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terça-feira, junho 15, 2021

MARGARET DELAND, BALMONT, PAUL RUSESABAGINA & MESTRE NOZA

 

 

TRÍPTICO DQP – Talentos das estrelas... - Ao som do Concerto in A minor, Op 16, de Edvard Grieg, na interpretação da pianista Khatia Buniatishvili & Orchestre National du Capitole de Toulouse, conductor Tugan Sokhiev. - A vida segue, deito a cabeça ao travesseiro de Chen-Tsi-Tsi e logo a cena: flagro o tratamento desumano com os nossos idosos nas filas do banco, nas emergências, nos pontos de condução. Yeats sussurra ao meu ouvido: Espalhei meus sonhos aos seus pés. Caminhe devagar, pois você estará pisando neles. Tomo um susto, procuro evitar, mas nada identifico. Procuro por ele e me deparo com Proust: Acontece com a velhice o mesmo que com a morte. Alguns enfrentam-nas com indiferença, não porque tenham mais coragem do que os outros, mas porque têm menos imaginação. Mediante sua fala, reflito sobre envelhecer: o que sei é que nãoé o fim do mundo. E me perco na fumaça da ideia, lembrando logo o tempo da faculdade em que estudei a Terceira Idade e a sexualidade. Dessa época, guardei comigo a frase da escritora estadunidense Margaret Deland (1857-1945): ... assim que você se sentir muito velho para fazer alguma coisa, faça essa coisa. Também aquela que me foi repetida um tanto de vezes da economista & estilista belga Diane von Fürstenberg: Meu rosto carrega todas as minhas lembranças. Por que eu deveria apagá-las? E ainda teimava em recitar os versos do poeta russo Konstantin Balmont (1867-1942): Procure, com meu coração, o que se foi e se desvaneceu, sem deixar vestígios. Eu sei: é o sol, com seu perfume infinito, Cante músicas comigo e eu canto também. O que sei é que quanto mais o tempo passa, se a pandemia ou o genocídio do Fecamepa ceifam nossa gente, sobretudo nossos idosos, sei que os avós são os mestres do passado, envelhecem para brilhar, não para a cruel violência e o preconceito: direitos da luta pela vida.

 


Duas lágrimas no Hotel Rwanda... - Não sei se despertei de fato ou se foi dentro do pesadelo, uma coisa assim, sei que era tudo diferente. Pareceu-me que era Kigali em pleno genocídio depois do atentado a Habyarimana, quando se rasgou o acordo de paz. Era mesmo, agora tinha certeza. Era a guerra civil, a maioria hutu atacava promovendo a matança: caçavam as baratas tutsis, foi o que disseram, nem sei quem. Estava eu no hotel de refugiados e, cá com meus botões: só me faltava essa! E Paul Rusesabagina, um homem comum, para lá e para cá. Dirigiu-se a mim com um gesto, nenhuma palavra. Ousei mencionar: Sim, Paul. Quantas vezes não ouvimos: A política é poder e dinheiro. E repetem entre si: Temos todas as razões para crer que atos de genocídio têm ocorrido. E nada fizeram, não fazem, nem farão nada, talqualmente aqui. O pior é que sabemos: Sinceramente, acho que as pessoas que virem essa gravação dirão ‘Oh, meu Deus, que horror’, e continuarão jantando. É sempre assim: como se nada acontecesse. E farram e dançam e pulam e vão e voltam. Quem diria, Paul, uma casa confortável no subúrbio, a bela mulher, o filhos. De repente, quantos mortos, estamos desamparados: os cemitérios esborram, corpos apodrecem. Nenhuma ajuda chegará, a deterioração da humanidade, a milícia, o preconceito, a corrupção, a estupidez, a ganância, o massacre, a indiferença. A história se repete em cada parte do mundo. Resta-nos socorrer os desamparados, os dessemelhantes, somos todos um. E: Sempre há lugar! E que não seja apenas o Hotel des Mille Collines. Sim, Paul, As palavras são as melhores armas jamais vistas. A arma mais potente do indivíduo é uma crença teimosa no triunfo da decência comum. Sim, Paul, é como nos sentimos quando o genocídio é vigente: somos um lixo, não valemos nada, a vida não vale nada para genocidas que pisam crânios e promovem mortes. Não sei, cenas do Hotel Rwanda (2004), em que Terry George foca Don Chedle na pele de Paul. Mas, uma coisa é certa: é preciso tomar alguma atitude! Aqui também é Ruanda.

 


Três luas no olhar... – De repente tudo muda novamente, não dá para acompanhar direito. Tudo por um triz. Agora era como se fosse uma sala de cinema. E passava a animação capixaba Mestre Vitalino e nós no barro (Marlin Azul, 2008): um boneco de barro ganha vida e sai para Vitória participar de um baile. Logo em seguida, o Tudo em homenagem ao Mestre Vitalino. Mal dei dois passos para o lado e de cara com a obra de Mestre Noza. Quem? O escultor, gravador e santeiro de Taquaritinga do Norte, Inocêncio Medeiros da Costa (1897-1983), também tratado por Inocêncio da Costa Nick ou Niquel, coisassim. Nunca ouvi falar. Agora estava vendo tudo: xilogravuras, pinturas, esculturas em madeira, artesanato, Luis Gonzaga, o padre Cicero Romão Batista, cambiteiros, caçadores, santos e santas aos milhares, ou quase, dos mais variados estilos e tamanhos. Era de se ver o grande artista do Vale do Cariri com a mão na peixeira rasgando o pedaço de umburana-de-cheiro, a palestra boa, a palavra amiga, as frases picantes, ou histórias inventadas na hora. Isso para quem viu aquele que andou a pé mais seiscentos quilômetros para chegar por ali. Está lá no Juazeiro do Norte, Ceará. Até mais ver.

 

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segunda-feira, fevereiro 22, 2016

AGNÉS VARDA, BEAUVOIR, KINSELLA, TUNGA, MILLÔR, GIUSEPPE BELLI, HÉLIO PELLEGRINO & LITERÓTICA

 


AGNÉS, OS CATADORES & EU... - A bela viúva trazia o semblante de cansaço sexagenário, a artista engajada retomava sua própria caminhada depois da Nouvelle Vague. Fixou seu olhar em suas próprias mãos enrugadas, enquanto escrevia o seu presente e o destino de todos: envelhecer e morrer são certezas na vida. Inspirada na Des glaneuses de Millet, nas leituras da Velhice de Beauvoir e nas pinturas de Jules Breton, Van Gogh e Utrillo, iniciava a trilogia do envelhecimento: uma autobiografia sobre o que viveu e a morte experienciada pela perda do seu amado. A partir de uma perspectiva estética, política e moral, ela testemunhou em sua viagem o trabalho dos respigadores – aqueles que percorriam campos já ceifados em busca do alimento deixado para trás. Investigava obsessiva o ato de catar e a história da humanidade. Antenada à reciclagem, ela flagrou também rebuscadores que tiravam no pé a sua alimentação e, sobretudo, o desperdício: quantos não teriam sido privados e morreriam de fome. Respigar era uma segunda oportunidade ao que já havia sido útil. As batatas em V e o relógio sem ponteiros, traçava assim o seu autorretrato: As pessoas precisam de poesia, de ler, de pinturas e de cinema sensível, um pouco alternativo, talvez, por isso não tenho tanto público. Faço cinema dizendo: "Vou amá-los, mas me amem". É normal, todos querem ser amados... Solidária apresenta-se em Les glaneurs et la glaneuse, uma história que nunca teria fim. Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.

 


DITOS & DESDITOS

Ah, se eu tivesse vivido num passado como o lembro agora!...

Pensamento do dramaturgo, humorista, escritor, tradutor e jornalista Millôr Fernandes (Milton Viola Fernandes – 1923-2012). Veja mais aqui.

 

ALGUÉM FALOU

Uma geração não é feita de idades, e sim de afinidades...

Pensamento do psicanalista e escritor Hélio Pellegrino (1924-1988). Veja mais aqui, aqui, aqui & aqui.

 

ENCONTRANDO AUDREY – [...] Acho que o que percebi é que a vida é sobre subir, cair e se levantar de novo. E não importa se você cair. Contanto que você esteja, de alguma forma, subindo. É tudo o que você pode esperar. Subir, mais ou menos. [...] O problema é que a depressão não vem com sintomas óbvios como manchas na pele e febre, então você não percebe de imediato. Você fica dizendo "Estou bem" para as pessoas quando não está. Você acha que deveria estar bem. E fica se perguntando: "Por que não estou bem?" [...]. Trechos extraídos da obra Finding Audrey (Delacorte Press, 2015), da escritora britânica Sophie Kinsella (Madeleine Sophie Townley), autora de obras como I've Got Your Number (2011), Twenties Girl (2009), Remember Me? (2008), Shopaholic & Baby (2007), The Undomestic Goddess (2005), Can You Keep a Secret? (2003), Shopaholic Takes Manhattan (2001) e Confessions of a Shopaholic (2000). Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.

 

A VELHICE – [...] Sou incapaz de conceber o infinito, e ainda assim não o aceito. Quero que esta aventura que é o contexto da minha vida continue sem fim. [...] O passado não é uma paisagem pacífica que se estende para trás de mim, um país onde posso passear à vontade e que gradualmente me revelará todos os seus recantos secretos. À medida que eu avançava, ele se desmoronava. A maior parte dos destroços visíveis é incolor, distorcida, congelada: seu significado me escapa... tudo o que resta é um esqueleto. Jamais reencontrarei meus planos, minhas esperanças e meus medos — jamais me reencontrarei. [...] A sociedade só se preocupa com o indivíduo na medida em que ele lhe é útil. Os jovens sabem disso. A ansiedade que sentem ao ingressar na vida social se equipara à angústia dos idosos ao serem excluídos dela. [...] Ninguém jamais poderá conhecer a si mesmo, apenas narrar a si mesmo. [...]. Trechos extraídos da obra La Vieillesse (Gallimard, 1970), da escritora e filósofa existencialista francesa Simone de Beauvoir (Simone Lucie-Ernestine-Marie Bertrand de Beauvoir – 1908-1986). Nesta obra ela aborda sobre o tema do envelhecimento, levantando dados de estudos científicos nos campos específicos da geriatria e da gerontologia, bem como revisando o texto de escritores que tematizaram seus envelhecimentos em obras literárias. É um ensaio pelo qual passa-se a entender seu próprio processo de envelhecimento, causando surpresa naqueles que julgavam que o tema ainda não tratava de algo que lhe pertencia. A autora questiona o juízo de valor que fundamenta uma hierarquia das idades, estando a ideia daquilo que desfavorece o indivíduo atribuído ao seu envelhecimento. Reitera que a velhice não é apenas um processo biológico, é também uma elaboração cultural e uma experiência plural: "Todos os homens são mortais: eles pensam nisso. Um grande número deles fica velho: quase nenhum encara com antecedência este avatar. Nada deveria ser mais esperado e, no entanto, nada é mais imprevisto que a velhice". Assim, ela busca o entendimento da percepção dos idosos pela sociedade, do tratamento que as sociedades primitivas davam aos idosos até conquistas e problemas existentes nas sociedades atuais, propondo uma mudança radical na sociedade, de forma a desmistificar as hipocrisias que cercam a velhice. A primeira metade é composta por uma visão de fora para dentro: como a sociedade e seus cidadãos veem a velhice, desde como as famílias tratam seus idosos até as visões de velhice dos filósofos e gigantes literários ao longo dos anos. Ela desmembra as influencias de filósofos e mostra como essas influências se sedimentaram na psique humana e estão incorporadas na sociedade da época. A segunda parte do livro é composta por uma visão de dentro para fora: a vida através dos olhos de um cidadão idoso, da pobreza à riqueza, assim como da fama ao desconhecimento, examinando os mitos e realidades de viver a velhice no mundo desenvolvido e apresenta provas de que apesar das expectativas da sociedade, os idosos ainda sentem as mesmas paixões que os mais jovens. Ela direciona e desafia criticamente a marginalização e negligência sofrida pelos cidadãos idosos, e desafia o leitor a mudar o seu futuro. Veja mais aqui.

 

A INSINUAÇÃO DELA

A língua aveludada passeia às voltas pelo batom rubro dos seus lábios de cangula.

A porta entreaberta do decote insinua os seus arfantes seios fartos.

A saia puxada expõe o lance estufado entre as suas coxas voluptuosas.

Assim ela está pronta muito mais pro meu insaciável ataque priápico.

(LAM)

Veja mais abaixo & aqui.

 


ULYSSES GAZE – Curtindo o cd da trilha sonora do filme Ulysses Gaze (Um Olhar a Cada Dia, 1995 – ECM Records), dirigido por Theo Angelopoulos, com músicas da compositora grega Eleni Karaindrou & performance da violinista estadunidense Kim Kashkashian, contando a história de um exilado cineasta grego que retorna à sua terra natal e inicia uma jornada através dos destruídos Balcãs, com a intenção de encontrar velhos rolos de filmes de um cineasta pioneiro, como sendo uma jornada interior, que o leva a descobrir um mundo dividido por guerras e ideologias. Veja mais aqui e aqui


Imagem: desenho do escultor, desenhista e ator de performance pernambucano de Palmares, Antonio José de Barros de Carvalho e Mello Mourão, o Tunga. Veja mais aqui, aqui e aqui.

GIUSEPPE GIOACHINO BELLI (1791-1863)

A EMBOCADURA

Que esfregações, gemidos, desbaratos!
Que arremessos a seco, numa enfiada!
Todos no alvo, por Cristo, desde a entrada:
Ficam bufando os dois como dois gatos.

Olhos vidrados, pior que de insensatos:
Pêlo com pêlo, boca a boca atada,
E enfia e empurra e bate sem parada;
Vai e vem, põe e tira num só ato.

Descalabro se um pouco mais durasse!
Chegada a brincadeira ao seu final,
Ficamos feito pedras, inconscientes.

É muito bom foder! Mas o ideal
Seria nos tornarmos realmente
Gertrudes toda cona e eu todo pau.
(Tradução de José Paulo Paes)

O PAI DOS SANTOS

O membro pode ser careca e anão
Estaca espada espeto espiga falo
Pavio bordão bengala pinto e galo
Palmito vara vassoura pilão

Mangalho manivela ou aguilhão
Ferro fumo porrete mastro malho
Lança-perfume fósforo caralho
Espingarda cacete obus canhão

Piroca pênis pau e pica e piça
Priapo prego porra pito e pino
Pirolito pistola pão rabiça

Mandioca nabo pimentão pepino
Banana macarrão peru lingüiça
Maçaranduba e mano pequenino
[tradução de Augusto de Campos]

A VIDA DO HOMEM

Nove meses no fedor, depois nas faixas,
por entre crostas, beijocas, lagrimonas,
depois à trela, na andadeira, em camisinha,
pára turras na testa, cueiros por calções.

Depois começa o tormento da escola,
o á bê cê, a vergasta e as frieiras,
a rubéola, a caca na cagadeira
e um pouco de escarlatina e de bexigas.

Depois o ofício, o jejum, a trabalheira,
a pensão a pagar, as prisões, o governo,
o hospital, as dívidas, a crica,

o sol no Verão, a neve no Inverno…
E por último – e que Deus nos abençoe –
vem a morte, e acaba no inferno.
(Trad. Alexandre O’Neill)

GIUSEPPE GIOACHINO BELLI (1791-1863) – Giuseppe Gioachino Belli foi autor de mais de dois mil sonetos e um poeta italiano, famoso por seus sonetos em romanesco, o dialeto de Roma.


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O viúvo do padre aqui.

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quinta-feira, março 07, 2013

LAUREN CHILD, LOUISE ACKERMANN, MORGAN LLYWELYN, LOUISA MAY ALCOTT, LITERÓTICA & SEXO NA TERCEIRA IDADE

Ah, esse olhar que me chega tímido postigo e logo reverbera escancarada porta aberta fraternal para que eu seja mais que vasilha rasa na sua íntima ceia... 

Veja o vídeo do poema aqui e aqui

 


O QUE SOU AOS OLHOS DELA – Duplo Sol, quão vivos me agiganta atraído pelo embalo de suas pálpebras repousantes a me instigar o toque em sua face cobiçada. Se não sou nada, reles vivente, ela me faz deus mais que adorado, como se ajoelhasse para veneração de sibila devotada. Roço-lhe os lábios rubros e ela beija e chupa o indicador, lambe todos como se me pedisse dolente e arrepiada que nela incorpore e não mais me afaste, nem esteja longe dali. Sua boca arde esfomeada e entreaberta para que eu tenha o hálito de sua volúpia infinda, oferecida ao meu beijo como quem timbunga insolente em suas águas caudalosas, com a promessa de sobreviver às suas funduras mais deleitosas. Ela mais se espalma irresistível para que eu me espalhe sobre seus seios fartos e aconchegantes, enquanto surpreendentemente alcança mão cheia o meu sexo aprisionado por seu carinho, para ser libertado teso aos alisados e apertos, a puxá-lo para si e esfregá-lo em sua pele sedosa totalmente domada. Pouso a outra mão em seu joelho trêmulo. Ela os escancara e ouso passeio entre suas coxas até atingir os confins de sua calcinha estufada, o que a faz mais inquieta, ajeitando-se ao meu contato para que eu possa invadir completamente sua clausura. Sinto as pétalas orvalhadas do seu sexo inchado ao toque de meus dedos atrevidos e ela quase se desfolha a ronronar reiteradamente que me espera há tanto tempo e há somente saudade pela minha presença premente, a se entregar enlaçada pro meu desfrute, enquanto apruma minha lança aguçada e indomável pelo átrio de sua reclusa e com isso invado o túnel de sua fonte inesgotável de prazer no prêmio da transgressão de todos os gozos explosivos nas festas de nossos orgasmos. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui e aqui.

 


DITOS & DESDITOS - Nos foi dado: Duas mãos para segurar. Duas pernas para andar. Dois olhos para ver. Dois ouvidos para ouvir. Mas por que apenas um coração? Porque o outro foi dado a outra pessoa. Para nós encontrarmos. Pensamento da escritora britânica Lauren Child.

 

ALGUÉM FALOU: Bem longe, lá na luz do sol estão minhas mais altas aspirações. Talvez eu nunca as alcance, mas posso olhar para cima e ver sua beleza, acreditar nelas e tentar seguir para onde apontam... Pensamento da escritora estadunidense Louisa May Alcott (1832-1888). Veja mais aqui e aqui.

 

A ODISSEIA DOS IRLANDESES – [...] Ela gosta da chuva pela umidade, do inverno pelo frio, do verão pelo calor. Ela ama arco-íris tanto por desbotar quanto por seu brilho. É fácil para ela, ela abre o coração e aceita tudo. [...]. Trecho extraído da obra The Odyssey of the Irish ( St. Martins Press-3PL; 2013), da escritora estadunidense Morgan Llywelyn. Veja mais aqui e aqui.

 

DOIS POEMAS - NÃO, SUA ETERNIDADE - Não, sua eternidade de inconsciente escuro, / Do estímulo cego, do movimento forçado, / Toda a infinidade do tempo não vale nada, ó Natureza! /No minuto em que pensei. AMOR E MORTE – Olha esses casais efêmeros que passam Nos braços um do outro abraçados por um momento Todos eles, antes de misturar suas cinzas para sempre , fazem o mesmo juramento: Sempre! Uma palavra intrépida que os céus que envelhecem Com espanto ouvem pronunciar E que ousam repetir dos lábios que empalidecem e congelam. Tu que vives tão pouco porque esta promessa que te arranca do coração um ímpeto de esperança? Vão desafio que atiras ao nada na embriaguez de um momento de felicidade. Amantes, sobre vocês uma voz firme clama a todos que nascem: Ame e morra aqui. A morte é implacável e o céu insensível: você não fugirá. E bem, já que lhe acontece sem murmúrio e sem murmúrio Forte desse mesmo amor dele que você se embriaga e se perde no peito da imensa natureza , ame então, e morra. Não, não, nem tudo se diz da frágil beleza quando um encanto indomável traz o desejo sob o fogo de um beijo quando nosso pobre barro estremece de prazer. Nosso juramento consagrado vem de uma alma imortal . Esta é ela, que se comove quando o corpo estremece, ouvimos sua voz e o barulho de sua asa mesmo em nosso ardor. Repetimos então esta palavra que por inveja desfoca as estrelas mais radiantes do firmamento. Esta palavra que une os corações e se torna seu vínculo com o céu desde a vida. No êxtase de uma relação perpétua de proximidade , esses casais apaixonados se arrastam e não param nem para olhar temerosos ao seu redor. Permanecem serenos quando tudo desmorona e cai, Sua esperança é sua alegria e seu amparo divino . Não tropeçam quando contra uma sepultura Seus pés se chocam no caminho. Você mesmo, quando suas florestas arranjam seu delírio, Quando você cobre seus caminhos com flores e sombras, Natureza, você, sua mãe, você teria este sorriso Se todos morressem inteiros? Sob o leve véu da beleza mortal, encontre a alma que se procura e que nos surge, o tempo de entrelaçá-la, de exclamar: É ela! E perdê-lo imediatamente. E perdê-la para sempre! Este único pensamento transforma a imagem do amor em um espectro em nossos olhos. E que! esses votos infinitos, esse ardor sem sentido Por um ser de um dia! E tu estarias, então, a esta altura sem entranhas Grande Deus que tem do alto todo sentimento e tudo ver Que muitas despedidas desoladoras e muitos funerais não te possam comover, Que a este túmulo escuro onde nos fazes descer Tu dizes: Guarde-os, seus gritos são supérfluos. Chora-se amargamente em vão sobre suas cinzas; Você não vai mais devolvê-los! “ Mas não! Deus, chamado bom, permite que se espere; Unir para dividir, não é o seu desenho. Tudo o que foi desejado, foi neste dia, na terra Será amado em seu seio. Eternidade do homem, ilusão! quimera! Mentira de amor e orgulho humano! Ele não teve nada de ontem, esse fantasma efêmero, ele precisa de um amanhã! Por este raio de vida e por esta centelha que arde por um minuto em vossos corações atônitos , de repente esqueceis a lama materna e vossa limitada sorte. Fugirias então, ó sonhadores imprudentes Apenas para o Poder fatal que destrói ao criar? Você deixa tal esperança; cada lama é irmão Enfrentando o nada. Tu dizes à Noite que passo em seus véus: “Amo e espero ver expirar tuas tochas. “ A Noite não responde a nada, mas amanhã suas estrelas Brilharão em seus túmulos. Você acredita que o amor que o fogo duro o oprime reservou para você sua chama e seus departamentos; A flor que você quebra suspira embriagada: "Nós também queremos!" Feliz, você aspira a grande alma invisível que preenche tudo, as florestas, os campos de seu ardor; A natureza sorri, mas é insensível: o que sua felicidade faz com ela? Ela só tem um desejo, a madrasta imortal, E é dar à luz infinitamente, sempre, sem fim, ainda. Mãe ávida, tomou para si a eternidade E a morte te deixou. Toda a sua previsão é para o que vai nascer; O excedente se confunde em um esquecimento supremo. Você, você quis, pode desaparecer: seu voto foi realizado. Quando um sopro de amor cruza seus seios Sobre bolhas de felicidade que te suspendem Aos pés da Beleza quando mãos divinas te jogam de cabeça para baixo Quando, apertando neste coração que vai se apagando , outro objeto doloroso, uma forma vã aqui , parece a vocês, mortais, que vão apertar o infinito em seus braços. Esses delírios sagrados, esses desejos imensuráveis ​​Agitados em seus quadris como enxames de fogo Esses delírios, já é a humanidade futura Que se agita em seus seios. Se liquefará, este leve barro Que por um instante moveu a alegria e a dor; Os ventos irão dispersar este pó nobre que foi um coração por um tempo. Mas outros corações nascerão e retomarão a trama De suas esperanças quebradas, de seus amores extintos Perpetuando suas lágrimas, seus sonhos, sua chama Em tempos distantes. Todos os seres, formando uma corrente eterna , passam uns pelos outros na tocha do amor. Cada um rapidamente pega a tocha imortal E a devolve em seu retorno. Cega pela explosão de sua luz errante, jura, na noite em que o destino te engolfou, Sempre a amarre: em sua mão moribunda Ela já escapa. Pelo menos terás visto um relâmpago sublime Que por um momento sulcou a tua vida Caindo, poderá levar Teu vislumbre ao abismo . E quando reina no fim do céu tranquilo Um ser impiedoso que contempla o sofrimento Se seu olhar eterno contempla, impassível, o nascimento e a morte. À beira da sepultura, e sob este mesmo olhar, Que um movimento de amor seja ainda a tua despedida! Sim, mostre o quanto o homem é grande quando quer, E perdoe a Deus! Poema da poeta Louise-Victorine Ackermann (pseudônimo de Louise-Victorine Choquet – 1813-1890).

 


SEXUALIDADE NA TERCEIRA IDADE - Nas últimas décadas vem aumentando, em todos os países, a expectativa de duração da vida, graças as melhores condições de higiene e saúde pública, avanços no combate às enfermidades e divulgação de preceitos racionais para mais saudável alimentação e melhores hábitos. Observa-se, também, que a sociedade tem, ultimamente, se apresentado notoriamente gerotofóbica. Os idosos, dantes considerados uma reserva social pela experiência de vida, viram-se menosprezados nos tempos modernos, privados que foram de seu papel social. É que a sociedade supervaloriza a juventude, que é exibida em anúncios, exaltada em filmes e mostrada nos meios de comunicação como símbolo supremo do desejável. O adjetivo jovem é aplicado à moda, à música, ao teatro, dentre outras, e dá a estas atividades uma conotação de vibrante, como sinônimo de alegre e de interessante, como se a alegria e o interesse fossem um apanágio da juventude, como se a adolescência não fosse um período carregado de insegurança e de problemas emocionais (Beauvoir, 1970; Zoprdan & Schmidt, 1993).
O termo velho atinge a conotação de uma ofensa, apesar de ser nessa faixa etária que as pessoas atingem maior maturidade, não existindo sequer preocupações com o uso de metodologia anticoncepcional, existindo uma série de fatores sociais, familiares e pessoais que perturbam o exercício da sexualidade. Além do mais, sexualidade e terceira idade são dois temas repletos de tabus e de preconceitos. A terceira idade é um período caracterizado por intensas mudanças físicas, emocionais e sociais, as quais, normalmente, afetam diferentes setores da vida, podendo levar às insatisfações diversas (Gatto, 1996; Lopes & Maia, 1994; Risman, 1996). 
Socialmente falando, considera-se a pessoa idosa o sexagenário. Para se ter uma idéia das dimensões desses preconceitos, talvez seja pertinente, no entanto, observar que não são só a família e a sociedade que exercem pressão sobre a sexualidade dos idosos, mas a própria expectativa dos indivíduos é importante, pois as pessoas se convencem que após uma certa idade não mais estarão adequadas e capacitadas para a prática da sexualidade, ocorrendo uma verdadeira autocastração (Butler el al, 1985). As limitações ocorrem por desconhecimento de que a sexualidade, embora com certas diferenças, pode ser prazerosamente exercida em qualquer idade, e que embora as características da resposta sexual se alterem, permanecem presentes durante toda a vida.
O grande preconceito com relação ao idoso, portanto, diz respeito à idéia de que ele se transformou em um ser assexuado e de que sua vida sexual se resume às lembranças do passado. Essa idéia é responsável por grande parte das recusas por tratamento para dificuldades sexuais na terceira idade, o que pode gerar desvalorização do sexo em idade avançada, pela sociedade e, até mesmo, pelos especialistas.
Outro preconceito que a sociedade impõe diz respeito à diminuição do desejo sexual no idoso e, conseqüentemente, da freqüência de relações sexuais. A atividade sexual, ao contrário, ajuda a manter os órgãos sexuais saudáveis e não há nada de errado ou de vergonhoso em manter uma freqüência alta de relações sexuais nesta idade, se for desejo do casal. O que em geral ocorre é que as necessidades vão se alterando com o passar dos anos: durante a vida adulta, várias relações sexuais podem ser necessárias para alguém se satisfazer, enquanto que, para o idoso, o mesmo grau de satisfação pode ser alcançado com menor número de relações sexuais (Wagner, 1989). Também podem ocorrer impedimentos físicos e emocionais, próprios de qualquer idade para liberação do desejo sexual, os quais merecem investigação e tratamento por especialista. Impedimentos emocionais, desencadeados por ocorrências externas comuns a esta faixa etária, também podem contribuir para o declínio da vida sexual na terceira idade, como: morte do(a) parceiro(a), aposentadoria, distanciamento dos filhos, limitações físicas e mentais, preocupações econômicas e depressão. Nessas situações, a qualidade de vida sexual tende a decair; nada que não possa ser resolvido com apoio médico e psicológico adequados.
Com relação à prática sexual, apesar das possíveis limitações físicas e/ou emocionais freqüentes neste momento da vida, o ser humano possui condições de manter atividade sexual satisfatória, salvo em casos de doenças crônicas que impeçam uma atividade física. Isto é verdade, especialmente se tiver cuidado de sua saúde em geral, em fases anteriores (Terhorst et al, 1998). 
Com relação à ejaculação, também pode ocorrer durante toda a vida. Embora com o avanço da idade haja diminuição na quantidade de esperma expelido pela ejaculação e esse jato ejaculatório seja menos intenso do que foi em idades anteriores, isto não significa diminuição de prazer.
Os homens, por exemplo, apresentam episódios mais espaçados de desejo, com ereções mais demoradas e menos firmes, que permitem, no entanto, uma cópula perfeitamente satisfatória. A região dos genitais, e a pele em torno deles, afirma-se como principal zona erógena, ocorrendo ainda uma mais rápida perda de ereção após a ejaculação (Fraiman, 1995).
As mulheres, após a menopausa, apresentam lubrificantes locais. Os orgasmos, embora mais curtos, têm a mesma intensidade daqueles experimentados pelas mulheres mais jovens.
O grande problema enfrentado pelos idosos, em especial pelas mulheres que perderam seus companheiros, é o encontro de parceiro interessante e interessado, com quem a sexualidade possa ser partilhada (Fraiman, 1994; Ribeiro, 1996). No caso das mulheres, as alterações hormonais comuns ao climatério e à menopausa são significativas, podendo gerar dificuldades sexuais. Havendo menor lubrificação vaginal, por exemplo, pode ocorrer dificuldade em atingir o orgasmo. Com tratamento médico adequado e com maior atenção às preliminares e à qualidade das carícias, a idosa não deixa de ter interesse e prazer sexual, apenas deixa de ser fértil, ou seja, não pode mais ter filhos.
Em termos de exercício da sexualidade, como em muitos outros aspectos, as pessoas da chamada terceira idade são marginalizadas, chegando até a ser o seu relacionamento sexual objeto de um humor de um duvidoso gosto, como se fosse algo de ridículo. De fato, considera-se qualquer manifestação de eroticidade entre gerontos como uma indecência, não sendo aberta a eles sequer a possibilidade de manifestar amor. Embora se reconheça racionalmente não haver qualquer motivo para que a sexualidade se extinga em determinada idade, cultural e emocionalmente não se é capaz de bem aceitar essas manifestações, em especial quando dizem respeito à pessoa que são próximas. Ninguém é capaz, por exemplo, de imaginar - sem repulsa - sua própria avó se masturbando, ou mesmo tendo sonhos eróticos, tão arraigados estão tais preconceitos. Existe, obviamente, uma diminuição fisiológica da tensão sexual, que ocorre com o avançar da idade. A resposta fisiológica à excitação sexual tende a se tornar mais lenta com o passar dos anos, tanto nos homens como nas mulheres.
A terceira idade pode ser, como na adolescência, uma fase crítica que exige nova adaptação a um corpo modificado, as capacidades diminuídas ou a uma vida insatisfeita. E, muitas vezes, reage-se às insatisfações com sintomas psicológicos que variam da irritabilidade à depressão. Mas uma atitude positiva para com a vida permitirá o exercício da atividade sexual, sem remorsos e sem medo. Nunca é demais repetir que, com o decorrer dos anos, existem algumas mudanças físicas e biológicas mas não mudam as sensações. Por que um homem mais velho pode aceitar tranqüilamente que sua visão diminua, e se surpreende quando o volume do fluido seminal se reduz, ou que o período refratário aumenta, período esse após a ejaculação, durante o qual o homem é biologicamente insensível a estímulos sexuais. Embora o homem mais idoso possa ter relações sexuais uma ou mais vezes por semanas, ele não terá possibilidade de ter orgasmo com essa mesma frequência, o que não significa que ele não possa considerar a experiência satisfatória. A mulher não deve pensar que essa impossibilidade do homem significa que ela não seja sexualmente atraente. Em grande parte, as razões para a renúncia sexual na mulher são : morte do marido, alguma incapacidade do esposo, ou quando programam para si mesmos a menopausa que implica no desaparecimento da sexualidade. Os homens são prejudicados no desempenho sexual, entre outros fatores, pelas doenças físicas e mentais, pelas preocupações de ordem profissional ou material, pelo excesso de alimento e o consumo exagerado de bebidas alcoólicas, pela monotonia de um ato sexual ou pelo medo do fracasso. Não há limite de idade para a sexualidade feminina e que o homem apresenta uma incapacidade para o exercício da sexualidade que pode estender-se bem além dos oitenta anos. E, em ambos os sexos, a continuidade da atividade sexual é, provavelmente, o principal meio para a prevenção de disfunção ou declínio de interesse sexual.
Concluindo, ainda precisa-se cultivar o tão falado e pouco refletido envelhecer com qualidade, que inclui cuidar desde sempre de fatores sabidamente prejudiciais à saúde geral; perceber as mudanças do organismo e da mente como algo natural e esperado; procurar ajuda do parceiro e/ou de especialista para o merecido exercício saudável e prazeroso da sexualidade na terceira idade . Enfim, pode-se concluir não haver qualquer motivo fisiológico para que se apague a sexualidade com o avançar da idade e que, respeitando-se as alterações referidas, a prática da atividade sexual pode ser tão gratificante na velhice quanto na juventude ou na idade adulta. Se não exercida, a sexualidade tende a se apagar, pois a regularidade sexual é um excelente afrodisíaco. É forçoso, porém reconhecer que, mesmo sem manifestar-se de maneira exuberante o potencial para o exercício da sexualidade existe enquanto durar a vida humana, por mais longa que ela seja. Mesmo em se considerando as naturais diferenças, os idosos sadios apresentam (ou ao menos deveriam apresentar) conservado seu potencial de resposta sexual. Veja mais aquiaqui.

BIBLIOGRAFIA
BEAUVOIR, Simone de. A velhice. São Paulo: Difusão Européia do Livro, 1970.
BUTLER, R, et al. Sexo e amor na terceira idade. São Paulo: Summus, 1985.
FRAIMAN, Ana Perwin. Coisas da idade. São Paulo: Gente, 1995.
_____. Sexo e afeto na terceira idade: aquilo que você quer saber e não teve com quem conversar. São Paulo: Gente, 1994.
GATTO, L. C. Psicossexualidade na terceira idade. In: Gerontologia: a velhice e o envelhecimento em visão globalizada. São Paulo: Atheneu, 1996.
LOPES, G & MAIA, M. Sexualidade e envelhecimento: envelhe... sendo com sexo. São Paulo: Saraiva, 1994.
RIBEIRO, Alda. Sexualidade na terceira idade. In: Gerontologia: a velhice e o envelhecimento em visão globalizada. São Paulo: Atheneu, 1996.
RISMAN, Arnaldo. Atividade sexual na terceira idade. In: Veras, Renato P. Terceira Idade: um envelhecimento digno para o cidadão do futuro. Rio de Janeiro: Relume-Dumará : UnATI/UERJ, 1995.
TERHORST, Liliane Cristina; CASTRO, Odair Perugini de; GUERRA, Patr¡cia Jacobsen. Sexualidade feminina na terceira idade. In: Velhice, que idade é essa?: uma construção psicossocial do envelhecimento. Porto Alegre: Síntese, 1998.
WAGNER, Elvira Mello. Amor, sexo e morte no entardecer da vida. São Paulo: Caiçara, 1989. 
ZORDAN, Eliana Piccoli; SCHIMIDT, Eluisa Bordin. Aspectos psicológicos e emocionais do envelhecimento. In: Curso: fundamentos para a ação gerontológica. Erechim: [s.n.], 1993.




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