quinta-feira, março 23, 2017

O CERTO & O ERRADO NO REINO DAS IDEOLOGIAS

O CERTO & O ERRADO NO REINO DAS IDEOLOGIAS - Lembro-me bem quando menino sapeca, aos quatro anos de idade, aprendendo o alfabeto, a saudosa prima-tia ensinava a ler e escrever, ajeitando meus garranchos no caderno. Primeiro ela colocava a sua caligrafia formosa e arredondada para eu preencher por cima e, depois, copiar embaixo tudo que ela havia escrito. Lindo o seu olhar azulado e seu sorriso reluzente ao conferir a tarefa cumprida: tudo a maior seboseira. Ela caía às gargalhadas, parecia mais que eu já dava sinais de que não tinha jeito. Até ali, tudo que aprendera fora imitando os pais, familiares, parentes e achegados. Dois anos depois das lições dela toda tarde, fui fazer o primário na escola maçônica da Fraternidade Palmarense, na qual a não menos fascinante professora Hilda, me encantava em cada manhã de aula – tanto que pra ela diariamente escrevia uns versinhos que foram publicados no suplemento Júnior, do Diário de Pernambuco. Eu já queria ser poeta, pode? Queria. Daí pro ginasial, o trajeto do meu aprendizado: o nome das coisas, a história dos vencedores, a forma como se comportar, conteúdos muitos e diversos que iam desde a gramática e leitura das ciências e matemática, tudo para que eu soubesse o que era certo ou errado. Os tempos eram de Moral e Cívica na leva do Brasil ame-o ou deixo-o. Cá comigo eu desconfiava muito de certas convicções que exacerbavam na retidão do caráter, valorizando a virtude e o amor à Pátria, quando eu não entendia muito bem o significado de virtude ou caráter, justiça ou direito, só somar, subtrair, multiplicar ou dividir, sim senhor, sim senhora, responder às perguntas e ver grafado na prova uma nota pros meus equívocos. Muitos professores não facultavam a possibilidade de qualquer questionamento, devia prestar bem atenção e não perguntar nada, se não entendesse que levasse a dúvida até o dia em que uma alma caridosa resolvesse esclarecer. Por conta disso, não entendia muito bem a razão da escola em si e de ali estudar, era tudo muito confuso: toneladas de informações depositadas goela abaixo, disciplinas de todo tipo com conteúdos forçados e que asseveravam ser inarredavelmente o certo a ser seguido por todos. Ou aprendia, ou era burro. Todos os meus colegas não perguntavam nada, não queriam se passar por iletrado jumento, só eu metido e cheio das pregas inventava de questionar pra levar um toque de arrodeio com um riso sarcástico na minha cara: preste atenção! E ali, como em qualquer lugar que chegasse, sempre identificava de um lado a turma que rasgava elogios pras coisas e, do outro, a acerba trupe dos insatisfeitos. Nessas ocasiões de confronto se fazia uso de costume adquirido na escola: só balançar a cabeça. Quanto mais se esforçava para aguçar o discernimento, mais a coisa se complicava. Como eu sempre quis ser um metido maior do que sou, havia aquela minha intrometida insolência de adiantado e linguarudo em saber o porquê dos porquês. Evidente que por causa disso eu não era bem visto e excluído entre os da minha faixa etária, me dando mais com os mais velhos, quando, na verdade, eu mais me sentia na relação, tanto com uns como com outros, um peixe fora d’água. Ou eu não entendia nada, ou estavam todos me enrolando. Foi na adolescência que eu dei um chega para lá: peraí, como é que é mesmo, hem? Por conta própria comecei a folhear e pregar a vista em livros e mais livros, coleções, enciclopédias, dicionários. Uns diziam isso, outros diziam aquilo, maniqueístas de plantão; e como era farta a tuia de papagaios tagarelas e sectários, quanto mais arremedo, maior algaravia. Quando não era o bem e o mal, era o bonito e o feio, o bom e o mau, direita ou esquerda, pra lá ou pra cá, pra cima ou pra baixo, de banda ou de lado, pra frente ou pra trás, e por aí vai, cada um que puxasse destilando sua persuasão. Bastava qualquer indagação para o que se parecia claro e exato se tornar bastante nebuloso, fonte de discussões acaloradas de findar entre tapas e bofetes pela imposição do ponto de vista desta ou daquela preferência. Entender que era bom, nada. Quanto mais me diziam o que era certo, mais eu me convencia de que estava errado. Quanto mais impunham o correto, mais se mostrava o equívoco. Muitas vezes cheguei a desconfiar na constatação de que um era o outro: o certo errado e o errado certo e, ainda por cima, vice-versa, até aprender que, na verdade, nem existem, são só convencionados. É que no reino das ideologias ambos se definem, se misturam e se estabelecem de acordo com a conveniência. Da minha parte aprendi que além do 1 tem o 2, o 3, o 4 e... o infinito. Eu, hem? Vamos aprumar a conversa. © Luiz Alberto Machado. Veja mais aqui.

Curtindo a arte musical do compositor japonês Nobuo Uematsu.

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A arte do artista visual inglês Mat Collishaw.

DESTAQUE: HELIO PELLEGRINO
Caminha errante o velho rei da terra,
sangrando a cada passo o seu desterro.
Pesa-lhe luz demais, ausência de erro
e de noite — montanha que o soterra.
Cego de sua verdade, desenterra
do peito transfixado não o ferro
que o punge por inteiro, nem o berro
que lhe sobe das entranhas, enquanto erra.
Com sua garra terrosa de mendigo,
busca arrancar da carne não a morte
que o rodeia na treva, vinho forte
desde sempre provado. O desabrigo
que o atormenta é outro: sol candente
que vara a sua cegueira — e o faz vidente
.
A cegueira de Édipo, poema extraído da obra Minérios Domados: Poesia Reunida (Rocco, 1993), do psicanalista e escritor Hélio Pellegrino (1924-1988).

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
A arte do pintor francês Raoul Dufy (1877-1953).
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DEDICATÓRIA:
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VARGAS LLOSA, RANCIÈRE, BADIOU, WAGNER TISO, QUINET, BRUNO TOLENTINO, FRANCINE VAYSSE, FRESNAYE, NÁ OZZETTI & JOAQUIM NABUCO

A BARATA & O MONSTRO - Imagem: The Architect (1913), do pintor cubista francês Roger de la Fresnaye (1885-1925). - A noite e a solid...