quarta-feira, fevereiro 17, 2016

GRAMSCI, DIANE DI PRIMA, DEBRAY, RAMPO, SCOTT CARD AVALOKITESVARA & COTALUNA


 COTALUNA - Era pleno verão, Cotaluna nua era um poema imenso: sua pele branca, cabelos escuros, olhar sedutor. Vagava, nos meus versos a sua sedução, era o preço cobrado na fronteira do mormaço. E com ela o outono, a plenitude do prazer entusiasmado. E enlouqueci, com certeza, já havia se apossado da minha alma. Dela o inverno e me atraiu solfejando a corrente pelas margens do rio. Ali acenava pra Iara o dia bem-vindo nos beiradeiros das ermas ribanceiras do compadre Caboclo-d’Água, Romãozinho. E nela me fazia os rochedos, o banco de areia, a brisa no leito, água no peito, o calor de viver. De noite Ipupiara, a admiração descomunal dos tritões pelos recôncavos e fisionomias. E ela Mãe-d’Água a me passar pelos níveis de Eva, Helena e Maria, quando a ilusão se quebrou: não havia escada alguma, nem jogo. As minhas batalhas, inúteis. O desapego, a inação. A sombra à porta do abismo, o paradoxo e a virada. Só a poesia de ir e voltar e no olhar de Sophia: nenhuma regra, nem ambição. O silêncio de um mundo estranho transcendia a jornada do arquétipo, a despertar entre as espirais do imprevisível. E dela a vida. E me fez olhar para trás, as minhas ruinas, o meu apodrecimento nas armadilhas e atalhos percorridos. Nos seus olhos a noite escura do nigredo, caía no buraco, em queda livre, entre fogos de artifícios. No seu ventre a reconstrução: o espelho e o encontro, perdia o rumo, puxou-me e era o deserto gelado, a purificação fria do albedo, a decomposição do que joguei fora. Era o colapso das máscaras do passado defenestrando ressentimentos, rachaduras, fragilidades. Em mim era ela o cisne branco, o meu ponto de virada e uma semente rompia a casca e desabrochou. Recolhi-me e escrevia o inominável, atravessava o isolamento. Ah, o mundo, não havia culpados, nenhum parceiro, ninguém e a brancura do silêncio, o vazio iluminado: não me afoguei na clareza e integrei a sombra. Do seu corpo o fogo do rubedo e me aquecia pro mergulho, a me dissolver: descia na plenitude, as núpcias dos opostos, o sangue voltou e uma estrela dançava e era ela no meu caos. Às margens do Gramame as águas seguiam e ela me disse: É a vida. Veja mais abaixo e aqui.

 


DITOS & DESDITOS

Nunca somos completamente contemporâneos do nosso presente. A história avança disfarçada; aparece em cena usando a máscara da cena anterior, e tendemos a perder o sentido da peça... As máquinas jamais serão capazes de fornecer ao processo de pensamento um modelo do próprio pensamento, visto que as máquinas não são mortais. O que dá aos humanos acesso ao domínio simbólico do valor e do significado é o fato de morrermos...

Pensamento do filósofo, jornalista, escritor e professor francês Régis Debray (- Jules Régis Debray) autor de obras como: Elogio delle frontiere (2010), A Modest Proposal: A Plan for the Golden Years (2006), Transmitting Culture (2000) e Media Manifestos: On the Technological Transmission of Cultural Forms (1996).

 

ALGUÉM FALOU:

Os sábios não são sábios porque não cometem erros. São sábios porque corrigem seus erros assim que os reconhecem... As metáforas têm o poder de conter a maior verdade no menor espaço... As mentiras que vivemos sempre serão confessadas nas histórias que contamos... Os caminhos do amor são estranhos e difíceis: o amor que você deseja está sempre bloqueado; o amor que você tem, você quer mudar. Os caminhos do amor são difíceis e estranhos... Para aprender, é preciso mudar de ideia...

Pensamento do escritor estadunidense Orson Scott Card, autor dos livros: Shadow of the Giant (2005), Ender's Shadow (1999), Xenocide (1991), The Folk of the Fringe (1989), Speaker for the Dead (1986) e Ender's Game (1985). Veja mais aqui.

  

JÁ DIZIA VEUILLOT: É preciso escrever com a convicção de que só existem duas palavras no idioma: o substantivo e o verbo... Ponhamo-nos em guarda contra as outras palavras... Pensamento do escritor e jornalista francês Louis Veuillot (1813-1883).

 

A BESTA DA SOMBRA – […] Eu perdi para você. Perdi completamente. [...] Ela não havia perdido apenas em batalha. Indicando, sem palavras, que também se referia à sua derrota em algo totalmente diferente, começou a chorar, as lágrimas transbordando de seus olhos semicerrados. [...] Se a beleza ganha profundidade quando tingida pelo medo, então provavelmente não há nada mais belo no mundo dos vivos... [...]. Trechos extraídos da obra Beast in the Shadows (Penguin, 1928-2015), do escritor japonês Edogawa Rampo (Tarō Hirai - 1894–1965), autor de obras como: Strange Tale of Panorama Island (2013), Japanese Tales of Mystery & Imagination (1956), The Fiend with Twenty Faces (1936), The Black Lizard (1934) e The Human Chair (1925).

 


BLIND BEAST – O filme Blind beast (Cega obsessão, 1969), dirigido por Yasuzo Masumura, é baseado no romande de Edogawa Rampo, conta a história de um escultor cego que, juntamente com sua mãe, sequestram a mais bonita das modelos do Japão e a alojam em um ateliê rodeado de esculturas bizarras. Ao longo dos dias, o escultor, que tenta fazer a escultura perfeita a partir do toque ao corpo dela, acaba por se apaixonar pela modelo, criando um triângulo amoroso de amor e fúria e, fatalmente, acabando em tragédia. O destaque do filme vai para a atriz Mako Midori. Veja mais aqui.


LITERATURA E VIDA NACIONAL, DE ANTONIO GRAMSCI - [...] Um determinado momento histórico-social jamais é homogêneo, ao contrário, é rico em contradições. [...] Os escritores desta antologia, portanto, são novos não porque tenha da arte uma ideia diversa da dos escritores que lhes precederam. Ou, para tocar imediatamente no essencial, são novos porque acreditam na arte, ao passo que aqueles acreditavam em muitas outras coisas que nada tinham a ver com a arte. Esta novidade, por isso, pode permitir a forma tradicional e o antigo conteúdo, mas não pode permitir desvios da ideia essencial da arte. [...] Poesia não gera poesia; a partenogênese não existe, é necessária a intervenção do elemento masculino, do que é real, passional, prático, moral. Os mais altos críticos de poesia aconselham, neste caso, a não recorrer a receitas literárias, mas sim – como eles dizem – a refazer o homem. Refeito o homem, refrescado o espírito, surgida uma nova vida afetiva, dela surgirá – se surgir – uma nova poesia. Esta observação pode ser assimilada pelo materialismo histórico. A literatura não gera literatura, etc., isto é, as ideologias não geram ideologias, as superestruturas não geram superestruturas senão como herança de inércia e passividade: elas são geradas, não por partenogênese, mas pela intervenção do elemento masculino, a história, a atividade revolucionária que cria o novo homem, isto é, novas relações sociais. LITERATURA E VIDA NACIONAL – No livro Literatura e vida nacional, o filósofo, cientista político e comunista italiano, Antonio Gramsci (1891-1937), traz os Cadernos do Cárcere, abordando sobre arte e cultura, a arte e a luta por uma nova civilização, a arte educativa, critérios de crítica literária, Neolalismo, a língua e a linguagem, literatura funcional, o teatro de Pirandello, caráter não nacional-popular da literatura italiana, a literatura popular, conteúdo e forma, degenerescência artiítica, língua nacional e gramática, linguística, observações sobre o folclore e crônicas teatrais. Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aquiaqui, aqui e aqui.
REFERÊNCIA
GRAMSCI, Antonio. Literatura e vida nacional. Rio de Janeiro: Cibilização Brasileira, 1978.

 

A JANELA - Você é meu pão \ e a linha do cabelo \ ruído \ dos meus ossos \ Você está quase \ o mar \ Você não é pedra \ ou som derretido \ Eu acho \ Você não tem mãos \ Este tipo de pássaro voa para trás \ e este amor \ quebras em uma janela \ onde nenhuma luz fala \ Isto não é tempo \ para atravessar línguas \ (A areia aqui \ nunca muda) \ Eu acho \ amanhã \ virou-te com o dedo do pé \ e você vai \ brilhar \ e brilhar \ não gasto e no subsolo. Poema extraído da obra Pieces of a Song: Selected Poems (City Lights Books, 1990), da escritora e artista estadunidense Diane di Prima (1934-2020), ativista dos direitos humanos, ativista feminista e integrante da Geração Beat. Veja mais aqui, aqui, aqui & aqui.

 

O SACRIFÍCIO INCRÍVEL DE MIAO SHAN – Quando a princesa nasceu os céus tremeram, o ar se encheu de fragrância e as flores caíram. Um ser especial, a terceira filha para decepção do rei e rainha, que desejavam um filho homem. Ao crescer seus pais exigiram que se casasse e os premiasse com um genro para governar o reino. Ela se recusou, objetivava a vida religiosa. Seu pai enfurecido castigou-a com tarefas humilhantes no palácio. A mãe-rainha implorou que a enviasse para um convento. Então, ela foi enviada, tendo a abadessa sido instruída a lhe aplicar árduo trabalho. E quanto mais ela trabalha, seres celestiais ajudavam-na. E manteve a recusa de casamento. Seu furioso pai ordenou incendiar o convento. Ela perfurou a língua e cuspiu sangue para o ar e assim fez-se chuva e apagou o fogo. Ela foi condenada à decapitação em praça pública. A espada do carrasco quebrou-se no meio do golpe. A lança se desfez. E o carrasco não conseguiu estrangulá-la com um cordão de seda. O Deus Tigre da Terra saltou na praça, deu-lhe a pílula da imortalidade e a levou embora. Ao retornar, ela acomodou-se no topo de uma montanha e começou a meditar, nisso ficando por longos nove anos. O rei então adoeceu acumulado de terrível karma. Ninguém conseguia curá-lo. Um monge misterioso disse ao rei: Só será curado por uma pessoa sem ira e que dará seu próprio braço e seu próprio olho pro cozinheiro fazer o remédio que irá curá-lo. Não existe alguém sem raiva! Sim, existe, ela está numa montanha próxima. O rei desesperado mandou um mensageiro. Era ela, Miao Shan. E prontamente cortou os próprios braços, arrancou os dois olhos e entregou ao mensageiro. E o rei foi curado. O rei e a rainha foram agradecer à salvadora no alto da montanha. Lá chegando se chocaram ao reconhecer a filha mutilada. O pai confessou-se indigno do sacrifício dela e ela respondeu: "Tendo renunciado a estes olhos humanos, verei com olhos de diamante. Tendo entregado estes braços mortais, receberei braços de ouro." Ao dizer tais palavras transformou-se imediatamente na Bodhisattva Kwan Yin, a Avalokitesvara de mil braços e mil olhos. Elevou-se e pairou acima de seus pais, ascendeu aos céus. História extraída da obra The Wiley-Blackwell Companion to Chinese Religions (John Wiley & Sons, 2012), do professor e pesquisador Ph.D Randall Laird Nadeau, publicando pesquisas sobre pesquisas sobre literatura religiosa popular, cultos a divindades e religião folclórica na China e no Japão, bem como sobre metodologia no estudo da religião, especialmente o budismo e os movimentos religiosos populares.

 


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