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sábado, janeiro 03, 2026

YURIKO SAITO, MICERE MUGO, DIANA GABALDON, CATADUPAS & SONHO DA CIGARRA

 

 Imagem: AcervoLAM.

Tenho esperança nas pessoas, nos indivíduos. Porque não se sabe o que vai surgir das ruínas... O perdão de si mesmo é o mais difícil de todos os perdões...

Pensamento ao som do álbum Whistle Down the Wind (Razor & Tie, 2018), da cantora, compositora e ativista estadunidense Joan Baez (Joan Chandos Baez). Veja mais aqui.

 

Na pisada do toré (Uma canção pra cunhantã Chenoa) – Vivos olhos nativos afagam meu coração mestiço. Eram faróis na majestosa acangatara e com a graça de suas pestanas suspensas exalando o cheiro quente do afeto. E a sua delicada voz a me embalar num tapete mágico feito de nuvem baixinha passageira. É ela minha filha vestal com seu penacho de fogo, uma estrela Maire-monã que me diz da criança ainda por nascer na gravidez dos caminhos. E da sua boca juvenil os cantares semeiam anunciando os festivos renascimentos com todo brilho da palavra perdida e nela ascendemos pela chuva a lavar dentro de mim o que rega a terra e amadurece ao paladar os doces frutos e inebria com o bálsamo das flores ao olfato, abraça saberes e sabores sem que haja explicações. Não há porquês, tudo é onde qualquer domicílio e quando todos os momentos do visinvisível na festa dos milagres, que nem são só mais desdobramentos do que é uno e suas tantas outras metades pelos grãos, chuviscos, ondas do mar, remoinhos dos rios, faíscas do fogo, a brisa dos ventos, a poeira do chão abrigo dos meus mortos sagrados, o arco-íris e o avesso do ermo: oásis se expande sorridente para a profusão dos dançares das plantações, dos brincares de véspera das colheitas, dos teceres e as parições da vertigem da vida pelos abismos, o botão de rosa, as flores do jardim, o voo dos pássaros, os galhos das folhas, as pedras do caminho, o alto da montanha, os nomes chamados e as celebrações dos estiares na plenitude do Sol. E os falares reluzem as pálpebras pros olhos serenos, ternura de mãe. E o eco da voz é minha e a de todos os ninguéns, porque a Lua alumia as noites na palma da mão e revela as linhas dos recados ancestrais Quechuas, Mapuche, Navajo, Maia, Guarani, Yanomami, Haudenosaunee e de todos os originários de Abya Yala que somos. E suas mãos desenham no ar todas as fábulas do imaginário pela magia invisível das sombras das fruteiras, das oferendas dos pomares e pelos passos das estradas, contando a distância limítrofe do que há por trás de todos os mistérios: as águas são espelhos e tudo respira mostrando as coisas secretas para a alma atenta, que sente as sutis emanações pelas brechas que guardam as vozes escondidas de Iara que é Boiúna, a Cobra-Grande, com seus olhos de fogo e chifres refulgentes de quem vive no fundo dos rios e Jaci já vem com um buriti, o cipó dos sonhos, a nos avisar que Ceiuci anda faminta e não amedronta, não mais que as mais de quinhentas vagantes inexatidões mais esgarçadas, dos desfeitos laços e a esperança fugidia à espera, como uma criança desolada por ver nossos extravios, a ameaça do medo e a culpa imposta. Não mais a casa da infância destruída e os que procuram por si próprios e não se encontram, tontos com as voltas do mundo nas longas noites asfixiantes dos que ganham e perdem entre os que foram caraíbas perós e outros invasores. Porque no espelho das águas o outro lado escondido das coisas: a casca de ovo se quebra para realizarmos o dia inventando a noite enluarada, um canto proutrantos e todocês. Até mais ver.

 

Rigoberta Menchú: Os povos indígenas nunca tiveram, e ainda não têm, o lugar que deveriam ter ocupado no progresso e nos benefícios da ciência e da tecnologia, embora representassem uma base importante para esse desenvolvimento... Que haja liberdade para os indígenas, onde quer que estejam no Continente Americano ou em outro lugar do mundo, porque enquanto estiverem vivos, um brilho de esperança estará vivo, bem como um verdadeiro conceito de vida... Veja mais aqui.

Patti Smith: Liberdade é... o direito de escrever as palavras erradas... Acredito que nós, este planeta, ainda não vivemos nossa Era de Ouro. Todos dizem que acabou... a arte acabou, o rock and roll morreu, Deus morreu. Que se dane! Esta é a minha chance no mundo. Eu não vivi lá na Mesopotâmia, não estive no Jardim do Éden, não estive com o Imperador Han, estou aqui e agora e quero que agora seja a Era de Ouro... se ao menos cada geração percebesse que o momento para a grandeza é agora, enquanto estão vivos... o momento de florescer é agora... Faça com que suas interações com as pessoas sejam transformadoras, e não apenas transacionais... Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.

Simone de Beauvoir: Mude sua vida hoje. Não jogue no futuro, aja agora, sem demora... A palavra amor não tem de modo algum o mesmo sentido para ambos os sexos, e esta é uma causa dos graves mal-entendidos que os dividem... Desejo que cada vida humana seja pura liberdade transparente... Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.

 

QUERO QUE VOCÊ SAIBA

Imagem: AcervoLAM.

Quero que você saiba \ com que cuidado? \ Reguei os brotos tenros. \ você plantou \ no meu pequeno jardim. \ Agora, flores enfeitam o chão. \ As frutas estão maduras. \ Venha \ Traga uma cesta de vime resistente \ e traga consigo também \ o melhor vinho de palma \ que seu especialista em tapping \ possa preparar \ Devemos festejar e beber vinho \ até altas horas da madrugada \ dos nossos breves dias juntos \ Alegria e amor \ será o nosso dia a dia \ canções de colheita.

Poema da escritora, dramaturga, editora, professora e ativista queniana Micere Githae Mugo (Madeleine Micere Githae – 1942-2023), que foi perseguida, prasa e exilada em 1982, por conta da ditadura que se instalou em seu país, coibindo sua luta contra os abusos aos direitos humanos. A partir de 1984 tornou-se cidadã do Zimbábue: Sou filha do universo, já morei em quase todos os continentes. Escrever pode ser uma tábua de salvação, especialmente quando sua existência foi negada, especialmente quando você foi deixado à margem, especialmente quando sua vida e processo de crescimento foram submetidos a tentativas de estrangulamento.

 

VÁ DIZER ÀS ABELHAS QUE EU FUI EMBORA - [...] Você não deixa de amar alguém só porque essa pessoa morreu [...] As refeições eram o meu tormento diário; não tanto o trabalho constante de colher, limpar, picar e cozinhar — embora essas atividades fossem bastante desagradáveis por si só — mas principalmente a tarefa interminável de lembrar o que tínhamos à mão e equilibrar o esforço necessário para tornar a comida comestível com a consciência do que poderia estragar se não a comêssemos imediatamente. [...] Mas cada um de nós é chamado a viver a vida nos pequenos momentos; a praticar a bondade, a arriscar nossos sentimentos, a dar uma chance a alguém, a atender às necessidades das pessoas que amamos. Porque Deus está em toda parte e vive em todos nós. Esses pequenos momentos são Dele. [...] O corpo forma cicatrizes internas, assim como cicatrizes superficiais, quando uma ferida cicatriza — e o mesmo acontece com a mente. [...] O perdão faz com que as coisas desapareçam. [...] Ao longo dos anos, vi muitos pacientes doces, amáveis e dóceis, que sucumbiram em poucas horas às suas doenças. Os filhos da puta raivosos, irascíveis e difíceis (de ambos os sexos) quase sempre sobreviviam. [...] Quando se tem filhos, existe aquele pequeno período em que você é tudo o que eles precisam. E então eles saem dos seus braços e você fica com medo de novo, porque agora você sabe todas as coisas que poderiam machucá-los, e você não consegue protegê-los. [...]. Trechos extraídos da obra Go Tell the Bees That I am Gone (Century, 2021), da escritora estadunidense Diana Gabaldon (Diana Jacqueline Gabaldon), que também expressa: O que está subjacente à grande ciência é o que está subjacente à grande arte, seja ela visual ou escrita, e essa é a capacidade de distinguir padrões fora do caos... Veja mais aqui, aqui & aqui.

 

O PAPEL DA EDUCAÇÃO ESTÉTICA NO COTIDIANO - [...] A educação estética em nosso cotidiano é, portanto, inestimável para questionar várias premissas estéticas que regem nossas vidas e sociedade, desenvolvendo o que pode ser chamado de alfabetização e vigilância estética, ao estarmos cientes das consequências dessas premissas, direcionando nosso poder reside na criação de um mundo justo, humano e sustentável, e na promoção de uma vida sustentada e enriquecida pelas relações estéticas que formamos com os outros, sejam pessoas, natureza ou mundo artefatual. Somos empoderados e responsáveis por moldar o mundo por meio de nossas práticas cotidianas, e a estética desempenha um papel surpreendentemente significativo. [...]. Trecho extraído do estudo The Role of Aesthetic Education in Everyday Life (Philosophy of Education Society of Great Britain, 2025), da filósofa e professora japonesa Yuriko Saito, que é autora da obra Everyday Aesthetics (‎ Oxford University Press, 2010), no qual analisa a sensibilidade aos objetos e às pessoas em uma ampla gama de artes e ofícios japoneses, incluindo paisagismo, haicai, pintura, cerâmica e culinária, enfatizando que o cultivo de uma atitude moral em relação às coisas é frequentemente praticado por meio de recursos estéticos. Veja mais aqui & aqui.

 

JAQUE MONTEIRO & I OFICINA DE CATADUPAS DO BRASIL

Foi lançado o livro da I Oficina de Catadupas do Brasil - 2025, uma parceria das poetas jaque monteiro, a criadora do gênero poético, ministrante e coordenadora da Oficina, e noi soul, do Projeto Pulsão Poética, que passou a ser a Madrinha da Catadupa e coordenadora da Oficina. Trata-se de um puro movimento, assim como uma cachoeira, representando inovação no cenário literário brasileiro e um gesto de amor pela língua portuguesa. O livro reúne poemas dos primeiros poetas catadupistas brasileiros. Confira a entrevista com os poemas de Jaque Monteiro aqui e detalhes sobre o livro aqui. E mais aqui.

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ADMMAURO GOMMES & O SONHO DA CIGARRA

O professor de Teoria Literária, poeta, cronista e membro da Academia Palmarense de Letras (APLE), Admmauro Gommes, comenta a publicação do livro infantil O Sonho da Cigarra (Asinha, 2025), da palmarense Taciana Cruz e de sua filha Kristina Cruz, nascida na então República Theca, hoje Tchéquia. Confira aqui & mais aqui.

 

A poesia de Manuel Bandeira aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.

Ana Lins & a Revolução Pernambucana aqui.

A pedagogia de Paulo Freire aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.

A arte de Tereza Costa Rego aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.

A arte de Abelardo da Hora aqui, aqui, aqui & aqui.

A arte de Geninha da Rosa Borges aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.

A música de Moacir Santos aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.

A poesia de Cida Pedrosa aqui & aqui.

A arte do Mestre Vitalino aqui, aqui & aqui.

A arte de Bia Villa-Chan aqui.

Veja Portfólio aqui.

 


quarta-feira, dezembro 27, 2023

MAYIM BIALIK, LYDDA FRANCO FARÍAS, MARTHA BATALHA, MUSGOS & LADAINHAS

 

 Imagem: Acervo ArtLAM.

Ao som dos álbuns Home Grown (Minor Music, 1985), Open on All Sides in the Middle (Minor Music, 1986), Twylight (Minor Music, 1989), Timeless Portraits and Dreams (Telarc, 2006), Flying Toward the Sound (Motéma, 2010) e A Child Is Born (Motéma, 2011), da pianista, compositora e educadora de jazz estadunidense, Geri Allen (1957-2017).

 

PELE BRASINDAFRO... - A cada dia vivo como quem caiu do céu nos cafundós de não sei quantos rincões. A pisada à paisana pelo piso falso me dá a sensação de quem foge pra longe sob o zunzunzum de gemínidas na cacunda franzina e aguentando Sol e lapadas da vida, quando o meu desejo era só voltar pra casa. Quem passa, quando não me enxerga, se faz de escárnio e sequer me reconhece. E se lhe peço informação: não sei, pergunte por aí. Vejo quem vem, mesmo quem não me queira ver a face. E também pergunto: Não sei, deve ser por aí. Valho-me, vez em quando, do socorro apressado de Ouida: Conheço mil bandidos; mas nunca conheci alguém que se considerasse assim. O autoconhecimento não é tão comum... Tire a esperança do coração do homem e você fará dele um animal predador... Sei disso porque não é à toa que há nas cercanias um exército de forças espaventosas que se faz inimigo de seu próprio lugar e gente. É fácil distingui-lo, servem aos mesmos que dão e tornam a tomar como se tivessem quepes prepotentes, com todos os cadeados de mando e morte. Não é fácil e retomo a caminhada porque Emily Carr arrepia meu íntimo: A arte sendo muito maior do que nós mesmos, não vai desistir uma vez que tomou conta... Não mudou de assunto, percebia, então ao ouvir alguém falar de Monã ao criar todas as coisas e o que estava no coco de tucumã da Cobra Grande, mostrava, ao mesmo tempo, o voo do cajubi com os raios e trovões de Tupã. Era Ano Novo. E se tudo que ouvi era um aviso, com certeza, esquecido estava porque nunca foi para assustar a nossa santa ingenuidade. Importava a festa para uma história que seria contada pras farras de celebração hedonista, nada mais. Menos pra mim porque Patti Smith jamais deixaria: Eu amei livros durante toda a minha vida. Não há nada mais bonito em nosso mundo material do que o livro... E mais ficava cônscio pela dor do saber – ah, como dói! Uma coisa disso ficou por certo: ninguém ficaria impune! Amanhã chegou logo e já se fez presente, ninguém percebia e sei disso porque sou brasindafro. Até mais ver.

 

UM POEMA

Imagem: Acervo ArtLAM.

Não nasci para ocupar um espaço e nada mais. \ Não sei qual será a minha participação. \ Tive que ser mulher e não me queixo, \ tive que cair na humidade do tempo, \ na secura inóspita das estradas \ mas aqui estou \ entre escombros e desperdícios. \ Destrua minha epiderme ressentida, \ destrua meus sonhos, minha alegria, \ me aniquile \ mas não tente me punir \ porque um dia eu apareci na terra \ e tinha voz e gritei \ e tinha fronteiras e não queria acordar sem eles \ e eu tínhamos armas e ali estão \ delineados, imóveis, ranzinzas.

Poema da poeta venezuelana Lydda Franco Farías (1943-2004). Veja mais aqui.

 

A VIDA INVISÍVEL DE EURÍDICE GUSMÃO – [...] Afundava a cara nos livros e se perdia em histórias. Quando levantava a cabeça achava tudo muito horrível, e sumia de novo, dentro de um livro qualquer. [...] Tudo errado, ele pensava, e quanto mais sabia sobre o mundo mais raiva ele sentia. Preconceito, pobreza, a falta de um pai, a vida dura das mães, todas essas coisas formavam as duas pontas de um mesmo barbante, que na época ele só sabia que estavam ligadas por intuição. [...] Eurídice estava desrespeitando um dos princípios básicos do Estatuto do Vizinho, que afirmava que a felicidade de um grupo só é possível quando todos desse grupo são iguais, desde o tamanho da conta bancária até as aspirações. [...] Alguns livros foram acrescentados por Antenor, que comprava livros como quem compra lanternas: é bom ter em casa os maiores pensadores do mundo, para se um dia precisarmos deles. [...] Nessas horas perdidas ela podia sentir a solidão se transformar em angústia, a angústia se transformar em loucura e a loucura sussurrar-lhe calma e firme: Um dia eu te pego, um dia eu te pego, um dia eu te pego. [...] Depois que o português renegou a filha arrependeu-se profundamente, desse jeito português de se arrepender, que implica não deixar ninguém nunca descobrir sobre o arrependimento. [...] Quando tocava podia acertar todas as notas, podia fazer a melodia perfeita. E por que a vida não podia ser também assim? Por que não podia fazer o que queria, por que não podia dizer tudo o que pensava, por que não podia tocar até exaurir seus dedos e cansar seus lábios, até não ter que pensar em nada? Quando tocava existiam apenas ela e a flauta, e aquele era um mundo perfeito, por ser um mundo pequeno [...] Se Eurídice queria casar? Talvez. Para ela o casamento era algo endêmico, algo que acometia homens e mulheres entre dezoito e vinte e cinco anos. Tipo surto de gripe, só que um pouquinho melhor. [...] Naquele momento Eurídice aprendeu que alguns olhares são diferentes de outros, e que existem olhares capazes de modificar a gente não só por dentro como também por fora, porque agora não havia meios de ela encontrar uma posição confortável na cadeira. [...] Esta é a história de Eurídice Gusmão, a mulher que poderia ter sido. [...]. Trechos extraídos da obra A Vida Invisível de Eurídice Gusmão (Companhia das Letras, 2016), da escritora e jornalista Martha Batalha.

 

ALÉM DO SLING – [...] as mulheres ajudaram as mulheres a dar à luz, e há um apoio que um treinador de trabalho de parto treinado pode fornecer que muitos parceiros podem – e devem – não. O trabalho de parto pode prosseguir mais lentamente quando sua adrenalina está mais alta do que deveria, e um parceiro pairando sobre você pode fazer sua adrenalina disparar. Isto não se deve apenas ao fator de observação, mas também às complexas relações emocionais e psicológicas que estabelecemos com os nossos parceiros; expectativas, percepções preconcebidas sobre comportamento e apoio, e até mesmo conflitos não resolvidos podem inconscientemente chegar ao seu cérebro durante o trabalho de parto, e às vezes podem ser transferidos diretamente para o colo do útero, fazendo com que ele feche quando você deseja que abra! [...]. Trecho extraído da obra Beyond the Sling: A Real-Life Guide to Raising Confident, Loving Children the Attachment Parenting Way (‎Gallery Books, 2012), da atriz, escritora e neurocientista estadunidense Mayim Bialik, que também se expressa: Como a maioria das mulheres reais, eu não era uma coisa; Eu era muitas coisas diferentes...

 

ENEÁGONOS DE MUSGOS & LADAÍNHAS AZUIS

Toda alma é noturna \ em especial a do poeta...

Trecho do poema Contrário, extraído da obra Eneágonos de musgos & ladainhas azuis (CriaArte, 2023), do poeta Vital Corrêa de Araújo. Veja mais aqui, aqui e aqui.


 


quarta-feira, março 28, 2018

TUIAVII DE TIAVEA, SELMA LAGERLÖF, TENNYSON, CHAGALL, IONESCO, BETINHO, ALMIR SATER & PATTI SMITH

A PAIXÃO, AH, MARIA FULÔ - Imagem: Love and life, do pintor, ceramista e gravurista surrealista judey russo-francês, Marc Chagall (1887-1985). - Ah, dos tempos de meninice, eu vivia aceso juvenil, arreado de amores pela bela Maria Fulô, a menina mais bonita do lugar. Tímido que só, arrumava jeito dela me achegar, até que uma tarde, a gente naquela de faz que não faz, sozinhos, quase lado a lado, ajeitei o gogó, pigarreei, botei a timidez pra lá e assoletrei: São Pedro dormiu, São João acordou, vamos sê compadre que SantAntonho mandou! Ela se riu, ô riso lindo da gota! Coisa mais bonita não há! Abestalhado e cheio das mesuras, fui pra lá e pra cá, ela só achando graça, era o que eu queria, oxente. Nisso, eu era o compadre dela e ela a minha comadre, e fomos brincar. Eu no fastígio todo ancho pelos arroubos da paixão avassaladora, ao lado daquela boniteza, queria mais nada não. Olhos de mar que nem aquele nunca tinha visto não. Ah, meus naufrágios! Umas barrocas na bochecha, sardas nas faces e ombros, pele branca macia, parecia mais um anjo que vinha lá do céu só pra me adorar. Ela se ria e brincava, dava pelo decote, ô moça dos peitos bonitos, dois manguitos duros de dá água na boca! Ah, como eu quero chupá-los! Ela se ajeitava, rodava que só, ô dona de coxas roliças, bem desenhadas, um encanto. E levantava a saia a cada rodada, que coisa mais linda das coisas de meu Deus, rodava a bunda-rica com todos os seus babados para eu ficar babando de queixo caído, cheiro de moça virgem perfumada de encantar o juízo de nunca mais me aprumar. Era de dia colado nos beiços dela, lábios de raros sabores, maracujá, melão, ingá, morango, cajá, ah, frutas de todo tipo naquela boca eu sugar. De tarde eu estirado entre as pernas dela, sentia o aperto dos joelhos no meio dos meus prazeres, eu queria lá saí dali, queria era ficar embaixo das saias e ali me esconder para todo o sempre. Não havia nada melhor. De noite eu já não queria dela mais desgrudar, beijos no cangote, esfregado do sarro, apalpa aqui, encosta acolá, eu só sentia era o tremido dela nuinha embaixo do vestido. Veio então assunto sério: - Meu pai quer lhe pegar! E eu só queria com ela casar. Não é isso não, meu pai vai deixar não. Num diga isso, valha-me qualquer santa da sua devoção! Eu vou pedir sua mão. Oxe, isso é coisa que se diga, vai adiantar não. E por que não? Ele quer me mandar pro convento pra você não me encontrar. Diga isso não! Se você insistir, ele vai lhe pegar. Eu enfrento ele, ora. Ah, não, o velho só que lhe capar. Danou-se! Sou Abelardo não! Nem eu Heloisa, mô fio! E agora? E eu sei! Vá-se embora que lá vem ele virado na gota! Ela correu, eu sumi, nem sei mesmo adonde foi que me escondi. Pra onde eu ia, a cabroeira chegava bufando. Valha-me o rei dos carneiros! Logo ele aparecia pra me esconder numa gruta arrodeada de ovelhas. Os algozes vinham, cheiravam, assuntavam e dali nem saíam, vigilantes. Davam por minha presença escondido nalgum lugar. Valha-me o rei dos peixes! Logo ele apareceu, me levando por um canal estreito por baixo da terra que foi dar no mar, na boca de um tubarão medonho engolido por uma baleia, tudo para me esconder. E lá vinham os caboetas, escafandros, submarinos, vigiavam tudo no fundo do mar. Será o Benedito? Valha-me o rei dos pássaros! E um gavião me tirou do tubarão e ejetado pela baleia, subiu alto no céu, atrás de longínqua nuvem guardada lá mais longe por um rei-gavião gigante. E lá vinham os cheleleus de aviões e helicópteros arrodeando a nuvem e armados até os dentes. Valha-me o rei das formigas! E me tornei uma formiga e fui pro quarto da amada, com todo cuidado, subi suas vestes e fiquei escondido na dobra da gola do vestido dela. Nem ela sabia, nem ninguém. Estava eu mais ela num rigoroso internato. Ela privada de mim, eu com saudades dela. Pelo menos estava com ela, ah, isso sim. Qual não foi a minha decepção. Um primo Adônis adentrou o recinto e ela se desmanchou toda. E eu, meu Deus, eu ali espremido pelo acocho dos braços dele por cima dela, abraços que eram meus e ela lá envolvida, triste sina minha. Sujeito mais infortunado eu sou, quase um Paulo Eiró com versos das tripas coração. E fui descendo entristecido, peguei o meu rumo ao formigueiro, voltei ao normal, um Fagundes Varela cantando Alice Guilhermina perdida no tempo. Comecei a andar sem rumo, entristecido, não sei por onde nem que tempo, sei que um dia me deparei com uma igreja em festa e lá vi, ao longe, a minha amada e o primo, contraindo matrimônio. Adeus, vida minha, vou triste estrada afora. Não sou daqui, oi, sou lá de fora, adeus linda morena, que eu já vou embora. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais abaixo & mais aqui & aqui.

RÁDIO TATARITARITATÁ:
Hoje na Rádio Tataritaritatá especial com a música do violeiro, compositor, cantor e instrumentista Almir Sater: Instrumental 1, Instrumental 2 & Caminhos me levem; da poeta, cantora, fotógrafa, escritora, compositora e musicista estadunidense Patti Smith: Live at Montreaux, Line in Spain & Horses; & muito mais nos mais de 2 milhões de acessos ao blog & nos 35 Anos de Arte Cidadã. Para conferir é só ligar o som e curtir.

PENSAMENTO DO DIA – Que importa um computador de bordo no automóvel se o grosso da população sequer tem condições de comprar uma carroça? Pensamento de José Adelino Medeiros e Lucilia Atas Medeiros, autores da obra O que é tecnologia (Brasiliense, 1993).

O TEMPO & O PAPALAGUI – [...] Só uma vez é que deparei com um homem que tinha muito tempo, que nunca se queixava de não tê-lo, mas era pobre, sujo, e desprezado. Os outros passavam longe dele, ninguém lhe dava importância. Não compreendi essa atitude porque ele andava sem pressa, com os olhos sorrindo, mansa, suavemente. Quando lhe falei, fez uma careta e disse, tristemente: "Nunca soube aproveitar o tempo; por isto, sou pobre, sou um bobalhão". Tinha tempo, mas não era feliz. O Papalagui emprega todas as forças que tem e todos os seus pensamentos tentando alongar o tempo o mais possível. Serve-se da água e do fogo, da tempestade, dos relâmpagos que brilham no céu para fazer parar o tempo. Põe rodas de ferro nos pés, dá asas às palavras que diz para ter mais tempo. Mas para que todo este esforço? O que é que o Papalagui faz com o tempo? Nunca compreendi bem embora pelos seus gestos e suas palavras, ele sempre tenha me dado a impressão de alguém a quem o Grande Espirito convidou para um fono. Acho que o tempo lhe escapa tal qual a cobra na mão molhada, justamente porque o segura com força demais. O Papalagui não espera que o tempo venha até ele, mas sai ao seu alcance, sempre, sempre, com as mãos estendidas e não lhe dá descanso, não deixa que o tempo descanse ao sol. O tempo tem de estar sempre perto dele, cantando, dizendo alguma coisa. Mas o tempo é quieto, pacato, gosta de descansar, de deitar-se à vontade na esteira. O Papalagui não sabe perceber onde está o tempo, não o entende e é por isto que o maltrata com os seus costumes rudes. Ó amados irmãos! Nunca nos queixamos do tempo; amamo-lo conforme vem, nunca corremos atrás dele, nunca pensamos em ajuntá-lo nem em parti-lo. Nunca o tempo nos falta, nunca nos enfastia. Adiante-se aquele dentre nós que não tem tempo! Cada um de nós tem tempo em quantidade e nos contentamos com ele. Não precisamos de mais tempo do que temos e, no entanto, temos tempo que chega. Sabemos que no devido tempo havemos de chegar ao nosso fim e que o Grande Espírito nos chamará quando for sua vontade, mesmo que não saibamos quantas luas nossas passaram. Devemos livrar o pobre Papalagui, tão confuso, da sua loucura! Devemos devolver-lhe o verdadeiro sentido do tempo que perdeu. Vamos despedaçar a sua pequena máquina de contar o tempo e lhe ensinar que, do nascer ao pôr do sol, o homem tem muito mais tempo do que é capaz de usar. Trechos extraídos da obra O papalagui (Marco Zero, 1985), reunião dos discursos de um chefe aborígene samoano Tuiavii de Tiavea, escrito por Erich Scheurmann (1878-1957), descrevendo a visão do chege sobre o europeu antes da Primeira Guerra Mundial, sendo o termo samoano Papalagui alusivo ao homem branco, o europeu, aquele que furou o céu.

O PÃO NOSSO - [...] O Brasil tem uma indústria com duas caras – e a mesma moeda. Moderna na tecnologia, atrasada nas relações de trabalho. Sua classe média espreme-se entre a ideologia do senhor e as agruras dos pobres. Teme o destino de um e respeita o poder do outro. A industrialização brasileira não encurtou o abismo entre pobres e ricos. Os senhores viraram empresários, mas continuaram a viver em novas versões da casa-grande. Os escravos viraram trabalhadores, mas continuaram morando na senzala, em dormitórios feitos para isolar o pobre depois do serviço. [...]. Trecho escrito pelo sociólogo e ativista dos direitos humanos, Herbert de Souza – Betinho (1935-1997). Veja mais aqui e aqui.

DE SAGA EM SAGA – [...] Sobreveio um tumulto na cabeça de Helga. Franzindo os sobrolhos, era evidente que se esforçava para lembrar-se de alguma coisa. Como era mesmo? Mas claro, lembrava-se muito daquele canivete, ela lho havia pedido emprestado para cortar uns gravetos na véspera de sua partida. Quebrara-o ao servir-se dele, mas não tivera oportunidade de comunicar-lhe o fato. Naquela ocasião ele a evitara e não desejara entabular conversa com ela. Por certo devia ter guardado o canivete no bolso sem notar que estava quebrado. Ergueu a cabeça e quis contar-lhe tudo isso, mas como ele já chegara ao relato de sua visita a Elvokra, no meio dos preparativos do casamento, preferiu deixá-lo acabar acabar. Informada de que maneira se separara ele de Hildur, achou que aquilo era uma desgraça tão terrível que se pôs a cobri-lo de censuras. Trechos extraídos da obra De saga em saga (Delta, 1962), da escritora sueca Prêmio Nobel de 1909, Selma Lagerlöf (1858-1940). Veja mais aqui.

LÁGRIMAS, INÚTEIS LÁGRIMAS - Lágrimas, inúteis lágrimas, não sei quala origem / dessas lágrimas que vêm do âmago de algum desespero divino: / brotando do coração, nos olhos vão se encontrar / para contemplar os alegres campos outonais / e recordar os dias que não voltam mais. / Frescas como o primeiro raio de sol que reflete sobre o batel / portador dos nossos amigos da Terra; / tristes como aquele derradeiro raio solar que incendeia o barco / que submerge com os nossos entes amados / tão tristes e tão frescos os dias que não voltam mais. / Ah, triste e estrano, como nas densas alvoradas estivais, / é o primeiro gorjeio dos pássaros meio despertos / aos ouvidos surdos, quando aos olhos moribundos / a vidraça vai, aos poucos, se transformando num quadro que entremostra / tão tristonhos, tão estranhos os dias que não voltam mais. / Adorados, como os beijos relembrados depois da morte, / e doces como os que fantasiou uma esperança vã / nos lábios de outrem; profundos como o amor, / penetrantes como o primeiro amor, e cubiçosos embora, com a perda, / ó morte na Vida, os dias que não voltam mais. Poema do poeta britânico Alfred Tennyson (1809-1892). Veja mais aqui.

A HISTÓRIA, O TEATRO & IONESCO
[...] A história não é a verdade. É, sobretudo, um conjunto de erros. Toda afirmação histórica é em parte verdade, em parte um grande abuso, um grande exagero, um excesso. É para além do exagero que necessitamos encontrar a verdade da afirmação. [...]
Trecho da entrevista Revelações sobre os rinocerontes, do patafísico e dramaturgo romeno, Eugène Ionesco (1909-1994). Veja mais aqui, aqui e aqui.


Congresso Internacional do Livro, Leitura e Literatura do Sertão (CLISERTÃO) & muito mais na Agenda aqui.
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Estudante sou, eterno aprendiz na vida, a literatura de José Saramago, a música de Edgar Duvivier, a fotografia de Jean Louis Marie Eugène Durieu, a arte de Maurits Cornelis Escher & Dorys Teles aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
Veja mais aqui.

terça-feira, outubro 04, 2016

AUTRAN DOURADO, SIMONDON, PATTI SMITH, BOAVENTURA SOUSA, NIETZSCHE, LEANDRO KONDER, HORIKAWA, VALLAURI, NOYER, BOSSERT, HUDINILSON & POMBAS URBANAS

INEDITORIAL: DEPOIS DA TEMPESTADE NEM SEMPRE UMA BONANÇA - Salve, salve, gentamiga! A vida prossegue depois de todos os momentos que sejam de sucesso ou de penúria, de surpresa ou de desgraça! Zé Bilola que o diga: hoje num semáforo, sem saber o que fazer da vida depois de conhecer o céu e o inferno de um dia pro outro. Maior vexame. Tomara que tenha aprendido. O que não aconteceu com Zé Peiúdo que meteu o pé na bunda antes da horagá: escapuliu num pinote sem paradeiros pra se livrar das garras da polícia. Já o Doro, esse não. Esse está com a campanha de vento em popa, mesmo errando o alvo e o pleito eleitoral, vai esperar mais uns anos para conseguir registrar sua candidatura a presidente do não sei o quê. Sei que vai, não se sabe pra onde. Vamos, então, pras novidades: na edição a ciência pós-moderna de Boaventura de Sousa Santos, os objetos técnicos de Gilbert Simondon, a totalidade de Leandro Konder, a poética do romance de Autran Dourado, a dança inovadora de Hisako Horikawa, a música de Patti Smith, a arte de Mônica Nador, os grafites de Alex Vallauri, a fotografia de Alfred Noyer, o teatro de rua dos Pombas Urbanas, a Gaia Ciência de Nietzsche, o cinema de Julio Bressane, a arte multimídia de Hudinilson, a pintura de Nancy Bossert & a croniqueta Pra vida ofereço a outra face. No mais, vamos aprumar a conversa & tataritaritatá! Veja mais aqui.

Veja mais sobre
Lição pra ser feliz, Fernando Pessoa, Rajneesh, Graciliano Ramos, Aristófanes. Adriana Calcanhoto, Buster Keaton, Mikalojus Konstantinas, Victor Gabriel Gilbert & Literatura Infantil aqui.

E mais:
O sonho de Desidério & Emmy Rossum aqui.
Literatura de Cordel, A mulher escandinava, Ettore Scola, Francisco Julião, Jarbas Capusso Filho, Sophia Loren, Linguística, Shaktisangama-Tantra, Fetichismo & Abacaxi aqui.
Albert Camus, Robert Musil, Maceió, Jools Holland, Denys Arcand, Pál Fried, Sandu Liberman, Eugene Kennedy, Anna Luisa Traiano, Lady Gaga, Gestão do conhecimento & Capital humano aqui.
Durkheim, Rodolfo Ledel, Claudio Baltar, Micahel Haneke, Samburá, Juliette Binoche, Ernesto Bertani, O artista e a fera, Janaína Amado, Intrépida Trupe, Direito & Mauro Cappelletti aqui.
Big Shit Bôbras aqui.

DESTAQUE: CIÊNCIA PÓS-MODERNA
 
[...] A ciência pós-moderna, ao sensocomunizar-se, não despreza o conhecimento que produz tecnologia, mas entende que, tal como o conhecimento se deve traduzir em autoconhecimento, o desenvolvimento tecnológico deve traduzir-se em sabedoria de vida. Esta  que assinala os marcos da prudência à nossa aventura científica. A prudência é a insegurança assumida e controlada. [...] Na fase de transição e de revolução científica, esta insegurança resulta ainda do fato de a nossa reflexão epistemológica ser muito mais avançada e sofisticada que a nossa prática científica. Nenhum de nós  pode neste momento visualizar projetos concretos  de investigação que correspondam inteiramente ao paradigma emergente que aqui delineei. E isso é  assim precisamente por estarmos numa fase de transição. Duvidamos suficientemente do passado para imaginarmos o futuro, mas vivemos demasiadamente o presente para podermos realizar nele o futuro. Estamos divididos, fragmentados. Sabemo-nos a caminho mas não exatamente onde estamos na jornada. A condição epistemológica da ciência repercute-se na condição existencial dos cientistas. Afinal, se todo o conhecimento é autoconhecimento, também todo o desconhecimento é autodesconhecimento.
Trechos extraídos de Um discurso sobre as ciências na transição para uma ciência pós-moderna, do jurista e professor Boaventura de Sousa Santos, autor da obra Introdução a uma Ciência Pós-Moderna (Graal, 2000), na qual ele faz uma crítica e reflexões com propostas que visam compreender a prática científica para além da consciência ingênua, ou oficial, dos cientistas e das instituições da ciência, e aprofunda o diálogo dessa prática com as demais práticas de conhecimento de que se tecem a sociedade e o mundo, submetendo as correntes dominantes da reflexão epistemológica sobre a ciência moderna a uma crítica sistemática, recorrendo à dupla abordagem - suspeição e recuperação. Veja mais aqui e aqui.

PRA VIDA OFEREÇO A OUTRA FACE - Pra quem colheu na rua as topadas da encruzilhada e foi embalado por trocentos desejos adiados prestes a cruzar a próxima esquina, todo paradeiro é distante pelas léguas do sem fim. Valho-me da coragem e resiliência. Aí entôo Nunca chore por mim. Andejo eu voo entre entusiasmos e decepções – é seguir cada qual a sina de agora, desatino da ilusão lutando contra as tentações do desespero diante da injustiça que inflige o sangue nas veias, para atravessar astuto os suplícios na sanção dos desígnios. Pelas ruas ganhei a pose e o disfarce, o abraço e o perigo da delação. Caminheiro eu vou, catando medicante afeto de mão amiga de bom ou mau grado, quem sabe, pouco importa, sei que vou como se definhasse no sonho de alcançar o melhor dos mundos – quanto mais sinto que dele me aproximo, mais longe o trajeto na estrada afora. Solitário eu prossigo com a acuidade do triz contando entre as vítimas sobreviventes do abandono às injúrias, difamações, insultos, mesquinharias, pretextos, avarezas, remorsos, estupidez, repugnância, frustrações, tormentos e menosprezo por todas as suposições e lamúrias que abundam sobre o meu cadáver, pouco importa se vivo ou se sou destroço jogado fora do lance, sobra o amor-próprio se é que ainda resta quase à míngua na redoma da solidão. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.

UMA MÚSICA: 
Curtindo o álbum Baga (Columbia, 2012), da cantora, compositora, poeta e artista visual estadunidense Patti Smith.


Imagem1: a arte da pintora, desenhista e gravadora Mônica Nador.

O MODO DE EXISTÊNCIA DOS OBJETOS TÉCNICOS - Este estudo é animado pela intenção de suscitar uma tomada de consciência do sentido dos objetos técnicos. A cultura se constitui em sistema de defesa contra as técnicas [...] A agressividade orientada contra as máquinas não é tanto a raiva do novo quanto a recusa da realidade estrangeira [...] a mais forte causa de alienação no mundo contemporâneo reside nesse desconhecimento da máquina, que não é uma alienação causada pela máquina, mais pelo não conhecimento de sua natureza e de sua essência, pela sua essência do mundo das significações, e pela sua omissão na tabela de valores e dos conceitos que fazem parte da cultura. [...]. Trecho extraído da obra EI modo de existencia de los objetos técnicos (Prometeo, 2007), do filosofo e tecnologo francês Gilbert Simondon (1924-1989), tratando sobre a gênese e evolução dos objetos técnicos, as condições da evolução técnica, o ritmo progressivo técnico, o aperfeiçoamento contínuo e descontínuo, as origens absolutas de uma linguagem técnica, a hipertelia e autocondicionamento, a individuação técnica, encadeamentos evolutivos e conservação da tecnicidade, a lei do relaxamento, o homem e o objeto técnico, os modos fundamentais da relação do homem com o dado técnico, maioridade e minoridade social das técnicas, significação do enciclopedismo, função reguladora na cultura na relação entre o homem e o mundo dos objetos técnicos, a essência da tecnicidade, o pensamento técnico e o pensamento filosófico, entre outros assuntos. Veja mais aqui.


Imagem: os grafites do artista italiano radicado no Brasil Alex Vallauri (1949-1987).

PERNSAMENTO DO DIA: A TOTALIDADE - [...] A síntese da visão de conjunto que permite ao homem descobrir a estrutura significativa da realidade com que se defronta em uma situação dada. E é a estrutura significativa – que a visão de conjunto proporciona – que é chamada de totalidade. Trecho extraído da obra O que é dialética (Brasiliense, 1983), do filósofo Leandro Konder (1936-2014).

Imagem: Sleeping woman on a divan (1910), do fotógrafo Alfred Noyer.

UMA POÉTICA DO ROMANCE - [...] Tudo isso tem a sua razão de ser, chego mesmo a reconhecer que venha a ter importância para a sociologia – certas horas também duvido – e mesmo o socialismo (mesmo para a revolução proletária), para a psicologia e psicanálise (mesmo para a cura dos doentes... É altamente nobre, meritório e, como antigamente se dizia, cristão, mas pouca coisa tem a ver com o romance, com a narrativa e as suas estruturas, com o personagem e a vida do romance [...] Às vezes o leitor, quando o sinal é bastante caracteristico e forte, é capaz de “ver” perfeitamente o personagem, saber até como é o seu rosto, coisa que não acontece com o romancista, que quase sempre não sabe como é a cara da sua criatura. Repito: não se deve confundir essa “inocência” e pessoalidade com inconsciência, confusão, descontrole do material, despreparo artesanal, artesanato por natureza lúcido. Já casos em que não é nem um sinal físico do personagem, mas um jogo verbal do escritor [...]. Trechos extraídos da obra Uma poética do romance (Perspectiva, 1973), do escritor, advogado e jornalista Autran Dourado (1926-2012). Veja mais aqui, aqui e aqui.


Imagem: a arte inovadora da coreografa japonesa Hisako Horikawa, explorando o potencial da voz e do corpo.


 
POMBRAS URBANAS - O grupo Pombas Urbanas teve início em 1989, no projeto Semear Asas, concebido pelo artista, dramaturgo, ator e diretor peruano Lino Rojas (1942-2005), com o objetivo era de formar jovens de São Miguel Paulista, enquanto atores-orgânicos; aquele que não dissocia a arte da vida: produz, administra e alimenta sua própria arte. Com a sua orientação o grupo desenvolveu pesquisa sobre a formação do ator, linguagem e dramaturgia. E, em 20 anos de grupo, criou e montou um repertório de 12 espetáculos com diferentes linguagens: teatro de rua, palco italiano, público infantil, jovem e adulto. Entre os espetáculo que tive oportunidade de prestigiar, foi o Largo da Matriz (2004), texto e direção de Lino Rojas, que é um cortejo de Folia do Divino, tendo á frente um índio que carrega a imagem de um preto velho e um Jesus crucificado, com uma ação que se passa numa cidade imaginaria que será disputada pelo anjo e pelo diabo. Os integrantes do grupo são Adriano Mauriz, Juliana Flory Motta, Marcelo Palmares, Marcos Kaju, Natali Santos, Paulo Carvalho & Ricardo Big. Veja mais aqui.


DIAS DE NIETZSCHE EM TURIM – O drama biográfico Dias de Nietzsche em Turim (2001), dirigido por Júlio Bressane, é uma recriação do período entre abril de 1888 e janeiro de 1889, em que o filósofo viveu na cidade italiana, na qual escreveu alguns de seus textos mais conhecidos Ecce Homo, Crepúsculo dos Ídolos e Ditirambos de Dionisos, entregando-se totalmente às suas próprias idéias, envolvendo-se com a arte, ciência e sua própria vida. Destaque para as Leandra Leal & Mariana Ximenes, como também pro ator Fernando Eiras. Veja mais aqui.

 
Imagem: a arte do artista multimídia Hudinilson Urbano Junior (1957-2013).

AGENDA: III COLOQUIO SOBRE INCLUSÃO – Acontecerá entre os dias 13 e 14 de outubro, na cidade de Feira de Santa – BA, o III Colóquio sobre inclusão: desafios para superação de barreira de acessibilidade, propondo aprofundar discussões sobre inclusão social da pessoa com deficiência, envolvendo a comunidade da UFRB e a sociedade em geral. A atividade está sendo desenvolvida por docentes, discentes e técnicos do Centro de Ciência e Tecnologia em Energia e Sustentabilidade da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia - CETENS/UFRB que compõem o Núcleo de Estudos, Pesquisas e Extensão em Tecnologia Assistiva e Acessibilidade – NETAA. Para uma inclusão social eficaz, considera-se crucial que as barreiras de acessibilidade existentes no ambiente sejam atenuadas ou eliminadas, sejam elas urbanísticas e arquitetônicas, no transporte, na comunicação e na informação, metodológicas ou programáticas, tecnológicas ou atitudinais. Assim, o III Colóquio sobre Inclusão está organizado a partir de mesas dialógicas, agregando-se à programação atividades culturais e apresentação de trabalhos acadêmicos no formato de pôster, esperando-se como resultado estimular estudos e práticas assertivas sobre inclusão da pessoa com deficiência na sociedade. Veja mais aqui e aqui.

A GAIA CIÊNCIA
E se um dia ou uma noite um demônio se esgueirasse em tua mais solitária solidão e te dissesse: “Esta vida, assim como tu a vives agora e como a viveste, terás de vivê-la ainda uma vez e ainda inúmeras vezes; e não haverá nela nada de novo, cada dor e cada prazer e cada pensamento e suspiro e tudo o que há de indizivelmente pequeno e de grande em tua vida há de te retornar, e tudo na mesma ordem e sequencia – e do mesmo modo esta aranha e este lugar entre as árvores, e do mesmo modo este instante e eu próprio. A eterna ampulheta da existência será sempre virada outra vez – e tu com ela, poeirinha da poeira!” – Não te lçançarias ao chão e rangerias os dentes e amaldiçoarias o demonio que te falasse assim? Ou viveste alguma vez um instante descomunal, em que lhe responderias: “Tu és um deus, e nunca ouvi nada mais divino!” Se esse pensamento adquirisse poder sobre ti, assim como tu és, ele te transformaria e talvez te triturasse; a pergunta, diante de tudo e de cada coisa: “Quero isto ainda uma vez e ainda inúmeras vezes?” pesaria como o mais pesado dos pesos sobre teu agir! Ou então, como terias de ficar de bem contigo mesmo e com a vida, para não desejar nada mais do que essa última, eterna confirmação e chancela?
O mais pesado dos pesos, trecho extraído do Livro IV, da obra A gaia ciência (Companhia das Letras, 2012), do filósofo alemão Friedrich Nietzsche (1844-1900). Veja mais aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
Imagem: Nude, de Nancy Bossert.
Veja mais aqui, aqui e aqui.

CANTARAU: VAMOS APRUMAR A CONVERSA
Paz na Terra
Recital Musical Tataritaritatá - Fanpage.
Veja  aqui e aqui.


RAQUEL VARELA, OMAIMA AL-KHAMIS, OLIVE SENIOR & SANDRA RIBEIRO

  Imagem: Contornos da ubiquidade , da série Caosmose & O poema nasce do visinvisível - Acervo ArtLAM .   Ressaca aluada de panacei...