DITOS &
DESDITOS
O
relacionamento depende da influência mútua das identidades, sejam elas
individuais ou coletivas, e exige que cada identidade seja distinta e
independente. Relacionamento não significa confusão ou diluição. Posso mudar
trocando com o Outro e ainda não me perder ou me distorcer. É por isso que
precisamos de fronteiras, não como lugares para parar, mas como o ponto em que
podemos exercer esse direito de livre passagem do mesmo para o Outro; saboreie
a maravilha daqui e de lá...
Pensamento do
escritor e teatrólogo martinicano Édouard Glissant
(1928-2011), autor da obra Poetics of Relation (1990).
ALGUÉM FALOU:
Sempre que
pensava em desistir acabava por ganhar algum prémio ou algo bom acabava por
acontecer e insistia em avançar... O preconceito já me irritou mais. Agora
estou focada em fazer os meus filmes... Foi importante fazer filmes sem
financiamento, mas agora é um novo capítulo...
Pensamento da
cineasta cabo-verdiana Samira Vera-Cruz (Samira Nandi Marques Vera-Cruz Pinto), autora do premiado
curta Buska Santu (2016), que foi inspirado no filme Ladrões de
Bicicletas, de Vittorio de Sica, tratando sobre a relação entre um pai e um
filho, na Ilha de Santiago, ao som de tabanka como fundo pra trama.
OS BRANCOS - [...] Ele tinha apenas quarenta e dois anos, mas aquele olhar de "celofane
amassado", somado à postura típica de um insone de primeira categoria, já
havia lhe garantido a entrada no cinema com desconto para idosos. [...] Ele tinha aquele tipo de olhar caído que
sugeria que jamais havia se recuperado da experiência exaustiva de nascer. [...].
Trechos extraídos do livro The
Whites (Henry Holt &
Company, 2015), do escritor e roteirista estadunidense Richard Price, autor
de obras como Lush Life (2008), Samaritan (2002), Freedomland: A
Novel (1998), Clockers (1992), Bloodbrothers: A Novel (1976) e I Wanderers (1974).
NÃO HÁ NADA A FAZER - O sol engole o
quarto onde escrevo — \ o agradável túmulo do antes, do amanhã, do depois. \ Um
abutre branco rasga a janela \ e sua sombra de cera inclina \ a casa inteira
para o céu. \ Não há nada a fazer. \ As estátuas desta cidade inclinam-se
lentamente \ em direção à morte. E aqui as noites \ parecem divididas pelas
palavras de um profeta \ adorado por pássaros, pelos cavalos dos ciganos. \ O
ar está selado como um túmulo de órfãos. \ A solidão nos afoga, remando pela
noite! \ Às vezes, uma brisa nos atravessa, \ vinda de uma noite completamente
diferente, \ como um grito acorrentado dentro de uma resposta, \ como o
silêncio de um soldado, \ amplo o suficiente para aprisionar impérios \ conquistados
pela hesitação, pelo medo. \ Nos cobrimos, camadas de morte sobre morte. \ Não
há nada a fazer. \ O sol engole o quarto onde escrevo — \ túmulo do antes, do
amanhã, do depois. \ E agora? Sou menos que uma sombra. \ O céu desta cidade é
a boca de uma fonte. \ Você corre para dentro dela como se atravessasse um
campo de trigo. \ E você não se importa com o poder de ser menos que uma
sombra. \ E você não se importa que, há muito tempo, não haja nada a ser feito. Poema da
escritora, jornalista e editora romena Aura Christi.
RESSURRETO DAS ENCRUZILHADAS: ÓRFÃO DA SINA CAETÉ - Os meus pais? Os perdi ainda menino, aos
quatro anos, órfão. Do meu pai, nenhuma lembrança, nem a fisionomia dele me
aparece, o que sei foi a minha madrinha que me contou. Procuro ainda hoje sua
imagem, o meu destino. O que sei é que era um primogênito negociante do ramo de
móveis e eletrodomésticos, numa sociedade mercantil que reunia meu avô e dois
tios mais novos que ele. Era tataraneto de um sanguinário traficante de
escravos, ficou dono de tudo e fez fortuna. O negócio deixou de prosperar por
conta da má gestão e concorrência acirrada. A ruina começou quando o meu tio
caçula se envolveu com atividades escusas e foi assassinado meio dia em ponto
numa via de acesso à cidade. O do meio, teve lá um piripaque, dizem que por
conta de um câncer de próstata e foi pro saco alguns meses depois do primeiro
infortúnio. Meu avô que era viúvo, sucumbiu poucos dias depois de um infarto
fulminante. Restava o meu pai que tocava a loja sob a pressão dos
acontecimentos. Para se livrar do estresse, resolveu numa tarde de sábado fazer
o que nunca fizera: caçar. E se embrenhou na mata sozinho, com uma espingarda,
acredito, sob o pretexto de sair do sufoco e buscar a paz, meditando como ia
tocar a vida. Não tinha o menor traquejo. Foi encontrado febril e desacordado,
dizem. Quando voltou a si, já haviam passado mais de duas semanas do seu
desaparecimento. Estava sob os cuidados de uma tribo indígena que o havia
resgatado. Foi lá que conheceu uma dedicada jovem que cuidou dele e, mais
tarde, se tornaria a minha mãe. Completamente restabelecido, pediu ao pajé a
mão dela em casamento, veio para a cidade, comprou este sítio, e viveu aqui com
ela, onde eu nasci e até o fatídico dia do acidente em que ambos deixaram esta
existência. Isso é tudo que sei dele, afora outras coisas contadas por minha
madrinha e que, pelo menos agora, são irrelevantes. Tenho a sensação de que
está em algum lugar, procuro por ele até hoje, sinto que ele está pronto para
aparecer. Algumas vezes vou ao cemitério procurar pela cova dele... Nunca
encontrei ou desapareceu, por isso acho que ainda está vivo, perdido ou
escondido do que não sei. Já minha mãe, essa vive em mim o tempo inteiro, sonho
com ela todos os dias, como se ela vivesse ao meu lado a todo instante,
sobretudo com seus olhos no rio. É como se me dissesse sempre para onde devo
ir, o que fazer, como proceder e evitar enrascada. Minha madrinha me contou que
a conheceu um dia em que estava desesperada com a saúde de seu próprio pai.
Minha mãe a consolava e prescreveu umas ervas que curaram e o manteve vivo por
alguns anos, que era ensinamento dos Caeté, Carajós. Era índia dessa tribo
secular que fora perseguida desde a chegada dos portugueses. Era dada pela
história como extinta e viviam longe da civilização, escondidos nas matas. Com
a chegada do Coronelão por estas bandas, os problemas se agravaram. As
emboscadas com o fito de expulsá-los das terras provocaram mortandades, não se
sabendo mais se ainda resistiram aos ataques ou se fugiram para outras bandas,
vez que as matas foram sendo derrubadas para plantio de cana-de-açúcar,
formando grandes latifúndios. Quando meu pai encerrou as atividades da loja, todos
passamos a morar aqui de vez, tendo, apenas, por amigos os meus padrinhos. Eu
sempre gostei daqui, brincava livre no terreiro, inventava divertimento de todo
tipo com as plantas, os bichos e o rio que nasce logo ali. Fui crescendo e um
dia, era setembro quando morreram, minha mãe não queria fazer aquela viagem,
mas meu pai teimoso não arredou o pé e foram vítimas de um acidente que nunca
me explicaram direito. As lembranças vivas da minha mãe é o que conta, guardo
todos os mínimos momentos em que estive com ela, os momentos mais felizes da
minha vida, das histórias que me contava sobre a criação do mundo, quando Tupã
criou o céu, a Terra, os pássaros e os bichos todos numa planície sem fim, só
depois que criou as montanhas e os mares. O povo vivia em paz com os benefícios
do criador, até o dia que os homens se deram aos desafios, o que deixou Tupã
muito ofendido e mandou o fogo celeste por castigo e tudo mudou, com morros e
vales. Só se salvou Irin-majé que subiu aos céus e viu o criador a chorar,
criando a chuva que deram nos rios, mares e outras águas. Foi aí que ele deu para
Irin-majé a Maire-Monã e eles povoaram a Terra, ensinando-lhes a tonsura, a
epilação e os ritos. Eu ficava vidrado e pedia para que me contasse de novo e
recontasse essa história um montão de vezes para minha fantasia. Não terminava
por aí, outras tantas me contava do seu povo e é isso que norteia até agora
tudo o que fiz e faço. Minha madrinha chamava-a de Ciganídia porque ela sempre
sabia o que fazer, adivinhava as coisas e curava as pessoas que a procuravam
com seus problemas de saúde. O amor dos seus olhos ternos, o seu sorriso
inocente, o rio, tudo dela em mim. A vida é dura, fria e cruel. Veja mais aqui.
Ela ali nua submersa
me abre os braços pro seu regaço e se de dispersa pro meu desembaraço a sorrir.
Nela meu espaço daqui e transversa pros nossos laços, imersa Iaravi.





