COTALUNA - Era pleno verão, Cotaluna nua era um poema imenso: sua pele branca, cabelos escuros, olhar sedutor. Vagava, nos meus versos a sua sedução, era o preço cobrado na fronteira do mormaço. E com ela o outono, a plenitude do prazer entusiasmado. E enlouqueci, com certeza, já havia se apossado da minha alma. Dela o inverno e me atraiu solfejando a corrente pelas margens do rio. Ali acenava pra Iara o dia bem-vindo nos beiradeiros das ermas ribanceiras do compadre Caboclo-d’Água, Romãozinho. E nela me fazia os rochedos, o banco de areia, a brisa no leito, água no peito, o calor de viver. De noite Ipupiara, a admiração descomunal dos tritões pelos recôncavos e fisionomias. E ela Mãe-d’Água a me passar pelos níveis de Eva, Helena e Maria, quando a ilusão se quebrou: não havia escada alguma, nem jogo. As minhas batalhas, inúteis. O desapego, a inação. A sombra à porta do abismo, o paradoxo e a virada. Só a poesia de ir e voltar e no olhar de Sophia: nenhuma regra, nem ambição. O silêncio de um mundo estranho transcendia a jornada do arquétipo, a despertar entre as espirais do imprevisível. E dela a vida. E me fez olhar para trás, as minhas ruinas, o meu apodrecimento nas armadilhas e atalhos percorridos. Nos seus olhos a noite escura do nigredo, caía no buraco, em queda livre, entre fogos de artifícios. No seu ventre a reconstrução: o espelho e o encontro, perdia o rumo, puxou-me e era o deserto gelado, a purificação fria do albedo, a decomposição do que joguei fora. Era o colapso das máscaras do passado defenestrando ressentimentos, rachaduras, fragilidades. Em mim era ela o cisne branco, o meu ponto de virada e uma semente rompia a casca e desabrochou. Recolhi-me e escrevia o inominável, atravessava o isolamento. Ah, o mundo, não havia culpados, nenhum parceiro, ninguém e a brancura do silêncio, o vazio iluminado: não me afoguei na clareza e integrei a sombra. Do seu corpo o fogo do rubedo e me aquecia pro mergulho, a me dissolver: descia na plenitude, as núpcias dos opostos, o sangue voltou e uma estrela dançava e era ela no meu caos. Às margens do Gramame as águas seguiam e ela me disse: É a vida. Veja mais abaixo e aqui.
DITOS
& DESDITOS
Nunca somos completamente contemporâneos do
nosso presente. A história avança disfarçada; aparece em cena usando a máscara
da cena anterior, e tendemos a perder o sentido da peça... As máquinas jamais
serão capazes de fornecer ao processo de pensamento um modelo do próprio
pensamento, visto que as máquinas não são mortais. O que dá aos humanos acesso
ao domínio simbólico do valor e do significado é o fato de morrermos...
Pensamento do filósofo, jornalista, escritor
e professor francês Régis Debray (- Jules
Régis Debray) autor de obras como: Elogio delle frontiere (2010), A
Modest Proposal: A Plan for the Golden Years (2006), Transmitting
Culture (2000) e Media Manifestos: On the Technological Transmission of
Cultural Forms (1996).
ALGUÉM
FALOU:
Os sábios não são sábios porque não cometem
erros. São sábios porque corrigem seus erros assim que os reconhecem... As
metáforas têm o poder de conter a maior verdade no menor espaço... As mentiras
que vivemos sempre serão confessadas nas histórias que contamos... Os caminhos
do amor são estranhos e difíceis: o amor que você deseja está sempre bloqueado;
o amor que você tem, você quer mudar. Os caminhos do amor são difíceis e
estranhos... Para aprender, é preciso mudar de ideia...
Pensamento do
escritor estadunidense Orson Scott Card, autor dos livros: Shadow of
the Giant (2005), Ender's Shadow (1999), Xenocide (1991), The
Folk of the Fringe (1989), Speaker for the Dead (1986) e Ender's
Game (1985). Veja mais aqui.
JÁ
DIZIA VEUILLOT: É
preciso escrever com a convicção de que só existem duas palavras no idioma: o
substantivo e o verbo... Ponhamo-nos em guarda contra as outras palavras...
Pensamento do escritor e jornalista francês Louis Veuillot (1813-1883).
A BESTA DA SOMBRA
– […] Eu perdi para você. Perdi
completamente. [...] Ela
não havia perdido apenas em batalha. Indicando, sem palavras, que também se
referia à sua derrota em algo totalmente diferente, começou a chorar, as
lágrimas transbordando de seus olhos semicerrados. [...] Se a beleza
ganha profundidade quando tingida pelo medo, então provavelmente não há nada
mais belo no mundo dos vivos... [...]. Trechos extraídos da obra Beast in the Shadows
(Penguin, 1928-2015), do escritor japonês Edogawa Rampo (Tarō Hirai - 1894–1965),
autor de obras como: Strange Tale of Panorama Island (2013), Japanese
Tales of Mystery & Imagination (1956), The Fiend with Twenty Faces
(1936), The Black Lizard (1934) e The Human Chair (1925).
A JANELA
- Você é meu pão \ e a linha do cabelo \ ruído \ dos meus ossos \ Você está
quase \ o mar \ Você não é pedra \ ou som derretido \ Eu acho \ Você não tem
mãos \ Este tipo de pássaro voa para trás \ e este amor \ quebras em uma janela
\ onde nenhuma luz fala \ Isto não é tempo \ para atravessar línguas \ (A areia
aqui \ nunca muda) \ Eu acho \ amanhã \ virou-te com o dedo do pé \ e você vai
\ brilhar \ e brilhar \ não gasto e no subsolo. Poema extraído da obra Pieces
of a Song: Selected Poems (City Lights Books, 1990), da escritora e artista
estadunidense Diane di Prima (1934-2020), ativista dos direitos humanos,
ativista feminista e integrante da Geração Beat. Veja mais aqui, aqui, aqui
& aqui.
O SACRIFÍCIO INCRÍVEL DE MIAO SHAN
– Quando a princesa nasceu os céus tremeram, o ar se encheu de fragrância e as
flores caíram. Um ser especial, a terceira filha para decepção do rei e rainha,
que desejavam um filho homem. Ao crescer seus pais exigiram que se casasse e os
premiasse com um genro para governar o reino. Ela se recusou, objetivava a vida
religiosa. Seu pai enfurecido castigou-a com tarefas humilhantes no palácio. A mãe-rainha
implorou que a enviasse para um convento. Então, ela foi enviada, tendo a
abadessa sido instruída a lhe aplicar árduo trabalho. E quanto mais ela trabalha,
seres celestiais ajudavam-na. E manteve a recusa de casamento. Seu furioso pai
ordenou incendiar o convento. Ela perfurou a língua e cuspiu sangue para o ar e
assim fez-se chuva e apagou o fogo. Ela foi condenada à decapitação em praça
pública. A espada do carrasco quebrou-se no meio do golpe. A lança se desfez. E
o carrasco não conseguiu estrangulá-la com um cordão de seda. O Deus Tigre da
Terra saltou na praça, deu-lhe a pílula da imortalidade e a levou embora. Ao retornar,
ela acomodou-se no topo de uma montanha e começou a meditar, nisso ficando por
longos nove anos. O rei então adoeceu acumulado de terrível karma. Ninguém conseguia
curá-lo. Um monge misterioso disse ao rei: Só será curado por uma pessoa sem
ira e que dará seu próprio braço e seu próprio olho pro cozinheiro fazer o
remédio que irá curá-lo. Não existe alguém sem raiva! Sim, existe, ela está
numa montanha próxima. O rei desesperado mandou um mensageiro. Era ela, Miao Shan. E prontamente cortou os próprios
braços, arrancou os dois olhos e entregou ao mensageiro. E o rei foi curado. O
rei e a rainha foram agradecer à salvadora no alto da montanha. Lá chegando se
chocaram ao reconhecer a filha mutilada. O pai confessou-se indigno do sacrifício
dela e ela respondeu: "Tendo renunciado a estes olhos humanos, verei
com olhos de diamante. Tendo entregado estes braços mortais, receberei braços
de ouro." Ao dizer tais palavras transformou-se imediatamente na Bodhisattva
Kwan Yin, a Avalokitesvara de mil braços e mil olhos. Elevou-se e pairou acima
de seus pais, ascendeu aos céus. História extraída da obra The
Wiley-Blackwell Companion to Chinese Religions (John Wiley & Sons,
2012), do professor e pesquisador Ph.D Randall Laird Nadeau, publicando
pesquisas sobre pesquisas sobre literatura religiosa popular, cultos a
divindades e religião folclórica na China e no Japão, bem como sobre
metodologia no estudo da religião, especialmente o budismo e os movimentos
religiosos populares.







