AGNÉS, OS CATADORES & EU... - A bela viúva
trazia o semblante de cansaço sexagenário, a artista engajada retomava sua
própria caminhada depois da Nouvelle Vague. Fixou seu olhar em suas próprias mãos enrugadas,
enquanto escrevia o seu presente e o destino de todos: envelhecer e
morrer são certezas na vida. Inspirada na Des glaneuses de Millet, nas
leituras da Velhice de Beauvoir e nas pinturas de Jules Breton, Van Gogh e
Utrillo, iniciava a trilogia do envelhecimento: uma autobiografia
sobre o que viveu e a morte experienciada pela perda do seu amado. A partir de
uma perspectiva estética, política e moral, ela testemunhou em sua viagem o
trabalho dos respigadores – aqueles que percorriam campos já ceifados em busca
do alimento deixado para trás. Investigava obsessiva o ato de catar e a
história da humanidade. Antenada à reciclagem, ela flagrou também rebuscadores
que tiravam no pé a sua alimentação e, sobretudo, o desperdício: quantos não
teriam sido privados e morreriam de fome. Respigar era uma segunda oportunidade
ao que já havia sido útil. As batatas em V e o relógio sem ponteiros, traçava
assim o seu autorretrato: As pessoas precisam de poesia, de ler, de pinturas
e de cinema sensível, um pouco alternativo, talvez, por isso não tenho tanto
público. Faço cinema dizendo: "Vou amá-los, mas me amem". É normal,
todos querem ser amados... Solidária apresenta-se em Les glaneurs et la
glaneuse, uma história que nunca teria fim. Veja mais aqui, aqui, aqui,
aqui & aqui.
DITOS &
DESDITOS
Ah, se eu
tivesse vivido num passado como o lembro agora!...
Pensamento do
dramaturgo, humorista, escritor, tradutor e jornalista Millôr Fernandes
(Milton Viola Fernandes – 1923-2012). Veja mais aqui.
ALGUÉM FALOU
Uma geração não
é feita de idades, e sim de afinidades...
Pensamento do
psicanalista e escritor Hélio Pellegrino (1924-1988). Veja mais aqui,
aqui, aqui & aqui.
ENCONTRANDO AUDREY – [...] Acho que o que percebi é que a vida é sobre subir, cair e
se levantar de novo. E não importa se você cair. Contanto que você esteja, de
alguma forma, subindo. É tudo o que você pode esperar. Subir, mais ou menos. [...] O problema é
que a depressão não vem com sintomas óbvios como manchas na pele e febre, então
você não percebe de imediato. Você fica dizendo "Estou bem" para as
pessoas quando não está. Você acha que deveria estar bem. E fica se
perguntando: "Por que não estou bem?" [...]. Trechos extraídos da obra Finding
Audrey (Delacorte Press,
2015), da escritora britânica Sophie Kinsella (Madeleine Sophie Townley),
autora de obras como I've Got Your Number (2011), Twenties Girl (2009), Remember
Me? (2008), Shopaholic & Baby (2007), The Undomestic Goddess
(2005), Can You Keep a Secret? (2003), Shopaholic Takes Manhattan
(2001) e Confessions of a Shopaholic (2000). Veja mais aqui, aqui, aqui,
aqui & aqui.
A VELHICE – [...] Sou incapaz
de conceber o infinito, e ainda assim não o aceito. Quero que esta aventura que
é o contexto da minha vida continue sem fim. [...] O passado não é uma paisagem
pacífica que se estende para trás de mim, um país onde posso passear à vontade
e que gradualmente me revelará todos os seus recantos secretos. À medida que eu
avançava, ele se desmoronava. A maior parte dos destroços visíveis é incolor,
distorcida, congelada: seu significado me escapa... tudo o que resta é um
esqueleto. Jamais reencontrarei meus planos, minhas esperanças e meus medos —
jamais me reencontrarei. [...] A sociedade só se
preocupa com o indivíduo na medida em que ele lhe é útil. Os jovens sabem
disso. A ansiedade que sentem ao ingressar na vida social se equipara à
angústia dos idosos ao serem excluídos dela. [...] Ninguém jamais poderá
conhecer a si mesmo, apenas narrar a si mesmo. [...]. Trechos
extraídos da obra La Vieillesse (Gallimard, 1970), da escritora e
filósofa existencialista francesa Simone de Beauvoir (Simone
Lucie-Ernestine-Marie Bertrand de Beauvoir – 1908-1986). Nesta obra ela aborda sobre
o tema do envelhecimento, levantando dados de estudos científicos nos campos
específicos da geriatria e da gerontologia, bem como revisando o texto de
escritores que tematizaram seus envelhecimentos em obras literárias. É um
ensaio pelo qual passa-se a entender seu próprio processo de envelhecimento,
causando surpresa naqueles que julgavam que o tema ainda não tratava de algo
que lhe pertencia. A autora questiona o juízo de valor que fundamenta uma
hierarquia das idades, estando a ideia daquilo que desfavorece o indivíduo
atribuído ao seu envelhecimento. Reitera que a velhice não é apenas um processo
biológico, é também uma elaboração cultural e uma experiência plural: "Todos
os homens são mortais: eles pensam nisso. Um grande número deles fica velho:
quase nenhum encara com antecedência este avatar. Nada deveria ser mais
esperado e, no entanto, nada é mais imprevisto que a velhice". Assim,
ela busca o entendimento da percepção dos idosos pela sociedade, do tratamento
que as sociedades primitivas davam aos idosos até conquistas e problemas
existentes nas sociedades atuais, propondo uma mudança radical na sociedade, de
forma a desmistificar as hipocrisias que cercam a velhice. A primeira metade é
composta por uma visão de fora para dentro: como a sociedade e seus cidadãos
veem a velhice, desde como as famílias tratam seus idosos até as visões de
velhice dos filósofos e gigantes literários ao longo dos anos. Ela desmembra as
influencias de filósofos e mostra como essas influências se sedimentaram na psique
humana e estão incorporadas na sociedade da época. A segunda parte do livro é
composta por uma visão de dentro para fora: a vida através dos olhos de um
cidadão idoso, da pobreza à riqueza, assim como da fama ao desconhecimento, examinando
os mitos e realidades de viver a velhice no mundo desenvolvido e apresenta
provas de que apesar das expectativas da sociedade, os idosos ainda sentem as
mesmas paixões que os mais jovens. Ela direciona e desafia criticamente a
marginalização e negligência sofrida pelos cidadãos idosos, e desafia o leitor
a mudar o seu futuro. Veja mais aqui.
A INSINUAÇÃO
DELA
A língua
aveludada passeia às voltas pelo batom rubro dos seus lábios de cangula.
A porta
entreaberta do decote insinua os seus arfantes seios fartos.
A saia puxada
expõe o lance estufado entre as suas coxas voluptuosas.
Assim ela está
pronta muito mais pro meu insaciável ataque priápico.
(LAM)
Veja mais
abaixo & aqui.
Que arremessos a seco, numa enfiada!
Todos no alvo, por Cristo, desde a entrada:
Ficam bufando os dois como dois gatos.
Olhos vidrados, pior que de insensatos:
Pêlo com pêlo, boca a boca atada,
E enfia e empurra e bate sem parada;
Vai e vem, põe e tira num só ato.
Descalabro se um pouco mais durasse!
Chegada a brincadeira ao seu final,
Ficamos feito pedras, inconscientes.
É muito bom foder! Mas o ideal
Seria nos tornarmos realmente
Gertrudes toda cona e eu todo pau.
(Tradução de José Paulo Paes)
Estaca espada espeto espiga falo
Pavio bordão bengala pinto e galo
Palmito vara vassoura pilão
Mangalho manivela ou aguilhão
Ferro fumo porrete mastro malho
Lança-perfume fósforo caralho
Espingarda cacete obus canhão
Piroca pênis pau e pica e piça
Priapo prego porra pito e pino
Pirolito pistola pão rabiça
Mandioca nabo pimentão pepino
Banana macarrão peru lingüiça
Maçaranduba e mano pequenino
[tradução de Augusto de Campos]
por entre crostas, beijocas, lagrimonas,
depois à trela, na andadeira, em camisinha,
pára turras na testa, cueiros por calções.
Depois começa o tormento da escola,
o á bê cê, a vergasta e as frieiras,
a rubéola, a caca na cagadeira
e um pouco de escarlatina e de bexigas.
Depois o ofício, o jejum, a trabalheira,
a pensão a pagar, as prisões, o governo,
o hospital, as dívidas, a crica,
o sol no Verão, a neve no Inverno…
E por último – e que Deus nos abençoe –
vem a morte, e acaba no inferno.
(Trad. Alexandre O’Neill)
Arthur Schopenhauer, José Cândido de Carvalho, Iremar Marinho, Luís Buñuel, Victor Brecheret, Johann Nikolaus Forkel & muito mais aqui.










