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terça-feira, junho 29, 2021

NABOKOV, LUO LI RONG, MAGDALENA ABAKANOWICZ & ANA DAS CARRANCAS

 

 

TRÍPTICO DQP –- O sonho era ela e a vida... - Imagem: arte da escultora e artista chinesa Luo Li Rong, ao som de Louise (Erato/warner, 2007), do compositor francês Gustave Charpentier, na interpretação de Rita Gorr & Felicite Lott, Orchestre Symphonique Opera Belgique, condutor Sylvain Cambreling. - Era ela a mais linda do universo, a criatura mais perfeita. Uma menina sardenta que me encantou à primeira vista. Não tínhamos mais que 10 anos de idade – ela nascera no dia 18 e eu, 22 de abril do mesmo ano. Com ela a quentura da vida, um precoce bigodinho e pelos nas axilas e púbis. Era a minha Anabel em carne e osso, a Dolores idealizada e eu o Humbert Humbert, só que da mesma idade. Se eu já tinha folheado o catecismo de Zéfiro, as páginas do Kama Sutra e sarrado com outras meninas e meretrizes, ela era o meu ideal de vida e, por causa dela, levei sério a vida e comecei a trabalhar, beber e fumar. Bastante requestada por sua lindeza, cada vez mais me via impelido por aquela escultura helenística em carne viva: deusa grega que eu sonhava vê-la nua em meus braços. Meus dedos de Donatello imaginavam correr a sua efígie, busto e quadris – todas as linhas geográficas delineadas no meu afã de onírico Brancusi. Mais afoito, retribui seus beijos sardentos, tostado pela volúpia. Os anos se passavam, a timidez reinava e ela cada vez mais atirada. Ousamos abraços, embolamos na cama, até me convidou para tomar banho. Ousadia demais. Estava tão obcecado que rompi e ela tomou um chá de inseticida recheado de comprimidos. Retomamos e não durou, os ciúmes corroíam. Vieram viagens, mudanças, a prisão da paixão. Emigrei para não mais voltar. Estava impregnado dela, negando-me a todo custo. Aprendi a jogar xadrez, mas nunca cassei borboletas de Zembla e nem tinha a mínima vocação para entomologista, muito menos para charadista de truques simplórios, quanto mais para escritor, mas me valia dos garranchos como se fosse um promissor Vasil Sirin-Shishkov e ela era a quimera embalada pelas minhas histórias metidas a Sebastian Knitht, nos meus versos de suposto John Francis Shade e nos meus inúmeros escritos perdidos de pretenso Kimbote. Por ela eu vestia todas as máscaras e carapuças. Tornei-me camaleônico e a roda da vida me fez depará-la quase 20 anos depois, um redemoinho no idílio e uma canção. E ela, o tempo e tudo sepultado no passado.

 


A pessoa em questão... – Imagens da artista polonesa Magdalena Abakanowicz (1930-2017) – Li Lolita na minha plena adolescência. E isso porque ouvia dos adultos sobre uma comédia dramático-romântica de 1962, dirigida por Stanley Kubrick. Contavam de uma ninfeta muito flertiva mascando chicletes a provocar a libido deles. Era a atriz estadunidense Sue Lyon (1946-2019) enfeitiçando o coração de muitos. O filme eu só vi quase aos 30 anos e eu continuava enredado com as maestrias literárias do autor, enquanto me encantava com a atuação da estrela. Confesso, bastante provocante. Algumas décadas depois tentei rever e na exibição dei conta de outro filme homônimo, do cineasta britânico Adrian Lyne, estrelado pela atriz estadunidense Dominique Swain. A impressão foi a mesma, supremacia do livro. E dele ficou a frase de Nabokov: É preciso que seja um artista e um louco, uma criatura de infinita melancolia, comum borbulhar de veneno no lombo e uma chama supervoluptuosa a arder permanentemente na delicada espinha (oh, como a gente tem de se avultar e ocultar-se!), para se discernir imediatamente, mediante sinais inefáveis... Neste mundo implacável de entrecruzadas linhas de causa e efeito... E desde que eu lera pela primeira vez, as pessoas, para mim, eram como se fossem seres vigorosos e radiantes, sobressaindo-se os músculos corporais e exibindo nenhuma cabeça.

 


Entre sopapos & carrancas – Muitas vezes me surpreendi na vida. E uma das vezes foi quando vi de perto a obra da artesã ceramista Ana das Carrancas, dona Ana Leopoldina dos Santos (1923-2008), também conhecida como a Dama do Barro, a Ana louceira e outros codinomes mais, com a sua arte expressa no barro. Ela disse-me que começou com panelas de barro na feira e, depois de um pedido devotado aos seus protetores, deu de cara com a imponência das carrancas nas proas das embarcações do Francisco nordestino. Foi ali às margens do Velho Chico que nasceram as ideias para tirar do barro o que era de madeira e transformá-las todas em obra de arte. Ao apreciá-las de perto e notá-las todas com os olhos vazados, ouvi dela: O barro é a minha vida, eu me sinto realizada com meu barro. Lá longe, ouvia-se Assum Preto, do mestre Luis Gonzaga: Mas Assum Preto, cego dos olhos, não vê a luz, ai, cantar de dor... Até mais ver.

 

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sexta-feira, julho 01, 2016

MIKE FEATHERSTONE, MARISA MONTE, JULIETA DE GODOY LADEIRA, KAMA SUTRA DE VĀTSYĀYANA, CRYSTAL BARBRE, RALF MOHR & LUCIAH LOPEZ


FREYARAVI & O CIRCO DOS PRAZERES - Arte da escritora, artista visual e blogueira Luciah Lopez – Era ela ali, céu do dia e natureza minha: Respeitável público! Hoje tem espetáculo? Tem sim, senhora. A esta hora da noite? Tem sim, senhora. Fará tudo que sua mestra mandar? Sim, senhora. A luz apagou, dia e noite se confundiam no labirinto do momento. E por um instante nada se movia, a calmaria do inexistente. De repente, uma diminuta ponta de luz surgiu lá longe. Quase imperceptível vagalume. E foi crescendo, crescente. E brilhou com intensidade, iluminando o que agora era nosso circo. Eis que ela rodopiava enquanto tudo reluzia e era a graça de uma palhacinha linda a me encantar com suas mesuras. Ganhou o meu sorriso e assim me conquistou. Aos poucos um novo rodopio e retirou a máscara e pintura, desnudou-se depondo sua roupa colorida em mim e me fez seu clown cheio de graça, seu saltimbanco brincante. E mais rodopiou protagonista com seu ilusionismo, magia de deusa nua, malabarista e eu coadjuvante e plateia interativa, para fazer do meu corpo e minha alma o picadeiro para suas acrobacias e saltos mortais. E mais rodopiava e me fazia tudo, ora cavalo para sua soberba hípica na maior destreza de montaria, hábil cavaleira, no glamour de sua performance de equitação, e a transformar-se equilibrista, a se segurar na corda do meu corpo e me fazer trapézio para evoluções da sua exibição equestre, a me galopar por mundos e universos jamais vistos e sequer sonhados; ora fera indomável na jaula de sua competência dominadora, a me fazer dócil domado por sua radiante beleza fascinante, a me fazer atravessar o seu círculo de fogo e cair na sua mágica forma de me ter em si e se fazer inteira em mim e minha; ora arrimo pra sua exímia índole saltadora da noite de todas as luzes e escuridão, ou veículo ousado pro globo da morte à beira do precipício de todos os limites de chão e mar de nossa finitude. E me fez dançar dentro dela, nômade de tudo, com todas as estripulias do seu malabarismo de ginasta, com os truques de sua magia envolvente, armadilhas de sua dança na nossa pantomina despudorada. E no auge do nosso espetáculo, ela, Freyaravi, a deusa-rainha, índia nua, concedeu-me a honra do nosso pas de deux no melodrama íntimo de céu aberto, natureza viva, universo imenso das dimensões imensuráveis, o nosso circo de todos os ilimitados e perenes prazeres. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais a respeito aquiaqui e aqui.

 Imagem: a arte da pintora Crystal Barbre, criadora da série Magnetisme Animal.

Curtindo o álbum coletânea Coleção (Universal Music/Pronomotor Records, 2016), da cantora, instrumentista, compositora e produtora Marisa Monte.

PESQUISA
[...] centros metropolitanos sobre a vida artística e intelectual, enquanto centros de cultura, artes, moda, indústrias culturais e entretenimento, televisão, publicações e música, enfrentam a competição mais intensa advinda de uma variedade de direções. Novas formas de capital cultural e uma série mais extensa de experiências simbólicas estão em oferta num campo de cidades mundiais cada vez mais globalizado – isto é, mais acessível por meio das finanças (dinheiro), comunicações (viagens) e informação (radiodifusão, publicações, mídia). [...]
Trecho da obra Cultura de Consumo e Pos-modernismo (Studio Nobel, 1995), do sociólogo britânico Mike Featherstone. Veja mais aqui.

LEITURA
[...] Se a literatura brasileira é das mais ricas em contos, a partir desse período evoluiu de forma muito expressiva, tanto em conquistas temáticas quanto em experiências estruturaus. Cresceu, rompeu barreiras, descobriu, renovou. E se projetou também no exterior por sua capacidade de expressar, de formas tão diferentes, com tanto talento, a fragmentação da vida moderna e o papel do ser humano numa sociedade como esta. [...].
Trecho do texto Antologia: matéria viva, na apresentação da obra Contos brasileiros contemporâneos: antologia de contos (Moderna, 1991), organizada pela escritora Julieta de Godoy Ladeira (1927-1997), apresentando um painel dos mais expressivos da literatura brasileira contemporânea, que vem demonstrando extraordinária força e capacidade de expressar de formas bem diferentes a fragmentação da vida moderna e o papel do ser humano nesse contexto. Nesta antologia, alguns dos mais destacados escritores brasileiros, com livros lançados a partir dos anos cinqüenta, podem ser lidos em contos bem característicos de seu estilo, técnica, talento e sensibilidade, obras da maioria desses autores têm se projetado com êxito também fora do país, traduzidas em diversos idiomas.

PENSAMENTO DO DIA:
 [...] O amor mútuo e comprovadamente verdadeiro, em que um tem consideração pelo outro como se fosse a si mesmo, é chamado de amor resultante da fé. [...] Depois que a jovem já travou relação com o homem [...] o homem deve esforçar-se para conquistá-la. [...] Elas devem ser tratadas com muita delicadeza, e homem deve agir com precaução. [...] Com crescente persistência, ele deve dissipar os medos dela e, aos poucos, fazer com que ela vá com ele a locais isolados, e lá ele deve abraçá-la e beijá-la. E, finalmente, no momento de dar a ela um pouco de noz de bétele ou de receber isso dela, ou no momento de trocar flores, ele deve tocar e pressionar as suas partes íntimas, levando suas tentativas a uma conclusão satisfatória. Quando o homem está empenhado em seduzir uma mulhe, ele não deve tentar seduzir nenhuma outra ao mesmo tempo. [...].
Trecho extraído da obra Kama Sutra (L&PM, 2013), do filósofo indiano de tradição Carvaka e Lokyata que viveu entre os séculos IV e Vi aC., Vātsyāyana. Veja mais aqui.

IMAGEM DO DIA 
A arte na obra Naked Dance & Gymnastics, do fotógrafo Ralf Mohr.

Veja mais sobre Brincarte do Nitolino, Antônio Cândido, Dorothea Mackellar, Alceu Valença, Gottfried Wilhelm Leibniz, Lope de Vega, Emma Goldman, Gilvan Samico, Amaro Francisco Borges & Nina Kozoriz aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
Imagem: arte da escritora, artista visual e blogueira Luciah Lopez.
Veja mais aquiaqui e aqui.

CANTARAU: VAMOS APRUMAR A CONVERSA
World Peace Flame, Humanitarian Projects
Recital Musical Tataritaritatá - Fanpage.
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quarta-feira, novembro 18, 2015

DONNE, VĀTSYĀYANA, MALFATTI, ALAN MOORE, BURNOUT, GERONTODRAMA, KAMA SUTRA & ORGASMO!!!

VAMOS APRUMAR A CONVERSA? SÍNDROME DE BURNOUT & O PROFESSOR – Um dos fenômenos que tem causado maiores prejuízos aos trabalhadores é a Síndrome de Burnout, enfermidade resultante das adversidades estressoras que acometem todo aquele no desempenho de suas atividades profissionais, não poupando o trabalho árduo e persistente de professores no âmbito escolar. Descoberta nos anos de 1970, pelo psicólogo estadunidense Herbert Freudenberg, ao descrever como consequência de excesso de expectativas e alto nível de estresse sofrido por profissionais que se envolviam no atendimento de terceiros, sendo identificada como uma reação orgânica às pressões incidentes nas relações e atividades trabalhistas. Ela aparece quando o profissional se sente pressionado, levando-o a sentir-se vazio e exausto, até chegar ao esgotamento psicológico, impedindo de lidar com as atividades laborais. Entre os seus sintomas estão o estresse, queda de cabelo, dor de estomago, enxaqueca, sudorese, taquicardia, palpitações, medo, condição arredia, angústia, apatia, úlcera, hipertensão, dores de cabeça, insônia, consumo exagerado de medicamentos e álcool, e sensação de impotência para realização da atividade laboral. Entre os problemas mais constantes para os acometidos pela enfermidade estão aqueles de natureza cognitiva, acrescidos de queda no desempenho, problemas de relações interpessoais que levam ao retraimento, a ausência de cuidados pessoais, as preocupações com o trabalho fora dele, satisfação reduzida, entre outros problemas de saúde oriundos do estresse crônico, como complicações digestivas e intestinais, problemas cardíacos, obesidade e depressão. Um sinal marcante dessa doença é a falta de motivação que ocorre quando não há mais entusiasmo para realização de suas atividades, apresentando-se desmotivado e sem forças para enfrentar suas atribuições, além de frustração, cinismo e emoções negativas. Entre as categorias profissionais mais atacadas por essa síndrome estão os professores pelas interações individuais com o seu ambiente de trabalho, incluindo nessas variáveis a experiência de maior número de alunos com diferentes condições de ensino-aprendizagem, passando a ser o trabalho de alta exigência com baixa possibilidade de controle, altas expectativas de resultados e incidência de fracasso do público assistido. A escola precisa desenvolver fatores de proteção e promover entre os docentes estratégias de prevenção que envolvam atividades de relaxamento, meditação, dormir suficiente, exercícios físicos e caminhadas, lazer, leituras, atividades voluntárias e culinárias, tempo livre para o ócio criativo, entre outras recomendações. Dessa forma, faz-se necessário combater a exaustão e o esgotamento, a perda de estímulo e a desmotivação, a baixa realização e o fracasso profissional, esses os sintomas principais dos vitimados pela Síndrome de Burnout. Nesse sentido, a escola pode desempenhar um papel fundamental de forma preventiva e promovendo a melhoria da qualidade de vida de seus professores, tornando o ambiente profissional mais qualitativo, harmonioso e integrando profissionais docentes e não docentes, corroborando a realização de treinamentos e debates com todos, investindo na qualificação e na infraestrutura, facilitando a comunicação entre os obreiros e reconhecendo a qualidade do corpo discente. Veja mais aqui e aqui.

 Imagem: Nu com jarro, da pintora, desenhista, gravadora e professora Anita Malfatti (1889-1964). Veja mais aqui.


Curtindo A Frog He Went A-Courting (1941) / Sonata for Solo Cello op. 25 nº 3 (1922) / Three Pieces for Cello & Piano op. 8 (1917) / Sonata for Cello & Piano op. 11 no. 3 (1919), do compositor alemão Paul Hindemith, com Judith Ermert (cello), Daan Vandewalle (piano).

ORGASMO – O livro O lado obscuro e tentador do sexo (Ágora, 2004), da jornalista e educadora sexual Patrícia do Espírito Santo, trata de temas como a virtude e o pecado, o sagrado e o profano, o erótico e o macabro, entre outros assuntos. Da obra destaco o trecho Orgasmo: Os franceses chamam o orgasmo de la petit mort – a pequena morte. Isso tem um motivo. Cada um tem seu jeito de chegar ao ápice do prazer. Existem muitas fantasias sobre seus efeitos e informações distorcidas de como deve acontecer. A intensidade, a frequência e as sensações decorrentes dele dependem de cada um, da relação com o parceiro, do tesão, da visão que se tem do sexo. Mas o que associa a sensação do orgasmo à sensação da morte é o fato de que ao se alcançar a plenitude do sexo, tudo pode terminar: nada mais falta, nada mais importa. É o êxtase. A astrologia traz também uma ideia similar. A casa oito, é a casa da morte, da crise, das transformações e ainda do sexo. O sexo é a porta para a união cósmica, o meio de se chegar à libertação, à união com o amado, seja ele a vida, o deus, o mestre sem fronteiras. É onde há a integração de um com o outro, por isso ela tem a ver com a relação sexual. É nela que o relacionamento se aprofunda ou morre, onde os valores podem ser transformados e muitas vezes precisam ser destruídos. É um local de intensidade e poder. Por isso é a casa da morte, para que um novo ciclo se inicie. Simboliza a morte da personalidade, do ego e o nascimento da alma. É a casa de Plutão, correspondente ao deus Hades da mitologia grega, senhor da morte. Vivemos em ciclos, em constante transformação, entre vidas e mortes. Nosso corpo de criança adolesce, amadurece e envelhece. Se o curso natural for seguido, o homem morre quando atinge o máximo de sua competência. Desaparece quando soma um número imensurável de conhecimento? Fim de ciclo? O ser humano maduro dá lugar ao jovem por meio da procriação e do repasse de seus conhecimentos e habilidades; a morte dos mais velhos abre espaço para outras visões e para o desenvolvimento de novas ideias, muitas vezes baseadas nas antigas. Esse é o princípio da cultura; o cruzamento de gerações favorece a transmissão cultural. E é exatamente pelas obras, pelas contribuições para esta cultura, pelas ideias deixadas no mundo que o individuo se imortaliza. Veja mais aqui e aqui.

A FORÇA DO DESEJO E DA PAIXÃO – No livro Kama Sutra (Kamasutram - L&PM, 2013), do filósofo indiano de tradição Carvaka e Lokyata que viveu entre os séculos IV e Vi aC., Vātsyāyana, trata é um antigo texto sobre comportamento sexual humano considerado o trabalho definitivo sobre amor na literatura sânscrita. Kama é a literatura do desejo e Sutra é o discurso de uma série de aforismo, sendo um padrão para texto técnico, traduzido como Aforismos sobre o amor. Da obra destaco o trecho sobre a força do desejo e da paixão: [...] Há nove tipos de união de acordo com a força da paixão ou do desejo carnal [...] Diz-se que um homem é de pequena paixão quando o seu desejo no momento da união sexual não é grande, cujo sêmen é escasso e que não consegue tolerar os abraços ardentes da mulher. Os que têm temperamento diferente desse são chamados de homem de média paixão, enquanto os homens de paixão intensa são cheios de desejo. Da mesma forma, as mulheres devem demonstrar esses três graus de sensações. Por último, há três tipos de homens e de mulheres de acordo com o tempo, ou seja, os de tempo curto, os de tempo moderado e os de tempo longo. Como nas divisões anteriores, há também nove tipos de união. [...] Pela união com homens, a luxuria, o desejo ou a paixão de uma mulher são satisfeitos, e o prazer derivado da consciência do desejo é chamado de satisfação. [...] Pode-se dizer que, se a maneira de agir de homens e mulheres é diferente, não há motivo para não haver diferença tanto no prazer que eles sentem quanto no resultado dos seus atos. [...] Quando são mesma natureza, homens e mulheres sentem o mesmo tipo de prazer; assim o homem deve casar com essa mulher, que o amará para sempre. Comprovando-se que o prazer de homens e mulheres é do mesmo tipo, segue-se que, no tocante ao tempo, há nove espécies de ato sexual, da mesma forma que há nove intensidades conforme a força da paixão. Inúmeros tipos de união podem existir ao se considerar as combinações possíveis entre os nove tipos de união de acordo com a dimensão, a força da paixão e o tempo. Por isso, os homens devem usar os meios adequados para cada tipo específico de união sexual. Na primeira união sexual, a paixão do homem é intensa e o seu tempo é curto, mas nas uniões subsequentes no mesmo dia ocorre o inverso. Com a mulher, acontece o contrário, já que, na primeira vez, a sua paixão é fraca e, por isso, o seu tempo é longo. Porém, nas relações subsequentes no mesmo dia, a sua paixão é intensa e o seu tempo é curto, até que a sua paixão seja satisfeita. [...]. Veja mais aqui, aqui e aqui.

ELEGIA: INDO PARA O LEITO & CONSTÂNCIA FEMININA – Estre os poemas do poeta, prosador e clérigo inglês John Donne (1572-1631), destaco inicialmente Elegia: indo para o leito, traduzido por Augusto de Campos: Vem, dama, vem que eu desafio a paz; até que eu lute, em luta o corpo jaz. Como o inimigo diante do inimigo, canso-me de esperar se nunca brigo. Solta esse cinto sideral que vela, céu cintilante, uma área ainda mais bela. Desata esse corpete constelado, feito para deter o olhar ousado. Entrega-te ao torpor que se derrama de ti a mim, dizendo: hora da cama. Tira o espartilho, quero descoberto o que ele guarda quieto, tão de perto. O corpo que de tuas saias sai é um campo em flor quando a sombra se esvai. Arranca essa grinalda armada e deixa que cresça o diadema da madeixa. Tira os sapatos e entra sem receio nesse templo de amor que é o nosso leito. Os anjos mostram-se num branco véu aos homens. Tu, meu anjo, és como o Céu de Maomé. E se no branco têm contigo semelhança os espíritos, distingo: o que o meu Anjo branco põe não é o cabelo mas sim a carne em pé. Deixa que minha mão errante adentre. Atrás, na frente, em cima, em baixo, entre. Minha América! Minha terra a vista, reino de paz, se um homem só a conquista, minha Mina preciosa, meu império, feliz de quem penetre o teu mistério! Liberto-me ficando teu escravo; onde cai minha mão, meu selo gravo. nudez total! Todo o prazer provém de um corpo (como a alma sem corpo) sem vestes. As joias que a mulher ostenta são como as bolas de ouro de Atalanta: o olho do tolo que uma gema inflama ilude-se com ela e perde a dama. Como encadernação vistosa, feita para iletrados a mulher se enfeita; mas ela é um livro místico e somente a alguns (a que tal graça se consente) é dado lê-la. Eu sou um que sabe; como se diante da parteira, abre-te: atira, sim, o linho branco fora, nem penitência nem decência agora. Para ensinar-te eu me desnudo antes: a coberta de um homem te é bastante. Também o poema Constância feminina: Agora já me amaste por um dia inteiro. / Amanhã, quando partires, o que dirás? / Irás antedatar algum voto mais recente? / Ou dizer que, agora, / Já não somos exactamente os mesmos de antes? / Ou que as juras, feitas por medo reverencial / Ao Amor e à sua ira, se podem renegar? / Ou, como veras mortes desligam veros casamentos, / A imagem destes, os contratos dos amantes / Unem só até que o sono, imagem da morte, os separe? / Para justificar teus próprios fins, / Tendo proposto mudança e falsidade, não terás tu / Outro meio senão a falsidade para seres sincera? / Lunática vã, contra tais evasivas eu poderia / Argumentar e ganhar, se quisesse, / O que me abstenho de fazer / Porque, amanhã, poderei vir a pensar como tu. Veja mais aqui , aqui e aqui.

ESPONTANEIDADE & GERONTODRAMA – No livro Gerontodrama, a velhice em cena: estudos clínicos e psicodramáticos sobre o envelhecimento e terceira idade (Ágora, 1998), de Elisabeth Maria Sene Costa, aborda questões atinentes ao conceito etimológico e significado da palavra velho e similares, envelhecimento e seus conceitos cronológicos, fisiológicos e pessoal – aspectos biopsicossociais da velhice, gerontodrama, instrumentos, etapas, recursos psicodramáticos utilizados, teoria da espontaneidade, teoria sociométrica, expansividade emocional, teoria do papel, entre outros assuntos. Da obra destaco o trecho da teoria da espontaneidade, criatividade e conserva cultural: Tanto a saúde do individuo como a de todo o grupo se devem fundamentalmente, para Moreno, à saúde da espontaneidade. Para ele, espontaneidade atua no presente, aqui e agora. Embora seja a mais antiga em termos universais e na evolução, é a força menos desenvolvida nas pessoas e, frequentemente, inibida e desencorajada pelas instituições culturais. A espontaneidade, como enfatiza Moreno, não está concentrada em reservatório; não é quantificável. Ela é (ou não) disponível e se revela no exato instante em que o individuo dela necessita e de acordo com a exigência da circunstância. Sua resposta deve variar segundo o grau de intensidade do estimulo numa escala que vai de zero ao máximo. É a imagem moreniana da lâmpada que, quando se acende, a tudo ilumina. Se é apagada, todas as coisas permanecem no mesmo local, mas a qualidade luminosa (espontaneidade) desaparece. Segundo esse pressuposto não se deveria pensar que a espontaneidade diminui com o passar dos anos. Entretanto, o que parece ocorrer é que, à medida que se envelhece, as conservas culturais vão se tornando mais evidentes e com isso vai havendo, automaticamente, um movimento de restrição ao surgimento da espontaneidade. É como se não existisse espaço para a sua manifestação, preenchido pelas conservas. [...]. Veja mais aqui e aqui.

EROS, O DEUS DO AMOR – O premiado drama Eros o deus do amor (1981), dirigido pelo cineasta Walter Hugo Khouri, conta a história de um paulistano de meia-idade que declara seu amor e ódio pela cidade de São Paulo. Por intermédio da atual amante, relembra os casos amorosos e as mulheres que passaram por sua vida: a mãe desejada; a professora de inglês com quem, em 1945, envolveu-se sexualmente; o fascínio de criança por uma jovem líder comunista; a empregada que cuidava dos cavalos de sua mãe; uma colegial virgem; a amante masoquista; duas prostitutas; a astrônoma que lhe falou da infinitude do universo; a japonesa de um bordel da Liberdade e a professora que lhe instigou o apreço pelas ideias platônicas: “A história de um homem insaciável à procura do prazer total”. O filme venceu nas categorias de melhor atriz para Norma Bengell, Renée de Vielmond e Dina Sfat, melhor diretor e melhor filme. Veja mais aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
A arte do escritor e quadrinista britânico Alan Moore. 
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quarta-feira, abril 29, 2015

MERCEDES BAPTISTA, ALICIA ALONSO, KAWABATA, VATSYAYANA & DANÇA DOS MENINOS

 


VIVA MERCEDES!!! - Era uma moça do interior, de origem humilde que sonhava em ser famosa. Mudou-se para o Rio de Janeiro para trabalhar como empregada doméstica seguindo os passos da mãe, garantindo teto e comida. Persistia no desejo de ficar famosa. Tivera pouco contato com o pai que era tratador de cavalos. Depois trabalhou como operária numa fábrica de chapéu. Ao sair foi trabalhar numa gráfica, chegando a ser bilheteira de cinema, tendo oportunidade de sonhar e dedicar-se à arte. Os sonhos de se tornar famosa se ampliaram e, à época, estudava numa escola pública da Tijuca. Aos 24 anos teve o seu primeiro contato com a dança, queria tornar-se bailarina no Serviço Nacional do Teatro, depois ingressou na Escola de Danças Clássicas do Theatro Municipal. Neste período ganhou o prêmio de A mais bela Mulata, pelo Teatro Experimental do Negro. Daí foi aprovada no concurso interno para compor o corpo de baile. O sonho de bailarina se concretizara, porém não era escalada para ballets clássicos de repertório, dançava temas brasileiros e participava das óperas. Ficou famosa por conta de sua participação na ópera Aída, aplaudida pela beleza de seus movimentos corporais. Ganhou uma bolsa de estudo durante o Congresso Internacional do Negro Brasileiro e se destacou para viajar pros Estados Unidos. Integrou o Teatro Experimental do Negro como bailarina, professora e coreógrafa, além de participar no teatro de revistas, televisão, cinema e carnaval, criando o seu Ballet Folclórico. Durante toda sua trajetória vencedora, ela sofreu constante discriminação racial: Os problemas vieram depois. Eu me vi de repente excluída de tudo, e nem que pusesse um capacho cobrindo meu rosto me deixavam pisar em cena. Só uma vez atravessei o palco usando sapatilhas de pontas e, ainda assim, lá no fundo... Tomou parte do ativismo negro e lutou contra as adversidades tornando-se um símbolo da dança e resistência negra. Fez turnês por países europeus e da América Latina, ainda hoje meritória de todas as homenagens. Veja mais abaixo e mais aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.

 


DITOS & DESDITOS - Tudo foi sempre muito difícil, mas quem iria assumir ou deixar claro que parte das minhas dificuldades era pelo fato de que eu não era branca? Nunca iriam me dizer isso, nem dizer que o problema era racial, mas eu sabia que era e, por isso, sempre lutei cada vez procurando me aperfeiçoar... Pensamento da bailarina e coreógrafa Mercedes Baptista (1921-2014).

 

ALGUÉM FALOU: Dança não é um exercício. Dança é uma arte... Essa nova forma de diálogo que nos leva à arte à qual dediquei minha vida está enraizada na parte mais profunda e bela do ser humano... Eu dancei na minha mente. Cega, imóvel, deitada de costas, eu aprendi a dançar Giselle... Um dançarino deve aprender com todas as artes. Vá a museus e olhe para as pinturas. Veja como elas equilibram as coisas. Tudo o que você faz nas artes o enriquece. Pensamento da bailarina e coreógrafa cubana Alicia Alonso (Alicia Ernestina de la Caridad del Cobre Martínez del Hoyo – 1920-2019). Veja mais aquí.

 

DANÇA DOS MENINOS – Nitolino acordou cedo com a algazarra do SuperPontinho acordando a turminha dos Falanges – Mindinho, Seu Vizinho, Maior de Todos, Cata-Piolhos & Fura-Bolos -, que puxou o Cravo e arengou com a Rosa que estava com o Lobisomem Zonzo e o Gordim dando bundada no Jequim que futucava Maluquim que azucrinava Bichim que falava pra Nita que incentivava a Ísis pra falar com Vó Carma e levar Pai Lula pra contar uma história do Alvoradinha que queria cantar com Tia Nilda e dançar no Reino Encantado de Todas as Coisas a música Coração Civil de Milton Nascimento & Fernando Brant: Quero a utopia, quero tudo e mais / Quero a felicidade nos olhos de um pai / Quero a alegria muita gente feliz / Quero que a justiça reine em meu país / Quero a liberdade, quero o vinho e o pão / Quero ser amizade, quero amor, prazer / Quero nossa cidade sempre ensolarada / Os meninos e o povo no poder, eu quero ver / São José da Costa Rica, coração civil / Me inspire no meu sonho de amor Brasil / Se o poeta é o que sonha o que vai ser real / Bom sonhar coisas boas que o homem faz / E esperar pelos frutos no quintal [...] Assim dizendo a minha utopia eu vou levando a vida Eu viver bem melhor / Doido pra ver o meu sonho teimoso,um dia se realizar. LEMBRETE: Hoje é dia de reprise do programa Brincarte do Nitolino, nos horários das 10hs e das 15hs, no blog do Projeto MCLAM, com apresentação da garota Isis Corrêa Naves. Para conferir o programa online nos horárias das reprises, é só ligar o som e acessar aqui ou aqui.

Imagem: Dancing, do artista plástico estadunidense de origem cubana Jose Manuel Abraham.

Ouvindo o álbum duplo Pas de deux (1905-2008), dos compositores portugueses Isabel Soveral & António Chagas Rosa.

DANÇA, ALAGOAS – Conheci o professor e dançarino alagoano Ary Buarque quando ele lançou o primeiro site oficial de dança, o Dança Alagoas, disponibilizando informações, dicas e muitas coisas interessantes. A receptiva forma como Ary trata as pessoas, seja nos relacionamentos sociais, seja no trato com seus alunos e dançarinos, nos fez estreitar amizade para realizar parcerias, promover debates e estarmos sempre juntos na luta pela difusão e promoção da arte na escola, no convívio humano, nas relações entre as pessoas, enfim, arte todo dia e o dia todo. Isso faz algum tempo, depois soube da transformação para Centro de Dança Ary Buarque, onde ele passou a ministrar aulas e promover a dança no estado alagoano. Na época ele me concedeu uma entrevista a respeito do seu trabalho, suas propostas, projetos e objetivos. Confira aqui.

A DANÇARINA – Inspiradoras lições são encontradas num manual escrito séculos atrás, que já foi transformado em teatro e cinema, e que até hoje, ultrapassando a barreira do tempo, se mantém como material vivo para um melhor desenvolvimento humano. Exemplo disso, é o que se encontra no capítulo 1 – Sobre os adornos pessoais, sedução, corações e medicamentos tônicos -, da Parte VII – Sobre os modos de atrair os outros -, do mais que atemporal e fascinante livro Kama Sutra, de Vatsyayana, no qual, entre tantas lições imperdíveis, encontrei esse trecho que muito bem diz com relação ao dia de hoje : [...] O que foi dito sobre elas também pode ser aplicado às filhas de dançarinas, cujas mães devem dá-las somente a pessoas que possam tornar-se úteis para elas de diversas maneiras. Assim terminam as formas de fazer com que alguém se torne adorável sob os olhos de outros. Veja mais aqui, aqui, aqui & aqui.

A DANÇARINA DE IZU – No livro de contos A dançarina de Izu (1926 – Cultrix, 1962), do escritor japonês prêmio Nobel de Literatura de 1968, Yasunari Kawabata (1899-1972), narra as experiências autobiográficas do autor durante a sua vida de estudante, fazendo uma viagem à península de Izu, Tóquio. Da obra destaco o trecho de A pequena dançarina de Isu – Izu no Odoriko: A hospedaria Koshuya ficava logo à entrada norte de Shimoda. Nas pegadas dos meus companheiros de viagem, subi para o primeiro andar da hospedaria, que mais parecia um sótão. [...] Os artistas trocavam algres cumprimentos com os fregueses da hospedaria, que eram também artistas ambulantes. O Porto de Shimoda devia ser o ninho dessas aves migratórias. Kaoru deu algumas moedas de cobre à filha do dono da hospedaria. Quando me despedi para sair, ela, arrumando-me o gueta, murmurou: - Leve-me hoje ao cinema, sim? Guiados por um homem de aparência duvidosa, eu e Eikiti fomo-nos instalar numa outra hospedaria, cujo dono se dizia ex-prefeito. Depois de banhar-nos, comemos peixe freco. – Peço-lhe que compre algumas flores para os sacrifícios de amanhã – disse eu ao meu companheiro de viagem, dando-lhe algum dinheiro. Eu tinha de voltar para Tóquio no dia segujnte. Meu dinheiro acabara, e como dissera aos artistas que minha volta era devida a obrigações escolares, não puderam prender-me com insistências. Jantei cedo, menos de três horas depois do almoço e, sozinho atravessei a ponte norte da cidade. Escalei o Fuji de Shimoda, e lá de cima fiquei a contemplar o porto. Na volta passei pela hospedaria Koshuya, e encontrei as artistas jantando um cozido de frango. Convidaram-me: - Não quer provar um pouco? Está sujo porque nós, mulheres, já pusemos o hashi dentro. Mas isso servirá, ao menos, como tema para anedotas de viagem. A senhora de meia idade tirou da mala uma xícara grande e hashi, e mandou Yurilo lavá-los. [...] Quando com a saída dos demais, ficaram na sala apenas Tiyoko e Yuriko, convidei-as para irem ao cinema. Tiyoko, apertando o ventre com as mãos e olhando-me com ar de abatimento, escusou-se: - Estou adoentada. Sinto-me enfraquecida por ter andado daquele jeito. Quando a Yukiro, endireitou o corpo e baixou a cabeça. A pequena dançarina estava no andar térreo brincando com a criança da hospedaria; tão logo me viu descer, começou a instar com a mãe para que a deixasse ir ao cinema. Em seguida, com ar desapontado, veio até mim e arrumou-me o gueta. – Que foi? Por que não vais sozinha com ele? – perguntou Eikiti. Ao que parece, a mãe negara consentimento a Kaoru. Eu não podia compreender por que não podia ela ir sozinha comigo. Quando saí para a varanda, a pequena dançarina estava acariciando a cabeça do cachorro. Mostrava-se tão indiferente que desisti de lhe dirigir a palavra. Fui só ao cinema. Narradora lia explicações à luz da lamparina, quando lá cheguei. Pouco me demorei: voltei logo para a minha hospedaria onde, com o cotovelo apoiado no rebordo da janela, fiquei longas horas a contemplar a cidade trevosa e noturna. Pareceu-me ouvir ao longe, ininterrupto, o leve tantã de um tambor. Não sei por que razão, as lágrimas começaram a rolar-me pela face, uma após outra [...]. Veja mais aqui, aqui, aquiaqui e aqui.

NÃO SEI DANÇAR – No livro Libertinagem (Pongetti, 1930), do poeta, tradutor, critico literário e de arte, Manuel Bandeira (1886-1968), consta o belíssimo poema Não sei dançar: Uns tomam éter, outros cocaína. / Eu já tomei tristeza, hoje tomo alegria. / Tenho todos os motivos menos um de ser triste; / Mas o cálculo das probabilidades é uma pilhéria... / abaixo Amiel! / E nunca lerei o diário de Maria Bashkirtseff. / Sim, já perdi, pai, mãe, irmãos. / Perdi a saúde também. / É por isso que sinto como ninguém o ritmo do jazz-band. / Uns tomam éter, outros cocaína. / Eu tomo alegria. / Eis por que vim assistir a este baile de terça-feira gorda. / Mistura muito excelente de chás... / Esta foi açafata.../ - Não, foi arrumadeira. / E está dançando com o ex-prefeito municipal. / Tão Brasil! / De fato este salão de sangues misturadoas parece o Brasil.../ Há até a fração incipiente amarela / na figura de um japonês. / O japonês também dança maxixe: / Acugêlê banzai! / A filha do usineiro de Campos / olha com repugnância / para a crioula imoral. / No entanto o que faz a indecência da moça / é aquele cair de ombros.../ Mas ela não sabe... / Tão Brasil! / Ninguém se lembra de política... / Nem dos oito mil quilômetros de costa... / O algodão do Seridó é o melhor do mundo? Que me importa? / Não há malária nem moléstia de Chagas nem ancilóstomos. / A sereia sibila e o ganzá do jazz-band batuca. / Eu tomo alegria! Veja mais aqui, aqui, aquiaqui.

A DANÇA – O poema A dança (Quingumbo, 1980), do poeta, dramaturgo, ensaíta e militante negro estadunidente da Geração Beat, LeRoi Jones – Amiri Baraka (1934-2014), na tradução de Italo Moriconi Junior: (explicado / por um homem mais velho. Me disse como. Me / mostrou. Não eram passos, mas / a instância do músculo. Uma posição / para mim mesmo: mover-se. / Duncan / dizia da dança. Seus poemas / cheios do que há tanto queríamos / que fosses. Uma / dança. E todas as suas palavras / saiam dali. Que havia / alguma elegância brilhante / que a carne triste do corpo / fazia. Algum gesto, que / se nos tornássemos, por um instante intenso / nos transformaria / em criaturas de ritmo. / quero ser cantado. Quero / minha carne e todos os meus ossos murmurados / contra o flutuante céu / espesso do inverno. / me quero / dança. Como sou se / tenho amor ou tempo ou espaço / para me sentir. / O tempo do pensamento. O espaço / do movimento real. (Para onde eles / alçaram o mar e me têm / contra minha vontade). Eu disse, também, / ama, sendo mais velho ou mais jovem / que teu mundo. Estou inclinado / a me deitar, amar, te convidar / agora, inclinado a sentir as coias / que só eu creio. / E que eu possa uma vez criar-me / a mim mesmo. E que tu, seja quem for / sentado agora respirando minhas palavras, / possa criar um ser somente teu. Que / vai me amar. Veja mais aqui, aquiaqui.

BAILARINA – A poesia de João Cabral é indispensável, faz parte das minhas leituras diárias de aprendizado poético. A sua forma de expressar o poema é uma das mais admiráveis demonstrações do fazer poético. Dele retiro lições diárias, procurando aprimorar sempre e, ao mesmo tempo sabendo, que a caminhada desse aprendizado é longa e com experiências inenarráveis. No livro Poesia Completa (Glaciar, 2011), do poeta e diplomata de João Cabral de Melo Neto (1920-1999), encontrei o poema Bailarina: A bailarina feita / de borracha e pássaro / dança no pavimento / anterior do sonho. / A três horas de sono, / mais além dos sonhos, / nas secretas câmaras / que a morte revela. / Entre monstros feitos / a tinta de escrever, / a bailarina feita / de borracha e pássaro. / Da diária e lenta / borracha que mastigo / Do inseto ou pássaro / que não sei caçar. Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aquiaqui, aqui e aqui.

PAS DE DEUX – A animação e curta de dança Pas de Deux (Duo, National Film Board of Canada - Columbia Pictures, 1968) – ganhador de 17 prêmios e o Oscar de Melhor Filme de Animação em 1969, com roteiro escrito por Norma McLaren, fotografia e cinematografia conduzida por Jacques Fogel, mostrando dois bailarinos interpretam uma dança muito surreal, interpretado pela dupla Margaret Mercier e Vincent Warren. Veja mais aqui e aqui.

IMAGEM DO DIA
Pas de deux - Nude Photography -, do fotógrafo estadunidense M. Richard Kirstel (1950-1996)



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