ZÉ GULU & A TRUPE DOS
COSCUVILEIROS – Imagem: Encuentro,
da artista plástica e arte-educadora Regina
Silveira. - A trupe dos coscuvilheiros não se entendia, nem havia jeito no
meio de tanta leseira. O que tinha de mutreta, tinha de pacutia. É que a patota
reunida – respeite o time: Doro, Zé-Corninho, Robimagaiver, Afredo, Mamão,
Biritoaldo e Zé Bilola -, discutia como ganhar umas bufunfas a mais no pé do
cipa e, cada qual, com suas mirabolantes ideias inúteis: nenhuma delas
proveitosas, nem serventia pro que queriam, muito menos. Só se ouvia o estrupício:
Ah, vai lamber sabão, fi-duma-égua. Xô pra lá, ranheta! Lubrifica a gaia que é melhor,
corno! Vamos organizar essa zona, comboio de fresco! E por aí vai. Pelo visto, como
não se entendiam, foram ter com quem? O doutor Zé Gulu, naturalmente. E lá
estava ele debruçado sobre aquele calhamaço da coleção desaparecida, quando os
intrépidos arrodearam a mesa dele, cheios de interrogações. Nessa hora, assim
que viram os intrigantes se aproximarem do sabichão, Tomé e Zé Peiúdo engrossaram
o caldo pra pegar carona na coisa. Doutor Zé Gulu, como vai o senhor? O que
vocês querem? A gente quer ser, assim, tipo especialista, sabe? Assim sabido e
todo taful feito o senhor, ganhando uns cascaios pra nossa salvação, sacumé?
Não, não sei. Assim, graduado feito o senhor. Como assim? Oxe, doutor, o senhor
sabe. Sei não. Assim tipo machucho, bargado e posudo bacharel, cheio das
granas. Ah, vão arrumar o que fazer! Ah, doutor, só o senhor pode nos ajudar! Não
sei não. Sabe, doutor, a gente quer ser assim sábio como o senhor. Sábio? Sim! O
senhor sabe de tudo! Ah, sei não, muitos anos de universidade, com mestrado e
doutoramento no exterior, mais de quarenta e cinco anos de banca de estudo e,
ainda hoje, não sei de nada. Sabe, sim, doutor, ajude a gente, com isso que o
senhor disse, mas sem escola. Como? Veja só, explico, doutor, olhe pra gente: o
Zé-Corninho mesmo, o nome já diz: faz uma tuia de coisa imprestável, mas só
sabe mesmo é ser corneado. O Robimagaiver, valha-me, só tem faro e só faz
merda! O Afredo, coitado, só sabe queimar o toba. O Mãmão é um ré-pra-trás. Zé
Bilola é um jumento pau mandado! O Birito, uma lástima. Esses outros, nem se
fala. Eu sou o único: a bola que ninguém nunca chutou. Então, a gente quer folgar
cheio das gaitas feito os especialistas diplomados. Ah, tá. Ora, é só ir pra
escola, fazer o madureza – ou Artigo 99, sei lá mais como se chama! Ah, tipo
Educação de Jovens e Adultos (EJA) -, depois fazer o vestibular, entrar numa
faculdade, se graduar, se especializar, fazer um mestrado e, no fim, um
doutoramento, se preparando mesmo para ler muitos livros e participar de muitos
debates e seminários. Eita, doutor! A gente quer ser especialista sem ter que
ler nada, doutor! Assim, na moleza, sabe? Não, não sei. Assim... Olhem, não
conheço nenhum gênio que tenha chegado a tal, sem passar por tudo isso,
queimando as pestanas nos livros por noites e dias, pesquisando, anotando,
virando a noite pelo dia. Sim, sei, doutor, mas veja... Ninguém ganha
competência e sabedoria assim do nada. Sei, doutor. Não há como ser de forma
diferente, tem que passar por tudo isso. Sei, doutor. Ah, num tem onde comprar
isso não? Tem ghost writer pra tudo!
O quê? Ah, deixa pra lá, esqueci a impressão digital de vocês. Sabe, doutor, a
gente quer assim tipo nariz empinado, rei na barriga, metido a falar difícil,
essas coisas. Ah, tem tanto doutor marca bosta por aí, só sabe ganhar dinheiro
engalobando e enchendo os outros de nó pelas costas, e vocês ainda querem
empiorar o negócio, é? Isso, doutor, daquele tipo que aprendeu sem se ensinar! É
isso que vocês querem, é? Se não tiver esse negócio de estudo, a gente topa! Ah,
meus amigos, já dizia Habermas: Não pode haver intelectuais se não há leitores!
Quem? Ele saiu arretado e deixou todos falando sozinho. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja
mais aqui.TATARITARITATÁ: VAMOS APRUMAR A CONVERSA - Literatura, Teatro, Música & Pesquisas de Luiz Alberto Machado (LAM). Show, cantarau, recital, palestras, oficinas, dicas & informações. Contato & Chave Pix: luizalbertomachado@gmail.com
quinta-feira, maio 10, 2018
UNAMUNO, MEREDITH, BOFF, REGINA SILVEIRA, EHRENZWEIG, DIEGO RIBEIRO & GABRIELA MONTERO
ZÉ GULU & A TRUPE DOS
COSCUVILEIROS – Imagem: Encuentro,
da artista plástica e arte-educadora Regina
Silveira. - A trupe dos coscuvilheiros não se entendia, nem havia jeito no
meio de tanta leseira. O que tinha de mutreta, tinha de pacutia. É que a patota
reunida – respeite o time: Doro, Zé-Corninho, Robimagaiver, Afredo, Mamão,
Biritoaldo e Zé Bilola -, discutia como ganhar umas bufunfas a mais no pé do
cipa e, cada qual, com suas mirabolantes ideias inúteis: nenhuma delas
proveitosas, nem serventia pro que queriam, muito menos. Só se ouvia o estrupício:
Ah, vai lamber sabão, fi-duma-égua. Xô pra lá, ranheta! Lubrifica a gaia que é melhor,
corno! Vamos organizar essa zona, comboio de fresco! E por aí vai. Pelo visto, como
não se entendiam, foram ter com quem? O doutor Zé Gulu, naturalmente. E lá
estava ele debruçado sobre aquele calhamaço da coleção desaparecida, quando os
intrépidos arrodearam a mesa dele, cheios de interrogações. Nessa hora, assim
que viram os intrigantes se aproximarem do sabichão, Tomé e Zé Peiúdo engrossaram
o caldo pra pegar carona na coisa. Doutor Zé Gulu, como vai o senhor? O que
vocês querem? A gente quer ser, assim, tipo especialista, sabe? Assim sabido e
todo taful feito o senhor, ganhando uns cascaios pra nossa salvação, sacumé?
Não, não sei. Assim, graduado feito o senhor. Como assim? Oxe, doutor, o senhor
sabe. Sei não. Assim tipo machucho, bargado e posudo bacharel, cheio das
granas. Ah, vão arrumar o que fazer! Ah, doutor, só o senhor pode nos ajudar! Não
sei não. Sabe, doutor, a gente quer ser assim sábio como o senhor. Sábio? Sim! O
senhor sabe de tudo! Ah, sei não, muitos anos de universidade, com mestrado e
doutoramento no exterior, mais de quarenta e cinco anos de banca de estudo e,
ainda hoje, não sei de nada. Sabe, sim, doutor, ajude a gente, com isso que o
senhor disse, mas sem escola. Como? Veja só, explico, doutor, olhe pra gente: o
Zé-Corninho mesmo, o nome já diz: faz uma tuia de coisa imprestável, mas só
sabe mesmo é ser corneado. O Robimagaiver, valha-me, só tem faro e só faz
merda! O Afredo, coitado, só sabe queimar o toba. O Mãmão é um ré-pra-trás. Zé
Bilola é um jumento pau mandado! O Birito, uma lástima. Esses outros, nem se
fala. Eu sou o único: a bola que ninguém nunca chutou. Então, a gente quer folgar
cheio das gaitas feito os especialistas diplomados. Ah, tá. Ora, é só ir pra
escola, fazer o madureza – ou Artigo 99, sei lá mais como se chama! Ah, tipo
Educação de Jovens e Adultos (EJA) -, depois fazer o vestibular, entrar numa
faculdade, se graduar, se especializar, fazer um mestrado e, no fim, um
doutoramento, se preparando mesmo para ler muitos livros e participar de muitos
debates e seminários. Eita, doutor! A gente quer ser especialista sem ter que
ler nada, doutor! Assim, na moleza, sabe? Não, não sei. Assim... Olhem, não
conheço nenhum gênio que tenha chegado a tal, sem passar por tudo isso,
queimando as pestanas nos livros por noites e dias, pesquisando, anotando,
virando a noite pelo dia. Sim, sei, doutor, mas veja... Ninguém ganha
competência e sabedoria assim do nada. Sei, doutor. Não há como ser de forma
diferente, tem que passar por tudo isso. Sei, doutor. Ah, num tem onde comprar
isso não? Tem ghost writer pra tudo!
O quê? Ah, deixa pra lá, esqueci a impressão digital de vocês. Sabe, doutor, a
gente quer assim tipo nariz empinado, rei na barriga, metido a falar difícil,
essas coisas. Ah, tem tanto doutor marca bosta por aí, só sabe ganhar dinheiro
engalobando e enchendo os outros de nó pelas costas, e vocês ainda querem
empiorar o negócio, é? Isso, doutor, daquele tipo que aprendeu sem se ensinar! É
isso que vocês querem, é? Se não tiver esse negócio de estudo, a gente topa! Ah,
meus amigos, já dizia Habermas: Não pode haver intelectuais se não há leitores!
Quem? Ele saiu arretado e deixou todos falando sozinho. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja
mais aqui.quarta-feira, abril 25, 2018
LYGIA CLARK, BOFF, ROSSETTI, PETER BERGER, BALINT, ROBERTO MINCZUK & NILZE CARVALHO, SAÚDE & INCLUSÃO.
SAÚDE: QUEM É QUEM NO BRASIL - Gentamiga, vamos
aprumar a conversa! Do mesmo modo como promovem a tragédia da educação
brasileira, também a saúde é envolvida por um sistema perverso que a faz
ineficiente. Já falei aqui a respeito, mas quero botar de
novo o dedo na ferida. A coisa é muito simples, só botar a cachola para
funcionar: o Ministro da Saúde é escolhido por um conluio entre políticos e um pool formado por segmentos
interesseiros, como os dos planos de saúde, os da cadeia produtiva da rede
hospitalar privada e os dos que querem levar vantagem em tudo, urubus sobre a
nossa carniça. Com a escolha do nome para o Ministério, também vão junto
aqueles que vão compor a gestão do SUS, da ANS e de todo sistema de saúde
pública. Trocando em miúdos: raposas soltas no galinheiro. A desgraceira vai se
amontoando com quem vai para as secretarias de saúde dos Estados e Municípios
brasileiros: ou médicos, ou políticos ligados à rede hospitalar privada. E
esses ocupantes vão inviabilizar todo sistema público para que todos nós
recorramos à rede privada de saúde. Certo? Por outro lado, a bem da verdade, é
preciso saber que o SUS é copiado e implantado em todo mundo justamente porque
dá certo, só que no Brasil, não. E por que não? Isso é Brasil, onde as coisas
são problematizadas, embananadas, complicadas e, acima de tudo, não muito bem
ou quase nunca entendidas ou esclarecidas pelo tanto de confusão que se fomenta
nos gabinetes palacianos com leis, normas, regras, portarias e procedimentos. Ou
seja, tem que deixar a coisa pra lá de contraproducente para que ninguém dê
conta do pandemônio. Pra aumentar mais ainda o desacerto, há o fato de que o
sistema securitário brasileiro sempre foi superavitário, quando os seus
componentes dão prejuízo, ou seja, são deficitários. Dá pra entender? Pois é,
pra quem não sabe, o Sistema de Seguridade Social é justamente formado por
Saúde, Previdência e Assistência Social. E isso com meio mundo de gente
provando por a+b que todo sistema é superavitário, porque todo ano ocorre a
transferência dos 20% referentes à Desvinculação das Receitas da União (DRU) –
vide aqui.
Mas, como é que pode? No Brasil pode tudo! Todas
as gestões quando não apenas incompetentes, são ocupadas justamente por quem
não quer que nada dê certo no Brasil. Percebeu? Acredito que sim, tanto é que agora
dá pra sacar de verdade os escândalos que a Polícia Federal acha um bocado de
malas e colchões, tudo entupido com milhões e zilhões de dinheiro em espécie
por aí na casa de algumas autoridades ou prosélitos do sistema governamental
brasileiro. Entendeu ou quer que eu desenhe? Não há outra constatação: a
educação e a saúde são a tragédia porque estamos no Reino da Espórtula do
Brasilsilsilsilsil. Agora é que a coisa pega, vamos ou não aprumar a conversa,
gente? © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.quarta-feira, janeiro 31, 2018
CLARICE, ROSEMONDE, THOMAS KUHN, BASIL BERNSTEIN, ANTONIO MADUREIRA, MIRIAM LEMLE, ROSANA PAULINO, YARA, JULES FEIFFER & THATHI
XEMENEXEM
ENCARNA QUIXOTE! - Imagem: As filhas de
Eva (2014), da artista visual Rosana
Paulino. - Xemenxem despertou atordoado com a
abertura das cortinas para entrada do dia e a faxina que a funcionária
realizava no seu quarto. Olhos aboticados de zarolho, ele deu de cara logo com
o bundão da serviçal quase na sua venta, remexendo o corpo com a varrição e nas
coisas para arrumação. Boquiaberto pensava consigo: Isso é que é um desmantelo
de mulher. Espichou o pescoço e conferiu dos pés à cabeça: Essa camareira é de
endoidar um, vai ser gostosa assim aqui na minha cama. Como se seu pensamento
falasse em voz alta, logo ela se virou: Ah, acordou, bonitão? Seu quarto já
está pronto, roupa limpa e lavada na gaveta e, quando quiser, pode descer pro
café da manhã. Mais arregalado ficou quando viu os seios fartos no decote, de
ficar imóvel de boca aberta por um bocado de tempo. Ela então balançou as mãos
às vistas dele para ver se olhos piscavam e ele lá, imobilizado pelo impacto
daquele corpanzil sedutor. Ei, quer se levantar para eu arrumar a cama? Posso
não, enfermeira. Como não pode? Estou em estado interessante. Como assim? Ele
se encolheu abraçado nos joelhos ao peito, insistindo: Posso não! Vamos, homem,
é hora do café da manhã. A tesão do mijo não deixa. Ah, safadinho, você é
bonitão, vou buscar lençol e fronha enquanto você se recupera. E saiu. Ele
apressou-se pro sanitário, deu uma mijada demorada, aliviando-se. De repente
ela entra, invade o banheiro para pendurar a toalha, ao vê-lo indefeso
protegendo os seus guardados, havia sustado a micção e estava segurando com
tudo de fora. Ela passou um rabo de olho e saiu. Ufa! Foi por pouco, hem?
Acalmou-se e urinou por uns dez minutos ininterruptos. Eita! A bexiga estava
cheia, hem? Agora, sim, posso ir pro café da manhã. Cheirou as axilas, os
braços, as mãos, os pés, a cueca, nada fedia, então foi. Desceu a escadaria e
ao chegar à praça da alimentação, deparou-se com uma multidão: Isso é gente
como a praga! O hotel deve ser dos bons mesmo. E desceu, entrou na fila olhando
os demais hóspedes, todos de pijama como ele, escolhiam sua comida. Depois de
um bom tempo, chegou sua vez: Hummmm, cuscuz, salsichas, queijo, pão, café com
leite, ah, posso vir depois buscar mais? Pode. Então tá. Pegou a bandeja e
dirigiu-se para a primeira mesa vazia, bateu palma, psiu e gritou: Atenção,
todos! Senhoras e senhores, ladys e gentlemans! Fez-se silêncio. Ham, ham. Pra
quem não me conhece - pigarreia, imposta a voz: Sou Jerry Xemenexem! Aplausos.
Uma jovem levantou-se aplaudindo: Nome de artista, hem? Mais aplausos. Sim,
sim, obrigado. Mais aplausos. Obrigado. Sou cantor, compositor, ator e
cineasta, por enquanto, para não abusar dos meus dotes artísticos. Aplausos.
Obrigado, obrigado. Estou nesse hotel para selecionar elenco pro meu próximo
filme. Os interessados, comparecerem ao apartamento 37, para os testes.
Obrigado, bom apetite e um bom dia para todos. Obrigado. Foi uma gritaria: Eu!
Eu! Eu! Eu! Eu! Eu! Calma, minha gente, tem espaço para todos no elenco. Só a
partir das 11 horas que começo os testes, daqui pra lá, comam bem e estejam prontos.
Saravá! E encarou a comilança, repetindo o prato umas três vezes e só não mais pela
quarta, porque um dos cozinheiros fez uma cara feia e ele resolveu recolher-se
ao seu quarto. Mal se deitou, entrou uma senhora já de idade, muito simpática,
risonha e acompanhada duns 15 gatos. Bom dia. Bom dia. O senhor é? Sou Jerry
Xemenexem, seu criado ao dispor. Ah, nome de artista. E sou mesmo. Muito bem. O
que o senhor mais gosta? Na verdade, o que mais gosto é de cantar, mas
componho, filmo, atuo, faço de tudo um pouco, sou multiuso. Muito bem. E pra
comer? Adoro galinha guisada, meu prato preferido. De si para si, pensou: Ah,
deve ser a nutricionista, hotel dos bons mesmos. Enquanto pensava, ela falou
abrindo um caderno de anotações tirado do bolso: Conte-me sua vida... aí ele
debulhou que era um entre 29 irmãos, 9 da mãe dele – santa dona Zefinha,
veneração genuflexa com todas as orações dos céus e da terra -, 13 da Lurdinha e 7 da Valdinete, todos
irmãos por parte de pai. Isso não é um pai, é um garanhão fodedor! Gostei do
nome, quando eu comprar minha Ferrary, vou apelidá-la de garanhão fodedor. Ah,
mas continuando: que dessa tuia de irmãos, 16 são fêmeas de honrar as saias –
tem uma que é bem doidinha, sei não, e 4 são meninas ainda - e os demais, uns
machos e outros nem tanto assim, porque 5 são franguinhos ainda, afora dois que
dão sinais de desmunhecar mesmo. Como é o nome do seu pai? Zé Xemenexem, mas só
o chamam de Zé Flor, não sei por que, pois ele catinga que só, não sei como
elas aguentam a fedentina, mas deve ser por ser aquele que tem três maridas,
coisas de apelido mesmo. Você não gosta dele? Bem, gostar de mesmo, muito não,
ele é rude, trata a gente na base do tapa-olho, bofete no maluvido e dedada no
furico. As meninas, também? Oxe, não escapa umazinha sequer! O prazer dele é
enfiar o dedão no cu de levantar a gente pra balançar as pernas soltas no ar e
depois ficar cheirando o dedo, amolegando a peia. E olhe que o dedão dele é
daqueles bem engrossado, viu? É quando ele dá risadas de gargalhar. Afora isso,
é todo bruto a dar lapadas, cascudos, beliscões e corretivos em quem passar por
perto. E a sua mãe? Ah, a minha mãe é uma santa. E as outras duas? Ah, são de
lua! Um dia de careta, dois de xingamentos e, uma vez na vida, os dentes abrem,
mas não muito, logo piram e viram o diabo. Sei. O senhor tem algum problema?
Tenho. Qual é? Queria ter um dinheirinho pra comprar cigarro, a senhora
empresta? Ela meteu a mão no bolso do jaleco, puxou duas cédulas e entregou pra
ele. Obrigado, minha senhora, sou-lhe devedor pro resto da vida. De nada. Agora
descanse pro almoço, amanhã a gente se vê nessa mesma hora. Bom dia. Mal ela
saiu, apareceram dois olhos na beira da porta, que se escondiam e reapareciam.
Entre. Pareciam brincar. Ele levantou-se e pegou o brincalhão pelas orelhas:
Diga. Eu vim pro teste do cinema. Ótimo, como é seu nome? Napoleão. Muito bem,
Napoleão, o que você faz da vida? Nada. Como nada? Sou o imperador, Napoleão
Bonaparte. Ah, tá. Só isso? Posso ser Dom Pedro I, quer? Não, basta ser Napoleão
mesmo. Já fez cinema? Bem, fazer de mesmo, não, mas eu corria na rua e meu
primo batia umas fotos pruns monóculos, quer ver? Não. Já está quase na hora do
almoço, enquanto isso me conte sua vida de artista. E saíram confabulando
quando uma bela jovem esbarrou nele, ao se virar ele imaginou estar diante de
uma dessas atrizes excêntricas com vestes estranhas – na verdade, ela estava
descalça, descabelada e enrolada nos lençóis -, tudo fazendo crer uma grande
atriz. Ela esticou o pé e levantou a perna, e ele: Pés de atriz, pernas de
atriz, joelhos de atriz – aí ela soltou o vestido impedindo de que ele
continuasse a examinar, esticando o braço e expondo a mão, e ele: dedos de
atriz, mãos de atriz, pulso de atriz, braço de atriz, até muque de atriz ela
tem, está vendo Napoleão? Ela fechou os braços e ele: Cabelo de atriz, testa de
atriz, bochechas de atriz, olhos de atriz, nariz de atriz, lábios de atriz e...
Ela fazia biquinho pra ele e, não teve dúvidas, foi lá e deu uma bitoca nela,
dele tomar um susto na hora! O que é que é isso, meu Deus? Não é uma atriz, é
uma deusa, é a Dulcineia del Toboso, a dona do meu coração. Fez uma mesura
cavalheiresca e, qual Dom Quixote, convidou-a pra jantar! Ela aceitou. Então
vamos, deram-se os braços e Napoleão acompanhou-os como se fora Sancho Pança.
Sentaram-se elegantemente e ficaram aguardando o atendimento, ninguém apareceu.
Sancho, meu fiel escudeiro, procure um garçon para nos servir e diga que não
atrasem com a ceia. Mas, meu mestre, ainda não é nem meio-dia? Não discuta,
Sancho. Com a saída de Sancho, ela se levanta com um olhar tentador, abre o
vestido e mostra-se completamente nua. Ele não resistiu e voou em cima dela,
vuque-vuque ali mesmo, impado, chamego, ali deitados no chão, dela estremecer
toda, gritar enloquecida até desmaiar. E ele resfolegante, inquieto no maior
ajeitado, estertorando numa tremedeira braba, sentiu gozar depois de semanas e
meses na secura das mãos, saçaricando em cima dela, empurrando-se,
espremendo-a, cavoucar, pelejar, e no maior estupor, quedou vertiginosamente
até cair duro espalhado sobre ela e ali, sobre o macio dela, rendeu-se em sono
profundo. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.quinta-feira, março 07, 2013
CHAPMAN CATT, GREENE BALCH, SUSANNAH YORK, JACQUES VACHÉ, LANZA DEL VASTO, VIDAS SECAS & LITERATURA
TRÊS PRA ABRIR A
CONTA – UMA: É PRECISO TER CORAGEM – Nunca fui
de abrir da vela, ou me acovardar. Sempre fui até o limite, às vezes até mais.
A coisa pegou mesmo na adolescência, quando tive acesso aos dizeres da ativista
estadunidense Carrie Chapman Catt
(1859-1947): Arregace as mangas, decida-se a fazer história e lute de
tal forma pela liberdade que o mundo inteiro respeitará nosso sexo. Quando uma
causa justa atinge sua maré alta, como aconteceu com a nossa naquele país, o
que quer que esteja no caminho deve cair diante de seu poder avassalador. Este
mundo não ensinou nada de habilidoso à mulher e depois disse que seu trabalho
não tinha valor. Não lhe permitia opiniões e dizia que não sabia pensar. Proibiu-a de falar em
público, e disse que o sexo não tinha oradores. Negou-lhe as escolas e
disse que o sexo não tinha genialidade. Isso roubou dela todos os vestígios de responsabilidade e
então a chamou de fraca. Se as meninas levavam um incentivo, por que não eu,
jovem mancebo que queria ir além que os próprios limites, não deu outra:
emboquei sério e persegui meus ideais, mesmo que nada tenha dado certo até
agora. Tentei e continuo tentando, sou persistente. DUAS: PACIÊNCIA NUNCA É
DEMAIS – Como eu dizia, desde menino fui hiperativo! Fazia tudo às carreiras,
às pressas. Ao dirigir, o acelerador do automóvel era pé fundo, tinha que dar o
tanto do velocímetro. Na hora da pergunta mais demorada, na metade eu já
respondia, o que me levou muitas vezes a reconsiderar porque o inquiridor não
tinha terminado. Pois bem, é preciso ter paciência. E isso aprendi com a escritor
e economista estadunidense, Emily Greene
Balch (1867-1961): É
natural tentar entender o próprio tempo e procurar analisar as forças que a
movimentam... Vamo-nos pacientes um com o outro e até mesmo pacientes com nós
mesmos. Nós temos um longo caminho de ir. Não precisa apressar ao longo da
estrada, o caminho da ternura e generosidade humana, podemos encontrar as mãos
do outro no escuro. Por isso mesmo, hoje mais que cinquentão,
digo: calma, paciência nunca é demais. (Veja mais dela aqui e aqui). TRÊS: O AMOR É LINDO – Tive oportunidade de assistir
alguns dos muitos filmes da linda atriz e ativista britânica Susannah
York (1939-2011). Tanto é que até uma frase dela eu decorei e
guardo até hoje: Sinto
que gostaria de compartilhar minha sorte e minha vida. Estar apaixonado é a
melhor coisa do mundo... Comungo com ela, afinal o amor é mesmo muito
lindo.
DITOS & DESDITOS - Na
guerra não se deseja a paz: é a vitória, coisa bem diferente... Engano
grosseiro pensar que a paz consiste em permanecer imóvel; não há paz, mas em
uma ascensão contínua. A guerra que irrompe é a guerra que se mostra; o que
eles chamam de paz é a guerra que está escondida. Se você quer evitar a guerra,
faça as pazes... Aquele que prega a paz ao mundo e não a carrega dentro de si é
um impostor, e o mundo não se engana. A filosofia suprema é a doutrina da
conciliação dos opostos. Pensamento do filósofo, artista, ativista e
escritor italiano Lanza del Vasto (Giuseppe Giovanni Luigi Maria Enrico Lanza di Trabia-Branciforte
– 1901-1981).
ALGUÉM FALOU: Nada mata mais um homem do que ser
forçado a representar um país... Pensamento do escritor francês Jacques Vaché (1895-1919),
autor do livro Cartas de Guerra, que influenciou André Breton.











FONTE:
CASTAGNINO, Raul. Tempo e expressão literária. São Paulo: Mestre Jou, 1970.


MÁRIO QUINTANA, ANNE BOYER, KATE MANNE & JONES MANOEL
Imagem: Acervo ArtLAM . Aroma da memória, flor despetalada... – Bella não era Isabella, a cantora perturbada do Blue Velvet . Nem a...
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Imagem: Acervo ArtLAM . Aroma da memória, flor despetalada... – Bella não era Isabella, a cantora perturbada do Blue Velvet . Nem a...
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A arte de do pintor, desenhista, gravador e escultor austríaco Rudolf Hausner (1914-1995) LITERÓTICA: DE TODO JEITO É BOM - ...
















