ser, não ao celebrá-lo, mas ao trabalhá-lo. [...] O Desejo do Outro, que nós vivemos na mais banal experiência social, é o movimento fundamental, o elã puro, a orientação absoluta, o sentido [...] O Outro que se manifesta no Rosto perpassa, de alguma forma, sua própria essência plástica, como um ser que abrisse a janela onde sua figura, no entanto já se desenhava. Sua presença consiste em se despir da forma que, entrementes, já a manifestava. Sua manifestação é um excedente (surplus) sobre a paralisia inevitável da manifestação. É precisamente isto que nós descrevemos pela fórmula: o Rosto fala. [...]. A passividade pura que precede a liberdade é responsabilidade. Mas a responsabilidade que não deve nada à minha liberdade é minha responsabilidade pela liberdade dos outros. Lá onde eu teria podido permanecer como espectador, eu sou responsável, em outros termos, tomo a palavra [...]. Trechos extraídos da obra O humanismo do outro homem (Vozes, 2009), do filósofo francês Emmanuel Lévinas (1906-1995). Veja mais aqui, aqui e aqui.

PROMETEU & EPIMETEU - [...] E Sofia estava em pé diante do irmão, na pedra extrema do penhasco, o rosto animado pela vibração do mar, transfigurado, e os ventos brincavam com as suas negras madeixas [...] E novamete, após alguns instantes, não lhe bastou isso à temeridade do seu desejo, e então ela se desinteressou do espetáculo do mar agitado e lançou o olhar para a outra margem, que tranqüila e silenciosa, com um ar de felicidade, repousava acima de todo aquele bulício de espumas. Verde e dourada apresentava-se ela, como uma reminiscência numa festa de bodas, como um coração moço pinta o mundo com as tintas de sua própria alegria, e a viração daquela margem era feita de graça, um suave clarão ljhe aureolava a fronte, à volta de seus virgens quadris brilhava um cinto bordado de ricas cores, saturadas de luz. E diferentes eram estas cores das muitas que inundam o mundo inteiro com seu liquido fluxo, escurecidas por um ar espesso, manchadas pelo uso terrestre, exauridas pelo dilatado trajetyo, com olhos vazios de pensamento e semblante doente. Pois estas eram esperemidas dos raios mais puros do sol, condensavam em si suco sobre suco, luzindo com o ardor da brasa, acumulando ousadamente luz sobre luz, zombando alegremente de todo juízo pusilânime; como quando no ar puro do sul o papagaio se balançava na arvore pejada de flores, e como quando a borboleta estende as asas sobre a corola de um lírio, assim em felicidade e delicia irradiava a região magnífica, e iguais ao azul do céu ritilavam o ouro e o verde em sua cintura. E enquanto seu corpo se banhava assim na luz e no deleite, montanhas graves e tranqüilas erguiam-se ao céu a modo de pensamentos, à maneira da intuição, que, do alto de uma alma sublime, contempla meditativa o universo – e nos flancos das montanhas cresciam as florestas mudando de aspecto, e dos cimos numerosos as rochgas se despegavam, se esmigalhavam, rolando incessantemente como areia até às profundezas do mar convulsionado pela tormenta [...]. Trechos extraídos da obra Prometeu & Epimeteu (Delta, 1963), do escritor suíço Carl Spitteler (1845-1924), Prêmio Nobel de Literatura de 1919.

EL DESDICHADO – Eu sou o tenebroso, - o viúvo, - o inconsolado / príncipe d’Aquitânia, em triste rebeldia: / é morta a minha estrela, - e no meu constelado / ataúde há o negror, o sol da melancolia. / Na noite tumular, em que me hás consolado, / o pausilipo, a Itália, o mar, a onda bravia, / dá-me outra vez, - e dá-me a flor do meu agrado / e a ramada em que a rosa ao pâmpano se alia... / Sou Byron? Lusignan? Febo? O amor? Adivinha! / As faces me esbraseia o beijo da rainha: / cismo e sonho na gruta em que a sereia nada... / Duas vezes o Aqueronte, - é o grande feito meu, - / transpus a modular, nesta lira de Orfeu, / os suspiros da santa e os clamores da fada... Poema do poeta francês Gérard de Nerval (1808-1855).

HOMENAGEM AO TEATRO
[...] Depois de ouvir sua emocionada descrição das dificuldades de uma trupe pobre que não consegue sobreviver no Rio de Janeiro e viaja pelo país afora, apresentando-se onde acha espaço, Laudelina, atriz amadora convidada a integrar a companhia, comenta: “Deve ser uma vida dolorosa!”. A resposta de Frazão é este eloqüente discurso: “Enganas-te, filha. O teatro antigo principiou assim, com Téspis, que viveu no século VI antes de Jesus, e o teatro moderno tem também o seu mambembeiro no divino, no imortal Molière, que o fundou. Basta isso para amenizar na alma de um artista inteligente quanto possa haver de doloroso nesse vagabundear constante. E, a par dos incômodos e contrariedades, há o prazer do imprevisto, o esforço, a luta, a vitória! Se aqui o artista é mal recebido, ali é carinhosamente acolhido. Se aqui não sabe como tirar a mala de um hotel, empenhada para pagamento da hospedagem, mais adiante encontra todas as portas abertas diante de si. Todos os artistas do mambembe, ligados entre si pelas mesmas alegrias e pelo mesmo sofrimento, acabam por formar uma só família, onde, embora às vezes não o pareça, todos se amam uns aos outros, e vive-se, bem ou mal, mas vive-se! [...].
Trecho de cena do Ato I, quadro 1, Cena V de O Mambembe (M&M, 2002), do dramaturgo, escritor e jornalista Artur Azevedo (2855-1908). Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui e aqui.

Palestra: Neuroeducação & práticas pedagógicas no ensino-aprendizagem & muito mais na Agenda aqui.
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O doce voo no sangue das andorinhas invisíveis do canavial, A cana do Brasil de Maria Dione Carvalho de Moraes, o pensamento de Padre Antônio Vieira, a música de Silvério Pessoa & Jacinto Silva, o balé de Ekaterina Krysanova, a pintura de Iryna Yermolova, a arte de Arthur Brouthers & a poesia de Vera Salbego aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
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sexta-feira, janeiro 12, 2018

ADÉLIA PRADO, LÉVINAS, SUZANNE VALADON, FLAUBERT, STIGLITZ, FELIPE COELHO, TOULOUSE-LAUTREC, ANETTE NAIMAN & CLARICE FALCÃO.

DEVARZINHO & EU - Imagem: Sous-bois (1914), da pintora francesa Suzanne Valadon (1867-1938). - O menino Devarzinho passou apressado. Pronde vai nessa carreira? Sequer olhou pra mim, apenas riu gostosamente na correria. Cadê teu pai, menino? Mais se ria e se distanciava. Resolvi acompanhá-lo, chamando-o e ele mais depressa olvidando dos meus reclamos. Subiu uma escadaria íngreme que dava para um bairro periférico. Vai pra onde, meu filho? Ele só ria e seguia pelo aclive, eu ao seu encalço. Quando cheguei lá em cima dei de cara com umas passarelas feitas com táboas – como ele passou por aqui, hem? -, coisa difícil pra mim, tenho problemas com altura. Vi-o atravessando umas três delas, já se preparando para descer o morro do outro lado. Chamei-o e não obtive êxito. Equilibrando como quem via a hora se esborrachar lá embaixo, consegui vencer lentamente, uma a uma das pontes improvisadas e adiantei o passo para alcançá-lo já lá embaixo numa escadaria que ele já embolava aos choros e a perder de vista. Fiz o que pude para chegar rapidamente lá embaixo, quase me arrebento, até aterrissar esbaforido, só encontrei pessoas com olhares desconfiados. Cadê o menino? Ninguém respondia, fitavam-me com ares severos e hostis. Cadê o menino? Eles se entreolhavam e percebi que vinham de todos os lados em minha direção, como se tivesse chegado a hora de me capturar, também. Percebi o mal-estar, girei em torno e percebi todos ao meu redor, sisudos, vingativos. Andando de costas, tropecei em algo, era um misto de rifle/revolver, não sei, sei lá, nunca tinha visto. Era uma arma, empunhei, abri o tambor: duas balas calibre 12, de um lado; várias calibre 38, de outro. Fechei o tambor e encarei a turba, agora parada, à espreita. Vi quando se mexeram no interior de um compartimento com balcão e me dirigi para lá: Cadê o menino? Ignoravam minhas perguntas, me tinham por invisível. Vi um policial que vinha em minha direção. Agora vamos resolver, pensei comigo, a polícia já chegou. Ao contrário começou a me inquirir, logo apareceram outros. Pediram minha arma enquanto eu explicava o ocorrido. Um deles, parecendo-me de patente superior, veio conversar comigo em tom ameaçador. Fizeram-me sentar numa maca. Logo um dos policiais se aproximou de mim e cravou um instrumento metálico na minha nuca, dizendo: Não vai doer nada. Ao dizer isso, ouvi que outros tantos policiais e os demais populares que presenciavam tudo caíram na gargalhada. Senti algo penetrando pelo meu cérebro, rasgando até alcançar-me a boca pelo lado de dentro do meu crânio, como se fosse uma broca odontológica limpando meus dentes por dentro. Aos poucos fui ficando sonolento, perguntavam-me coisas que nem entendia o que era, uma dor de cabeça tremenda e a ordem do comandante pra que eu respondesse às suas perguntas. Um deles avançou sobre mim com ameaça, encostando um objeto pontiagudo sobre o meu arco zigomático, deslizando até a têmpora, no qual ouvi um estampido e fez-se um silêncio absurdo. Nada mais ouvia e, acho que adormeci. Despertei à beira de um lago que dava em um caminho sinuoso até uma mata. A paisagem me era familiar, acho, tinha a certeza de que depois da mata era Água Preta, essa a minha crença, o que me deu ânimo de levantar, seguir a estrada contornando o lago que mais parecia um brejo à segunda olhada, o brejo da minha infância no quintal da minha avó. Trilha que não sabia, temores inatos, a busca por abrigo. A paisagem mudava a cada passada, ora uma campina, doutra um agreste, chão quente sob os pés descalços, sertão dos mandacarus, litoral da areia praieira. Segui adiante e o mistério rondava os meus passos em cada estação que se confundia primavera a verão, outono a inverno. Enfrentei tudo na jornada, lua minguante, cheia, crescente e nova. Aprendi a cara ao vento, poeiras e pedras do solado às faces. Sempre me guiei pro leste. Mas não há só leste, e tive de percorrer de norte a sul, até o oeste, passando por frustrantes dificuldades, não sabia o que me esperava, superava empecilhos com espírito de explorador pelo inexplorado, cego sem guia. Peregrino solitário, eu decidi empreender minha jornada por meus próprios esforços e sacrifícios, a minha tribulação sem mapa, sem rumo certo, por vacilações e situações auspiciosas, trovões, relâmpagos. Ousava seguir pro desconhecido, a densa mata, treva na qual eu perdi a noção do tempo e espaço, sabia: estou real agora, sou eu. Quero ir mais longe, onde vivo, o lugar que ocupo, o papel que desempenho, ah, nem sei mais nem quem sou, e penetro por meu esforço até onde me levar, não sei, não há consenso, nunca haverá, não tenho convicções, estou perdido no breu profundo de uma noite sem estrelas, entre batidas de asas, bafos, grasnados, alaridos estranhos, lufadas, silvos, rastejados, estalidos, todos os fantasmas e as sinistras sensações da escuridão na minha caminhada. Eu só tinha a mim mesmo, nada mais. Quanto mais andava, mais sentia a vida se distanciando. Seguia, ia, não era a vida que se distanciava, agora eu sei, era eu mesmo que me descobria a mim mesmo. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.

RÁDIO TATARITARITATÁ:
Hoje na Rádio Tataritaritatá especiais com a música do violonista e compositor Felipe Coelho: Cata Vento, Musadiversa & Telhados; da cantora, atriz, compositora, roteirista e humorista Clarice Falcão: Monomania & Problema meu; & muito mais nos mais de 2 milhões de acessos ao blog & nos 35 Anos de Arte Cidadã. Para conferir é só ligar o som e curtir.

PENSAMENTO DO DIA - [...] A inovação está no coração do sucesso de uma economia moderna. A questão é como melhor promove-la. Os países em desenvolvimento são mais pobres não só porque têm menos recursos, mas porque há um hiato em conhecimento. Por isso, o acesso ao conhecimento é tão importante. [...]. Pensamento do economista e Prêmio Nobel de Economia de 2001, Joseph Stiglitz.

O DESEJO & A ALTERIDADE - [...] O desejo metafísico tende para coisa totalmente outra, para o absolutamente outro [...] Na base do desejo comumente interpretado encontrar-se-ia a necessidade: o desejo marcaria um ser indigente e incompleto ou decaído de sua grandeza passada. Coincidiria com a consciência do que foi perdido. Seria essencialmente nostalgia, saudade. Mas, desse modo, nem sequer suspeitaria o que é o verdadeiramente outro... Porque se fala levianamente de desejos satisfeitos ou necessidades sexuais ou, ainda, de necessidades morais e religiosas... O desejo metafísico tem outra intenção, deseja o que está além de tudo o que possa simplesmente completá-lo, como a bondade e o Desejado não o cumula mas o escava. Generosidade alimentada pelo Desejado, relação que não é desaparecimento da distância, não é aproximação ou, tomando de mais perto a essência da generosidade e da bondade, relação cuja positividade vem do distanciamento, da separação... Distanciamento que só é radical se o desejo não é possibilidade de antecipar o desejável, não pensa previamente e vamos para ele numa aventura, isto é, para a alteridade absoluta, inantigível, como vamos para a morte... [...] Para o Desejo esta alteridade, inadequada idéia, tem um sentido. É entendida como alteridade de Outrem e como do Altíssimo... Morrer pelo invisível, eis a metafísica. Extraído da obra Totalidade e infinito (70, 2008), do filósofo francês Emmanuel Lévinas (1906-1995). Veja mais aqui e aqui.

FRASES DE SUZANNE VALADON – [...] Não se pode fazer nada muito bem a não ser com muito amor. [...] A natureza me traz o controle da verdade sólida para a construção de minhas telas, concebidas por mim, mas sempre motivadas pela emoção da vida. [...] Três grandes mestres, tirei o melhor de cada um deles, de seu ensinamento e de seu exemplo. Eu me encontrei, me fiz e disse, creio, o que tinha a dizer. [...] Sou atéia, já que nunca vou à igreja. Sejamos francos, de que serve isso? No entanto, ninguém bate em vão à minha porta. Trechos extraído da obra Suzanne Valadon (Martins Fontes, 1989), de Jeanne Champion, sobre a pintora francesa pós-impressionista Suzanne Valadon (1867-1938), Marie-Clémentine Valade de nascimento, personalidade marcante na cena artística parisiense no período que precede o cubismo. Na sua vida de filha de mãe solteira que era lavadeira, foi garçonete dos cafés e acrobata, Por sua beleza impressionante, tornou-se modelo de Renoir, Puvbis de Chavannes e Toulouse-Lautrec e iniciou-se na pintura com Edgar Degas. Foi amante de Van Gogh, Guaguin, Picasso e Modigliani, além do compositor Erik Satie. Com exposições bvem sucedidas, logo a sociedade burguesa ficou muito chocada com a sua arte, que a par da sua conduta sexual, desafiava as convenções. Veja mais aqui.

SALAMBÔ - [...] Salambô apeara-se da liteira, mas continuava a caminhar sob o dossel, muito vagarosamente. Depois atravessou o terraço para ir assentar-se no fundo, numa espécie de trono, feito de uma casca de tartaruga. [...] Desde os tornozelos até aos quadris, estava envolvida numa rede malhas muito pequenas, imitando as escamas de um peixe e que luziam como nácar; o corpo era-lhe cingido por uma faixa azul, na qual, por duas aberturas em forma de crescente, se lhe viam os seios, de cujas pontas pendiam grandes pingentes de carbúnculos. [...] Salambô, tendo assim o povo a seus pés, acima da cabeça somente o firmamento, em torno de si a imensidade do mar, o golfo, as montanhas e as perspectivas das províncias, confundia-se resplandecente com Tanit e parecia ser o próprio gênio de Cartago, a sua alma personalizada. [...]. Trecho extraído do romance histórico Salambô (1862 - Chardon, 1905), do escritor francês Gustave Flaubert (1821-1880). Veja mais aqui, aqui, aqui e aqui.

COM PERDÃO DA PALAVRA, QUERO CAIR NA VIDA: Meu coração bate desamparado onde minhas pernas se juntam. É tão bom existir! 1. Objeto de amor: De tal ordem é e tão precioso / o que devo dizer-lhes / que não posso guardá-lo / sem a sensação de um roubo: / cu é lindo! / Fazei o que puderdes com esta dádiva. / Quanto a mim dou graças / pelo que agora sei / e, mais que perdôo, eu amo. 2. Entrevista: Um homem do mundo me perguntou: / o que você pensa do sexo? / Uma das maravilhas da criação eu respondi. / Ele ficou atrapalhado, porque confunde as coisas / e esperava que eu dissesse maldição, / só porque antes lhe confiara: / o destino do homem é a santidade. / A mulher que me perguntou cheia de ódio: / você raspa lá? Perguntou sorrindo, / achando que assim melhor me assassinava. / Magníficos são o cálice e a vara que ele contém, / peludo ou não. / Santo, santo, santo é o amor que vem de Deus, / não porque uso luva ou navalha. / Que pode contra ele o excremento? / Mesmo a rosa, que pode a seu favor? / Se "cobre a multidão dos pecados e é benigno, / como a morte duro, como o inferno tenaz", / descansa em teu amor, que bem estás. Poemas da escritora, professora e filósofa Adélia Prado. Veja mais aqui.

A ARTE ANETTE NAIMAN: NAVALHA NA CARNE & OUTRAS CENAS
A atriz formada em cinema e televisão e fundadora do Teatro Garagem, Anette Naiman, mantém sua trajetória com a proposta de fazer um teatro independente, libertário e transformador. Atualmente ela está em cartaz com o espetáculo Navalha na carne, de Plínio Marcos, com direção de Marcos Loureiro, todas as quartas e quintas, às 21hs, no Teatro Garagem - Rua Silveira Rodrigues, 331a – Vila Romana (SP). Informações (11) 99122-8696, temporada até o dia 08 de fevereiro. Veja mais aqui, aqui & aqui.

Veja mais:
A arte de Toulouse-Lautrec aqui, aqui e aqui.
A vida solta no calor do coração, a música de Teodora Dimitrova, a escultura de Carlos Baez Barrueto, a fotografia de Claudia Rogge & a pintura de Robert Delaunay aqui.
Ah esse olhar no Crônica de amor por ela, Marc Augé, Rubem Braga, Wolfgang Amadeus Mozart, Gabriela Mistral, Mitsuko Uchida, Analy Alvarez, David Nutter, Francisco Ribera Gomez, Kate Holmes, Carmen Verônica & Iolita Domingos Barbosa Campos aqui.
Tarsila do Amaral, Hannah Arendt, Edward Grieg, Eleanor Gibson, Lígia Moreno & Rubem Braga aqui.
De antemão & Fecamepa aqui.
A mulher celta aqui.
A mulher suméria aqui.
Prelúdio aqui.
Só a poesia torna a vida suportável aqui.
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Pequena história da formação social brasileira de Manoel Maurício de Albuquerque aqui.
A linguagem na filosofia de Marilena Chauí aqui.
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Vigiar e punir de Michel Foucault aqui.
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As misérias do processo penal de Francesco Carnelutti aqui.
Todo dia é dia da mulher aqui.
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CRÔNICA DE AMOR POR ELA
A arte da pintora francesa Suzanne Valadon (1867-1938). 
Veja mais aqui & aqui.

RAQUEL VARELA, OMAIMA AL-KHAMIS, OLIVE SENIOR & SANDRA RIBEIRO

  Imagem: Contornos da ubiquidade , da série Caosmose & O poema nasce do visinvisível - Acervo ArtLAM .   Ressaca aluada de panacei...