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domingo, maio 01, 2022

ANA HATHERLY, GABRIEL MATZNEFF, MICHÈLE PETIT & GRAÇA LINS

 

 

TRÍPTICO DQP: De volta à estrada, de novo... – Imagem: AcervoLAM, ao som do álbum Antropopfagia ao vivo em New York  (Biscoito Fino, 2014), da poeta, compositora e multiartista Beatriz Azevedo. - O céu desabou faz tempo e o eclipse reina porque a neblina esconde o amanhecer, a derrocada geral de nenhuma despedida. Meus pés nas poças dos prantos invernosos canavial afora pelo passado que não lembro. O caminho parece longo e os edifícios são monstros escarnecedores da minha condenação, não me salvam do pé d’água torrencial pela punição do desterro: a distância é mais que o interdito de nunca ter que chegar perto de nada nem de lugar qualquer, nem de ninguém. Ah, antes fosse o caminho disfarçado do paraíso, a Ilha dos Amores dos Lusíadas de Camões: da terra imensa e mar não navegado. Não, não era, era a odisseia do Ulisses que errou de tudo, até das páginas soltas que se perderam no incêndio da biblioteca. Lá vou eu de novo com o poema de cor no desterro de Scorza, cruzando aqui e acolá com fantasmas que perderam sua direção. Entre um e outro distingui o escritor francês Gabriel Matzneff: A minha pátria profunda é o exílio. E tentou me livrar a cuspida na cara de alma penada. Eu que me desvencilhei de tudo no rebojo das horas e dos dias, tinha de levantar os olhos e seguir em frente. Quem aquela que acena ali? Quase não vi ao esbarrar apressado na alma solícita da escritora e artista plástica portuguesa Ana Hatherly (1929-2015): A teimosa realidade. Na arqueologia da paisagem a viagem da escrita é abolição oblíqua, delírio provocado, lição de tentativa. Ao fim de tantos anos o desejo faz-se exílio. Apontou-me o perigo e pude contornar sozinho proutra direção. Do que não tive por abrigo, a vida fez-se ambulante pelo que ficou para depois e nunca mais voltar.

 


Os gibis das chamas – Imagem: a arte do artista visual Raymundo Colares (1944-1986) – Os ônibus passam para lá e para cá, e não distingo mais nada: sou um bólido no espaço. Os luminosos indicam os destinos, pronde será que vão os olhos pregados no horizonte? As cores voam e me sinto outro, como se revivesse a infância com as experiências de Bruno Munari: a fila no ponto, o alvoroço do embarque, o engarrafamento: pronde vão? O centro emporcalhado, as curvas do largo, o cruzamento do metrô e as piruetas das motocicletas: pronde é que tudo vai? A sirene rasga a loucura, a buzina no semáforo, o ronco do ferro na frenagem, as marchas reengatadas, qual destino? O sonho lotado, o aceno na esquina tirou fino no retrovisor, passou perto a placa do velocímetro e queimou o ponto, subiu a serra e estreitos logradouros pelos morros do subúrbio. Se desceu eu nunca vi, piso o chão como quem buscasse a direção do bom porto: um filme roda na cabeça, nada se firma na ventania e rouba as formas de Volpi. Sou aquela pedra atirada na vidraça do museu e na parada obrigatória atravesso a vida e sinto como se eu fosse atropelado pela própria obra que fugiu do Salão Nacional, sem que perdesse as cores de Klee e nada entendesse da absurda lógica de Mondrian. De relance a velocidade, o caleidoscópio, o fogo na maca: a arte está morta, mas eu estou vivo. O final da linha: das cinzas, a tragédia no sanatório: outra é a ressurreição.

 


A leitura do eu e todos os outros... – Imagem: arte da poeta e artista visual Lenora de Barros. – Tudo se parecia como se eu tivesse saído das páginas de um livro qualquer da Biblioteca de Fenelon: finalmente o dia claro para o xexéu no voo das vespas à procura de maribondamigo. A casa onde eu nasci à beira do rio não existe mais e sou o eterno bocejo doutro lugar na espera do Pinheiros. É quase tão tarde, nunca demais: sou apenas o menino que fugiu confeitos nos bolsos da bodega dos avós e não sabia se subia a Coreia sem ter pronde ir, ou se pegava a rodagem da usina pra Pirangi, ou se dobrava a esquina das freiras pro Matadouro que nunca gostei. Nada, ficava no Pontilhão vendo as meninas passar e só voltava na hora do almoço para vê-la acenar: uma faísca no teor do raio daquela rubro-negra da foto furtada de tempos longínquos que reaparecia só pra que um dia eu pudesse homenageá-la numa postagem daqui. Agora depois de muita água passada por baixo da ponte de Japaranduba, o reencontro só para lembrar os Olhos de Clarice nas entrelinhas que ela escreveu. Afora coisas que a gente viveu no que ela expressou de amores e livros – ah, o professor Brivaldo na sala de aula do Ginásio, quando não peiticava comigo às gargalhadas de Pedro Bó ao reunir suas memórias prum livro. Foi então que ela me presenteou suas escrituras: das enigmáticas badaladas do sino que Heleninha não sabia o alarme dos comunistas tidos por monstruosos estupradores com 50 dedos em cada uma das 8 mãos e outras aberrações da invencionice; do nome de batismo daquele idílio de periquito enquanto o amor mandava ver nas palavras do mestre Machado; e a glória sem tortura de seu Bispo da Izácio – minha cidade ainda é empestada de nomes de rua com santos e milicos, salvam-se as praças da Luz e Maurity, uma ou outra rua como a do Limão que ninguém sabe se é azedo ou não, da Palma que pode ser da palmeira ou da mão, da Aurora que só se vê o Sol ao meio dia, do Jardim que não tem sequer um pé de coisa qualquer pra remédio, e as hilárias do Mijo, do Cu-de-boi, Esconde Negro e por aí vai. Saudoso Manoel dos meus compadres Javanci & Sandra. Coisa de encher o peito de tão bom, de jogar conversa fora e falar besteira. Aos meus olhos ela me disse linda como sempre: Ao ler, lemos a nós mesmos! Eis a salvação, folga meu coração erradio. Até mais ver.

 

[...] ler permite iniciar uma atividade de narração e que se estabeleçam vínculos entre os fragmentos de uma história, entre os quais participam de um grupo e, às vezes, entre universos culturais. Ainda mais quando essa leitura não provoca um decalque da experiência, mas uma metáfora. [...] Ler tem a ver com a liberdade de ir e vir, com a possibilidade de entrar à vontade em um outro mundo e dele sair. Por meio dele o leitor traça a sua autonomia [...].

Trechos extraídos da obra A arte de ler ou como resistir à adversidade (Ed. 34, 2009), da antropóloga francesa Michèle Petit. Veja mais sobre Leitura/Livroterapia & Educação aqui, aqui e aqui.

 



segunda-feira, setembro 03, 2018

CLARICE, NERUDA, BADI ASSAD, COMENIUS, BUCA, ABELHAS & ALTO DO MOURA


ALTO DO MOURA – O aconchego na pisada do triângulo: apesar do frio, qualquer paragem seria, seja onde estivéssemos. Ali tudo é aconchegante, afinal a arte de tudo que se diga ou veja de pesares, a vida nos ares com sonhos folclóricos. Para quem não sabia, ao certo, pra onde é que se ia, tudo bom demais: vivíamos mesmo com o barro nas ruas, a praça dos bonecos e a provisória Biblioteca Comunitária; o sábado aboletado no bar da esquina com a mãe da tocha da Copa, o Memorial de Galdino, o Maracatu e o Boizinho – e tome papo noitardiadentro, a conversa na branca manhã domingueira e viviniciática com Buca, o mistholístico Solar de Lula do Mel, até o Terraço das Meninas, nada perderíamos na memória de tão vivo sentir. O caleidoscópio todo na segunda edição da Festa Literária do Alto do Moura (a FLAL), a gente foi Do barro à lama: Existência e Resistência: exibições culturais, sarau poético, apresentações artísticas de teatro e música, trocas e comercialização de livros com autores e produtores independentes, exposições de imagens e obras artísticas, mostras cinematográficas, palestras, rodas de diálogo, atividades de leitura e contação de história e oficinas para crianças, jovens e adultos, e lá vai teibei no tetéu & cois&tal. Soubemos do que nunca tínhamos visto: Terezinha Gonzaga, Severino Vitalino e João Ezequiel da Silva - o Dão. Também de Nicinha Otília da Silva e, o melhor na chegada do Antonio Lucio da Silva Leite, o Buca, sempre Buca. Até remexemos passos no Clube com o que foi de autoral e fraterno de Daniel Finizola, Drico Correia, Pablo Patriota e Riá Oliveira. O bom mesmo foi privar da companhia na idavolta da professoramiga Ester Rosa (CEEL-UFPE) & musicontroversamigo Celso, e conversado desconversas e coisa e tais com o grande artista Buca, balançar o esqueleto no Maracatu Nação do Barro, descer a ladeira com o Boizinho Menino do Nascedouro entre gente cantante e cores do casario, lápides e banheiros cosmopolitas; trocar ideias com a professora Emília Lins, largar pilhéria com Reginaldo e monitores do Curso de Pedagogia e da Pós-graduação em Educação da UFPE, curtir a contação de história da Cia Agora Eu Era, interagir no Solar das Abelhas com Lula do Mel e fechar a estada no Terraço das Meninas para zarparmos já mortos de saudades da magia de tudo aquilo. O que foi de farra&surpresa&risadagem&sabe-se lá mais auto no alto, horas a fio, ficou inesquecível. Tomara a vida seja sempre assim & vamos aprumar a conversa. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais abaixo e aqui.

RÁDIO TATARITARITATÁ:
Hoje na Rádio Tataritaritatá especial com a música da violonista, cantora, percussionista e compositora Badi Assad: Milenium Stage Live, California World Fest Live, Replay Guitar Exchange & Ao vivo & muito mais nos mais de 2 milhões & 600 mil acessos ao blog & nos 35 Anos de Arte Cidadã. Para conferir é só ligar o som e curtir. Veja mais aqui e aqui.

PENSAMENTO DO DIA – [...] É evidente que cada um de nós imagina com maior facilidade e clareza como é um rinoceronte se já viu algum, mesmo que tenha sido só uma vez ou pelo menos viu sua imagem. Quando nos faltam objetos podemos servir-nos das imagens que os representam, isto é, de modelos ou desenhos concebidos essencialmente para o ensino. [...]. Pensamento do educador, cientista e escritor checo Comenius - Jan Amos Komenský (1592-1670). Veja mais aqui e aqui.

MUDANÇAS NA LINGUA E NA LINGUAGEM - [...] As línguas não se desenvolvem, não progridem, não decaem, nem agem de acordo com nenhuma das metáforas que implicam um ponto final especifico ou um nível de excelência. Ela simplesmente mudam, como as sociedades mudam. Se uma língua morre é porque seu status na sociedade se alterou, na medida em que outras culturas e línguas a sobrepujaram : ela não morre porque “ficou velha demais” ou porque “se tornou muito complicada”, como às vezes se pensa. Também não se deve pensar que, quando as línguas mudam, elas o fazem numa direção predeterminada. Algumas estão perdendo flexões; outras estão ganhando. Algumas estão se fixando, numa ordem em que o verbo precede o objeto; outras, numa ordem em que o objeto precede o verbo. Algumas línguas estão perdendo vogais e ganhando consoantes; outras fazem o oposto. Se formos usar a metáforas para falar da mudança linguística, uma das melhoras é a de um sistema que se mantem num estado de equilíbrio, enquanto as mudanças ocorrem dentro dele. Outra é a da maré, que sempre e inevitavelmente muda, mas nunca progride, enquanto flui e reflui. [...] Trecho extraído da obra Enciclopédia da Linguagem (Cambridge University Press, 1987), do linguista britânico David Crystal. Veja mais aqui.

A LEGIÃO ESTRANGEIRA - [...] Só muito depois, tendo finalmente me organizado em corpo e sentindo-me fundamentalmente mais garantida, pude me aventurar e estudar um pouco; antes, porém, eu não podia me arriscar a aprender, não queria me disturbar – tomava intuitivo cuidado com o que eu era, já que eu não sabia o que era, e com vaidade cultivava a integridade da ignorância. [...] Ia receber de volta uma realidade que não teria existido se eu não a tivesse temerariamente adivinhado e assim lhe dado vida. [...] O fato é que, tendo uma vez se encontrado na parte secreta deles mesmos, resultara na tentação e na esperança de um dia chegar ao máximo. Que máximo? [...] Foi quando, tendo minha família se mudado para São Paulo, e ele morando sozinho, pois sua família era do Piauí, foi quando o convidei a morar em nosso apartamento, que ficara sob a minha guarda. [...]. Trechos extraídos da obra A legião estrangeira (Autor, 1964), da escritora e jornalista Clarice Lispector (1920-1977). Veja mais aqui e aqui.

CAVALEIRO SOLITÁRIO - Os jovens homossexuais e as moças amorosas, / e as longas viúvas que sofrem a delirante insônia, / e as jovens senhoras emprenhadas faz trinta horas, / e os gatos roucos que cruzam meu jardim em trevas, / como um colar de palpitantes ostras sexuais / rodeiam minha residência solitária, / como inimigos estabelecidos contra a minha alma, / como conspiradores em trajes de dormitório / que trocaram longos beijos espessos como instruções. / O radiante verão conduz os enamorados / em uniformes regimentos melancólicos, / feitos de gordos e magros e alegres e tristes casais: / sob os elegantes coqueiros, junto ao oceano e à lua, / há uma contínua vida de calças e saias, / um rumor de meias de seda acariciadas, / e seios femininos que brilham como olhos. / O pequeno empregado, depois de muito, / depois do tédio semanal, e os romances lidos de noite na cama / definitivamente seduziu sua vizinha, / e a leva para miseráveis cinemas / onde os heróis são potros ou príncipes apaixonados, / e acaricia suas pernas cheias de um doce pelo / com suas ardentes e úmidas mãos que cheiram a cigarro. / Os entardeceres do sedutor e as noites dos esposos / unem-se como dois lençóis me sepultando, / e as horas depois do almoço em que os jovens estudantes / e as jovens estudantes, e os sacerdotes se masturbam, / e os animais fornicam diretamente, / e as abelhas cheiram a sangue, e as moscas zumbem coléricas, / e os primos brincam estranhamente com as suas primas, / e os médicos olham com fúria para o marido da jovem paciente, / e as horas da manhã em que o professor, como por descuido, / cumpre o seu dever conjugal e toma o café, / e ainda mais, os adúlteros que se amam com verdadeiro amor / sobre leitos altos e longos como embarcações; / seguramente, eternamente me rodeia / este grande bosque respiratório e enredado / com grandes flores como bocas e dentaduras / e negras raízes em forma de unhas e sapatos. Poema extraído da obra Residência na Terra - 1925-1935 (LPM, 2004), do poeta chileno Pablo Neruda (1904-1973). Veja mais aqui.

SOLAR DAS ABELHAS
Projeto de iniciativa do biólogo, especialista em genética de abelhas e pós-graduado em Saúde Pública e Apicultura, Lula do Mel (João Luiz Aleixo da Silva), no Parque de Serra dos Cavalos, Alto do Moura, Caruaru (PE), uma importante contribuição para reflexão sobre meio ambiente e educação ambiental. Veja mais aqui.

AGENDA
Biblioteca Comunitária do Alto do Moura & muito mais na Agenda aqui.
&
A arte de Buca (Antônio Lúcio leite)
&
O Espaço Cultural Terraço das Meninas – Alto do Moura
&
A plenitude da vida, Hermilo Borba Filho, Thomas de Kempis, Nelson Chaves, Pierre Bourdieu, Nicomedes Gomez, Ensino & Aprendizagem, Sexo & Sexualidade, Colégio Estadual Eliseu Pereira de Melo, Instituto Educacional São Francisco de Assis, Ricardo Onorato & Biblioteca Fenelon Barreto aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
Veja mais aqui.


quarta-feira, janeiro 31, 2018

CLARICE, ROSEMONDE, THOMAS KUHN, BASIL BERNSTEIN, ANTONIO MADUREIRA, MIRIAM LEMLE, ROSANA PAULINO, YARA, JULES FEIFFER & THATHI

XEMENEXEM ENCARNA QUIXOTE! -  Imagem: As filhas de Eva (2014), da artista visual Rosana Paulino. - Xemenxem despertou atordoado com a abertura das cortinas para entrada do dia e a faxina que a funcionária realizava no seu quarto. Olhos aboticados de zarolho, ele deu de cara logo com o bundão da serviçal quase na sua venta, remexendo o corpo com a varrição e nas coisas para arrumação. Boquiaberto pensava consigo: Isso é que é um desmantelo de mulher. Espichou o pescoço e conferiu dos pés à cabeça: Essa camareira é de endoidar um, vai ser gostosa assim aqui na minha cama. Como se seu pensamento falasse em voz alta, logo ela se virou: Ah, acordou, bonitão? Seu quarto já está pronto, roupa limpa e lavada na gaveta e, quando quiser, pode descer pro café da manhã. Mais arregalado ficou quando viu os seios fartos no decote, de ficar imóvel de boca aberta por um bocado de tempo. Ela então balançou as mãos às vistas dele para ver se olhos piscavam e ele lá, imobilizado pelo impacto daquele corpanzil sedutor. Ei, quer se levantar para eu arrumar a cama? Posso não, enfermeira. Como não pode? Estou em estado interessante. Como assim? Ele se encolheu abraçado nos joelhos ao peito, insistindo: Posso não! Vamos, homem, é hora do café da manhã. A tesão do mijo não deixa. Ah, safadinho, você é bonitão, vou buscar lençol e fronha enquanto você se recupera. E saiu. Ele apressou-se pro sanitário, deu uma mijada demorada, aliviando-se. De repente ela entra, invade o banheiro para pendurar a toalha, ao vê-lo indefeso protegendo os seus guardados, havia sustado a micção e estava segurando com tudo de fora. Ela passou um rabo de olho e saiu. Ufa! Foi por pouco, hem? Acalmou-se e urinou por uns dez minutos ininterruptos. Eita! A bexiga estava cheia, hem? Agora, sim, posso ir pro café da manhã. Cheirou as axilas, os braços, as mãos, os pés, a cueca, nada fedia, então foi. Desceu a escadaria e ao chegar à praça da alimentação, deparou-se com uma multidão: Isso é gente como a praga! O hotel deve ser dos bons mesmo. E desceu, entrou na fila olhando os demais hóspedes, todos de pijama como ele, escolhiam sua comida. Depois de um bom tempo, chegou sua vez: Hummmm, cuscuz, salsichas, queijo, pão, café com leite, ah, posso vir depois buscar mais? Pode. Então tá. Pegou a bandeja e dirigiu-se para a primeira mesa vazia, bateu palma, psiu e gritou: Atenção, todos! Senhoras e senhores, ladys e gentlemans! Fez-se silêncio. Ham, ham. Pra quem não me conhece - pigarreia, imposta a voz: Sou Jerry Xemenexem! Aplausos. Uma jovem levantou-se aplaudindo: Nome de artista, hem? Mais aplausos. Sim, sim, obrigado. Mais aplausos. Obrigado. Sou cantor, compositor, ator e cineasta, por enquanto, para não abusar dos meus dotes artísticos. Aplausos. Obrigado, obrigado. Estou nesse hotel para selecionar elenco pro meu próximo filme. Os interessados, comparecerem ao apartamento 37, para os testes. Obrigado, bom apetite e um bom dia para todos. Obrigado. Foi uma gritaria: Eu! Eu! Eu! Eu! Eu! Eu! Calma, minha gente, tem espaço para todos no elenco. Só a partir das 11 horas que começo os testes, daqui pra lá, comam bem e estejam prontos. Saravá! E encarou a comilança, repetindo o prato umas três vezes e só não mais pela quarta, porque um dos cozinheiros fez uma cara feia e ele resolveu recolher-se ao seu quarto. Mal se deitou, entrou uma senhora já de idade, muito simpática, risonha e acompanhada duns 15 gatos. Bom dia. Bom dia. O senhor é? Sou Jerry Xemenexem, seu criado ao dispor. Ah, nome de artista. E sou mesmo. Muito bem. O que o senhor mais gosta? Na verdade, o que mais gosto é de cantar, mas componho, filmo, atuo, faço de tudo um pouco, sou multiuso. Muito bem. E pra comer? Adoro galinha guisada, meu prato preferido. De si para si, pensou: Ah, deve ser a nutricionista, hotel dos bons mesmos. Enquanto pensava, ela falou abrindo um caderno de anotações tirado do bolso: Conte-me sua vida... aí ele debulhou que era um entre 29 irmãos, 9 da mãe dele – santa dona Zefinha, veneração genuflexa com todas as orações dos céus e da terra  -, 13 da Lurdinha e 7 da Valdinete, todos irmãos por parte de pai. Isso não é um pai, é um garanhão fodedor! Gostei do nome, quando eu comprar minha Ferrary, vou apelidá-la de garanhão fodedor. Ah, mas continuando: que dessa tuia de irmãos, 16 são fêmeas de honrar as saias – tem uma que é bem doidinha, sei não, e 4 são meninas ainda - e os demais, uns machos e outros nem tanto assim, porque 5 são franguinhos ainda, afora dois que dão sinais de desmunhecar mesmo. Como é o nome do seu pai? Zé Xemenexem, mas só o chamam de Zé Flor, não sei por que, pois ele catinga que só, não sei como elas aguentam a fedentina, mas deve ser por ser aquele que tem três maridas, coisas de apelido mesmo. Você não gosta dele? Bem, gostar de mesmo, muito não, ele é rude, trata a gente na base do tapa-olho, bofete no maluvido e dedada no furico. As meninas, também? Oxe, não escapa umazinha sequer! O prazer dele é enfiar o dedão no cu de levantar a gente pra balançar as pernas soltas no ar e depois ficar cheirando o dedo, amolegando a peia. E olhe que o dedão dele é daqueles bem engrossado, viu? É quando ele dá risadas de gargalhar. Afora isso, é todo bruto a dar lapadas, cascudos, beliscões e corretivos em quem passar por perto. E a sua mãe? Ah, a minha mãe é uma santa. E as outras duas? Ah, são de lua! Um dia de careta, dois de xingamentos e, uma vez na vida, os dentes abrem, mas não muito, logo piram e viram o diabo. Sei. O senhor tem algum problema? Tenho. Qual é? Queria ter um dinheirinho pra comprar cigarro, a senhora empresta? Ela meteu a mão no bolso do jaleco, puxou duas cédulas e entregou pra ele. Obrigado, minha senhora, sou-lhe devedor pro resto da vida. De nada. Agora descanse pro almoço, amanhã a gente se vê nessa mesma hora. Bom dia. Mal ela saiu, apareceram dois olhos na beira da porta, que se escondiam e reapareciam. Entre. Pareciam brincar. Ele levantou-se e pegou o brincalhão pelas orelhas: Diga. Eu vim pro teste do cinema. Ótimo, como é seu nome? Napoleão. Muito bem, Napoleão, o que você faz da vida? Nada. Como nada? Sou o imperador, Napoleão Bonaparte. Ah, tá. Só isso? Posso ser Dom Pedro I, quer? Não, basta ser Napoleão mesmo. Já fez cinema? Bem, fazer de mesmo, não, mas eu corria na rua e meu primo batia umas fotos pruns monóculos, quer ver? Não. Já está quase na hora do almoço, enquanto isso me conte sua vida de artista. E saíram confabulando quando uma bela jovem esbarrou nele, ao se virar ele imaginou estar diante de uma dessas atrizes excêntricas com vestes estranhas – na verdade, ela estava descalça, descabelada e enrolada nos lençóis -, tudo fazendo crer uma grande atriz. Ela esticou o pé e levantou a perna, e ele: Pés de atriz, pernas de atriz, joelhos de atriz – aí ela soltou o vestido impedindo de que ele continuasse a examinar, esticando o braço e expondo a mão, e ele: dedos de atriz, mãos de atriz, pulso de atriz, braço de atriz, até muque de atriz ela tem, está vendo Napoleão? Ela fechou os braços e ele: Cabelo de atriz, testa de atriz, bochechas de atriz, olhos de atriz, nariz de atriz, lábios de atriz e... Ela fazia biquinho pra ele e, não teve dúvidas, foi lá e deu uma bitoca nela, dele tomar um susto na hora! O que é que é isso, meu Deus? Não é uma atriz, é uma deusa, é a Dulcineia del Toboso, a dona do meu coração. Fez uma mesura cavalheiresca e, qual Dom Quixote, convidou-a pra jantar! Ela aceitou. Então vamos, deram-se os braços e Napoleão acompanhou-os como se fora Sancho Pança. Sentaram-se elegantemente e ficaram aguardando o atendimento, ninguém apareceu. Sancho, meu fiel escudeiro, procure um garçon para nos servir e diga que não atrasem com a ceia. Mas, meu mestre, ainda não é nem meio-dia? Não discuta, Sancho. Com a saída de Sancho, ela se levanta com um olhar tentador, abre o vestido e mostra-se completamente nua. Ele não resistiu e voou em cima dela, vuque-vuque ali mesmo, impado, chamego, ali deitados no chão, dela estremecer toda, gritar enloquecida até desmaiar. E ele resfolegante, inquieto no maior ajeitado, estertorando numa tremedeira braba, sentiu gozar depois de semanas e meses na secura das mãos, saçaricando em cima dela, empurrando-se, espremendo-a, cavoucar, pelejar, e no maior estupor, quedou vertiginosamente até cair duro espalhado sobre ela e ali, sobre o macio dela, rendeu-se em sono profundo. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.

RÁDIO TATARITARITATÁ:
Hoje na Rádio Tataritaritatá é dia de especial com o violonista, maestro e compositor Antonio José Madureira: Violão, Instrumentos populares do Nordeste & Rosa Armorial; a cantora, compositora, guitarrista e multi-instrumentista Thathi: Recomece, Um dia a mais & Jardim japonês; & muito mais nos mais de 2 milhões de acessos ao blog & nos 35 Anos de Arte Cidadã. Para conferir é só ligar o som e curtir.

PENSAMENTO DO DIA –[...] Tal como os artistas, os cientistas criadores precisam, em determinadas ocasiões, ser capazes de viver um mundo desordenado [...] essa necessidade [...] é a “tensão essencial” implícita na pesquisa científica. [...]. as mudanças de paradigma realmente lebam os cientistas a ver o mundo definido por seus compromissos de pesquisa de uma maneira diferente. Na medida em que seu único acesso a esse mundo dá-se através do que vêem e fazem, poderemos ser tentados a dizer que, após uma revolução, os cientistas reagem a um mundo diferente. [...]. Trechos extraídos da obra A estrutura das revoluções científicas (Perspectiva, 1998), do físico e filósofo da ciência estadunidense Thomas Kuhn (1922-1996). Veja mais aqui.

USO DA LÍNGUA NA ESCOLA – [...] A sua missão não é a de fazwer com que os educandos abandonem o uso de sua gramática “errrada” para a substituírem pela gramática “certa”, e sim a de auxili´-alos a adquirirem, como se fora uma segunda língua, competência no uso das formas lingüísticas da norma socialmente prestigiada, à guisa de um acrescimento aos usos lingüísticos regionais e coloquiais que já domunam. A noção essencial aí é a de adequação: existem usos adequados a um dado ato de comunicação verbal, e usos que são socialmente estighmatizados quando usados fora do contexto apropriado. A comparação com as regras de uso de vestimenta é esclarecedora: assim como difere o tipo de roupa a ser usada segundo o tpo de ocasião social, também diferem segundo a ocasião social as características da linguagem apropriada. Ficam socialmente estigmatizados os falantes inadimplentes às regras tácitas do jogo, tal como as pessoas que não cumprem as convenções sociais. Trecho de Heterogeneidade dialetal: um apelo à pesquisa (Tempo Brasileiro, abr/sey, 1978), da linguista e professora Miriam Lemle. Veja mais aqui.

MONÓLOGO DE POPULAREu pensava que era pobre. Aí, disseram que eu não era pobre, eu era necessitado. Aí, disseram que era autodfesa eu me considerar necessidade, eu era deficiente. Aí, disseram que deficiente era uma péssima imagem, eu era carenta. Aí, disseram que carente era um termo inadequado. Eu era desprivilegiado. Até hoje eu não tenho um tostão, mas tenho já um grande vocabulário. Extraído de cartum do humorista, escritor, cenógrafo e cartunista estadunidense Jules Feiffer. Veja mais aqui.

MÃE & FILHO NO ÔNIBUSPrimeiro diálogo - Mãe: Segure firme, querido. Criança: Por quê? Se você não segurar, vai ser jogado para a frente e vai cair. Por quê? Porque se o ônibus parar de repente, você vai ser jogado no banco da frente. Por quê? Agora, querido, segure firme e não crie caso. Segundo diálogo - Mãe: Segure firme. Criança: Por quê? Segure firme. Por quê? Segure firme. Por quê. Você vai cair. Por quê? Eu mande você segurar firme, não mandei? Trecho da obra Estrutura social, linguagem e aprendizagem (Queiroz, 1982), do sociólogo britânico Basil Bernstein (1924-2000).

O PRIMEIRO BEIJO –[...] De olhos fechados entreabriu os lábios e colou-os ferozmente ao orifício de onde jorrava a água. O primeiro hole fresco desceu, escorrendo pelo peito até a barriga. Era a vida voltando, e com esta encharcou todo o seu interior arenoso até se saciar. Agora podia abrir os olhos. Abriu-os e viu bem junto de sua cara dois olhos de estatua fitando-o e viu que era a estatua de uma mulher e que era a boca da mulher que saia a água. Lembrou-se de que realmente ao primeiro gole sentira nos lábios um contato gélido, mais frio do que a água. E soube então que havia colado sua boca na boca da estatua da mulher de pedra. A vida havia jorrado dessa boca, de uma boca para outra. Intuitivamente, confuso na sua inocência, sentia-se intrigado: mas não é de uma mulher que sai o liquido vivificador, o liquido germinador da vida... olhou a estátua nua. Ele a havia beijado. [...] Perturbado, atônito, percebeu que uma parte de seu corpo, sempre antes relaxada, estava agora com uma tensão agressiva, e isso nunca lhe tinha acontecido. Estava de pé, docemente agressivo, sozinho no meio dos outros, de coração batendo fundo, espaçado, sentindo o mundo se transformar. A vida era inteiramente nova, era outra, descoberta com sobressalto. Perplexo, num equilíbrio frágil. Até que, vinda da profundeza de seu ser, jorrou uma fonte oculta nele a verdade. Que logo o encheu de susto e logo também de um orgulho antes jamais sentido: ele... Ele se tornara homem. Trechos extraídos da obra O primeiro beijo & outros contos: antologia (Ática, 1995), da escritora e jornalista Clarice Lispector (1920-1977). Veja mais aqui e aqui.

VERSOS AO BEM AMADOSe me disseres que se pressente / o hálito sutil da borboleta / ao adejar sobre as flores; / que foi achada a sandália de cristal / que, em sua fuga, Cendrillon perdeu... / se me disseres que a poesia é prosa; / que à mulher se pode confiar segredos; / que os lírios falam; / que o azul é róseo... / se me disseres que o astro luminoso / ao vagalume rouba o seu lugar; / que o Sol não passa de uma joia rara / que a Noite usa presa em seus véus;/ se me disseres que não existe mais / uma só amora à bera das estrdas; / que as penas d’um beija-flor são mais pesadas / que as penas dum coração... / quando me falas foge a tristeza, vencida, escravizada. / Se me disseres que a Ventura existe, e que me adoras... - / Vê que absurdo, amor! / eu te crerei. Poema da poeta e atriz francêsa Rosemonde Gérard (1866-1953).

YARA: O FASCINIO IRRESTIVEL DA MULHER
Yara, linda mulher cor de jambo, de traços finos e de figura soberba, vivia passeando pelas praias do Amazonas. Gostava de banhar-se em igarapés tranqüilos e de águas claras. Os jovens seguiam para conquistar-lhe a atenção e, com a atenção, o coração. Os velhos a olhavam com olhares languidos, sabendo de antemão da impossibilidade de qualquer favor. Yara via e sentia tudo. mas se dava demasiada importância, negando-se a todos. Passva, altaneira, como se desfilasse, solitária, diante de uma multidão de admiradores.  Fazia ouvidos moucos tanto aos elogios educados de alguns quanto aos assobios atrevidos de outros. Certo dia, o sol já posto, estava a linda Yara divertindo-se inatenta nas águas corredias do igarapé que mais apreciava. O tempo corria e ela se entregava ao prazer do corpo que emergia, ainda mais fascinante, do borbulhar das águas. Eis que escutou vozes barulhentas se aproximando. Não eram de seus irmãos e irmãs da tribo. Voltando-se, viu que eram homens brancos. Falavam uma língua estranha, com sons de agressividade. Traziam botas pesadas e roupas rudes. Seus olhares eram de cobiça e não de enternecimento. Pareciam animais famintos. As vozes em sua direção se faziam ameaçadorass. Yara, feminina, tudo pressentiu. Tentou fugir. Seu corpo era escorregadio e ela ágil. Mas mãos fortes a agarraram. Eram muitas. Todas a tocavam em todas as partes. A intimidade foi ameaçada. Com violência foi jogada ao chão. as areaias, antes macias, agora pareciam espinhos. Yara foi amordaçada e imobilizada. Por fim, violada por todos, um após o outro, em fila. Yara desmaiou. Parecendo morta, foi jogada ao rio. Os homens animalizados se afastaram no escuro da mata. Fez-se noite. O Espírito das águas teve imensa pena de Yara. Acolheu seu corpo machucado. Inspirou-lhe vida e devolveu-lhe todo o esplendor de sua beleza. Mas, para que não pudesse nunca mais ser violada, transformou-a em sereia. Metade do seu corpo, a parte de cima, de mulher, fascinante, de olhos de mel e de cabelos longos luzidios. Os homens sentir-se-ão atraídos por eçla. Jogar-se-ão atrevidos e loucos às águas para agarrá-la, abraçá-la e beijá-la. Mas a outra metade do corpo, a de baixo, escondida nas águas, tem a forma de peixe. Com isso pode viver sempre nas águas como em sua casa. Conversa com os peixes grandes e pequenos, que brincam ao seu redor, beliscando-lhe inocentemente a pele cor de jambo. Mas ai daqueles que lhe quiserem fazer mal, agarrá-la com violência e arrancar-lhe o afeto. Yara os tome, firme, pelas mãos e os leva, como se estivessem enfeitiçados para as águas profundas. E nunca se ouviu dizer que alguém voltou de lá vivo.
Entraído da obra O casamento entre o céu e a terra: contos dos povos indígenas do Brasil (Salamandra, 2001), do escritor, teólogo e professor universitário Leonardo Boff. Imagem: Art by Yara Damian. Veja mais aqui e aqui.

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