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domingo, agosto 28, 2022

DENISE FERREIRA, ALÍCIA FERNÁNDEZ, MANUEL DE CASTRO & ANA LUIZA KOEHLER

 

Ao som do álbum Saudações a Egberto (Tuff Beats, 2016), da pianista, cantora, compositora e arranjadora Delia Fischer. Veja mais aqui e aqui.

 

TRÍPTICO DQP: - Hestorieta dantanho... - Nos olhos da primavera lá vinha ela das ondas do mar de Copacabana pro quintal da minha casa que não mais existe. Ali sua alma cigana inflava meus segredos e me embalava na dança dos meninos. Era tão levada e me puxava para subir pelos galhos e telhados, pular muros e valetas, desfilando inquieta a sua bunda-rica cheia de babados, o saiote ao vento e os olhos vivos, criancices rodopiantes. A gente já adolescia nos quartos e esquinas, peraltices medonhas e intermináveis. E, como tudo na vida, ouvi de Cesare Pavese: Todas as paixões passam e se apagam, exceto as mais antigas, aquelas da infância... Lá eu ia me esfacelando por rotas atravessadas, contando passos, acenos e paisagens; catalogava cenas inesquecíveis, outras nem tanto, errava na vida pelos devires e percorridos. Foi Mia Couto quem me deu conta: Quase tudo se adquire nesse tempo em que aprendemos o próprio sentimento do Tempo... É quando estamos disponíveis para nos surpreendermos, para nos deixarmos encantar... Lá ia tudo se esgarçando pelos dias e aquilo que eu jurava jamais esquecer. E não esqueci mesmo, o tempo passou e Manoel de Barros me dizia sorrindo: Sou hoje um caçador de achadouros da infância. Vou meio dementado e enxada às costas cavar no meu quintal vestígios dos meninos que fomos. A vida passava e eu ainda amanhecia.

 


Ainda a esperança...- A arte do artista de rua Thiago Mundano. – As tardes nublavam pelos umbrais e eu divisava os morros entre o falível e o perene, enquanto a ilustradorarquiteta Ana Luiza Koehler me dizia dos: ...tempos de distantes, mas que se assemelham muito ao nosso... Nisso aprendia que o tempo é uma bomba no espaço, lenta e letal, sem saber quanto sobra ou falta para capturar na existência. Muito menos entendia o que dizia Manuel de Castro: Em cada sendo a questão é corresponder, no e pelo agir, aso apelo de ser o sendo, não a partir do sendo enquanto sendo do sistema, mas do sendo enquanto sendo do ser. Apropriar-se é o concreto poético da realização sempre em processo, onde o Tempo é o Ser enquanto doação. Levei muito tempo para discernir enquanto sobrevivíamos a um holocausto cotidiano como quem não falava, não questionava, não brilhava, não era... Só o apocalipse cotidiano das crônicas da Mata Sul, onde a força bruta da ignorância esmagava a cidade que se calava na décima primeira hora do dia, um ermo pro final de semana. Exatamente quando o vizinho inventava de lubrificar suas dores de cotovelo virando a chave da ignição dos estridentes chifres com suas lamúrias exaltadas e o show de horrores era ouvi-lo se esgoelar imolando sua sofrência. Era um outro Brasil diferente de tudo que já foi escrito e estudado até agora, um Brasil que inexiste e nenhuma remissão, como dizia a filósofa Denise Ferreira da Silva: O conceito de justiça social se encaixa bem dentro do estado-nação. Mas o estado de segurança está agora firmemente estabelecido, com o único mandato de proteger a economia; é o “estado-corporação”, cujos papéis primordiais para o capital global são criar instrumentos jurídicos e estruturas e mecanismos que facilitem a extração, a expropriação e a exploração e protejam o interesse das empresas e de seus investidores. O que nós vamos fazer? Eu sequer sabia porque a zoada do vizinho era maior que minha sanidade e, depois do confinamento compulsório, só restava a reconexão pelas brechas: o lugar estranho à flor da frágil pele, a gigante fenda de um estado permanente e o sintoma do medo vivenciado. Esse armagedon trouxe do passado o presente de sempre. Era o fim derradeiro, parecia; e não se podia confiar em ninguém porque o vil e o cruel estava sempre à espreita, a terra devastada... Na lata do lixo eu sabia: tudo poderia reviver, um simples catador.

 


Perfume da noite... - A arte do artista visual estadunidense Anatol Woolf. – A quem se perdera o dia, quase fatigada noite assim se fizera porque a bacante seminua era ela Frau Troffea, solícita com o sangue superaquecido da ira sagrada dionisíaca de Estrasburgo, respirando na neblina a me embalar para o que viria da dança de Vatsyayana. Eu lhe recitei ao ouvido Não sei dançar de Bandeira e ela me contou da solidão do deus de Nietzsche. E me fez compenetrado para contar que há quinhentos anos escapara duma epidemia medieva e se safou porque se tornou na Dançarina de Izu de Kawabata, depois a ressurreta bailarina de João Cabral na dança de Amiri Baraka, e escapara fedendo da gripe espanhola na saga de La dansarina de Lilo Parra e Jefferson, até a sobrevivente Rosalyn Rincon que saiu da caixa mágica do Costa Concórdia para me surpreender a pele e a alma com o bálsamo da dança da filha entre Drummond e Degas. E me envolveu marinheiro num Pas de Deux sob o céu turvo de primeira viagem, desbussolado, quase à deriva para contar o devir de uma história que fosse só minha numa canção que ela exigiu compusesse ali mesmo, de voz própria pelas emoções propositivas e potentes que emanavam de sua candura sedutora, e nada mais restava porque a dança revelou o amor... E eu nem era mais... Até mais ver.

 


Aprender supõe... um sujeito que se historia. Historiar-se é quase sinônimo de aprender, pois, sem esse sujeito ativo e autor que significa mundo, significando-se nele, a aprendizagem irá converter-se na memória das máquinas, ou seja, em uma tentativa de cópia...

Trecho extraído da obra Os idiomas do aprendente: análise de modalidades ensinantes em família, escolas e meios de comunicação (Artmed, 2001), da psicopedagoga argentina Alícia Fernández (1946-2015), autora da obra La Inteligencia Atrapada (Nueva Vision, 1995). Veja mais Educação & Livroterapia aqui e aqui.



sexta-feira, novembro 13, 2020

DAMON GALGUT, ANNICK DE SOUZENELLE, SUSAN BROWNELL ANTHONY, MELANIE DIENER, ARNULF RAINER, REYNALDO FONSECA & TRANSIÇÃO LISTRADA

 

TRÍPTICO DQC: A CIDADE É SUA CASA – Vier letzte Lieder: September (As Quatro Últimas Canções, 1948), do compositor e maestro alemão Richard Strauss, em parceria com Hermann Hesse: O jardim está de luto. / A chuva cai fria sobre as flores. / O verão estremece em silêncio, / aguardando o seu fim. / Douradas, folha após folha caem / do alto pé de acácia. / O verão sorri, surpreso e lânguido, / no sonho moribundo do jardim. / Muito tempo ainda junto às rosas / ele se detém, aspirando ao repouso. / Lentamente ele fecha / seus olhos cansados. Interpretação da soprano operística alemã Melanie Diener, Konzert zum Neuen Jahr 2006 aus dem Festspielhaus Baden-Baden. SWR- Sinfonieorchester Baden-Baden und Freiburg. Leitender Dirigent Sylvain Cambreling. -- De um lado, o ascendente dado íngreme de casos com mortos e infectados pela pandemia; e de outro, o alvoroço eleitoral e do consumo, indiferente ao risco de contaminação. Além do mais, A praga do voto vendido grassa, o Voto Moral já escasso sucumbe aos fanatismos religiosos e às supremacias caprichosas dos estibados prepotentes. Diante da minha perplexidade, surgiu ao meu lado Susan Brownell Anthony: Quando um homem me diz: “Vamos trabalhar juntos na grande causa que você empreendeu, e deixe-me ser seu companheiro e auxiliar, pois a admiro mais do que jamais admirei qualquer outra mulher”, então direi: “Eu sou sinceramente”; mas ele deve me pedir para ser seu igual, não seu escravo. Eu oro a cada momento da minha vida; não de joelhos, mas com meu trabalho. Minha oração é para elevar as mulheres à igualdade com os homens. Trabalho e adoração são um comigo. A verdadeira república: os homens, os seus direitos e nada mais: as mulheres, os seus direitos e nada menos. Independência é felicidade. Mais diria não fosse sua indignação com um enfrentamento machista e homofóbico na esquina. Inacreditável como o desrespeito gratuito é tão comum às relações humanas, não se emendam. Eis que Michael Ende me surpreende: Pessoas sem esperança são fáceis de controlar. Há muitas coisas que não se aprendem só pensando, é preciso vivê-las. Ao seu lado Robert Musil asseverou: Não há nenhum pensamento importante que a burrice não saiba usar, ela é móvel para todos os lados e pode vestir todos os trajes da verdade. Fechando a roda, Robert Louis Stevenson pigarreou: Não peço riquezas nem esperanças, nem amor, nem um amigo que me compreenda. Tudo o que eu peço é um céu sobre mim e um caminho a meus pés. Diante do estranhamento dos demais com a sua fala, ele arrematou: A época mais obscura é hoje. A política é talvez a única profissão para a qual se pensa que não é precisa nenhuma preparação. Ah, tá. Realmente, entre o monstro e o médico, quem escapa se a multidão é sempre pelo cômodo atalho e, se possível, de mão beijada, iniciativa alguma que dê trabalho, ora. Ninguém leva em conta que a cidade é sua casa, a qualquer um a concessão de governá-la.

 


DA NOITE & O ESPETÁCULO DA VIDA - Imagem: Carimbagem – Base (2004), performance de Luana Veiga e Ticiano Monteiro no ateliê do grupo Transição Listrada. - Deixei os convidados soltarem suas tiradas e fui tomar ar no janelão. Percebi a chegada dela, ar enigmático e som do balanço do gelo no drinque à mão, olhar perdido no horizonte anoitecido. Reticente, ela citou Damon Galgut: No final você fica sempre mais atormentado pelo que não fez do que pelo que fez, ações já realizadas sempre podem ser racionalizadas com o tempo, o ato negligenciado pode ter mudado o mundo. Vi-a insegura, transpirando certo nervosismo contido. Tomou um gole e deu-me o copo, saiu sem se despedir. Tomei um gole e logo ela voltava e se despia, sentando-se no chão e começando a carimbá-lo. Era como se sentisse o corpo no ritmo da contagem aos lábios e bem baixinho... Cento e noventa e um, cento e noventa e dois, cento e noventa e três... Acompanhando o seu ritmo pelas paredes e teto, fui me despindo e me deitei na trilha que ela havia feito no assoalho, sem me mover. Ela e a contagem, uma a uma, até deixar o quarto repleto e carimbar-se por inteiro e depois por toda minha pele... Três mil setecentos e vinte e quatro... Percebi que estava exausta, mais de três horas na sua empreitada... Suava, cansada, recarimbando tudo, a ela e a mim, até deitar-se colada ao meu corpo, completamente extenuada.

 


TUDO É DELA - Imagem: arte do artista austríaco Arnulf Rainer. Ao som da Sonata Fantasy nº 2 Op 19, de Scriabin, com Valentina Lisitsa. – Abandonados ali por longo tempo, ela me disse que se sentia como o dia em que leu O simbolismo do corpo humano: da árvore da vida ao esquema corporal (Pensamento, 1984), da escritora francesa Annick de Souzenelle e mencionou um trecho: O verbo hebraico conhecer é aquele que Moisés empregava para se referir ao conhecimento que o homem faz da mulher. O conhecimento é um casamento, uma união entre o a ser conhecido e o conhecedor. O conhecimento é amor. Virou-se pro meu lado e me abraçou com um beijo profundamente ardente. Senti sua carne estremecer sobre a minha e comungamos o prazer de um ósculo transcendental que me completava, eletrizando todo o meu corpo. E depois ela rolou e já eu sobre ela acomodando-se para que eu a possuísse completamente a se ajeitar por inteiro em mim e eu nela, o prazer extremo. Alcançamos o ápice do orgasmo e a nos beijar insaciavelmente. Foi então que ela me disse: Sabia que eu amo essa nossa liberdade? Hum, hum! E recitou Manoel de Barros: Quem anda no trilho é trem de ferro. Sou água que corre entre pedras - liberdade caça jeito. Sou livre para o silêncio das formas e das cores. E nos beijamos para amar até que os dias e as noites se confundissem e nos dessem uma noção do que é a eternidade. Até mais ver.

 

REYNALDO FONSECA

Faço desenhos pequenos – mas na proporção – e, depois, levo para a tela.

A arte do muralista e ilustrador Reynaldo Fonseca (1925-2019), foi professor catedrático de desenho artístico na Escola de Belas Artes da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) e um dos fundadores da Sociedade de Arte Moderna do Recife (SAMR), associação que propunha a ruptura com o sistema acadêmico de ensino. Veja mais aqui e aqui.


 

 


sexta-feira, abril 12, 2019

MANOEL DE BARROS, KURT GÖDEL, ANGELINA SILVA, GHUGHA TÁVORA & O PUM DA BATATA


O PUM DA BATATA - Era uma vez um rapaz que se engraçou duma moça faceira. Trocaram olhares, passaram um pelo outro no meio do festeiro, sumiram e voltaram, até que um dia se encontraram e trocaram conversa para lá e para cá, se riram, se engraçaram e, depois de mais de nove horas, namoraram. Foi aquele amor. Beijos e abraços, ficou acertado domingo dele ir para a casa dela passar o dia, conhecer os pais, e assim se deu. Chegando lá, foi apresentado aos familiares dela, pais, irmãos e irmãs dela, mais de oito arrodeando a mesa farta no almoço. Chegou a hora, um peru assado à mesa, muita comida, pediram para ele destrinchar. Na horagá que passou a faca de banda, pum! Eita! Todos se riram, ele ficou encabulado. Aí o sogro disse: Aí, peidão, passa a coxa desse peru pra cá! Risadas. Ele todo chateado foi servindo uns e outras a cada pedido. Findaram de almoçar e a mangação corria solta, até chegar a hora de ir embora. Despediu-se e foi para casa todo borocochô e jurando: Nunca mais volto lá. Morava sozinho, sem pai nem mãe, um tio deu as caras e ele contou. Oxe, que é que é isso, meu filho, quer se vingar? Como? Vá lá no mato, arranque uma batata e bote enterrado do lado do batente, lá na casa deles, antes deles acordarem. Oxente? Depois cochichou no ouvido dele, ah, tá! Vá. Ele foi, arrancou a batata e plantou ainda de madrugada no batente da casa do sogro. Uma semana depois ele apareceu, era véspera de São João e iam fazer uma fogueira na frente de casa. O sogro ia saindo na porta, deu um espirro e atchim, poim! Eita! O que é isso? Poin. Ai, meu Deus? Prum. A sogra veio, toda se acabando de rir dele: Que é isso, homem? Poim. Eita, até tu véia? E ela: Eu não, pum!Aí, tais vendo? Tu também. E se riam e peidavam: Isso é contagioso! O irmão mais velho: Que é que tá havendo, hem? Poin! Vixe! A irmã encostada: Que fedor é esse, gente? Poim. Tu também? Ih! Pegou! Pronto, Zé, pum, Maria, poin, Zefinha, puf, Judite, prei, tudo peidando, que é que houve? O genro só olhando. Eles se dizendo: Pegamos um mal feio! A do meio veio: Bença, pai! Brum. Eita, esse veio danado! Fedor da peste! Pegamos a doença de Abinagildo, foi? Chama João! Pei. Oi, pai! Puf. Vai chamar o boticário, vai! Pif. O boticário quando viu: Tem jeito não, pof, eu tô me peidando todo agora também! Vamos buscar o doutor e ele: Vôte! Vrum! O que é isso? Poin. Lá em casa está todo mundo assim e o boticário também! Pei. Eu também agora, pof! Tem remédio pra isso não! Toin. Nessa hora o padre ia passando e poin! Danou-se! Até o padre? Valei-me, puf. É lá na casa deles, tuf, estão todos, poin, se peidando, poin, assim! Benzodeus. Vamos todos para lá, poin, vamos. O padre pegou a água benta, puf, benzeu-se e foram todos para a casa dos peidões, poin, poin. Rezas de joelhos a manhã toda, toin, orações de todo jeito tarde para noite, poin, e nada, pum, só poin, poin, poin. Aí o genro vendo tudo aquilo, falou: Eu tenho um remédio pra isso que é tiro e queda! Como? Pelamordedeus diga logo qual o xarope pra cura disso, vá! E tome poin, puf, pei! Pum! Entrem todos no quarto que eu vou resolver essa bronca agora. Ninguém aguenta não! Entrem! Vamos morrer enturidos! Vambora! Entraram e, conforme o tio havia cochichado no ouvido dele, foi no mato, pegou uma tora de pinhão, chegou lá, ficou dando uma pisa de pinhão em cada um, umas lapadas de volta e outra vez, pronto, tudo curado. Viva! Agora ninguém peida mais! Só depois do café da manhã, do almoço e da ceia. Ah, não! Ah, sim. Aí ele tornou-se o genro querido do sogro e muito agradado por todos, casou-se com a filha formosa que namorava e não se sabe, ao certo, se foram felizes para sempre ou não, mas que casaram, casaram. E peidaram muito daí por diante. Pum, poin. PS: recriação de narrativa de Cêça - Conceição de Oliveira Cavalcanti, de Arcoverde, recolhida de Contos Populares Brasileiros: Pernambuco (Massangana/Fundaj, 1994), organizada por Roberto Benjamim. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais abaixo & aqui.

DITOS & DESDITOS:
[...] Qualquer coisa em que você pode desenhar um círculo ao redor não pode ser explicada por si mesma sem se referir a algo fora do círculo – algo que você tem que assumir mas não pode provar. Eu estou mentindo. [...] É claro que hoje estamos longe de poder fundamentar a visão teológica de mundo cientificamente, mas acredito que já é possível apreender de maneira puramente racional (sem ter que recorrer a alguma religião ou crença) que a visão teológica de mundo é completamente compatível com todos os fatos conhecidos (inclusive as condições que reinam sobre a nossa Terra). O famoso matemático e filósofo Leibniz tentou demonstrar isto 250 anos atrás, e é isto que tentei fazer nas minhas últimas cartas. O que chamo de visão teológica de mundo é a ideia que o mundo e tudo que nele existe tem um significado e uma razão e na verdade um significado bom e inquestionável. Disto segue imediatamente que nossa existência terrestre, uma vez que ela tem um significado muito duvidoso, só pode ser o meio cujo objetivo é uma outra existência. A ideia que tudo no mundo tem um significado é, afinal, exatamente análoga à ideia que tudo tem uma causa, e é sobre esta que toda ciência está baseada. [...]
Trecho extraído da obra Collected Works (v. III, Oxford, 1995), do filósofo, matemático e lógico austríaco Kurt Gödel (1906-1978), criou a teoria da indecidibilidade lógica com os teoremas da incompletude, o primeiro deles, o da numeração, que assinala que qualquer sistema axiomático recursivo autoconsistente capaz de descrever a aritmética dos números naturais, há proposições naturais verdadeiras que não podem ser provadas a partir dos axiomas, codificando expressões formais como números naturais. O segundo teorema da incompletude, uma extensão do primeiro, mostra que tal sistema não pode demonstrar sua própria consistência.

A POESIA DE MANOEL DE BARROS
[...]
II
Desinventar objetos. O pente, por exemplo. Dar ao pente funções de não pentear. Até que ele fique à disposição de ser uma begônia. Ou uma gravanha. Usar algumas palavras que ainda não tenham idioma.
[...]
palavra que eu uso me inclui nela
[...]
Extraído de O livro das ignorãças (Civilização Brasileira, 1993), do poeta Manoel de Barros (1916-2014), livro este em que o autor desvenda os caminhos de sua criação poética, que em uma entrevista concedida à jornalista Martha Barros, do Correio Brasiliense (1990), expressou que:
Ao poeta penso que cabe a tarefa de arejar as palavras. E não deixar que morram de clichês. Pegar as mais espolegadas, as mais prostituídas pelos lugares-comuns e lhes dar novas sintaxes, novas companhias. Colocar, por exemplo, ao lado de uma palavra solene, um pedaço de esterco. O poeta precisa reaprender a errar a língua. Esse exercício poderá nos devolver a inocência da fala. Porque no assunto não há nada de novo. Tudo creio que já foi pensado e dito por tantos e tontos. Ou quase tudo. Ou quase tontos. De modo que não há novidades debaixo do Sol – e isso também já foi dito. Então, o que se pode fazer é dizer de outra forma. Se for para tirar gosto poético, é bom perverter a linguagem. Temos de molecar o idioma, os idiomas. O nosso paladar de ler anda com tédio. É preciso injetar nos verbos insanidades, para que eles transmitam aos nomes os seus delírios. Veja mais aqui, aqui e aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
A arte da artista visual portuguesa Angelina Silva
Veja mais aqui, aqui, aquiaqui.

A ARTE IMAGINAUTA DE GHUGHA TÁVORA
A arte do artista visual imaginauta, designer educacional e empreendedor socio-cultural Ghugha Távora em uma entrevista exclusiva. Confira aqui.
&
Outras histórias do Abinagildo Peidão aqui, aqui & aqui.


quinta-feira, agosto 02, 2018

MORAVIA, KRISHNAMURTI, MANOEL DE BARROS, BEATRICE BERRUT, ASCHER, ELISABETH SONREL & DOROTHEA TANNING


BEATRICE AMADA - Imagem: Portrait Béatrice Portinari, da pintora francesa Elisabeth Sonrel (1874-1953) - Ah. Beatrice bela menina-flor já mulher feita iniciática, minha remissão da vida, meu etéreo transcender. Ah formosa amada, tenho muito pra contar do que sucumbi nas entranhas dos nove círculos do inferno, todos os umbrais descobertos no vestíbulo da Ars Amatória de Virgilio, a me levar pra Caronte, no rio Aqueronte, não me permitir a travessia e a me dar por morto-vivo desperto ao lado das almas que escolheram a virtude, entre os pagãos e os que chegaram antes, todos no limbo sem esperança do céu e lá estava eu porque nunca professei fé alguma. Pra minha surpresa Homero me contou de Troia e Odisseia, e seguia adiante para ver os luxuriosos arderem na tempestade de vento. Entre eles, Francesca de Rimini me acenou sedutora, quase não a via direito porque Cérbero vigiava ruidoso o flagelo dos gulosos na chuva putrefata e os avarentos desfilavam com seus pesos e, no Pântano do Estige, os iracundos e os insolentes soberbos estavam na lama. Procurei inutilmente por ela que desaparecera, Virgilio me chama atenção para apanhar a boleia de Elagias, assim eu poderia chegar às muralhas de fogo de Dite, as punições e as culpas. Tudo me levava a você, amada Beatrice. Todos os meus caminhos em sua direção e os demônios impediam meu avanço, até que um enviado celeste desconhecido me abriu as portas da cidade e eu pude escapar da maldição de Medusa e das três Fúrias. Logo adiante estavam os hereges nos túmulos de fogo de Dite, os assassinos nos rios de fogo, as flechas dos centauros atingiam os violentos e cadelas ferozes e famintas perseguiam e devoravam os esbanjadores. Os violentos e os usurários estavam deitados sob a chuva de fogo, enquanto outros caminhavam em meio a tantos horrores. Ao sair da cidade um monstro alado me guiou para o fundo do precipício e o oitavo círculo para divisar os fossos e as pontes das torturas e dos pecados com três gigantes acorrentados e o frio dos traidores. Cheguei ao centro da Terra e não era ali que você estava, Beatrice. Precisava, então, voltar e subir guiado pelas estrelas – o Cruzeiro do Sul – apontarem para o Paraíso, onde não existia pecado porque era o sul do Equador, o purgatório, a única ilha, uma montanha circular onde expiavam os arrependidos do orgulho, da inveja, da ira, da preguiça, da avareza, da gula e da luxúria. Como sempre fui pródigo e não me arrependi, temi pelo pior ao me despedir de Virgílio, barrado na entrada. Seguia pra você, Beatrice, oh minha bela Portinari, até encontrá-la para me levar ao Lete e matar minha sede de séculos. Era o paraíso com seus sete céus móveis até o fixo e o segundo Cristalino, sem estrelas e feito de luz para encontrar a rosa branca poética com seu triângulo. Foi você quem me deu a luz e desapareceu. Alguém me acompanhava, não era mais você, Beatrice, alguém irreconhecível que me concedeu o terceiro céu, jamais soube quem era. Aí entoei os meus cem cantos e fui pelos nove degraus e as três hierarquias superpostas no pedestal do amor, para poder vê-la radiante aureolada com seus olhos de mar e riso de Sol, a me dar seus braços aos abraços e beijar-lhe os lábios dos prazeres zis, a tocar-lhe os seios de todas as bonanças e alisá-los com minhas mãos pedintes a percorrer sua pele macia de promessas e seduções, porque amei demais da conta e se errei à toa, foi na sua carne que me perdi e me encontrei para ser-me a Terra e a sucessão de círculos concêntricos, elípticos e constantes, enquanto abdicava dos guelfos e dos interesses dos rivais pelo poder, e fui por todas as esferas depois da batalha de Campaldino e o que me restava de prior banido pela depressão do Mar Morto, a quem devo a De Vulgari Eloquentia e a incompletude do Convivio, a De Monarchia, não mais Florença, só Ravenna de onde acompanhei a mecânica celeste no meio das lembranças de minhas alegorias, desde o tempo em que fui aprisionado por Gemma Donati e você ao banqueiro ogro. Refiz meus trinta e três cantos em terza rima aos tercetos para cantar a sua alma e proceder na sua emanação até encontrá-la nua pra minha infinita revelação. E depois de tudo, amada minha, foi no seu sexo que colhi a Vita Nuova e pude cantá-la paixão intensa de amante extremo e guardá-la em meus braços na acolhida do seu corpo de todas as miragens do amor maior, e beijá-la as faces nas torrentes do seu prazer, e despi-la ao meu afago para possui-la como a única amada do meu coração nas trilogias da minha divina comédia. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais abaixo & mais aqui e aqui.

RÁDIO TATARITARITATÁ:
Hoje na Rádio Tataritaritatá especial com a música da pianista suíça Beatrice Berrut: Après une lecture de Dante by Liszt, Chaconne in D-minor by Bach-Busoni, Totentanz by Liszt & Concert 26 by Mozart & muito mais nos mais de 2 milhões & 500 mil acessos ao blog & nos 35 Anos de Arte Cidadã. Para conferir é só ligar o som e curtir. Veja mais aqui.

PENSAMENTO DO DIA – [...] O mundo contemporâneo em globalização conhece transformações suficientemente profundas para que se possa qualifica-las de mutação societal. Mais precisamente, consideramos que o processo de modernização que deu nascimento aos tempos modernos é sucedido, e eles fazem emergir uma sociedade ainda mais moderna, quer dizer mais individualizada, mais racional, mais diferenciada, e mais capitalista. Trecho extraído da obra A sociedade hipermoderna (L’Aube, 2005), do urbanista François Ascher (1946-2009), que em uma entrevista ao Millénaire 3 (GrandLyon, 2002), assinalou que: [...] Face a essa incerteza, o planejamento urbano não pode mais ser linear e sequencial, mecanicista e balístico; ou seja, não pode mais pretender ser previsional, programático, sistemático, imperativo. Ele deve se construir sobre a base de uma racionalidade limitada em universo incerto. Para orientar, enquadrar, regular, gerir, o planejamento e mais genericamente o urbanismo [...] devem implementar instrumentos que admitam as flutuações, a criatividade, a incerteza, a contradição, a ambiguidade, a imprecisão. O urbanismo deve de alguma forma passar do “planejamento estratégico” à “gestão estratégica”. [...].

UMA LENDA DE KRISHNAMURTI – [...] há muitos anos, virtuoso anacoreta, grandemente venerado, de nome Timanak [...] contentava-se com um punhado de arroz branco e meia medida de ervilhas secas. Sua vida de expiação era pautada por extrema abstinência e desprendimento. Cobria a nudez do corpo magro apenas com uma tanga. Tinha, além disso, outra tanga que usava quando se via obrigado a lavar e purificar a primeira. [...] esse virtuoso eremita das duas tangas, ouviu, certa vez, contar que vivia em Dakka, a acidade dos cento e sete templos, o douto Sindagg Nagor, filósofo de renome, que conhecia a Verdade. – Vou procurar esse homem – refletiu o ermitão. [...] – Que desejas de mim, meu irmão? – indagou o sábio Sindagg Nagor, acolhendo bondoso o desnudo visitante. – Em que poderei servir-te? [...] Esmagado pela pompa, ofuscado pelo luxo que o rodeava, sentiu-se o eremita confuso e perturbado. Dominou-se e disse com não pequenino embaraço, tentando um sorriso irônico: - A fama do vosso incomparável saber chegou até a gruta obscura em que sempre vivi. Deliberei abandonar o meu refugio e vim até aqui, desejoso de ouvir os vossos ensinamentos. Sinto-me, porém, constrangido. Como permanecer no meio de tanta riqueza? [...] – Estás profundamente equivocado, meu irmão – tornou o sábio, sem a menor ostentação e com a maior naturalidade. – Os trajes que cobrem o corpo não medem o valor do homem. A mim, na verdade, não me interessa saber se tens duas, três, vintes ou duzentas tangas. Que adianta ao homem vestir-se de sedas e ter a alma nua de virtudes e de predicados? [...] Deambulavam sossegados entre as árvores, por pequeno caminho de bom piso, quando os surpreendeu estranho ruído. [...] Todo o vetusto palácio do eloquente Sindagg era presa das chamas. Colunas de fumo, levadas pelo vento, subiam negras para o céu, e o fogo, na faina destruidora, estorcia suas espirais vermelhas, devorando, como um chacal faminto, a pomposa residência. [...]. Ao presenciar o desespero do discípulo, o venerável Sindagg acudiu-o solicito e procurou erguê-lo do chão. Segurou-o pelo braço e proferiu com desusada energia: - Domina-te, meu irmão, domina-te! [...] Não te preocupes com o desastre. Errado procede aquele que se aflige e sofre diante do irremediável. Recebe com serenidade os decretos inapeláveis do Destino. O palácio que ali vês, presa das chamas, é meu; todas as riquezas – tapetes, alfaias, moveis e joias – que nele se achavam, eram de minha exclusiva propriedade. E, como vês, estou absolutamente calmo e indiferente; a perda de bens materiais não chega sequer a perturbar, de leve, a serenidade de meu espírito! A tais palavras retorquiu, com exasperação e sinistra rudeza, o guru de Hirkka: - Que me importa a mim o vosso palácio? Não me interessam tampouco as vossas alfaias ridículas e os vossos inúteis tapetes [...] – A minha tanga! – deplorou, entre soluços, o Santo, em novo assomo de ira. – A minha tanga sobressalente! Esqueci-me de trazê-la, hoje, quando saí a passeio. Perdi a minha tanga no incêndio! E desatou em pranto, batendo sem cessar, com a cabeça no chão. [...]. Lenda contada do filósofo, escritor e educador indiano Jiddu Krishnamurti (1895-1986). Veja mais aqui.

A CASA DE PRAIA DAS SEXTAS-FEIRAS - [...] você e eu fizemos amor durante a noite, não é? Aí você adormeceu; a mim, porém, o amor tornou-me nervosa, ainda mais porque você gozou logo, e eu não. De forma que saí do quarto toda nua, como estava, e fui debruçar-me no parapeito da varanda, curvando-me para o mar que não se via, pois não havia lua. Enquanto estava olhando, pareceu-me haver não muito longe de mim, entre um e outro daqueles arbustos em vaso que estão na varanda, como que a sombra reta e imóvel de alguém. Mas não havia lua, a noite estava muito escura e não entendi direito se era a sombra de uma pessoa ou a de uma daquelas arvorezinhas. Fiquei muito amedrontada, pensei que podia ser um ladrão; mas um ladrão não fica parado daquele jeito, então, quem poderia ser? De repente a sombra se moveu, levantou o braço, e acabei levando nas costas, justamente onde tenho agora a mancha, alguma coisa como uma chicoteada, com toda força. Era ele que tinha vindo durante a noite, exatamente como um ladrão, e aquilo que eu tomara por uma chicotada era o golpe curto e duro de um açoite. Pois é, um açoite, já o tinha visto na casa dele, brincava a respeito, dizia que o comprara para mim e que um dia desses deixaria que eu o experimentasse. Senti uma dor terrível, fiquei ereta, disse para ele, com voz baixa e intensa: Ficou louco? O que está fazendo aqui? Endoidou de vez? Como resposta, ele voltou a levantar o braço para dar-me mais uma chicotada e, então fugi, pulando da varanda sobre as dunas lá embaixo, com um pouco de medo, mas também, devo confessar, um pouco de brincadeira. Comecei a fugir nuazinha como estava, no escuro, de uma duna para outra, e ele atrás, alcançando-me de vez em quando com o seu açoite, mas ao acaso e nunca com tanta força como a primeira vez, quando estava parada, apoiando-me na balaustrada e ele tivera tempo de mirar. Eu fugia, devia ser engraçado, nua daquele jeito e perseguida por aquele louco de açoite na mão. Então, de repente, caí na gargalhada e percebi que, na verdade, era só uma brincadeira, uma entre tantas que fazíamos e comecei a correr diretamente para o mar, gritando: “Pegue-me, se for capaz”. De forma que entrei na água, que estava uma delícia, morna como durante o dia e, por algum tempo, continuei fugindo também no mar. Aí ele me agarrou por trás, e caímos juntos dentro d’água e então fizemos amor e foi a vez que, talvez, tenhamos feito melhor e senti novamente que ele me amava. [...] É verdade, esbofeteara-me, mas aqueles eram tapas de amor. Esta noite, ao contrário, eram tapas de ódio. Logo percebi, não beijei a mão dele, como das outras vezes. Rechacei-o, cheguei até a arranhá-lo. [...] talvez as chicotadas da noite anterior tivessem sido chicotadas de ódio. Talvez a história entre eles já estivesse acabada sem eles perceberem, e, na sua exploração dos territórios proibidos do amor, tivessem passado apesar de si mesmo para os do ódio. [...]. Conto extraído da obra A casa de praia das sextas-feiras e outros contos (Bertrand Brasil, 1993), do escritor e jornalista italiano Alberto Moravia (1907-1990). Veja mais aqui.

O LIVRO SOBRE NADA - É mais fácil fazer da tolice um regalo do que da sensatez. / Tudo que não invento é falso. / Há muitas maneiras sérias de não dizer nada, mas só a poesia é verdadeira. / Tem mais presença em mim o que me falta. / Melhor jeito que achei pra me conhecer foi fazendo o contrário. / Sou muito preparado de conflitos. / Não pode haver ausência de boca nas palavras: nenhuma fique desamparada do ser que a revelou. / O meu amanhecer vai ser de noite. / Melhor que nomear é aludir. Verso não precisa dar noção. / O que sustenta a encantação de um verso (além do ritmo) é o ilogismo. / Meu avesso é mais visível do que um poste. /Sábio é o que adivinha. / Para ter mais certezas tenho que me saber de imperfeições. / A inércia é meu ato principal. / Não saio de dentro de mim nem pra pescar. / Sabedoria pode ser que seja estar uma árvore. / Estilo é um modelo anormal de expressão: é estigma. / Peixe não tem honras nem horizontes. / Sempre que desejo contar alguma coisa, não faço nada; mas quando não desejo contar nada, faço poesia. / Eu queria ser lido pelas pedras. / As palavras me escondem sem cuidado. / Aonde eu não estou as palavras me acham. / Há histórias tão verdadeiras que às vezes parece que são inventadas. / Uma palavra abriu o roupão pra mim. Ela deseja que eu a seja. / A terapia literária consiste em desarrumar a linguagem a ponto que ela expresse nossos mais fundos desejos. / Quero a palavra que sirva na boca dos passarinhos. / Esta tarefa de cessar é que  puxa minhas frases para antes de mim. / Ateu é uma pessoa capaz de provar cientificamente que não é nada. Só se compara aos santos. Os santos querem ser os vermes de Deus. / Melhor para chegar a nada é descobrir a verdade. / O artista é erro da natureza. Beethoven foi um erro perfeito. / Por pudor sou impuro. / O branco me corrompe. / Não gosto de palavra acostumada. / A minha diferença é sempre menos. / Palavra poética tem que chegar ao grau de brinquedo para ser séria. / Não preciso do fim para chegar. / Do lugar onde estou já fui embora. Poema do poeta Manoel de Barros (1916-2014). Veja mais aqui e aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
A arte da pintora, escultora e escritora estadunidense Dorothea Tanning (1910-2012).
Veja mais aqui.

AGENDA
IV Encontro de Psicologia Escolar & Educacional de Alagoas & muito mais na Agenda aqui.
&
A DIVINA COMÉDIA DE DANTE
A divina comédia de Dante Alighieri aqui, aqui, aqui, aquiaqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aquiaqui, aqui e aqui.
&
A vida entre livros & leituras, Os ambulantes de Deus de Hermilo Borba Filho, a poesia de Fenelon Barreto, A urbanização brasileira de Milton Santos, A mulher de Gilberto Freyre, O amor hoje de Jurandir Freire Costa & A biblioteca de Roger Chartier aqui.
 

terça-feira, julho 25, 2017

MANOEL DE BARROS, TONINHO HORTA, BADI ASSAD, GIANNOTTI, MAX RICHTER, GROMAIRE & CHARLOTTE GAINSBOURG

RENASCER NA MANHÃ - Imagem: Intérieur au pot gris, do pintor francês Marcel Gromaire (1892-1971). - Um pé na frente, outro atrás. Um passo após outro, estradas que me perco trocando pernas riso solto olho ao longe. Ali, lá longe a barra da bonança enquanto chuva torrencial desmorona meu pranto por atoleiros, pântanos, desfigurando a fantasia, o futuro e tudo do que fui nem resta mais nada. Você não sabe como as coisas acontecem, apenas acontecem, reação de ação. De repente tudo muda, antes tarde ensolarada, noites de tempestades. Tantas vezes morri, renasci das cinzas, juntando restos, cacos, quase nem sobrevivi, dos pedaços histórias pra contar, coisas de doer, quando dói sai bonito, a dor emancipa. Fui pra longe de mim mesmo, quase nem me reconheci, terra que nasci, vida que plantei, frutos que caíram podres antes de amadurecer. Passei à toa, quanse nem senti o que sangrou, talhos que nem sei, feridas abertas escondidas. Quase nem sonho, o concreto bruto do asfalto entrou rasgando minha cabeça, arrebentando tudo, ideias, ideais, sonhos, quase viro viga parede sem reboco, desbocada, desbotada, piso que afundou, telhado que caiu e só pude ver o Sol sentir e renascer na manhã. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.

A UNIVERSIDADE DE GIANNOTTI
Foi-se o mundo de antigamente. A revolução tecnológica alterou por completo nossas relações com a natureza e com o outro. Vivemos mergulhados numa segunda natureza constituída de máquinas sábias, verdadeiros raciocínios ambulantes dos quais pegamos o começo e o fim. O protótipo da máquina moderna, o computador, não tem nada a ver com a ferramenta, que prolonga o gesto e poupa esforços; consiste na encarnação duma teoria, saber feito material volátil, que por si só a verifica e abre um espaço inédito que o conhecimento do indivíduo nunca poderia desenhar. O computador é um cientista coletivo posto à disposição do pesquisador ou da dona-de-casa. Por isso reúne, no seu pequeno intervalo, a teoria e a prática, sendo o exemplo mais extraordinário de como a ciência neste século se transformou numa força produtiva. Se, na verdade, pode ser objeto de consumo individual, jogo de salão moderno, é quando se integra numa fábrica ou numa instituição prestadora de serviços que cumpre seu destino social. Mas nem só de computador vive o homem moderno. O telefone, a televisão, o processador de palavras, o avião ultrarápido são peças de sistemas diante dos quais cada um se põe isoladamente, fascinado pela máquina como se ela fosse uma tela de cinema que, no escuro, abole o pensamento próprio. Nada mais próximo do que a voz que fala do outro lado da linha, ouvimo-la como se estivesse ao lado. Enquanto porém o outro visível foge de nosso arbítrio e resiste a nossos caprichos, a voz alheia no aparelho depende duma ligação desejada e está sempre à mercê daquela ira que bate um telefone na cara. Desse modo, a confissão mais íntima vive sob a ameaça dum corte abrupto, que empresta à individualidade contemporânea o caráter duma mônada sem janelas. A ilusão narcísica é contraparte da cientificação da natureza. [...] A Universidade é coisa perigosa em países subdesenvolvidos. Só o fato de possuir hoje mais de 1.600.000 estudantes dá uma idéia da revolução intelectual que haveria se a maioria deles fosse eficaz e inventiva. Daí a funcionalidade da infra-estrutura precária e da incompetência. [...] Não se trata de separar uma Universidade que o Estado organiza como uma comunidade de sábios, de outra que se identifique com uma empresa capitalista. Nem uma nem outra são viáveis em sua pureza. A questão crucial é saber como se vai controlar a relação da Universidade com a comunidade e quem vai desempenhar essa função. O departamento estatal isonômico pode converter-se num ninho de burocratas, aquele intimamente ligado ao Governo ou à empresa privada, num inferno competitivo. O primeiro perigo a evitar é que ambos se julguem a si mesmos. Só me parece sair do impasse se a Universidade aprofundar seu processo de democratização, obviamente evitando o assembleísmo dum lado, e a farsa parlamentar de outro. Criar um sistema efetivo e eficaz de representação, eis a tarefa mais urgente. [...] No imaginário das sociedades ocidentais reside o impulso para o conhecimento racional. Por isso, estamos mal acomodados neste conhecer que se resolve num fazer de conta de conhecimento. [...].
Trechos extraídos de A universidade e a crise (Novos Estudos, 1984), do filósofo e professor universitário José Arthur Giannotti.
Autor de A universidade em ritmo de barbárie (Brasiliense, 1986), entre outras obras.

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Palco da vida, A terceira mulher de Gilles Lipovetsky, Toda palavra de Viviane Mosé, A vida mística de Jesus de Harvey Spencer Lewis, a música de Andersen Viana, Roseli Rodrigues & Balé Teatro Guaíra, a pintura de Maria Szantho & Katia Kimieck, a arte de Maxime des Touches & Vavá Diehl aqui.

E mais:
O dia fora do tempo, Vida pra o consumo de Zygmunt Bauman, Salambô de Gustave Flaubert, Hino à beleza de Charles Baudelaire, Lisístrata de Aristófanes, a música de Jean-Philippe Rameau, Valeria Messalina, a arte de Alan Moore, a pintura de Anita Malfatti & Jaroslav Zamazal aqui.
Auto-de-fé de Elias Canetti, a música de Alfredo Casella & Celia Mara, Gestão de Pessoas, a arte de Paula Valéria de Andrade & Lou Albergária aqui.
O ser humano e seus papéis construtivos e não-construtivos aqui.
Errâncias da paixão aqui.
Dhammapada de Acharya Buddhrakkhita, Natureza humana de Abraham Maslow, Educação de José Carlos Libâneo, Responsabilidade civil da propriedade, a arte de Kristina Laurendi Haven aqui.
Cadê o padre Bidião?, História da criança e da família de Philippe Ariès, O sol também se levanta de Ernest Hemingway, Espelho convexo de Celina Ferreira, O teatro e o seu duplo de Antonin Artaud, a música de Catherine Malfitano & Mawaca, o cinema de pintura de Emil Orlik & Miles Mathis, Programa Tataritaritatá & muito mais aqui.
Entre as pinoias duns dias de antanho & a pintura de John La Farge aqui.
História sem fim. a pintura de William Holman Hunt & a arte de Max Ernst aqui.
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SABIÁ COM TREVAS DE MANOEL DE BARROS
Me abandonaram sobre as pedras infinitamente nu, 
e meu canto.
Meu canto reboja.
Não tem margens a palavra.
Sapo é nuvem neste invento.
Minha voz é úmida como restos de comida.
A hera veste meus princípios e meus óculos.
Só sei por emanações por aderência por incrustações.
O que sou de parede os caramujos sagram.
A uma pedrada de mim é o limbo.
Nos monturos do poema os urubus me farreiam.
Estrela é que é meu penacho!
Sou fuga para flauta e pedra doce.
A poesia me desbrava.
Com águas me alinhavo
.
Sabiá com trevas, poema extraído obra Arranjos para assobio (Companhia das Letras, 2016), do poeta Manoel de Barros (1916-2014). Veja mais aqui, aqui & aqui.

RÁDIO TATARITARITATÁ:
Hoje é dia de especiais com o compositor, arranjador, produtor musical e guitarrista Toninho Horta; a cantora, violonistak, compositora e percussionista Badi Assad; o compositor alemão Max Richter; e a cantora e atriz franco-inglesa Charlotte Gainsbourg. Para conferir é só ligar o som e curtir.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
A arte do pintor francês Marcel Gromaire (1892-1971).
Veja mais aqui.

HILDA HILST, HANNAH CRITCHLOW, DANIELLE STEEL & ONILDO ALMEIDA

  Imagem: Acervo ArtLAM .   Fábula hodierna ... - Dois irmãos uterinos, duas irmãs órfãs consanguíneas. Assim: Prometeu brechava fascín...