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domingo, agosto 28, 2022

DENISE FERREIRA, ALÍCIA FERNÁNDEZ, MANUEL DE CASTRO & ANA LUIZA KOEHLER

 

Ao som do álbum Saudações a Egberto (Tuff Beats, 2016), da pianista, cantora, compositora e arranjadora Delia Fischer. Veja mais aqui e aqui.

 

TRÍPTICO DQP: - Hestorieta dantanho... - Nos olhos da primavera lá vinha ela das ondas do mar de Copacabana pro quintal da minha casa que não mais existe. Ali sua alma cigana inflava meus segredos e me embalava na dança dos meninos. Era tão levada e me puxava para subir pelos galhos e telhados, pular muros e valetas, desfilando inquieta a sua bunda-rica cheia de babados, o saiote ao vento e os olhos vivos, criancices rodopiantes. A gente já adolescia nos quartos e esquinas, peraltices medonhas e intermináveis. E, como tudo na vida, ouvi de Cesare Pavese: Todas as paixões passam e se apagam, exceto as mais antigas, aquelas da infância... Lá eu ia me esfacelando por rotas atravessadas, contando passos, acenos e paisagens; catalogava cenas inesquecíveis, outras nem tanto, errava na vida pelos devires e percorridos. Foi Mia Couto quem me deu conta: Quase tudo se adquire nesse tempo em que aprendemos o próprio sentimento do Tempo... É quando estamos disponíveis para nos surpreendermos, para nos deixarmos encantar... Lá ia tudo se esgarçando pelos dias e aquilo que eu jurava jamais esquecer. E não esqueci mesmo, o tempo passou e Manoel de Barros me dizia sorrindo: Sou hoje um caçador de achadouros da infância. Vou meio dementado e enxada às costas cavar no meu quintal vestígios dos meninos que fomos. A vida passava e eu ainda amanhecia.

 


Ainda a esperança...- A arte do artista de rua Thiago Mundano. – As tardes nublavam pelos umbrais e eu divisava os morros entre o falível e o perene, enquanto a ilustradorarquiteta Ana Luiza Koehler me dizia dos: ...tempos de distantes, mas que se assemelham muito ao nosso... Nisso aprendia que o tempo é uma bomba no espaço, lenta e letal, sem saber quanto sobra ou falta para capturar na existência. Muito menos entendia o que dizia Manuel de Castro: Em cada sendo a questão é corresponder, no e pelo agir, aso apelo de ser o sendo, não a partir do sendo enquanto sendo do sistema, mas do sendo enquanto sendo do ser. Apropriar-se é o concreto poético da realização sempre em processo, onde o Tempo é o Ser enquanto doação. Levei muito tempo para discernir enquanto sobrevivíamos a um holocausto cotidiano como quem não falava, não questionava, não brilhava, não era... Só o apocalipse cotidiano das crônicas da Mata Sul, onde a força bruta da ignorância esmagava a cidade que se calava na décima primeira hora do dia, um ermo pro final de semana. Exatamente quando o vizinho inventava de lubrificar suas dores de cotovelo virando a chave da ignição dos estridentes chifres com suas lamúrias exaltadas e o show de horrores era ouvi-lo se esgoelar imolando sua sofrência. Era um outro Brasil diferente de tudo que já foi escrito e estudado até agora, um Brasil que inexiste e nenhuma remissão, como dizia a filósofa Denise Ferreira da Silva: O conceito de justiça social se encaixa bem dentro do estado-nação. Mas o estado de segurança está agora firmemente estabelecido, com o único mandato de proteger a economia; é o “estado-corporação”, cujos papéis primordiais para o capital global são criar instrumentos jurídicos e estruturas e mecanismos que facilitem a extração, a expropriação e a exploração e protejam o interesse das empresas e de seus investidores. O que nós vamos fazer? Eu sequer sabia porque a zoada do vizinho era maior que minha sanidade e, depois do confinamento compulsório, só restava a reconexão pelas brechas: o lugar estranho à flor da frágil pele, a gigante fenda de um estado permanente e o sintoma do medo vivenciado. Esse armagedon trouxe do passado o presente de sempre. Era o fim derradeiro, parecia; e não se podia confiar em ninguém porque o vil e o cruel estava sempre à espreita, a terra devastada... Na lata do lixo eu sabia: tudo poderia reviver, um simples catador.

 


Perfume da noite... - A arte do artista visual estadunidense Anatol Woolf. – A quem se perdera o dia, quase fatigada noite assim se fizera porque a bacante seminua era ela Frau Troffea, solícita com o sangue superaquecido da ira sagrada dionisíaca de Estrasburgo, respirando na neblina a me embalar para o que viria da dança de Vatsyayana. Eu lhe recitei ao ouvido Não sei dançar de Bandeira e ela me contou da solidão do deus de Nietzsche. E me fez compenetrado para contar que há quinhentos anos escapara duma epidemia medieva e se safou porque se tornou na Dançarina de Izu de Kawabata, depois a ressurreta bailarina de João Cabral na dança de Amiri Baraka, e escapara fedendo da gripe espanhola na saga de La dansarina de Lilo Parra e Jefferson, até a sobrevivente Rosalyn Rincon que saiu da caixa mágica do Costa Concórdia para me surpreender a pele e a alma com o bálsamo da dança da filha entre Drummond e Degas. E me envolveu marinheiro num Pas de Deux sob o céu turvo de primeira viagem, desbussolado, quase à deriva para contar o devir de uma história que fosse só minha numa canção que ela exigiu compusesse ali mesmo, de voz própria pelas emoções propositivas e potentes que emanavam de sua candura sedutora, e nada mais restava porque a dança revelou o amor... E eu nem era mais... Até mais ver.

 


Aprender supõe... um sujeito que se historia. Historiar-se é quase sinônimo de aprender, pois, sem esse sujeito ativo e autor que significa mundo, significando-se nele, a aprendizagem irá converter-se na memória das máquinas, ou seja, em uma tentativa de cópia...

Trecho extraído da obra Os idiomas do aprendente: análise de modalidades ensinantes em família, escolas e meios de comunicação (Artmed, 2001), da psicopedagoga argentina Alícia Fernández (1946-2015), autora da obra La Inteligencia Atrapada (Nueva Vision, 1995). Veja mais Educação & Livroterapia aqui e aqui.



quinta-feira, julho 05, 2018

POE, COCTEAU, MIA COUTO, MERTON, LEILA MICCOLIS, HIROMI UEHARA & TOMMASO PINCIO


OS AMORES DO CORVO POE – Imagem: Portrait of Edgar Allan Poe, art by Tommaso Pincio. - Das tantas e muitas que soube, uma das mais singulares foi a do órfão aos dois anos de pais atores fracassados, para ser adotado na afeição de Francisca e brincar com a afilhada dela, Catarina Isabel. Afeiçoado com as travessuras pelos jardins e trelas às macieiras, ah Catarina, aquela que foi interrompida por ricas viagens que lhe facultaram o aprendizado do grego, latim, francês, espanhol e italiano, e o primeiro amor sucumbia. E surgiu a bela senhora majestosa Joana, mãe do amigo que lhe festejara a proeza de nadar seis milhas contra a corrente do rio James. Ah, Joana, bela e enlouquecida, a morte e ao seu túmulo o poema Helena: “à luz de ônix, teu vulto se revela”. Com o Tamerlão, “Doce consolação nesta hora extrema!”, a jovem delicada Mira – Sara Elmira - às juras de amor para casar, abandona a universidade ao jogo e depois expulso por falta às aulas, segue vida nômade e inconstante, desavenças com o tutor e o pai da moça que lhe cerceiam o idílio, ela casada em acordo com outro e a sinfonia de amor inacabada: “Em tua festa de núpcias eu te vi, ardendo de rubor”. Pra ela o poema: “o néctar dos lábios teus meu trouxe / fragrância tão balsâmica e tão doce, / dando o primeiro beijo apaixonado”. Vieram os Poemas na água-furtada e os cachos dos cabelos de Maria de Devereaux aos escândalos do chicote na paixão desenfreada rompida na marra. Com o Manuscrito encontrado numa garrafa, demitido por abuso de bebida, também A queda da casa de Usher com seus restos desmoronados e o nebuloso casamento com Virginia, a musa de tantos e muitos versos entre a miséria e a doença. E todos os Contos do grotesco e do arabesco com a tia-sogra viúva Maria Clemm sempre disposta a ser mãe e a ele servir entre os mais belos e puros amor, e Os crimes da rua Morgue a se referir à sua maneira de negar o que é e explicar o que não é, e O escaravelho de ouro e quem nos dirá desaparecessem todos que sabiam do segredo, se no barril do Amontillado, ou jogador de xadrez de Mawlzel, os mistérios de Marie Roget ou a carta roubada, o poço e o pêndulo ou de Berenice e quantas vieram ao coração: a compassiva e atenciosa Virginia, Os sinos para a prudente Luisa, a feminilidade frágil da poeta Francisca, a alma irmã da poeta misteriosa Helena “Vi-te uma vez, só uma, há vários anos..”; e queria morrer nos braços de Anita. E Mira enviuvara, era a sua vez. Com ela, O corvo e o reencontro com Catarina Isabel, portas fechadas não lhe atendem, vai embora até retornar a Richmond noivo de Mira e o fantástico das exacerbações: alucinações, neuroses, o duplo, cenários de fatalidade e morte, pavor e mistério. Eis, finalmente, diante de Catarina, nem se demora, quando voltará a vê-la? Nunca mais, até ser encontrado inconsciente poeta maldito numa rua de Baltimore: “Senhor, amparai minha pobre alma”. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais abaixo e aqui.

RÁDIO TATARITARITATÁ:
Hoje na Rádio Tataritaritatá especial com a música da pianista e compositora japonesa Hiromi Uehara: Time control, Brain, Spiral & Estival Jazz Lugano & muito mais nos mais de 2 milhões de acessos ao blog & nos 35 Anos de Arte Cidadã. Para conferir é só ligar o som e curtir. Veja mais aqui & aqui.

PENSAMENTO DO DIA – [...] seja qual for a intenção dos analistas, suas análises tendem a possuir uma qualidade azeda: tendem a acusar, secularizar, ironizar, satirizar, alienar o conteúdo intrínseco da crença ou ponto de vista confessado. O que estes sistemas de análise têm em comum é a prática de descartarem o valor nominal das declarações, das crenças e dos sistemas de idéias, reexaminando-os dentro de um contexto novo que proporciona o 'significado real’ [...] Numa sociedade em que a desconfiança recíproca encontra expressões populares tais como 'quanto ele vai ganhar por isso' [...] em que a defesa contra as desilusões traumáticas talvez consistam em estarmos permanentemente desenganados, reduzindo as expectativas sobre a integridade de outros, dando  por descontados de antemão seus motivos e talentos; - numa sociedade assim, a análise sociológica sistemática e uma sociologia do conhecimento derivada assumem uma pertinência e convicção socialmente fundamentadas [...]. Trechos extraídos da obra Sociologia: teoria e estrutura (Mestre Jou, 1968), do sociólogo estadunidense Robert Merton (1910-2004).

VELHICE - A importância dos velhos tem a ver com o fato de que somos sociedades orais, e portanto os velhos são espécies de bibliotecas vivas, são detentores do saber. Cabe aos velhos essa missão de reprodução da moral, da ética. Nos sistemas religiosos monoteístas, há um julgamento, depois que morremos temos que prestar contas do que fizemos em vida. Nas religiões africanas, nós prestamos contas em vida, em nossa relação de viventes com os mortos. Não há essa coisa do Juízo Final, e portanto há disponibilidade para se estar vivo. Trecho extraído de Fronteiras do Pensamento (2014), do premiado escritor e biólogo moçambicano Mia Couto. Veja mais aqui e aqui.

A VOZ HUMANA – Um ato, um quarto, uma personagem, o amor e o acessório banal das peças modernas, o telefone: O autor gosta de fazer experiências. Tendo o hábito de perguntar a si mesmo o que é que pretendia fazer depois de ter visto o que fez, talvez seja mais simples dar algumas informações em primeira mão. Vários motivos o incentivaram a escrever este ato: 1.º O motivo misterioso que leva o poeta a escrever mesmo quando todas as suas mais profundas preguiças se recusam a fazê-lo e, sem dúvida, a recordação de uma conversa surpreendente ao telefone, a singularidade dos timbres, a eternidade dos silêncios. 2.º Criticam-no dizendo que age de acordo com estruturas maquinais, que instrumentaliza demasiado as suas peças, que conta demasiado com a encenação. Importava, por isso, partir do mais simples: um ato, um quarto, uma personagem, o amor e o adereço banal das peças modernas, o telefone. 3.º O teatro realista está para a vida como estão para a natureza as telas do Salão de Belas Artes. Era preciso pintar uma mulher sentada, não uma certa mulher, uma mulher inteligente ou estúpida, mas uma mulher anónima, e afastar-se do virtuosismo, do diálogo “tu falas e eu respondo”, das palavras de mulher apaixonada tão insuportáveis quanto as palavras das crianças, enfim, de todo aquele teatro que de forma venenosa, pastosa e sorrateira substitui o teatro tout court, o teatro verdadeiro, as álgebras vivas de Sófocles, de Racine e de Molière. O autor tem consciência da dificuldade da tarefa. Por isso mesmo, e de acordo com o conselho de Victor Hugo, relacionou a tragédia e o drama com a comédia, sob os auspícios dos imbróglios que o aparelho menos indicado para tratar dos assuntos do coração permite. 4.º Finalmente, e porque é muitas vezes criticado por exigir aos intérpretes uma obediência prejudicial ao seu talento, reclamando sempre prioridade, o autor quis escrever uma peça ilegível que, tal como o seu Roméo se intitula pretexto para uma encenação, seria um pretexto para uma atriz. Por detrás da interpretação, a obra apagar-se-ia, o drama ofereceria a possibilidade de desempenhar dois papéis, um quando a atriz fala, outro quando ouve e circunscreve o carácter da personagem invisível que se exprime através de silêncios. Apresentação da peça teatral A voz humana (1930 -Assírio & Alvim, 1989), do escritor, cineasta, dramaturgo, desenhista e ator surrealista francês, Jean Cocteau (1889-1963). Veja mais aqui e aqui.

CONFISSÃO - Dizem que o amor é cego, / não nego, / por isso te abro os olhos: / não tenho bens nem alqueires, / eu não sou flor que se cheire, / nem tão boa cozinheira, / (bem capaz que ainda me piches / por só comer sanduíches), / minha poesia é fuleira, / tenho idéias de jerico, / um cio meio impudico / como as cadelas e as gatas, / às vezes me torno chata / por me opor ao que comtemplo, / sei que sou péssimo exemplo, / por pouca coisa me grilo, / talvez por mim percas quilos, / eu não sei se valho a pena, / iguais a mim, há centenas, / desejo te ser sincera. / Mas no fundo o amor espera / que grudes qual carrapicho: / são tão grandes meu rabicho / e minha paixão por ti, / que não estão no gibi... / Ao te ver, viro pamonha, / sem ação, e sem vergonha / o meu ser inteiro goza. / Por isso, pra encurtar prosa, / do teu corpo, cada poro / eu adoro adoro adoro... Poema da escritora, editora, professora, promotora cultural e artista performática Leila Miccolis. Veja mais aqui e aqui.

EDGAR ALLAN POE: LOVE, DEATH AND WOMEN
O documentário Edgar Allan Poe: love, death and women ( Edgar Allan Poe: Amor, Morte e Mulheres, 2010), produzido pela BBC inglesa, incursiona nas histórias por trás dos textos do genial escritor, revelando as sensaborias femininas e vivenciais que inspiraram alguns dos mais aterrorizantes e influentes contos do século XIX, contando as relações entre Poe e as mulheres de sua vida - mãe, esposa, amante e musa - eram muito tênues, desastrosas na pior das hipóteses, por outro lado forneceram inspiração e estimulo para alguns dos mais influentes e aterradores contos, por viagens em Nova York, Virginia e Baltimore, para desvendar as tortuosas e peculiares relações de Poe, interligando os acontecimentos, a mente e suas mulheres através das próprias cartas, diários e escritos publicados.
Veja mais:

O Congresso de Educação do Vale do Sapucaí (2º CEVS) & muito mais na Agenda aqui.
&
A arte do escritor e artista visual italiano Tommaso Pincio
&
Viver é tão pouco, é preciso sonhar, a dificuldade de ser de Jean Cocteau, a música de Egberto Gismonti, a escultura de Texeira Lopes & a arte de Gil Teixeira Lopes aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
Veja mais aqui.

APOIO CULTURAL: SEMAFIL
Semafil Livros nas faculdades Estácio de Carapicuíba e Anhanguera de São Paulo. Organização do Silvinha Historiador, em São Paulo.


domingo, julho 05, 2015

MIA COUTO, PORTINARI, HERÁCLITO, BACH, CASAIS MONTEIRO, LUIS ABREU, REGO MONTEIRO, TASSO, CANTARAU & QUEBRA DE XANGÔ.


VAMOS APRUMAR A CONVERSA? CANTARAU TATARITARITATÁ – Tudo começou lá por meados dos anos 1980, quando pintou uma linha melódica na ideia que dava num xote cabendo a palavra Tataritaritatá. A harmonia foi saindo com a melodia solfejada até que, mais ou menos encaminhada, fui trabalhar na letra. Empancou e não saía nada que prestasse. Fiquei por meses batucando na mente e nada, até que desisti e parti pro meu show Por um novo dia que entrou em cartaz em 1986. Os anos se passaram e entre, um show e outro, novas composições foram aparecendo, até que em 2008, mais de vinte anos depois, resolvi fazer uma martelada. Pintou a ideia de fazer um martelo agalopado, desconfiando eu que jamais teria topete para tal. Saiu, virou folheto de cordel e nasceu o cantarau – um misto de cantoria e sarau -, em que eu violava meus versos de cantautor, ora recitando, ora cantarolando. Depois da tentativa de letrar a Música das Nuvens e do Chão, do Hermeto Pascoal – com o título de Cantador e que por sinal, segundo me falou o meu amigo Santanna O Cantador, a música possuía mais de umas duas centenas de letras de gente de peso e que nunca foram autorizadas pelo autor -, resolvi fazer um xote com a minha profissão de fé. Por causa disso, pintou Desnorteio, o que me levou a organizar um repertório que deu no cantarau que apresentei com banda e tudo no Palco Aberto, em 2010, depois na Artnor e no Sopa de Letrinhas do Caiubi, em São Paulo, ambos em 2011, entre outros cometidos por aí. Após essas apresentações, saí pelos palcos da vida cantautorando meus versos e tons pelo Brasil afora, sempre chamando na grande com o mote vamos aprumar a conversa. Veja mais aqui, aqui e aqui.

Imagem: Mulher e Criança (1936), do artista plástico Candido Portinari (1903-1962). Veja mais aqui, aqui e aqui.

Curtindo Bach: Goldberg Variations BWV 988 (BC L9) for keyboard Clavier-Übung IV, Chromatic Fantasia & Fugue BWV 903 - Ecole de Musique Ancienne em Saint-Leu-la-Forêt; Italian Concerto, (Gramophone, 1936/RCA 1945, 1999), do compositor alemão Johann Sebastian Bach (1685-1750), com a musicóloga polonesa Wanda Landowska (1879-1959).

PROGRAMA BRINCARTE DO NITOLINO – Neste domingo, a partir das 10hs, haverá mais uma edição do programa Brincarte do Nitolino, no blog do Projeto MCLAM. Na programação comandada pela Ísis Corrêa Naves muitas atrações: a própria Isis declamando o poema Passarinho passarinho de Manoel Bentevi, Chico Buarque, Renato Braz, Quintal da Cultura, Fábulas de La Fontaine, Luiz Gonzaga, Nitolino, Originais do samba, Meimei Corrêa, Turma da Mônica, Sítio do Pica Pau Amarelo, Patati e Patatá & muita música, muita poesia, histórias e brincadeiras pra garotada. Para conferir ao vivo e online clique aqui ou aqui.

DA NATUREZA: O VIR-A-SER CONTÍNUO – Em sua História da Filosofia, Umberto Padovani e Luís Castagnola (Melhoramentos, 1978), assinalam que com Heráclito de Êfeso – que viveu entre o Vi e V século, solitário desdenhoso e desprezador da azáfama vulgar, de caráter altivo, misantrópico e melancólico, desprezando a plebe e recusando-se a intervir na política, contra a religião, os poetas e filósofos do seu tempo -, a filosofia afirma-se com a sua exposição do sistema introduzido na obra Da Natureza – escrito em prosa, no dialeto jônico e no qual recebeu o cognome de Skoteinós, o Obscuro -, cuja doutrina tem por princípio a essência, o elemento primordial, é o vir-a-ser, vez que tudo se acha em perpetuo fluxo, a realidade está sujeita a um vir-a-ser contínuo, sendo o único princípio estável da realidade a lei universal do próprio devir concretizado no fogo (racional) e que esse vir-a-ser é antítese, luta, revezando-se entre vida e morte: a luta é regra do mundo e a guerra é a geradora e a dominadora de todas as coisas e que este e esta oposição são reconduzidos à estabilidade e à unidade pela harmonia, pela sabedoria universal, que determinam o acordo entre as oposições. Ele é considerado o mais eminente pensador pré-socrático, por formular com vigor o problema da unidade permanente do ser diante da pluralidade e mutabilidade das coisas particulares e transitórias, estabelecendo a existência de uma lei universal e fixa (o Lógos), regedor de todos os acontecimentos particulares e fundamento da harmonia universal, harmonia feita de tensões, “como a do arco e da lira”. Da sua obra tem-se esse fragmento: Todos os homens da Terra mantém-se alheio à verdade e à justiça, ao mesmo tempo que, por sua pecaminosa insensatez, devotam-se à avareza e a sede de popularidade. Eu, porém, estranho a toda corrupção, esquivando-me à saciação geral que está intimamente associada à inveja, e porque tenho horror ao esplendor, não poderia ir à Persia, contentando-me com pouco, segundo a minha própria opinião. Veja mais aqui e aqui.

A ESTRADA MORTA – O premiado romance Terra sonâmbula (1992 – Editorial Caminho, 2004), do escritor e biólogo moçambicano Mia Couto, conta a história de um menino no meio dos conflitos sangrentos depois da guerra anticolonial (1965-1975) com extensão entre os anos de 1976-92, que presencia o incêndio de um ônibus e encontra a únabriga dos cadernos de Kindzu, um longo diário de um dos mortos no acidente. Da obra destaco o trecho inicial: Naquele lugar, a guerra tinha morto a estrada. Pelos caminhos só as hienas se arrastavam, focinhando entre cinzas e poeiras. A paisagem se mestiçara de tristezas nunca vistas, em cores que se pegavam à boca. Eram cores sujas, tão sujas que tinham perdido toda a leveza, esquecidas da ousadia de levantar asas pelo azul. Aqui, o céu se tornara impossível. E os viventes se acostumaram ao chão, em resignada aprendizagem da morte. A estrada que agora se abre a nossos olhos não se entrecruza com outra nenhuma. Está mais deitada que os séculos, suportando sozinha toda a distância. Pelas bermas apodrecem carros incendiados, restos de pilhagens. Na savana em volta, apenas os embondeiros contemplam o mundo a desflorir. Um velho e um miúdo vão seguindo pela estrada. Andam bambolentos como se caminhar fosse seu único serviço desde que nasceram. Vão para lá de nenhuma parte, dando o vindo por não ido, à espera do adiante. Fogem da guerra, dessa guerra que contaminara toda a sua terra. Vão na ilusão de, mais além, haver um refúgio tranquilo. Avançam descalços, suas vestes têm a mesma cor do caminho. O velho se chama Tuahir. É magro, parece ter perdido toda a substância. O jovem se chama Muidinga. Caminha à frente desde que saíra do campo de refugiados. Se nota nele um leve coxear, uma perna demorando mais que o passo. Vestígio da doença que, ainda há pouco, o arrastara quase até à morte. Quem o recolhera fora o velho Tuahir, quando todos outros o haviam abandonado. O menino estava já sem estado, os ranhos lhe saíam não do nariz mas de toda a cabeça. O velho teve que lhe ensinar todos os inícios: andar, falar, pensar. Muidinga se meninou outra vez. Esta segunda infância, porém, fora apressada pelos ditados da sobrevivência. Quando iniciaram a viagem já ele se acostumava de cantar, dando vaga a distraídas brincriações. No convívio com a solidão, porém, o canto acabou por migrar de si. Os dois caminheiros condiziam com a estrada, murchos e desesperançados. [...]. Veja mais aqui, aqui e aqui.

EU FALO DAS CASAS E DOS HOMENS – No livro Documenta Poética (Assírio & Alvim, 1973), do poeta, ensaísta, crítico literário e professor universitário português Adolfo Casais Monteiro (1908-1972), encontro o seu poema Eu falo das casas e dos homens: Eu falo das casas e dos homens, / dos vivos e dos mortos: / do que passa e não volta nunca mais... / Não me venham dizer que estava materialmente / previsto, ah, não me venham com teorias! / Eu vejo a desolação e a fome, / as angústias sem nome, / os pavores marcados para sempre nas faces trágicas das vítimas. / E sei que vejo, sei que imagino apenas uma ínfima, / uma insignificante parcela da tragédia. / Eu, se visse, não acreditava. / Se visse, dava em louco ou profeta, / dava em chefe de bandidos, em salteador de estrada, / - mas não acreditava! / Olho os homens, as casas e os bichos. / Olho num pasmo sem limites, / e fico sem palavras, / na dor de serem homens que fizeram tudo isto: / esta pasta ensanguentada a que reduziram a terra inteira, / esta lama de sangue e alma, / de coisa a ser, / e pergunto numa angústia se ainda haverá alguma esperança, / se o ódio sequer servirá para alguma coisa... / Deixai-me chorar - e chorai! / As lágrimas lavarão ao menos a vergonha de estarmos vivos, / de termos sancionado com o nosso silêncio o crime feito instituição /e enquanto chorarmos talvez julguemos nosso o drama, / por momentos será nosso um pouco do sofrimento alheio, / por um segundo seremos os mortos e os torturados, / os aleijados para toda a vida, os loucos e os encarcerados, / seremos a terra podre de tanto cadáver, / seremos o sangue das árvores, / o ventre doloroso das casas saqueadas, / - sim, por um momento seremos a dor de tudo isto... / Eu não sei porque me caem as lágrimas, / porque tremo e que arrepio corre dentro de mim, / eu que não tenho parentes nem amigos na guerra, / eu que sou estrangeiro diante de tudo isto, / eu que estou na minha casa sossegada, / eu que não tenho guerra à porta, / - eu porque tremo e soluço? / Quem chora em mim, dizei - quem chora em nós? / Tudo aqui vai como um rio farto de conhecer os seus meandros: / as ruas são ruas com gente e automóveis, / não há sereias a gritar pavores irreprimíveis, / e a miséria é a mesma miséria que já havia... / E se tudo é igual aos dias antigos, / apesar da Europa à nossa volta, exangue e mártir, / eu pergunto se não estaremos a sonhar que somos gente, / sem irmãos nem consciência, aqui enterrados vivos, / sem nada senão lágrimas que vêm tarde, e uma noite à volta, / uma noite em que nunca chega o alvor da madrugada... Veja mais aqui e aqui.

MARIA PEREGRINA – A peça teatral Maria Peregrina (2000), do premiadíssimo dramaturgo, professor e roteirista Luis Alberto Abreu, conta três histórias sobre uma personagem do folclore do Vale do Paraíba que viveu na primeira metade do século XX, mendigando e também era conhecida como Nega do Saco, considerada uma santa popular depois de sua morte. Da obra destaco o trecho inicial: MESTRE Boa noite. Não faz muito tempo e o mundo era outro. As casas eram poucas, espaçadas, e a terra, sem o asfalto e sem tantos prédios sobre ela, cheirava forte quando chovia. Lembram? À tarde, quase noite, o sino espalhava um som meio triste pelas largas distâncias do vale. Dom! Dom! Dem, Dom! Dem, Dom! Então, as pessoas faziam o sinal da cruz e recolhiam o cansaço do dia. Conversas nas janelas, café no fogão à lenha, histórias contadas antes do sono. Não faz muito tempo e o mundo era outro. As coisas todas eram outras. O tempo desfez. O tempo desfaz toda solidez. E o tempo faz. Como fez as coisas de hoje, tão diferentes. Mas o que o tempo desfez, a memória refaz. Refaz melodias, (A UM SINAL SEU O SOM DA ROMARIA TORNA-SE GRADATIVAMENTE MAIS FORTE.) reconstrói as poucas casas, retraça no papel branco da imaginação aquele tempo em que o mundo era outro. Um mundo de lembranças e pessoas que o tempo desfez. Mas a memória refaz. COM UM GESTO ENÉRGICO, O MESTRE FAZ INTRODUZIR A ROMARIA. AFASTA-SE DA ÁREA DA REPRESENTAÇÃO EM DIREÇÃO À ÁREA DOS MÚSICOS ENQUANTO OS ROMEIROS ENTRAM. CANTANDO, TOCANDO E DANÇANDO CUMPREM UMA COREOGRAFIA ALEGRE EM VOLTA DA ÁREA DE REPRESENTAÇÃO. DO MEIO DELES DESTACA-SE A MULHER DESMEMORIADA, INVADE A ÁREA DE REPRESENTAÇÃO. PARECE INDECISA. FINALMENTE SENTA-SE, SOBRE AS PERNAS, DEBAIXO DA ÁRVORE. OS ROMEIROS CONTINUAM A CANTORIA ATÉ CHEGAR AO LOCAL DOS MÚSICOS. O MESTRE, COM GESTOS LARGOS E NÍTIDOS, INDICA A CADA UM O SEU LUGAR. O ÚLTIMO DOS ROMEIROS, THEÓRFO, RECEBE DO MESTRE UM CAJADO E ENTRA NA ÁREA DE REPRESENTAÇÃO. SORRI PARA O PÚBLICO. [...] Veja mais aqui.

QUEBRA DE XANGÔ – O documentário 1912 O Quebra de Xangô, do antropólogo e professor Siloé Soares de Amorim, que assinou o roteiro e a direção, conta a história do trágico episódio histórico que marca a trajetória de perseguição enfrentada por mães e pais de santo em Alagoas, quando da repressão aos cultos afro-brasileiros ocorrida em Maceió, no dia 1º de fevereiro de 1912, por intolerância racial e religiosa em conflitos violentos. O quebra-quebra atingiu todos os terreiros da cidade, convertendo-se em um massacre que deixou marcas profundas na cultura local. O documentário foi contemplado no programa nacional de produção audiovisual DocTv em 2006. Veja mais aqui e aqui.

AGENDA – No próximo dia 18 de julho, às 19hs, no Julinho Clube, São Paulo, acontecerá o lançamento do livro de poesias Como suportar jabs no baço e encarar nocautes (Patuá, 2015), do poeta, compositor e agitador cultural Vlado Lima. Na ocasião ocorrerá o especial Influenza, com a presença de poetas e compositores do Clube Caiubi. O autor já lançou Pop para-choque (Patuá, 2012) e possui poderes intermináveis, mesmo nunca tendo indo à Bahia, não tendo terminado o catecismo nem a faculdade jornalismo, muito menos o curso de datilografia, torna-se especializado em fazer inimigos, contar piadas de caipira e falar da vida alheia. Além disso, odeia João Gilberto, não suporta filme iraniano e é autor da polêmica música euodeiocaetanoveloso.com.br. Pelo lado bom, ele produz o concorrido sarau Sopa de Letrinhas, gosta da bisteca do Sujinho, revistas do Aranha, Pernalonga, Clint Eastwood, Sabrina Sato, Smiths, Neil Young, Sérgio Sampaio, Leonard Cohen, Henry Miller, Bukowski, Hammett e Fante, muito viciado no sanduba de pernil do Estadão e tem saudades da Seleção de 82: Sócrates, Zico, Júnior e Falcão. Lembra? Veja detalhes aqui e mais aqui.

IMAGEM DO DIA
Imagem: Natureza morta, do pintor, desenhista, escultor, professor poeta Vicente do Rego Monteiro (1899-1970).

VAMOS APRUMAR A CONVERSA?
Imagem: ilustração de Luciano Tasso.
Aprume aqui.


Veja mais sobre:
O passado escreveu o presente; o futuro, agora, Sociolinguística de Dino Preti, o teatro de Bertolt Brecht, Nunca houve guerrilha em Palmares de Luiz Berto, a música de Adriana Hölszky, a escultura de Antonio Frilli, a arte de Thomas Rowlandson, a pintura de Dimitra Milan & Vera Donskaya-Khilko aqui.

E mais:
A liberdade de expressão, A filha de Agamenon de Ismail Kadaré, A natureza de Parmênides de Eléia, Poema sujo de Ferreira Gullar, O teatro essencial de Denise Stoklos, a música de Badi Assad, o cinema de Ingmar Bergman & Liv Ullmann, a escultura de Emilio Fiaschi, Programa Tataritaritatá, a pintura de Gustav Klint & Vera Donskaya-Khilko aqui.
O discurso do método de René Descartes, a música de João Bosco, o teatro de Denise Stoklos, o cinema de Ingmar Bergman, a pintura de Gustav Klimt, Sandra Regina, Bernadethe Ribeiro & Danny Calixto aqui.
Literatura de cordel: História do capitão do navio, de Silviano Pirauá de Lima aqui.
Preconceito, ó! Xô pra lá, Diários de viagem de Franz Kafka, A revolta de Atlas de Ayn Rand, A lua e o infinito de Giacomo Leopardi, a música de Leoš Janáček & Cheryl Barker, o cinema de Alessandro Blasetti & Sophia Loren, Maguerite Anzieu & Jacques Lacan: caso Aimée, a arte de Liliana Castro, a pintura de Helmut Breuninger & Hermann Fenner-Behmer aqui.
Os vexames dum curau no sul, O absurdo de Thomas Nagel, Voragem de Junichiro Tanizaki, Pretidão de amor de Emílio de Meneses, Mão na luva de Oduvaldo Vianna Filho, o cinema de Olivier Assayas & Maggie Cheung, a música de Rosalia de Souza, a pintura de Pierre-Auguste Renoir & Suzanne Frie aqui.
Quadrilha das paixões mais intensas, Vaqueiros & cantadores de Luís da Câmara Cascudo, Terra de Caruaru de José Condé, a música da Orquestra Armorial & Cussy de Almeida, A Setilha de Serrador, O casamento de Maria Feia de Rutinaldo Miranda Batista, a arte de Roberto Burle Marx. a xilogravura de Severino Borges, J. Miguel & Vermelho aqui.
Entre nós, vivo você, as gravuras de Lasar Segall, a música de Sivuca, Cartilha do cantador de Aleixo Leite Filho, Cancão de fogo de Jairo Lima, a poesia de Belarmino França, a arte de Luciah Lopez, a xilogravura de J. Borges & José Costa Leite aqui.
Dos bichos de todas as feras e mansas, Cantadores de Leonardo Mota, O Romance da Besta Fubana de Luiz Berto, O martelo alagoano de Manoel Chelé, a música do Duo Backer, a escultura de Antoni Gaudí, a militância de Brigitte Mohnhaupt, a arte de Natalia Fabia & a xilogravura de J. Borges aqui.
Quem desiste jamais saberá o gosto de qualquer vitória, A linguagem & as ciências de Roman Jakobson, Nos caminhos de Swan de Marcel Proust, a arte de Regina José Galindo, a fotografia de Thomas Karsten, a pintura de Henry Asencio, a música de Secos & Molhados & Luiza Possi aqui.
Tudo em mim, mestiço sou, O povo brasileiro de Darcy Ribeiro, A história da minha vida de Helen Keller, Anarquismo & ensaios de Emma Goldman, a escultura de Luiz Morrone, a fotografia de Pisco Del Gaiso, Os Fofos Encenam & Viviane Madu, a música de Guilhermina Suggia & a pintura de Martin Eder aqui.
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CRÔNICA DE AMOR POR ELA
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ANNE CARSON, FRANÇOISE VERGÈS, TAHMIMA ANAM & SETÍGONO

    Imagem: Pulsações caósmicas , da série Caosmose & O poema nasce do visinvisível - Acervo ArtLAM .   Em rota de colisão, a sorte...