quinta-feira, agosto 08, 2019

WOLE SOYINKA, OUSPENSKY, ANNEGRET SOLTAU, SAFFIOTI & FUGA DA PASSARINHADA


FUGA DA PASSARINHADA - Ainda ontem de muito antes, meus passarinhos embalavam ruidosos toda minha fantasia. Chilreios encantavam infância e juventude, traquinagens de papa-capim, tiziu, guriatã, sabiá, patativa, curió, canário da terra, azulão, galo de campina, chorão, bem-te-vi, xexeu, caboclinho, sibitos, quantos outros e muitos com seus gorjeios, nem lembro mais. Cada um com seu trinado mirabolante, encanto para os ouvidos na plenitude da vida: chega dava uma grandeza na alma e no coração. Meu pai colecionava em centenas de gaiolas. Bastava ele descuidar, soltava um por um, os canários-do-império, a coleção de sabiás, todos avoando no quintal. Ele só desconfiou porque as gaiolas esvaziaram. Todavia, ouvia os cantos, pensava que eu havia colocado noutras gaiolas do lado de fora. Qual nada, estavam todos soltos ao redor das árvores no quintal. Tanto é que eu saía perambulando como se a cantoria da passarada me acompanhasse o passo pelas manhãs e tardes ensolaradas. Como eu saía ancho, feliz. Porém, se estivesse vestido de roupas com cores amarelas ou vermelhas, logo era surpreendido por um ataque de lacerdinhas que pousavam sobre minha camisa, afora, invariavelmente, uma delas aos meus olhos. Era um ardor insuportável: expelia um líquido cáustico e provocava uma irritação ocular acompanhada de uma ardência prolongada. Pense num coisa ruim, mal-estar danado. Não sabia eu que esses insetos oriundos da Ásia Oriental invadiram diversos estados brasileiros no início dos anos de 1960. Só me lembro do padecimento às vistas irritadas. Qualquer pessoa que transitasse pelas praças, logo saía vitimada dos pela repulsiva situação. Para combatê-los, muita providência e depois de se pensar todas as formas de uso preventivo ou para remediar o vexame, deram conta do pardal, aquele mesmo que aparece em salmos bíblicos, nas lendas religiosas e que era a ojeriza de Hornoday e do rei da Prússia. Foi importado do Velho Mundo para combater pragas, colaborando com Oswaldo Cruz na higienização das cidades por ser insetívero, tornando-se, porém, numa calamidade de pena e bico, ganhando até má fama em marcha carnavalesca dos Namorados da Lua, afora ter sido por séculos, devidamente caçado na Europa e no Brasil numa verdadeira matança, por hostilizar outras espécies de aves e causar danos na lavoura. Só carcará, gavião carijó, falcões e corujas amedrontam os pardais, enquanto estes dizimam aves autóctones, sendo muito resistente e comendo de tudo que nem se imagine, aninhado em forros de telhados, fiações, buracos na parede, coqueiros e muros. Desapareceram as tais lacerdinhas execráveis e com elas a passarada canora, restando apenas, na minha solidão, o piado insosso de pardais pelos dias. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.

DITOS & DESDITOS:
[...] É próprio da espécie humana elaborar socialmente fenômenos naturais. Por esta razão é tão difícil, senão impossível, separar a natureza daquilo em que ela foi transformada pelos processos socioculturais. A natureza traz crescentemente a marca da intervenção humana, sobretudo nas sociedades de tecnologia altamente sofisticada. Há, portanto, ao longo da historia, uma humanização da natureza, uma domesticação da natureza por parte do ser humano. Este processo caracteriza-se, como tudo na vida social, pela contradição. Se, por um lado, revela a capacidade humana de colocar a natureza a seu serviço, por outro, interfere no ecossistema, destruindo, muitas vezes, o equilíbrio ecológico. [...] Não basta conhecer á capacidade humana de transformar o reino natural. É preciso atentar para o processo inverso, que consiste em naturalizar processos socioculturais, quando se afirma que é natural que a mulher se ocupa do espaço domestico, deixando livre para o homem o espaço público, está-se rigorosamente, naturalizando um resultado. [...] A história oficial pouco ou nada registra da ação feminina no devenir histórico. Isto não se passa apenas com mulheres. Ocorre com outras categorias sociais discriminadas, como negros, índios, homossexuais. Deste fato decorrem movimentos sociais, visando ao resgate da memória, geralmente não registrada, destes contingentes humanos que, atuando cotidianamente, ajudaram e ou ajudam a fazer história. E de extrema importância compreender como a naturalização dos processos socioculturais de discriminação contra a mulher e outras categorias sociais constitui 0 caminho mais fácil e curto para legitimar a "superioridade" dos homens, assim como a dos brancos, a dos heterossexuais, a dos ricos. [...].
Trechos extraídos da obra O poder do macho (Moderna, 1987), da socióloga, professora e militante feminista Helena Iara Bongiovani Saffioti (1934-2010). Veja mais aqui & aqui.

O TEATRO DE WOLE SOYINKA
MORTE E CAVALEIRO DO REI – [...] LOUCO DE ELOGIO O seu nome será como o doce que uma criança coloca debaixo da sua língua para adoçar a passagem da comida. O mundo nunca vai cuspir. ELESIN Venha então, este mercado é meu abrigo. Quando venho entre as mulheres, sou uma galinha com cem mães. Eu me torno um monarca cujo palácio é construído com dez dureza e beleza. ELOGIO-CANTOR Eles adoram estragar, mas cuidado. As mãos das mulheres também enfraquecem os desavisados. ELESIN Esta noite vou deitar minha cabeça no colo deles e dormir. Esta noite eu vou tocar os pés com os pés em uma dança que não é mais desta terra. Mas o cheiro da carne deles, o suor deles, o cheiro de índigo nos tecidos deles, esse é o último ar que eu desejo respirar enquanto vou ao encontro dos meus grandes antepassados. CULPA DE LOUCO Em seu tempo as grandes guerras iam e vinham, as pequenas guerras iam e vinham; os negociantes de escravos brancos iam e vinham, eles tiravam o coração de nossa raça, eles afastavam a mente e o músculo de nossa raça. A cidade caiu e foi reconstruída; a cidade caiu e nosso povo se arrastou através da montanha e da floresta para encontrar um novo lar, mas - Elesin Oba, você me ouve? ELESIN Eu ouço sua voz Olohun-iyo. CULPA DE LOUVOR Nosso mundo nunca foi arrancado de seu verdadeiro curso. [...] ELESIN O mundo que conheço é bom. MULHERES Assim vai deixá-lo, nós sabemos. ELESIN O mundo que conheço é a dádiva Das colmeias quando se foram as abelhas. Não há bondade que profunda de mãos assim abertas Mesmo nos sonhos das deidades. MULHERES E assim vai deixá-lo, nós sabemos. ELESIN Nasci pra assim mantê-lo. [...] ELESIN Esta noite não está em paz, ser fantasmático. O mundo não está em paz. Você destruiu a paz do mundo para sempre. Não há sono no mundo esta noite. PILKINGS Ainda assim, é um bom negócio que o mundo perca uma noite de sono se esse é o preço de se salvar a vida de um homem. ELESIN Você não salvou minha vida, Oficial Distrital. Você a destruiu. [...].
Trechos da peça teatral Morte e Cavaleiro do Rei (Death andthe King’s Horseman – W.W. Norton, 2003), do poeta e dramaturgo nigeriano Wole Soyinka. Veja mais aqui e aqui.

A FOTOGRAFIA DE ANNEGRET SOLTAU
Eu tenho uma relação de amor e ódio com técnicas como tricô, crochê ou costura. Minha inspiração vem da minha vida pessoal e do ambiente; estou ciente do que está acontecendo em nossa sociedade de forma sismográfica. Meus ideais mudam com o tempo.
A arte da fotógrafa alemã Annegret Soltau. Veja mais aqui.

A OBRA DE OUSPENSKY
É somente quando percebemos que a vida não está nos levando a lugar algum que ela começa a ter significado.
A obra do filósofo e psicólogo russo Piotr Demianovitch Ouspensky (1878-1947) aqui, aqui e aqui.


MÓNICA OJEDA, BORA CHUNG, AZA NJERI & DÉBORA LAÍS FERRAZ

  Imagem: Acervo ArtLAM . Ao som dos concertos Nights from the Alhambra (2007), A Mediterranean Odyssey (2010), Troubadours On The Rhine...