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segunda-feira, junho 22, 2020

NATHALIE GASSEL, DAMIANO COZZELLA, CLARICE ASSAD, AL HIRSCHFELD & LILISSAKAR



DIÁRIO DE QUARENTENA – UM COCHICHO, NÃO É PARA ESPALHAR! - Quem tinha a pá ciência, nem sabia direito: para despreparado nem o absurdo, disparates de quem para educar deseduca, tudo desdiz, desfaz, ou o duplipensar de Orwell, será? Os caras nem sabem o beabá, quanto mais! Nada mais que ridículos sectários que tangem uma manada festiva pro seu cercadinho. Só estupidez, nada mais mesmo. Parece mais obra de encomenda, não tem quem abra mão ou dê o braço a torcer, quem estiver do outro lado da corda que se arrisque ou vá às favas, situação nada comezinha. Ainda bem que ele enfatiza: Numa época de mentiras universais, dizer a verdade é um ato revolucionário. Ver aquilo que temos diante do nariz requer uma luta constante. Principalmente neste tempo de mentira fabricada como verdade absoluta no varejo e no atacado, montada numa negação reiterada que serve apenas ao fascismo oficial travestido de democrata. Eu, hem!

DOIS OU MAIS, DOS PARADOXOS: NÃO HÁ LÓGICA – Não há só A ou B, o resto do alfabeto, outro objeto, afora o estado de superposição: tudo flui aleatoriamente, vibra, pulsa, em todas as direções. E tem mais: o Gato de Schrödinger, o bootstrap de Chew, o paradoxal de Agostinho e lá vai teibei! Melhor Hermeto Pascoal: A Terra é um sonho infinito. Tudo é som! A música nasce como uma flor no jardim. Ainda bem que se disserem que endoidei, hahahahaha, na verdade, desendoideci. Vamos nessa!

TRÊS VEZES LUTO, LUTO! – Quem perde, enluta: a negação e o isolamento. Não há como ser diferente, parece faltar chão diante da ausência dos que foram arrebatados pela nuvem prateada de Tânato e seguiram pros Campos Elísios de Hades. Não há quem possua a astúcia de Sísifo ou o poder de Herácles, aos mortais não há saída, a não ser se recolher para elaborar, entorpecido, perturbado de raiva. Tudo é muito difícil de lidar, nenhuma justificativa plausível. A esperança é uma barganha que segue entre a depressão e a resiliência. No estágio final de Elisabeth Kübler-Ross, a aceitação: a paz distante e fim. Ah, não, a morte anunciada das democracias não é nada fácil, como jamais será qualquer perda. Não cruzo os braços, nem posso me conformar: luto e luto, quero um mundo melhor! Até amanhã. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais abaixo e aqui.

DITOS & DESDITOS: [...] Um corpo feminino preto, infinito em musculatura, nem cruzado nem tocado, nem visto de outra maneira em um papel revestido, cortado de uma revista, colocado em meu diário, vastidão e vertigem que contemplo diariamente. O que distingue esses corpos admirados um do outro, o que nesta unidade de sucesso dá a cada um deles sua sedução? Ela está vestindo uma camisa vermelha. É de tamanho médio, feito de veias salientes, cubos abdominais, um sorriso largo; a cabeça dele está no escuro, as pernas, os braços, seu torso incomumente maciço. Não podemos dizer ou saber nada sobre sua cavidade muscular, paisagem de pedras e fendas. Oh, contemplação sonhadora onde eu mergulho. Abrace nossos corpos, músculo contra músculo, em um movimento que estende todos eles, sem combate, no entanto, sem ofensa. Numa aposta com corpos e com carne brutal de corpos. Expondo cada veia inchada. Tendões divinos, tendões que eu transo com ela pernas, veias salientes. Direito anterior que parece emergir da pele, que não há energia sem restrições, livre e bonito como um espelho. Eu passo minha língua por esta vida, oh força, nesse louvor de um corpo inteiro, até o músculo costureiro pula, brota ao mínimo movimento com a solidez de um carvalho. Deltóide como montanhas, que eu bato, que eu bloqueio contra as minhas, abraço simétrico, onde todo um jogo de força exulta no silêncio dos corpos. Nossas bocas, sua pele fresca e áspera, sua língua quente, ainda extasiada com essa reunião. [...]. Trecho extraído do livro Èros androgyne (L’Acanthe, 2000), da escritora e fotógrafa Nathalie Gassel.

OS ARRANJOS CORAIS DE DAMIANO COZZELLA
A música do compositor, arranjador e professor Damiano Cozzella (1929-2018), signatário do Manifesto Música Nova, arranjador do Coral da USP e fundador do Departamento de Música da Unicamp, em 1970, além de autor de trilhas sonoras para diversos filmes brasileiros. O livro Arranjos Corais de Damiano Cozzella (Edusp, 2017), organizado por Alberto Cunha, traz uma compilação dos cerca de trezentos arranjos de 40 anos de música popular brasileira, traduzindo sambas, choros, marchinhas, canções, todos a capella para o idioma coral, apresentando parcela da produção artística que rompe barreiras entre o erudito e o popular, compartilhando laboratório de trabalho do compositor.
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A MÚSICA DE CLARICE ASSAD
A música da premiada compositora, pianista, cantora e arranjadora Clarice Assad, integrante da família musical Assad, bacharel em música pela Roosevelt University em Chicago e mestrado em composição pela Universidade de Michigan. A sua discografia é formada pelos indispensáveis álbuns Convite (2004), Amor tudo o que é (2008), Início (2012), Imaginarium (2014), Relíquia (2016) e Clarice Assad & Friends: Live at the Feer Head Inn (2016). Veja mais aqui.

A ARTE DE AL HIRSCHFELD
Tudo o que sei é que quando a coisa funciona, eu estou ciente, mas como deu certo, não sei. Através dos julgamentos, você elimina os erros e chega então à linha pura, que comunica a quem vê. O último desenho que se faz deve ser o melhor desenho.
AL HIRSCHFELD - A arte do ilustrador estadunidense Al Hirschfeld (1903-2003), que desenhou e inspirou estrelas de Holluwood e do mundo inteiro. Veja mais aqui.

PERNAMBUCULTURARTES
A música e arte do compositor indígena Lilissakar, que apresenta os rituais da cultura da tribo fulniô.
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A obra do jornalista e escritor Geneton Moraes Neto (1956-2016) aqui.
A poesia de Valmir Jordão aqui.
O espetáculo teatral Homens e caranguejos, da Cia Duas de Criação & Coletivo Cênico Joanas Incendeiam (SP) aqui.
O curta-metragem Loja de Répteis, de Pedro Severien aqui.
A música do compositor e maestro Dery Nascimento (1968-2018) aqui.
Dominando a acentuação gráfica de Arantes Gomes aqui.
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Sirinhaem aqui e aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
Veja mais aqui.
 

segunda-feira, junho 01, 2020

EDGARD VARÈSE, LYUDMILA TOMOVA, TOM ZÉ, LUCIA HELENA GONDRA & DEMOCRACIAS MORREM


DIÁRIO DE QUARENTENA – UMA: É CADA UMA QUE NEM CONTO – Pois é, chega! Quebrei a caixa, mudei de casca, troquei de pele, juntei os trapos e as mirradas lembranças para saber o que envergonha e o desesperador: apenas o silêncio e a solidão. Tudo que fiz até agora foi em vão, tão inútil quanto saber-me nem cético, nem cínico, apenas que já estava no sangue o louco de nascença atravessando anos de desencontros pelo insólito, para me perder por tão poucos reencontros. É tarde demais, nem sei quantos remorsos, tantas travessias, a vida eclipsada pisando em falso, engolindo mosquitos, tentando me desvencilhar de socos no estômago por escapulidas nem sempre escorregadias. A despeito dos embaraços envelheci desgracioso e desajustado, nada mais, apenas menino pés alados e desajeitado, levado pela corrente ao vento entre pedras e margens da minha desordem e indignação. Queria apenas contar uma historinha simplesmente humana, e em voz alta como uma oração estranha e própria aos que se foram e saudando os vivos, fazer a minha parte, apenas, como se salvasse o planeta do lixo um tantinho assim, feito o beija-flor de Crema: é pouco, mas sou eu, não sou nada. DUAS: APRENDIZ DE FEITICIEIRO, AEQUO AMENOS – Mesmo assim, extenuado dos inúteis esforços diante das inconveniências e misérias, tanto nado contra a corrente e do estresse da normalidade para não ser apenas um código de barras, ou um animal pensante ou sei lá o quê. O normótico é tão desumano e não me basta por ser tão aborrecido e enlouquecedor. Nem ligo pras galhofas se sou um fracassado de Jung, sei que não sou mais estúpido por absoluta falta de espaço, enquanto o grotesco está na esquina e eu encaro em cima da fivela sem sair da raia. Por incrível que pareça, já fiz de tudo tanto por vocação da necessidade em alta voltagem que nem sei mais, só não quero confundir as coisas: sou a favor de tudo que não seja contra o sujeito, apenas. Com os dias contados botei todas as portas abaixo para enfrentar o flagelo das interdições, tudo desapareceu, graças. Mesmo que tenha que aturar a chatura, dou umas risadas esclarecedoras com o GregNews, ou refletindo com o Meteoro e o Normose, ou seguindo o coletivo ciberativistas Sleeping Giants, enquanto vou xexéu assobiando Quintana passarinho. TRÊS: PANTA RHEI – Tudo passa, tudo flui. O assobio segue morros e abismos, quer ser indene e distingue vis-à-vis o que vem do bem e bom, quase premonitório visionário suplantando as nuvens de cocô de alcestes coisonários com seu negacionismo da distopia transnacional e estereótipos ad bestias! Sem nem saber vai arrebentando a anomia catingosa feita de coprólitos e flatulências dos que insistem suplícios nas arenas, ah, ignoro o desprezível com suas tolices letais do cúmulo da parvoíce humana. Ainda ouço a sátira de Bernard Shaw: A democracia é um sistema que faz com que nunca tenhamos um governo melhor do que merecemos. Sorrio e persigo solfejando a Carta à República de Milton e Brant: Quero um país melhor! Se der jeito, ou se quiser, vamos aprumar a conversa, gente! Até mais ver! © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais abaixo e aqui.

DITOS & DESDITOS: [...] Uma das grandes ironias de como as democracias morrem é que a própria defesa da democracia é muitas vezes usada como pretexto para a sua subversão. Aspirantes a autocratas costumam usar crises econômicas, desastres naturais e, sobretudo, ameaças à segurança – guerras, insurreições armadas ou ataques terroristas – para justificar medidas antidemocráticas. [...] Como não há um momento único – nenhum golpe, declaração de lei marcial ou suspensão da Constituição – em que o regime obviamente “ultrapassa o limite” para a ditadura, nada é capaz de disparar os dispositivos de alarme da sociedade. Aqueles que denunciam os abusos do governo podem ser descartados como exagerados ou falsos alarmistas. A erosão da democracia é, para muitos, quase imperceptível. [...] As democracias funcionam melhor – e sobrevivem mais tempo – onde as constituições são reforçadas por normas democráticas não escritas [...] a tolerância mútua, ou o entendimento de que partes concorrentes se aceitem umas às outras como rivais legítimas, e a contenção, ou a ideia de que os políticos devem ser comedidos ao fazerem uso de suas prerrogativas institucionais. Trechos extraídos da obra Como as democracias morrem (Zahar, 2018), dos professores e cientistas políticos estadunidenses, Steven Levitsky e Daniel Ziblatt, realizando uma análise crua e perturbadora do fim das democracias em todo o mundo, comparando o caso de Trump com exemplos históricos de rompimento da democracia nos últimos cem anos, tais como da ascensão de Hitler e Mussolini nos anos 1930 à atual onda populista de extrema-direita na Europa, passando pelas ditaduras militares da América Latina dos anos 1970, fazendo uma alerta: a democracia atualmente não termina com uma ruptura violenta nos moldes de uma revolução ou de um golpe militar; agora, a escalada do autoritarismo se dá com o enfraquecimento lento e constante de instituições críticas – como o judiciário e a imprensa – e a erosão gradual de normas políticas de longa data. Veja mais aqui, aqui & aqui.

A MÚSICA DE EDGARD VARÈSE
Deve-se pensar em termos de som e não em termos de notas sobre o papel. Minha linguagem é naturalmente atonal ainda que certos temas, certas notas repetidas, à maneira das tônicas, constituam eixos em torno dos quais as massas parecem se aglomerar. Deste modo o desenvolvimento musical cresce pouco à pouco graças à repetição de certos elementos que se apresentam sempre sob diferentes aspectos, e o interesse aumenta graças à oposição dos planos e graças ao movimento das perspectivas. Se os temas reaparecem, eles ocupam sempre uma função distinta num meio novo (os volumes). Quando os novos instrumentos me permitirem escrever música tal como a concebo, os movimentos das massas e o deslocamento dos planos sonoros serão claramente perceptíveis na minha obra e tomarão o lugar do contraponto linear. Eu pessoalmente gosto muito da definição de H. Wronsky: 'A música é a corporificação da inteligência nos sons'.
EDGARD VARÈSE - Trechos extraídos da obra Écrits (C. Bourgeois, 1983), do compositor francês Edgard Varèse (1883-1965), reunidos e apresentados pela professora e musicóloga canadense, Louise Hirbour. O compositor definiu os parâmetros para uma nova ética da pesquisa musical, com o rigor da firmeza artística desligada de teorias apriorísticas, com o propósito visionário de referência do estado de inquietude.
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A DEMOCRACIA DE TOM ZÉ
Democracia que me engana / na gana que tenho dela / cigana ela se revela, aiê; / democracia que anda nua / atua quando me ouso / amua quando repouso. / É o demo o demo a demo / é a democracia / é o demo o demo a demo / é a democracia. / Democracia, me abraça / com tua graça me atira / desfaz esta covardia, aiê; / democracia não me fere / mira aqui no meio / atira no meu receio. / Democracia que escorrega / na regra não se pendura / na trégua não se segura, aiô; / democracia pois me fere / e atira-me bem no meio / daquilo que mais eu mais receio. / Democracia, não me deixe / sou peixe que fora d'água / se queixa, morre de mágoa, aiê; / democracia não se dita / maldita seja se dura, / palpita pela doçura.
Democracia, do álbum No Jardim da Política (1984), parceira de Tom Zé e Vicente Barreto. Veja mais aqui e aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
No meu trabalho, mesclo elementos abstratos e realistas para criar clima, movimento e uma impressão do mundo ao nosso redor e dentro de nós. Minhas pinceladas estão se movendo, empurrando, emergindo e esmagando, mas nunca estão quietas e quietas. No meu trabalho recente, eu pintei o estilo alla prima, acrescentando espontaneidade, ousadia e elegância de uma só vez. Eu pinto contando histórias mágicas e evocando emoções complexas.
LYUDMILA TOMOVA – A arte da premiada pintora, ilustradora e designer editorial búlgara Lyudmila Tomova, que estudou realismo clássico na Academia de Belas Artes de Sofia e mais tarde na FIT em Nova York, onde estudou ilustração, além de sua experiência artística diversificada há mais de 20 anos. Veja mais aqui e aqui. E mais aqui.

PERNAMBUCULTURARTES
A arte da pianista e compositora Lucia Helena Gondra, autora de frevos como Riso largado no passo rasgado, Vou de reboque, Os bordões, entre outros sambas, choros e frevos de blocos.
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A música do pianista, maestro e compositor Marlos Nobre aqui.
Outro sol se levanta, do escrito Pelópidas Soares (1922 – 2007) aqui.
Rio Una: poemas, do poeta, jornalista, economista e folclorista Jayme Griz (1900-1981) aqui.
A realidade social da ficção, do sociólogo Sebastião Vila Nova aqui.
A arte da fotógrafa, artista visual e pesquisadora Ana Lira aqui.
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A Praieira em Água Preta aqui.


segunda-feira, maio 28, 2018

JAMES JOYCE, OCTAVIO PAZ, LUÍZA BARRETO LEITE, OSMÁRIO MARQUES, JUSSARA SALAZAR DEMOCRACIA, GIAN CORREA & CLÉLIA IRUZUN


CARTA DE PEITO ABERTO - Imagem: a arte do fotógrafo Osmário Marques. - Não nasci para sempre e a cada espanto a sequência da memória que me falha, se entrega ao meu exílio. Pouco sou do que me resta, nada tenho por primazia: sou mato de chão, areia de deserto, estrangeiro para todos, e por todos, cada um, sou comunhão. As palavras antigas agora quase são outras e o Brasil é sempre o mesmo, confunde-se com séculos de ontens, e nem se espera que amanhã seja um outro de tão pretérito, um futuro só passado no agora nem lembrado e sequer vivido diante das desventuras e sem pausas nas recordações. Daqui a gente não sai, apesar do riso de esgar dos que pensam donos dos confins. Ainda é cedo, mesmo que pareça tarde demais e tudo por um fio. Nenhum recado e me adivinho inteiriço nas minhas espessuras, porque perdi o calendário, os dias e os meses – não sei se hoje é quarenta e cinco de outubro, ou trinta e um de fevereiro -, cheguei antes do nome e dissolvo as sombras, fatigado de errar. Sirvo-me da derradeira esperança, escrevo estrelas e reclamam as palavras extraviadas no reino do silêncio. O sortilégio da poesia segue o exemplo luminoso do coração na serena voz, se faz frio ou calor, o corpo é só verdade ao sentimento. Sou o que canto, qualquer maneira, espesso ou insosso, levo o gesto sem demora pra quem punge a lágrima escondida. Canto a pele do rio, o céu azul da cidade, a doce terra, pode ser nada, só o que tenho, e o meu dedo alisa o espaço e toca o tempo – essas ilusões que não resistem aos meus olhos fechados. Cantar sempre foi o meu fraco e se me perguntam se vou, digo chego já, e reparto a colheita do peito sem certeza por mais distante que sejam os caminhos. A morte que me pertence depende de mim e sou nela o vale da eternidade. À minha espera, a paixão em tudo que faço: vivo o instante que me cabe e convivo com o milagre de viver vendaval. A vida é o que me vale, cair na vida pro exercício do amor. Deus abençoe a todos. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.

RÁDIO TATARITARITATÁ:
Hoje na Rádio Tataritaritatá especial com a música do compositor, arranjador e violonista 7 cordas Gian Correa: Jazzman no Morro, Gênese & Homenagem a Dominguinhos; da pianista Clélia Iruzun: Grand Fantasie Triomphali sur l’Hymne National Bresilien, Choro nº 5 – Alma brasileira & Bachianas Brasileiras nº 4 de Heitor Villa-Lobos; & muito mais nos mais de 2 milhões de acessos ao blog & nos 35 Anos de Arte Cidadã. Para conferir é só ligar o som e curtir.

PENSAMENTO DO DIA – [...] Nossa constituição é chamada de democracia porque o poder está nas mãos do povo e não de uma minoria. Quando se trata de solucionar rixas particulares, todos são iguais perante a lei; quando se trata de colocar um indivíduo à frente de outro em cargos de responsabilidade pública, o importante não é pertencer a determinada classe, mas sim a capacidade real de que o homem é possuidor. Ninguém, desde que nutra o desejo de servir ao estado, é mantido na obscuridade política por ser pobre... esta é uma peculiaridade nossa; não dizemos que um homem que não tem interesse pela política é um homem que trata de sua própria vida; dizemos que ele não tem absolutamente nada a fazer aqui. [...]. Palavras do estadista, orador e estrategista da Grécia Antiga, Péricles (495/492aC-429aC), durante a Era de Ouro de Atenas, recolhida da obra História das cavernas ao terceiro milênio (Moderna, 2000), de Myriam Becho Mota & Patrícia Ramos Braick. Veja mais aqui e aqui.

A DESCOBERTA & A REVELAÇÃO – [...] A revelação não descobre algo exterior, que estava aí, alheio; o ato de descobrir entranha a criação do que vai ser descoberto: nosso próprio ser. Nesse sentido, pode-se dizer, sem temor de incorrer em contradição, que o poeta cria o ser. Porque o ser não é algo dado, sobre o qual se apoia nosso existir, mas algo que é feito. O ser não pode se apoiar em nada porque o nada é seu fundamento. Assim, não lhe resta outro recurso senão segurar-se em si, criar-se a cada instante. Nosso ser consiste numa possibilidade de ser. Ao ser não lhe resta nada senão ser-se. Sua falta original — ser fundamento de uma negatividade — obriga-o a criar sua abundância ou plenitude. O homem é carência de ser mas também é conquista do ser. O homem é lançado para nomear e criar o ser [...]. Trecho extraído da obra O arco e a lira (Nova Fronteira, 1982), do escritor e diplomata mexicano Octavio Paz (1914-1998) que, em outra obra, Signos em rotação (Perspectiva, 2003), observa que: [...] Com efeito, a linguagem é sentido disto ou daquilo. O sentido é o nexo entre o nome e aquilo que nomeamos. Assim, implica distância entre um e outro. Ao anunciarmos certa classe de proposição (“o telefone é comer”, “Maria é um triângulo”, etc) produz-se um sem-sentido porque o objeto torna-se insalvável: a ponte, o sentido rompeu-se. O homem fica só, encerrado em sua linguagem. Com a imagem sucede o contrário. Longe de aumentar, a distância entre palavra e coisa se reduz ou desaparece por completo: o nome e o nomeado são a mesma coisa. O sentido — na medida em que é nexo ou ponte — também desaparece; já não há nada que aprender, nada que assinalar. Mas não se produz o sem-sentido ou o contra-sentido e sim algo que é indizível e inexplicável, exceto por si mesmo [...]. Veja mais aqui e aqui.

EXILADOS[...] Richard: [Recosta-se, prende as mãos atrás da cabeça.] Ah, se soubesse como estou sofrendo agora! Por sua causa também, mas principalmente por mim mesmo. [Com intensa amargura.] E como eu rezo para que pudesse receber novamente a dureza do coração da minha falecida mãe! Preciso encontrar algum tipo de ajuda, dentro ou fora de mim. E vou encontrar. [BEATRICE levanta-se, olha fixamente para ele e afasta-se até a porta do jardim. Vira-se hesitante, olha novamente para ele, volta até a poltrona e apóia-se nela.] Beatrice: [Calmamente.] Ela o chamou antes de morrer, senhor Rowan? Richard: [Perdido em pensamentos.] Quem? Beatrice: Sua mãe. Richard: [Voltando a si, olha-a pungentemente por um momento.] Então meus amigos também comentaram a respeito disso, que ela mandou me chamar antes de morrer e que eu não fui vê-la. Beatrice: Sim. Richard: [Friamente.] Não, ela não mandou me chamar. Morreu só, sem me perdoar e fortalecida pelos rituais da sagrada igreja. Beatrice: Por que está falando comigo desse jeito, senhor Rowan? Richard: [Levanta-se e anda de um lado para o outro.] E você vai dizer que esse meu sofrimento é minha punição. Beatrice: Ela lhe escreveu? Quer dizer, antes de... Richard: [Parando.] Escreveu. Uma carta com conselhos, mandando que esquecesse o passado e lembrasse das últimas palavras que havia me dito. Beatrice: [Suavemente.] E a morte não o afeta, senhor Rowan? É um fim. Nada mais é tão certo. Richard: Enquanto estava viva, ela virou as costas para mim e para minha família. Isso, sim, é certo. Beatrice: Ao senhor e à sua família... ? Richard: Eu, Bertha, nosso filho. Então, esperei pelo fim, como você diz. E ele veio. Beatrice: [Cobre o rosto com as mãos.] Não, não posso acreditar no que estou ouvindo. Richard: [Furiosamente.] Como minhas palavras poderiam ferir aquele pobre corpo apodrecendo na cova? Você acha que eu não lamento pelo amor frio e virulento que ela tinha por mim? Eu lutei contra o seu espírito enquanto ela viveu, até o amargo fim. [Pressiona a mão contra a testa.] Ele ainda luta contra mim, aqui. Beatrice: [Como antes.] Por favor, não fale assim! Richard: Ela me afastou. Por causa dela vivi anos exilado e na miséria, ou quase. Nunca aceitei as esmolas que ela me mandava pelo banco. E esperei também. Não pela sua morte, mas que me compreendesse de algum modo, o próprio filho, sua carne, seu sangue. Mas isso nunca aconteceu. Beatrice: Nem mesmo depois de Archie? Richard: [Asperamente.] Meu filho, você acha? Uma criança fruto do pecado e da vergonha! Você está falando sério? [Ela levanta a cabeça e olha para ele.] As más-línguas daqui já estavam prontas para contar tudo a ela, para amargurar ainda mais sua mente doentia e instigá-la contra mim, Bertha e nosso filho bastardo e ateu. [Estendendo suas mãos para ela.] Você não consegue ouvi-la desdenhando de mim enquanto falo? Você deve conhecer aquela voz, com certeza, a voz que lhe chama de protestante demoníaca, de filha do pervertido. [Recompondo-se subitamente.] De qualquer forma, uma mulher notável. [...]. Trecho da peça teatral Exilados (Iluminuras, 2003), do escritor irlandês expatriado James Joyce (1882-1941), contando a história de um casal que volta a Dublin depois do exílio e retoma contato com um jornalista que é apaixonado pela esposa do amigo e entra em conflito interno, desenvolvendo uma trama de um triângulo amoroso entre um artista que luta contra as convenções burguesas, sua mulher de caráter forte e insubmisso e um jornalista de temperamento sensual, mostrando a frágil divisão de possessão existente quando amor e amizade realizam-se livremente sem restrições. Veja mais aqui.

CINCO POEMAS - OH MEU SENHOR! I - o modo como ela ouvia a chuva / um último momento e o rapaz lhe salva / quase sempre ele / vai requebra pela calçada / calça justa cabelos negros / sobre a pista de dança daquele modo / como ele / o rapaz / dançava / o corpo nos 70 aquele rapaz / o modo como agora ela reza senhor / saída de um retábulo hieronymus / sobre a mesa da sala/ os pássaros monstros voando como balas / estilhaçando as janelas de um céu azul / os pássaros sem modos do amanhecer / os estridentes “eles" / cristais presos ao vidro / as balas azuis as balas / os cavaleiros com suas caras / a cruz no peito estilhaçado pelos mesmos pássaros / a sala a vala rasa a vara dos / treze anjos no teto a casa / são anjos com olhar afiado / de oh piedade senhor tende de nós / o modo como ela sabia das flores dias / e dias lilases branco pálidos como seu rosto / e as flores até enegrecerem secarem / vivas como velas / tremulando sobre as paredes / bebendo as noites de celan / o modo como ela atravessava e bebia o corredor / e a noite varava / oh senhor! II - oh tereza de ávila entre os muros / de pedra / a minha casa / como a tua lavoura a minha casa / sob os teus pés / mater dolorosa / doce aragem perfumada / sobre o meu retrato paira / ondula esfumaça / cor-de-rosa venenosa / a rosa oh tereza santa / desvairada / a neblina grita guerra / a minha casa arde / e a minha tarde espera / entre as velas / que iluminam as pedras / da muralha sem pássaro / da cidade sem máscara / da outra pedra sem laço / onde o espaço onde / arde o ocaso arde / e queima a casa dela / areia areia areia / minha estrela sobe o sepulcro / areia aleph areia / beijo o muro / e pedra / atravesso a casa / meu livro de letras / movimenta-se / areia / sob o chão de minha casa / movimenta-se / a tua casa escassa / mina e cada passo / acaba / acaba e cada brisa / inicia outra casa / areia areia areia A FIANDEIRA ABRIU: A fiandeira abriu o baú de prata teceu um vestido cor de terra. Vestiu-o e adormeceu em meio ao mato que cobriu a casa branca do cal da escuridão. Nunca mais despertou. O diabo sentado para o jantar ouviu tudo. A noite misteriosa nada escutou: a cruz no peito e o diabo nos feitos As saias de Juana, a alma, são brancas Todos os vestidos das mulheres da casa são negros guardados em baús dobrados no desalinho do tempo No verão enquanto os tamanduás passeiam os focinhos compridos as mulheres de negro cerram as janelas e fingem o luto choram como bezerras Rezam ao pé da cruz se descabelam para depois pecar ao sol com suas vestes pássaras cantam seus rondós silvestres pintam os olhos que exibem esquecem São criaturas de um outro mundo Juana, a alma de porcelana, nunca chorou 1300 Mis saetas ligeras les tiraré, y la hambre corte el vital estambre; y de aves carniceras TYRANA CANTADA À SACRA PRECLARÍSSIMA SANTA JOANA PRINCESA EM SEU LEITO DE MORTE – 1 Ela disse ao coração do cantor / não cante/aos corvos / ela disse ao mar profundo / jazem/as brumas da ira / ela disse não cante /apenas diga / ao silêncio/que plante / aquela flor/ e rasgando a sombra/cuja mão / ela /esguia como um longo cravo/ segurava/disse ao tempo/ não espantes/o sol com a tua dor BESTIÁRIO - a minha guerra será a tua guerra / não a guerra dos homens /mas a dos pássaros desgarrados / o nosso bestiário será esse / o do contrário nunca jamais / e a minha casa será a tua guerra / o nosso bestiário será esse / o do contrário o dos urubus diários / e a minha carne será a tua guerra / o nosso bestiário será esse / o dos monstros submersos que eunoé lembrará / quando a minha cruz for a tua guerra / então o nosso bestiário será esse / canto perdido sem prumo retalhado / sem dor sem beleza nem terra / e a minha guerra será a tua guerra. Poemas da poeta e artista plástica Jussara Salazar, autora dos livros Carpideiras (2011), Natália (2004) e Coloraurisonoros (2008), entre outros.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
A atriz, crítica e diretora teatral Luíza Barreto Leite (1909-1996), estreou no cinema com o filme Sob a luz de meu bairro, em 1946, tornando-se uma das fundadoras do grupo teatral Os comediantes e foi diretora de radioteatro da Rádio Mec. Ela também foi ensaísta, professora e é autora dos livros A mulher no teatro brasileiro (Espetáculos, 1965), Teatro na educação (INP, 1954), Teatro e criatividade (MEC/SNT, 1975) e O teatro na educação artística (Achiamé, 1980), entre outros.
Veja mais aqui.


O livro Palpo a quimera e o tremor, de Vital Corrêa de Araújo & muito mais na Agenda aqui.
&
A arte de Osmário Marques
&
Coisas da vida de rir & chorar, a literatura de Ferreira Gullar & Patrick McGrath, a fotografia de Max Dupain & JR aqui.
 

quinta-feira, março 31, 2016

APRUMANDO A CONVERSA PELA DEMOCRACIA E LEGALIDADE



APRUMANDO A CONVERSA PELA DEMOCRACIA E LEGALIDADE – Sempre pela vida, não se deve admitir qualquer golpe. Não pode nem deve haver golpe de natureza alguma. Isto é, se ainda restar um tiquinho que seja de legalidade, de respeito constitucional e de brasilidade neste país – da minha parte, mesmo correndo o risco de me tratarem por ingênuo, creio que exista e que o bom senso, a Justiça e a verdade prevalecerão. Talvez não, quem sabe. Do contrário, esta jamais será uma Nação que poderá ser levada a sério - nunca foi mesmo, não será agora. Quem há cinquenta e dois anos atrás, viveu o período que durou por vinte e um anos, quando o processo de redemocratização entrou em marcha em 1985, culminando com a promulgação da Constituição Cidadã de 1988, sabe do que estou falando e jamais desejaria ou apostaria – como os interesses escusos das FIESP da vida, dos civis que apoiaram, da imprensa e dos que se arrumaram na maior dedaria e afanagem após o golpe militar, instaurando a ditadura a partir de 31 de março de 1964 -, num retrocesso dessa natureza. Documentos de toda sorte, desde livros, filmes e registros os mais diversos – porém nunca suficientes, por não mergulharem em toda sua plenitude nos mais completos horrores dos porões desse período negro de nossa história -, trazem relatos bastante detalhados do que ocorrera nesse lapso de tempo nos anais históricos brasileiros. E digo isso por que cada um de nós é responsável pelo momento crítico que estamos atravessando: um momento de rachadura, de incompreensão, de manipulação. E digo nós por que quem na vida nunca deu bola para um fiscal ou um toco prum barnabé birozado do disfuncional burocrático serviço público brasileiro? Quem nunca buscando seus interesses mais legítimos ou não, deu uma propina ou propôs suborno prum mequetrefe dum funcionário ou graduado gerente de uma instituição, para ter seu caso resolvido naquele instante, evitando adiar para o outro dia ou depois a sua requerência? Quem nunca deitou uma ôia prum patrulheiro rodoviário que ameaçou reter o seu veículo por mau funcionamento ou qualquer outra infração de trânsito? Quem não fez vistas grossas nos casos de desvios de merenda escolar, ou de medicamentos nos postos de saúde, ou no gato da energia, jacaré na água, no macaco da nota fiscal, no superfaturamento de obras públicas, na malversação do erário público, na tragédia da educação, na doença ineficiente da saúde pública, no sucateamento dos órgãos públicos, na depredação do patrimônio público, no abuso de poder, na extorsão das feiras e comércio, no enriquecimento ilícito, na carteirada, na subserviência diante de quaisquer autoridades cagando raio ou se locupletando do cargo, afora meio mundo de outras tantas práticas imorais, contraproducentes, subservientes, fisiologistas e nefastas para esmagar a supremacia do interesse público e promover a espórtula que reina no processo geral da corrupção? Quem não contribuiu para o descumprimento do princípio da dignidade da pessoa humana e do exercício da cidadania com preconceitos de cor, de credo, de situação financeira, de gênero e de toda a sorte de discriminação sobre condição ou necessidade especial? Quem ousaria dizer que nunca foi omisso ou que não foi conivente com essa realidade crítica que grassa em cada município e em cada estado da federação? Então, se o país e tudo que aqui funciona integra o Fecamepa, é porque cada um de nós ou foi, ou é ou está pra ser um verdadeiro Fabo responsável por tudo que aqui, nesta Nação, ocorreu e ocorre. E se chegamos a essa conclusão, se a gente quer moralizar esse país, tem que começar pela iniciativa de cada um de nós, moralizando a nós mesmos, tendo vergonha na cara e comportamentos éticos capazes de transformar a nossa própria conduta, no âmbito de nossa própria casa, a nossa própria comunidade, o nosso próprio bairro e a nossa própria cidade para que consigamos, a partir disso, fazer este Brasil um país melhor. A esse tipo de ação é costumeiramente chamado de Revolução Copernicana ao Contrário, ou seja, começar por nós e nosso ambiente doméstico a mudança de comportamento necessária para construir um país melhor. Aos moucos indiferentes do presente e aos meus pósteros, o meu recado: eu nunca me calei! Lutei, luto e lutarei sempre por um Brasil melhor paratodos! E vamos aprumar a conversa & tataritaritatá! © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui e aqui


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