terça-feira, junho 11, 2024

ADA LIMÓN, MÓNICA BUSTOS, LETÍCIA CESARINO, ANUNA DE WEVER & O RECIFE DE CESAR LEAL

 

 Imagem: Acervo ArtLAM.

Ao som dos álbuns Olho D'água (1979), Revivência (1983), Rio Acima (1986), Ihu - Todos Os Sons (1996), 2 Ihu Kewere: Rezar (1997), Neuneneu Humanity - Fragments Of Indigenous Brazil (2006) e Fala de Bicho, Fala de Gente (2014), da compositora, cantora e pesquisadora Marlui Miranda. Veja mais aqui e aqui.

 

TROPEÇANDO NO OBELISCO DERRUÍDO (Notas sobre a solidão...) – Apesar de tudo havia só os destroços do quintal no futuro abatido pelo novo efêmero presente. E tinha pressa para voar além do espaço que me rodeava, do tempo que vivia para me salvar da calamidade desatinada e das funduras subterrâneas donde emergiam dementadores insones. Reduzido à mudez resistia: nunca estive em cima ou qualquer lado do muro. Havia perdido o travesseiro do seio materno e não tinha para quem ligar porque o dia era o meio da noite e estava na linha de frente pronto para morrer. Lamentava Muriel Barbery: Pensei, tenha pena dos pobres de espírito que não conhecem o encanto nem a beleza da linguagem... Nas trincheiras quantos mortos e a crise caducou, mas já se renovava escondida no estalo da clâmide fabricante dos interesses de hieráticos negociantes: o quão penoso sofrer zis males por tortuosos quinhentos tombos. Encarava o monólogo dos meus fantasmas: a quarta parede caiu reduzindo às cinzas rabiscos misteriosos que jamais decifrei e as outras três em ruinas, o que é que poderia fazer bisonhamente envergonhado com o grotesco letal. Ali estava Joyce Carol Oates: O pior, entregar-se em troca de amor insuficiente... O sangue era o vinho nos escritos do muro em que porcos-espinhos armavam ciladas nas luzes do corredor clareando a cratera na Sibéria, a rachadura do Quênia, as erosões costeiras, voçorocas - ninguém seria muleta e quase misantropo aos tropeços remendava o que sobrou da queda, a ferrugem pra todo lado e Vico mostrava a decadência e o caótico. Marionetes inquietas olhavam pro lugar errado e a ironia de Dorothy Sayers: Os fatos são como vacas. Se você olhar na cara deles por tempo suficiente, eles geralmente fogem... Háháhá! Muito barulho aterrorizante pelos labirintos circulares inescapáveis: o despertar e o velório, para onde adicções e o que durou das inquietações frustrantes – era como quem ganhava o mundo a se perdia de si mesmo. Quase sou levado pelo alvoroço de festa das baratas tontas com as ofertas em liquidação – liquidado já estava nas teias das armadilhas inextricáveis: qual azimute e o vazio gritante, deliravam os desejos pelo lugar onde as coisas da felicidade estavam e não seria nenhum. Aprendia com os adversários perdidos entre a prescindência e a convulsão, dilemas irredutíveis e o coisificado com os efeitos da demolição: o que enganava e o enganado a cada milionésimo de segundo. O carrossel da vida em alta tensão e entre extremos: o desembesto e a polícia, a razão e a loucura, a obsolescência e os descartados, o espetáculo da confusão e as litanias vinte e quatro horas ininterruptas, quem brigava com quem: dez mil beijos e um milhão de tiros, a arte esmagada pela bomba que explodiu, o sonho estilhaçado que julguei só meu e era de todos: era só a guerra e já anoitecia no dia perdido. Até mais ver.

 

UM POEMA

Imagem: Acervo ArtLAM.

A NOTÍCIA QUE ELA NÃO DÁ A ELE (TODO MUNDO ESTÁ NOS MATANDO) – O atirador caminha \ pelo estacionamento, \ casualmente, como se estivesse pegando \ Kool-Aid e pão. O atirador \ caminha casualmente como seu colega de trabalho \ que leva o almoço para o parque \ e aproveita o sol nos ombros \ e o café branco com leite. \ O atirador se move e se move \ e se move como se não fosse um estranho \ , não nesta terra, ele se move \ como se não fosse dono de seu corpo, \ mas ele é dono da terra em que seu corpo \ anda, ele não é sangue e músculo, \ mas ele é uma ideia, uma ideia sobre o seu \ sangue e músculos e o meu corpo, \ o pistoleiro deve ter alguém \ que o ame, que \ alguns dias tire a arma dele e chore, \ ele diz, Branco não atira branco \ no outro pistoleiro curvado \ perto do carro, segurando um revólver \ tão casualmente que ele o guarda casualmente \ no porta-luvas, por \ segurança. O atirador não atira \ no atirador. Os sem armas são \ baleados casualmente— \ tênis brancos \ no estacionamento, tênis brancos \ de mulher...\ ela calça antes de ir \ buscar Kool-Aid e pão e anda \ casualmente com seus tênis brancos, até que \ o branco caia sobre ela, um \ choque branco e quente de branco, tão casualmente vem.

Poema da premiada escritora estadunidense Ada Limón, autora de livros como The Carrying e Bright Dead Things.

 

O MENINO BIZARRO & AS MOSCAS - [...] Nós o chamávamos de Cantinflas porque o nome dele era Mário Escuro. Mas não havia nada de cômico nisso, nem era amigável. Ele era um assassino de aluguel do bairro, um dos piores que existem, Por seis latas de cerveja ele trazia a cabeça de quem você quisesse, e por algum dinheiro extra ele mandava para alguém. Avançar [...]. Trechos extraídos da obra Chico Bizarro y las moscas (Calla Canalla, 2000), da escritora paraguaia Mónica Bustos, que é autora do poema Correntes Ininterruptas: medo de nunca ser domesticado fortalezas me acorrentaram o \ único lugar onde posso ir agora é uma loucura já faz mais de 20 anos fazendo esse tempo \ trancado em minha mente corpo a cela no mesmo lugar onde caí pela primeira vez.. \ aos 17 eu dei minha lealdade minha \ amo minhas lágrimas, minha alma, meu sangue em troca, \ ele me deu vergonha, dor, vício e dor, \ a única coisa que ele deu aos nossos filhos \ foi seu sobrenome... posso não ter estabilidade ou mesmo a capacidade de ficar longe das coisas \ que estão me matando, mas eu não me curvarei a ninguém, \ exceto ao pai e seu filho \ quebrando essas correntes, pensei que NUNCA SERIA FEITO... É também autora das obras León Muerto (2003), Complejo de Bustos (2004), El club de los que nunca duermen (2012) e Novela B. (2013).

 

O MUNDO DO AVESSO - [...] eu sou um sistema cibernético individuado, você também, assim como o computador no qual eu escrevo [...]. Trecho extraído da obra O mundo do avesso: Verdade e política na era digital (Ubu, 2022), da filósofa Letícia Cesarino, que em entrevista concedida à jornalista Liz Nóbrega, no Desinformante (Dez, 2022) expressou: A ideia é propor uma perspectiva alternativa para olhar o papel da tecnologia não só nos processos políticos, nos processos de produção de verdade em geral, no qual se inclui também os processos políticos, mas através de paradigmas que observam esses fenômenos em sua causalidade mais sistêmica e estrutural. Essa proposta não trabalha com essa dicotomia, que está mais no senso comum, ou seja, ou a tecnologia é um canal neutro e a fonte dos problemas é uma raiz social, política, histórica, mas tampouco ver a tecnologia como causando, por exemplo, a ascensão da extrema-direita de forma unilateral, como algumas interpretações, por exemplo, do evento da Cambridge Analytica, como se aqueles que manipulam os algoritmos tivessem um controle total sobre o usuário que está imerso naqueles ambientes. Então a ideia é trazer realmente uma perspectiva tecnopolítica, olhar a política na tecnologia também, ou seja, existem vieses técnicos embutidos no design dessas tecnologias, dessas arquiteturas algorítmicas, que nos ajudam a entender porque o fluxo do processo sociopolítico está indo numa certa direção e não em outra, ou seja, é um tipo de causalidade que olha mais para a questão das probabilidades, das abordagens e causalidades indiretas, aquelas causalidades circulares também que são bastante típicas das tecnologias cibernéticas. Diferente de outras infraestruturas técnicas, os agentes cibernéticos são máquinas que tomam decisões, e essas decisões interferem muitas vezes de forma subliminar, oculta, no direcionamento do comportamento humano também. Ou seja, a gente propõe, de certa forma, abrir a caixa preta da tecnologia para tentar inferir como ela influencia no comportamento social e humano. [...].

 

ATIVISMO AMBIENTAL - Quero causar um impacto da maior maneira possível. Antes que percebêssemos, éramos milhares de pessoas nas ruas todas as semanas, em todos os noticiários, reivindicando a agenda política e forçando os nossos líderes a ouvir e a intervir... Comecei o meu ativismo climático muito localmente, tentando mudar a política belga. Mas muito em breve percebi que o nosso sistema político não foi moldado para ser capaz de fazer isso. Eu própria estou a lutar contra a política belga com tudo o que posso, mas ela é irresponsável, infantil, ignorante e não enfrenta de forma alguma a crise climática de uma forma séria. Estamos a trabalhar em projetos como o acordo comercial UE-Mercosul, as metas climáticas da UE, fazer com que os meios de comunicação social registem os orçamentos de carbono… Mas em todos estes fatores, a Bélgica está completamente atrasada. Quem tem consciência da urgência da situação não conseguiria ser otimista. Corremos em direcção a ondas de calor, secas, fome, milhões de refugiados climáticos, países habitáveis… e ninguém se apercebe. Eu tenho esperança. Acredito que ainda podemos reverter isso. Temos muito pouco tempo para fazer isso. E é por isso que precisamos que todos se rebelem e avancem, para literalmente lutarem pelo nosso futuro. Pensamento da estudante e ativista belga Anuna De Wever, uma  uma das principais figuras da Fridays for Future.

 

RECIFE EM DEZEMBRO, CÉSAR LEAL

Ao morno céu de dezembro \ a vida passa flotando \ e o sol se oferta ao Recife \ e às dunas da praia atlântica. \ O calor inventa nuvens \ de alaranjados suores \ sobre a fadiga às janelas \ e dorme nos escritórios. \ Há luzes nas avenidas, \ nas praças, nos sky sings \ doando seu triste às cores \ que há no ritmo da tarde. \ Telhados de tantos séculos, \ céu veloz sobre a cidade, \ todo o Recife incendiado \ entre as chamas do Natal. \ Velhas e tantas igrejas \ tantas pontes inventadas \ sobre as pontes, velozmente \ passa a vida em disparada. \ Soberbo perfil de touro, \ burgo velho enfeudalado: \ - eis o Recife, um vasto império \ por mocambos coroado.

Poema do poeta, jornalista, professor e crítico literário Cesar Leal (1924-2013), autor de livros como Os heróis (Bagaço, 2008), Alturas (1997), O arranha-céu e outros poemas (1994) e Os cavaleiros de Júpiter (1968), entre outros. Veja mais aqui, aqui, aqui e aqui.

 

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MÓNICA OJEDA, BORA CHUNG, AZA NJERI & DÉBORA LAÍS FERRAZ

  Imagem: Acervo ArtLAM . Ao som dos concertos Nights from the Alhambra (2007), A Mediterranean Odyssey (2010), Troubadours On The Rhine...