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segunda-feira, maio 07, 2018

QUINTANA, LÉVINAS, JOHN DONNE, ASCENSO FERREIRA, MONTESSORI, ANCA STEFANESCU, RILDO HORA & HÉLÈNE GRIMAUD

TOLINHO, DE PRÍNCIPE A SAPO – Imagem: arte da artista visual romena Anca Stefanescu. - Pronto, desembestou de vez! Ao atravessar o mata-burro de uma instituição bancária, com o intento de dar entrada na documentação de seus direitos securitário-laborais, Tolinho teve um alumbramento: deu de cara com as feições formosas de Enoildita! Bastou isso, das pálpebras dele pararem de piscar, imobilizado ali, plantado, catatônico, estatelado, a firmar um olhar quase hipnotizado pras bandas dela. Oxe, só saiu desse estupor por trombada de um apressado fulo da vida, recompondo-se da perdição. Ajeitou-se, olhou pros lados e entre as filas, escolheu justo a dela. Isso, o alvo. Ela na frente, singela e alheia, afiava sua cobiça, dele ficar de soslaio, tapiando, só conferindo a compleição sedutora, dos pés à cabeça: Essa é das boas, toitiço cheiroso, hummm, olhos agateados, beiços de cangula insultante, um primor; pele mimosa, peitinhos apetitosos, cinturinha de pilão, rabada ancha, coxas roliças, cambitos jeitosos, um colosso, pronta pra casar. Disse pra si: Se assunte, meu véio, você está na frente do povo. Deu-lhe uma comichão nas partes pudendas, dele ligar o alerta! Agoniou-se: Isso é hora de dar vexame, rapaz? Restabeleceu-se probo, pigarreou, apertou a venta, ajeitou a beca, deu nó nas ideias e ficou ali todo sem jeito. A fila andando, ele fazia de desentendido e às olhadelas pros contornos dela. Enfim, ela chegou ao guichê e ele inquieto: Até a voz da mulher é música. Tô lascado. Aí, ao ser atendida a coisa enganchou: faltava uma fotocópia. Virou-se pra ele e falou: O senhor guarda o meu lugar? Surpreendido, ele atordoado, olhos saindo fora: Guardo sim, pode ir. E ficou lá plantado na fila, só queria ser atendido depois dela. E mandou o de atrás passar na frente, e depois outro, mais outro, e assim ficou até ela retornar. Pronto, seu lugar está guardado, pode ir pro caixa. Ela agradeceu com um sorriso, ele quase cai de tontura com tal graciosidade. Não demorou muito, chega a vez dele e ela agradeceu com grande reverência, apertou-lhe a mão afetuosamente, de modo que o mondrongo deu sinal de vida dentro da cueca, e ele: Nada não, senhora. Senhorita. Ah, senhorita, nada não. Só despertou quando o funcionário devolveu-lhe os documentos devidamente carimbados, falando-lhe algo que nem escutou, estava no mundo da lua e sem saber como descer. O que valia mesmo fora a boa ação, mas com o término do atendimento, olhou pra hora: Pronto, perdi a condução de volta, lasquei-me. Ah, mas não perdeu a viagem, Enoildita estava ali na frente conferindo os papeis. Depois de desencontros muitos no quengo, resolveu ir até ela: Tudo certo na sua documentação? Tudo, obrigada. De nada. Eita, perdi a condução! O senhor perdeu o ônibus? Perdi. Ah, tem nada não, fica lá em casa, pode ser? Ah, não seria incômodo? Nada, vamos pra lá? Eu moro logo na entrada na cidade, no Sítio dos Sonhos. Ah, sei onde é, bonito lugar, dá certinho preu pegar o primeiro bigú que passar. Que bom, então vamos. Vamos. E saíram na maior conversa mole, ele pilheriando daqui, ela risadinha de lá, assim por ruas e becos. Ao chegarem ao sítio, os pais dela haviam viajado às pressas por internação de parente numa cidade distante. Os irmãos estavam pelo meio do mundo. Ele e ela, sozinhos. Vixe! O negócio enfeiou. – Pode entrar, se pai chegar, digo que você perdeu a condução e não queria me deixar sozinha, ficou tomando conta de mim. Menina astuta, pensou consigo. E lancharam, papearam a tarde toda, coisa disso, daquilo, gastando hora e anedotas. Na boquinha da noite ela teve um desmaio. Pronto. E agora? O que vão pensar os pais dela, os irmãos, os vizinhos. Ficou que nem uma pata choca: Valha-me, Deus! Depois de muito zanzar dum lado pro outro, qual providência, socorro nenhum, achou por bem de pegar a moça e levar pra primeira cama que encontrou, deitou-a, cobriu-a e ficou futucando ideia do que fazer, afinal. Depois dos pensamentos congestionados, ele não tinha a menor noção do que poderia resolver àquela altura do campeonato. Se saísse, alguém poderia ver; e se ela morresse, ele era o culpado; se ficasse, os pais chegassem, era tarado; não sabia se ficava, fugia ou o que pudesse inventar naquilo tudo. Seja lá o que Deus quiser. E passou a ajeitá-la, conferindo e a se aproveitar da situação. E se arrependia, avançava, o calcanhar, a batata da perna, isso é um estrupício! Os quadris, a pele, os seios, isso é uma desgrama! Começou a alisá-la, acariciá-la. Rapaz, que é que tu estás fazendo? - A voz da consciência dele não dava trégua. E aí, vai ou não vai? Hesitava. Ou trepa ou sai de cima! Ah, destá. Cuidou tanto, rezou pros santos todos, aproximou-se, arrependeu-se de ter ficado. Ah, virou a cara pro perigo, encostou-se nela, beijou-a e, pronto, ela virou-se ainda de olhos fechados, ele arregalou os olhos, retribuiu o beijo e se abraçaram e se acocharam e se esfregaram e crau! Pronto, estava feito. Ele só percebeu tudo quando o dia já amanhecia. Ela sorria do lado dele. Vôte! O que foi que eu fiz? Agora é tarde, pensava. E ela: Vamos tomar café da manhã, já aprontei. Ele levantou-se, dirigiu-se pro sanitário, asseou-se o que pode, voltou, mesa posta, conversaram, comeram e danaram-se a trocar curiosidades, afetos e memórias. Lá pras tantas da manhã, saíram até o portão de entrada, apaixonados, de mãos dadas. Ele nas nuvens, riso nas orelhas. No trajeto passa uma conhecida: Tolinho, rapaz, cadê tu, hômi? Aparece! Tá, tá. E passou uma, duas, três, outra: Tolinho, olha, tem uma encomenda que a Zefa deixou pra tu lá em casa, visse? Viu, vou pegar depois. E assim foi, a ponto de Enoildita ligar o desconfiômetro, olhou pra ele e disse: Olhe, de tudo que aconteceu entre nós, não haverá outra vez! E soltou a mão dele, determinando uma distância regulamentar entre ambos. O coração dele foi pros pés. Lívido, desencontrado, olhou pra ela firmemente e pensou: essa é pra casar. E acompanhou tudo, ela toda chameguenta, pé pra lá e pra cá, sedutora, nada dele nem pensar em voltar pra sua própria casa. Depois de muito queimar as ideias, assuntou: Vou casar com ela. E ali mesmo no acesso ao sítio, virou-se praqueles olhinhos de vida e formalizou o pedido: Quer voar comigo? Poetou, pronto pra deitar a maior lábia. Ela franziu o cenho: Não tenho asas e não sou muito achegada a andar pelos ares, não. E nesse diálogo atrapalhado de asas, céu, pássaros, avoações, frio na barriga, sobe e desce, largadas e chegadas, consumiram a tarde e entraram na segunda noite, ensaiando o voo. Depois do banho, ela de vestidinho curto, provocante e decotado, por baixo só a natureza. Ele não perdeu tempo, avançou e caiu nos beijos, vasculhando tudo no corpo dela, até empunhar no maior afã o sexo acariciando-o no dela, foi só encostar o dedo no pinguelo com jeito, dela ter uns estrimiligues danados, paroxismo dos brabos, do gozo descer perna abaixo fazendo uma poça no chão. Eita! Maior molhadeiro no assoalho. Lavaram a jega madrugada adentro, embaixo dos lençóis, atrás da porta, na pia da cozinha, no canto do quarto, no frio do escuro, no escancaro das janelas, nos arrepios da alma, na embriaguez do amor, nas labaredas das paixões. No outro dia, ela na varanda, ele encostado no muro, apareceu uma vizinha que vinha às carreiras: Tolinho, mãe quer falar com tu, visse? Tá, vou lá depois. E no maior proseado pela manhã entraram pela tarde até chegar a terceira noite, maior idílio, dela descontrolar-se, segurar firme no pingolim dele e ronronar: Se ciscar por aí, corto fora, quero vê-lo capado se me contrariar. Vixe! Tolinho quase teve um troço, do bregueço sair murchando de quase se esconder na pentelheira. Eita, encolheu, foi? Ah, tá com medo. Destá. Aí ela começou com uns beijinhos lá, do cotoco se reerguer sonso, aos pouquinhos, ela numas lambidelas só via a coisa tomar jeito, todo se estirando e ela tome beiçadas pra salivá-lo todinho da baba cair colhões abaixo. Vuque-vuque medonho, na gozada ele deu um curto-circuito de acender o poste. Danou-se! Estava agora amarrado pela paixão, feitiço dela. E pintaram e bordaram, um encangado no outro, até o dia amanhecer ensolarado, papo no oitão de casa, casal apaixonado, do nada surgiu uma daquelas mulheres de fechar quarteirão: Tolinho, meu filho, tem um serviço pra tu lá em casa! Tá, eu vou. Ah, Enoildita amarrou o bode e disse: Vai nada. Ela deu uma freada de fazer greve de beijinhos e sexo. O cabra quase endoida comendo o dia todo até a quarta noite, ele já como tudo quase em paz, se achava um da casa, todo ancho, pensava já em arrumar uma meia água e entocar-se com ela nos cafundós de todas as botas perdidas. Pronto. Ia tudo bem na conversa da calçada, quando cruzou uma ex-namorada dele atrapalhando o papo: Tolinho, rapaz, tais vivo? Saudade de tu, hômi. E foi-se. Aí o tempo fechou, deu o creu. Ela ficou tão amuada de ficar intrigada dele. Tolinho saiu de si. Pra empiorar, os pais dela chegaram e, com eles, um ex dela deu sinal de vida: os olhos dela brilharam, eita! Troca de olhares, cumplicidade. Explicações daqui e dali, os pais desconfiados dele, ela maior papo com o ex. Tolinho com a situação desconfortável e nada a favor, já ia arrumando os mijados pra cair fora, quando ela, então, dirigiu-se pra ele: Sinal amarelo, rapaz! Vixe! Ela mudou da água pro vinho: Vai ver se estou lá na esquina e só me apareça aqui quando eu chamar, tá entendendo? Pronto, acabou-se o mundo. O cabra só faltava chorar, saiu tão angustiado na maior careta, perdido, coçando os cornos e os possuídos, nem sabia pra onde ia nem nada. Conseguiu uma carona na caçamba duma camioneta e foi procurar Bestinha: Bonito pra sua cara! Estava desolado, todo chocho pelos cantos, faróis baixos: Vai se apaixonar, bicho besta, o fim é esse. Ele remexeu nos bolsos, amolegou a peia, enfincou-se na cachaça e até hoje anda enamorado pelas estrelas, luas, dias, ruas, ao léu. O amor é lindo. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.

RÁDIO TATARITARITATÁ:
Hoje na Rádio Tataritaritatá especial com a música do gaitista, violonista, compositor, arranjador, maestro e produtor musical Rildo Hora: O tocador de realejo, Interpreta Luiz Gonzaga & ao vivo Homenagem a Hermeto Pascoal; da pianista francesa Hélène Grimaud: Concerto nº 1 Brahms, Concerto nº2 Rachmaninoff & Concerto in G major Ravel; & muito mais nos mais de 2 milhões de acessos ao blog & nos 35 Anos de Arte Cidadã. Para conferir é só ligar o som e curtir. Veja mais aqui.

PENSAMENTO DO DIA – [...] E o Outro, cuja presença é discretamente uma ausência e a partir da qual se realiza o acolhimento hospitaleiro por excelência que descreve o campo da intimidade, é a Mulher. A mulher é a condição de recolhimento, da interioridade da Casa e da habitação. [...]. O rosto feminino reúne essa claridade e essa sombra. O feminino é o rosto em que a perturbação cerca e invade a claridade [...]. Na inversão do rosto pela feminilidade – nesta desfiguração que se refere ao rosto – a in-significância mantém-se na significância do rosto [...] é o acontecimento original da beleza feminina, do sentido eminente que a beleza assume no feminino [...]. A amada não se opõe a mim como uma vontade em luta com a minha ou como submissa a minha, mas ao contrário, como uma animalidade irresponsável que não diz verdadeiras palavras. A amada retorna à posição da criança sem responsabilidade – esta sedução, esta juventude, esta pura vida ‘um pouco animal’ –, deixou seu estatuto de pessoa. [...]. Trechos extraídos da obra Totalidade e infinito (Ed. 70, 1988), do filósofo francês Emmanuel Lévinas (1906-1995). Veja mais aqui.

EDUCAÇÃO, MAIS OUTRA – [...] a educação não é aquilo que o professor dá, mas é um processo natural que se desenvolve espontaneamente no indivíduo humano; que não se adquire ouvindo palavras, mas em virtude de experiências efetuadas no ambiente. A atribuição do professor não é a de falar, mas preparar e dispor uma série de motivos de atividade cultural num ambiente expressamente preparado. [...] Trecho extraído da obra Mente absorvente (Nórdica, 1949), da pedagoga italiana Maria Montessori (1870-1952), que na obra Pedagogia Científica: a descoberta da criança (Flamboyant, 1965), observou que: [...] A educação é compartilhada pela mestra e pelo ambiente. A antiga mestra ‘instrutora’ é substituída por todo um conjunto, muito mais complexo; isto é, muitos objetos (os meios de desenvolvimento) coexistem com a mestra e cooperam para a educação da criança. [...]. A professora não pode só ensinar. Ela deve ver dentro da alma, para ajudar a criança na sua cura. Ela deve formar a personalidade, não pelo ensino, mas falando à sua alma, ao seu espírito, a sua inteligência, com compreensão, humildade e respeito. [...] Veja mais aqui.

MEDITAÇÕES – [...] É muito pouco chamar um homem de um pequeno mundo; exceto por Deus, o homem é um diminutivo de nada. O homem consiste de mais peças, de mais partes que o mundo; não o que o mundo faz, mas sim o que o mundo é. E se aquelas peças fossem ampliadas [...] o homem seria um gigante, e o mundo, um anão. [...] Nenhum homem é uma ilha, completa em si mesma. Todo homem é um pedaço do continente, uma parte da terra firme. Se um pedaço de terra for levado pelo mar, a Europa fica menor, como se tivesse perdido uma montanha ou a casa de um amigo, ou a tua própria. A morte de qualquer homem me diminui porque faço parte da humanidade. Por isso, nunca mandes indagar por quem os sinos dobram. Eles dobram por ti. [...]. Trechos extraídos da obra Meditações (Landmark, 2007), do poeta, prosador e clérigo inglês John Donne (1572-1631). Veja mais aqui.

CINCO POEMAS - A CANÇÃO DA VIDA: A vida é louca / a vida é uma sarabanda / é um corrupio… / A vida múltipla dá-se as mãos como um bando / de raparigas em flor / e está cantando / em torno a ti: / Como eu sou bela / amor! / Entra em mim, como em uma tela / de Renoir / enquanto é primavera, / enquanto o mundo / não poluir / o azul do ar! / Não vás ficar / não vás ficar / aí… / como um salso chorando / na beira do rio… / (Como a vida é bela! como a vida é louca!) BILHETE: Se tu me amas, ama-me baixinho / Não o grites de cima dos telhados / Deixa em paz os passarinhos / Deixa em paz a mim! / Se me queres, / enfim, / tem de ser bem devagarinho, Amada, / que a vida é breve, e o amor mais breve ainda… EMERGÊNCIA: Quem faz um poema abre uma janela. / Respira, tu que estás numa cela / abafada, / esse ar que entra por ela. / Por isso é que os poemas têm ritmo — / para que possas profundamente respirar. / Quem faz um poema salva um afogado. OS POEMAS: Os poemas são pássaros que chegam / não se sabe de onde e pousam / no livro que lês. / Quando fechas o livro, eles alçam voo / como de um alçapão. / Eles não têm pouso / nem porto / alimentam-se um instante em cada par de mãos / e partem. E olhas, então, essas tuas mãos vazias, / no maravilhado espanto de saberes que o alimento deles já estava em ti… SEGUNDA CANÇÃO DE MUITO LONGE: Havia um corredor que fazia cotovelo: / Um mistério encanando com outro mistério, no escuro… / Mas vamos fechar os olhos / E pensar numa outra cousa… / Vamos ouvir o ruído cantado, o ruído arrastado das correntes no algibe, / Puxando a água fresca e profunda. / Havia no arco do algibe trepadeiras trêmulas. / Nós nos debruçávamos à borda, gritando os nomes uns dos outros, / E lá dentro as palavras ressoavam fortes, cavernosas como vozes de leões. / Nós éramos quatro, uma prima, dois negrinhos e eu. / Havia os azulejos, o muro do quintal, que limitava o mundo, / Uma paineira enorme e, sempre e cada vez mais, os grilos e as estrelas… / Havia todos os ruídos, todas as vozes daqueles tempos… / As lindas e absurdas cantigas, tia Tula ralhando os cachorros, / O chiar das chaleiras… / Onde andará agora o pince-nez da tia Tula / Que ela não achava nunca? / A pobre não chegou a terminar o Toutinegra do Moinho, / Que saía em folhetim no Correio do Povo!… / A última vez que a vi, ela ia dobrando aquele corredor escuro. / Ia encolhida, pequenininha, humilde. Seus passos não faziam ruído. / E ela nem se voltou para trás! Poemas do poeta, tradutor e jornalista Mário Quintana (1906-1994). Veja mais aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
A arte da artista visual romena Anca Stefanescu.
Veja mais aqui.


Semana Ascenso Ferreira, Coração de Areia de Vital Corrêa de Araújo & muito mais na Agenda aqui.
&
As aventuras de Tolinho & Bestinha aqui.
&
Da hipocondria ao aluamento, a música d’Os Mutantes, a fotografia de Omar Roble, a arte de Sergio Martinez Cifuentes & Filipe Gil aqui.
 

sábado, janeiro 13, 2018

LYGIA FAGUNDES TELLES, JOHN DONNE, BUÑUEL, RAJNEESH, PAULO BRUSCKY, YES, VALENTINA PLISHCHINA & DATAÍSMO

SEGREDO DAS VOZES INDIZÍVEIS – Imagem: Fantasy, da artista plástica e ilustradora estadunidense Valentina Plishchina.- Quem foi, tanto fui, nunca encontrei o caminho de volta, ou sequer saí de onde estou, essa a impressão que tenho. Nunca tive nada por tanto que quisera, ambicionei talvez, êxito algum. Não me queiram mal, nem me vejam de soslaio. E mais tivesse, tudo perderia na bifurcação da surpresa: o amor e situações aversivas, pêndulos sucessivos. Vi de tudo: um templo luminoso inatingível entre estrelas cadentes na minha solidão – coisa só minha -, a saudade de trilhas misturadas no labirinto da lonjura, o Sol das manhãs incendiando a pradaria do meu riso, a mula no cio da noite sem cabeça rondando minha solidão com seus terrores mais ignotos, o brejo cheio inundando o quintal para expulsar os fantasmas brincando com planetas feitos de chimbras, o lobisomem zonzo teimando artista circense pra morrer de chorar no riso, a Lua enamorada e nua soltando beijos nas minhas quimeras empacotadas de tesão, cavalo de pau a se arvorar enfrentando moinhos de folhas e flores lendárias, mané-gostoso preso na acrobacia do elástico pelo brinquedo da cambalhota e vira a virar, equilibrista no arame farpado e o rio contando história na correnteza da tarde mormaçada, os repentistas nas feiras de lama e pilhéria soltando fuxicos e a maior boataria - inverdades, salvo engano, todas acontecidas no pino do meio dia, coincidências inevitáveis pelas semelhanças de uns e outros. Apenas lembranças que saltam e se dissolvem na parede fria, esvaem-se umas às outras na perda da aventura por subidas lesivas e descidas sombrias. Prevalecem por remissão o sorriso sensual das mulheres com suas apetecidas formas e gestos, vivenciadas no anoitecer de minhas fantasias resvaladas pelo tobogã das horas, pela mão nua das linhas perdidas e apagadas pelos dedos cegos, o braço esquálido e roto, o peito de zis cicatrizes purulentas, olhos de noite a fio, lábios de sede agreste. A vontade é questão adiada e a noite desinventada é menor que o instante do vexame violentado. Sei das coisas contrárias quando menos se espera, motejo da vida pra quem nunca soube a maldição das ruínas no perde e ganha e dá volta por cima, poeira, solado e bunda no chão. Ah, se eu tivesse dobrado lá trás, seria diferente, apenas isso e eu não saberia. Quem me chamou, não ouvi, não sei, soubesse seguia assim mesmo até o reconhecimento. Outra seria, não assim ou assado. Longe o que se fez sábio caído na ignorância. Sem assombro, todo tumulto às vitrines é só o ermo do coração com tudo de novo e outra vez todo dia, tarde e noite intermináveis. E todos apostam na desgraça, torcem pelo algoz, a carne desesperada do recalcitrante desafiador, torcida pende prum lado contra a vantagem e vai pro outro se parecer desfavorável. Essa gente não sabe o que quer, se sabe é só cara ou coroa da vez e a insensatez, a favor do leão e o circo pega fogo, sem importar quem pintou a zebra ou arrancou os olhos do assum preto. Afinal, ele só canta bonito se cego. O artista só obra milagre completamente embriagado de vida e de álcool. Ah, nada demais, sei que sabem melhor que eu de mim mesmo. Amanhã estarei morto, muito provavelmente, e serei apenas um raio de memória pro esquecimento. Tudo é efêmero até sonhar na eternidade. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.

RÁDIO TATARITARITATÁ:
Hoje na Rádio Tataritaritatá é dia de especial com a banda britânica de rock progressivo Yes, formada por Jon Anderson (vocal), Chris Squire (baixo), Steve Howe (guitarra), Alan White (bateria), Rick Wakeman (teclados), Tony Kaye (teclados), Peter Banks (guitarra) e Bill Bruford (bateria), com apresentações de concertos e shows ao vivo & muito mais nos mais de 2 milhões de acessos ao blog & nos 35 Anos de Arte Cidadã. Para conferir é só ligar o som e curtir. Veja mais aqui, aqui e aqui.

PENSAMENTO DO DIA – [...] Quando estiver com raiva, não se concentre napessoa que despertou sua ira. Deixe-a ficar na periferia. Você apenas ficaria com mais raiva. Sinta a ira em seu todo, deixando que aconteça interiormente. Não racionaliza, não diga: “Este homem me irritou e me fez ficar com ódio”. Não condene o homem. Ele apenas se tornou a situação. Sinta gratidão por ele ter feito com que algho que estava fechado se abrisse às claras. Ele bateu em certo lugar onde uma ferida estava oculta. Agora você sabe tudo. O ódio se dissolverá. [...]. Extraído da obra Tantra, sexo & espiritualidade (Ágora, 1977), do filósofo místico Bhagwan Shree Rajneesh (1931-1990). Veja mais aqui, aqui e aqui.

A REVOLUÇÃO DATAÍSTA - [...] A revolução dataísta provavelmente vai durar algumas décadas, se não um século ou dois. Mas a revolução humanista não aconteceu da noite para o dia. No inicio, os homanos continuaram a acreditar em Deus e alegavam que eram sagrados porque foram criados por Deus com algum propósito divino. Só muito mais tarde algumas pessoas ousaram dizer que humanos são sagrados por direito próprio e que Deus não existe. Similarmente, a maioria dos dataístas afirma hoje que a internet de todas as coisas é sagrada porque humanos a criaram para servir a necessidades humanas. Porém, eventualmente, ela pode se tornar sagrada por direito próprio. A mudança de uma visão de mundo antropocêntrica para uma datacêntrica não será meramente uma revolução filosófica. Será uma revolução prática. Todas as revoluções realmente importantes são práticas. A ideia humanista de que “humanos inventaram Deus” foi significativa porque teve implicações práticas de longo alcance. Da mesma forma, a ideia dataísta de que “organismos são algoritmos” é significativa devido a suas conseqüências prátricas no dia a dia. Ideias só mudam o mundo quando mudam nosso comportamento. [...] Mas se realmente adotarmos uma visão realmente ampla da vida, todos os outros problemas e desenvolvimentos serão ofuscados por três processos interconectados: 1 A ciência está convergindo para um dogma que abrange tudo e que diz que organismos são algoritmos, e a vida, processamento de dados. 2 A inteligência está se desacoplando da consciência. 3. Algoritmos não conscientes mas altamente inteligentes poderão, em brevem nos conhecer melhor do que nós mesmos. Esses três processos suscitam três questões-chaves, que espero que fiquem gravadas em sua mente muito depois de você ter terminado a leitura deste livro: 1. Será que os organismos são apenas algoritmos, e a vida apenas processamento de dados? 2. O que é mais valioso – a inteligência ou a consciência? 3. O que vai acontecer à sociedade, aos políticos e à vida cotidiana quando algoritmos não conscientes mas altamente inteligentes nos conhecerem melhor do que nós nos conhecemos? Trechos extraídos da obra Homo Deus: uma breve história do amanhã (Companhia das Letras, 2016), do escritor israelense e professor ph.D em História, Yuval Noah Harari.

O ÚLTIMO SUSPIRO DE BUÑUEL – Passei horas deliciosas nos bares. O bar para mim é um local de meditação e de recolhimento, sem o qual a vida é inconcebível. Hábito antigo que se fortaleceu com o passar dos anos. [...] Grande parte da atividade surrealista se desenvolveu no café Cyrano, na praça Balnche. [...] O bar é, ao contrário, um exercício de solidão. [...] Os que não se interessem por isto – infelizmente eles existem – que pulem algumas páginas. [...] Como certamente compreenderam, não sou um alcoólatra. É verdade que, durante toda a minha vida, em determinadas ocasiões, aconteceu que bebesse até cair. Mas a maior parte do tempo trata-se de um ritual delicado, que não proporciona uma verdadeira embriaguez, mas sim uma espécie de zonzeira, bem-estar tranqüilo que talvez se assemelhe ao efeito de uma droga leve. Isso me ajuda a viver e a trabalhar. [...] elaboramos a ideia de abrir um bar que se chamaria Au coup de Canon e que seria escandalosamente cato, o mais caro do mundo. Só haveria lá bebidas especiais, incrivelmente refinadas, vindas dos quatro cantos do mundo. Seria um bar íntimo,muito confortável, de perfeito bom gosto, é claro, com apenas umas dez mesas. Em frente à porta, a justificar o nome do estabelecimento, haveria uma antiga bombarda, com estopim e pólvora, que daria um tiro violento, a qualquer hora do dia ou da noite, cada vez que um cliente tivesse gasto mil dólares. Esse projeto sedutor, mas muito pouco democrático, nunca se realizou. Fica consignada a ideia. É interessante imaginar um modesto empregado, num prédio vizinho, acordado às quatro da manhã por um tiro de canhão, e dizendo à sua mulher, deitada ao seu lado: “Mais um patife que acaba de pagar mil dólares!”. [...]. Extraido da obra Meu último suspiro (Nova Fronteira, 1982), do controvertido cineasta espanhol Luis Buñuel (1900-1983). Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.

AS HORAS NUAS – [...] Cravo o olhar no baixo-relevo da parede onde há um jovem seminu montado num touro, agarrando-o pelos chifres. Mais próximo o ruído das suas sandálias no mármore polido. Não me volto nem mesmo quando sua mão afasta o pano que me cobre o ombro. Beija esse ombro, me toma pela cintura e colado ao meu corpo ele vai me levando adiante feito um escudo. Tombo de joelhos no leito, os cotovelos fincados no coxim. Agora ele me agarra pelos cabelos e puxa minha cabeça. Vou cedendo, o pescoço distendido em arco. Ainda não posso vê-lo colado assim às minhas costas nem me esquivar quando sua boca voraz mordeu minha nuca, devo ter gemido porque em seguida a boca procurou suavemente a minha orelha, contornou a orelha com a língua. Levantei-me de um salto mas ele me tomou com a mesma ferocidade do jovem do baixo-relevo domindo pelos chifres o touro esgazeado. Minhas pernas vão vergando submissas, escorregadias. Deixei cair a túnica e agora estamos nus e calmos, o suor correndo e se misturando. É a primeira vez, eu quis dizer para justificar minha inexperiência. Não consegui falar, inundado de um gozo tão profundo que em meio do tumulto fui tomado por um sentimento de paz. Nossas mãos se buscaram e se entrelaçaram ao longo dos corpos num aperto forte. E de novo sua voz turbilhonada e os meus soluços explodindo sem motivo, desencontradas as falas mas os corpos se encontrando e se ajustando. Eu te amo. [...]. Trecho extraído da obra As horas nuas (Nova Fronteira, 1989), da escritora premiada e membro da Academia Brasileira de Letras do Brasil e de Lisboa, Lygia Fagundes Telles. Veja mais aqui, aqui, aqui & aqui.

A ISCA – Vem viver comigo, sê o meu amor / E alguns novos prazeres provaremos / De areias douradas e regatos de cristal / Com linhas de seda e anzóis de prata. / Aí o rio correrá murmurando, aquecido / Mais por teus olhos do que pelo sol; / E aí os peixes enamorados ficarão / Suplicando a si próprios poder trair. / Quando tu nadares nesse banho de vida / Cada peixe, dos que todos os canais possuem, / Nadará amorosamente para ti, / Mais feliz por te apanhar, que tu a ele. / Se, sendo vista assim, fores censurada / Pelo Sol, ou Lua, a ambos eclipsarás; / E se me for dada licença para olhar / Dispensarei as suas luzes, tendo-te a ti. / Deixa que outros gelem com canas de pesca / E cortem as suas pernas em conchas e algas; / Ou traiçoeiramente cerquem os pobres peixes / Com engodos sufocantes, ou redes de calado. / Deixa que rudes e ousadas mãos, do ninho limoso / Arranquem os cardumes acamados em baixios; / Ou que traidores curiosos, com moscas de seda / Enfeiticem os olhos perdidos dos pobres peixes, / Porque tu não precisas de tais enganos, / Pois que tu própria és a tua própria isca, / E o peixe que não seja por ti apanhado, / Ah!, é muito mais sensato do que eu. Poema do poeta, prosador e clérigo inglês John Donne (1572-1631). Veja mais aqui e aqui.

A ARTE DE PAULO BRUSCKY
A arte do artista multimídia Paulo Bruscky. Veja mais aqui.

Veja mais:
Os véus dos céus & o prazer do amor, a música de Djavan, a arte de Luciah Lopez, o cinema de Christine Jeffs & Kirsty Gunn aqui.
Entrega na Crônica de amor por ela, Cesare Pavese, Theodor Adorno, Antonio Vivaldi, Ítalo Calvino, Ledo Ivo, Chiquinha Gonzaga, Luchino Visconti, Anne-Sophie Mutter, Maria Adelaide Amaral, Julião Sarmento, William Etty, Rosamaria Murtinho, Annie Girardot, Marize Sarmento & Grupo Carochinha – Maceió aqui.
Paul Feyerabend, Gilberto Mendes, Chaim Soutine, Sandra Scarr, Brian de Palma, Edwin Torres & Penelope Ann Miller aqui.
Indagorinha: Educação Brasileira, Reino dos Mamoeiros, Arranca-rabo & a batida Teibei aqui.
Quando Tomé mostrou ao que veio aqui.
O poeta chora aqui.
A menina do sorriso ensolarado aqui.
O que tiver de ser será aqui.
Todo dia é dia da criança aqui.
O equilíbrio mortevida do malabarista aqui.
Marilda Iamamoto & o Serviço Social, Marilena Cahí, Nise da Silveira, Guiomar Namo de Mello & Arriete Vilela aqui.
A cidade das torres & Antônio Cândido aqui.
Proclamação da República aqui.
A Era Vargas & a República aqui.
A Monarquia Brasileira aqui.
Todo dia é dia da mulher aqui.
Livros Infantis do Nitolino aqui.
Faça seu TCC sem Traumas: livro, curso & consultas aqui.
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Agenda de Eventos 35 anos de arte cidadã aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
A arte da artista plástica e ilustradora estadunidense Valentina Plishchina.
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quarta-feira, novembro 18, 2015

DONNE, VĀTSYĀYANA, MALFATTI, ALAN MOORE, BURNOUT, GERONTODRAMA, KAMA SUTRA & ORGASMO!!!

VAMOS APRUMAR A CONVERSA? SÍNDROME DE BURNOUT & O PROFESSOR – Um dos fenômenos que tem causado maiores prejuízos aos trabalhadores é a Síndrome de Burnout, enfermidade resultante das adversidades estressoras que acometem todo aquele no desempenho de suas atividades profissionais, não poupando o trabalho árduo e persistente de professores no âmbito escolar. Descoberta nos anos de 1970, pelo psicólogo estadunidense Herbert Freudenberg, ao descrever como consequência de excesso de expectativas e alto nível de estresse sofrido por profissionais que se envolviam no atendimento de terceiros, sendo identificada como uma reação orgânica às pressões incidentes nas relações e atividades trabalhistas. Ela aparece quando o profissional se sente pressionado, levando-o a sentir-se vazio e exausto, até chegar ao esgotamento psicológico, impedindo de lidar com as atividades laborais. Entre os seus sintomas estão o estresse, queda de cabelo, dor de estomago, enxaqueca, sudorese, taquicardia, palpitações, medo, condição arredia, angústia, apatia, úlcera, hipertensão, dores de cabeça, insônia, consumo exagerado de medicamentos e álcool, e sensação de impotência para realização da atividade laboral. Entre os problemas mais constantes para os acometidos pela enfermidade estão aqueles de natureza cognitiva, acrescidos de queda no desempenho, problemas de relações interpessoais que levam ao retraimento, a ausência de cuidados pessoais, as preocupações com o trabalho fora dele, satisfação reduzida, entre outros problemas de saúde oriundos do estresse crônico, como complicações digestivas e intestinais, problemas cardíacos, obesidade e depressão. Um sinal marcante dessa doença é a falta de motivação que ocorre quando não há mais entusiasmo para realização de suas atividades, apresentando-se desmotivado e sem forças para enfrentar suas atribuições, além de frustração, cinismo e emoções negativas. Entre as categorias profissionais mais atacadas por essa síndrome estão os professores pelas interações individuais com o seu ambiente de trabalho, incluindo nessas variáveis a experiência de maior número de alunos com diferentes condições de ensino-aprendizagem, passando a ser o trabalho de alta exigência com baixa possibilidade de controle, altas expectativas de resultados e incidência de fracasso do público assistido. A escola precisa desenvolver fatores de proteção e promover entre os docentes estratégias de prevenção que envolvam atividades de relaxamento, meditação, dormir suficiente, exercícios físicos e caminhadas, lazer, leituras, atividades voluntárias e culinárias, tempo livre para o ócio criativo, entre outras recomendações. Dessa forma, faz-se necessário combater a exaustão e o esgotamento, a perda de estímulo e a desmotivação, a baixa realização e o fracasso profissional, esses os sintomas principais dos vitimados pela Síndrome de Burnout. Nesse sentido, a escola pode desempenhar um papel fundamental de forma preventiva e promovendo a melhoria da qualidade de vida de seus professores, tornando o ambiente profissional mais qualitativo, harmonioso e integrando profissionais docentes e não docentes, corroborando a realização de treinamentos e debates com todos, investindo na qualificação e na infraestrutura, facilitando a comunicação entre os obreiros e reconhecendo a qualidade do corpo discente. Veja mais aqui e aqui.

 Imagem: Nu com jarro, da pintora, desenhista, gravadora e professora Anita Malfatti (1889-1964). Veja mais aqui.


Curtindo A Frog He Went A-Courting (1941) / Sonata for Solo Cello op. 25 nº 3 (1922) / Three Pieces for Cello & Piano op. 8 (1917) / Sonata for Cello & Piano op. 11 no. 3 (1919), do compositor alemão Paul Hindemith, com Judith Ermert (cello), Daan Vandewalle (piano).

ORGASMO – O livro O lado obscuro e tentador do sexo (Ágora, 2004), da jornalista e educadora sexual Patrícia do Espírito Santo, trata de temas como a virtude e o pecado, o sagrado e o profano, o erótico e o macabro, entre outros assuntos. Da obra destaco o trecho Orgasmo: Os franceses chamam o orgasmo de la petit mort – a pequena morte. Isso tem um motivo. Cada um tem seu jeito de chegar ao ápice do prazer. Existem muitas fantasias sobre seus efeitos e informações distorcidas de como deve acontecer. A intensidade, a frequência e as sensações decorrentes dele dependem de cada um, da relação com o parceiro, do tesão, da visão que se tem do sexo. Mas o que associa a sensação do orgasmo à sensação da morte é o fato de que ao se alcançar a plenitude do sexo, tudo pode terminar: nada mais falta, nada mais importa. É o êxtase. A astrologia traz também uma ideia similar. A casa oito, é a casa da morte, da crise, das transformações e ainda do sexo. O sexo é a porta para a união cósmica, o meio de se chegar à libertação, à união com o amado, seja ele a vida, o deus, o mestre sem fronteiras. É onde há a integração de um com o outro, por isso ela tem a ver com a relação sexual. É nela que o relacionamento se aprofunda ou morre, onde os valores podem ser transformados e muitas vezes precisam ser destruídos. É um local de intensidade e poder. Por isso é a casa da morte, para que um novo ciclo se inicie. Simboliza a morte da personalidade, do ego e o nascimento da alma. É a casa de Plutão, correspondente ao deus Hades da mitologia grega, senhor da morte. Vivemos em ciclos, em constante transformação, entre vidas e mortes. Nosso corpo de criança adolesce, amadurece e envelhece. Se o curso natural for seguido, o homem morre quando atinge o máximo de sua competência. Desaparece quando soma um número imensurável de conhecimento? Fim de ciclo? O ser humano maduro dá lugar ao jovem por meio da procriação e do repasse de seus conhecimentos e habilidades; a morte dos mais velhos abre espaço para outras visões e para o desenvolvimento de novas ideias, muitas vezes baseadas nas antigas. Esse é o princípio da cultura; o cruzamento de gerações favorece a transmissão cultural. E é exatamente pelas obras, pelas contribuições para esta cultura, pelas ideias deixadas no mundo que o individuo se imortaliza. Veja mais aqui e aqui.

A FORÇA DO DESEJO E DA PAIXÃO – No livro Kama Sutra (Kamasutram - L&PM, 2013), do filósofo indiano de tradição Carvaka e Lokyata que viveu entre os séculos IV e Vi aC., Vātsyāyana, trata é um antigo texto sobre comportamento sexual humano considerado o trabalho definitivo sobre amor na literatura sânscrita. Kama é a literatura do desejo e Sutra é o discurso de uma série de aforismo, sendo um padrão para texto técnico, traduzido como Aforismos sobre o amor. Da obra destaco o trecho sobre a força do desejo e da paixão: [...] Há nove tipos de união de acordo com a força da paixão ou do desejo carnal [...] Diz-se que um homem é de pequena paixão quando o seu desejo no momento da união sexual não é grande, cujo sêmen é escasso e que não consegue tolerar os abraços ardentes da mulher. Os que têm temperamento diferente desse são chamados de homem de média paixão, enquanto os homens de paixão intensa são cheios de desejo. Da mesma forma, as mulheres devem demonstrar esses três graus de sensações. Por último, há três tipos de homens e de mulheres de acordo com o tempo, ou seja, os de tempo curto, os de tempo moderado e os de tempo longo. Como nas divisões anteriores, há também nove tipos de união. [...] Pela união com homens, a luxuria, o desejo ou a paixão de uma mulher são satisfeitos, e o prazer derivado da consciência do desejo é chamado de satisfação. [...] Pode-se dizer que, se a maneira de agir de homens e mulheres é diferente, não há motivo para não haver diferença tanto no prazer que eles sentem quanto no resultado dos seus atos. [...] Quando são mesma natureza, homens e mulheres sentem o mesmo tipo de prazer; assim o homem deve casar com essa mulher, que o amará para sempre. Comprovando-se que o prazer de homens e mulheres é do mesmo tipo, segue-se que, no tocante ao tempo, há nove espécies de ato sexual, da mesma forma que há nove intensidades conforme a força da paixão. Inúmeros tipos de união podem existir ao se considerar as combinações possíveis entre os nove tipos de união de acordo com a dimensão, a força da paixão e o tempo. Por isso, os homens devem usar os meios adequados para cada tipo específico de união sexual. Na primeira união sexual, a paixão do homem é intensa e o seu tempo é curto, mas nas uniões subsequentes no mesmo dia ocorre o inverso. Com a mulher, acontece o contrário, já que, na primeira vez, a sua paixão é fraca e, por isso, o seu tempo é longo. Porém, nas relações subsequentes no mesmo dia, a sua paixão é intensa e o seu tempo é curto, até que a sua paixão seja satisfeita. [...]. Veja mais aqui, aqui e aqui.

ELEGIA: INDO PARA O LEITO & CONSTÂNCIA FEMININA – Estre os poemas do poeta, prosador e clérigo inglês John Donne (1572-1631), destaco inicialmente Elegia: indo para o leito, traduzido por Augusto de Campos: Vem, dama, vem que eu desafio a paz; até que eu lute, em luta o corpo jaz. Como o inimigo diante do inimigo, canso-me de esperar se nunca brigo. Solta esse cinto sideral que vela, céu cintilante, uma área ainda mais bela. Desata esse corpete constelado, feito para deter o olhar ousado. Entrega-te ao torpor que se derrama de ti a mim, dizendo: hora da cama. Tira o espartilho, quero descoberto o que ele guarda quieto, tão de perto. O corpo que de tuas saias sai é um campo em flor quando a sombra se esvai. Arranca essa grinalda armada e deixa que cresça o diadema da madeixa. Tira os sapatos e entra sem receio nesse templo de amor que é o nosso leito. Os anjos mostram-se num branco véu aos homens. Tu, meu anjo, és como o Céu de Maomé. E se no branco têm contigo semelhança os espíritos, distingo: o que o meu Anjo branco põe não é o cabelo mas sim a carne em pé. Deixa que minha mão errante adentre. Atrás, na frente, em cima, em baixo, entre. Minha América! Minha terra a vista, reino de paz, se um homem só a conquista, minha Mina preciosa, meu império, feliz de quem penetre o teu mistério! Liberto-me ficando teu escravo; onde cai minha mão, meu selo gravo. nudez total! Todo o prazer provém de um corpo (como a alma sem corpo) sem vestes. As joias que a mulher ostenta são como as bolas de ouro de Atalanta: o olho do tolo que uma gema inflama ilude-se com ela e perde a dama. Como encadernação vistosa, feita para iletrados a mulher se enfeita; mas ela é um livro místico e somente a alguns (a que tal graça se consente) é dado lê-la. Eu sou um que sabe; como se diante da parteira, abre-te: atira, sim, o linho branco fora, nem penitência nem decência agora. Para ensinar-te eu me desnudo antes: a coberta de um homem te é bastante. Também o poema Constância feminina: Agora já me amaste por um dia inteiro. / Amanhã, quando partires, o que dirás? / Irás antedatar algum voto mais recente? / Ou dizer que, agora, / Já não somos exactamente os mesmos de antes? / Ou que as juras, feitas por medo reverencial / Ao Amor e à sua ira, se podem renegar? / Ou, como veras mortes desligam veros casamentos, / A imagem destes, os contratos dos amantes / Unem só até que o sono, imagem da morte, os separe? / Para justificar teus próprios fins, / Tendo proposto mudança e falsidade, não terás tu / Outro meio senão a falsidade para seres sincera? / Lunática vã, contra tais evasivas eu poderia / Argumentar e ganhar, se quisesse, / O que me abstenho de fazer / Porque, amanhã, poderei vir a pensar como tu. Veja mais aqui , aqui e aqui.

ESPONTANEIDADE & GERONTODRAMA – No livro Gerontodrama, a velhice em cena: estudos clínicos e psicodramáticos sobre o envelhecimento e terceira idade (Ágora, 1998), de Elisabeth Maria Sene Costa, aborda questões atinentes ao conceito etimológico e significado da palavra velho e similares, envelhecimento e seus conceitos cronológicos, fisiológicos e pessoal – aspectos biopsicossociais da velhice, gerontodrama, instrumentos, etapas, recursos psicodramáticos utilizados, teoria da espontaneidade, teoria sociométrica, expansividade emocional, teoria do papel, entre outros assuntos. Da obra destaco o trecho da teoria da espontaneidade, criatividade e conserva cultural: Tanto a saúde do individuo como a de todo o grupo se devem fundamentalmente, para Moreno, à saúde da espontaneidade. Para ele, espontaneidade atua no presente, aqui e agora. Embora seja a mais antiga em termos universais e na evolução, é a força menos desenvolvida nas pessoas e, frequentemente, inibida e desencorajada pelas instituições culturais. A espontaneidade, como enfatiza Moreno, não está concentrada em reservatório; não é quantificável. Ela é (ou não) disponível e se revela no exato instante em que o individuo dela necessita e de acordo com a exigência da circunstância. Sua resposta deve variar segundo o grau de intensidade do estimulo numa escala que vai de zero ao máximo. É a imagem moreniana da lâmpada que, quando se acende, a tudo ilumina. Se é apagada, todas as coisas permanecem no mesmo local, mas a qualidade luminosa (espontaneidade) desaparece. Segundo esse pressuposto não se deveria pensar que a espontaneidade diminui com o passar dos anos. Entretanto, o que parece ocorrer é que, à medida que se envelhece, as conservas culturais vão se tornando mais evidentes e com isso vai havendo, automaticamente, um movimento de restrição ao surgimento da espontaneidade. É como se não existisse espaço para a sua manifestação, preenchido pelas conservas. [...]. Veja mais aqui e aqui.

EROS, O DEUS DO AMOR – O premiado drama Eros o deus do amor (1981), dirigido pelo cineasta Walter Hugo Khouri, conta a história de um paulistano de meia-idade que declara seu amor e ódio pela cidade de São Paulo. Por intermédio da atual amante, relembra os casos amorosos e as mulheres que passaram por sua vida: a mãe desejada; a professora de inglês com quem, em 1945, envolveu-se sexualmente; o fascínio de criança por uma jovem líder comunista; a empregada que cuidava dos cavalos de sua mãe; uma colegial virgem; a amante masoquista; duas prostitutas; a astrônoma que lhe falou da infinitude do universo; a japonesa de um bordel da Liberdade e a professora que lhe instigou o apreço pelas ideias platônicas: “A história de um homem insaciável à procura do prazer total”. O filme venceu nas categorias de melhor atriz para Norma Bengell, Renée de Vielmond e Dina Sfat, melhor diretor e melhor filme. Veja mais aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
A arte do escritor e quadrinista britânico Alan Moore. 
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RAQUEL VARELA, OMAIMA AL-KHAMIS, OLIVE SENIOR & SANDRA RIBEIRO

  Imagem: Contornos da ubiquidade , da série Caosmose & O poema nasce do visinvisível - Acervo ArtLAM .   Ressaca aluada de panacei...