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segunda-feira, julho 04, 2016

MARSHALL BERMAN, JOBIM & MAUCHA ADNET, ADOLFO CASAIS, MARCOS NOVAK, ALYSSA MONKS, ADRIANA GARAMBONE, BRITENBUCHER & LUCIAH LOPEZ


UMA COISA QUANDO OUTRA – O mundo vai e eu voo no agora, aqui, retendo esse momento de estar plenamente vivo, segurando o segundo, explorando-o e sabedor de mim em tudo. Eu vivo. E basta o segundo se esvair para novo surgir e eu catar a nova experiência. Uma nova revelação do que eu já sei das feridas narcísicas e crenças erodidas que promovem a desordem do que foi, do que é e do que será. E me lanço pelo buraco negro da existência, pelos espaços intersticiais que deslizam e dilatam os limites e me escancaram o horizonte das cercanias e vivências, e que me faz explorar todos os sentidos daqui, dali e dacolá. Voo pelo mar entre territórios e crio esferas – “viver é criar esferas!” -, e não busco apenas o conforto protetor da caverna original, não, não, sei do peso da aparência e a leveza do real nessa míope globalização, da qual apenas sobram a penumbra e a névoa, poeiras e espumas de pequenos espelhos que me confundem com suas reviravoltas do que era e não é mais, no instável das aparições fugidias que me fazem perambulante entre os desafios de agora e as escolhas decisivas. E por mais que tente ordenar a tudo, sempre haverá quem arrombe tudo no final da fila e processe a desconstrução, a desmontagem permanente que exige ordem para a desorganização e vice-versa na vigilância constante e o esforço perpétuo pela cambiante expressão do instante e seu maleável momento, as múltiplas faces, rizomas e platôs com a fluidez excessiva do fugaz que já se foi e escorre pelos dedos e se move além das mãos e fluem por todos os lugares que fui e não vou vazando as limitações e inundando o que nem prevejo, sei que contornam obstáculos e os dissilvem, invadem até dá de cara com as estruturas derretidas pela constatação de que tudo que é sólido se dissolveu no ar e provocou a profanação do sagrado e a sacralização do profano no eterno devir. Quem se preocupa em gastar o tempo, uns com entretenimento – prazeres de cinzas só pra ver que o ponteiro deslocou de um segundo e após outro deu na impaciência de quase chegar no minuto que vai virar hora, enfim, dias, meses, anos, sem perceber parece que foi ontem e já se passaram tantos anos de mera visualização, mera -, jogos e ardis, trapaças – sem mesmo saber a quem mesmo está enganando -, contar e recontar dinheiros e posses, reviver memórias e momentos inevitáveis e decepcionantes pra desconforto, ah quantas ocasiões desagradáveis superpondo aos quase apagados momentos felizes, ah, momentos felizes que foram e já nem são mais o que eram. O que será mesmo que as pessoas têm a oferecer, hem? Afinal de contas só restam as situações vividas, comiserações, estranhices bizarras, coisas de cada qual. Melhor nem pensar o passado que insistentemente ronda e desagrada. Onde o desconhecido? Nada, é ora lá de temeroso o que não se tem conhecimento. Abrir portas pode dar trabalho pra fechá-las. E quem não só quer a placidez etérea diante da guerra do cotidiano e logo depois de se encontrar em pleno campo inspirador não dá de cara com a chatura do tédio. Ora, bolas. O eterno confronto entre o labor e o ócio, a corda bamba. Mil coisas pra fazer, vigilância até do relaxamento, quem sabe. Deus me livre de piripaque, vai que num desse eu vou. Melhor sair lá e cá, acolá, entre a torcida das multidões e o retiro no solitário no topo da montanha. Só dá janelas pro vento frio de inverno, clausura de atmosferas viciadas, carregadas de mofo, roupas sujas, catingas de lixo. Isso sou eu e nada mais: monturo de vazios, utensílios empoeirados, teias nos recantos do teto, ou suspenso pela farra de luzes, zoadas e baforadas: o estardalhaço das badaladas onde ninguém é de ninguém e ninguém na coletividade, jogos de luzes de todos os matizes, holofotes, sinalizações de neon e o vento perigoso porta adentro com o alerta e o temor dos inimigos invisíveis e contagiosos: germes, vírus, intenções, reengenharias genéticas e o que não sei se existe e que, com certeza e todas as dúvidas, temores e suspeitas, existe, provocando infecções, pandemias, alerta geral, a contaminação das águas e comidas. Vîte! Onde isso vai dar? Sei lá, sei que tudo vai e vem, já foi e será, a ponto de me questionar qual alimento além do próprio excremento e qual água beber senão a própria com a crise de potabilidade, e o abrigo diante do nomadismo de chegadas, o desabrigo, idas e vindas da necessária migração de tempos e distâncias a percorrer, opções de caminhos além da palma da mão e roupas além da pele e do elétrico do pensamento à ponta dos dedos pra despir-se das vestes e ideias – assim como o lixo, é preciso reciclar ideias, reutilizá-las – e, afinal, surfar na onda e tobogã da noite e nos diálogos que compõem o diário de bordo e que me fazem um pacote de água gotejante e terei mesmo de beber a minha própria água. Nossa, pra onde vou é onde estou, já fui e ainda estou aqui. Apenas solilóquio, tomara diálogos. Todos pra vida e viver. E viva a vida, mesmo que não se saiba como, é a vida. E vida é vida. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais  aqui.

 Imagem: Scab, da artista plástica figurativa Alyssa Monks.

Curtindo os álbuns The Jobim Songbook (2006) & Milagre - Duo Maucha Adnet & Helio Alves (2013), da cantora Maucha Adnet.

PESQUISA
Tudo o que era sólido se desmancha no ar, tudo o que era sagrado é profanado, e as pessoas são finalmente forçadas a encarar com serenidade sua posição social e suas relações recíprocas. Trecho da obra Tudo que é sólido desmancha no ar: a aventura da modernidade (Companhia das Letras, 1986), filósofo e escritor estadunidense Marshall Berman (1940-2013), que se configura por ser uma história crítica da modernidade, analisando criticamente vários autores, desde O Fausto de Goethe & a tragédia do desenvolvimento, Marx & Modernismo e Modernização, Baudelaire: o Modernismo nas Ruas, Petersburgo: O Modernismo do Subdesenvolvimento, A Década de 1860 — O Novo Homem na Rua e as duas tendências do Modernismo nas ruas, . Na Floresta dos Símbolos: Algumas Notas sobre o Modernismo em Nova Iorque, entre outros assuntos.

LEITURA
A poesia não é voz – é uma inflexão. Dizer, diz tudo a prosa. No verso nada se acrescente a nada, somente um jeito impalpável dá figura ao sonho de cada um, expectativa das formas por achar. No verso nasce à palavra uma verdade que não acha entre os escombros da prosa o seu caminho. E aos homens um sentido que não há nos gestos nem nas coisas: vôo sem pássaro dentro.
Poema Aurora, extraído da obra Poesias Completas (Portugália, 1969), do poeta, ensaísta, crítico literário e professor universitário português Adolfo Casais Monteiro (1908-1972). Veja mais aqui e aqui.

PENSAMENTO DO DIA:
[...] a transição do espaço real ao ciberespaço, da prosa à poesia, da realidade à ficção, do estático ao dinâmico, do passivo ao ativo, do fixo em todas as suas formas ao fluido em sua face sempre cambiante, é entendida da melhor maneira quando se analisa a atividade humana que combina ciência e arte, o mundano e o espiritual, o contingente e o permanente: a arquitetura. [...] pode ser visto como umenorme laboratório virtual para a continua produção de novas visões arquitetônicas. [...].
Trecho da obra Arquitetcturas liquidas em el ciberespacio (1991), do artista multimídia e transarquiteto Marcos Novak.

IMAGEM DO DIA: LUALMALUZ – SEMANA LUCIAH LOPEZ 
Destino embriagada no prazer da tua boca ante o espectro da dor a crucificar-me, alma e corpo vislumbro a claridade e o fulgor avermelhado que antecede o gozo. Renovando é o sangue e o corpo minando água para tua sede ___ah, essa tua boca tão primitiva tão despudorada a percorrer minha entranhas numa libertinagem que não requer o perdão e nos impede o paraíso dos puros. Eis o crepúsculo do corpo____ desvanecendo em resplendor os contornos da vida enclausurada.
Destino, poema/imagem/foto da escritora, artista visual e blogueira Luciah Lopez. Veja mais aqui.

Veja mais sobre Afélio da Terra, Pierre-Auguste Renoir, Rosalia de Souza, Thomas Nagel, Junichiro Tanizaki, Emílio de Meneses, Oduvaldo Vianna Filho, Olivier Assayas, Maggie Cheung & Suzanne Frie aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
Todo dia é dia da atriz, dançarina e cantora Adriana Garambone.
Veja mais aqui, aqui e aqui.

CANTARAU: VAMOS APRUMAR A CONVERSA
Peace On Earth, by Renie Britenbucher.
Recital Musical Tataritaritatá - Fanpage.
Veja aqui e aqui.



domingo, julho 05, 2015

MIA COUTO, PORTINARI, HERÁCLITO, BACH, CASAIS MONTEIRO, LUIS ABREU, REGO MONTEIRO, TASSO, CANTARAU & QUEBRA DE XANGÔ.


VAMOS APRUMAR A CONVERSA? CANTARAU TATARITARITATÁ – Tudo começou lá por meados dos anos 1980, quando pintou uma linha melódica na ideia que dava num xote cabendo a palavra Tataritaritatá. A harmonia foi saindo com a melodia solfejada até que, mais ou menos encaminhada, fui trabalhar na letra. Empancou e não saía nada que prestasse. Fiquei por meses batucando na mente e nada, até que desisti e parti pro meu show Por um novo dia que entrou em cartaz em 1986. Os anos se passaram e entre, um show e outro, novas composições foram aparecendo, até que em 2008, mais de vinte anos depois, resolvi fazer uma martelada. Pintou a ideia de fazer um martelo agalopado, desconfiando eu que jamais teria topete para tal. Saiu, virou folheto de cordel e nasceu o cantarau – um misto de cantoria e sarau -, em que eu violava meus versos de cantautor, ora recitando, ora cantarolando. Depois da tentativa de letrar a Música das Nuvens e do Chão, do Hermeto Pascoal – com o título de Cantador e que por sinal, segundo me falou o meu amigo Santanna O Cantador, a música possuía mais de umas duas centenas de letras de gente de peso e que nunca foram autorizadas pelo autor -, resolvi fazer um xote com a minha profissão de fé. Por causa disso, pintou Desnorteio, o que me levou a organizar um repertório que deu no cantarau que apresentei com banda e tudo no Palco Aberto, em 2010, depois na Artnor e no Sopa de Letrinhas do Caiubi, em São Paulo, ambos em 2011, entre outros cometidos por aí. Após essas apresentações, saí pelos palcos da vida cantautorando meus versos e tons pelo Brasil afora, sempre chamando na grande com o mote vamos aprumar a conversa. Veja mais aqui, aqui e aqui.

Imagem: Mulher e Criança (1936), do artista plástico Candido Portinari (1903-1962). Veja mais aqui, aqui e aqui.

Curtindo Bach: Goldberg Variations BWV 988 (BC L9) for keyboard Clavier-Übung IV, Chromatic Fantasia & Fugue BWV 903 - Ecole de Musique Ancienne em Saint-Leu-la-Forêt; Italian Concerto, (Gramophone, 1936/RCA 1945, 1999), do compositor alemão Johann Sebastian Bach (1685-1750), com a musicóloga polonesa Wanda Landowska (1879-1959).

PROGRAMA BRINCARTE DO NITOLINO – Neste domingo, a partir das 10hs, haverá mais uma edição do programa Brincarte do Nitolino, no blog do Projeto MCLAM. Na programação comandada pela Ísis Corrêa Naves muitas atrações: a própria Isis declamando o poema Passarinho passarinho de Manoel Bentevi, Chico Buarque, Renato Braz, Quintal da Cultura, Fábulas de La Fontaine, Luiz Gonzaga, Nitolino, Originais do samba, Meimei Corrêa, Turma da Mônica, Sítio do Pica Pau Amarelo, Patati e Patatá & muita música, muita poesia, histórias e brincadeiras pra garotada. Para conferir ao vivo e online clique aqui ou aqui.

DA NATUREZA: O VIR-A-SER CONTÍNUO – Em sua História da Filosofia, Umberto Padovani e Luís Castagnola (Melhoramentos, 1978), assinalam que com Heráclito de Êfeso – que viveu entre o Vi e V século, solitário desdenhoso e desprezador da azáfama vulgar, de caráter altivo, misantrópico e melancólico, desprezando a plebe e recusando-se a intervir na política, contra a religião, os poetas e filósofos do seu tempo -, a filosofia afirma-se com a sua exposição do sistema introduzido na obra Da Natureza – escrito em prosa, no dialeto jônico e no qual recebeu o cognome de Skoteinós, o Obscuro -, cuja doutrina tem por princípio a essência, o elemento primordial, é o vir-a-ser, vez que tudo se acha em perpetuo fluxo, a realidade está sujeita a um vir-a-ser contínuo, sendo o único princípio estável da realidade a lei universal do próprio devir concretizado no fogo (racional) e que esse vir-a-ser é antítese, luta, revezando-se entre vida e morte: a luta é regra do mundo e a guerra é a geradora e a dominadora de todas as coisas e que este e esta oposição são reconduzidos à estabilidade e à unidade pela harmonia, pela sabedoria universal, que determinam o acordo entre as oposições. Ele é considerado o mais eminente pensador pré-socrático, por formular com vigor o problema da unidade permanente do ser diante da pluralidade e mutabilidade das coisas particulares e transitórias, estabelecendo a existência de uma lei universal e fixa (o Lógos), regedor de todos os acontecimentos particulares e fundamento da harmonia universal, harmonia feita de tensões, “como a do arco e da lira”. Da sua obra tem-se esse fragmento: Todos os homens da Terra mantém-se alheio à verdade e à justiça, ao mesmo tempo que, por sua pecaminosa insensatez, devotam-se à avareza e a sede de popularidade. Eu, porém, estranho a toda corrupção, esquivando-me à saciação geral que está intimamente associada à inveja, e porque tenho horror ao esplendor, não poderia ir à Persia, contentando-me com pouco, segundo a minha própria opinião. Veja mais aqui e aqui.

A ESTRADA MORTA – O premiado romance Terra sonâmbula (1992 – Editorial Caminho, 2004), do escritor e biólogo moçambicano Mia Couto, conta a história de um menino no meio dos conflitos sangrentos depois da guerra anticolonial (1965-1975) com extensão entre os anos de 1976-92, que presencia o incêndio de um ônibus e encontra a únabriga dos cadernos de Kindzu, um longo diário de um dos mortos no acidente. Da obra destaco o trecho inicial: Naquele lugar, a guerra tinha morto a estrada. Pelos caminhos só as hienas se arrastavam, focinhando entre cinzas e poeiras. A paisagem se mestiçara de tristezas nunca vistas, em cores que se pegavam à boca. Eram cores sujas, tão sujas que tinham perdido toda a leveza, esquecidas da ousadia de levantar asas pelo azul. Aqui, o céu se tornara impossível. E os viventes se acostumaram ao chão, em resignada aprendizagem da morte. A estrada que agora se abre a nossos olhos não se entrecruza com outra nenhuma. Está mais deitada que os séculos, suportando sozinha toda a distância. Pelas bermas apodrecem carros incendiados, restos de pilhagens. Na savana em volta, apenas os embondeiros contemplam o mundo a desflorir. Um velho e um miúdo vão seguindo pela estrada. Andam bambolentos como se caminhar fosse seu único serviço desde que nasceram. Vão para lá de nenhuma parte, dando o vindo por não ido, à espera do adiante. Fogem da guerra, dessa guerra que contaminara toda a sua terra. Vão na ilusão de, mais além, haver um refúgio tranquilo. Avançam descalços, suas vestes têm a mesma cor do caminho. O velho se chama Tuahir. É magro, parece ter perdido toda a substância. O jovem se chama Muidinga. Caminha à frente desde que saíra do campo de refugiados. Se nota nele um leve coxear, uma perna demorando mais que o passo. Vestígio da doença que, ainda há pouco, o arrastara quase até à morte. Quem o recolhera fora o velho Tuahir, quando todos outros o haviam abandonado. O menino estava já sem estado, os ranhos lhe saíam não do nariz mas de toda a cabeça. O velho teve que lhe ensinar todos os inícios: andar, falar, pensar. Muidinga se meninou outra vez. Esta segunda infância, porém, fora apressada pelos ditados da sobrevivência. Quando iniciaram a viagem já ele se acostumava de cantar, dando vaga a distraídas brincriações. No convívio com a solidão, porém, o canto acabou por migrar de si. Os dois caminheiros condiziam com a estrada, murchos e desesperançados. [...]. Veja mais aqui, aqui e aqui.

EU FALO DAS CASAS E DOS HOMENS – No livro Documenta Poética (Assírio & Alvim, 1973), do poeta, ensaísta, crítico literário e professor universitário português Adolfo Casais Monteiro (1908-1972), encontro o seu poema Eu falo das casas e dos homens: Eu falo das casas e dos homens, / dos vivos e dos mortos: / do que passa e não volta nunca mais... / Não me venham dizer que estava materialmente / previsto, ah, não me venham com teorias! / Eu vejo a desolação e a fome, / as angústias sem nome, / os pavores marcados para sempre nas faces trágicas das vítimas. / E sei que vejo, sei que imagino apenas uma ínfima, / uma insignificante parcela da tragédia. / Eu, se visse, não acreditava. / Se visse, dava em louco ou profeta, / dava em chefe de bandidos, em salteador de estrada, / - mas não acreditava! / Olho os homens, as casas e os bichos. / Olho num pasmo sem limites, / e fico sem palavras, / na dor de serem homens que fizeram tudo isto: / esta pasta ensanguentada a que reduziram a terra inteira, / esta lama de sangue e alma, / de coisa a ser, / e pergunto numa angústia se ainda haverá alguma esperança, / se o ódio sequer servirá para alguma coisa... / Deixai-me chorar - e chorai! / As lágrimas lavarão ao menos a vergonha de estarmos vivos, / de termos sancionado com o nosso silêncio o crime feito instituição /e enquanto chorarmos talvez julguemos nosso o drama, / por momentos será nosso um pouco do sofrimento alheio, / por um segundo seremos os mortos e os torturados, / os aleijados para toda a vida, os loucos e os encarcerados, / seremos a terra podre de tanto cadáver, / seremos o sangue das árvores, / o ventre doloroso das casas saqueadas, / - sim, por um momento seremos a dor de tudo isto... / Eu não sei porque me caem as lágrimas, / porque tremo e que arrepio corre dentro de mim, / eu que não tenho parentes nem amigos na guerra, / eu que sou estrangeiro diante de tudo isto, / eu que estou na minha casa sossegada, / eu que não tenho guerra à porta, / - eu porque tremo e soluço? / Quem chora em mim, dizei - quem chora em nós? / Tudo aqui vai como um rio farto de conhecer os seus meandros: / as ruas são ruas com gente e automóveis, / não há sereias a gritar pavores irreprimíveis, / e a miséria é a mesma miséria que já havia... / E se tudo é igual aos dias antigos, / apesar da Europa à nossa volta, exangue e mártir, / eu pergunto se não estaremos a sonhar que somos gente, / sem irmãos nem consciência, aqui enterrados vivos, / sem nada senão lágrimas que vêm tarde, e uma noite à volta, / uma noite em que nunca chega o alvor da madrugada... Veja mais aqui e aqui.

MARIA PEREGRINA – A peça teatral Maria Peregrina (2000), do premiadíssimo dramaturgo, professor e roteirista Luis Alberto Abreu, conta três histórias sobre uma personagem do folclore do Vale do Paraíba que viveu na primeira metade do século XX, mendigando e também era conhecida como Nega do Saco, considerada uma santa popular depois de sua morte. Da obra destaco o trecho inicial: MESTRE Boa noite. Não faz muito tempo e o mundo era outro. As casas eram poucas, espaçadas, e a terra, sem o asfalto e sem tantos prédios sobre ela, cheirava forte quando chovia. Lembram? À tarde, quase noite, o sino espalhava um som meio triste pelas largas distâncias do vale. Dom! Dom! Dem, Dom! Dem, Dom! Então, as pessoas faziam o sinal da cruz e recolhiam o cansaço do dia. Conversas nas janelas, café no fogão à lenha, histórias contadas antes do sono. Não faz muito tempo e o mundo era outro. As coisas todas eram outras. O tempo desfez. O tempo desfaz toda solidez. E o tempo faz. Como fez as coisas de hoje, tão diferentes. Mas o que o tempo desfez, a memória refaz. Refaz melodias, (A UM SINAL SEU O SOM DA ROMARIA TORNA-SE GRADATIVAMENTE MAIS FORTE.) reconstrói as poucas casas, retraça no papel branco da imaginação aquele tempo em que o mundo era outro. Um mundo de lembranças e pessoas que o tempo desfez. Mas a memória refaz. COM UM GESTO ENÉRGICO, O MESTRE FAZ INTRODUZIR A ROMARIA. AFASTA-SE DA ÁREA DA REPRESENTAÇÃO EM DIREÇÃO À ÁREA DOS MÚSICOS ENQUANTO OS ROMEIROS ENTRAM. CANTANDO, TOCANDO E DANÇANDO CUMPREM UMA COREOGRAFIA ALEGRE EM VOLTA DA ÁREA DE REPRESENTAÇÃO. DO MEIO DELES DESTACA-SE A MULHER DESMEMORIADA, INVADE A ÁREA DE REPRESENTAÇÃO. PARECE INDECISA. FINALMENTE SENTA-SE, SOBRE AS PERNAS, DEBAIXO DA ÁRVORE. OS ROMEIROS CONTINUAM A CANTORIA ATÉ CHEGAR AO LOCAL DOS MÚSICOS. O MESTRE, COM GESTOS LARGOS E NÍTIDOS, INDICA A CADA UM O SEU LUGAR. O ÚLTIMO DOS ROMEIROS, THEÓRFO, RECEBE DO MESTRE UM CAJADO E ENTRA NA ÁREA DE REPRESENTAÇÃO. SORRI PARA O PÚBLICO. [...] Veja mais aqui.

QUEBRA DE XANGÔ – O documentário 1912 O Quebra de Xangô, do antropólogo e professor Siloé Soares de Amorim, que assinou o roteiro e a direção, conta a história do trágico episódio histórico que marca a trajetória de perseguição enfrentada por mães e pais de santo em Alagoas, quando da repressão aos cultos afro-brasileiros ocorrida em Maceió, no dia 1º de fevereiro de 1912, por intolerância racial e religiosa em conflitos violentos. O quebra-quebra atingiu todos os terreiros da cidade, convertendo-se em um massacre que deixou marcas profundas na cultura local. O documentário foi contemplado no programa nacional de produção audiovisual DocTv em 2006. Veja mais aqui e aqui.

AGENDA – No próximo dia 18 de julho, às 19hs, no Julinho Clube, São Paulo, acontecerá o lançamento do livro de poesias Como suportar jabs no baço e encarar nocautes (Patuá, 2015), do poeta, compositor e agitador cultural Vlado Lima. Na ocasião ocorrerá o especial Influenza, com a presença de poetas e compositores do Clube Caiubi. O autor já lançou Pop para-choque (Patuá, 2012) e possui poderes intermináveis, mesmo nunca tendo indo à Bahia, não tendo terminado o catecismo nem a faculdade jornalismo, muito menos o curso de datilografia, torna-se especializado em fazer inimigos, contar piadas de caipira e falar da vida alheia. Além disso, odeia João Gilberto, não suporta filme iraniano e é autor da polêmica música euodeiocaetanoveloso.com.br. Pelo lado bom, ele produz o concorrido sarau Sopa de Letrinhas, gosta da bisteca do Sujinho, revistas do Aranha, Pernalonga, Clint Eastwood, Sabrina Sato, Smiths, Neil Young, Sérgio Sampaio, Leonard Cohen, Henry Miller, Bukowski, Hammett e Fante, muito viciado no sanduba de pernil do Estadão e tem saudades da Seleção de 82: Sócrates, Zico, Júnior e Falcão. Lembra? Veja detalhes aqui e mais aqui.

IMAGEM DO DIA
Imagem: Natureza morta, do pintor, desenhista, escultor, professor poeta Vicente do Rego Monteiro (1899-1970).

VAMOS APRUMAR A CONVERSA?
Imagem: ilustração de Luciano Tasso.
Aprume aqui.


Veja mais sobre:
O passado escreveu o presente; o futuro, agora, Sociolinguística de Dino Preti, o teatro de Bertolt Brecht, Nunca houve guerrilha em Palmares de Luiz Berto, a música de Adriana Hölszky, a escultura de Antonio Frilli, a arte de Thomas Rowlandson, a pintura de Dimitra Milan & Vera Donskaya-Khilko aqui.

E mais:
A liberdade de expressão, A filha de Agamenon de Ismail Kadaré, A natureza de Parmênides de Eléia, Poema sujo de Ferreira Gullar, O teatro essencial de Denise Stoklos, a música de Badi Assad, o cinema de Ingmar Bergman & Liv Ullmann, a escultura de Emilio Fiaschi, Programa Tataritaritatá, a pintura de Gustav Klint & Vera Donskaya-Khilko aqui.
O discurso do método de René Descartes, a música de João Bosco, o teatro de Denise Stoklos, o cinema de Ingmar Bergman, a pintura de Gustav Klimt, Sandra Regina, Bernadethe Ribeiro & Danny Calixto aqui.
Literatura de cordel: História do capitão do navio, de Silviano Pirauá de Lima aqui.
Preconceito, ó! Xô pra lá, Diários de viagem de Franz Kafka, A revolta de Atlas de Ayn Rand, A lua e o infinito de Giacomo Leopardi, a música de Leoš Janáček & Cheryl Barker, o cinema de Alessandro Blasetti & Sophia Loren, Maguerite Anzieu & Jacques Lacan: caso Aimée, a arte de Liliana Castro, a pintura de Helmut Breuninger & Hermann Fenner-Behmer aqui.
Os vexames dum curau no sul, O absurdo de Thomas Nagel, Voragem de Junichiro Tanizaki, Pretidão de amor de Emílio de Meneses, Mão na luva de Oduvaldo Vianna Filho, o cinema de Olivier Assayas & Maggie Cheung, a música de Rosalia de Souza, a pintura de Pierre-Auguste Renoir & Suzanne Frie aqui.
Quadrilha das paixões mais intensas, Vaqueiros & cantadores de Luís da Câmara Cascudo, Terra de Caruaru de José Condé, a música da Orquestra Armorial & Cussy de Almeida, A Setilha de Serrador, O casamento de Maria Feia de Rutinaldo Miranda Batista, a arte de Roberto Burle Marx. a xilogravura de Severino Borges, J. Miguel & Vermelho aqui.
Entre nós, vivo você, as gravuras de Lasar Segall, a música de Sivuca, Cartilha do cantador de Aleixo Leite Filho, Cancão de fogo de Jairo Lima, a poesia de Belarmino França, a arte de Luciah Lopez, a xilogravura de J. Borges & José Costa Leite aqui.
Dos bichos de todas as feras e mansas, Cantadores de Leonardo Mota, O Romance da Besta Fubana de Luiz Berto, O martelo alagoano de Manoel Chelé, a música do Duo Backer, a escultura de Antoni Gaudí, a militância de Brigitte Mohnhaupt, a arte de Natalia Fabia & a xilogravura de J. Borges aqui.
Quem desiste jamais saberá o gosto de qualquer vitória, A linguagem & as ciências de Roman Jakobson, Nos caminhos de Swan de Marcel Proust, a arte de Regina José Galindo, a fotografia de Thomas Karsten, a pintura de Henry Asencio, a música de Secos & Molhados & Luiza Possi aqui.
Tudo em mim, mestiço sou, O povo brasileiro de Darcy Ribeiro, A história da minha vida de Helen Keller, Anarquismo & ensaios de Emma Goldman, a escultura de Luiz Morrone, a fotografia de Pisco Del Gaiso, Os Fofos Encenam & Viviane Madu, a música de Guilhermina Suggia & a pintura de Martin Eder aqui.
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CRÔNICA DE AMOR POR ELA
Leitoras Tataritaritata - Art by Ísis Nefelibata
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CANTARAU: VAMOS APRUMAR A CONVERSA
Paz na Terra:
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segunda-feira, maio 05, 2008

ADOLFO CASAIS MONTEIRO, CICERO, RESTIF DE LA BRETONNE, MEREDITH O'NEAL, BESTA FUBANA, LITERÓTICA DORO, TOLINHO & BESTINHA


 
Art by Meredith O'Neal

LITERÓRICA – I – MERGULHO - Lá vou eu submerso nas profundas águas do seu corpo saboreando o sal de sua carne atlântica para a redenção de quem queima a febre de todos os quereres. Lá vou eu revolvendo as entranhas de suas funduras mais densas para tê-la vadia proclamada no mormaço da nossa paixão equatorial. Lá vou eu imune percorrendo as rotas oceânicas de sua abissal completude até ver-me envolvido pelo tsunami dos seus prazeres mais agudos. Lá vou eu nessa aventura esplêndida conquistando os labirínticos meandros de sua gostosura, usurpando seus trópicos, rebentando seus polos, percorrendo suas correntes, todos os seus hemisférios, oásis, golfos, enseadas e ventos, até invadir o seu pré-cambriano por completo. Avançando nos salões de sua gruta multicor, onde introduzo meu cabo-guia para ancorar mitigando a sua loucura vulcânica a me fazer possuído pelo prazer inenarrável de possuí-la ao sabor do mais espetacular maremoto de nossos gozos infindos. II – CAPÉI - Ela nua é linda porque possui todas as águas de todas as cachoeiras, todos os sabores de todos os pomares, todo o brilho de todas as pedras preciosas, toda claridade de todos os dias, toda luz que ilumina a escuridão de todas as noites, todo o gozo de todos os prazeres. E é nela nua e linda que vou mergulhar nas grandes nuvens do seu corpo de céu. III – PUXAVANQUE - Nua e linda, nuvem clara alva dada, nem se repara, toda minha, lua deitada, encolhidinha, alma rua tez exaltada, já jóia rara, deusa flor carne almejada, quase calada dou-me verso em homenagem. Vem da miragem e dá de bruços e espalmada, feito a canção que sou do pulso em serenata, quase tão grata vem sem fuso, fera indomada, agoniada enquanto ferve a vacilada, serve de graça, sem saída, encurralada, dá por vencida e não retira até gozada. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.


PERNSAMENTO DO DIA - Quando você estiver assim na veneta bem desprevenida e com os miolos nas nuvens da casa de caixa-pregos e, de repentemente, dos cafundós entrantes das paradoxalidades da porra, algo, meio que do inopinado, pegá-la, assim assim – sabe? -, com um bafo na cacunda, uma segurada na micula e uma chave beliscada de jeito sem-saída e rendida de quatro, não esquente, é o boitatá mesmo que está lhe enrabando, somente. Aí use do conselho da Ministra gostosona Marta Suplicy: Relaxe e, se der, goze. Depois avalie o estrupício e o vício, viu? Serve para ambos os sexos, tá?

DA REPÚBLICA - No Livro Primeiro do livro “Da República”, do filósofo, orador, escritor, advogado e político romano Marco Túlio Cícero, (106 – 43aC), se propõe abordar questões acerca do Estado, forma de governo e as conseqüências da monarquia, da aristocracia e da democracia. Inicia ele chamando a questão do amor pátrio, asseverando que “[...] o homem veemente prefere, embora seja chamado de louco e a necessidade não o obrigue, arrostar as tempestades públicas entre suas ondas, até sucumbir decrépito, a viver no ócio prazenteiro e na tranqüilidade. [...] Afirmarei, sim, que tamanha é a necessidade de virtude que o gênero humano experimenta por natureza, tão grande o amor à defesa da saúde comum, que essa força triunfa sempre sobre o ócio e a voluptuosidade” (p. 139). Desta forma, chama atenção para a necessidade de um amor pátria que leve o homem a se destinar pelos interesses coletivos e anseios gerais. É nessa condução que Cícero observa que: “[...] A pátria não nos gerou nem educou sem esperança de recompensa de nossa parte, e só para nossa comodidade e para procurar retiro pacífico para nossa incúria e lugar tranqüilo para o nosso ócio, mas para aproveitar, em sua própria utilidade, as mais numerosas e melhores faculdades das nossas almas, do nosso engenho, deixando somente o que ela possa sobrar para nosso uso privado” (p. 140). Isto quer dizer, que o homem deve estar voltado para o sacrifício de participar da coisa pública como um bem comum de todos, nunca de interesses particulares. Fala Cícero, portanto, da questão sóbria que é a destinação do ser humano em partilhar com todos da coisa pública ao demonstrar que: “[...] Feliz o homem que pode verdadeiramente gozar do bem universal, não por mandamento das leis, mas em virtude de sua sabedoria; não por um pacto civil que com ele se queria celebrar, mas pela natureza mesma que dá a cada um o que julga que pode saber, usar e ser-lhe útil” (p. 144). Nesta condução, chama atenção Cícero para a República em comparação com a monarquia, a aristocracia e a democracia, assinalando que: “É, pois, a República coisa do povo, considerando tal, não todos os homens de qualquer modo congregados, mas a reunião que tem seu fundamento no consentimento jurídico e na utilidade comum [...] na monarquia, a generalidade dos cidadãos toma pouca parte no direito comum e nos negócios públicos; sob a dominação aristocrática, a multidão goza de muito pouca liberdade, pois está privada de participar nas deliberações e no poder; por último, quando o povo assume todo o poder, mesmo supondo-o sábio e moderado, a própria igualdade se torna injusta desigualdade, porque não há gradação que distinga o verdadeiro mérito. [...] Quase sempre o pior governo resulta de uma confusão da aristocracia, da tirania facciosa do poder real e do popular, que às vezes faz sair desses elementos um Estado de espécie nova; é assim que os Estados realizam, no meio de reiteradas vicissitudes, suas maravilhosas transformações” (p. 147). Observando as formas de governo, Cícero intui que “Cada forma de governo recebe seu verdadeiro valor da natureza ou da vontade do poder que a dirige.A liberdade, por exemplo, só pode existir verdadeiramente onde o povo exerce a soberania; não pode existir essa liberdade que é de todos os bens o mais doce, quando não é igual para todos” (p. 148) Prosseguindo com sua análise acerca de Estado, governo e formas de governo, Cícero enfatiza que: “Quando, numa cidade, dizem alguns filósofos, um ou muitos ambiciosos podem elevar-se, mediante a riqueza ou o poderio, nascem os privilégios de seu orgulho despótico, e seu jugo arrogante se impõe à multidão covarde e débil. Mas quando o povo sabe, ao contrário, manter suas prerrogativas, não é possível a esses encontrar mais glória, prosperidade e liberdade, porque então o povo permanece árbitro das leis, dos juízes, da paz, da guerra, dos tratados, da vida e da fortuna de todos e de cada um; então, e só então, é a coisa pública coisa do povo [...] O Estado que escolhe ao acaso seus guias é como o barco cujo leme se entrega àquele dentre os passageiros que a sorte designa, cuja perda não se faz esperar. Todo povo livre escolhe seus magistrados e, se é cuidadoso de sua sorte futura, elege-os dentre os melhores cidadãos” (p. 148). E ressalta ainda para a fragilização das escolhas pelo poder e riqueza, mencionando que: “[...] porque as riquezas, o nome ilustre, o poderia, sem a sabedoria que ensina os homens a se governar e dirigir os outros, nada mais são do que uma vergonhosa e insolente vaidade; não há no mundo espetáculo mais triste que uma sociedade em que o valor dos homens é medido pelas riquezas que possuem. [...] As dificuldades de uma sábia determinação fazem passar o poder das mãos dos reis para as da aristocracia, da mesma forma por que a ignorância e a cegueira dos povos transmitem a preponderância da multidão à de um pequeno número [...] Quanto à igualdade de direito ou da democracia, é uma quimera, e os povos mais inimigos de toda dominação e todo jugo conferiram os poderes mais amplos a alguns de seus eleitos, fixando-se com cuidado na importância das classe e no mérito dos homens. Chegar, em nome da igualdade, à desiguldade mais injusta, colocar no mesmo nível o gênio e a multidão que compõem um povo, é suma iniqüidade a que nunca chegará um povo em que governem os melhores, isto é, uma aristocracia. [...] a monarquia nos solicita pela afeição; a aristocracia, pela sabedoria; o governo popular, pela liberdade, e, nessas condições, a escolha se torna muito difícil” (p. 149). Mediante tais conclusões, Cícero chega a observar que “[...] Assim, ao rei sucede o tirano; aos aristocratas, a oligarquia facciosa; ao povo, a turba anárquica, substituindo-se desse modo umas perturbações a outras”. (p. 153). No seu discurso, encontra-se que Cícero é favorável à monarquia, no entanto, a grandiosidade de sua meditação e a sobriedade de sua análise torna importante nos dias atuais, as reflexões acerca da forma de governo, da razão e fins do Estado, da liberdade e construção social dos homens nas suas relações humanas. Veja mais aqui, aqui e aqui.


VELHO PROVÉRBIO CHINÊS – Não se deve confundir o som das batidas de seu coração com as dos cascos de cavalos que se aproximam.

LOUISE E THÉRÈSE – [...] Último encanto de meu coração, Louise! Thérèse! Choradas ainda ontem. Ah! Nunca eu senti tão cruelmente a vossa ausência, como ontem, ao fim de vinte e quatro anos!... Contemplei a Lira, fixei o Cisne e, banhado em lágrimas, gritei “Astros eternos, ainda sois lá, mas Louise e Thérèse não são mais! Celestiais amigas a quem pretendi fugir! A quem deixei de ver durante doze destroçados anos de minha vida! Como eu quereria que estivessem hoje a meu lado, nem que o preço fosse todo o meu sangue!... Adeus Louise! Adeus Thérèse, exclava. E entrei na casa de 1771. Nunca subi... nunca voltarei a subir esta escada para Louise, para ver Thérèse!... E saí, castigado pela dor. Trecho do conto do escritor francês Restif de la Bretonne (1734-1806), recolhido da antologia Maravilhas do conto amoroso (Cultrix, 1961), organizada por Fernando Correia da Silva.

A TUA MORTE EM MIM – I – Agora as coisas inertes trocam cúmplices / silêncios contra mim. De mãos vazias / olho em volta como se acreditasse num milagre. / Está frio. A vida assassinada não tem gosto. / Passo as mãos sobre as coisas que tocaste: / são frias: agora, nelas apenas há tu estares morta. / A cada hora sei melhor que já não há / nossa casa, nossa vida, nem um só / lugar no mundo onde não estejas morta. II - A tua morte é sempre nova em mim. / Não amadurece. Não tem fim. / Se ergo os olhos dum livro, de repente / tu morreste. / Acordo, e tu morreste. / Sempre, cada dia, cada instante, / a tua morte é nova em mim, / sempre impossível. / E assim, até à noite final / irás morrendo a cada instante / da vida que ficou fingindo vida. / Redescubro a tua morte como outros / descobrem o amor, / porque em cada lugar, cada momento, / tu estás viva. / Viverei até à hora / derradeira a tua morte. / Aos goles, lentos goles. Como se fosse / cada vez um veneno novo. / Não é tanto a saudade que dói, mas o remorso. / O remorso de todo o perdido em nossa vida, / coisas de antes e depois, coisas de nunca, / palavras mudas para sempre, um gesto / que sem remédio jamais teve destino, / o olhar que procura e nunca tem resposta. / O único presente verdadeiro é teres partido. III – Como se vindo ao chamado duma outra presença / uma ideia que surge, uma coisa que lembra, / ficam de repente suspensos, perdidos, / 0 porque só os chamou uma presença outrora. IV – Os versos que te não dei / (porquê? entender, quem poderia?) / ficaram nos gestos vãos / com que não soube ganhar / a salvação que talvez / (ou não seria?) / trouxesses nas tuas mãos. / Foi sempre tarde demais / (ou não seria?) / para salvar fosse o que fosse, / senão a sempre ilusão / (ou não seria?) / de que podia ter sido / (Porquê? Entender, quem poderia?) / outra a história, outro o caminho - / ou não podia, ou não podia? V – Mas tu exististe, existirás, / existes / para eu saber que perdi / sem mais apelo / tudo quanto nem a ti soube dar. Poema do poeta, ensaísta, crítico literário e professor universitário português Adolfo Casais Monteiro (1908-1972). Veja mais aqui e aqui.


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JORNAL DA BESTA FUBANA – Estréia nesta segunda-feira oficialmente a mais grandiosa de todas as publicações de todos os tempos: o Jornal da Besta Fubana. Para ficar por dentro de tudo, é só acessar agora: http://www.luizberto.com/ e você poderá ficar familiarizado com a nova roupagem dada com a permanente atualização dessa gazeta da bixiga lixa, editada pelo papa D. Berto I da ICAS. O Ministério da Saúde adverte: Não ler diariamente o Jornal da Besta Fubana causa danos irreparáveis à saúde de qualquer cristão, além de deixar o cara por fora das últimas e chato pra caralho.



AS CAÇAROLAS DO LOMBRETA BOCA-DE-FRÔ - Enquanto vai anotando amiudadamente os depoimentos de Tolinho & Bestinha, o culinarista juramentado Lombreta boca-de-frô vai preparando as condimentadas receitas dos seus regabofes, sempre muito bem dosados de uma fartura inusitada de ingredientes catados a dedo dos manuais místicos, alguímicos, totêmicos e da mitificação sacrossanta da Secreta e Colenda Ordem dos Mestres Gourmets da Macaxeira Azul. Agora, a partir deste instante, o chefe Boca-de-frô disponibilizará aqui as mais conceituadas e retumbantes receitas para manter os casados em eterno idílio, para os atoleimados parar de caiar, para as reboculosas manterem a forma em dia, os adoentados pularem de saúde, os apaideguados se livrarem das gaias, os desafinados cantarem qual rouxinol galante, os desprovidos aumentarem o pingolin, os desafortunados acertarem na sorte grande, os iletrados tomarem sapiência e, para encurtar o rol dos benefícios, enfim, salvar pro céu quem estiver condenado aos quintos dos infernos. Tudo isso ou não, talvez. Isso aprendido e anotado das lições saudáveis e bestificantes do famigerado profeta do século XXX, padre Bidião. Imperdíveis! Aguarde o primeiro capítulo da novela: As caçarolas do Boca-de-frô. E veja mais aqui.

A ÚLTIMA DO DORO - O Doro não tinha o que fazer além de ajeitar os culhões dum lado pro outro. Foi quando lhe caiu no colo uma máquina fotográfica. Igi! A eureka logo acendeu um neurônio oriundo de uma das pregas do seu cu e ele se viu fotógrafo. Pode? Então, se prepare: eis a primeira foto dele:


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A mulher fenícia & Big Shit Bôbras: Inhame cura aqui.
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A biblioteca nossa de cada dia, Nicole Krauss, Carles Riba, Lloyd Motz, Filipe Miguez, Yasujirō Ozu, Carla Bruni, Shima Iwashita, Mauro Soares, Tributo & capacidade contributiva, Diagnóstico e tratamento na aprendizagem aqui.
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CRÔNICA DE AMOR POR ELA
Leitora manifestado os seus votos de parabéns pro Tataritaritatá!
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CANTARAU: VAMOS APRUMAR A CONVERSA

Recital Musical Tataritaritatá - Fanpage.
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ANNE CARSON, FRANÇOISE VERGÈS, TAHMIMA ANAM & SETÍGONO

    Imagem: Pulsações caósmicas , da série Caosmose & O poema nasce do visinvisível - Acervo ArtLAM .   Em rota de colisão, a sorte...