A SOLIDÃO DE APOLONIO (Imagem do
quadrinista Guilherme Raffide) - Lá estava aquele carismático ser com
sua túnica de linho, barba e longos cabelos atraindo multidões. Todos sabiam
que o asceta nascera em uma família antiga e rica de Tiana, na Capadócia, numa circunstância
inusitada e milagrosa – a mãe grávida recebeu a visita de Proteu, o deus do
Egito, divinizando a gestação. Relatos de muitos populares dão conta de que, no
exato instante de seu nascimento, um raio caiu sobre a terra e, depois, elevou-se
no ar até desaparecer no alto do céu. Foi educado em Tarso e, em seguida, no
templo de Esculápio, em Aegae, estudou Medicina e as doutrinas pitagóricas,
tornando-se num místico matemático e cientista, cultuador do heliocentrismo, politicamente
ativo lutando contra a tirania. Era um vegetariano discípulo pitagórico: um
boi senta-se sobre a disciplina do silêncio. E fez seu juramento: por 5 ano
de pureza. O sábio errante tomou o escriba Damis por discípulo, despojou-se de
todo o seu patrimônio dando-o aos parentes, seguindo para a Grécia e de lá
esteve em Nínive, Babilônia e Índia: aprendeu com os brâmanes e magos sacerdotes.
No Egito, esteve com os gimnosofistas, os filósofos nus. Previa o futuro, enquanto
obrava milagres, falava todos os idiomas, conhecia o pensamento mais íntimo de
cada pessoa e compreendia os pássaros e todos os animais. Foi acusado de
traição por Nero, escapando milagrosamente das teias implacáveis do ódio:
graças a um eclipse com trovão e uma clarividência: Haverá um grande
acontecimento e não haverá. É que o raio caiu exatamente sobre a mesa de
Nero e partiu em dois o copo que ele levava aos lábios. Foi preso pelo
imperador Domiciano, acusado de incentivar rebeliões: ele se desvaneceu no julgamento
do tribunal inexplicavelmente. Assim aparecia e desaparecia da vida púbica, atuando
e servindo como curador de corpos e almas, salvando enfermos, exorcizando demônios,
afora ressuscitar mortos e libertar cidades das pragas. Retornou para construir
uma escola em Êfeso, tudo registrado pelo discípulo que acompanhou a vida centenária
do mestre taumaturgo, cujos registros foram entregues à imperatriz Julia Domna,
que incumbiu o sofista Flávio Filóstrato a biografia do sábio, repleta de
milagres e homenagens reais: Com relação à maneira de sua morte, ‘se ele
morreu’, as narrativas são diversas... Durante toda sua vida escreveu
livros e tratados sobre ciência, medicina e filosofia. Todas as suas biografias
apologéticas foram perseguidas e destruídas pelos cristãos, sobretudo por conta
da semelhança de sua biografia com a do seu contemporâneo Jesus. Porém, as
crônicas de Damis foram milagrosamente salvas, graças ao imperador romano
Adriano e a iniciativa posterior de Hierócles, os relatos sobre sua vida foram
restaurados e publicados, registrando-se também sua presença nas obras Vida de
Pitágoras, escrito pelo neoplatônico Porfírio – e autor da Adversus
Christianos, na qual questionava a divindade de Jesus, garantindo que os
feitos de Apolônio eram similares; e na Vida Pitagórica, do neoplatônico
assírio Jâmblico. Suas atividades foram analisadas no Livro das Pedras, do alquimista
medieval islâmico Jabir ibne Haiane, a partir do qual passou a ser considerado
o Jesus pagão, divino e imortal: ao morrer, ascendeu ao céu e regressou para mostrar
que vivia no reino celestial.
DITOS &
DESDITOS
Faça-se
conhecer como filósofo, e isso é ser um homem livre. Falar falsamente é a marca
de um escravo, mas a verdade é nobre. Vi os brâmanes indianos vivendo na terra
e não sobre ela, cercados por muros sem muros, e sem posses além do mundo
inteiro. Pitágoras disse que a medicina é a mais divina das artes. Mas, se é a
mais divina, deve cuidar tanto da alma quanto do corpo, senão o ser vivo estará
doente, acometido por uma doença em sua parte superior. Na minha opinião, excelência e riqueza são
opostos diretos.
Pensamento do filósofo neo-pitagórico,
asceta e professor grego Apolônio de Tiana.
O
HOMEM QUE FAZIA MILAGRES - [...]
É duvidoso que o dom fosse inato. Por minha parte, acho que lhe surgiu de
repente. De fato, até os trinta anos ele era cético e não acreditava em poderes
miraculosos. E aqui, já que é o lugar mais conveniente, devo mencionar que ele
era um homem pequeno, com olhos de um castanho intenso, cabelo ruivo bem
espetado, um bigode com as pontas que ele torcia para cima e sardas. Seu nome
era George McWhirter Fotheringay — não o tipo de nome que, de forma alguma,
levasse à expectativa de milagres — e ele era escriturário na loja de Gomshott.
Ele era muito propenso a argumentos assertivos. Foi enquanto afirmava a
impossibilidade de milagres que teve seu primeiro indício de seus poderes
extraordinários. Essa discussão em particular estava sendo debatida no bar do
Long Dragon, e Toddy Beamish conduzia a oposição com um monótono, porém eficaz,
"Então _você_ diz", que levou o Sr. Fotheringay ao limite de sua
paciência. Estavam presentes, além desses dois, um ciclista muito empoeirado, o
proprietário Cox, e a Srta. Maybridge, a garçonete perfeitamente respeitável e
um tanto corpulenta do Dragão. A Srta. Maybridge estava de costas para o Sr.
Fotheringay, lavando copos; os outros o observavam, mais ou menos divertidos
com a ineficácia do método assertivo. Instigado pelas táticas de Torres Vedras
do Sr. Beamish, o Sr. Fotheringay resolveu fazer um esforço retórico incomum.
"Veja bem, Sr. Beamish", disse o Sr. Fotheringay. "Vamos
entender claramente o que é um milagre. É algo contrário ao curso da natureza,
feito pelo poder da vontade, algo que não poderia acontecer sem ser
especialmente desejado." "É o que você diz", disse o Sr.
Beamish, repelindo-o. O Sr. Fotheringay apelou ao ciclista, que até então havia
sido um ouvinte silencioso, e recebeu sua concordância — dada com uma tosse
hesitante e um olhar para o Sr. Beamish. O proprietário não expressou opinião,
e o Sr. Fotheringay, voltando-se para o Sr. Beamish, recebeu a inesperada
concessão de uma concordância condicionada à sua definição de milagre. "Por
exemplo", disse o Sr. Fotheringay, muito animado. "Aqui seria um
milagre. Aquela lâmpada, no curso natural das coisas, não poderia queimar assim
de cabeça para baixo, poderia, Beamish?" "Você diz que não
poderia", disse Beamish. "E você?" disse Fotheringay. "Você
não quer dizer... né?" "Não", disse Beamish, relutantemente.
"Não, não poderia." "Muito bem", disse o Sr. Fotheringay.
"Então, eis que surge alguém, como poderia ser eu, por aqui, e fica parado
como poderia estar aqui, e diz para aquela lâmpada, como eu faria, reunindo
toda a minha vontade: Vire de cabeça para baixo sem quebrar, e continue
queimando firme, e... Olá!" Foi o suficiente para fazer qualquer um dizer
"Olá!" O impossível, o incrível, era visível para todos eles. A lâmpada
invertida no ar, queimando silenciosamente com sua chama indicando para baixo.
Era tão sólida, tão indiscutível como sempre uma lâmpada era, a lâmpada comum
prosaica da barra do Dragão Longo. O Sr. Fotheringay estava de pé com o dedo
indicador estendido e as sobrancelhas franzidas de quem antecipava um estrondo
catastrófico. O ciclista, que estava sentado ao lado da lâmpada, abaixou-se e
pulou por cima do balcão. Todos pularam, mais ou menos. A Srta. Maybridge se
virou e gritou. Por quase três segundos, a lâmpada permaneceu imóvel. Um fraco
grito de angústia mental veio do Sr. Fotheringay. "Não consigo continuar
assim", disse ele, "por mais tempo." Ele cambaleou para trás, e
a lâmpada invertida de repente se iluminou, caiu contra a quina do balcão,
ricocheteou para o lado, se estilhaçou no chão e se apagou. [...] Em outro momento, um pombo azul estava
esvoaçando pela sala e fazendo Sr. Maydig se abaixa cada vez que se aproximava
dele. "Pára aí, está bem?" disse Sr. Fotheringay; e o pombo pendurou
imóvel no ar. "Eu podia mude-o de volta para uma tigela de flores",
disse ele, e depois de substituir o pombo na mesa fez aquele milagre. "Eu
espero que você vai querer o seu cachimbo em um pouco", disse ele, e
restaurou o frasco de tabaco.
[...] Sr. Fotheringay começou a contar sobre sua desventura com Winch, e o
Sr. Maydig, não mais sobrecarregado ou assustado, começou a sacudir seus
membros sobre e interjetar espanto. "Foi isso que mais me incomodou",
prosseguiu o Sr. Fotheringay; "é isso que eu sou mais insignificantemente
em falta de conselhos para; é claro ele está em São Francisco – onde quer que
seja San Francisco – mas é claro que é estranho para nós dois, como verá, Sr.
Maydig. Não vejo como pode entender o que aconteceu, e atrevo-me a dizer que
ele está assustado e exasperado algo tremendo, e tentando chegar até mim.
Atrevo-me a dizer que ele continua começando a vir aqui. Eu o envio de volta,
por um milagre, a cada poucas horas, quando penso nisso. E, claro, isso é uma
coisa que ele não será capaz entender, e é obrigado a aborrecê-lo; e, claro, se
ele tomar um bilhete toda vez que lhe vai custar muito dinheiro. Fiz o melhor
que pude para ele, mas, claro, é difícil para ele se colocar no meu lugar.
Pensei depois que as roupas dele podiam ter sido queimadas, tu sabes – se o
Hades é tudo o que deveria ser – antes de eu o mudar. Nessa Caso, suponho que o
teriam trancado em São Francisco. Claro que eu desejou-lhe um novo terno de
roupas sobre ele diretamente eu pensei nisso. Mas, você veja, eu já estou em um
deuce de um emaranhado-" Sr. Maydig parecia sério. "Vejo que você
está em um emaranhado. Sim, é a posição difícil. Como você deve acabar com
isso..." Ele tornou-se difuso e inconclusivo. [...] Ele abriu os
olhos. Ele estava no bar do Dragão Longo, discutindo sobre milagres com Toddy
Beamish. Ele tinha uma vaga sensação de algo ótimo esquecido que
instantaneamente passou. Você vê isso, exceto pela perda de seus poderes
milagrosos, tudo estava de volta como tinha sido, sua mente e memória,
portanto, eram agora exatamente como tinham sido no momento em que esta história
começou. Para que ele não soubesse absolutamente nada de tudo o que se diz
aqui... não sabe nada de tudo o que é dito aqui até hoje. E entre outros coisas,
é claro, ele ainda não acreditava em milagres. "Eu lhe digo que milagres,
propriamente falando, não podem acontecer", ele disse: "o que quer
que você goste de segurar. E estou preparado para provar isso ao Hilt." "Isso
é o que você pensa", disse Toddy Beamish, e "Prove se você pode."
"Olha aqui, Sr. Beamish", disse o Sr. Fotheringay. "Vamos
claramente entender o que é um milagre. É algo contrário ao curso de natureza
feita pelo poder de Will..." [...]. Trechos extraídos da obra The Man Who Could Work Miracles –
Pantoum in prose, (The Cresset Press, 1936), do escritor britânico H. G.
Wells (Herbert George Wells). Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui, aqui &
aqui.
O RATO DAS CANÇÕES DE PIERRE-JEAN DE BÉRANGER (1780-1857)
O RATO
Medrosa, a jovem Lisa
Teme qualquer ratinho
E berra de ojeriza
Se um lhe cruza o caminho.
Fazer tanta zoada
Por um bicho tão fraco!
Fica, Lisa, calada:
Deixa que ache o buraco.
Gritando, Lisa tenta
Fugir-lhe, mas em vão:
O rato que a atormenta
Lhe salta para a mão.
Ela aperta, assustada,
O tal bicho velhaco.
Fica, Lisa, calada:
Deixa que ache o buraco.
É tão grande o pavor
De Lisa, que desmaia.
Se mete o roedor
Por sob a saia.
Sem medo de mais nada,
Põe-se a comer seu naco.
Fica, Lisa, calada.
Ele achou o seu buraco.
(Tradução de José Paulo Paes)
PIERRE-JEAN DE BÉRANGER (1780-1857) – O poeta, libretista, cançonista e letrista musical francês, Pierre Jean de Béranger, foi participante ativo do movimento da convulsão social que se seguiu à Revolução Francesa, obtendo popularidade como Victor Hugo e Alphonse de Lamartine. Deixsou uma obra lírica vibrante que ainda hoje desperta o interesse do público erudito. Sua primeira coletanea tem o título malicioso de Chansons morales et autres (Canções morais ... e outras), publicada em 1815. Segue-se outras coletâneas posteriores até Chansons nouvelles et dernières (Canções novas e últimas). É autor de mais de uma centena de canções inéditas e romanceiros. Suas canções foram reunidas em vários volumes celebrando o amor e a juventude em diapasão báquico, atacando revolucionariamente os padres e os novos pobres, tornando-se, por isso, grande poeta popular da Fraçam do séc. XIX.
O ERRO DE DESCARTES DE ANTONIO DAMASIO - [...] A preocupação é dirigida tanto à noção dualista com a qual Descartes separa a mente do cérebro e do corpo como às variantes modernas dessa noção: por exemplo, a ideia de que mente e cérebro estão relacionados mas apenas no sentido de a mente ser o programa de software que corre numa parte do hardware chamado cérebro; ou que cérebro e corpo estão relacionados, mas apenas no sentido de o primeiro não conseguir sobreviver sem a manutenção que o segundo lhe oferece. Qual foi, então, o erro de Descartes? Ou, melhor ainda, a que erro de Descartes me refiro com ingratidão? Poderíamos começar com um protesto e censurá-lo por ter convencido os biólogos a adotarem, até hoje, uma mecânica de relojoeiro como modelo dos processos vitais. Mas talvez isso não fosse muito justo, e comecemos, então, pelo ”penso, logo existo”. Essa afirmação, talvez a mais famosa da história da filosofia, surge pela primeira vez na quarta seção de O discurso do método (1637), em francês (”Je pense, doncje suis”); e depois na primeira parte de Princípios da filosofia (1644), em latim (”Cogito ergo sum”).3 Considerada literalmente, a afirmação ilustra exatamente o oposto daquilo que creio ser verdade acerca das origens da mente e da relação entre a mente e o corpo. A afirmação sugere que pensar e ter consciência de pensar são os verdadeiros substratos de existir. E, como sabemos que Descartes via o ato de pensar como uma atividade separada do corpo, essa afirmação celebra a separação da mente, a ”coisa pensante” (rés cogitans), do corpo não pensante, o qual tem extensão e partes mecânicas (rés extensa). No entanto, antes do aparecimento da humanidade, os seres já eram seres. Num dado ponto da evolução, surgiu uma consciência elementar. com essa consciência elementar apareceu uma mente simples; com uma maior complexidade da mente veio a possibilidade de pensar e, mais tarde ainda, de usar linguagens para comunicar e melhor organizar os pensamentos. Para nós, portanto, no princípio foi a existência e só mais tarde chegou o pensamento. E para nós, no presente, quando vimos ao mundo e nos desenvolvemos, começamos ainda por existir e só mais tarde pensamos. Existimos e depois pensamos e só pensamos na medida em que existimos, visto o pensamento ser, na verdade, causado por estruturas e operações do ser. Quando colocamos a afirmação de Descartes no devido com contexto, podemos perguntar-nos por um instante se poderá ter significado diferente daquele que lhe estamos atribuindo. Poderia ser vista como o reconhecimento da superioridade da razão e do sentimento consciente, sem nenhum compromisso firme no que respeita à sua origem, substância ou permanência? É possível. Não poderia a afirmação ter servido também o hábil propósito de aliviar as pressões religiosas que Descartes podia sofrer? É possível, mas não podemos saber ao certo. (A inscrição que Descartes escolheu para sua lápide foi uma citação a que recorria com frequência: ”Bene qui latuit, bene vixit”,* de Tristia, 3.4.25, de Ovídio. Uma renúncia discreta ao dualismo?) Quanto à primeira possibilidade de interpretação, e fazendo o balanço final, suspeito que Descartes também queria dizer precisamente aquilo que escreveu. Quando as famosas palavras surgem pela primeira vez, Descartes está feliz com a descoberta de uma proposição tão verdadeira que não podia ser negada ou abalada por nenhuma dose de ceticismo. [...] É esse o erro de Descartes: a separação abissal entre o corpo e a mente, entre a substância corporal, infinitamente divisível, com volume, com dimensões e com um funcionamento mecânico, de um lado, e a substância mental, indivisível, sem volume, sem dimensões e intangível, de outro; a sugestão de que o raciocínio, o juízo moral e o sofrimento adveniente da dor física ou agitação emocional poderiam existir independentemente do corpo. Especificamente: a separação das operações mais refinadas da mente, para um lado, e da estrutura e funcionamento do organismo biológico, para o outro. [...] A separação cartesiana pode estar também subjacente ao modo de pensar de neurocientistas que insistem em que a mente pode ser perfeitamente explicada em termos de fenômenos cerebrais, deixando de lado o resto do organismo e o meio ambiente físico e social — e, por conseguinte, excluindo o fato de parte do próprio meio ambiente ser também um produto das ações anteriores do organismo. Protesto contra essa restrição, não porque a mente não esteja diretamente relacionada com a atividade cerebral, pois obviamente está, mas porque essa formulação restritiva é forçosamente incompleta e insatisfatória em termos humanos. É um fato incontestável que o pensamento provém do cérebro, mas prefiro qualificar essa afirmação e considerar as razões por que os neurônios conseguem pensar tão bem. Essa é, de fato, a questão principal. [...] Versões do erro de Descartes obscurecem as raízes da mente humana em um organismo biologicamente complexo, mas frágil, finito e único; obscurecem a tragédia implícita no conhecimento dessa fragilidade, finitude e singularidade. E, quando os seres humanos não conseguem ver a tragédia inerente à existência consciente, sentem-se menos impelidos a fazer algo para minimizá-la e podem mostrar menos respeito pelo valor da vida. [...] Há algo de paradoxal na nossa cultura em relação à conceitualização da medicina e seus profissionais. Muitos médicos interessam-se pelas humanidades, das artes à literatura e à filosofia. Há um número surpreendentemente grande de médicos que se tornaram poetas, romancistas e dramaturgos de destaque, e houve vários que refletiram com profundidade sobre a condição humana e abordaram sabiamente suas dimensões fisiológica, social e política. E, no entanto, as escolas de medicina de onde eles provêm ignoram, na sua maior parte, essas dimensões humanas, concentrando-se na fisiologia e na patologia do corpo propriamente dito. A medicina ocidental, e em particular a medicina dos Estados Unidos, alcançou a glória por meio da expansão da medicina interna e das subespecialidades cirúrgicas, sendo objetivo de ambas o diagnóstico e o tratamento de órgãos e sistemas doentes em todo o corpo. O cérebro (mais concretamente, os sistemas nervosos central e periférico) foi incluído nesse empreendimento, uma vez que era um desses ”órgãos”. Mas seu produto mais precioso, a mente, não foi alvo de grande preocupação por parte da corrente central da medicina e, na verdade, não tem constituído o tópico principal da especialidade associada ao estudo das doenças do cérebro, a neurologia. Talvez não tenha sido por acaso que a neurologia americana começou como subespecialidade da medicina interna e apenas se tornou autônoma no século XX. O resultado dessa tradição tem sido uma considerável negligência da mente enquanto função do organismo. Poucas escolas de medicina oferecem atualmente aos seus estudantes alguma formação acerca da mente normal, a qual só pode ser fornecida num currículo forte em psicologia geral, neurofisiologia e neurociência. As escolas de medicina proporcionam estudos da mente doente que se encontra nas doenças mentais, mas é espantoso ver que, por vezes, os estudantes começam a aprender psicopatologia sem nunca terem aprendido psicologia normal. Há diversas razões subjacentes a essa situação, e suponho que a maior parte delas provém de uma visão cartesiana da condição humana. Ao longo dos três últimos séculos, o objetivo da biologia e da medicina tem sido a compreensão da fisiologia e da patologia do corpo. A mente foi excluída, sendo em grande parte relegada para o campo da religião e da filosofia, e, mesmo depois de se tornar o tema de uma disciplina específica, a psicologia, só recentemente lhe foi permitida a entrada na biologia e na medicina. Sei que há louváveis exceções a esse panorama, mas elas vêm apenas reforçar essa idéia sobre a situação geral. O resultado de tudo isso tem sido uma amputação do conceito de natureza humana com o qual a medicina trabalha. Não surpreende que, de um modo geral, as consequências do corpo sobre a mente mereçam uma atenção secundária, ou não mereçam mesmo nenhuma atenção. A medicina tem demorado a perceber que aquilo que as pessoas sentem em relação ao seu estado físico é um fator principal no resultado do tratamento. Ainda sabemos muito pouco acerca do efeito placebo, através do qual os doentes apresentam uma reação melhor que aquela que uma determinada intervenção médica levaria a esperar. (O efeito placebo pode ser avaliado por meio do efeito de comprimidos ou injeções que, sem o doente saber, não contêm nenhum ingrediente farmacológico e se presume desse modo não terem influência alguma, positiva ou negativa.) Por exemplo, não sabemos se alguém é mais suscetível a reagir com efeito placebo ou se somos todos suscetíveis a ele. Desconhecemos também até onde pode ir o efeito placebo e até que ponto pode se aproximar do resultado de um medicamento ativo. Sabemos muito pouco sobre a maneira de induzir o efeito placebo e não temos a menor ideia do grau de erro criado por ele nos chamados estudos double-blind. Começa finalmente a ser aceito o fato de as perturbações psicológicas poderem provocar doenças no corpo, mas continuam por ser estudadas circunstâncias em que isso se verifica e o grau que atinge. É claro que nossas avós conheciam bem o assunto: diziam-nos que o sofrimento, a preocupação obsessiva, o mau humor, e assim por diante, podiam estragar a pele e tornar-nos mais sujeitos a infecções, mas tudo isso tinha um ar ”folclórico” e não era nada convincente em termos científicos. A medicina demorou muito tempo a descobrir que valia a pena tomar em consideração o que estava por detrás de tanta sabedoria humana. A negligência cartesiana da mente, por parte da biologia e da medicina ocidentais, tem tido duas consequências negativas principais. A primeira situa-se no campo da ciência. O esforço para compreender a mente em termos biológicos em geral atrasou-se várias décadas e pode dizer-se que só agora começa. Antes tarde do que nunca, sem dúvida alguma, mas o atraso significa também que se tem perdido o impacto potencial que um conhecimento profundo da biologia da mente poderia ter causado nos problemas das sociedades humanas. A segunda consequência negativa relaciona-se com o diagnóstico e com o tratamento eficaz das doenças. É bem verdade que todos os grandes médicos têm sido homens e mulheres não apenas bem versados no essencial da fisiopatologia da sua época, mas também pessoas que estão à vontade, dado o bom senso e a sabedoria que acumularam, no que toca aos conflitos do coração humano. Têm sido peritos exímios no diagnóstico e no tratamento graças a uma combinação de conhecimentos e talento. No entanto, estaríamos iludindo-nos se pensássemos que o padrão da prática da medicina no mundo ocidental é o desses médicos famosos que todos conhecemos. Uma imagem distorcida do organismo humano, juntamente com o crescimento assoberbador do conhecimento e com a necessidade de subespecialização, torna a medicina cada vez mais inadequada. A medicina bem poderia dispensar o acréscimo de problemas que sua dimensão industrial agora lhe traz, mas também esses não param de se avolumar e agravam, por certo, o seu desempenho. O problema do abismo que separa o corpo da mente na medicina ocidental ainda não é matéria de debate para o público em geral, embora pareça já ter sido detectado. Suspeito que o êxito de algumas formas da chamada medicina ”alternativa”, em especial aquelas que estão ligadas à tradição não ocidental, constitui uma reação compensatória a esse problema. Há algo a admirar e aprender com essas formas de medicina alternativa, mas, infelizmente, e independente de sua adequação em termos humanos, o que oferecem não chega para tratar eficazmente as doenças. com toda a justiça, devemos admitir que até mesmo a medíocre medicina ocidental resolve um número extraordinário de problemas. No entanto, as formas de medicina alternativa vêm colocar em destaque o ponto fraco da tradição ocidental, que deveria ser cientificamente corrigido dentro da própria medicina. Se, como julgo, o êxito atual dos tratamentos alternativos é um indício da insatisfação do público em relação à incapacidade da medicina tradicional de considerar o ser humano como um todo, é de prever que essa insatisfação irá aumentar nos próximos anos, à medida que se aprofundar a crise espiritual da sociedade ocidental. Não parece provável que venham a diminuir em breve a proclamação de sentimentos feridos, a procura desesperada da diminuição da dor e do sofrimento individuais ou o chorar inarticulado pela perda do equilíbrio e felicidade interiores, nunca alcançados, a que a maioria dos seres humanos aspira. Seria absurdo pretender que a medicina curasse sozinha uma cultura doente, mas é igualmente absurdo ignorar esse aspecto da doença humana. O ERRO DE DESCARTES – O livro O erro de Descartes: emoção, razão e o cérebro humano, do médico neurologista e neurocientista português Antonio Rosa Damásio, aborda o caso de Phineas P. Gage, a conduta social desviante e lesão do lobo frontal, a frenologia, os sistemas formas por várias unidades cerebrais interligadas, anatomia do sistema nervoso, o mapa de Brodmann, o cérebro como supersistema de sistemas, o caso Elliot, a meningioma, a sedução das emoções podendo constituir uma fonte igualmente importante de comportamento irracional, casos de lesões pré-frontais. Lesões em regiões não frontais, anosognosia, anatomia e função, estudos em animais, explicações neuroquímicas, neurobiologia da racionalidade, a regulação biológica e sua expressão nas emoções e nos sentimentos e dos mecanismos para tais na tomada de decisão, corpos e cérebros, estados de organismos, a interação entre o corpo e o cérebro, o organismo interior somatossensorial, sistema nervoso autônomo, sistema nervoso músculo-esquelético, o comportamento e a mente, a interação entre o organismos e o ambiente, os principais setores sensoriais, a mente integrada numa atividade fragmentada, imagens do agora e do passado e futuro, imagens perceptuais e evocadas, formação de imagens perceptivas, representações dispositivas visuais, o conhecimento incorporado em representações dispositivas, o pensamento como efeito de imagens, aspriming e priming, geometria fractal, desenvolvimento neural, sistemas e circuitos, regulação biológica, representações neurais, impulsos e instintos, regulação básica, o amor e os primórdios da neurobiologia do afeto, emoções e sentimentos, emoções primárias e secundárias, variedades de sentimentos, variedade de sensações e sentimentos de fundo, cuidar do corpo, o processo do sentir, a hipótese do marcador-somático, raciocínio, racionalização em ação, altruísmo, noção de contingência, intuição, experiências do jogo, controles normais e doentes frontais, prever o futuro, o eu neural, uma paixão pela razão, mecânica do relojoeiro, a visão cartesiana e a medicina, alavancagem para a sobrevivência, entre outros importantes assuntos. 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REFERÊNCIA
DAMÁSIO, Antonio. O erro de Descartes: emoção, razão e o cérebro humano. São Paulo: Schwarcz, 1998.