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segunda-feira, setembro 24, 2018

KAFKA, OCTAVIO PAZ, NISE DA SILVEIRA, HENRIQUE ANNES, MARIA BONOMI, MIMMO PALADINO & ZÉ GULU


O SUMIÇO & O PACTO DO GULU – Imagem: arte da gravadora, escultora, pintora, muralista, curadora, figurinista, cenógrafa e professora Maria Bonomi - Dizem e como falam: O doutor Zé Gulu sumiu. Cadê-lo? Quem sabe! Ainda a semana passada estava ele ali. Não, meu, mais de mês que ele não dá as caras, semestres, anos. Danou-se! Outro chegava: Qued’ele? Desapareceu faz tempo. Será que ele se envultou? Num diga. No meio, saiu essa: Ele foi dá uma chegada no Coisa Ruim. Como é? Quem falou, não sei, ninguém sabe. Insinuações, ah, conversa mole. Como é? Boato. Não, apenas, alguém disse e pegou. Entre comentários e bisbilhotices, ninguém dava conta dele. Daí pra difamação foi um pulo: o falatório crescendo. Adonde é que ele mora? O mistério aumentava. Lá longe. Onde mesmo? Num sítio abandonado - e outras invencionices carregadas de coisas fantásticas. O boi de fogo ganhou a preferência entre arredios e antipatizantes: O homem tem lá suas tretas. Isso é lá coisa que se invente, hem? Vamos tirar isso a limpo. E foram. Dia de chuva braba, ambiente sinistro, situação aziaga: zoada de bichos, escorregões, torada de aço. O que foi mesmo que a gente veio fazer aqui? Juntaram-se: Os frouxos que se danem, quem tiver coragem que vá. Idas e vindas, bateram à porta. Nenhum sinal de vida. Invadiram assim mesmo. A cena horripilante: teias de aranha, casa abandonada, silêncio sepulcral e no meio da escuridão: poucos móveis, livros amontoados e empoeirados, espelhos, castiçais e velas, bússolas, réguas, compassos, ambiente macabro daqueles magos cientistas. Acenderam umas tochas com o que acharam e conseguiram ver entre as publicações o Prometeu de Ésquilo, The Fornicarius do Johannes Nider (1380-1438), as façanhas do cruel Gilles de Rais (1405-1440) depois da morte de Joana D’Arc (1412-1431); escritos do lúbrico padre francês Urbain Grandier (1590-1634), aquele que foi queimado na fogueira e contado pelo astrônomo Carl Sagan (1934-1996); o doutor Faustus do séc. XVI do poeta Christopher Marlowe (1564-1593) que foi imortalizado pelo poeta Goethe (1749-1832); a teodiceia de Leibniz (1646-1716), as composições musicais de Giuseppe Tartini (1692-1770), imagens do Frauenkirche de Munique, as sujidades de Marquês de Sade (1740-1814), a poética pictórica de William Blake (1757-1827) influenciado por Shakespeare, Paracelso e Böhme; a dialética do negativo de Hegel (1770-1831), as músicas de Nicolo Paganini (1782-1840) que por não cumprir o acordo foi acometido pela Síndrome de Marfan e, tendo, por isso, rejeitado o seu sepultamento; a mitologia satânica de Byron (1788-1824) e Vigny (1797-1863), a pintura de Eugène Delacroix (1790-1863), as funestas histórias de Edgar Allan Poe (1809-1849) com todos os seus pseudônimos; a edição das Flores do Mal de Baudelaire (1821-1867), a poética dramatúrgica de Álvares de Azevedo (1831-1852), O padre Amaro do escritor português Eça de Queiroz (1845-1900), as escrituras diabólicas de Giovanni Papini (1881-1956), a fabulação de Flaubert (1821-1880), os Cantos de Maldoror de Lautréamont (1846-1870), O Septem Sermones ad Mortuos de Carl Gustav Jung (1875-1961), o Demian de Hermann Hesse (1877-1962), O mal de Georges Bataille (1897-1962), a literatura tenebrosa de Machado de Assis (1839-1908), a poesia diabólica dos heterônimos de Fernando Pessoa (1888-1935), o Paraíso Perdido de James Hilton (1900-1954), o Pacto com a Serpente de Mario Praz (1896-1982), o pacto na encruzilhada do Mississippi do blueseiro Robert Johnson (1911-1938), os grandes sertões de Guimarães Rosa (1908-1967), a pintura horrenda das crianças de Giovanni Bragolin (1911-1981) e de Anna Zinkeisen (1901-1976); o ritual do shaman do poeta Jim Morrison (1943-1971) e da banda The Doors; o Evangelho de Saramago (1922-2019) e o do Padre Bidião, a oração da Cabra Preta, as lendas de Branca Dias, Xeréu Trindade do Pantanal e do boneco Fofão do ator Orival Pessini (1944-2016), afora outras estranhices que versavam sobre alquimia, esoterismo, magia, cabala, coisas do outro mundo, poder, elixir da vida e a eterna juventude, disso e doutras ocultidões. Pronto. Estava selado: Num é mesmo que o homem é achegado às coisas do capeta!?! Arrepiaram da cabeça aos pés. Olharam-se: doido é quem fica! Os que lá foram não queriam falar do que viram; só à boca miúda, segredando. Qualquer menção era cuidada com benzeções de Deus me livre e beijos no crucifixo. Valha-me. Dali por diante, todos temiam aquele que um dia fora o mais sábio – agora amaldiçoado - entre os alagoinhandubenses. Mas qual é mesmo o paradeiro do doutor Zé Gulu, hem? Desavisado que seu cuide. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.

RÁDIO TATARITARITATÁ:
Hoje na Rádio Tataritaritatá especial com a música do violonista e compositor Henrique Annes: Ao vivo, Raio de Sol, Violão Brasileiro & com Oficina de Cordas & muito mais nos mais de 2 milhões & 600 mil acessos ao blog & nos 35 Anos de Arte Cidadã. Para conferir é só ligar o som e curtir. Veja mais aqui.

DITOS & DESDITOS – [...] Nesse pedaço de natureza que é a psique acontecem fenômenos de ordens diversas, misteriosos, arquetípicos, imaginários, racionais... todos se cruzando e percorrendo caminhos de muitas voltas. É apaixonante tentar acompanha-los, pois nenhum, mesmo em estados do ser ditos patológicos, jamais perde o imantado fio que lhe dá sentido. [...]. Trecho extraído da obra O mundo das imagens (Ática, 1992), da médica psiquiatra e psicoterapeuta alagoana Nise da Silveira (1905-1999). Veja mais aquiaqui, aqui e aqui.

A ARTE & O ARTISTA - [...] o artista, como um dançarino na corda bamba, move-se em várias direções, não porque seja habilidoso, mas por ser incapaz de escolher apenas uma direção [...]. Trecho de Transvanguarda, do pintor e escultor italiano Mimmo Paladino, extraído da obra Estilos, escolas e movimentos: guia enciclopédico da arte moderna (Cosac & Naify, 2003), de Amy Dempsey, traduzido por Carlos Eugenio Marcondes de Moura.

O ESTRANGEIRO -  [...] Você não pode sair; está detido. - É o que parece – disse K. -, e por quê? – perguntou depois. - Não nos cabe explicar isso. Volte para seu quarto e espere ali. O inquérito está em curso, de modo que se inteirará de tudo em seu devido tempo. Saiba que exorbito das minhas atribuições ao falar-lhe tão amistosamente. Confio, porém, em que apenas me ouça. [...]. Se você continua tendo tanta sorte como na designação dos seus guardas pode alimentar esperanças [...] - É melhor que nos confie suas coisas [...], pois frequentemente no depósito acontecem fraudes e além do mais costuma-se ali, depois de certo tempo, vender tudo sem que ninguém se incomode em verificar se o inquérito em questão terminou ou não. E quão demorados são os processos deste tipo, especialmente nos últimos tempos! Claro está que, em última instância, você receberia o dinheiro obtido da venda que certamente seria pouca coisa, visto que na operação o preço não é determinado pela importância da oferta, mas pelo montante do suborno; além do mais, ao passar de mão em mão, conforme a experiência o demonstra, tais somas vão se tornando cada vez menores [...] - Nós somos apenas empregados inferiores que pouco sabemos de documentos já que nossa missão nesse assunto consiste somente em montar guarda junto a você durante dez horas diárias e cobrar nosso soldo por isso. Aí está tudo que somos; contudo, compreendemos bem que as altas autoridades a cujo serviço estamos, antes de ordenar uma detenção examinam muito cuidadosamente os motivos da prisão e investigam a conduta do detido. Não pode existir nenhum erro. A autoridade a cujo serviço estamos, e da qual unicamente conheço os graus inferiores, não indaga os delitos dos habitantes, senão que, como o determina a lei, é atraída pelo delito e então somos enviados, os guardas. Assim é a lei, como poderia haver algum erro? - Desconheço essa lei – disse K. - Tanto pior para você – replicou o guarda. - Sem dúvida, esta lei não existe se não na imaginação de vocês – prosseguiu dizendo K., com a intenção de penetrar o pensamento dos guardas, procurando induzi-lo em seu favor. O guarda, porém, limitou-se a dizer: - Você logo sentirá o efeito desta lei. - Observe bem, Willem; por uma parte admite que desconhece a lei e por outra afirma que é inocente. - Tens razão, mas não podemos fazê-lo compreender isso – disse o outro [...]- Estará você muito surpreso pelo inquérito desta manhã? – indagou o inspetor [...]. - Certamente – retrucou K., sentindo-se contente por achar-se enfim diante de um homem razoável, o qual sem dúvida havia de compreendê-lo apenas K. lhe falasse de seu assunto. - Certamente, estou surpreso, porém de modo algum surpreendido. - Quem não está muito surpreendido? – perguntou o inspetor [...] Infiro-o do fato de ver-me acusado sem que seja possível encontrar que eu tenha cometido o menor delito pelo qual se justifique uma acusação. Mas isso também é acessório; o fundamental é outra coisa: quem me acusa? Que autoridade superintende o inquérito? Vocês são funcionários? Nenhum de vocês tem uniforme, não seja o caso de querer-se denominar uniforme [...] essa vestimenta que, contudo, é antes um traje de viagem. Tais são as questões que eu peço que me esclareçam. Além do mais, estou convencido de que depois dessas explicações haveremos de nos despedir do modo mais cordial. O inspetor deixou cair a caixinha de fósforo sobre a mesa. - Você encontra-se em erro crasso – disse. – Estes senhores que vê aqui, e eu, desempenhamos um papel completamente acessório em seu assunto, do qual, para dizer a verdade, não sabemos quase nada. Se trouxéssemos nossos uniformes do modo mais regular possível, nem por isso sua causa estaria melhor do que está. Muito menos lhe posso dizer, a você, de modo algum, que está acusado, ou, dizendo melhor, não sei se o está. O certo é que está detido. Isto é tudo quanto sei. Se os guardas estiveram falando com você e sugeriram outra coisa, não deve encarar isso se não como simples falatórios. Mas se não posso responder às suas perguntas, posso em troca aconselhar-lhe que pense menos em nós e naquilo que lhe aconteceu esta manhã e mais em você mesmo. Por outro lado não alvorece tanto com protestos de inocência porque isso causa má impressão, sendo certo que a outros respeitos você impressiona bem. Sobretudo, tem que se moderar em suas manifestações, pois quase tudo quanto acaba de dizer podia tê-lo expressado com algumas palavras e podíamos tê-lo entendido pela sua atitude; tudo isso não fala muito em seu favor [...] E bem, ouvi alguma coisa, mas de modo algum posso dizer que se trate de coisa particularmente grave. É certo que o senhor está detido, mas não detido como um ladrão; quando se detém a alguém como ladrão, então o assunto é grave, mas esta detenção... perdoe-me o senhor se digo alguma bobagem, ocorre-me que se trata de algo especial, de algo acadêmico, que por certo de nenhum modo compreendo, mas que, por outro lado, não tenho também a obrigação de compreender [...] - De maneira – disse o juiz de instrução, folheando o caderno e voltando-se para K. com o tom de quem deseja comprovar alguma coisa – que você é pintor de pincel gordo. -Não – respondeu K. – Sou o primeiro procurador de um grande banco. A esta resposta seguiu-se uma grande risada por parte da metade direita da sala, tão cordial, que K. também se pôs a rir. [...] O juiz de instrução ardeu em cólera e, como pelo que se via não podia fazer nada contra a gente de baixo, procurou desforrar-se ameaçando aos da galeria; pôs-se de pé em um salto e arqueou as sobrancelhas, que habitualmente não despertavam a atenção, mas que nesse momento se manifestaram negras, hirsutas, gigantescas, sobre os olhos. [...] - Sua indagação, senhor juiz de instrução, se eu sou pintor de pincel gordo (embora em rigor e verdade não me perguntou nada, mas simplesmente o afirmou) é característica de todo esse inquérito que se efetua contra mim. Poderá você objetar-me que, em última instância, não se trata de nenhum inquérito e nisso tem muita razão porque será um inquérito tão somente no caso em que eu o reconheça como tal [...] Nos primeiros anos maldiz a gritos sua funesta sorte, quando se torna velho, limita-se a grunhir entre os dentes. E como nos longos anos que passou estudando o sentinela chega a conhecer também as pulgas de seu abrigo de pele, tornado outra vez à infância, roga até a essas pulgas para que o auxiliem a quebrar a resistência do guarda. Por fim vê que a luz que seus olhos percebem é mais fraca e não consegue distinguir se realmente se fez noite ao redor dele ou se simplesmente são os olhos que o enganam. Mas agora, em meio às trevas, percebe um raio de luz inextinguível através da porta. Resta-lhe pouca vida. Antes de morrer concentram-se em sua mente todas as lembranças e pensamentos daquele tempo em uma pergunta que até esse momento não tinha formulado para o sentinela. Como seu corpo já rígido não se pode mover, faz um sinal ao guarda para que se aproxime. [...]. Trecho extraído da obra O processo (Abril, 1979), do escritor tcheco Franz Kafka (1883-1924). Veja mais aqui e aqui.

CONDIÇÃO DE NUVEMDESTINO DO POETA – Palavras? Sim. De ar / e perdidas no ar. / Deixa que eu me perca entre palavras, / deixa que eu seja o ar entre esses seus lábios, / um sopro erramundo sem contornos, / breve aroma que no ar se desvanece. / Também a luz em si mesma se perde. ENTRESSONHO – Manhã. O relógio canta. / O mundo cala, vazio. / Sonâmbula te levantas / e olhas não sei que sombras / detrás de tua sombra: nada. / Arrastada pela noite. / igual à ramagem branca. ALBA DA VITÓRIA – Com seu vidro frio / rasga o céu a alba. / Amanhece o mundo / csem gota de sangue. Poemas do poeta, escritor e diplomata mexicano, Octavio Paz (1914-1998). Veja mais aqui, aqui e aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
A arte da gravadora, escultora, pintora, muralista, curadora, figurinista, cenógrafa e professora Maria Bonomi. Veja mais aquiaqui.

AGENDA
I Seminário de Teatro e Literatura UFPE com o tema Poéticas modernas do século XX atribuídas às pragmáticas do contexto contemporâneo teatral, dias 17 e 18 de Outubro - Avenida Prof. Moraes Rego, 123 - Cidade Universitária, CAC - UFPE – Recife – PE & muito mais na Agenda aqui.
&
Outras do Doutor Zé Gulu aqui e aqui.
&
A ressurreição do Casanova, Antonio Gramsci, Rubem Alves, Hilda Hilst, Gilvan Lemos, Biblioteca Fenelon Barreto, Atonmirio Barros & Juarez Carlos, Mauro Senise, Elena Bashkirova, Luiz Avellar & Célia Mara aqui.
Se o mundo acabar, já acaba tarde!, Baruch Espinoza, Mário Quintana, Charles Bukowski, Carlos Nejar, Otto Friedrich, Leo Gandelman, Midori Goto, Artur Gomes & Bee Scot aqui.


segunda-feira, maio 28, 2018

JAMES JOYCE, OCTAVIO PAZ, LUÍZA BARRETO LEITE, OSMÁRIO MARQUES, JUSSARA SALAZAR DEMOCRACIA, GIAN CORREA & CLÉLIA IRUZUN


CARTA DE PEITO ABERTO - Imagem: a arte do fotógrafo Osmário Marques. - Não nasci para sempre e a cada espanto a sequência da memória que me falha, se entrega ao meu exílio. Pouco sou do que me resta, nada tenho por primazia: sou mato de chão, areia de deserto, estrangeiro para todos, e por todos, cada um, sou comunhão. As palavras antigas agora quase são outras e o Brasil é sempre o mesmo, confunde-se com séculos de ontens, e nem se espera que amanhã seja um outro de tão pretérito, um futuro só passado no agora nem lembrado e sequer vivido diante das desventuras e sem pausas nas recordações. Daqui a gente não sai, apesar do riso de esgar dos que pensam donos dos confins. Ainda é cedo, mesmo que pareça tarde demais e tudo por um fio. Nenhum recado e me adivinho inteiriço nas minhas espessuras, porque perdi o calendário, os dias e os meses – não sei se hoje é quarenta e cinco de outubro, ou trinta e um de fevereiro -, cheguei antes do nome e dissolvo as sombras, fatigado de errar. Sirvo-me da derradeira esperança, escrevo estrelas e reclamam as palavras extraviadas no reino do silêncio. O sortilégio da poesia segue o exemplo luminoso do coração na serena voz, se faz frio ou calor, o corpo é só verdade ao sentimento. Sou o que canto, qualquer maneira, espesso ou insosso, levo o gesto sem demora pra quem punge a lágrima escondida. Canto a pele do rio, o céu azul da cidade, a doce terra, pode ser nada, só o que tenho, e o meu dedo alisa o espaço e toca o tempo – essas ilusões que não resistem aos meus olhos fechados. Cantar sempre foi o meu fraco e se me perguntam se vou, digo chego já, e reparto a colheita do peito sem certeza por mais distante que sejam os caminhos. A morte que me pertence depende de mim e sou nela o vale da eternidade. À minha espera, a paixão em tudo que faço: vivo o instante que me cabe e convivo com o milagre de viver vendaval. A vida é o que me vale, cair na vida pro exercício do amor. Deus abençoe a todos. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.

RÁDIO TATARITARITATÁ:
Hoje na Rádio Tataritaritatá especial com a música do compositor, arranjador e violonista 7 cordas Gian Correa: Jazzman no Morro, Gênese & Homenagem a Dominguinhos; da pianista Clélia Iruzun: Grand Fantasie Triomphali sur l’Hymne National Bresilien, Choro nº 5 – Alma brasileira & Bachianas Brasileiras nº 4 de Heitor Villa-Lobos; & muito mais nos mais de 2 milhões de acessos ao blog & nos 35 Anos de Arte Cidadã. Para conferir é só ligar o som e curtir.

PENSAMENTO DO DIA – [...] Nossa constituição é chamada de democracia porque o poder está nas mãos do povo e não de uma minoria. Quando se trata de solucionar rixas particulares, todos são iguais perante a lei; quando se trata de colocar um indivíduo à frente de outro em cargos de responsabilidade pública, o importante não é pertencer a determinada classe, mas sim a capacidade real de que o homem é possuidor. Ninguém, desde que nutra o desejo de servir ao estado, é mantido na obscuridade política por ser pobre... esta é uma peculiaridade nossa; não dizemos que um homem que não tem interesse pela política é um homem que trata de sua própria vida; dizemos que ele não tem absolutamente nada a fazer aqui. [...]. Palavras do estadista, orador e estrategista da Grécia Antiga, Péricles (495/492aC-429aC), durante a Era de Ouro de Atenas, recolhida da obra História das cavernas ao terceiro milênio (Moderna, 2000), de Myriam Becho Mota & Patrícia Ramos Braick. Veja mais aqui e aqui.

A DESCOBERTA & A REVELAÇÃO – [...] A revelação não descobre algo exterior, que estava aí, alheio; o ato de descobrir entranha a criação do que vai ser descoberto: nosso próprio ser. Nesse sentido, pode-se dizer, sem temor de incorrer em contradição, que o poeta cria o ser. Porque o ser não é algo dado, sobre o qual se apoia nosso existir, mas algo que é feito. O ser não pode se apoiar em nada porque o nada é seu fundamento. Assim, não lhe resta outro recurso senão segurar-se em si, criar-se a cada instante. Nosso ser consiste numa possibilidade de ser. Ao ser não lhe resta nada senão ser-se. Sua falta original — ser fundamento de uma negatividade — obriga-o a criar sua abundância ou plenitude. O homem é carência de ser mas também é conquista do ser. O homem é lançado para nomear e criar o ser [...]. Trecho extraído da obra O arco e a lira (Nova Fronteira, 1982), do escritor e diplomata mexicano Octavio Paz (1914-1998) que, em outra obra, Signos em rotação (Perspectiva, 2003), observa que: [...] Com efeito, a linguagem é sentido disto ou daquilo. O sentido é o nexo entre o nome e aquilo que nomeamos. Assim, implica distância entre um e outro. Ao anunciarmos certa classe de proposição (“o telefone é comer”, “Maria é um triângulo”, etc) produz-se um sem-sentido porque o objeto torna-se insalvável: a ponte, o sentido rompeu-se. O homem fica só, encerrado em sua linguagem. Com a imagem sucede o contrário. Longe de aumentar, a distância entre palavra e coisa se reduz ou desaparece por completo: o nome e o nomeado são a mesma coisa. O sentido — na medida em que é nexo ou ponte — também desaparece; já não há nada que aprender, nada que assinalar. Mas não se produz o sem-sentido ou o contra-sentido e sim algo que é indizível e inexplicável, exceto por si mesmo [...]. Veja mais aqui e aqui.

EXILADOS[...] Richard: [Recosta-se, prende as mãos atrás da cabeça.] Ah, se soubesse como estou sofrendo agora! Por sua causa também, mas principalmente por mim mesmo. [Com intensa amargura.] E como eu rezo para que pudesse receber novamente a dureza do coração da minha falecida mãe! Preciso encontrar algum tipo de ajuda, dentro ou fora de mim. E vou encontrar. [BEATRICE levanta-se, olha fixamente para ele e afasta-se até a porta do jardim. Vira-se hesitante, olha novamente para ele, volta até a poltrona e apóia-se nela.] Beatrice: [Calmamente.] Ela o chamou antes de morrer, senhor Rowan? Richard: [Perdido em pensamentos.] Quem? Beatrice: Sua mãe. Richard: [Voltando a si, olha-a pungentemente por um momento.] Então meus amigos também comentaram a respeito disso, que ela mandou me chamar antes de morrer e que eu não fui vê-la. Beatrice: Sim. Richard: [Friamente.] Não, ela não mandou me chamar. Morreu só, sem me perdoar e fortalecida pelos rituais da sagrada igreja. Beatrice: Por que está falando comigo desse jeito, senhor Rowan? Richard: [Levanta-se e anda de um lado para o outro.] E você vai dizer que esse meu sofrimento é minha punição. Beatrice: Ela lhe escreveu? Quer dizer, antes de... Richard: [Parando.] Escreveu. Uma carta com conselhos, mandando que esquecesse o passado e lembrasse das últimas palavras que havia me dito. Beatrice: [Suavemente.] E a morte não o afeta, senhor Rowan? É um fim. Nada mais é tão certo. Richard: Enquanto estava viva, ela virou as costas para mim e para minha família. Isso, sim, é certo. Beatrice: Ao senhor e à sua família... ? Richard: Eu, Bertha, nosso filho. Então, esperei pelo fim, como você diz. E ele veio. Beatrice: [Cobre o rosto com as mãos.] Não, não posso acreditar no que estou ouvindo. Richard: [Furiosamente.] Como minhas palavras poderiam ferir aquele pobre corpo apodrecendo na cova? Você acha que eu não lamento pelo amor frio e virulento que ela tinha por mim? Eu lutei contra o seu espírito enquanto ela viveu, até o amargo fim. [Pressiona a mão contra a testa.] Ele ainda luta contra mim, aqui. Beatrice: [Como antes.] Por favor, não fale assim! Richard: Ela me afastou. Por causa dela vivi anos exilado e na miséria, ou quase. Nunca aceitei as esmolas que ela me mandava pelo banco. E esperei também. Não pela sua morte, mas que me compreendesse de algum modo, o próprio filho, sua carne, seu sangue. Mas isso nunca aconteceu. Beatrice: Nem mesmo depois de Archie? Richard: [Asperamente.] Meu filho, você acha? Uma criança fruto do pecado e da vergonha! Você está falando sério? [Ela levanta a cabeça e olha para ele.] As más-línguas daqui já estavam prontas para contar tudo a ela, para amargurar ainda mais sua mente doentia e instigá-la contra mim, Bertha e nosso filho bastardo e ateu. [Estendendo suas mãos para ela.] Você não consegue ouvi-la desdenhando de mim enquanto falo? Você deve conhecer aquela voz, com certeza, a voz que lhe chama de protestante demoníaca, de filha do pervertido. [Recompondo-se subitamente.] De qualquer forma, uma mulher notável. [...]. Trecho da peça teatral Exilados (Iluminuras, 2003), do escritor irlandês expatriado James Joyce (1882-1941), contando a história de um casal que volta a Dublin depois do exílio e retoma contato com um jornalista que é apaixonado pela esposa do amigo e entra em conflito interno, desenvolvendo uma trama de um triângulo amoroso entre um artista que luta contra as convenções burguesas, sua mulher de caráter forte e insubmisso e um jornalista de temperamento sensual, mostrando a frágil divisão de possessão existente quando amor e amizade realizam-se livremente sem restrições. Veja mais aqui.

CINCO POEMAS - OH MEU SENHOR! I - o modo como ela ouvia a chuva / um último momento e o rapaz lhe salva / quase sempre ele / vai requebra pela calçada / calça justa cabelos negros / sobre a pista de dança daquele modo / como ele / o rapaz / dançava / o corpo nos 70 aquele rapaz / o modo como agora ela reza senhor / saída de um retábulo hieronymus / sobre a mesa da sala/ os pássaros monstros voando como balas / estilhaçando as janelas de um céu azul / os pássaros sem modos do amanhecer / os estridentes “eles" / cristais presos ao vidro / as balas azuis as balas / os cavaleiros com suas caras / a cruz no peito estilhaçado pelos mesmos pássaros / a sala a vala rasa a vara dos / treze anjos no teto a casa / são anjos com olhar afiado / de oh piedade senhor tende de nós / o modo como ela sabia das flores dias / e dias lilases branco pálidos como seu rosto / e as flores até enegrecerem secarem / vivas como velas / tremulando sobre as paredes / bebendo as noites de celan / o modo como ela atravessava e bebia o corredor / e a noite varava / oh senhor! II - oh tereza de ávila entre os muros / de pedra / a minha casa / como a tua lavoura a minha casa / sob os teus pés / mater dolorosa / doce aragem perfumada / sobre o meu retrato paira / ondula esfumaça / cor-de-rosa venenosa / a rosa oh tereza santa / desvairada / a neblina grita guerra / a minha casa arde / e a minha tarde espera / entre as velas / que iluminam as pedras / da muralha sem pássaro / da cidade sem máscara / da outra pedra sem laço / onde o espaço onde / arde o ocaso arde / e queima a casa dela / areia areia areia / minha estrela sobe o sepulcro / areia aleph areia / beijo o muro / e pedra / atravesso a casa / meu livro de letras / movimenta-se / areia / sob o chão de minha casa / movimenta-se / a tua casa escassa / mina e cada passo / acaba / acaba e cada brisa / inicia outra casa / areia areia areia A FIANDEIRA ABRIU: A fiandeira abriu o baú de prata teceu um vestido cor de terra. Vestiu-o e adormeceu em meio ao mato que cobriu a casa branca do cal da escuridão. Nunca mais despertou. O diabo sentado para o jantar ouviu tudo. A noite misteriosa nada escutou: a cruz no peito e o diabo nos feitos As saias de Juana, a alma, são brancas Todos os vestidos das mulheres da casa são negros guardados em baús dobrados no desalinho do tempo No verão enquanto os tamanduás passeiam os focinhos compridos as mulheres de negro cerram as janelas e fingem o luto choram como bezerras Rezam ao pé da cruz se descabelam para depois pecar ao sol com suas vestes pássaras cantam seus rondós silvestres pintam os olhos que exibem esquecem São criaturas de um outro mundo Juana, a alma de porcelana, nunca chorou 1300 Mis saetas ligeras les tiraré, y la hambre corte el vital estambre; y de aves carniceras TYRANA CANTADA À SACRA PRECLARÍSSIMA SANTA JOANA PRINCESA EM SEU LEITO DE MORTE – 1 Ela disse ao coração do cantor / não cante/aos corvos / ela disse ao mar profundo / jazem/as brumas da ira / ela disse não cante /apenas diga / ao silêncio/que plante / aquela flor/ e rasgando a sombra/cuja mão / ela /esguia como um longo cravo/ segurava/disse ao tempo/ não espantes/o sol com a tua dor BESTIÁRIO - a minha guerra será a tua guerra / não a guerra dos homens /mas a dos pássaros desgarrados / o nosso bestiário será esse / o do contrário nunca jamais / e a minha casa será a tua guerra / o nosso bestiário será esse / o do contrário o dos urubus diários / e a minha carne será a tua guerra / o nosso bestiário será esse / o dos monstros submersos que eunoé lembrará / quando a minha cruz for a tua guerra / então o nosso bestiário será esse / canto perdido sem prumo retalhado / sem dor sem beleza nem terra / e a minha guerra será a tua guerra. Poemas da poeta e artista plástica Jussara Salazar, autora dos livros Carpideiras (2011), Natália (2004) e Coloraurisonoros (2008), entre outros.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
A atriz, crítica e diretora teatral Luíza Barreto Leite (1909-1996), estreou no cinema com o filme Sob a luz de meu bairro, em 1946, tornando-se uma das fundadoras do grupo teatral Os comediantes e foi diretora de radioteatro da Rádio Mec. Ela também foi ensaísta, professora e é autora dos livros A mulher no teatro brasileiro (Espetáculos, 1965), Teatro na educação (INP, 1954), Teatro e criatividade (MEC/SNT, 1975) e O teatro na educação artística (Achiamé, 1980), entre outros.
Veja mais aqui.


O livro Palpo a quimera e o tremor, de Vital Corrêa de Araújo & muito mais na Agenda aqui.
&
A arte de Osmário Marques
&
Coisas da vida de rir & chorar, a literatura de Ferreira Gullar & Patrick McGrath, a fotografia de Max Dupain & JR aqui.
 

terça-feira, março 27, 2018

LÉVINAS, OCTAVIO PAZ, CARL SPITTELER, GÉRARD DE NERVAL, CLÁUDIO SANTORO & SARAH VAUGHAN, GINA PELLÓN, TEATRO & ARTUR AZEVEDO, NEUROEDUCAÇÃO

DE NOTICIÁRIOS, BOATOS E, AFINAL, O QUE É QUE É, HEM? - Imagem: Passagre de le Nuit, da pintura cubana Gina Pellón (1926-2014). - O movimento do blábláblá não tem fim, oh língua ferina! A Rádio Povo ganha nas estatísticas: pior que o boca-a-boca não há. Diz o riscado: caiu na roda ou foi, ou é, ou está pra ser! Todo dia Fulano diz que foi assim, Beltrano diz que foi assado e, ainda, Sicrano diz que não foi nada disso e começa embolando o meio de campo. Que coisa! Foi, não foi, cada um, uma versão. Uns dizem disso, outros daquilo, entender, que bom, ah, ninguém é normal. Tem quem goste de beber água na orelha dos outros e vice-versa. Bisbilhotar a vida alheia é uma prática perniciosa, já costumeira. Tem gente que não dorme antes de saber das últimas da fofocagem. Pois é, tem quem se preste para cada coisa! A calúnia mesmo já virou moda, a boataria já ganhou status de plantão, e como o levantamento de falso arrombou com o Direito brasileiro, agora é só dizer o que quer e bem entender, e se preparar para ouvir o que não quer. Ôpa! Basta cruzar na rua: Quais as novidades? Saber mesmo pra quê! Diz o ditado: a curiosidade matou o gato. Ah, mas quem acumula mais informação sobre um e outro, senão todos, é sabido, fica por dentro de tudo, não corre tantos riscos, livra-se da esparrela. Tem gente que já vive de vender leva-e-traz, ora. Afora os voluntários que adoram ver o circo pegar fogo. Sabia que aquele outro dia escorregou? Foi mesmo? Ah, nem te conto: aquelazinha ali já era. É mesmo!?! Também faliu Zé dos grudes! Nossa! A mulher dele, depois de duas de quinhentos, se mandou! Num diga! Sabe da última? E ainda tem? Nem é tão atual assim. Aí é só o repeteco: deitam amiudada a queimação de filme de quem caiu em desgraça. Tintim por tintim. Você não sabia? Você está por fora meeeesmo! E eu que não sei nem a diferença da repimboca da parafuseta da tarraqueta de Itapipoca? Desliguei. Ora, ora. Não é a mesma coisa? A mesma coisa é um caminhão carregado de japonês com um guará no volante da boleia pensando que é cana-de-açúcar! Aí, sim. Vixe! Ah, por que japonês não fotografa outro? Ué, porque só sai flash! Já dizia Millôr: Deus não existe; se existisse, os japoneses já tinham fotografado. Valha-me! O que é que é? Pronto, virou adivinha. E tem quem dê um doce pra quem matar a charada. E isso estampado em revista popular, nos canais de tevês e nas redes sociais. O povo gosta é de fofoca mesmo, hem? Voyeurismo puro. Onde é que tem um buraquinho pra brechar? Bem, os incomodados mandam logo procurar o da mãe – a dele -, né não? E queimam o próprio rabo: língua falou, cu pagou! Eu, hem! Por bem ou por mal confundiram tudo: comunicação é fuxico, senão difamação, especulação, falatório. Olhe lá onde vai botar esse focinho enxerido, viu? A vida dos outros não é brincadeira! Eu que livre meu espinhaço das más línguas, ô-rô! Tiro o meu da reta e fui! © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.

RÁDIO TATARITARITATÁ:
Hoje na Rádio Tataritaritatá especial com a música do maestro e compositor Cláudio Santoro (1919-1989): Sinfonia nº 5, Sinfonia nº 7 & Ponteio; da cantora estadunidense de jazz Sarah Vaughan (1924-1990): Live in the Michael Fowler Center, Berliner Jazztage & com Duke Ellington Live at the Berlim; & muito mais nos mais de 2 milhões de acessos ao blog & nos 35 Anos de Arte Cidadã. Para conferir é só ligar o som e curtir.

PENSAMENTO DO DIAÀ medida que a esfera do trabalho se alarga, a do riso diminui. Tornar-se homem é aprender a trabalhar, a se mostrar sério. Mas se o trabalho humaniza a natureza, desumaniza o homem. Pensamento do escritor e diplomata mexicano Octavio Paz (1914-1998). Veja mais aqui e aqui.

ALTERIDADE - [...] As necessidades elevam as coisas, simplesmente dadas, ao nível de valores. Admiravelmente retas e impacientes na sua visada, as necessidades não se concedem múltiplas possibilidades de significação senão para escolher a via única ao ser, não ao celebrá-lo, mas ao trabalhá-lo. [...] O Desejo do Outro, que nós vivemos na mais banal experiência social, é o movimento fundamental, o elã puro, a orientação absoluta, o sentido [...] O Outro que se manifesta no Rosto perpassa, de alguma forma, sua própria essência plástica, como um ser que abrisse a janela onde sua figura, no entanto já se desenhava. Sua presença consiste em se despir da forma que, entrementes, já a manifestava. Sua manifestação é um excedente (surplus) sobre a paralisia inevitável da manifestação. É precisamente isto que nós descrevemos pela fórmula: o Rosto fala. [...]. A passividade pura que precede a liberdade é responsabilidade. Mas a responsabilidade que não deve nada à minha liberdade é minha responsabilidade pela liberdade dos outros. Lá onde eu teria podido permanecer como espectador, eu sou responsável, em outros termos, tomo a palavra [...]. Trechos extraídos da obra O humanismo do outro homem (Vozes, 2009), do filósofo francês Emmanuel Lévinas (1906-1995). Veja mais aqui, aqui e aqui.

PROMETEU & EPIMETEU - [...] E Sofia estava em pé diante do irmão, na pedra extrema do penhasco, o rosto animado pela vibração do mar, transfigurado, e os ventos brincavam com as suas negras madeixas [...] E novamete, após alguns instantes, não lhe bastou isso à temeridade do seu desejo, e então ela se desinteressou do espetáculo do mar agitado e lançou o olhar para a outra margem, que tranqüila e silenciosa, com um ar de felicidade, repousava acima de todo aquele bulício de espumas. Verde e dourada apresentava-se ela, como uma reminiscência numa festa de bodas, como um coração moço pinta o mundo com as tintas de sua própria alegria, e a viração daquela margem era feita de graça, um suave clarão ljhe aureolava a fronte, à volta de seus virgens quadris brilhava um cinto bordado de ricas cores, saturadas de luz. E diferentes eram estas cores das muitas que inundam o mundo inteiro com seu liquido fluxo, escurecidas por um ar espesso, manchadas pelo uso terrestre, exauridas pelo dilatado trajetyo, com olhos vazios de pensamento e semblante doente. Pois estas eram esperemidas dos raios mais puros do sol, condensavam em si suco sobre suco, luzindo com o ardor da brasa, acumulando ousadamente luz sobre luz, zombando alegremente de todo juízo pusilânime; como quando no ar puro do sul o papagaio se balançava na arvore pejada de flores, e como quando a borboleta estende as asas sobre a corola de um lírio, assim em felicidade e delicia irradiava a região magnífica, e iguais ao azul do céu ritilavam o ouro e o verde em sua cintura. E enquanto seu corpo se banhava assim na luz e no deleite, montanhas graves e tranqüilas erguiam-se ao céu a modo de pensamentos, à maneira da intuição, que, do alto de uma alma sublime, contempla meditativa o universo – e nos flancos das montanhas cresciam as florestas mudando de aspecto, e dos cimos numerosos as rochgas se despegavam, se esmigalhavam, rolando incessantemente como areia até às profundezas do mar convulsionado pela tormenta [...]. Trechos extraídos da obra Prometeu & Epimeteu (Delta, 1963), do escritor suíço Carl Spitteler (1845-1924), Prêmio Nobel de Literatura de 1919.

EL DESDICHADOEu sou o tenebroso, - o viúvo, - o inconsolado / príncipe d’Aquitânia, em triste rebeldia: / é morta a minha estrela, - e no meu constelado / ataúde há o negror, o sol da melancolia. / Na noite tumular, em que me hás consolado, / o pausilipo, a Itália, o mar, a onda bravia, / dá-me outra vez, - e dá-me a flor do meu agrado / e a ramada em que a rosa ao pâmpano se alia... / Sou Byron? Lusignan? Febo? O amor? Adivinha! / As faces me esbraseia o beijo da rainha: / cismo e sonho na gruta em que a sereia nada... / Duas vezes o Aqueronte, - é o grande feito meu, - / transpus a modular, nesta lira de Orfeu, / os suspiros da santa e os clamores da fada... Poema do poeta francês Gérard de Nerval (1808-1855).

HOMENAGEM AO TEATRO
[...] Depois de ouvir sua emocionada descrição das dificuldades de uma trupe pobre que não consegue sobreviver no Rio de Janeiro e viaja pelo país afora, apresentando-se onde acha espaço, Laudelina, atriz amadora convidada a integrar a companhia, comenta: “Deve ser uma vida dolorosa!”. A resposta de Frazão é este eloqüente discurso: “Enganas-te, filha. O teatro antigo principiou assim, com Téspis, que viveu no século VI antes de Jesus, e o teatro moderno tem também o seu mambembeiro no divino, no imortal Molière, que o fundou. Basta isso para amenizar na alma de um artista inteligente quanto possa haver de doloroso nesse vagabundear constante. E, a par dos incômodos e contrariedades, há o prazer do imprevisto, o esforço, a luta, a vitória! Se aqui o artista é mal recebido, ali é carinhosamente acolhido. Se aqui não sabe como tirar a mala de um hotel, empenhada para pagamento da hospedagem, mais adiante encontra todas as portas abertas diante de si. Todos os artistas do mambembe, ligados entre si pelas mesmas alegrias e pelo mesmo sofrimento, acabam por formar uma só família, onde, embora às vezes não o pareça, todos se amam uns aos outros, e vive-se, bem ou mal, mas vive-se! [...].
Trecho de cena do Ato I, quadro 1, Cena V de O Mambembe (M&M, 2002), do dramaturgo, escritor e jornalista Artur Azevedo (2855-1908). Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui e aqui.

Palestra: Neuroeducação & práticas pedagógicas no ensino-aprendizagem & muito mais na Agenda aqui.
&
O doce voo no sangue das andorinhas invisíveis do canavial, A cana do Brasil de Maria Dione Carvalho de Moraes, o pensamento de Padre Antônio Vieira, a música de Silvério Pessoa & Jacinto Silva, o balé de Ekaterina Krysanova, a pintura de Iryna Yermolova, a arte de Arthur Brouthers & a poesia de Vera Salbego aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
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quarta-feira, julho 06, 2016

OCTAVIO PAZ, PAULO FREIRE, MIDORI GOTO, BABI XAVIER, LUIS CRUMP, FABRICE DU WELZ, LUCIAH LOPEZ & RESILÊNCIA

FELIZ ANIVERSÁRIO – Imagem: Alleluia, by Fabrice Du Welz - Hoje eu queria ser um príncipe - mesmo estando cônscio de que não passe de um desafortunado plebeu. Mas, sonhar vale sempre a pena, né não? E, principalmente, sonhando com quem a gente gosta com o maior fervor. Pois bem, queria ser um príncipe mesmo: viril, espadaúdo, compreensivo, lindo de morrer, daquele tipo astro de cinema, um Apolo de capa de revista - mesmo que eu nada mais seja que um ogro destrambelhado e não valha um tostão furado de serventia nenhuma, mas eu queria sim, de mesmo. Sim, queria ser mesmo um príncipe e com todas as medidas possíveis que ocupasse seus anseios, preenchesse seus vazios, desvãos, carências, sótãos, e animasse sua vida, sonhos e desejos - mesmo que eu represente um fragmento mínimo e inútil no seu coração, eu queria sim. Se não um príncipe, me permitisse ao menos "um D´Artagnan para lhe fazer todas vontades"... ou um Lancelot sedutor... ou uma celebridade proeminente - mesmo que me veja como um zé-ninguém, um beócio atarantado, um biltre saliente, mesmo assim, prometo, tornar-me-ia um escravo físico e intelectualmente de você e ao seu dispor para toda precisão. Assim sendo e esse desejo realizado, de primeira, daria meu reinado - mesmo sabendo que eu não tenha nem onde cair morto. Depois, escalaria você como a camisa 10 da minha seleção sentimental - mesmo que eu não esteja na sua preferência, nem no foco do seu zoom, eu conseguiria - sabe-se lá como! -, seu passe para torná-la titular absoluta na minha paixão, ah! e como seria! Daí, eu mostraria por meus versos inauditos e minhas declamações exaltadas que você é a pessoa mais maravilhosa do universo, a mulher mais encantadora de todas arrebatadoras paixões, o ser mais adorável de todas as maravilhas do mundo - mesmo que eu tropece nos solecismos de um poetastro atônito, eu diria e repetiria e reiteraria sim e com todo prazer de minha alma. Olharia para você não desgrudando um segundo sequer do seu olhar na tentativa de adivinhar todas as suas querências - mesmo que eu não mereça sequer seu desconfiômetro de soslaio, eu faria sim! Dedicaria integralmente toda felicidade universal para que você se tornasse a mulher mais feliz, mais realizada e mais completa de todos os tempos - mesmo que eu só possua não mais que duas mãos, um sentimento do mundo e um verso desesperador. Daria minha alma e mais eu tivesse para que jamais sentisse a solidão, o abandono ou a indiferença - mesmo que não me queira ao seu lado e me tenha nas proximidades dos quintos dos infernos de cabeça prá baixo adentro, ah! eu daria sim.... Ah! se príncipe eu fosse, seria festa e fantasia. Como não sou, só posso dar meu coração. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.

 Imagem: a arte do pintor espanhol Luis Crump.

Curtindo o álbum Midori's 20th Anniversary ( 2003,), da violinista japonesa Midori Goto que também é psicóloga, professora, diretora e criadora do Centro Midori para Envolvimento da Comunidade na Escola Thornton of Music, da USC, nos USA.

PESQUISA:
O conceito de resiliência ainda parece carecer de definições mais funcionais para que possa ser estudado de forma mais precisa e especifica; contudo, é importante citar que a resiliência é fundamental para proteger o ser humano das adversidades encontradas no nosso meio. A partir do momento em que os pesquisadores e clínicos forem tendo clareza dos fatores que fazem parte da resiliência, podem-se desenvolver estratégias primárias e secundárias de atenção às pessoas e comunidades. [...].
Trecho do estudo Resiliência em transtornos mentais, de Makilim Nunes Baptista, inserido na obra Suicidio e depressão: atualizações (Guanabara Koogan, 2004), organizada pelo autor. Veja mais aqui, aqui, aqui e aqui.

LEITURA
A vida não é de ninguém, todos somos a vida – pão de sol para os outros, os outros todos que nós somos, - sou outro quando sou, os atos meus são mais meus se são também de todos, para que eu possa ser, hei de ser do outro. Sair de mim, buscar-me entre os outros, os que não são se eu não existe, os outros que me dão plena existência. Não sou, não há eu, sempre nós.
Trecho da obra Libertad bajo palabra (Fondo de Cultura Económica, 1960), do escritor e diplomata mexicano Octavio Paz (1914-1998), reunindo seus poemas escritos no período entre 1935-1957. Veja mais aqui e aqui.

PENSAMENTO DO DIA:
O princípio redentor só se consubstancia coletivamente; não há uma prática libertadora do indivíduo; educar – conduzir para fora – é conduzir para o outro, é, enfim, comu(m)nicar.
Pensamento do educador, pedagogista e filósofo Paulo Freire (1921-1997). Veja mais aqui, aqui e aqui.

IMAGEM DO DIA: LUALMALUZ – SEMANA LUCIAH LOPEZ 
... de você eu quero a simplicidade presa num relicário tesouro na palma da mão coração em festa/oração que não se acaba ao cair da noite... (( quero o silêncio dos segredos soprados em bocas de conchas marinhas enquanto a maré recua e desnuda a areia branca)) ...de você quero a leveza em carinhos_____ feito escamas de peixe reluzindo na luz deste seu olhar menino/poeta/ave marinha sobrevoando o horizonte dos meus olhos... (( quero o eco das palavras esculpidas na sua boca ecoando pelo marfim dos seus dentes/sorriso que me encanta)) ...de você quero um pedaço de sonho costurado no meu sonho feito colcha de retalhos que à noite me aconchega, me adormecendo na poesia/você.
Ecos, poema/imagem/foto da escritora, artista visual e blogueira Luciah Lopez. Veja mais aqui e aqui.

Veja mais sobre Primeira Reunião, Dalai Lama, Marc Chagall, Toquinho, Gilvan Lemos, Frank Wedekind, Jean Cocteau, Edgar Degas, María Casares & Valéria Tarelho aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
Todo dia é dia da atriz, modelo e apresentadora Babi Xavier.
Veja mais aquiaqui e aqui.

CANTARAU: VAMOS APRUMAR A CONVERSA
Recital Musical Tataritaritatá - Fanpage.
Veja aqui e aqui.



DIDI-HUBERMAN, LINDA DEANE, ADALYN GRACE & MARINÊS

    Imagem: Acervo ArtLAM .   Das loas & toadas no cavalo-marinho... - O afamado artesão Tirésia já nasceu assim: cego e vaticinado...