sábado, fevereiro 27, 2016

AURA CHRISTI, GLISSANT, SAMIRA VERA-CRUZ, PRICE, IARAVI & RESSURRETO DAS ENCRUZILHADAS

IARAVI, A FILHA DO FOGO (Imagem: ilustração de J. Lanzellotti) – Um belo dia, ao singrar a mata nas proximidades do rio Gôio-Xopin, ouvi uma voz maviosa solfejando uma cantiga que falava o meu nome. Uma suave e encantadora voz de mulher. Ao me aproximar das margens das águas translúcidas e prateadas daquele estuário, pude ver pela ramagem da encosta que era Iaravi, a formosa filha de Minarã. Ah, era a mais bela das caingangues! Nunca que tivera visto beleza igual. E eu nem podia me arvorar na aproximação, todos os que ousaram desposá-la, foram queimados vivos pela ira do pai. Ali fiquei todas as manhãs por dias e dias a ver aquela linda vestal ameríndia a se banhar, nadando e mergulhando naquelas águas caudalosas. O pai dela era o único possuidor do fogo na Terra. E ela inocente, tinha a incumbência de vigiar o fogo para que não fosse roubado e, por sua vez, seu pai, às escondidas, vigiava todos os passos dela. Quem se aproximasse, era surpreendido pela fúria paterna. Tive, então, que ter cuidado e planejar como conquistar o coração da Iaravi e, ao mesmo tempo, pegar o fogo para distribuir com todas as tribos. Não havia jeito, Minarã era inexoravelmente implacável. Tive que usar da inventividade e transformei numa gralha branca. Voei me lançando ao rio, deixando-me ser levado pela correnteza. Fui acolhido pelas macias mãos de Iaravi. Meu plano havia dado certo. Ela me pegou aos seios nus e me afagou como quem resgata um filho perdido. E me levou pra sua cabana onde o fogo se escondia. E cuidou de mim como quem cuida de um enfermo terminal. E se afeiçoou de mim solfejando a canção que ouvira e que melodiosamente entoava meu nome. Ali fiquei entre seus braços e seios dias, tardes e noites, mesmo sob o protesto de Minarã que com suas desconfianças sempre providenciava para ela novos afazeres. Quando ela me pousava junto à lareira dos fulgores deslumbrados das brasas acesas, indo pras exigências do pai, ele me fitava com seu gênio rude e terrível, ronronando como quem jurava dar cabo de mim. E ao retornar ela já me chamava na procura: - Xakxó! E ao me encontrar, carinhosamente me abraçava cantarolando: - Ó Xakxó, Fiietó! Era o meu nome que ela repetia sempre que cantava: - Fiietó, xakxó! Com isso, eu já estava perdidamente apaixonado quando resolvi contar-lhe do meu amor. Mas eis que nessa hora seu pai entra afobado, descarregando sua furiosa raiva com tudo e com todos. Não foi dessa vez. Os dias se passaram, Minarã ali irredutível. Assim se passaram os dias até que numa tarde em que ele saíra pra caçar, eu balbuciei seu nome: - Iaravi! Ela se assustou, olhou em volta curiosa, e eu repeti: - Iaravi! Ela me viu ainda xakxó e desconfiada se aproximou de mim: - Xakxó? E eu lhe disse: - Sou eu, Fiietó! Ela tomada de susto na hora se afastou. Eu pude então desfazer minhas formas e voltar a ser o que sempre fui. Ela me olhou com seus olhos grandes: - Fiietó? Não lhe deixei repetir meu nome. Fui ao seu encontro e a envolvi nos meus braços com um beijo amoroso, no qual revelou o meu ardente amor por ela. Um beijo demorado de quem descobrira a maior de todas as paixões. E ela correspondeu àquele beijo e se entregou por inteira e pudemos ser um pro outro a partir daquele instante. Completamente embriagado pela sua expressão, pude, mesmo assim, contar do que planejara. Ela ouviu atentamente, apanhou um graveto em brasa e me tomou as mãos para sairmos fugidios pela mata. Léguas e léguas em fuga, deparamos com uma toca pela qual adentramos para nos esconder. E ali ficamos aos beijos, abraços e delírios de amor. Na boquinha da noite ouvimos o ronronar encolerizado com as pisadas intrépidas de Minarã à nossa caça e captura. Ele vasculhou a redondeza, explorou a toca e não nos viu. Sentimos o bafo embravecido de sua sede assassina e logo saiu sem que nos tivesse visto. Ali ficamos noites e dias até nos certificar de que ele estaria longe. E ela me pegou pelas mãos e me levou pela floresta até darmos no planalto de Guarapuava, seguindo pelos pinheiros de Ponta Grossa para descansarmos na ilha das Peças. Dali fomos pra baía de Paranaguá até chegarmos às belas paragens da ilha do Mel e lá nos envolvermos nos mais plenos beijos das querências, trocando juras de amor. Não podíamos ali ficar, tínhamos que percorrer caminhos para fugir e confundir Minarã pelo rio das Cinzas, atravessando Ribeira, Itararé, Cadeado, Itapirauã, Pardo, Araiponga, Taquari até darmos no rio Iguaçu e nos entocarmos na caverna das quedas d’água. Ali amamos além da conta até virar o dia e retomarmos a estrada pelas serras do Maracaju, Dourados, Ortigueira, fazendo pouso na de Piquiri, passeando pela de Chagu, Juquiá, Pitanga, Capanema, dos Cinco Irmãos pra Apucarana e daí pra Laranjinhas e Caeté. E fizemos o trajeto de Ourinho pra Guaíra, daí pra Foz do Iguaçu até Pato Branco, atravessando a serra Geral da Boa Esperança e por toda sua extensão demos de cara com a Serra Negra, apontando a direção pra Laranjeiras e Tagaçaba, até arrancharmos, enfim, na Serra do Mar. Ah, ela era a capitania de Santana: tudo dela se parecia com o mar. E o seu beijo antecipou os sonhos da noite e com o meu beijo amanhecido senti os tremores de suas duas luas sedutoras a me dar o eflúvio da flor do seu corpo de fêmea milenarmenete viva que arde perfumando os meus dias, curando minhas feridas e violando a minha pele, lambendo o meu sangue e me restituindo a vida quase perdida. Foi na sua lunação que pude sentir o seu gosto na minha língua e da sua pele nua de terra roxa recolhi suas volúpias de águas densas para o êxtase do que me fora dado por quinhão e posse. Ela ouviu meu coração e no seu a nudez de sua alma trazia o eco das minhas palavras. E incendiamos juntos como o nosso gozo e nosso fogo foi para todos da floresta, em festa queimando solidário pra felicidade de todas as nações indígenas. Agora todos podiam ter o fogo ao seu dispor, não mais exclusivo de Minarã. E na madrugada eu vi o seu olhar perdido na insônia com a promessa de ser feliz e na descoberta da mulher que amo e que é única aos meus olhos, do que fui e o que não sou quem sabe pra onde vou senão ao seu coração onde sou seu e ela é toda minha. (Luiz Alberto Machado). Veja mais abaixo e aqui, aqui, aqui e aqui. 

DITOS & DESDITOS

O relacionamento depende da influência mútua das identidades, sejam elas individuais ou coletivas, e exige que cada identidade seja distinta e independente. Relacionamento não significa confusão ou diluição. Posso mudar trocando com o Outro e ainda não me perder ou me distorcer. É por isso que precisamos de fronteiras, não como lugares para parar, mas como o ponto em que podemos exercer esse direito de livre passagem do mesmo para o Outro; saboreie a maravilha daqui e de lá...

Pensamento do escritor e teatrólogo martinicano Édouard Glissant (1928-2011), autor da obra Poetics of Relation (1990).

 

ALGUÉM FALOU:

Sempre que pensava em desistir acabava por ganhar algum prémio ou algo bom acabava por acontecer e insistia em avançar... O preconceito já me irritou mais. Agora estou focada em fazer os meus filmes... Foi importante fazer filmes sem financiamento, mas agora é um novo capítulo...

Pensamento da cineasta cabo-verdiana Samira Vera-Cruz (Samira Nandi Marques Vera-Cruz Pinto), autora do premiado curta Buska Santu (2016), que foi inspirado no filme Ladrões de Bicicletas, de Vittorio de Sica, tratando sobre a relação entre um pai e um filho, na Ilha de Santiago, ao som de tabanka como fundo pra trama.

 

OS BRANCOS - [...] Ele tinha apenas quarenta e dois anos, mas aquele olhar de "celofane amassado", somado à postura típica de um insone de primeira categoria, já havia lhe garantido a entrada no cinema com desconto para idosos. [...] Ele tinha aquele tipo de olhar caído que sugeria que jamais havia se recuperado da experiência exaustiva de nascer. [...]. Trechos extraídos do livro The Whites (Henry Holt & Company, 2015), do escritor e roteirista estadunidense Richard Price, autor de obras como Lush Life (2008), Samaritan (2002), Freedomland: A Novel (1998), Clockers (1992), Bloodbrothers: A Novel (1976) e I Wanderers (1974).

 

NÃO HÁ NADA A FAZER - O sol engole o quarto onde escrevo — \ o agradável túmulo do antes, do amanhã, do depois. \ Um abutre branco rasga a janela \ e sua sombra de cera inclina \ a casa inteira para o céu. \ Não há nada a fazer. \ As estátuas desta cidade inclinam-se lentamente \ em direção à morte. E aqui as noites \ parecem divididas pelas palavras de um profeta \ adorado por pássaros, pelos cavalos dos ciganos. \ O ar está selado como um túmulo de órfãos. \ A solidão nos afoga, remando pela noite! \ Às vezes, uma brisa nos atravessa, \ vinda de uma noite completamente diferente, \ como um grito acorrentado dentro de uma resposta, \ como o silêncio de um soldado, \ amplo o suficiente para aprisionar impérios \ conquistados pela hesitação, pelo medo. \ Nos cobrimos, camadas de morte sobre morte. \ Não há nada a fazer. \ O sol engole o quarto onde escrevo — \ túmulo do antes, do amanhã, do depois. \ E agora? Sou menos que uma sombra. \ O céu desta cidade é a boca de uma fonte. \ Você corre para dentro dela como se atravessasse um campo de trigo. \ E você não se importa com o poder de ser menos que uma sombra. \ E você não se importa que, há muito tempo, não haja nada a ser feito. Poema da escritora, jornalista e editora romena Aura Christi.

 


RESSURRETO DAS ENCRUZILHADAS: ÓRFÃO DA SINA CAETÉ - Os meus pais? Os perdi ainda menino, aos quatro anos, órfão. Do meu pai, nenhuma lembrança, nem a fisionomia dele me aparece, o que sei foi a minha madrinha que me contou. Procuro ainda hoje sua imagem, o meu destino. O que sei é que era um primogênito negociante do ramo de móveis e eletrodomésticos, numa sociedade mercantil que reunia meu avô e dois tios mais novos que ele. Era tataraneto de um sanguinário traficante de escravos, ficou dono de tudo e fez fortuna. O negócio deixou de prosperar por conta da má gestão e concorrência acirrada. A ruina começou quando o meu tio caçula se envolveu com atividades escusas e foi assassinado meio dia em ponto numa via de acesso à cidade. O do meio, teve lá um piripaque, dizem que por conta de um câncer de próstata e foi pro saco alguns meses depois do primeiro infortúnio. Meu avô que era viúvo, sucumbiu poucos dias depois de um infarto fulminante. Restava o meu pai que tocava a loja sob a pressão dos acontecimentos. Para se livrar do estresse, resolveu numa tarde de sábado fazer o que nunca fizera: caçar. E se embrenhou na mata sozinho, com uma espingarda, acredito, sob o pretexto de sair do sufoco e buscar a paz, meditando como ia tocar a vida. Não tinha o menor traquejo. Foi encontrado febril e desacordado, dizem. Quando voltou a si, já haviam passado mais de duas semanas do seu desaparecimento. Estava sob os cuidados de uma tribo indígena que o havia resgatado. Foi lá que conheceu uma dedicada jovem que cuidou dele e, mais tarde, se tornaria a minha mãe. Completamente restabelecido, pediu ao pajé a mão dela em casamento, veio para a cidade, comprou este sítio, e viveu aqui com ela, onde eu nasci e até o fatídico dia do acidente em que ambos deixaram esta existência. Isso é tudo que sei dele, afora outras coisas contadas por minha madrinha e que, pelo menos agora, são irrelevantes. Tenho a sensação de que está em algum lugar, procuro por ele até hoje, sinto que ele está pronto para aparecer. Algumas vezes vou ao cemitério procurar pela cova dele... Nunca encontrei ou desapareceu, por isso acho que ainda está vivo, perdido ou escondido do que não sei. Já minha mãe, essa vive em mim o tempo inteiro, sonho com ela todos os dias, como se ela vivesse ao meu lado a todo instante, sobretudo com seus olhos no rio. É como se me dissesse sempre para onde devo ir, o que fazer, como proceder e evitar enrascada. Minha madrinha me contou que a conheceu um dia em que estava desesperada com a saúde de seu próprio pai. Minha mãe a consolava e prescreveu umas ervas que curaram e o manteve vivo por alguns anos, que era ensinamento dos Caeté, Carajós. Era índia dessa tribo secular que fora perseguida desde a chegada dos portugueses. Era dada pela história como extinta e viviam longe da civilização, escondidos nas matas. Com a chegada do Coronelão por estas bandas, os problemas se agravaram. As emboscadas com o fito de expulsá-los das terras provocaram mortandades, não se sabendo mais se ainda resistiram aos ataques ou se fugiram para outras bandas, vez que as matas foram sendo derrubadas para plantio de cana-de-açúcar, formando grandes latifúndios. Quando meu pai encerrou as atividades da loja, todos passamos a morar aqui de vez, tendo, apenas, por amigos os meus padrinhos. Eu sempre gostei daqui, brincava livre no terreiro, inventava divertimento de todo tipo com as plantas, os bichos e o rio que nasce logo ali. Fui crescendo e um dia, era setembro quando morreram, minha mãe não queria fazer aquela viagem, mas meu pai teimoso não arredou o pé e foram vítimas de um acidente que nunca me explicaram direito. As lembranças vivas da minha mãe é o que conta, guardo todos os mínimos momentos em que estive com ela, os momentos mais felizes da minha vida, das histórias que me contava sobre a criação do mundo, quando Tupã criou o céu, a Terra, os pássaros e os bichos todos numa planície sem fim, só depois que criou as montanhas e os mares. O povo vivia em paz com os benefícios do criador, até o dia que os homens se deram aos desafios, o que deixou Tupã muito ofendido e mandou o fogo celeste por castigo e tudo mudou, com morros e vales. Só se salvou Irin-majé que subiu aos céus e viu o criador a chorar, criando a chuva que deram nos rios, mares e outras águas. Foi aí que ele deu para Irin-majé a Maire-Monã e eles povoaram a Terra, ensinando-lhes a tonsura, a epilação e os ritos. Eu ficava vidrado e pedia para que me contasse de novo e recontasse essa história um montão de vezes para minha fantasia. Não terminava por aí, outras tantas me contava do seu povo e é isso que norteia até agora tudo o que fiz e faço. Minha madrinha chamava-a de Ciganídia porque ela sempre sabia o que fazer, adivinhava as coisas e curava as pessoas que a procuravam com seus problemas de saúde. O amor dos seus olhos ternos, o seu sorriso inocente, o rio, tudo dela em mim. A vida é dura, fria e cruel. Veja mais aqui.


Imagem: a arte do pintor, desenhista, escultor, professor e poeta Vicente do Rego Monteiro (1899-1970). Veja mais aqui e aqui.

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CRÔNICA DE AMOR POR ELA

 ELA, IARAVI

Ela ali nua submersa me abre os braços pro seu regaço e se de dispersa pro meu desembaraço a sorrir. Nela meu espaço daqui e transversa pros nossos laços, imersa Iaravi.

 Veja aqui, aqui, aqui e aqui.





ANNE CARSON, FRANÇOISE VERGÈS, TAHMIMA ANAM & SETÍGONO

    Imagem: Pulsações caósmicas , da série Caosmose & O poema nasce do visinvisível - Acervo ArtLAM .   Em rota de colisão, a sorte...