sábado, janeiro 14, 2017

QUANDO ALGUÉM SE PÕE À SOMBRA, NÃO PODE INVOCAR O SOL


QUANDO ALGUÉM SE PÕE À SOMBRA, NÃO PODE INVOCAR O SOL -  Imagem: Insula Dulcamara (1938), do pintor e poeta suíço naturalizado alemão Paul Klee (1879 - 1940). - Sabe, até um dia desse eu pensava e agia segundo meus próprios desejos, sentimentos e necessidades. Queria estar na chuva sem me molhar, andar por cima das águas sem me afogar, estar à sombra com o brilho Sol. Tudo ao meu umbigo e confortável. Enganava a mim mesmo e não sabia. E se sabia, fazia que não. Não queria saber do insidioso obstáculo sempre na culatra da trama se eram ou não as minhas próprias armadilhas. E mesmo que só me visse pelas desditas dos esquemas desconexos e imperfeitos que funcionavam como propósitos conflitantes, levava na conta como se fosse apenas fruto das desvantagens do destino de um deus injusto e eu aprisionado na teia cármica. Vivia eu às trevas em pleno Sol que não via, desorientado como quem procura dissipar nuvens escuras. Não havia jeito, sabia, sempre a adversidade opondo-se à felicidade, tudo ironicamente apropriado, como se pagasse na mesma moeda tudo que tivesse feito ou não, como se estivesse sempre do lado oposto à Regra de Ouro. Assim, muitas vezes sucumbi aos escarnecimentos e ao troco equivalente exposto ao escárnio ou na pose do ridículo, expiando infortúnios na história natural da minha calamidade. A vida uma incógnita: estava de olhos vendados e pensava que via e sabia de tudo. Só me dei conta aos tropeços do que fiz a mim mesmo e aos outros, desonesto comigo mesmo, acreditando em minhas próprias mentiras, me encarcerando com minha própria escravidão, como se todo obstáculo fosse intransponível, todo desespero fosse a última gota, todo fardo fosse irremovível, toda opressão fosse sem saída, todas as tribulações fossem eternas, toda dor não pudesse suportar, toda ansiedade fosse uma agonia, todo castigo não tivesse salvação, todo desejo fosse irrealizável, todo contratempo fosse uma punição, todo nó não fosse desatável, se tudo que visse fosse escuro breu, todo comestível fel ao paladar, todas as metas fossem inalcançáveis, toda ferida não sarasse, todas tentações fossem dominantes, todo prazer fosse insignificante e eu incapaz de visualizar meus ideais, tudo impedindo seguir adiante com meu coração esvaziado. Foi então que um dia, à sombra de uma amendoeira, percebi que nem tudo estava perdido: um pássaro atendeu ao meu assobio e veio pousar à minha mão com a total ausência de medo. E me fez ouvir a música da passarada que gorjeava ao redor, os ventos, as ondas, as cachoeiras, as folhas nos galhos, os abismos das grandes montanhas, as correntes dos rios, a brisa nas colinas e vales floridos. E ao ouvir tudo isso me veio uma alentadora compreensão espiritual, como se ali estivesse em frente a uma fogueira com sua brasa incandescente a me clamar pra viver de forma construtiva, sem ter que destruir qualquer ser vivo e na fé primitiva de que ninguém ousará mal contra nada. Ouvi indizível entre os chiados das labaredas na lenha e o piado do passarinho, e aprendi a colher o bem do bem e do mal, recebendo as bênçãos disfarçadas de infortúnios: as perdas ensinaram mais que tudo que possuísse, tornou-se meu mais verdadeiro ganho. Entendi que se o problema era estar à sombra, a solução era só buscar a luz do Sol. © Luiz Alberto Machado. Veja mais aqui

Curtindo o talento musical da violinista e professora sérvia Milena Aradski.

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DESTAQUE: PENSAMENTO DE EMERSON
[...] Se induzimos forte magnetismo num extremo de uma agulha, o magnetismo oposto se manifesta no outro extremo. Se o sul atrai, o norte repele. Para esvaziar aqui, temos de condensar ali. [...] Mesmo que não se manifestem repressões a um novo mal, essas repressões existem e se manifestarão. Se um governo é cruel, a vida do governante não é segura. Se os impostos forem pesados demais, não haverá receita pública. Se a legislação criminal for sanguinária, os jurados não condenarão. Se a lei é por demais branda, a vingança particular é praticada [...] A retribuição é inseparável daquilo que retribuído, mas às vezes está distribuída num longo período e, assim, não se torna evidente senão após muitos anos. [...]. certa compensação equilibra cada dom e cada efeito. Para cada coisa que perdemos, ganhamos uma outra coisa; e para cada coisa que ganhamos, perdemos alguma coisa. Assim como nenhum homem teve um motivo de orgulho que não lhe fosse prejudicial, nenhum homem teve um defeito que em algum momento não se lhe tornasse útil. Todo homem, no curso de sua vida, deve agradecer suas imperfeições. [...].
Trechos extraídos da obra Ensaios (Imago, 1994), do escritor e filósofo estadunidense Ralf Waldo Emerson (1803-1882). Veja mais aqui, aqui e aqui.

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