terça-feira, fevereiro 16, 2016

ARENDT, BUCK-MORSS, HERA LINDSAY BIRD, CHAMOISEAU, DIETRICH, STEPHEN KING & CRÔNICA DE AMOR.

 


CRÔNICA DE AMOR POR ELA - Nada merece mais a nossa gratidão que o ventre materno, seja ela simples dona de casa alagoana ou uma resignada do mosteiro de Argenteuil. Decerto todos nós passamos pelo canal de parturição. Nós, vivos ou mortos, já viajamos nove meses na aeronave do ventre, dependentes da ternura materna até termos a consciência do oxigênio e da vida. Nada seria interessante se não fosse o poder da concepção que elas carregam no ventre, seja ela secretária executiva de Natal ou trabalhadora de Orange. Nada é mais admirável que a fecundação quando tudo se faz de prazer atravessando a zona pelúcida para gerar filhos da vida, adubados pelo carinho e a ternura da maternidade, seja de uma simples balconista de Terezina ou aquela de Guaratinguetá de Di Cavalcanti. Admirável é a sua anatomia, o seu design belo de recipiente do amor e do prazer, seja ela gueixa de Kioto, Aprés le l bain de Degas ou vendedoras de frutas da Martinica. Ou mesmo a de Unamuno no banho, ou costureira do mercado de Abi Djan. Que seja amada como uma simples rendeira de Aracati, ou mestiça do Gabão; ou tuaregue do Níger; ou ticoqueira da cana-de-açúcar. Que seja amiga mesmo como camponesa nordestina ou do milharal do Haiti. Ou mesmo uma cachorrona sexy, maluca pauleira, fatal miss ou sedutora perversa. Que seja malandra, dócil ou abestada, ou quitandeiras do Recife, prostitutas de Brasília ou a executante de alaúde de Caravaggio. Sempre serão belas mesmo que seja uma simples jovem turca, ou esquimó da Groenlândia ou, mesmo, a Garota de Ipanema. Sempre serão exuberantes mesmo na simplicidade daquela das colinas de Chittagong em Bangladesh ou aquela lavadeira de Portinari. Ou uma nativa birmanesa, ou aquela marabá de Rodolfo Amoedo. Ou mesmo a colhedora de chá do Ceilão ou uma linda índia Kamayurá. Ou, ainda, Le bain au serail de Theodore Chasseriau. Pode ser uma humilde tecelã de seda em Bali ou operária de qualquer montadora de São Bernardo do Campo. Ou a nômade Fars, ou humilde verdureira da feira de Caruaru. Pode ser uma dedicada vendedora de cosméticos de Aracaju ou Nu à contre jour de Bonnard. Ou uma Diana de Lee Falk, ou a Danae de Rembrand. Pode ser uma teimosa da vida ou Fleurs de la prairie de Maillol ou humilde enfermeira de um hospital de João Pessoa. Pode ser uma adolescente eterna sonhadora ou a estudante de Anita Malfati ou uma nativa das ilhas Trobriand, ou a Vênus Anaduomene de Ingres ou As Artes de Van Gogh. Que seja musa dos escritores, poetas e compositores ou mesmo uma perdida nas veredas da vida, ou Vairumati de Gaugin, Vênus de Brozino ou a que carda lã no Nepal. Seja a Bovary de Balzac ou a dedicada submersa entre marido e filhos. Ou a Nu de Modigliani ou uma passageira de Olinda; seja a mãe de Almada Negreiros, ou de Gorki, ou Valentina de Guiido Crepax. Seja ela Velta, ou Lôra Burra, a Vênus de Urbino de Ticiano ou Léda Atomique de Salvador Dali; ou femme de frisant de Toulouse-Lautrec; ou uma da cadeira de David Lingare. Mas também que seja ela Safo, louca, aguerrida ou desgarrada. Que seja uma sumidade intelectual ou muçulmana de Oman, mestiça de Cuenca, mulata do Rio de Janeiro ou mesmo estabanada andrógina da noite na paulicéia desvairada. Seja mesmo a que for: a “Mulher” de Geraldinho Azevedo & Neila Tavares, ou mesmo “Todas elas juntas num só ser” de Lenine & Carlos Rennó, ou tantas outras grandes e anônimas mulheres deste planeta, aqui só gratidão. Obrigado por existirem. Esta a minha homenagem, MULHER. Veja mais aqui & aqui.

 


DITOS & DESDITOS

Nunca subestime a capacidade de um ser humano que está determinado a fazer algo...

Pensamento da ativista somali Edna Adan Ismail (Edna Aadan Ismaaciil or Adna Aadan Ismaaciil, Edna Aadan Ismaaciil ou Adna Aadan Ismaaciil), pioneira na luta para eliminação da mutilação genital feminina e presidente da Organização para as Vítimas de Tortura.

 

ALGUÉM FALOU:

A vida é como uma roda. Mais cedo ou mais tarde, sempre vem para onde você começou de novo... Os monstros são reais e os fantasmas também são reais. Vivem dentro de nós e, às vezes, ganham...

Pensamento do escritor estadunidense Stephen King (Stephen Edwin King).

 

A BORBOLETA & A LUZ – [...] A beleza não exige aprendizado, recitação ou aplicação. Ela transforma, desperta e desperta novamente. Ela inspira. [...] Assim, a noite prossegue, em meio à carnificina do heroísmo e à possibilidade de sobrevivência. [...] Porque escolher é renunciar a todas as outras possibilidades. [...]. Trechos extraídos da obra Le Papillon et la Lumière (Honoré Champion, 2011), do escritor francés Patrick Chamoiseau, autor de obras como Creole Folktales (1994), Texaco (1992) e Solibo Magnificent (1988). Veja mais aqui.

 

ESQUEMA DE PIRÂMIDE - no outro dia eu estava pensando sobre o termo esquema de pirâmide, \ e por que eles chamaram de esquema de pirâmide e não esquema triangular \ e eu perguntei o que você achava \ você pensou que acrescentou uma certa gravitas, e ligou a ideia de prosperidade econômica \ com algumas das maiores conquistas arquitetônicas da história \ sugerindo inconscientemente uma riqueza silenciosa de ouro e calor \ um triângulo é bidimensional, e, portanto \ uma imagem mental menos marcante do que a ideia de uma terceira dimensão de fraude financeira \ que é quantas dimensões de fraude financeira o termo esquema de pirâmide sugere \ mas eu tive que fazer uma pausa por um segundo na parte de fraude financeira \ porque me ocorreu eu não sabia o que realmente eram esquemas de pirâmide \ Eu sabia que eles tinham algo a ver com as pessoas recebendo dinheiro do nada \ como a pessoa no topo do esquema da pirâmide, ou mais precisamente \ esquema triângulo, adquire um número de investidores e leva o seu dinheiro \ e depois paga o primeiro lote de investidores com o dinheiro de outro monte de investidores \ e assim por diante e assim por diante \ todo o caminho para o fundo do triângulo \ ou face da pirâmide \ que é o tipo de coisa estúpida que acontece \ se você mantiver seu dinheiro em uma pirâmide e não em uma conta bancária \ embora se você me perguntar bancos são os esquemas de pirâmide reais afinal \ ou foi o amor o verdadeiro esquema de pirâmide? Eu não consigo me lembrar \ Talvez seja melhor manter seu dinheiro em uma pirâmide do que um banco \ e eu deveria fazer compras e comparar as taxas de juros em diferentes pirâmides \ Talvez eu deva abrir uma pirâmide de poupança \ com um monte de alçapões e malárias \ para manter os antropólogos financeiros \ Quero dizer banqueiros para fora \ minhas esmeraldas esfriando sob o chão como lindos olhos de mulheres. \ Eu acho que isso deveria ser uma metáfora para algo \ mas não me lembro para onde eu estava indo com ele \ e agora foi arrastado pelos ventos de \ o que quer que \ mas me conhecendo, provavelmente foi amor \ aquela grande esperança de sexo azul escuro que continua se tornando realidade \ aquele castelo negro de desenho animado com um único pássaro voando sobre ele \ Eu não sei onde esse poema termina \ Quão abaixo da areia \ Mas ainda é cedo à noite \ e você e eu estamos um pouco bêbados \ Você atende o telefone \ você me servir uma bebida \ Eu sei que você odeia o doméstico na poesia, mas você deveria ter pensado nisso antes de me convidar para morar com você \ Eu costumava pensar que os argumentos eram os mesmos que a honestidade \ Eu costumava pensar que gritar era o mesmo que paixão \ Eu costumava pensar que a dor era significativa \ Eu não acho mais que a dor seja significativa \ Eu nunca aprendi nada de bom por ser infeliz \ Eu também nunca aprendi nada de bom por ser feliz \ a maneira como eu me sinto por você não tem nada a ver com o aprendizado \ não tem nada a ver com nada \ mas eu sinto isso nos cantos do meu sarcófago \ Eu sinto isso durante o sono \ mesmo quando não estou pensando em você \ você ainda está derramando através do meu sangue, como fogo através de uma ala hospitalar abandonada \ Essas moedas estão ficando pesadas em meus olhos \ tem sido uma grande honra e privilégio amar-te \ tem sido uma grande honra e privilégio comer pizza fria em seus degraus ao amanhecer \ O amor é tão estúpido: é como socar o sol \ e ter um milhão de moedas de ouro chovendo sobre você \ que você nem precisa pagar imposto sobre \ porque o dinheiro do sol é dinheiro grátis \ e tenho quase certeza de que não há leis sobre isso \ mas eu pagaria imposto \ porque acredito que hospitais e educação \ e as artes devem ser financiadas publicamente \ mesmo este poema \ Quando olho para você, meus olhos são duas casas de bairro idênticas em chamas \ quando eu olho para você meus olhos esbugalham para fora do meu crânio como um cão em um desenho animado \ quando eu estou com você \ um enorme silêncio desce sobre mim \ e eu sinto que estou afundando na parte mais profunda da minha vida \ caminhamos pela rua, com a grama soprando para frente e para trás \ Eu nunca fui tão feliz. Poema da poeta neozelandesa Hera Lindsay Bird.

 

MULTIDÃO GLOBAL - [...] As pessoas sabem que a maneira de parar algo intolerável é sair às ruas e se expor. Mas a multidão não é apenas a existência de massas nas ruas; ela pode se estender ao dia seguinte, no seu trabalho ou em casa. A resistência pode acontecer em qualquer lugar, e seus participantes podem permanecer conectados em rede. A auto-organização por meio das redes sociais é algo que não existia antes. Como acabei de dizer, manifestações que produzem imagens eram uma coisa. Mas a mobilização global leva isso além. [...] Há também um problema, no entanto, porque muitas vezes as imagens se movem sem contexto para espaços onde não são legíveis. Muitas vezes as pessoas pensam que uma mensagem universal é clara por meio de imagens, mas não é. Portanto, é uma situação muito difícil em certos aspectos. O que a mobilização percebe é que a única maneira de combater a enorme capacidade dos governos de vigiar as pessoas é vigiar o governo. E foi exatamente isso que Snowden fez; é o que o movimento Black Lives Matter faz ao fotografar a polícia. Em vez de o Estado ser o único com as câmeras, são vocês que tiram fotos deles. Milhões de pessoas munidas dessa capacidade de vigiar as ações da polícia e dos governos — isso é muito radical. [...] Para mim, a multidão global é uma força, uma força que se auto-organiza e que não precisa de líderes. Esses são os elementos importantes. Um dos problemas da velha esquerda era que os líderes geralmente eram um pequeno grupo de homens brancos. Eles simplesmente lideravam , literalmente . Os outros tinham que encontrar seu lugar atrás deles. Mas hoje em dia, você pode ser realmente eficaz como um grupo anarquista auto-organizado. Vocês podem se comunicar e se apoiar mutuamente de maneiras que têm muito poder. [...]. Trechos da entrevista Of politics and crowds: A conversation with Susan Buck-Morss (Focaal, 2015), concedida pela teórica política, filósofa e crítica cultural estadunidense, Susan Buck-Morss, autora de obras como The Origin of Negative Dialectics: Theodor W. Adorno, Walter Benjamin, and the Frankfurt Institute (1977), The Dialectics of Seeing: Walter Benjamin and the Arcades Project (1989), Dreamworld and Catastrophe: The Passing of Mass Utopia in East and West (2000), Thinking Past Terror: Islamism and Critical Theory on the Left (2003), Hegel, Haiti, and Universal History (2009), Revolution Today (2019), Year 1: A Philosophical Recounting (2021) e Thinking–Making–Room for Thought (2024).

 

MARLENE DIETRICH: AS PERNAS MAIS BELAS DO CINEMA – A atriz e cantora alemã naturalizada estadunidense Marilene Dietrich (1901-1992), alcançou o hiperestrelato com a sua longa carreira, reinventando a si mesma de forma profissional. Ela começou atuando em filmes mudos e obteve sucesso com o papel de Lola-la no filme The blue angel (1930), de Josef von Sternberg. Sua fama internacional levou-a para Hollywood, onde estrelou em diversos filmes, tornando-se uma das atrizes mais bem pagas da época. Ela tornou-se cidadã americana em 1939, realizando uma grande turnê pelo mundo entre os anos 1950-1970. Os seus esforços humanitários durante a II Guerra Mundial, abrigando alemães e franceses exilados com apoio financeiro, bem como atuou levando o moral nas linhas de frente durante a guerra, recebendo honras dos EUA, França, Bélgica e Israel. Sua carreira foi encerrada em 1975, após uma queda no palco, fraturando a coxa durante uma performance em Sydney, na Austrália. Findou seus dias de dependente químico, acamada, dedicando-se a escrever sua autobiografia Nehmt nur mein Leben (Take Just My Life), publicada em 1979. Veja mais aqui.


A CONDIÇÃO HUMANA – O livro A condição humana, da filósofa política alemã de origem judaica Hannah Arendt (1906-1975), trata da condição humana desde a Grécia Antiga até a modernidade europeia, por meio de um relato minucioso acerca da evolução e desenvolvimento histórico dos contextos da essência humana,  a partir de uma análise acerca da Vita Activa e a condição humana, a distinção entre o labor e o trabalho e ação, o político, o público, o privado, o social, a questão proletária, a degradação e a banalização de conceitos, o homem moderno, cada vez mais alienado e apolítico, a crescente apolitização do homem, a condição humana diz respeito às formas de vida que o homem impõe a si mesmo para sobreviver, como condições que tendem a suprir a existência do homem e que variam de acordo com o lugar e o momento histórico do qual o homem faz parte, o condicionamento pelos atos e pelo que se pensa e sente, condicionamento pelo contexto histórico delineado pela cultura, amizades e família, o labor como processo biológico necessário para a sobrevivência do indivíduo e da espécie humana, o trabalho como atividade de transformar coisas naturais em coisas artificiais, a ação como necessidade do homem em viver entre seus semelhantes numa natureza eminentemente social, a “Vita Activa” como ocupação, inquietude e desassossego, a religião cristã e as concepções gregas na vulgarização da dignidade humana, as dicotomias de trabalho entre improdutivo e produtivo, qualificação e não qualificação, intelectual e manual, a visão marxista do trabalho produtivo, o processo de industrialização, o trabalho intelectual em contraposição ao trabalho manual, a ideologia do qualquer coisa que se faça tem que ser necessariamente produtivo, tudo deve ser transformado em mercadoria, o valor de troca, a força de trabalho como aquilo que o homem possui por natureza e que só cessa com a morte, entre outros assuntos. Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui e aqui.

REFERÊNCIA
ARENDT, Hannah. A condição humana. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2007.


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