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terça-feira, junho 11, 2024

ADA LIMÓN, MÓNICA BUSTOS, LETÍCIA CESARINO, ANUNA DE WEVER & O RECIFE DE CESAR LEAL

 

 Imagem: Acervo ArtLAM.

Ao som dos álbuns Olho D'água (1979), Revivência (1983), Rio Acima (1986), Ihu - Todos Os Sons (1996), 2 Ihu Kewere: Rezar (1997), Neuneneu Humanity - Fragments Of Indigenous Brazil (2006) e Fala de Bicho, Fala de Gente (2014), da compositora, cantora e pesquisadora Marlui Miranda. Veja mais aqui e aqui.

 

TROPEÇANDO NO OBELISCO DERRUÍDO (Notas sobre a solidão...) – Apesar de tudo havia só os destroços do quintal no futuro abatido pelo novo efêmero presente. E tinha pressa para voar além do espaço que me rodeava, do tempo que vivia para me salvar da calamidade desatinada e das funduras subterrâneas donde emergiam dementadores insones. Reduzido à mudez resistia: nunca estive em cima ou qualquer lado do muro. Havia perdido o travesseiro do seio materno e não tinha para quem ligar porque o dia era o meio da noite e estava na linha de frente pronto para morrer. Lamentava Muriel Barbery: Pensei, tenha pena dos pobres de espírito que não conhecem o encanto nem a beleza da linguagem... Nas trincheiras quantos mortos e a crise caducou, mas já se renovava escondida no estalo da clâmide fabricante dos interesses de hieráticos negociantes: o quão penoso sofrer zis males por tortuosos quinhentos tombos. Encarava o monólogo dos meus fantasmas: a quarta parede caiu reduzindo às cinzas rabiscos misteriosos que jamais decifrei e as outras três em ruinas, o que é que poderia fazer bisonhamente envergonhado com o grotesco letal. Ali estava Joyce Carol Oates: O pior, entregar-se em troca de amor insuficiente... O sangue era o vinho nos escritos do muro em que porcos-espinhos armavam ciladas nas luzes do corredor clareando a cratera na Sibéria, a rachadura do Quênia, as erosões costeiras, voçorocas - ninguém seria muleta e quase misantropo aos tropeços remendava o que sobrou da queda, a ferrugem pra todo lado e Vico mostrava a decadência e o caótico. Marionetes inquietas olhavam pro lugar errado e a ironia de Dorothy Sayers: Os fatos são como vacas. Se você olhar na cara deles por tempo suficiente, eles geralmente fogem... Háháhá! Muito barulho aterrorizante pelos labirintos circulares inescapáveis: o despertar e o velório, para onde adicções e o que durou das inquietações frustrantes – era como quem ganhava o mundo a se perdia de si mesmo. Quase sou levado pelo alvoroço de festa das baratas tontas com as ofertas em liquidação – liquidado já estava nas teias das armadilhas inextricáveis: qual azimute e o vazio gritante, deliravam os desejos pelo lugar onde as coisas da felicidade estavam e não seria nenhum. Aprendia com os adversários perdidos entre a prescindência e a convulsão, dilemas irredutíveis e o coisificado com os efeitos da demolição: o que enganava e o enganado a cada milionésimo de segundo. O carrossel da vida em alta tensão e entre extremos: o desembesto e a polícia, a razão e a loucura, a obsolescência e os descartados, o espetáculo da confusão e as litanias vinte e quatro horas ininterruptas, quem brigava com quem: dez mil beijos e um milhão de tiros, a arte esmagada pela bomba que explodiu, o sonho estilhaçado que julguei só meu e era de todos: era só a guerra e já anoitecia no dia perdido. Até mais ver.

 

UM POEMA

Imagem: Acervo ArtLAM.

A NOTÍCIA QUE ELA NÃO DÁ A ELE (TODO MUNDO ESTÁ NOS MATANDO) – O atirador caminha \ pelo estacionamento, \ casualmente, como se estivesse pegando \ Kool-Aid e pão. O atirador \ caminha casualmente como seu colega de trabalho \ que leva o almoço para o parque \ e aproveita o sol nos ombros \ e o café branco com leite. \ O atirador se move e se move \ e se move como se não fosse um estranho \ , não nesta terra, ele se move \ como se não fosse dono de seu corpo, \ mas ele é dono da terra em que seu corpo \ anda, ele não é sangue e músculo, \ mas ele é uma ideia, uma ideia sobre o seu \ sangue e músculos e o meu corpo, \ o pistoleiro deve ter alguém \ que o ame, que \ alguns dias tire a arma dele e chore, \ ele diz, Branco não atira branco \ no outro pistoleiro curvado \ perto do carro, segurando um revólver \ tão casualmente que ele o guarda casualmente \ no porta-luvas, por \ segurança. O atirador não atira \ no atirador. Os sem armas são \ baleados casualmente— \ tênis brancos \ no estacionamento, tênis brancos \ de mulher...\ ela calça antes de ir \ buscar Kool-Aid e pão e anda \ casualmente com seus tênis brancos, até que \ o branco caia sobre ela, um \ choque branco e quente de branco, tão casualmente vem.

Poema da premiada escritora estadunidense Ada Limón, autora de livros como The Carrying e Bright Dead Things.

 

O MENINO BIZARRO & AS MOSCAS - [...] Nós o chamávamos de Cantinflas porque o nome dele era Mário Escuro. Mas não havia nada de cômico nisso, nem era amigável. Ele era um assassino de aluguel do bairro, um dos piores que existem, Por seis latas de cerveja ele trazia a cabeça de quem você quisesse, e por algum dinheiro extra ele mandava para alguém. Avançar [...]. Trechos extraídos da obra Chico Bizarro y las moscas (Calla Canalla, 2000), da escritora paraguaia Mónica Bustos, que é autora do poema Correntes Ininterruptas: medo de nunca ser domesticado fortalezas me acorrentaram o \ único lugar onde posso ir agora é uma loucura já faz mais de 20 anos fazendo esse tempo \ trancado em minha mente corpo a cela no mesmo lugar onde caí pela primeira vez.. \ aos 17 eu dei minha lealdade minha \ amo minhas lágrimas, minha alma, meu sangue em troca, \ ele me deu vergonha, dor, vício e dor, \ a única coisa que ele deu aos nossos filhos \ foi seu sobrenome... posso não ter estabilidade ou mesmo a capacidade de ficar longe das coisas \ que estão me matando, mas eu não me curvarei a ninguém, \ exceto ao pai e seu filho \ quebrando essas correntes, pensei que NUNCA SERIA FEITO... É também autora das obras León Muerto (2003), Complejo de Bustos (2004), El club de los que nunca duermen (2012) e Novela B. (2013).

 

O MUNDO DO AVESSO - [...] eu sou um sistema cibernético individuado, você também, assim como o computador no qual eu escrevo [...]. Trecho extraído da obra O mundo do avesso: Verdade e política na era digital (Ubu, 2022), da filósofa Letícia Cesarino, que em entrevista concedida à jornalista Liz Nóbrega, no Desinformante (Dez, 2022) expressou: A ideia é propor uma perspectiva alternativa para olhar o papel da tecnologia não só nos processos políticos, nos processos de produção de verdade em geral, no qual se inclui também os processos políticos, mas através de paradigmas que observam esses fenômenos em sua causalidade mais sistêmica e estrutural. Essa proposta não trabalha com essa dicotomia, que está mais no senso comum, ou seja, ou a tecnologia é um canal neutro e a fonte dos problemas é uma raiz social, política, histórica, mas tampouco ver a tecnologia como causando, por exemplo, a ascensão da extrema-direita de forma unilateral, como algumas interpretações, por exemplo, do evento da Cambridge Analytica, como se aqueles que manipulam os algoritmos tivessem um controle total sobre o usuário que está imerso naqueles ambientes. Então a ideia é trazer realmente uma perspectiva tecnopolítica, olhar a política na tecnologia também, ou seja, existem vieses técnicos embutidos no design dessas tecnologias, dessas arquiteturas algorítmicas, que nos ajudam a entender porque o fluxo do processo sociopolítico está indo numa certa direção e não em outra, ou seja, é um tipo de causalidade que olha mais para a questão das probabilidades, das abordagens e causalidades indiretas, aquelas causalidades circulares também que são bastante típicas das tecnologias cibernéticas. Diferente de outras infraestruturas técnicas, os agentes cibernéticos são máquinas que tomam decisões, e essas decisões interferem muitas vezes de forma subliminar, oculta, no direcionamento do comportamento humano também. Ou seja, a gente propõe, de certa forma, abrir a caixa preta da tecnologia para tentar inferir como ela influencia no comportamento social e humano. [...].

 

ATIVISMO AMBIENTAL - Quero causar um impacto da maior maneira possível. Antes que percebêssemos, éramos milhares de pessoas nas ruas todas as semanas, em todos os noticiários, reivindicando a agenda política e forçando os nossos líderes a ouvir e a intervir... Comecei o meu ativismo climático muito localmente, tentando mudar a política belga. Mas muito em breve percebi que o nosso sistema político não foi moldado para ser capaz de fazer isso. Eu própria estou a lutar contra a política belga com tudo o que posso, mas ela é irresponsável, infantil, ignorante e não enfrenta de forma alguma a crise climática de uma forma séria. Estamos a trabalhar em projetos como o acordo comercial UE-Mercosul, as metas climáticas da UE, fazer com que os meios de comunicação social registem os orçamentos de carbono… Mas em todos estes fatores, a Bélgica está completamente atrasada. Quem tem consciência da urgência da situação não conseguiria ser otimista. Corremos em direcção a ondas de calor, secas, fome, milhões de refugiados climáticos, países habitáveis… e ninguém se apercebe. Eu tenho esperança. Acredito que ainda podemos reverter isso. Temos muito pouco tempo para fazer isso. E é por isso que precisamos que todos se rebelem e avancem, para literalmente lutarem pelo nosso futuro. Pensamento da estudante e ativista belga Anuna De Wever, uma  uma das principais figuras da Fridays for Future.

 

RECIFE EM DEZEMBRO, CÉSAR LEAL

Ao morno céu de dezembro \ a vida passa flotando \ e o sol se oferta ao Recife \ e às dunas da praia atlântica. \ O calor inventa nuvens \ de alaranjados suores \ sobre a fadiga às janelas \ e dorme nos escritórios. \ Há luzes nas avenidas, \ nas praças, nos sky sings \ doando seu triste às cores \ que há no ritmo da tarde. \ Telhados de tantos séculos, \ céu veloz sobre a cidade, \ todo o Recife incendiado \ entre as chamas do Natal. \ Velhas e tantas igrejas \ tantas pontes inventadas \ sobre as pontes, velozmente \ passa a vida em disparada. \ Soberbo perfil de touro, \ burgo velho enfeudalado: \ - eis o Recife, um vasto império \ por mocambos coroado.

Poema do poeta, jornalista, professor e crítico literário Cesar Leal (1924-2013), autor de livros como Os heróis (Bagaço, 2008), Alturas (1997), O arranha-céu e outros poemas (1994) e Os cavaleiros de Júpiter (1968), entre outros. Veja mais aqui, aqui, aqui e aqui.

 

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terça-feira, fevereiro 23, 2021

BRECHERET, THEANO, FRANCISCA JÚLIA, NEELLY BELLAH, ADÃO PINHEIRO & PONTO DE MUTAÇÃO

 

 

TRÍPTICO DQC: Apesar de tudo: viver! - Ao som do álbum Fala de Bicho, Fala de Gente (2014), da cantora, compositora e pesquisadora Marlui Miranda, do livro homônimo da pesquisadora e professora Cristina Martins Fargetti, sobre as cantigas de ninar do povo juruna (Sesc, 2018). – Ganhei o mundo e era como se fosse On the road de Kerouak: Gosto de muitas coisas ao mesmo tempo e me confundo inteiro e fico todo enrolado correndo de uma estrela cadente para outra até desistir. Era muito jovem e me salvava com o sonho dos antigos eremitas e a cabeça de visionários. Na vera, me perdi: se vivia só, o pior era a desolação de não ter quem nem pra onde ir. Só ouvia o eco das vozes do sociólogo estadunidense Robert Neelly Bellah (1927-2013): De certa forma, sair de casa envolve uma espécie de segundo nascimento, no qual damos à luz a nós mesmos. Por mais doloroso que seja o processo de saída de casa, para os pais e para os filhos, o que é realmente assustador para ambos seria a perspectiva de o filho nunca mais sair de casa. Embora existam razões práticas e por vezes morais para a decomposição da família, não coincide nem com o que a maioria das pessoas na sociedade afirma desejar nem, especialmente no caso das crianças, com o seu melhor interesse. Fui assim mesmo, Andejo da noite e do dia: se pensasse duas vezes, não saía do lugar – era só ir e voltar: arrependimentos e culpas. Perdi meus elos, raízes esgarçadas. Mais tinha de ir, feito Caio Fernando Abreu: Confesso! Às vezes tenho vontade de sair por aí destruindo corações, pisando em sentimentos alheios ou sei lá, alguma coisa que me faça realmente merecer esse meu sofrimento no amor. Era quase isso mesmo, precisava fazer alguma coisa, valendo-me de Wole Soyinka: Um tigre não sai por aí proclamando sua tigritude. Ele apenas ataca! Eu apenas queria viver e não sabia, vivia. Até me descobrir: não era o mundo nem os outros, era eu mesmo. A coragem da liberdade, o aprendizado da vida. É isso. Ainda deu tempo de saber A terra que sou & recitar os versos da Viva Vida Verde. Apesar de tudo, convinha lembrar: o direito de viver e deixar viver.

 


DOIS: Ponto de mutação - Imagem: Viagem indiana psicodélica por meio de ecos infinitos de pensamentos, da banda tcheca MindWalk e ao som da trilha sonora do compositor estadunidense Philip Glass para o filme homônimo dirigido por Bernt Amadeus Capra sobre a obra de Fritjov Capra. - À janela e o que vejo: Que mundo é este? Não há resposta, apenas sei que As pedras falam e estou calado. Foi o que ela me disse ao aparecer como se fosse a cientista Sonia Hoffman na pele de Liv Ullmann: os seus ideais traídos, a lucidez e frustração, os problemas com a filha. Não estava dividindo espaço com um político que se descobriu mentira nem com um dramaturgo em fuga, não, não estava: apenas eu e ela atravessando o pântano do tempo. Depois de uma longa caminhada em que discutíamos a diferença entre mudança e transformação, deparamo-nos com um castelo medieval no Litoral da França. O passado estava ali, enclausurado. E nós com todos os temas difusos que nos atormentam mundo afora: a vida, o amor e a guerra, a política, o planeta, a morte e as tecnologias. Encaramos nossos desencontros: o do secular mecanicismo dos fragmentos especializados, ao invés de considerar as interrelações sistêmicas: Preferimos falar sobre ‘hiperatividade’ ou a ‘incapacidade de aprendizagem’ de nossos filhos, em lugar de examinarmos a inadequação de nossas escolas; preferimos dizer que sofremos de ‘hipertensão’ a mudar nosso modo supercompetitivo dos negócios; aceitamos as taxas sempre crescentes de câncer em vez de investigarmos como a indústria química envenena nossos alimentos para aumentar seus lucros. A natureza é o corpo inorgânico do homem – isto é, a natureza, na medida em que ela própria não é o corpo humano. Estávamos diante dos efeitos mais desagregadores: Hoje, porém, a desintegração do patriarcado tornou-se evidente. O movimento feminista é uma das mais fortes correntes culturais do nosso tempo, e terá um profundo efeito sobre a nossa futura evolução... O universo começa a se parecer mais com um grande pensamento do que com uma máquina. Transigimos, destoamos, uma dolorosa constatação: A evolução da consciência deu-nos não só a pirâmide de Quéops, os concertos de Brandemburgo e a teoria da relatividade, mas também a queima de bruxas, o Holocausto e a bomba de Hiroxima. Fitamo-nos indecisos: a dúvida nos vivificou. Cada qual sua impressão, pensamentos em voz alta: o que somos e o que estamos fazendo aqui, é desanimador. O que nos espera, sabe-se lá quão doloroso.

 

TRÊS: A musa no Grand Guignol – Imagem: Musa impassível, do escultor Victor Brecheret (1894-1955), ao som de Love’s Greeting Op.12, do compositor britânico Edward Elgar (1857-1934). – De volta, não era ela: era a ausência dela na travessia, o olhar de Paula Maxa a me alertar: Olhos bem abertos! Olhos bem abertos! Você não percebe quanto horror está contido nessas três palavras! Não estava ali, bem sabia: estava em mim nos versos da poeta Francisca Júlia (1871-1920): Ouço e vejo o teu nome em tudo: ou nos ressolhos do vento, ou no fulgor das estrelas, radiante... Tu és sempre o mistério, a luz que tenho diante do olhar, quando te imploro a piedade, de geolhos. Atravessei sozinho a encruzilhada, contando os passos e ouvindo-a profundamente como se fosse a filósofa grega Theano de Crotona (séc. VI aC): Os números são a demonstração da realidade e individualidade... E ela segredasse sussurrante na mesma leva aos meus ouvidos: A mulher que vai para a cama com um homem deve tirar o pudor com a anágua e vesti-la novamente. Ri. Era o que me restava porque ela não estava ali para me recitar um verso apenas da Perenidade da poeta Fernanda Seno:.. seremos outra forma de presença porque o amor subsiste eternamente. Não sei onde estou e se voo, não sei. Até mais ver.

 

ADÃO PINHEIRO



A arte do gravador, entalhador, pintor, cenógrafo, artista gráfico, desenhista e professor Adão Odacir Pinheiro, que é pesquisador do artesanato popular do Nordeste e da Cultura Africana. Veja mais aqui e aqui.


 


segunda-feira, abril 02, 2018

BORGES, RICHARD HOGGART, JOSÉ DUDA DO ZUMBI, MARCELO COUTINHO, LEO BROUWER & MARLUI MIRANDA

MOER A ESCURIDÃO - Imagem: arte do poeta, professor, quadrinista, ilustrador e artista visual Marcelo Coutinho. - Os olhos no escuro, a distância de nada existir, acho, apenas a chuva, chiados na noite, o silêncio do resto. Em algum lugar estava, não sei onde, apenas vivo, mais nada. Se havia desembarcado, não havia ninguém, nem sei de onde vim, o que estou fazendo aqui, nem para onde vou. Parecia-me um triz, espaço sem tempo, vórtice paralisado. Na verdade, se era vida ou sonho, ignorava. Sei que um coração pulsava nalgum lugar, vivia-o, isso sim. Não havia simetria, equilíbrio não há, nem podia, harmonizo o caos em mim, noitedia, mortevida, amanhojontem. Era ermo, só restava o delírio de inventar o inexistente com zis perguntas, e entre a vigília e a vertigem nenhuma resposta na insônia do imponderável. Voo ao antes: à face da natureza coberta de trevas. E ouço uma voz perdida, alguém me chama, viro-me e identifico apenas sua silhueta diáfana. Duvido, talvez reinventando a mim mesmo. Giro e ao redor assimilo alguém insinuando falar o incompreensível, como se palíndromos repetidos e quase me levando a entender ser Raar e que sou Arra e não sei de mim, ainda não sou, ou nunca deveria ter sido. Nem sei quem age e quem vê, uma semente germinada, apenas, ou talvez eu-outro, outridade. Esfrego os olhos, quase nada vejo, sinto. Percebo que gesticula mansa e suavemente, fala como um canto, mantras do porvir, parecia, no encontro do incomunicável. Aos poucos sua presença se torna mais nítida, os olhos vivos e ternos, as mãos espalmadas como um convite ao calor do abraço na rosa cálida emergente do seu coração. Hesitantes, titubeamos um pouco até o abraço que me envolveu inteiro. Abraçamos-nos novamente e o seu sorriso amanheceu tudo ao redor. Mostrou-me a Terra escorrendo entre os dedos, o Ar alisando nossas faces, a Água corrente lavando nossos pés, e o Fogo formando um círculo com labaredas saudando o Sol. Estendeu-me uma das mãos sem que lhe distinguisse a voz e deu-me um pergaminho, pareceu-me, à primeira vista, a versão de Alcuíno do livro de Jasher. Passei as vistas e tentei indagar quantas vezes havia acontecido e se repetira? Deu de ombros, pouco importa, nem sei se entendeu o que eu disse. Alma e ser desnudos, recitava repetidamente: arra olo raar, raar olo arra, arraraar. E no abraço, a vida. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.

RÁDIO TATARITARITATÁ:
Hoje na Rádio Tataritaritatá especial com a música do violonista, compositor e regente da Orquestra de Cuba, Leo Brouwer: La obra guitarristica 1 e 3 & de Bach aos Beatles; da compositora, cantora e pesquisadora da cultura indígena brasileira, Marlui Miranda: IHU Todos os sons, Fala de bicho, fala de gente & Rio acima; & muito mais nos mais de 2 milhões de acessos ao blog & nos 35 Anos de Arte Cidadã. Para conferir é só ligar o som e curtir.

PENSAMENTO DO DIAFui moço, hoje estou velho! / Pois o tempo tudo muda! / Já fui um dos cantadores / chamado Deus nos acuda... / Este que estão vendo aqui / foi Zé Duda do Zumbi! / Hoje Zumbi do Zé Duda! Poema de sete pés do poeta popular segipano, Mestre José Duda do Zumbi (José Galdino da Silva Duda – 1866-1931).

VIDA REAL & COISAS DE HOJE EM DIA - [...] O fato de tudo isto não ter ainda exercido um efeito mais deplorável sobre a vida das pessoas deve-se à capacidade que elas têm de viver em compartimentos estanques — e é este um dos pontos que sublinho no meu ensaio - de manter uma separação entre a vida do lar e a vida exterior, entre a vida ‘real’ e a vida no mundo das diversões. ‘Faz-nos pensar noutras coisas’; ‘Distrai, é uma diversão’. Enquanto se distraem com essas coisas, as pessoas podem identificar-se com elas; mas no fundo sabem que não são coisas ‘reais’; a vida ‘real’ é outra coisa [...] Esta dieta regular, constante e quase exclusiva de sensacionalismo incorpóreo contribui para que aqueles que a consomem se tornem incapazes de encarar a vida de frente e de forma responsável, e ainda para despertar nos leitores a sensação de que a vida não tem qualquer objetivo, para além da satisfação de alguns apetites imediatos. Essas almas que não tiveram oportunidade para desabrochar continuarão fechadas, viradas para dentro, olhando ‘com olhos vazios, semelhantes a janelas escancaradas’ para um mundo que é em grande medida uma fantasmagoria de espetáculos transitórios e de estímulos falsificados. O fato de não ser essa hoje em dia a situação de todos os membros das classes trabalhadoras, deve-se à capacidade de resistência que caracteriza o espírito humano; resistência no sentido do reconhecimento de que há outras coisas que são importantes e que contam, se bem que esse sentimento nem sempre seja consciente [...] Trechos extraídos da obra As utilizações da cultura: aspectos da vida da classe trabalhadora, com especiais referenciais a publicações e divertimentos – Vol. 2 (Presença, 1973), do sociólogo e crítico literário britânico Richard Hoggart (1918-2014).

AS RUÍNAS CIRCULARES – [...] No sonho do homem que sonhava, o sonhado despertou. [...]. Em geral, eram-lhe felizes os dias; ao fechar os olhos pensava: Agora estarei com meu filho. Ou, mais raramente: O filhe que gerei me espera e não existirá se eu não for. [...] Percebia com certa palidez os sons e formas do universo: o filho ausente se nutria dessas diminuições de sua alma. O proposito de sua vida fora atingido; o homem persistiu numa espécie de êxtase. [...] Temeu que seu filho meditasse nesse privilégio anormal e descobrisse de alguma maneira sua condição de mero simulacro. Não ser um homem, ser a projeção do sonho de outro homem, que humilhação incomparável, que vertigem! A todo pai interessam os filhos que procriou (que permitiu) numa simples confusão ou felicidade; é natural que o mago temesse pelo futuro daquele filho, pensado estranha por estranha e traço por traço, em mil e umas noites secretas. [...] Caminhou contra as línguas de fogo. Estas não morderam sua carne, estas o acariciaram, e o inundaram sem calor e sem combustão. Com alívio, com humilhação, com terror, compreendeu que ele também era uma aparência, que outro o estava sonhando. Trechos de As ruinas circulares, extraído de Ficções (Globo, 1976), do escritor, tradutor, crítico literário e ensaísta argentino Jorge Luis Borges (1899-1986). Veja mais aqui.

ELE MOIA A ESCURIDÃO – [...] Arra olo raar - arra. pron. pess. da 1ª pessoa singular. 1. algo de funcionamento intenso destinado a reter e reconduzir as várias retenções e reconduções vindas de outros algos. 2. algo que balbucia através de outro algo que também balbucia. 3. algo que é fruto de uma matriz perdida, e que, por sua vez, será uma matriz perdida para outro algo. [...] olo. prep. 1. Partícula gramatical usada para pôr em movimento de devir palavras e outros fragmentos da língua. Quando juntas a esta preposição, verbos, adjetivos, pronomes, adverbios passam a ter seus sentidos desfeitos para tornarem-se, junto com o que se unem, uma terceira coisa. 2. Para além de um elemento conectivo puro, olo destitui de sentido particular os termos gramaticais envolvidos em uma sentença para fazer surgir uma terceiro sentido. Diz-se p. ex. “arra olo raar”, “mavio olo africo”, etc. [...] raar. pron. pess. da 2ª pessoa singular. 1. Enodamento fibroso geralmente momentâneo, cujas inúmeras fibras organizam-se em forma de bola, postado um palmo abaixo do pescoço, mais precisamente entre os dois mamilos. Este enodamento ganha a forma de inúmeros brotos que estendem-se por entre os membros, cabeça, nuca e genitália, ultrapassando a epiderme em busca de floração. 2. Elemento que instaura a ligação orgânica entre duas temporalidades, lançando sobre a presente uma suspensão e sobre a futura um chamado inexato. [...] 13.12.2002 – Acredito que a arte não pode tomar o lugar de centro organizador da vida de uma pessoa. Acho, ao contrário, que o centro deve ser a vida. Ou ainda, usando o infinitivo, o viver. E nas periferias, orbitando em torno do viver, o resto. Esta centralidade da arte me incomoda muito. Acho, por exemplo, que as relações humanas são muito mais importantes do que uma obra de arte. [...]. Trechos extraídos de Ele moía a escuridão (Santander Cultural, 2012), da exposição realizada entre 15 de agosto a 30 de setembro de 2012, do poeta, professor, quadrinista, ilustrador e artista visual Marcelo Coutinho.

A ARTE DE MARCELO COUTINHO
A arte do do poeta, professor, quadrinista, ilustrador e artista visual Marcelo Coutinho, que trabalha com várias linguagens, de performance à instalações e intervenções em paisagens. É autor de Antão, O Insone (Documento Areal/Zouk, 2008) e Isso (Documento Areal/Confraria do Vento, 2016). As imagens foram extraídas da exposição Ele moía a escuridão (Santander Cultural, 2012).

  


CRÔNICA DE AMOR POR ELA
A arte da artista plástica & visucal Cyane Pacheco. Veja mais aqui & aqui & muito mais na Agenda aqui.
&
O Doro e a maldição do Pinóquio, a literatura de Nikolai Gogol, a música de Tori Amos & Gracy Gausmann, a arte de Georges Lévis & a pintura de Roberto Ferri aqui.

LYGIA FAGUNDES TELLES, RIM BATTAL, MILTON HATOUM, BEATRIZ PAREDES RANGEL & ANASTÁCIA

    Imagem: Acervo ArtLAM .   Vênus da Lua de Fel na Serra das Russas... - Lá ia Tó Zeca , sobe-desce na sua fubica incrementada, todo a...