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segunda-feira, novembro 06, 2017

FLAUBERT, SOMERSET MAUGHAN, SOPHIA BREYNER, ELZA BARROSO, SONIA FÁTIMA DA CONCEIÇÃO, KENNETH BURKE, AMARAJI & ITINERÁRIO MUSICAL DO NORDESTE.

E ISSO É TUDO A VIDA TODA NO CAOS – Já vai longe o tempo em que eu me empolgava avexado na buraqueira, enfrentando os meus moinhos e dando azo à perseguição dos desejos. Ah, quanta coisa esdrúxula me era importante, já passou, não mais. Rio. Não era demais toda irrisão diante da minha conspícua investida na surpresa das inclementes quedas patéticas. Nada mais risível, avalie. Eu atraio estranhos afetos e coisas do outro mundo. Além do mais, vejo o imperceptível que é usualmente insignificante para todos: um desplante pra quem sempre foi tratado por disparatado. As surpresas ao final eram nada mais que previsíveis desastres. Batia, persistia, insistia e até perseverava na minha credulidade tola: jamais admitido em nada, estornado pelas costas ou por insultos tácitos. Precisei de muito até ser abatido pela ruína, às vezes me tornando cáustico, impertinente, metido em desregramentos, até obscenidades, esborrando revoltas que evanesciam ao primeiro sinal de chance proutras pelejas. Resignava insatisfeito, pudera. Cabeça a mil, aprendia, recomeçava do zero. Quando aprumava pro êxito, lamúrias alheias me faziam abdicar na horagá. Tanto renunciei que nem júbilos interessam mais, reduzi-me à existência enclausurada, apartada do mundo. Deixei para trás os arroubos, ambições, tudo esfacelado na dispersão do tempo: desapontamentos são lições valiosas. Deixei para trás coisas até hoje sem solução, acho. Pronde vou, sempre o rebanho humano em sentido contrário, uns atrás dos outros, aceno e me são indiferentes, seguem importunos pro cenário da libação das virtudes corrompidas, enquanto lívido e perplexo encaro os desafios dos conflitos de meu tempo. O que importa é que se deram bem, eu recomeço das cinzas, juntando pedaços que sobraram de mim mesmo, quase nada. Refaço silente e insistente, transgrido para padecer de dores por todo corpo, quando não sucumbo de vez entre a sístole e a diástole: não sou a primeira nem a última criatura entre o deleite e o desespero, desejos por satisfazer, sofrimentos por evitar. A despeito de mim mesmo, apesar de ignorado, parece que alguém me lê às escondidas, quase ninguém se atreve a me escrever, ninguém ousa interlocução. Os meus inimigos sempre estiveram dentro da minha casa, entre meus familiares, quando não ao redor e à espreita de qualquer bocejo meu. Nunca me importei com isso. Hoje desapressado – talvez sinal da minha precoce senectude -, ainda assim transgrido de mim mesmo reiterada e recorrente a duvidar do que penso ou de me ver equivocado com frases que possam ser particularmente felizes, ou não. Talvez acerte, quem sabe, aprendi o erro e persigo circunspecto pelos princípios imutáveis que governam as mudanças. E se vou longe, não sei, sirvo-me do horizonte para saber da infinitude que reluz oculta no meu coração. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.

RÁDIO TATARITARITATÁ:
Hoje na Rádio Tataritaritatá especiais do pianista, maestro e compositor Marlos Nobre: Yanomami for choir & guitar com o Coro Cervantes, Passaglia for Orchestra & Três Cantos de Yemanjá for cello & piano; da compositora russa Galina Ustvolskaya (1919-2006): Symphony nº 2 & Poem nº 1; do compositor, regente, professor e jornalista Gilberto Mendes (1922-2016): Alegres trópicos, um baile na Mata Atlântica, Piano solo & Saudades do Parque Balneário Hotel com a OSESP; e da pianista Miriam Ramos interpretando o compositor, regente e flautista Octavio Maul & o maestro e compositor Ricardo Tacuchian. Para conferir é só ligar o som e curtir.

PENSAMENTO DO DIA – [...] O que me parece mais belo, o que eu mais gostaria de fazer, seria um livro acerca de nada, um livro sem nenhum vínculo exterior, mas sustentado pela força interna do estilo [...] um livro que quase não tivesse assunto, ou pelo menos, em que o assunto fosse quase invisível, se tal é possível. As obras mais belas são as de menos matéria [...] Acredito que o futuro da arte esteja em tais canais. [...]. do escritor francês Gustave Flaubert (1821-1880). Veja mais aqui, aqui & aqui.

CAMBÃO TORTO, AMARAJI - O povoamento de Amaraji teve inicio em 1868. Tomou vulto, pouco a pouco, devida a uma geira que ali se realizava, o que deu lugar à construção de casas comerciais e muitas outras, para residência de moradores vindos de partes mais distantes para dedicar-se ao pequeno comercio e aos misteres agrícolas. O povoamento teve rapico desenvolvimento, e os viandantes e moradores chamavam a nascente povoação pelo de Cambão Torto. Depois de algum tempo, essa denominação foi mudada para São José da Boa Esperança, que teve o predicamento de vila pela Lei munciipal 2137, de 09 de novembro de 1889. Foi desmembrada do município de Escada. A sua instalação ocorreu em 11 de outubro de 1890. Tomou, então, o nome de Amaraji. Foi elevada à categoria de cidade pela Lei estadual 991, de 1 de julho de 1909. Administrativamente, o município é formado pelo distrito-sede e pelo povoado de Demarcação. Atualmente, no dia 01 de julho, Amaraji comemora sua emancipação política. [...]. Extraído da Enciclopedia dos municípios do interior de Pernambuco (FIAM/DI, 1986), Veja mais aqui.

A ARTE E O ARTISTA - [...] Toda a gente tem predicados de artista em criança, ainda mais verdade é que toda a gente tem índole de artista na adolescência [...]. De vez que a Arte, com tornar-se um fim em si mesma, se tornava um problema do indivíduo – ou, com tornar-se um problema do individuo, se tornava um fim em si mesma [...] A inteligência talvez seja um funcionamento inadequado dos instintos, ou os primórdios de instintos que ainda não se cristalizaram [...] em relação às estrelas, um homem não tem maior importância que um gafanhoto. [...] Um autor que vive a maior parte de sua vida mentalmente tem de cometer suas transgressões no papel. [...] A blasfêmia é um experimento sério, uma transgressão por via dos pecados alheios. Blasfemar é restabelecer os deuses perdidos renunciando a eles; a blasfêmia é a luta de uma natureza emotiva, um protesto contra o intelecto que tende a torná-lo estéril de êxtases religiosos. A blasfêmia é ímpia, mas não irreligiosa. [...] A verdade, em Arte, não é a descoberta dos fatos, não é um acréscimo ao conhecimento humano, no sentido científico do termo. É, antes, o exercício da propriedade humana, a formulação de símbolos que enrijecem nosso senso de equilíbrio e ritmo. A verdade artística é a exteriorização do gosto. [...]. Trechos extraídos da obra Teoria da forma literária (Cultrix, 1979), do filósofo e teórico da literatura estadunidense Kenneth Burke (1897-1993). Veja mais aqui.

FÉRIAS DE NATAL –[...] Dançar com uma moça inteiramente nua acima da cintura era para Charley uma sensação nova e emocionante. Ao pousar a mão naquele corpo e ao sentir aqueles seios nus colados a seu peito, perdeu o fôlego. A mão que segurava era pequena e macia. Charley, sendo um rapaz bem-educado, de boas maneiras, sentiu necessidade de entabular uma conversa polida. [...]. Trecho extraído da obra Férias de Natal (Globo, 2003), do escritor britânico William Somerset Maughan (1874-1965). Veja mais aquiaqui.

UM DIAUm dia, gastos, voltaremos / A viver livres como os animais / E mesmo tão cansados floriremos / Irmãos vivos do mar e dos pinhais. / O vento levará os mil cansaços / Dos gestos agitados irreais / E há-de voltar aos nosso membros lassos / A leve rapidez dos animais. / Só então poderemos caminhar / Através do mistério que se embala / No verde dos pinhais na voz do mar / E em nós germinará a sua fala.  Poema extraído da Antologia (Portugália, 1968), da poeta portuguesa Sophia de Mello Breyner Andresen (1919-2004). Veja mais aqui.

NEGRINHA, DE SÔNIA FÁTIMA DA CONCEIÇÃO
O olhar perde-se
infinidades de dúvidas
ondas em cirandas
cercando a infância
de sanhas insanas
decepastes as bonecas
em mares de indiferenças
mergulhei fundo, contive
em tuas entranhas, brincos
brincadeiras indescritíveis
arrastada às cozinhas abastadas
percorri impassível entre:
brilhos, bombril, resmungos,
choros da criança que sou
e que não era eu
O sol do meu sorriso
derrama-se em felicidades ingênuas
Irascível - a ira - derrama-se
incandescente em teu coração
Negrinha! Tiziu!Tição!
ressoam ventos adormecidos
em desertos de sal
Tu me atinges
O coração rios em chama
a margem - revolta
Torrentes tempestuosas
arremessam ao infinito
tua tentativa ingênua
de romper castelos, fadas
cirandas, infância.
Poema extraído dos Cadernos Negros (Autores, 1981), da escritora Sonia Fátima da Conceição. Veja mais aqui.

ITINERÁRIO MUSICAL DO NORDESTE
A coletânia Itinerário Musical do Nordeste (Massangana, 2011), lançado pela Fundação Joaquim Nabuco (Fundaj) reúne 10 cds e um livro com sonoridades de cultos afros-brasileiros, tais como cerimônia de Obori, jurema, orixás, tambor de mina e Casa Nagô, além de bandas de pífanos, ciranda, tambor de crioula, maneiro-pau, coco de embolada, aboio, incelência, reisado, guerreiro, histórias e cantigas. Os CDs reúnem Orixás, Jurema/Obori, Tambor de Mina/Casa de Nagô, Ciranda/Tambor de Crioula, Banda de Pífanos, Repentistas, Reisado/Guerreiro, Maneiro-Pau/Coco de Embolada, Aboio/Incelência e Histórias/Cantigas. A pesquisa foi realizada pelo então sociólogo da Fundaj, Enemerson Muniz, juntamente com os pesquisadores José Jorge de Carvalho, Rita Segato e Cristina Machado, registrando sonoridades apuradas em expedição realizada de Alagoas ao Maranhão, em uma parceria com o Instituto de Etnomusicologia e Folclore de Caracas (Um presente da conterrâneamiga Graça Lins, obrigado).

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CRÔNICA DE AMOR POR ELA
A arte da fotógrafa e artista plástica Elza Barroso
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domingo, janeiro 25, 2015

MÓNICA OJEDA, DONNA KANE, RUMJANA ZACHARIEVA & MARIANGELA MELATO

 


O TEMPO PASSA E A COISA VOLTA? UÉ, COMO É QUE É, HEM? – Há 30 anos atrás, mais ou menos, já ouvia os 40 anos de Altay Veloso & Feital. Até parecia que o meu país ia pegar no tranco – mesmo com as passadas de mão sobre os quepes e outras cabeças de fósforos. Quase esqueci aquela do Ignácio Loyola Brandão: Nenhum. Pois é, não acreditei. Estava em plena década, a mesma que jamais acabaria – melhor, que foi perdida e ninguém achou até hoje. Diziam ser o fim da era industrial: era a vez da... desinformação. O pior: às voltas com a AIDS. O melhor foi que deram uma dedada no furico da ditadura militar, mas ficou só nisso. Faltou um Príapo macho pra enrabá-la nos conformes, desancando de vez. Ali eu queria mesmo era botar meu bloco na rua, mas cadê cacife? Juntei meus trapos e mijados e não esperei a banda passar. Tinha mais o que fazer, ora. Claro, tinham derrubado o muro de Berlim e ninguém sabia onde é que a coisa mesmo ia dar. Se já fosse janeiro nem sabia se passado. O assunto do dia? Trâmite de conspirações, só boataria sobrou, não sei mais nada: quando a mentira tinha pernas curtas era outra coisa. Agora prestes a viver outro golpe: corda de guaiamum nunca vem sozinha. E não precisam mais tirar as crianças da sala: elas já sacaram que a vida é uma sacanagem deslavada! E de hipocrisia o mundo está já muito cheio, chega transbordar pelo ladrão. Isso só não, como todo tipo de falácias, das mais vetustas desenterradas de covas, às inventadas agorinha mesmo pelo plantão da pilantragem. Para quem não sabe: o passado foi fabricado no presente e com a cara mais lisa do mundo. O historiador sempre se fez de covarde, não fosse o poeta ninguém saberia o que se escondeu aos olhos abertos. Quem quiser que emporcalhe mais as reputações já tão escusas dos políticos e o ensandecido tráfego das ruas. E ainda pensam que sou premiado. Taí, a sorte bateu no cara errado. Fui na frente, sozinho – queria lá que ninguém viesse atrás, oxe! Sou um lavrador do nada. Resta só morrer de vergonha e só me salvar dela quando morrer. Já dei murro em ponta de faca, já bati prego sem estopa e hoje não tenho tanta força pra levar as coisas na munheca. Agora estou mais pra jogar conversa fora. Chega de indignação catatônica ou tacanha. Eu tô é puto! Já chorei muitas pitangas, crocodilos e abrobrinhas. Aliás, florafaunafora. Vixe! Agora não, penicão! Minha quota já foi pro beleléu. E ai de quem tiver enfiado o pé na porra da cloaca toda. Como não entendo direito de tais coisas, muito menos posso conceber qual será mesmo o destino da gente. Não tenho certeza de nada, jamais tive. Além do mais costumo falar sozinho, por isso ouço vozes em respostas e indagações. Doidices dum possivelmente poeta d’água doce de quinta categoria. Poetastro, na vera! E metido a desconstrutivista. Merda pura! Valho-me de não ter o menor tico de saudade. Não há muito que esperar da humanidade: fracassou faz tempo. Sou do presente, o futuro que se dane. Aqui mesmo o tempo passa e o enterro voltado. Ó Fecamepa!!!! Tô fora! Vou danado pra Catende sem saber se vou chegar. Ah, passei direto, batido. Não era pra lá, não era. Ponto, ao trabalho! E vamos aprumar a conversa! Veja mais aqui e aqui.

 


DITOS & DESDITOS - Comecei a escrever – rimar – aos 10 anos e meio. Aos 16 anos, inconscientemente me libertei da rima. Por volta dos meus 20 anos eu já havia me libertado da minha língua materna, o búlgaro. Ao aproximar-me dos 50 anos, libertei-me de todos os furos... Este é um processo de libertação natural, permanente, que acontece pouco a pouco para mim. Talvez um dia eu acorde e tudo desapareça... O amor me decidiu... Minha vida é muito curta e sou primeiro um escritor... Pensamento da escritora búlgara Rumjana Zacharieva.

 

ALGUÉM FALOU: Buscar sempre a excelência significa lidar com uma montanha de inseguranças... Devemos ter cuidado com duas categorias de pessoas: aquelas que não têm personalidade e aquelas que têm mais de uma... Atuar é uma necessidade, como amar ou ir ao banheiro... Pensamento da atriz italiana Mariangela Melato (1941-2013).

 

A DESFIGURAÇÃO SILVA - [...] Estamos convencidos de que a destruição é progresso, que correr para a morte é vida, que este enxame de moscas, como a água suja do rio, é poesia; que somos poesia porque estamos cobertos de merda. [...] O silêncio é tudo menos a ausência de sentido. [...] Dizem-nos que o conhecimento especializado é a única coisa que nos afastará da pobreza e da dor, que nos libertará, mas na realidade nos transforma em instrumentos burocráticos; Ensina-nos a virar o rosto, a sentir-nos alheios ao sofrimento dos outros, sortudos, a acreditar que não há nada que possa ser feito. [...] E um dia a palavra mordeu sua língua, mas ele ainda teve forças para tirá-la e mostrá-la em toda a sua obscenidade. [...] Onde há palavra, há perigo de poesia. [...]. Trechos extraídos da obra La desfiguración Silva (Cadaver Exquesito, 2014), da escritora equatoriana Mónica Ojeda Franco. Veja mais aqui.

 

DOIS POEMAS - ISSO É UM JATO DE CHUVA QUE OUÇO OU ESTILHAÇOS DE UM ASTERÓIDE? - Ó Dimorphos, pequena lua nascida em nossa imaginação \ por sua luz oscilante, agora destinada a ser um \ espetinho ou, pelo menos, cortada para mudar a velocidade \ de sua órbita em torno de Didymos, o objeto próximo à Terra potencialmente perigoso \ do grupo Apollo ao qual você se apega... \ Nunca é fácil quando dois objetos querem estar no mesmo \ lugar ao mesmo tempo. No kerthump pretendido, \ imagine a coroa de gotas de leite de Edgerton no prelúdio \ de Also sprach Zarathustra enquanto tomamos Deus em \ nossas próprias mãos. Na verdade, tive mais quase acidentes \ do que colisões, estive mais perto de ser atropelado \ por picapes que disparavam para a esquerda em \ faixas de pedestres controladas pelo trânsito do que gostaria de lembrar, pois são precursores \ da grade envenenada que finalmente acontecerá. nós entramos, ejetando \ plumas do que nos prendia, um detrito brilhante \ que voltou a ser pouco mais que cinzas. SETEMBRO, PENSANDO NA VESPA OPERÁRIA COM A QUAL COLIDI NESTE VERÃO - Com a intenção de amassar pedaços de convés desgastado \ dentro de sua boca, você se lançou de seu planeta \ de polpa em forma de fita, assim como eu, objeto interestelar \ em missão para tomar uma taça de vinho, cruzei sua \ trajetória de vôo - golpe para você, picada para mim, seu veneno \ excitando meus receptores de dor, minha bochecha \ inchando como seu ninho, que continuava crescendo \ de dentro para fora. Pensei em matar você, \ mas o fim da temporada chega logo. Ânforas \ de saliva esvaziando seus corações. \ É você arrastando sua casca faminta pelo \ chão? Aqui, beba esta água com açúcar. \ Cada um de nós dá o último suspiro. \ Exala – esperamos, saciados. Poemas da poeta canadense Donna Kane, autora do livro Erratic (2007).

 

SACADOUTRAS

 

VIRGINIA & ORLANDO: A ARTE DE WOOLF – A vida e a obra da escritora inglesa Virginia Woolf (1882-1941), são dignos de nota: uma literatura maravilhosa, uma existência impetuosa: depressões da juventude até o suicídio. No dia 28 de março de 1941, ela vestiu o casaco, encheu os bolsos com pedras, deixou uma carta e se afogou no Rio Ouse: “[...] Sinto que com certeza enlouquecerei novamente. [...] E desta vez não devo me recuperar. Começo a escutar vozes, e não consigo me concentrar. Portanto estou fazendo o que parece ser a melhor coisa a se fazer. [...] Não consigo mais lutar [...]”. Quando li o maravilhoso livro Orlando: uma biografia (1928), foi como se eu tivesse saído de uma experiência tão ricamente vivida: uma novela com estilo influente, envolvente, fazendo uso de um método narrativo satírico e bem humorado dos convencionalismos históricos, contando a história de um jovem inglês que, do inopinado, se vê transformado numa mulher dotada de imortalidade: a trama dessa ambiguidade identitária do personagem perpassam as relações da condição humana. Numa parte do livro está inscrito que: “[...] tem razão o filósofo ao dizer que entre a felicidade e a melancolia não medeia espessura maior que a de uma lâmina de faca; e prossegue opinando serem irmãs gêmeas; e daí conclui que todos os extremos de sentimentos são aparentados com a loucura [...] Ruína e morte, pensou, recobrem tudo. A vida do homem acaba no túmulo. Somos devorados pelos vermes. [...] bateu a primeira pancada da meia-noite. A fria brisa do presente afagou-lhe a face com seu breve sopro de medo. Olhou ansiosamente para o céu. Estava escuro, com nuvens, agora. O vento rugia em seus ouvidos. Mas no rugido do vento ouvia o rigir de um aeroplano que se aproximava cada vez mais. – Aqui, Shel, aqui! -, gritou, desnudando seu poeto à lua (que agora brilhava) de modo que suas pérolas resplandeciam como ovos de uma enorma aranha lunar. O aeroplano rompeu as nuvens e pairou por sobre a sua cabeça. Revoou um pouco por cima dela. As pérolas arderam como um relâmpago fosforescente na escuridão. E quando Shelmerdine, agora um garboso capitão, bronzeado, rosado e ativo, saltou em terra,  por cima de sua cabeça voou um pássaro selvagem. – É o ganso! – gritou Orlado. – O ganso selvagem... E a duodécima pancada da meia noite soou; a duodécima pancada da meia noite de quinta feira, onze de outubro de mil novecentos e vinte e oito”. Esse belíssimo livro foi levado para o cinema 1992, na direção de Sally Potter, estrelado por Tilda Swinton e Quentin Crisp. No Brasil, foi encenado sob a direção da Bia Lessa numa temporada em 1989, no Rio de Janeiro com um timaço de atores, entre eles Fernanda Torres, Julia Lemmertz, entre outros, no projeto Inventário do Tempo. A escritora tem uma frase contida no seu ensaio Um teto todo seu (1929) que diz: "Uma mulher deve ter dinheiro e um teto todo seu se ela quiser escrever ficção". Na verdade ela quis dizer: Todo aquele que quiser escrever ficção deve ter dinheiro suficiente e um teto todo seu. Isso sim. Veja mais aquiaquiaqui.

Imagem: Susanna and the Elders, do pintor do Rococó italiano, Pompeu Girolamo Batoni (1708-1787)

Ouvindo: Passarim, do Tom Jobim (1927-1994). Veja mais aqui.

VIVENDO E APRENDENDO A JOGAR - A diferença entre ganhar ou perder, é mera mudança de lado: um ganha, outro perde; o que importa mesmo, é termos a consciência da nossa missão na vida e cumpri-la, não importando quem ganhou ou perdeu, ou se com isso vai ganhar ou perder. Afinal, quem perde, na verdade, ganha uma lição; e quem vence, sem que esteja preparado e só por soberba, torna-se inútil. Veja mais aquiaqui.

SERVIDÃO HUMANA – Para quem na infância se envolveu tanto com os livros de Monteiro Lobato e Viriato Correia, como também Charles Dickens, seria inevitável encontrar outro livro para lá de marcante, como a da leitura que fiz do Servidão humana (Globo, 1944), do escritor britânico William Somerset Maughan (1874-1965). Para ter uma ideia, leia: [...] Os grandes pintores da Espanha, eram os pintores da sua alma e o coração lhe batia rápido ao prefigurar-se em êxtase face a face com aquelas obras que, mais do que quaisquer outras, eram significativas para o seu coração ingênuo e torturado. Tinha lido os grandes poetas mais característicos daquela raça do que os poetas de outras terras; porque eles pareciam ter tirado a sua inspiração não das correntes gerais da literatura mundial, mas diretamente das planícies ressequidas e perfumadas e das montanhas geladas do seu país. Mais alguns poucos meses e ele ouviria com seus próprios ouvidos, a linguagem que lhe parecia mais expressiva da grandezza da alma e da paixão. Seu bom gosto lhe dera uma intuição de que a Andaluzia era demasiado mole e sensual, um pouco vulgar mesmo para satisfazer o seu ardor. Sua imaginação demorava-se com maior boa vontade entre as distancias de Castela varridas pelo vento e a imponente e áspera magnificência de Aragon e Leon. Ele não sabia de todo o que lhe haveriam de dar aqueles contatos desconhecidos, mas sentia que ia tirar deles uma força e um propósito que o tornariam mais capaz de afrontar e compreender as maravilhas múltiplas dos lugares mais distante4s e ainda mais estranhos. Porque aquilo era apenas o começo. Tinha entrando em comunicado com as varias companhias que levavam os médicos em seus vapores e sabia exatamente quais eram, as suas rotas. [...] Um doutor era util em qualquer parte. Poderia haver uma oportunidade para embrenhar-se na Birmânia e que esplendidas florestas na Sumatra ou Borneu não visitaria ele! Era ainda moço e o tempo não lhe dava cuidados. Não tinha laços na Inglaterra, não tinha amigos. Podia ir e vir pelo mundo durante anos, conhecendo a beleza, a maravilha e a multiplicidade da vida. E agora tinha acontecido aquilo! Deixou de lado a possibilidade de que Sally estivesse enganada. Sentiu uma estranha certeza de que seus temores eram fundados. Afinal de contas, aquilo era tão provável... qualquer pessoa podia ver que a natureza havia construído aquela rapariga para ser mãe de filhos. Sabia bem o que devia fazer. Não devia permitir que o incidente o fizesse desviar um passo sequer do seu caminho. [...] Sally havia confiado nele e sido boa para ele. simplesmente não podia fazer uma coisa que, não obstante todo o seu raciocínio, achava horrível. Sabia que não iria ter paz nas suas viagens se levasse consigo o pensamento constante de que ela estava infelicitada. Ademais, havia o pai e a mãe; eles sempre o tinham tratado bem. Não era possível retribuir-lhes com a ingratidão. [...] O seu presente de nupcias para a esposa seriam todas as suas grandes esperanças. Renúncia! Phillip estava enlevado pela sua beleza e durante todo o serão pensou no sacrifício. Estava tão excitado que não pode ler. Teve a impressão de o arrastavam do quarto para as ruas. Subiu e desceu Bridcage Walk com o coração pulsando de alegria. Mal podia suportar a sua impaciência. Queria ver a felicidade de Sally quando ele lhe fizesse a proposta [...]. Veja mais aquiaqui.

ADELAIDE CABETE - A médica obstetra e ginecologista, professora, republicana convicta e feminista portuguesa Adelaide de Jesus Damas Brazão Cabete, ou simplesmente Adelaide Cabete (1867-1935), foi uma ativista pacifista, humanista e abolicionista que, ao seu formar em 1900, defendeu a tese de Protecção às Mulheres grávidas Pobres como meio de promover o Desenvolvimento físico das novas gerações. Em 1907 foi iniciada no Rito Escocês Antigo e Aceite e, depois, no Rito Francês, na Loja Maçônica Feminina Humanidade que, anos depois, passa a ser Loja de Adoção perdendo os direitos detidos em igualdade com lojas masculinas, o que a levou a fundar a Jurisdição Portuguesa da Ordem Maçônica Mista Internacional O Direito Humano, em 1923. Depois disso, passou a integrar a Liga Republicana das Mulheres e, em seguida, fundou a Liga Portuguesa Abolicionista e presidiu o Conselho Nacional das Mulheres Portuguesas com campanhas sufragistas e, por consequência, foi a primeira e única mulher a votar a Constituição Portuguesa, em Luanda, em 1933. Veja mais aqui.

E como todo dia é dia da mulher, hoje a homenagem vai pra modelo Miss Brasil 1999 e apresentadora de programa esportivo na televisão brasileira, Renata Bonfiglio Fan. Veja mais aqui.


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CRÔNICA DE AMOR POR ELA
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sábado, outubro 23, 2010

SÁBATO, SOMERSET MAUGHAN, RUMI, CACIQUE SEATTLE, KAREN LIEBOWITZ, VERS&PROSA MENINA AZUL

 
Art by Karen Liebowitz

DITOS & DESDITOS - A razão é como um oficial quando o réu aparece: o oficial então perde o seu poder e ninguém mais se lembra dele. A razão é a sombra que some diante de Deus, que é o sol. Pensamento do poeta, jurista e teólogo sufi persa Jalal-Uddin Rumi (1207-1273). Veja mais aqui.

A CARTA DO CACIQUE SEATTLE – O grande chefe de Washington mandou dizer que quer comprar a nossa terra. O grande chefe assegurou-nos também da sua amizade e benevolência. Isto é gentil de sua parte, pois sabemos que ele não necessita da nossa amizade. Nós vamos pensar na sua oferta, pois sabemos que se não o fizermos, o homem branco virá com armas e tomará a nossa terra. O grande chefe de Washington pode acreditar no que o chefe Seattle diz com a mesma certeza com que nossos irmãos brancos podem confiar na mudança das estações do ano. Minha palavra é como as estrelas, elas não empalidecem. Como pode-se comprar ou vender o céu, o calor da terra? Tal idéia é estranha. Nós não somos donos da pureza do ar ou do brilho da água. Como pode então comprá-los de nós? Decidimos apenas sobre as coisas do nosso tempo. Toda esta terra é sagrada para o meu povo. Cada folha reluzente, todas as praias de areia, cada véu de neblina nas florestas escuras, cada clareira e todos os insetos a zumbir são sagrados nas tradições e na crença do meu povo. Sabemos que o homem branco não compreende o nosso modo de viver. Para ele um torrão de terra é igual ao outro. Porque ele é um estranho, que vem de noite e rouba da terra tudo quanto necessita. A terra não é sua irmã, nem sua amiga, e depois de exaurí-la ele vai embora. Deixa para trás o túmulo de seu pai sem remorsos. Rouba a terra de seus filhos, nada respeita. Esquece os antepassados e os direitos dos filhos. Sua ganância empobrece a terra e deixa atrás de si os desertos. Suas cidades são um tormento para os olhos do homem vermelho, mas talvez seja assim por ser o homem vermelho um selvagem que nada compreende. Não se pode encontrar paz nas cidades do homem branco. Nem lugar onde se possa ouvir o desabrochar da folhagem na primavera ou o zunir das asas dos insetos. Talvez por ser um selvagem que nada entende, o barulho das cidades é terrível para os meus ouvidos. E que espécie de vida é aquela em que o homem não pode ouvir a voz do corvo noturno ou a conversa dos sapos no brejo à noite? Um índio prefere o suave sussurro do vento sobre o espelho d'água e o próprio cheiro do vento, purificado pela chuva do meio-dia e com aroma de pinho. O ar é precioso para o homem vermelho, porque todos os seres vivos respiram o mesmo ar, animais, árvores, homens. Não parece que o homem branco se importe com o ar que respira. Como um moribundo, ele é insensível ao mau cheiro. Se eu me decidir a aceitar, imporei uma condição: o homem branco deve tratar os animais como se fossem seus irmãos. Sou um selvagem e não compreendo que possa ser de outra forma. Vi milhares de bisões apodrecendo nas pradarias abandonados pelo homem branco que os abatia a tiros disparados do trem. Sou um selvagem e não compreendo como um fumegante cavalo de ferro possa ser mais valioso que um bisão, que nós, peles vermelhas matamos apenas para sustentar a nossa própria vida. O que é o homem sem os animais? Se todos os animais acabassem os homens morreriam de solidão espiritual, porque tudo quanto acontece aos animais pode também afetar os homens. Tudo quanto fere a terra, fere também os filhos da terra. Os nossos filhos viram os pais humilhados na derrota. Os nossos guerreiros sucumbem sob o peso da vergonha. E depois da derrota passam o tempo em ócio e envenenam seu corpo com alimentos adocicados e bebidas ardentes. Não tem grande importância onde passaremos os nossos últimos dias. Eles não são muitos. Mais algumas horas ou até mesmo alguns invernos e nenhum dos filhos das grandes tribos que viveram nestas terras ou que tem vagueado em pequenos bandos pelos bosques, sobrará para chorar, sobre os túmulos, um povo que um dia foi tão poderoso e cheio de confiança como o nosso. De uma coisa sabemos, que o homem branco talvez venha a um dia descobrir: o nosso Deus é o mesmo Deus. Julga, talvez, que pode ser dono Dele da mesma maneira como deseja possuir a nossa terra. Mas não pode. Ele é Deus de todos. E quer bem da mesma maneira ao homem vermelho como ao branco. A terra é amada por Ele. Causar dano à terra é demonstrar desprezo pelo Criador. O homem branco também vai desaparecer, talvez mais depressa do que as outras raças. Continua sujando a sua própria cama e há de morrer, uma noite, sufocado nos seus próprios dejetos. Depois de abatido o último bisão e domados todos os cavalos selvagens, quando as matas misteriosas federem à gente, quando as colinas escarpadas se encherem de fios que falam, onde ficarão então os sertões? Terão acabado. E as águias? Terão ido embora. Restará dar adeus à andorinha da torre e à caça; o fim da vida e o começo pela luta pela sobrevivência. Talvez compreendêssemos com que sonha o homem branco se soubéssemos quais as esperanças transmite a seus filhos nas longas noites de inverno, quais visões do futuro oferecem para que possam ser formados os desejos do dia de amanhã. Mas nós somos selvagens. Os sonhos do homem branco são ocultos para nós. E por serem ocultos temos que escolher o nosso próprio caminho. Se consentirmos na venda é para garantir as reservas que nos prometeste. Lá talvez possamos viver os nossos últimos dias como desejamos. Depois que o último homem vermelho tiver partido e a sua lembrança não passar da sombra de uma nuvem a pairar acima das pradarias, a alma do meu povo continuará a viver nestas florestas e praias, porque nós as amamos como um recém-nascido ama o bater do coração de sua mãe. Se te vendermos a nossa terra, ama-a como nós a amávamos. Protege-a como nós a protegíamos. Nunca esqueça como era a terra quando dela tomou posse. E com toda a sua força, o seu poder, e todo o seu coração, conserva-a para os seus filhos, e ama-a como Deus nos ama a todos. Uma coisa sabemos: o nosso Deus é o mesmo Deus. Esta terra é querida por Ele. Nem mesmo o homem branco pode evitar o nosso destino comum. Carta escrita pelo cacique Seattle, da tribo Suquamish, do Estado de Washington, em 1855, enviada ao presidente dos Estados Unidos (Francis Pierce), depois de o Governo haver dado a entender que pretendia comprar o território ocupado por aqueles índios.

FIO DA NAVALHA – [...] Os homens não são somente eles; são também a região onde nasceram, a fazenda ou o apartamento da cidade omnde aprenderam a andar, os briquedos com que bricaram em crianças, as lendas que ouviram dos mais velhos, a comida de que se alimentaram, as escolas que frentaram, os esportes que se exercitaram, os poetas que leram e o Deus que acreditaram. Todas estas coisas fizeram deles o que são, e essas coisas ninguém pode conhecê-las somente por ouvir dizer, e sim se as tiver sentido. [...]. Trecho da obra O fio da navalha (Rio Gráfrica, 1986), do escritor britânico William Somerset Maughan (1874-1965). Veja mais aqui e aqui.

NÓS E O UNIVERSO – [...] Alguém me pede uma explicação da teoria de Einstein. Com muito entusiasmo lhe falo de tensores e curvas geodésicas. – Não entendi uma só palavra – diz ele, estupefato. Reflito por alguns instantes e em seguida, com menos entusiasmo, lhe dou uma explicação menos técxnica, conservando algumas geodésicas, mas fazendo intervir aviadores e tiros de revolver. – Já entendo quase tudo – diz meu amigo com bastante alegria – Mas tem uma coisa que ainda não entendo: essas geodésicas, essas coordenadas... Deprimido, mergulho numa longa concentração mental e termino por abandonar para sempre as geodésicas e as coordenadas. Com verdadeira ferocidade, me dedico exclusivamente a aviadores que fumam enquanto viaham à velocidade da luz, chefes de estação que disparamum revolver com a mão direita e verificam tempos comum cronômetro que têm na mão esquerda. Trens, sinos e vermes de quatro dimensões. – Agora, sim, entendo a relatividade! – exclama meu amgo com alegria. – Sim – respondo, amargamente -, mas agora não é mais a relatividade. [...]. Trecho extraído da obra Nós e o universo (Francisco Alves, 1986), do escritor e artista plástico argentino Ernesto Sábato (1911-2011). Veja mais aqui e aqui.


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