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domingo, agosto 28, 2022

DENISE FERREIRA, ALÍCIA FERNÁNDEZ, MANUEL DE CASTRO & ANA LUIZA KOEHLER

 

Ao som do álbum Saudações a Egberto (Tuff Beats, 2016), da pianista, cantora, compositora e arranjadora Delia Fischer. Veja mais aqui e aqui.

 

TRÍPTICO DQP: - Hestorieta dantanho... - Nos olhos da primavera lá vinha ela das ondas do mar de Copacabana pro quintal da minha casa que não mais existe. Ali sua alma cigana inflava meus segredos e me embalava na dança dos meninos. Era tão levada e me puxava para subir pelos galhos e telhados, pular muros e valetas, desfilando inquieta a sua bunda-rica cheia de babados, o saiote ao vento e os olhos vivos, criancices rodopiantes. A gente já adolescia nos quartos e esquinas, peraltices medonhas e intermináveis. E, como tudo na vida, ouvi de Cesare Pavese: Todas as paixões passam e se apagam, exceto as mais antigas, aquelas da infância... Lá eu ia me esfacelando por rotas atravessadas, contando passos, acenos e paisagens; catalogava cenas inesquecíveis, outras nem tanto, errava na vida pelos devires e percorridos. Foi Mia Couto quem me deu conta: Quase tudo se adquire nesse tempo em que aprendemos o próprio sentimento do Tempo... É quando estamos disponíveis para nos surpreendermos, para nos deixarmos encantar... Lá ia tudo se esgarçando pelos dias e aquilo que eu jurava jamais esquecer. E não esqueci mesmo, o tempo passou e Manoel de Barros me dizia sorrindo: Sou hoje um caçador de achadouros da infância. Vou meio dementado e enxada às costas cavar no meu quintal vestígios dos meninos que fomos. A vida passava e eu ainda amanhecia.

 


Ainda a esperança...- A arte do artista de rua Thiago Mundano. – As tardes nublavam pelos umbrais e eu divisava os morros entre o falível e o perene, enquanto a ilustradorarquiteta Ana Luiza Koehler me dizia dos: ...tempos de distantes, mas que se assemelham muito ao nosso... Nisso aprendia que o tempo é uma bomba no espaço, lenta e letal, sem saber quanto sobra ou falta para capturar na existência. Muito menos entendia o que dizia Manuel de Castro: Em cada sendo a questão é corresponder, no e pelo agir, aso apelo de ser o sendo, não a partir do sendo enquanto sendo do sistema, mas do sendo enquanto sendo do ser. Apropriar-se é o concreto poético da realização sempre em processo, onde o Tempo é o Ser enquanto doação. Levei muito tempo para discernir enquanto sobrevivíamos a um holocausto cotidiano como quem não falava, não questionava, não brilhava, não era... Só o apocalipse cotidiano das crônicas da Mata Sul, onde a força bruta da ignorância esmagava a cidade que se calava na décima primeira hora do dia, um ermo pro final de semana. Exatamente quando o vizinho inventava de lubrificar suas dores de cotovelo virando a chave da ignição dos estridentes chifres com suas lamúrias exaltadas e o show de horrores era ouvi-lo se esgoelar imolando sua sofrência. Era um outro Brasil diferente de tudo que já foi escrito e estudado até agora, um Brasil que inexiste e nenhuma remissão, como dizia a filósofa Denise Ferreira da Silva: O conceito de justiça social se encaixa bem dentro do estado-nação. Mas o estado de segurança está agora firmemente estabelecido, com o único mandato de proteger a economia; é o “estado-corporação”, cujos papéis primordiais para o capital global são criar instrumentos jurídicos e estruturas e mecanismos que facilitem a extração, a expropriação e a exploração e protejam o interesse das empresas e de seus investidores. O que nós vamos fazer? Eu sequer sabia porque a zoada do vizinho era maior que minha sanidade e, depois do confinamento compulsório, só restava a reconexão pelas brechas: o lugar estranho à flor da frágil pele, a gigante fenda de um estado permanente e o sintoma do medo vivenciado. Esse armagedon trouxe do passado o presente de sempre. Era o fim derradeiro, parecia; e não se podia confiar em ninguém porque o vil e o cruel estava sempre à espreita, a terra devastada... Na lata do lixo eu sabia: tudo poderia reviver, um simples catador.

 


Perfume da noite... - A arte do artista visual estadunidense Anatol Woolf. – A quem se perdera o dia, quase fatigada noite assim se fizera porque a bacante seminua era ela Frau Troffea, solícita com o sangue superaquecido da ira sagrada dionisíaca de Estrasburgo, respirando na neblina a me embalar para o que viria da dança de Vatsyayana. Eu lhe recitei ao ouvido Não sei dançar de Bandeira e ela me contou da solidão do deus de Nietzsche. E me fez compenetrado para contar que há quinhentos anos escapara duma epidemia medieva e se safou porque se tornou na Dançarina de Izu de Kawabata, depois a ressurreta bailarina de João Cabral na dança de Amiri Baraka, e escapara fedendo da gripe espanhola na saga de La dansarina de Lilo Parra e Jefferson, até a sobrevivente Rosalyn Rincon que saiu da caixa mágica do Costa Concórdia para me surpreender a pele e a alma com o bálsamo da dança da filha entre Drummond e Degas. E me envolveu marinheiro num Pas de Deux sob o céu turvo de primeira viagem, desbussolado, quase à deriva para contar o devir de uma história que fosse só minha numa canção que ela exigiu compusesse ali mesmo, de voz própria pelas emoções propositivas e potentes que emanavam de sua candura sedutora, e nada mais restava porque a dança revelou o amor... E eu nem era mais... Até mais ver.

 


Aprender supõe... um sujeito que se historia. Historiar-se é quase sinônimo de aprender, pois, sem esse sujeito ativo e autor que significa mundo, significando-se nele, a aprendizagem irá converter-se na memória das máquinas, ou seja, em uma tentativa de cópia...

Trecho extraído da obra Os idiomas do aprendente: análise de modalidades ensinantes em família, escolas e meios de comunicação (Artmed, 2001), da psicopedagoga argentina Alícia Fernández (1946-2015), autora da obra La Inteligencia Atrapada (Nueva Vision, 1995). Veja mais Educação & Livroterapia aqui e aqui.



sexta-feira, abril 27, 2018

PAVESE, THIAGO DE MELLO, THOREAU, KATHERINE CROCKER, EDUCAÇÃO, KIKO CONTINENTINO & KELLY BENEVIDES

UMA COISA & OUTRAS TANTAS – Imagem: a arte da atriz, bailarina e artista performática Katherine Crocker. - Sou como o rio que muda sem deixar de ser, desaguo lágrimas e suores, sangue represado, e reinvento a mim próprio e mais não sei o que será, qual confim. Por trás de cada ato um caleidoscópio e eu em cada cena perdida do que fui. Há o que fazer entre tantas estranhezas à beira das ruas, com minhas heresias a transpor obstáculos que ganham vida própria e me assombra a indiferença com as abstrações inalcançáveis dos que vivem no vórtice dos seus próprios umbigos, alheios a tudo. Não sabem e sou da mesma natureza daquele que nasce a passar pelo firmamento até mergulhar no horizonte dos meus astros desencontrados nos rumos de outra galáxia, em que as guelras se confundam com pulmões, peles, conchas e garras e, no final das contas, sumam dentro da noite dos meus porões. Às vezes me antecipo cansado e ferido pelos desígnios que bendigo ao me esquecer dos segredos – nem os tenho mais -, nas dores dos meus desvãos. Nada perdi porque nunca tive, voo vestido de palavras, quem sabe, um poema me salve a pele, a perder dos medos na madrugada a dormir janela aberta, inventando versos pra poesia que não fiz, na paz entre a água e o fogo. Eu rego a terra para ter o que desejo, como o sonho da mulher amada, esplêndida e serena, nua na varanda orvalhada no que sou de lua cheia, para que ela me estenda sua mão estrelada, com o viço de menina no sopro libertário e para que todos possam vê-la no que sou de prisioneiro a voar na imensidão do infinito. É ela quem chega quando longe de mim me encontro e proclamo o luzeiro na penugem dela e não há que não seja bom. É por isso que o amor me faz melhor: é dentro dela que o meu sonho se faz real, porque descobri o ouro invisível do seu coração. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.

RÁDIO TATARITARITATÁ:
Hoje na Rádio Tataritaritatá especial com a música do pianista, arranjador e compositor Kiko Continentino: Sambajazz trio, O pulo do gato & Casa da Música; da cantora e compositora Kelly Benevides: Ah se eu vou, Samba de Aruanda & Kukukaia com Cátia de França; & muito mais nos mais de 2 milhões de acessos ao blog & nos 35 Anos de Arte Cidadã. Para conferir é só ligar o som e curtir.

PENSAMENTO DO DIA – [...] A educação é, aliás, o exemplo dos mais evidentes, de necessidade de uma abordagem interdisciplinar, seja com objeto de conhecimento e de pesquisa, seja como espaço de intervenção social [...]. Trecho extraído de Subsídios para uma reflexão sobre novos caminhos da interdisciplinaridade (Cortez; 2000), do professor Antonio Joaquim Severino.

EDUCAÇÃO - [...] o que se chama comumente educação – o aprendizado de ofícios e profissões como fim de tornar o homem apto a ganhar a vida, a ambientar-se numa situação particular da vida – é servil. Como é vão tentar ensinar verdades para a mocidade ou para qualquer pessoa. Só podem aprendê-las a seu jeito e quando estiverem maduras para isso... Uma centena de jovens no colégio são instruídos em físicas, matemáticas, línguas, etc. Em cada centena, haverá talvez um ou dois, acaso amadurecidos prematuramente, que abordarão o assunto de um ponto de vista semelhante ao do professor; quanto ao resto, porém, e entre estes os mais promissores, é como ensinar química agrícola a outros tantos índios. Adquirem talvez um treino valioso, mas não aprendem o que se lhes ensina. No máximo aprendem onde se encontra o arsenal, caso precisem usar qualquer de suas armas. [...] O poeta diz que o estudo próprio à humanidade é o homem. Eu digo: estudai para esquecer tudo isso – ampliai vossas visões do universo. [...] Se passo por qualquer experiência valiosa, tenho a certeza de que pensarei que meus mentores nada dizem sobre ela. O que era mistério para a criança continua sendo mistério para o velho. Chega-se quase a duvidar se o mais sábios dos sábios chegou a aprender, vivendo, qualquer coisa de valor absoluto. [...]. Trecho extraído da obra O pensamento vivo de Thoreau (Martins, 1965), do ensaísta, poeta, naturalista, ativista anti-impostos, crítico, pesquisador, historiador, filósofo e transcendentalista norte-americano Henry David Thoreau (1817-1852). Veja mais aqui, aqui e aqui.

O BELO VERÃO - [...] Desde aquele dia a bela Carlotta não foi mais aos lugares desertos. Linda nos disse: - Fiquem sossegados. -  Assim, Pieretto perdia com as meninas e garantia que tinha vencido. Depois, descobria lugares e pessoas novas e mudava de assunto. Terminada a época dos banhos só tinha feito amizade com o dono de alguma taberna e com velhos aposentados. Lembrei-me, por muito tempo, daquela praiazinha escondida. No fundo, o mar assim tão grande e inapreensível não me dizia muita coisa; gostava de locais pequenos, que tinham uma forma e um sentido – enseadas, veredas, esplanadas, olivais. Algumas vezes, estendido sobre um encolho, observava uma lasca do tamanho da mão que, contra o céu, parecia uma enorme montanha. Essas coisas me agradam. [...] – E Carlotta, a linda Carlotta? Linda riu, com a boca escancarada. – Pieretto às vezes exagera. Em família somos todos assim. Também acontece comigo. Somos incríveis. Mas com os anos pioramos. Não a contradisse e a olhava de soslaio. Ela percebeu e me fez uma careta. – Não tenho mais os seus vinte anos – balbuciou -, mas não tenho muitos. – A gente nasce velho – disse eu -, não se torna. – Essa é uma daquelas de Pieretto – gritou Linda, daquelas autênticas. Eu também fiz uma careta. – Dizemos uma por dia – murmurei, e é suficiente. [...]. Trecho extraído da obra O belo verão (Brasiliense, 1987), do escritor italiano Cesare Pavese (1908-1950). Veja mais aqui e aqui.

O MENINO E O VENTO - Nesta manhã de domingo de verão, / sozinho na varanda desta casa / erguida aqui no meio da floresta / com a ajuda de caboclos meus irmãos / - percebo que o vento ainda não chegou, / estão imóveis as asas das palmeiras, / as flores mais altas dos cajueiros, / brilham paradas na luz alucinante. / O canto dos pássaros parece de cristal, /gume sonoro cortando / a espessura da manhã. / As suas asas estremecem, / abrem caminhos no espaço / à procura do vento macio / que dança o dia inteiro / com as palmas das inajazeiras, / inventa cantigas de acalanto / e nos dá aviso dos barcos que chegam. / O vento só costuma ir embora / quando começa a anoitecer. / Vai lá para o outro lado do rio, / passa a noite passeando / pelas águas do Andirá, / só volta de madrugada. / Geralmente chega bem devagarinho, / brincando com o verde do capim-agulha. / Mas tem vezes que ele chega correndo / varando a floresta no meio da noite / para avisar ofegante / que o temporal já vem que vem danando. / Para onde é que foi o vento?, / perguntei uma noitinha ao Marcote,, / o meu pequenino amigo, / frágil flor enferma / da fome de Barreirinha. / O vento foi descansar, ele hoje trabalhou já demais, / o vento foi dormir lá no Andirá, / ele gosta lá das águas / - me respondeu com os olhos brilhando na noite / o menino meu companheiro, / que num anoitecer chuvoso nos deixou / e também está demorando a voltar. / Como a luz esgarçada de um fim de primavera / á se foi Marcotte, todo entrevado, / mordido pelos nervos da injustiça, / subindo as águas barrentas do Paraná do Ramos, / a tristeza de uma brisa balançando / as varandas de sua rede encardida. / Naquele entardecer eu sei que o vento com quem ele conversava tanto, / não quis ir descansar lá no meio das águas, / preferiu seguir junto com o menino, até entregá-lo, na cidade grande / a ventos que ainda sopram solidários. / Nesta manhã de domingo de verão, / os meus olhos amendoados se entreabrem / numa sala de hospital de Ipanema, / onde lhe arrancaram do tórax / aberto com ciência e ternura / um tumor do tamanho de uma esperança apodrecida, / cujas raízes a ciência localiza / na altura cervical das vértebras / do caboclo menino. Na verdade, / estão fincadas na fundura escura / das lamas que afogaram a sua infância / num igapó de febre e indiferença. Extraído da obra Mormaço na floresta (Civilização Brasileira, 1981), do premiadíssimo poeta amazonense Thiago de Mello. Veja mais aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
A arte da atriz, bailarina e artista performática Katherine Crocker.
Veja mais aqui.


Dance no Lima – João Pessoa – PB & muito mais na Agenda aqui.
&
Varal da vida, o pensamento de Carlos Matus, a fotografia de Russel James, a pintura de Renato Donzell & Agnes-Cecile aqui.
O amor move seres e coisas, a literatura de Clarice Lispector, a escultura de Sue Adams, a arte de Gabriela Morawetz & Luciah Lopez aqui.


quarta-feira, dezembro 27, 2017

OUSPENSKY, PAVESE, ANTÔNIO CÍCERO, NÊUMANE, BÁRBARA EUGENIA, GIL COHEN, ALESSANDRA FAVETTO, TATÁ AEROPLANO & FREYA

QUANDO FREYARAVI É SÓ FREYA – É dia dela e do Vale do São Francisco eu voo para recebê-la em festa - ela aniversaria duas vezes por ano. E eis que surge deusa mãe das entranhas álgidas de Vanir, quando os deuses se reúnem para romper o acordo com o construtor das muralhas de Asgard. Vem ela da Völva para ser minha noiva na sua mágica aura glacial, feita de brisa tropical com a música na Völupsa da Edda poética. E em mim ela é a magia venerada pelo êxtase das sacerdotisas do Seiðr para as sagas das viagens espirituais nas mudanças dos tempos e de todas as coisas curadas e amaldiçoadas, que caçam suas lágrimas de deusa da riqueza transformadas em ouro na terra e âmbar no mar, quando é a beleza, a flor entre as flores, a fertilidade da vida para consagrar felinos, corvos e lobos para mim. Em mim ela é a guerra no seu carro puxado por linces para o pacto de Asgard entre os Aesir, é a morte ao receber de suas lideradas valquírias as almas de todas as mulheres no palácio de Fólkvangr, como também a metade das almas dos homens mortos em combate. Em mim ela é a sabedoria que me atrai com sua beleza voluptuosa e olhos vivos realçados pelo colar mágico de Brisingamen na expressão do Sol e os dias e as noites, e é o amor com toda sensualidade e luxuria entre o céu e a terra, a procurar por mim e encontrar-me cativo na sua exuberância divinizada, carregada de raios e trovões. E refém do seu encanto eu sou para retirar o bustiê e vendar meus olhos na surpresa da sua nudez mágica, e um filme revela as minhas encarnações passadas ao seu lado, passeando de mãos dadas pela Cordilheira dos Andes, o sexo selvagem na Barreira do Inferno, o Kama Sutra na muralha chinesa, o namoro agarradiço na ilha atlântica de Hy-Breazil, o abraço quente pra entrega setentrional no Ártico, a nudez na madrugada da Ilha Grande da Terra do Fogo, a despedida amorante no Salto das Sete Quedas dos gozos ubíquos na redondeza ensolarada do Taj Mahal, na relva do Kilimanjaro, no munumento de La Mano em Punta Del Este, no Jeju Loveland, e ela gritando todas as vezes para que eu não vá, até adormecer no feitiço de suas imprecações. Desperto com o hálito de primavera dos seus lábios rentes ao meu, sua língua aveludada por minhas faces, suas mãos estivais incendiando meu sexo, o toque macio dos seus dedos nórdicos esfregando-o à palma da sua mão reveladora e envolvê-lo com as estrelas do céu da sua boca, agasalhado por suas lambidas acasaladoras, a iluminá-lo com o prateado do seu sobejo e aprontá-lo para ser tomado pelo vulcão ventral de sua gula vaginal, na contagem regressiva pro lançamento do meu foguete singrando os seus sete céus inflamáveis para explodir o gozo dos seus zis orgamos e beijares feitos girândolas de fogos de artifícios, estrelas cadentes e galácticos sóis. E dela sou súdito e cultor, duas vezes por ano, para sempre. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aquiaqui.

RÁDIO TATARITARITATÁ:
Hoje na Rádio Tataritaritatá especial com a cantora e compositora Bárbara Eugenia: Frou frou & Jornal Bad; com o músico, compositor e andarilho urbano Tatá Aeroplano: Step Psicodélico; e da dupla Vida ventureira. Para conferir é só ligar o som e curtir.

PENSAMENTO DO DIAA voz do morto: Estava com Penélope, conheci Elsa, reencontrei Helena, abandonei Penélope, deixei Helena. E sinto saudade de Esmé. Respeito todas, valorizo todas, todas foram importantes para mim. Será por isso que dizem que não presto? Será? Se os mortos cantassem eu entoaria: “Eu não presto, mas eu te amo, eu não presto mas eu te amo”. Sim. E daí? O amor, ah, o amor! Amor. Quem o merece? [...]. Trecho extraído da obra O silêncio do delator (A Girafa, 2004), do jornalista e escritor José Nêumane Pinto.

LEI DOS TRÊS PRINCÍPIOS OU TRÊS FORÇAS – [...] todo fenômeno, em qualquer escala e em qualquer mundo que ocorra, do plano molecular ao plano cósmico, é o resultado da combinação ou encontro de três forças dirferentes ou opostas. O pensamento contemporâneo reconhece a existência de duas forças e a necessidade dessas duas forças para a produção de um fenômeno: força e resistência, magnetismo positivo e negativo, eletricidade positiva e negativa, células masculina e feminina e assim por diante. Ainda assim, não constata sempre nem em toda parte a exist~encia dessas duas forças. Quanto á terceira força, jamais se preocupou com ela ou, se lhe aconteceu um dia levantar tal questão, ninguém disso se apercebeu. [...]. Trechos da obra Fragmentos de um ensinamento desconhecido: em busca do milagroso (Pensamento, 1982), do filósofo e psicólogo russo Piotr Demianovitch Ouspensky (1878-1947). Veja mais aqui.

O BELO VERÃO - Naquele tempo tudo era festa. Bastava que saissemn de casa e atravessassem a rua para ficarem como loucas, e tudo era tão bonito, princpalmenet à noite, que, mesmo chegando mortas de cansaço, esperavam que alguma coisa acontecesse, que rebentasse um incêndio, que em casa nascesse uma criança, ou que de repente rompesse o dia e todo mundo saísse às ruas, e se pudesse continuar andando andanto até chegar aos campos, até chegar além das colinas. – Têm saúde, são jovens – diziam -, são moças, não têm preocupação, a gente entende. No entanto, uma delas, Tina, que saíra do hospital manca e que em casa não tinha o que comer, também ria por nada e, uma noite, correndo atas dos outros, parara e comçara a crhorar porque era uma besteira dormir, era como roubar tempo à alegria. [...]. Trechos da obra O belo verão (Brasiliense, 1987), do escritor italiano Cesare Pavese (1908-1950). Veja mais aqui.

QUATRO POEMAS DO GUARDAR  – Logrador: Você habita o próprio centro / de um coração que já foi meu. / Por dentro torço por que dentro / em pouco lá só more eu. / Livre de todos os negócos / e vícios que advém de amar / lá seja o centro de alguns ócios / que escolheirei por cultivar. / Para que os sócios vis do amor, / rancor, dor, ódio, solidão, / não mais consumam meu vigor, / amado e amor banir-se-ão / do centro rumo a um logrador / subúrbio desse coração. Simbiose: Sou seu poeta só / só em você descubro a poesia / que era minha já / mas eu não via. / Só eu sou seu poeta / só eu revelo a poesia sua / e à noite indiscreta / você de lua. Maresia: O meu amor me deixou / levou minha identidade / não sei mais bem onde estou / nem onde há realidade / Ah, se eu fosse marinheiro / era eu quem tinha partido / mas meu coração ligeiro / não se teria partido/ ou se partisse colava / com cola de maresia /eu amava e desamava / sem peso e com poesia / Ah, se eu fosse marinheiro / seria doce meu lar / não só o Rio de Janeiro / a imensidão e o mar / leste oeste norte sul / onde um homem se situa / quando o sol sobre o azul / ou quando no mar a lua / não buscaria conforto / nem juntaria dinheiro / um amor em cada porto / Ahhhhhh se eu fosse marinheiro.../ não pensaria em dinheiro / um amor em cada porto... / Ahhhhhh se eu fosse marinheiro... O país das maravilhas: Não se entra no país das maravilhas / pois ele fica do lado de fora, / não do lado de dentro. Se há saídas/ que dão nele, estão certamente à orla/ iridescente do meu pensamento,/ jamais no centro vago do meu eu./ E se me entrego às imagens do espelho/ ou da água, tendo no fundo o céu,/ não pensem que me apaixonei por mim./ Não: bom é ver-se no espaço diáfano/ do mundo, coisa entre coisas que há/ no lume do espelho, fora de si:/ peixe entre peixes, pássaro entre pássaros,/ um dia passo inteiro para lá. Poemas extraídos de Guardar (Record, 1997), do poeta, compositor, critico literário e filósofo Antônio Cícero. Veja mais aqui.

A ARTE DE GIL COHEN
A arte do desenhista, ilustrador, professor e pintor Gil Cohen.

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O amor de Freyaravi aqui, aqui, aqui & aqui.
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CRÔNICA DE AMOR POR ELA
A arte da fotógrafa, artista plástica e visual italiana Alessandra Favetto.
Veja mais aqui.

quarta-feira, janeiro 13, 2016

ENTREGA, VIVALDI, PAVESE, CALVINO, LEDO IVO, ADORNO, CHIQUINHA GONZAGA, MARIZE SARMENTO & MUITO MAIS!!!


CRÔNICA DE AMOR POR ELA: ENTREGA (Imagem: Arte/vídeo de Meimei Corrêa) - Dê-me a sua mão nessa rua que eu sigo errante sem bagagem para não ter que voltar pelas armadilhas da vida imediata. Sigo errando do mundo e de tudo na correnteza turbulenta dos meus dias, como um pequeno deus que teve que destruir o céu para poder viver, superando charcos e atoleiros pra renascer por mangues de céus primevos. Dê-me a sua mão porque sigo só na minha transitoriedade que dá à minha finitude o esplendor da eternidade, ninguém por perto e de olhos abertos vejo que todos passam sem aceno ou cortesia. Enquanto vêm, eu vou com meu eterno exílio, como se estivesse sempre do lado de fora, só e incomunicável com meu coração de pássaro que bate asas persistentes por terras estrangeiras, para romper com o dique da minha solidão onde o efêmero faz festa e sou pouco. Dê-me a sua mão porque vou consumido pelo fogo do amor, sobrevivendo às paisagens da destruição com seus escombros e com a dor asfixiada de ver-me quase morto com minhas cicatrizes abertas pelas pistas erradas que trafeguei por engano a vida inteira. Dê-me a sua mão porque nela a revelação do que me aguardam os dias de amanhã, porque em mim tudo é desordem na vagueza temerosa de cair no vazio, porque na boca do tempo eu devoro o espaço como se meus sonhos invernais estivessem aqui e agora entre os automóveis que passam, entre os prédios imóveis, entre o barulho da cidade indômita, entre a indiferença dos transeuntes. Dê-me a sua mão por que nela está a noção daquilo que distante jamais se aproximará e para que eu não mais tenha que me desiludir de nada, me trazendo o essencial na elucidação do mundo pela força do amor na minha vida anêmica com o silêncio das palavras. Dê-me as suas mãos e vamos porque o amor desde sempre vingará na vida pra reinar em nossos corações. (Luiz Alberto Machado. Veja a canção aqui e mais aquiaqui)

CONFIRA MAIS CRÔNICA DE AMOR POR ELA:











PICADINHO
 Imagem: Study of a standing female nude, do artista plástico inglês William Etty (1787-1849). Veja mais aqui

 Curtind: Vivaldi: The Four Seasons (Deutsche Grammophon, 1999), do compositor italiano no Barroco tardio Antonio Vivaldi (1679-1741), com a violinista Anne-Sophie Mutter, regência Riccardo Zandonai & Orchestra Trondheim Soloists. Veja mais aqui, aqui, aquiaqui.

EPÍGRAFE – Ter escrito algo que te deixa como um fuzil disparado, que ainda vibra e fumega, ter te esvaziado por inteiro de ti mesmo, pois não só descarregaste o que sabes de ti mesmo, como também do que suspeitas ou supões, bem como de teus estremecimentos, teus fantasmas, tua vida inconsciente, e tê-lo feito com fadiga e tensão sustentada, com cautela constante, tremores, descobrimentos repentinos e fracassos, tê-lo feito de modo que toda a vida se concentrasse nesse determinado ponto, e advertir que tudo isso é como se não existisse se não o acolhe e lhe dá calor um signo humano, uma palavra, uma presença; e morrer de frio, falar no deserto, estar sozinho, noite e dia, como um morto. Recolhido do escritor italiano Cesare Pavese (1908-1950), registrado no livro O escritor e seus fantasmas (Companhia das Letras, 2003), livro O escritor e seus fantasmas(Companhia das Letras, 2003), o escritor e artista plástico argentino Ernesto Sábato (1911-2011). Veja mais aqui e aqui.

MINIMA MORALIA – O livro Minima moralia (Edições 70, 2001), a mais famosa obra do filósofo, sociólogo, musicólogo e compositor alemão Theodor Adorno (1903-1969), traz reflexões acerca da atomização do individuo quando a delicadeza dá lugar às relações utilitárias, abordando sobre a mentira, a cólera, a adesão partidária, o genocídio, a alienação do homem, entre outros assuntos. Da obra destaco o trecho: [...] Peixe na água. - Desde que o amplo aparelho de distribuição da indústria altamente concentrada substitui a esfera da circulação, inicia esta uma estranha pós-existência. Enquanto para as profissões intermediárias se desvanece a base econômica, a vida privada de incontáveis pessoas transforma-se na dos agentes e intermediários, mais ainda, o âmbito do privado é totalmente engolido por uma misteriosa atividade que apresenta todos os rasgos da atividade comercial sem que nela haja, em rigor, algo para comercializar. Os angustiados, desde o desempregado até ao proeminente que, no instante seguinte, pode atrair a cólera daqueles cujo investimento ele representa, crêem que só pela empatia, pela dedicação, pela disponibilidade, graças a truques e à perfídia do poder executivo, olhado como onipresente, se podem fazer recomendar pelas suas qualidades de comerciantes, e depressa deixa de haver relação alguma que não tenha posto a sua mira em relações, e impulso algum que não se tenha submetido a uma censura prévia, não vá ele desviar-se do aceite. O conceito das relações, uma categoria da mediação e da circulação, nunca deu bons resultados na genuína esfera da circulação, no mercado, mas em hierarquias fechadas, monopolistas. A sociedade inteira torna-se assim hierárquica, as relações turvas infiltram-se onde quer que exista ainda a aparência de liberdade. A irracionalidade do sistema dificilmente se expressa melhor no destino económico do indivíduo do que na sua psicologia parasitária. [...]. Veja mais aqui e aqui.

O PASSADO – No livro Se um viajante numa noite de inverno (Companhia das Letras, 1999), do escritor italiano Ítalo Calvino (1923-1985), destaco o trecho: [...] O passado é como uma tênia, cada vez mais longa, que carrego enrolada dentro de mim e que não perde seus anéis, por mais que eu me esforce para esvaziar as tripas em todos os banheiros, à inglesa e à turca, nas fedorentas privadas das prisões, nos penicos dos hospitais, nas latrinas dos acampamentos ou, simplemente, nas moitas, olhando bem para que dali não salte uma cobra, como ocorreu certa vez na Venezuela. Não é possível trocar o passado, como não é possível trocar de noite, pois, por mais passaportes que eu tenha conseguido, com nomes dos quais nem sequer me recordo, todo mundo sempre me chamou Ruedi, o Suiço: aonde quer que eu fosse, como quer que me apresentasse, havia sempre alguém que sabia quem eu era e o que fizera, mesmo com as mudanças de aparência trazidas pelo decorrer dos anos, especialmente desde que meu crânio se tornou calvo e amarelo com um grape-fruit – isso aconteceu na epidemia de tifo a bordo do Stjärna, quando, em função do carregamento que levávamos, não podíamos nos aproximar da costa nem tampouco pedir socorro pelo rádio. A conclusão a quem todas essas histórias é que a vida de toda pessoa é única, uniforme e compacta como um cobertor enfeltrado cujos fios não podem ser separados [...]. Veja mais aqui, aqui, aqui e aqui.

SONETO DA INICIAÇÃO – Recolho do livro Cântico (José Olympio, 1949), do premiadíssimo escritor e ensaísta alagoano Ledo Ivo (1924-2012), o seu Soneto da iniciação: Para este instante, trazes o clamor / natural com que o corpo enfim desperta. / Em grito e pranto e lágrimas e dor / és cristal, e eu clarão que te penetra. / De tua solidão emerge o amor / em clara e silenciosa descoberta / e sem usar as mãos eu colho a flor / que me lembra uma concha meio aberta. / Chorando de alegria, eu me aprofundo / no amplo rio nupcial de tuas pernas / como se houvesse descoberto o mundo. / Sem pecado e sem morte, que existamos / e nossas vidas sejam sempre eternas. / Sendo mortais, a isto é que aspiramos. Veja mais aqui, aqui e aqui.

Ó ABRE ALAS – Tive oportunidade de assistir em 1999, no Teatro Alfa Real, em São Paulo, à peça teatral Ó abre alas, da dramaturga luso-brasileira Maria Adelaide Amaral, uma adaptação do livro de Edinha Diniz durante as homenagens do sesquicentenário da compositora e maestrina Chiquinha Gonzaga (1847-1935), com destaque para a atuação da atriz de teatro, cinema e televisão Rosamaria Murtinho. Simplesmente espetacular, digno de aplausos de pé. Veja mais aqui, aqui e aqui.

ROCCO E SEUS IRMÃOS – O drama Rocco e Seus Irmãos (Rocco i suoi fratelli, 1960), dirigido pelo cineasta italiano Luchino Visconti (106-1976) e trilha sonora de Nino Rota, é baseado em episódio do romance Il ponte della Ghisolfa, de Giovanni Testori, narrando a história de dois irmãos que são filhos de uma viúva e que mudam de cidade, um deles se tornando boxeador e se envolvendo com uma prostituta. Esse belíssimo filme conta com o destaque da atriz francesa de cinema e teatro Annie Girardot (1931-2011). Veja mais aqui e aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
A arte do multifacetado artista plástico e português Julião Sarmento.
Veja mais aqui.

DEDICATÓRIA
A edição de hoje é dedicada à contadora de histórias Marize Sarmento & Grupo Carochinha – Maceió.

TODO DIA É DIA DA MULHER
Veja as homenageadas aqui.


HILDA HILST, HANNAH CRITCHLOW, DANIELLE STEEL & ONILDO ALMEIDA

  Imagem: Acervo ArtLAM .   Fábula hodierna ... - Dois irmãos uterinos, duas irmãs órfãs consanguíneas. Assim: Prometeu brechava fascín...