segunda-feira, fevereiro 22, 2016

AGNÉS VARDA, BEAUVOIR, KINSELLA, TUNGA, MILLÔR, GIUSEPPE BELLI, HÉLIO PELLEGRINO & LITERÓTICA

 


AGNÉS, OS CATADORES & EU... - A bela viúva trazia o semblante de cansaço sexagenário, a artista engajada retomava sua própria caminhada depois da Nouvelle Vague. Fixou seu olhar em suas próprias mãos enrugadas, enquanto escrevia o seu presente e o destino de todos: envelhecer e morrer são certezas na vida. Inspirada na Des glaneuses de Millet, nas leituras da Velhice de Beauvoir e nas pinturas de Jules Breton, Van Gogh e Utrillo, iniciava a trilogia do envelhecimento: uma autobiografia sobre o que viveu e a morte experienciada pela perda do seu amado. A partir de uma perspectiva estética, política e moral, ela testemunhou em sua viagem o trabalho dos respigadores – aqueles que percorriam campos já ceifados em busca do alimento deixado para trás. Investigava obsessiva o ato de catar e a história da humanidade. Antenada à reciclagem, ela flagrou também rebuscadores que tiravam no pé a sua alimentação e, sobretudo, o desperdício: quantos não teriam sido privados e morreriam de fome. Respigar era uma segunda oportunidade ao que já havia sido útil. As batatas em V e o relógio sem ponteiros, traçava assim o seu autorretrato: As pessoas precisam de poesia, de ler, de pinturas e de cinema sensível, um pouco alternativo, talvez, por isso não tenho tanto público. Faço cinema dizendo: "Vou amá-los, mas me amem". É normal, todos querem ser amados... Solidária apresenta-se em Les glaneurs et la glaneuse, uma história que nunca teria fim. Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.

 


DITOS & DESDITOS

Ah, se eu tivesse vivido num passado como o lembro agora!...

Pensamento do dramaturgo, humorista, escritor, tradutor e jornalista Millôr Fernandes (Milton Viola Fernandes – 1923-2012). Veja mais aqui.

 

ALGUÉM FALOU

Uma geração não é feita de idades, e sim de afinidades...

Pensamento do psicanalista e escritor Hélio Pellegrino (1924-1988). Veja mais aqui, aqui, aqui & aqui.

 

ENCONTRANDO AUDREY – [...] Acho que o que percebi é que a vida é sobre subir, cair e se levantar de novo. E não importa se você cair. Contanto que você esteja, de alguma forma, subindo. É tudo o que você pode esperar. Subir, mais ou menos. [...] O problema é que a depressão não vem com sintomas óbvios como manchas na pele e febre, então você não percebe de imediato. Você fica dizendo "Estou bem" para as pessoas quando não está. Você acha que deveria estar bem. E fica se perguntando: "Por que não estou bem?" [...]. Trechos extraídos da obra Finding Audrey (Delacorte Press, 2015), da escritora britânica Sophie Kinsella (Madeleine Sophie Townley), autora de obras como I've Got Your Number (2011), Twenties Girl (2009), Remember Me? (2008), Shopaholic & Baby (2007), The Undomestic Goddess (2005), Can You Keep a Secret? (2003), Shopaholic Takes Manhattan (2001) e Confessions of a Shopaholic (2000). Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.

 

A VELHICE – [...] Sou incapaz de conceber o infinito, e ainda assim não o aceito. Quero que esta aventura que é o contexto da minha vida continue sem fim. [...] O passado não é uma paisagem pacífica que se estende para trás de mim, um país onde posso passear à vontade e que gradualmente me revelará todos os seus recantos secretos. À medida que eu avançava, ele se desmoronava. A maior parte dos destroços visíveis é incolor, distorcida, congelada: seu significado me escapa... tudo o que resta é um esqueleto. Jamais reencontrarei meus planos, minhas esperanças e meus medos — jamais me reencontrarei. [...] A sociedade só se preocupa com o indivíduo na medida em que ele lhe é útil. Os jovens sabem disso. A ansiedade que sentem ao ingressar na vida social se equipara à angústia dos idosos ao serem excluídos dela. [...] Ninguém jamais poderá conhecer a si mesmo, apenas narrar a si mesmo. [...]. Trechos extraídos da obra La Vieillesse (Gallimard, 1970), da escritora e filósofa existencialista francesa Simone de Beauvoir (Simone Lucie-Ernestine-Marie Bertrand de Beauvoir – 1908-1986). Nesta obra ela aborda sobre o tema do envelhecimento, levantando dados de estudos científicos nos campos específicos da geriatria e da gerontologia, bem como revisando o texto de escritores que tematizaram seus envelhecimentos em obras literárias. É um ensaio pelo qual passa-se a entender seu próprio processo de envelhecimento, causando surpresa naqueles que julgavam que o tema ainda não tratava de algo que lhe pertencia. A autora questiona o juízo de valor que fundamenta uma hierarquia das idades, estando a ideia daquilo que desfavorece o indivíduo atribuído ao seu envelhecimento. Reitera que a velhice não é apenas um processo biológico, é também uma elaboração cultural e uma experiência plural: "Todos os homens são mortais: eles pensam nisso. Um grande número deles fica velho: quase nenhum encara com antecedência este avatar. Nada deveria ser mais esperado e, no entanto, nada é mais imprevisto que a velhice". Assim, ela busca o entendimento da percepção dos idosos pela sociedade, do tratamento que as sociedades primitivas davam aos idosos até conquistas e problemas existentes nas sociedades atuais, propondo uma mudança radical na sociedade, de forma a desmistificar as hipocrisias que cercam a velhice. A primeira metade é composta por uma visão de fora para dentro: como a sociedade e seus cidadãos veem a velhice, desde como as famílias tratam seus idosos até as visões de velhice dos filósofos e gigantes literários ao longo dos anos. Ela desmembra as influencias de filósofos e mostra como essas influências se sedimentaram na psique humana e estão incorporadas na sociedade da época. A segunda parte do livro é composta por uma visão de dentro para fora: a vida através dos olhos de um cidadão idoso, da pobreza à riqueza, assim como da fama ao desconhecimento, examinando os mitos e realidades de viver a velhice no mundo desenvolvido e apresenta provas de que apesar das expectativas da sociedade, os idosos ainda sentem as mesmas paixões que os mais jovens. Ela direciona e desafia criticamente a marginalização e negligência sofrida pelos cidadãos idosos, e desafia o leitor a mudar o seu futuro. Veja mais aqui.

 

A INSINUAÇÃO DELA

A língua aveludada passeia às voltas pelo batom rubro dos seus lábios de cangula.

A porta entreaberta do decote insinua os seus arfantes seios fartos.

A saia puxada expõe o lance estufado entre as suas coxas voluptuosas.

Assim ela está pronta muito mais pro meu insaciável ataque priápico.

(LAM)

Veja mais abaixo & aqui.

 


ULYSSES GAZE – Curtindo o cd da trilha sonora do filme Ulysses Gaze (Um Olhar a Cada Dia, 1995 – ECM Records), dirigido por Theo Angelopoulos, com músicas da compositora grega Eleni Karaindrou & performance da violinista estadunidense Kim Kashkashian, contando a história de um exilado cineasta grego que retorna à sua terra natal e inicia uma jornada através dos destruídos Balcãs, com a intenção de encontrar velhos rolos de filmes de um cineasta pioneiro, como sendo uma jornada interior, que o leva a descobrir um mundo dividido por guerras e ideologias. Veja mais aqui e aqui


Imagem: desenho do escultor, desenhista e ator de performance pernambucano de Palmares, Antonio José de Barros de Carvalho e Mello Mourão, o Tunga. Veja mais aqui, aqui e aqui.

GIUSEPPE GIOACHINO BELLI (1791-1863)

A EMBOCADURA

Que esfregações, gemidos, desbaratos!
Que arremessos a seco, numa enfiada!
Todos no alvo, por Cristo, desde a entrada:
Ficam bufando os dois como dois gatos.

Olhos vidrados, pior que de insensatos:
Pêlo com pêlo, boca a boca atada,
E enfia e empurra e bate sem parada;
Vai e vem, põe e tira num só ato.

Descalabro se um pouco mais durasse!
Chegada a brincadeira ao seu final,
Ficamos feito pedras, inconscientes.

É muito bom foder! Mas o ideal
Seria nos tornarmos realmente
Gertrudes toda cona e eu todo pau.
(Tradução de José Paulo Paes)

O PAI DOS SANTOS

O membro pode ser careca e anão
Estaca espada espeto espiga falo
Pavio bordão bengala pinto e galo
Palmito vara vassoura pilão

Mangalho manivela ou aguilhão
Ferro fumo porrete mastro malho
Lança-perfume fósforo caralho
Espingarda cacete obus canhão

Piroca pênis pau e pica e piça
Priapo prego porra pito e pino
Pirolito pistola pão rabiça

Mandioca nabo pimentão pepino
Banana macarrão peru lingüiça
Maçaranduba e mano pequenino
[tradução de Augusto de Campos]

A VIDA DO HOMEM

Nove meses no fedor, depois nas faixas,
por entre crostas, beijocas, lagrimonas,
depois à trela, na andadeira, em camisinha,
pára turras na testa, cueiros por calções.

Depois começa o tormento da escola,
o á bê cê, a vergasta e as frieiras,
a rubéola, a caca na cagadeira
e um pouco de escarlatina e de bexigas.

Depois o ofício, o jejum, a trabalheira,
a pensão a pagar, as prisões, o governo,
o hospital, as dívidas, a crica,

o sol no Verão, a neve no Inverno…
E por último – e que Deus nos abençoe –
vem a morte, e acaba no inferno.
(Trad. Alexandre O’Neill)

GIUSEPPE GIOACHINO BELLI (1791-1863) – Giuseppe Gioachino Belli foi autor de mais de dois mil sonetos e um poeta italiano, famoso por seus sonetos em romanesco, o dialeto de Roma.


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