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sábado, julho 11, 2026

DRUMMOND, DAD SQUARISI, LENINE & STELLA MARIS REZENDE

 

Imagem: Acervo ArtLAM.


 

Interlúnio do inominado marupiara pé-frio... - Insosso não tinha nome, só sobrenome e duplo: os finados pais, Maria Combreia e Zé Caralâmpio, compuseram, às turras, o batizado: Caralâmpio Combreia; vingou-lhe o apelido desenxabido, colecionando remoques, outro Zé à toa. Isso há muito tempo, até tinha perdido as feições avoengas, desconhecia até então qualquer parentesco. Era amanhecido vistoso quando aventou, na curva da ideia, névoas oníricas, repisando pretéritos; se duvidava, segurou o espirro, escamoteava, acocorado matutando, tanto retardava coisas de sua, nem podia do dever. Cismava sozinho no mundo, ressuscitando olvidadices, o protelado na urgência da hora, irrespondível. Sentia-se viver noutras situações nunca vista, coisas estranhas que nem eram suas, de quem seria, ignorava; só que passava com ele, destá. Providenciou tirar a prova dos 9 fora e acelerou a ida. Foi a pé, mochila ao sovaco pendurada nos redondos ombros, água na moringa, toda pressa no dia arejado de um céu da rotina, pelo capinzal das ervas, a poeira do chão na areia dos pés, as alpercatas nos vestígios de passagens, as folhas e a passarada, sombreada jaboticabeira, as flores na brisa que vinha dos morros limítrofes, as moitas pelas nuvens dos arredores. Saboreava serelepe vasta fruteira farta pelas beiradas da estrada, ah, jaboticabas, chupava, se enchia. Subiu a serra, desceu o morro, esticou as orelhas: o ermo longe ia pelo demais. Deu em Catuama, o portão. Naquela instância as lápides, benzeu-se, cerrou os punhos, quanto tempo, nenhuma data, jaziam no sacrilégio do seu quase esquecimento. Deteve-se com gastura, tossiu seco, prosternado no primeiro batente, serôdio, soçobrava. Puxou do bisaco um par de velas, acendeu-as e o tempo amoitou nas escurezas de Deus, instantaneamente. Cegou paradeiro e um redemoinho medonho, danou-se! Aos giros, perdia-se, de cabeça pra baixo; de tanto rodar, foi jogado, estendido. Onde estou? Diante da Pedra Letrada: Já estive aqui? Parece. Deu fé de recorrentes anemoias: Será que só sou eu que tenho esses pantins, ou essa paranoia é geral? Cada qual sua loucura. Era seu paradoxo do ônibus: Vou ou não vou, lascou. Viu-se aos trocentos pedaços, desassossegado. Coçava a palma da mão: Sarna da moléstia, essa; será que estou com mau-olhado? Subitamente a coisa mudou de figura: o céu atroou, trovões ribombaram aos raios e o diabo pintou assombração. Estarrecido, comediu-se. O chio das coisas. Era o tempestuoso Bicho do Vau: Leia! Lufadas de tornado iminente. E agora? Leia, vá! A ameaça, o alerta. O prenúncio de um ciclone, já quase tragado e alguém o puxou pela beca. Volteava desgovernado, derreou. Pisou o chão ignorado, apaziguou-se e, ao levantar a vista, outro susto, de escorregar desajeitado em fuga afora. Peraí. De novo? Torou aço, um frio na coluna, arrepiou-se: Ave! Era gente ou bicho mesmo? Sou teriana! E fala? Vamos, aqui não é seguro. Hem? Vem logo! Foram rasgando matadentro: ela ágil rojava aos voos pelos galhos e troncos, ele amedrontado seguindo-a, aos pinotes, pés na bunda. Deram numa clareira e ela atrepada, na copa dum eucalipto gigante, gesticulava, como sinais de avisos aos apitos e guturais. Obrigou-o a esconder-se. Refugiou-se no medo e esperou arfante. Logo apareceram muitos outros seres esquisitos: Que é que é isso? Ela desceu ladina: Venha, são aliados. Aí foi tomando pé do que pra ele era maior bizarrice, uma tropa interminável de furries, kingêneros, queers, cosplays, goblincores e otherkins - fadas, goblins, elfos e duendes, mesmo? -, licantropos, vampiros, nefilins, nunca tinha visto do tanto, ora. Mais tulpamancistas, zentais, otakus, kawaiis, clowncores divertidos, pastafarianos da Igreja do Monstro do Espaguete Voador, haul girls, biohackers – Eita! Gente com antena na cabeça, smartwatches, pitocos nos dedos -, vaporwaves, neo-tribalistas, plankings, Barbies e GothLolis, tecktoniks, sílfides, ironistas – Ué, passadores radicais de roupa? -, esportistas de quadribol, skinheads, hardcore punks, metaleiros, grunges, emos, bod-mods – Vôte! Tem até com implantes de chifres, língua bífida, tatuagens e piercings! -, sneakerheads, caçadores de fantasmas, dândis, fetichistas, colecionistas estranhos – do tipo colecionador de escova de dentes usada, avalie -, sugestionados, adeptos da pneuteologia, sobreviventes afetivos, retrôs – preservacionistas do passado, pode? -, imperadores das cócegas, mergulhadores de lixeira, fashionistas, Toy Voyagers, fantasistas disfuncionais, delirantes, disforistas, paleoterios, fictórios, teriomíticos... Deu o créu! Havia quem incorporasse o Kholstomér do Tolstói, ou o urso-polar da Tawada, o polvo da Despret, a sardinha do Bill François, maior piração! Seria coisa de outro mundo que estava metido ou falseamentos, tudo perdido, modelos com figurinos excêntricos, cada qual mergulhados na sua sandice, ora! Boba da peste! Plantassem batatas, penteassem macacos, lambessem sabões nos seus folguedos exóticos, dislates, tinha de tudo! Eita, pêga! Logo um boi solene mugia Guimarães Rosa: O homem é um bicho esmochado, que não devia haver. Depois recitava o de Drummond quando se deparava com humanos. E lá estavam Quidim & marquês Rabicó, quem Orlando de Woolf, o furacão da Hilda, as diminutas criaturas de Lilipute de Swift, quem falasse do Magnum Opus nos portais de Tlön, do Mutus Liber, do poema celta do Graal, de Atlântida, até personagens de Arantza Sestayo. Quem? Que carnaval é esse? Agora sabia: bicho gente é um bocado de doidices arrodeado de perigo por todos os lados. Céus, em que fui me meter? À caça, aos gritos, muitos correram, alguns pouquíssimos ficaram. Tremia: Pronde foram? Caçar, já já voltam pra comilança, fica aí. Ela tinha ido com os outros, hem hem. Sozinho cismou: Com certeza era mais fácil entender a razão áurea ou a sequência de Fibonacci, do que sacar maluquice dessa. Não dava pra entender essa gente. Com o tempo foi se acostumando, quase pariceiros íntimos. Ela retornou da caça com os que foram e sorria na chegada. Aí ele virou-se do lado, ao mais próximo, puxou conversa para enturmar-se: Como é mesmo o nome dela? Sei-que-lá-de-tal! Fodeu! Ouvindo a conversa, ela soletrou: Meu nome é N-o-no-r-i-ri-e-l-a-la, Noriela Hentai, euzinha aqui, muito prazer, de novo! E o seu? Ih!... Ela riu-se do insípido, contida. É mesmo? Alcunha. E como se chama de mesmo? Uh!... Gracejou irônica: Também, com um nome desse, melhor o pseudônimo! Quem fala, ó, e o seu, hem? Acomodou-se relaxado ao lado dela e matutou consigo: Ela é coisa de bicho da muita estimação, maior xerimbabado, cheia das amorosidades. Mesmo insólita, a alma dela conjugava certinho com a sua, airosa no seu jeito peculiar, toda sacudida, dócil, os dentes de fora, recheada de franqueza e amabilidades. Diante dela todo inédito ímpeto, precipitava-se, saltava aos olhos, timidez dele apreciou, aliás e talvez, conjugou o verbo direitinho, zelava por ela, tomava conta, ela destinatária, ele insulso encurralado respeitoso, premente. Era o que podia fazer ali. Embevecia-se aos palmos dela, o traje, o quiasma: zilhões de anos-luz do seu sorriso, ô garapa boa! Cabeça sempre ocupada com chamegos de xodó, pouco importando se de segunda mão. Pronde vocês estão indo? Pra Pasárgada. Fazer o quê lá? Somos amigos do rei! Como assim? Ciclones devastadores se anunciam prenunciando um gigantesco tufão! O quê? Vem com a gente! Quando? Depois do repasto a gente vai zarpar, no certo, o mundo está ficando inabitável! O quê? Ora, você não sabe? Não. Vamos encher a pança logo, depois explicarei. Para quem desdenhava agouros, abolia crendices e conspirações extravagantes, estar ali no meio de tão tribais tão diversos, dava-lhe a impressão de já ter vivido ou sonhado com aquilo. Será? Além do mais: o que Deus num quis, não se deve dar ao diabo, né! Se revivia ou ressonhava, não sabia se por serendipidade entusiasmada ou desdita amaldiçoadora, só saberia no depois qual. A bem dizer, decerto, suspeitou do havido, encardiu-se, às pausas, comprava fiado o futuro. Um lampejo e decidiu-se: Vou virar bicho! Seria mais uma vazada das quantas jornadas, vezes quisesse até nenhum enfim. Já era tarde, oxe, ela partiu com muitos. Ih! Foi? Foi. Apartou-se, a ideia nascia do absurdo fortuitamente encadeada com movimento do impalpável e da ausência dela ali compondo silêncios ensurdecedores. Hem, hem. Néscio, afeiçoou-se dela à socapa e uma saudade arroxeava já dentro dele: Seria ingrata ao tanto da desconsideração, em paga devagar, sem socorro à vista, como se o dia de anteontem não passasse desde ontem até agora, o quanto pudesse suportar de se doer, mais condoía! Não era mais Pernambuco dali por diante, outro lugar que não sabia, era capaz de ser doutra banda desconhecida, uma confusão dentro de si. E ela já tinha ido, ficava só com os outros desapegados, afora o repuxo tristonho da ausência dela. E se ali o verão era longo, o inverno seria pior, precavia-se. Como proceder: este mundo dá medo, as leviandades, o verossímil, o abandono, as sobras, aos desperdícios, ninguém está a salvo, tudo do contra, a dor das coisas retine seu ricocheteado na gente mesmo. Aí desancou-se de todo, por enquanto, episódio custoso aquele, meios vãos, só faltava sair puxando a venta alheia a cada motejo pela feiúra. Cadê-la! Abscônditas evocações suas. Ela escapuliu furtiva, foi-se o que era doce. Devia a vida a ela, fujona, creditava. Roía-se por dentro, macambúzio, o que havia avinagrado em demasia sua existência tão pantagruelicamente. Ainda não seria daquela vez, que pena. Pesaroso: Era provável que as desventuras fosse só um brinquedo da sorte, era a vida e suas consequências. Reconhecia a exatidão da tristeza: Mas por quê? O futuro trazia respostas aos pouquinhos, o que haveria de vir? Por derradeiro a áspera, bis e tris, quantos mais à infinitude, dava baixa, até que a morte astuta viesse à tona das perpetuidades. Ficava o escrito pelo não dito: perdia o coração no mal resolvido. Não havia prazo pras descobertas, bastava o momento entroutros e pronto, se desvelando aos pouquinhos, o esmiuçado, só nas tristecências, o comum. Revivescente marupiara, quem dera. Ouviu longe: Vai ficar aí quarando com a morte da bezerra, ou vem com a gente! Hem? Até mais ver.

 

Vladimir Maiakóvski: Antigamente, eu acreditava que os livros eram feitos assim: um poeta chegava, entreabria os lábios e o tolo inspirado irrompia em canto — vejam só! Mas parece que, antes de poderem lançar uma canção, os poetas precisam caminhar por dias com os pés calejados, enquanto o peixe lento da imaginação se debate suavemente na lama do coração. E, enquanto eles cozinham um caldo de amores e rouxinóis ao som de rimas que chilreiam, a rua muda apenas se contorce, na falta de algo para gritar ou dizer... Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.

Espido Freire: E sempre fora assim. Ninguém dava muita atenção... Na verdade, ninguém ouvia ninguém... Escrevemos e lemos para fugir, para viajar além dos nossos meios... Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.

Denise Stoklos: Não dá pra fazer nada pela metade ou por três quartos ou um tanto ou se proteger de entregar. A entrega tem que ser cem por cento, que grau estiver você dos seu cem por cento. Ela tem que ser os cem por cento que você tenha... Veja mais aqui, aqui & aqui.

 

UM BOI VÊ OS HOMENS

Imagem: Acervo ArtLAM.

Tão delicados (mais que um arbusto) e correm \ e correm de um para outro lado, sempre esquecidos \ de alguma coisa. Certamente, falta-lhes \ não sei que atributo essencial, posto se apresentem nobres \ e graves, por vezes. Ah, espantosamente graves, \ até sinistros. Coitados, dir-se-ia não escutam \ nem o canto do ar nem os segredos do feno, \ como também parecem não enxergar o que é visível \ e comum a cada um de nós, no espaço. E ficam tristes \ e no rasto da tristeza chegam à crueldade. \ Toda a expressão deles mora nos olhos — e perde-se \ a um simples baixar de cílios, a uma sombra. \ Nada nos pelos, nos extremos de inconcebível fragilidade, \ e como neles há pouca montanha, \ e que secura e que reentrâncias e que \ impossibilidade de se organizarem em formas calmas, \ permanentes e necessárias. Têm, talvez, \ certa graça melancólica (um minuto) e com isto se fazem \ perdoar a agitação incômoda e o translúcido \ vazio interior que os torna tão pobres e carecidos \ de emitir sons absurdos e agônicos: desejo, amor, ciúme \ (que sabemos nós?), sons que se despedaçam e tombam no campo \ como pedras aflitas e queimam a erva e a água, \ e difícil, depois disto, é ruminarmos nossa verdade.

Poema do escritor Carlos Drummond de Andrade (1902-1987), considerado o mais influente poeta brasileiro do século 20. Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.

 

A FILHA INJUSTIÇADA, DE STELLA MARIS REZENDE

Me inspirei na história verídica de uma mocinha de 15 anos, de Dores do Indaiá, que foi internada à força no Hospital Colônia de Barbacena. Motivo: Não concordava em trabalhar escondida dos fregueses do armazém do pai machista, violento e cruel. Maria da Soledade era obrigada a trabalhar no galpão, cuidando do estoque, carregando peso, sem receber nada, enquanto os três irmãos trabalhavam na loja em frente à rua, e recebiam salário. Ela queria ser respeitada, só isso.

Depoimento da autora sobre o seu recentemente lançado e elogiado romance A filha injustiçada (Faria e Silva, 2026), da premiada escritora e atriz Stella Maris Rezende, mestre em Literatura Brasileira pela UnB, que participa de feiras literárias e ministra a oficina Letras Mágicas. Ela é detentora de 4 prêmios Jabuti, afora outras tantas premiações de sua exitosa carreira. Ela concedeu uma entrevista exclusiva pra gente, falando de sua trajetória, seus livros publicados e estudados no meio acadêmico, da Fada da Palavra, da Oficina Letras Mágicas e de suas perspectivas literárias. Confira a entrevista aqui.

 

ESCREVER É MANDAR RECADO - Redigir é técnica. Pode ser aperfeiçoada. Nem sempre a atração reside no que você diz. Mas no jeito de dizer. Uma frase particularmente elegante, capaz de veicular com clareza e simplicidade a mensagem que você quer transmitir, é conquista pessoal, exercício diário de desapego e humildade. [...] Os segredos do estilo mais eficiente podem ser resumidos em dez preceitos. UM - Seja natural: fique à vontade. Imagine que o leitor esteja à sua frente. Converse com ele. Não fale difícil. Espaceje suas frases com pausas. Confira ao texto um toque humano. Você está escrevendo para pessoas. DOIS - Vá direto ao assunto: não enrole. Comece pelo mais importante. E comece bem, com uma frase atraente, que lhe desperte o interesse e o estimule a prosseguir a leitura. No final, dê-lhe o prêmio – um fecho de ouro, como inesquecível sobremesa a coroar um lauto almoço. TRÊS - Use frases curtas: a pessoa só consegue dominar determinado número de palavras antes que os olhos peçam uma pausa. A frase muito longa dá trabalho, confunde. Por isso, use sentenças de, no máximo, uma linha e meia. Lembre-se: uma frase longa nada mais é do que duas curtas. QUATRO - Prefira palavras breves e simples: vocábulos longos e pomposos funcionam como cortina de fumaça entre você e o leitor. Seja simples. Entre duas palavras, prefira a mais curta. Entre duas curtas, a mais simples. Em vez de falecer, escreva morrer; em lugar de somente, só; de matrimônio, casamento; de féretro, caixão; de morosidade, lentidão. CINCO - Ponha as sentenças na forma positiva: diga o que é, não o que não é. Quer exemplos? “Não ser honesto” é “ser desonesto”; “não lembrar” é “esquecer”; “não dar atenção” é  “ignorar”; “não comparecer” é “faltar”; “não pagar em dia” é “atrasar o pagamento”. SEIS - Opte pela voz ativa: ela é mais direta, vigorosa e concisa que a passiva (a passiva, como o nome diz, parece sem força, desmaiada). Prefira “um raio provocou o blecaute” a “o blecaute foi provocado por um raio” SETE - Abuse de substantivos e verbos: escreva com a convicção de que no idioma só existem essas duas classes de palavras. As demais, sobretudo adjetivos e advérbios, devem ser usadas com a sovinice do Tio Patinhas. Na dúvida, deixe-os pra lá: (Normalmente) ao escrever textos (informativos), use substantivos (fortes) e verbos (expressivos). OITO - Seja conciso: não diga nem mais nem menos do que você precisa dizer. Cultivar a economia verbal sem prejuízo da completa e eficaz expressão do pensamento tem dupla vantagem. Uma: respeita a paciência do leitor. Outra: poupa tempo e espaço. NOVE - Dê clareza às citações: dificultar a compreensão do texto é colocar uma pedra no caminho do leitor. Para quê? Facilite-lhe a vida. Nas declarações longas, não o deixe ansioso. Identifique o autor imediatamente antes da citação ou depois da primeira frase. [...] Nas declarações curtas, identifique o autor no começo ou no fim da fala: “Toda questão tem dois lados”, escreveu Pitágoras. DEZ - Escolha termos específicos [...]. Trechos do artigo Dez ideias úteis para usar a palavra escrita com clareza e eficiência (FilosofiaEsotérica, 2026), da escritora e professora libanesa Dad Squarisi (Dad Abi Chahine Squarisi – 1946-2923), autora do livro Dicas da Dad: português com humor (Contexto, 2003), Mais dicas da Dad: português com humor(Contexto, 2003), Deuses e heróis - mitologia para crianças (LGE, 2004), Manual de redação e estilo para mídias convergentes (Geração, 2011), Sete pecados da língua (Contexto, 2017), entre outros.

 

A ARTE DE LENINE

(Imagem: Alexandre Loureiro/Getty Images)

[...] Não tenho a mínima ideia nem ouso descrever quem é o ser humano contemporâneo. Agora, diante da contemporaneidade em que estou inserido, existe uma constatação para mim que é clara, cristalina: é uma desconstrução da realidade. Isso me causa espanto, porque, não por acaso, a primeira música do disco "Eita" vai nesse tema, da confiança. Nós perdemos a confiança. E isso é um problema, eu acho. Na minha formação, fui educado a confiar na pessoa. Se não conheço alguém, eu confio nela, até que me provem o contrário. Hoje é completamente o oposto. Hoje a gente vive numa época de dissimulação. As pessoas não têm o mínimo escrúpulo, não têm a mínima educação. Falam uma coisa, pregam essa coisa, mas agem de forma oposta, completamente oposta. É muito dissimulado, é muito mentiroso o que a gente está vivendo hoje em dia. É como se a gente tivesse voltado a uma certa Idade Média, desacreditar das coisas que a gente já tinha conquistado. Não sei quem é esse ser humano contemporâneo. Torço para que ele tenha uma tomada de consciência e volte a escolher um caminho do bem comum. [...].

Trecho da entrevista Eita! Uma conversa com Lenine sobre o espanto, o tempo e o futuro (Fast Company Brasil, 2026), concedida pelo premiadíssimo cantor, compositor, arranjador, multi-instrumentista, letrista, ator, escritor, produtor musical, engenheiro químico e ecologista, Lenine (Oswaldo Lenine Macedo Pimentel), autor de mais de 500 canções, 9 álbuns de estúdios e 4 álbuns ao vivo e em vídeo. Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.


 

MÚSICA: CRIANÇA - O Brincarte do Nitolino conta e canta hestórias para o público infantil e infanto-juvenil, ofertando, ainda, conteúdos de Literatura, Psicologia, Educação, Direito, Teatro, Música, contação de histórias, brincadeiras, artes dos estudantes e uma agenda de recreações, oficinas e palestras para a área. Confira a música & letra Criança & muito mais aqui.

 


TEATRO: HISTÓRIA & AUTORES / DE PALMARES (PERNAMBUCO) PRO MUNDO – No Música, Teatro & Cia um estudo sobre o que é o teatro, abordando a história desta arte milenar, desde os primórdios até a contemporaneidade, destacando autores e peças teatrais, bem como uma abordagem sobre os movimentos no decorrer dos séculos, destacando, sobretudo, a arte no Brasil, em Pernambuco e Palmares, com extensa indicação bibliográfica. Confira clicando aqui.

 


PESQUISA & CIA – No Pesquisa & Cia reflexões de célebres personalidades por meio de suas obras, pensamentos e feitos sobre temas que vão desde das Neurociências, passando por ativismo, injustiça, crise climática, sustentabilidade, violência, ecofeminismo, simbiossexualidade, entre tantos outros, que constituem o debate contemporâneo. Confira aqui.

 


REUNIÃO SETIGONAL – Levado pela provocação dos criadores Admmauro Gommes, José Durán y Durán e Cícero Felipe, cometi alguns setígonos. Gostei. E quando vi uma penca de gente da melhor cepa cultuando e dando pitaco acerca dessa novidade poética, não me fiz rogado e soltei o verbo. Quer saber como é que o setígono? Ora, confira aqui.

  

E veja mais Pernambuco aqui.

 


segunda-feira, julho 14, 2025

SAMANTA SCHWEBLIN, NANCY FRASER, PAULA ESPAÑA & PINTANDO NAS PRAÇAS DE PERNAMBUCO

 

 Imagem: Acervo ArtLAM.

Ao som de Monte A (2006), Without Sinking (Touch, 2009), Leyfðu Ljósinu (Touch, 2012) e Saman (Touch, 2014), da musicista, violoncelista e compositira islandesa Hildur Guðnadóttir (Hildur Ingveldar Guðnadóttir).

 

O que de pai, amigos, vida, a mulher... - Zeladim sempre foi um cara de sorte! Desde a mais tenra idade brincava com fogo aprontando das suas, escapando dos flagras às sonsas escapulidas. Pudera, o pai era um tanto prestigiado, o que lhe valia alguns privilégios dos compadrios às regalias vantajosas. Isso sem contar a proteção dum amigo do peito à toda prova, que o acudia sem pestanejar! Eis que, no mais que de repente, o pai teve um piripaque e, vitimado por um sopapo cardíaco, bateu as botas. E mal caíra a ficha do luto, o inseparável amigo se esborrachou todo numa barruada feia no trânsito. Danou-se tudo agora! Foi então que viu a sua estrela na testa escorregando e amoitando-se noutro lugar pouco recomendável. E agora? Lá ia ele triste, chutando lata, mãos nos bolsos, sem perspectiva. Dava de bico do pé na vida ingrata quando, aos pontapés nas tranqueiras espalhadas pelo chão, um bregueço saiu colorindo no meio duma fumaça azulada que o envolveu todo. Vixe! Arregalou os olhos e se viu diante de um gênio holográfico apressado e pronto pra atender seus 3 pedidos. Hem? Bora, logo! O quê? Vai, pede logo. E nessa lengalenga recusou todos: Quero tudo! Como? Tuuuuudo! O djinn cerrou o cenho, fechou a cara, esbravejou, olhou dos lados, coçou o cocuruto e teve uma ideia: Toma! Entregou-lhe então um estojo empoeirado, parecia coisa do arco da velha. Isso é tudo? Toma, porra! Recuou: Que droga é 9? Pegue! Ah, não! Aí o abantesma explicou: Vai, pega logo: é como se fosse um cachorro portátil. Cachorro? Ué, não é o melhor amigo do homem e, ainda por cima, esse não late, não lambe, não balança o rabo e é a última tecnologia inventada, é só controlar qualquer função, um dispositivo de operação à distância, dê graças ao Nikola Tesla. Oxe, cadê! Ah, tenho mais o que fazer! E num estalo de dedos foi-se deixando-o desesperado. Aí Zeladim segurou as pontas, conteve-se e ficou conferindo direitinho: era um troço imprestável, cheio duns pitocos embutidos. Isso é uma porqueira! Apertou, experimentou, fincou o dedo no negócio e, do nada, apareceu uma tevê gigante! Tudo pelo telecomando! Hummmm... Foi gostando: tinha tudo que quisesse, bastava apertar e escolher. Mesmo? Fez o teste e saiu encarcando o polegar no brebote, metendo o dedo pra cima e as coisas aparecendo e logo se transformavam ao seu redor: comida pra encher a pança, bebida pra molhar o bico, até um foguetáxi pra ir pronde quisesse. Foi gostando: Eita! Num sou Aladim, mas tenho a verdadeira lâmpada maravilhosa! Foi pressionando ali, clicando acolá, viu-se detentor de poderes ilimitados: Vou ser o rei de Magreb. E diante de si todo tipo de cacarecos, bagulhos, bugingangas, trecos, joças, tudo ali ao dispor. Pense num cara espaventoso! Aí viu passar na tela a sua Galateia virtual. É ela! Voltou as imagens, deu pausa, enquadrou, ampliou a imagem da face, depois o corpo inteiro. Hummm... Ah, precisa duma turbinada! E caprichou no engenho: os olhos safados, a cútis de cetim, a boca de grandes lábios, o decote da vizinha – que glamourosos par de seios no decote, meu! -, os quadris da professora – que arte esteatopígica! -, as coxas colossais, o molejo das modelos na passarela. Depois de todo ajeitado, ele chamou na grande: Venha, minha escrava, dá aqui pro papai, vai! Ela saltou fora da tela e ali, diante dele, ao vivo e em cores, fitou com desdém e já ia se virando: Esse seu trono aí é muito frágil pra rainha aqui, viu? Ué, mas fui eu quem inventou você. Hem? Ela com uma olhadela desconfiada já ia saindo, deu-lhe as costas e seguiu, nem aí. Ele não caiu na real e nem deu tempo encará-la direito. Ei! Ei! Eiiiiii! Ela dobrou a esquina e já era. Cadê-la? Solitário resmungava: Logo hoje, merecia meu presente! Moral da história: o melhor do dia do homem é saber que todo dia é dia da mulher. Até mais ver.

 

Octavia Butler: Há um tempo para o silêncio. Um tempo para deixar ir e permitir que as pessoas se lancem em seu próprio destino. E um tempo para se preparar para juntar os cacos quando tudo acabar... Veja mais aqui & aqui.

Espido Freire: Numa época como a atual, em que nossos olhos mal pousam em um tema antes de saltar para outro, mais escandaloso, mais impactante, os livros precisam recuperar seu ritmo lento, a necessidade de transcendência essencial à reflexão e ao aprendizado para dar um mínimo de sentido à sociedade moderna... Veja mais aqui, aqui, aqui & aqui.

Deborah Colker: Saber gritar e calar, agir e esperar, lutar e aceitar. Superação é inteligência, apropriação, conhecimento, disciplina. Superar é curar!... Veja mais aqui & aqui.

 

DOIS POEMAS

Imagem: Acervo ArtLAM.

DESERTO - A paisagem ondulante e antiga, as falhas da terra \ e a história de um mundo entrou em colapso. \ Nunca houve ninguém aqui, por isso não há tragédia nas tuas palavras. \ É por isso que o vento cai. \ no rachinho da sua voz. \ Animais mal desenfreados voam \ com asas de morcego no barro e na rocha. \ Tudo isso não era nada. \ E nada era tudo: cordilheiras, geleiras, fundo de água \ petrificado com o sol. Perseguição da morte \ A vida e vice-versa. Falamos sobre essas coisas e outras \ na intimidade do carro, tão longe da sua boca \ - Há o meu. \ Onde havia amor antes.

POEMA 16 - Na selva, naquela noite \ Ele tomou o suco de uma planta \ mais amargo que vinho e concentrado \ Como medicamento ou veneno \ E depois de beber, eu sabia\ Que fui eu que escalou diante dos meus olhos \ Enquanto outros cantavam \ Era eu. \ Aquele que subiu como um emaranhado \ Pelo tronco de uma árvore \ E fui eu que descia mais tarde. \ E depois subi. \ todos os tempos necessários, isto é, \ Durante o tempo total da minha vida. \ É difícil dizer-lhes. \ O esforço com que abraçou essa crosta \ Colocando as unhas que a esmagaram. \ Minhas garras eram fortes como os gatos. \ Mas quando eu caí eu me tornei luz, e eu reformulei \ Sedoso, no chão. \ Era o início da manhã. \ Quando essa bebida deu o seu efeito \ E eu adormeci. \ Por muitos dias \ As imagens daquela noite \ Eles são deixados no meu coração. \ Eles fizeram isso doce como as pérolas \ que brotam no ramo e se desfazem \ Na boca sagrada da vida \ Depois de cada inverno.

Poemas da escritora, periodista e psicóloga argentina Paula Jiménez España, autora de obras como Ser feliz en Baltimore (2001), Formas, libro y cd (2002), La casa en la avenida (2004), La mala vida (2007), Ni jota (2008), Espacios Naturales (2009) La vuelta (2013) y la plaquete Las cosechadoras de flores (2014), além de Pollera pantalón / Cuentos de género (2012), Aventuras de Eva en el planeta (2005) e La calle de las alegrías (2006), entre outros. No livro La suerte (Caleta Olivia, 2021), ela expressa que: […] Se considerarmos a afinidade entre dissidência e esoterismo, acredito que deste lado, do lado da magia e da poesia, continuamos sendo aqueles que cultivaram uma sensibilidade mais refinada, nascida da experiência da exclusão e da vulnerabilidade. A resistência nos lançou ao deslumbramento. [...]. Trata-se de um livro de revelações com quatorze cartas em que cada poema abraçando o mistério e se tornando oracular, trabalhando com a palavra poética e a memória poética, acrescentando que: [...] Minha obra é caminhar, e eu obedeço, e quem lê sente a própria qualidade da volta do destino e do tempo simultâneo com suas derivas circulares, o alto que é baixo, o dentro que é fora, o passado que é presente e futuro. Sou eu quem lê ou quem é lido? [...].

 

O BEM & O MAL – [...] A loucura assusta você, distrai você, mas é preciso encará-la com cuidado. [...]. Trecho extraído da obra El buen mal (Randon House, 2025), da premiada escritora argentina Samanta Schweblin, que no seu livro Kentukis (Fósforo, 2021) ela expressa que: [...] A inartista. Ninguém, para ninguém, e nunca nada. A resistência a qualquer tipo de concretude. Seu corpo se interpunha entre as coisas, protegendo-a do risco de jamais alcançar qualquer coisa. [...] Regulamentação não tem nada a ver com estabelecer padrões; significa estabelecer regras que funcionem em favor de alguns. [...]. Na sua publicação Fever Dream (Riverhead, 2017) ela expressou: [...] Às vezes, eu me assentei a pensar que os problemas de todos os dias podem ser para mim um pouco mais terrível do que para o resto da gente [...] Há um limite para a quantidade de buscas que você pode fazer. Ou um cavalo está lá ou não. [...]. Veja mais aqui & aqui.

 

CAPITALISMO CANIBAL – [...] Um sistema econômico definido pela propriedade privada, a acumulação de valor “auto” expansivo, a alocação de mercado do excedente social e dos principais insumos para a produção de mercadorias, incluindo trabalho (duplamente) gratuito, é possibilitado por quatro condições de fundo cruciais, relacionadas, respectivamente, à reprodução social, à ecologia da Terra, ao poder político e às infusões contínuas de riqueza expropriada de povos racializados. [...] Ambos os "ex" contribuem para a acumulação, mas o fazem de maneiras diferentes. A exploração transfere valor ao capital sob o disfarce de uma livre troca contratual: em troca do uso de sua força de trabalho, os trabalhadores recebem salários que (supostamente) cobrem seus custos de vida; enquanto o capital se apropria de seu "tempo de trabalho excedente", ele (supostamente) paga pelo menos por seu "tempo de trabalho necessário". Na expropriação, por outro lado, os capitalistas dispensam todas essas sutilezas em favor do confisco bruto dos bens alheios, pelos quais pagam pouco ou nada; ao canalizar mão de obra, terras, minerais e/ou energia confiscados para as operações de suas empresas, reduzem seus custos de produção e aumentam seus lucros. Assim, longe de se excluírem, expropriação e exploração trabalham juntas. Trabalhadores assalariados duplamente livres transformam "matérias-primas" saqueadas em máquinas movidas a fontes de energia confiscadas. Seus salários são mantidos baixos pela disponibilidade de alimentos cultivados em terras roubadas por peões endividados e de bens de consumo produzidos em oficinas clandestinas por "outros" não livres ou dependentes, cujos próprios custos de reprodução não são totalmente remunerados. A expropriação, portanto, fundamenta a exploração e a torna lucrativa. Longe de se limitar aos primórdios do sistema, é uma característica inerente à sociedade capitalista, tão constitutiva e estruturalmente fundamentada quanto a exploração. [...]. Trechos estraídos da obra Cannibal Capitalism: How our System is Devouring Democracy, Care, and the Planet—and What We Can Do About It (Verso Books, 2022), da filósofa estadunidense Nancy Fraser, que no seu livro Feminism for the 99% (Verso, 2019), ela expressa que: […] Um feminismo verdadeiramente antirracista e anti-imperialista também deve ser anticapitalista. [...] A aliança do patriarcado e do capitalismo que quer que sejamos obedientes, submissos e quietos. [...]. Já no livro Capitalismo: Una conversación desde la Teoría Crítica (Ciências Sociales, 2019), ela comenta que: […] Se quisermos compreender a relativa ausência de crítica ao capitalismo nos últimos anos, devemos também considerar a ascensão espetacular do pensamento pós-estruturalista no final do século XX. Pelo menos no meio acadêmico americano, o pós-estruturalismo tornou-se a "oposição oficial" à filosofia moral e política liberal. E, no entanto, apesar de suas diferenças, esses oponentes manifestos compartilhavam algo fundamental: tanto o liberalismo quanto o pós-estruturalismo eram formas de escapar do problema da economia política e da própria economia social. Foi uma convergência de força extraordinária: um golpe, se preferir. [...]. Por fim, no seu livro The Old is Dying and the New Cannot Be Born: From Progressive Neoliberalism to Trump and Beyond (Verso, 2019), ela conclui que: […] O velho está morrendo e o novo não pode nascer; neste interregno uma grande variedade de sintomas mórbidos aparecem [...]. Veja mais aqui, aqui, aqui & aqui.

 

PINTANDO NAS PRAÇAS DE PERNAMBUCO

No próximo dia 16 de julho, a partir das 19h, na Biblioteca Fenelon Barreto – Palmares (PE), ocorrerá o lançamento do catálogo Pintando nas praças de Pernambuco, promovido pelo Instituto de Belas Artes Vale do Una (IbaValeUna), coroando a iniciativa do poeta e pintor Paulo Profeta. Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.

 

ITINERARTE – COLETIVO ARTEVISTA MULTIDESBRAVADOR:

Veja mais sobre MJ Produções, Gabinete de Arte & Amigos da Biblioteca aqui.






segunda-feira, julho 15, 2024

MÓNICA OJEDA, BORA CHUNG, AZA NJERI & DÉBORA LAÍS FERRAZ

 

Imagem: Acervo ArtLAM.

Ao som dos concertos Nights from the Alhambra (2007), A Mediterranean Odyssey (2010), Troubadours On The Rhine (2012) e os álbuns The Wind That Shakes the Barley (2010) e Lost Souls (2018), da cantora, compositora, pianista e harpista canadense Loreena McKennitt.

 

MONÓLOGOUTRO: E SE VIU O RIO & O QUE ALÉM MAIS HAVIA... – Horoutrera: aqui ninguém escutava e o eco do que nunca dissera trocava a noite pelo dia. Havia qualquer coisa de perdido à espera da sinistra surpresa. O que mais me aconteceria na vida... Tirava forças da fraqueza e era quase inútil, mas era uma chance, quem sabe. Quantos futuros e a fulminação pelas oitavadas dores. Dava de cara com os abortados vivos zanzando encarcerados em suas bolhas exclusivas. Escapava de quantos assaltos, até o nocaute previsível a qualquer momento entre vindicações e platitudes. Havia de aparecer sutil sinal. E do imprevisível dava fé da minha própria sombra: era uma mulher e não me foi arredia, tal Phoebe Mary Waller-Bridge: Comecei lendo como uma fuga, depois como uma tarefa, depois como um hábito e depois como um luxo. Só agora percebi que isso é uma necessidade... Era como ensinasse o inexpresso visinvisível, a me dar ciência num poema escrito na palma da mão, de que sou não mais que inominômino, um alcunha para nada mais. A bom termo, não sei: quem, quando, como, onde agora, aporias, estases e devires. Indagações outras desfeitas no instante, o primeiro talvez e apenas a perspicácia de ser antes do já anterior e o depois. Ela era Espido Freire: Se você vive de acordo com a sua consciência, a fé não é tão importante... Todo livro tem que quebrar o silêncio... E não estava só porque ela me levou pelos túneis solares de Nancy Holt. Seguia seus passos e pernas bem torneadas – toda mulher é uma deusa, sabia! Muito depois ela me disse que fora uma aberração escravizada e fugira de atrações circenses, coisa escandalosa da população inteira em polvorosa nos poleiros entupidos das sessões reprisadas três vezes ao dia. Inacreditável! Então, empunhou um poema sem face e recitou escondendo sua fisionomia. Era como se me desse um olho de tamburutaca e nele espelhos duplicassem as imagens refletidas e a promessa do infinito. Era a prova dos nove. E disse-me Nathalie Sarraute: Acho que é muito doloroso e que é melhor não ter dúvidas. Invejo quem não tem; eu os invejo muito. Eles são pessoas felizes... Horaquela achegou-se como a explosão de Betelgeuse, tão diurna na sua pujante vitalidade, e refratária ensinou-me o beijo para quem às amarguras; se se perdeu, o abraço; aos suicidas, o apoio; em desgraça, o afeto. E dei meus olhos ao primeiro cego; minha esperança, ao suicida; o meu suor, ao emergencial enfermo; e os ossos, aos tocadores da primeira orquestra. O meu sorriso guardei para ela ali noturna, com seus olhos bíblicos de vivos faróis. Baixou as pálpebras que depuseram a terna tristeza de quem já serviu de pajem para histriões. Era como se restasse apenas o agora e ofertou seus pulsos à hora inadiável e seus mil e um encantos eclodiram ubíquos. Sorriu-me tímida e abriu as coxas para atravessá-las e nela eu amanheci, muito chovi e fiz sol, entardeci e, quando findou o dia, anoiteci pelas paisagens de sua imensidão corpórea. Até mais ver.

 

CRÂNIO – CRÂNIO = X

Imagem: Acervo ArtLAM.

Desconhecido na linguagem dos mortos. \ Poema nulo. \ Ouvi dizer que você cavalga nas cabeças das Fúrias \ e você foge \ e mancha os terrenos baldios de leite coalhado \ meu leite coagulado \ e eles bebem e te dão luz \ uma caveira com canhões prateados apontando para meu peito \ conjunto de trilhas elétricas e membranas salgadas \ fio-mãe de navalhas \ mãe abutre cinerário \ Os três lambem as gengivas sob o limiar quente dos teus rins em flor: \ Eles têm cascos e abrem caminho desde os rios gástricos até os milharais. \ Eles se espalham pela Via Láctea montando em você. \ Eles urinam nas orelhas dos dentes que se desprendem para oeste. \ “Mãe e filha é uma antinomia”, \ a clarividência subaquática do seu trinômio perfeito de cães canta para você \ e você repete ao sul de sua debandada: \ “Mãe e filha são uma antinomia \ com pernas e cabelos de tarântula \ em uma gaiola de gelo vazia.” \ Seu cabelo queima como elefantes marciais cruzando os desertos \ babuíno zibelina \ casca de peixe aéreo. \ Você quer minha carne no seu leite terrível \ cozinhando na alta temperatura dos furacões \ (Escolas de esperma do deus morto \ povoar acima das águas galácticas do norte). \ Eu tremo nos abrigos derrubados pela sua barriga de baleia em histeria \ Esplanada \ Maddrácula dos mausoléus \ As cabeças das Fúrias sorriem tortuosamente para o sangue, \ rígida sob as coxas do galgo e a escultura perfeita do tórax; \ Eles querem me cozinhar no seu néctar de hera vencido, \ forçar o leite dos fígados para dentro de mim através do sulco celestial de suas primeiras manhãs. \ Espigas de dentes descascam e mordem meus restos imóveis à medida que passam. \ Eu me escondo entre as peles dos vertebrados \ e transformo meu corpo em um saco de penas \ que surge fresco entre os fêmures selvagens. \ Mãe e filha são uma antinomia. \ Uma caveira desgastada observa meu sinal nu: \ todo tipo de fuga termina \ nas cavidades profundas \ de um animal morto.

Poema da escritora equatoriana Mónica Ojeda Franco, autora das obras La desfiguración Silva (Prêmio Alba Narrativa, 2014), Nefando (Candaya, 2016), e O ciclo das pedras (Rastro de la Iguana, 2015).

 

COELHO AMALDIÇOADO – [...] Depois que você passa por um trauma terrível e entende o mundo de uma perspectiva extrema, é difícil superar essa perspectiva. Porque a sua própria sobrevivência depende disso. [...] Se eu pudesse fazer um desejo, quero ser um pouco mais feliz Se eu ficar muito feliz sentirei falta da tristeza [...] Para algumas pessoas, suas vidas são governadas por um evento chocante que repercute em seus instintos de sobrevivência. A vida se reduz a uma armadilha feita de um momento brilhante do passado, uma armadilha onde repetem incessantemente aquele momento singular em que tinham mais certeza de estar vivos. Esse momento é curto, mas muito depois de ter passado, os bons e os maus momentos escorregam como areia por entre os dedos enquanto se repetem sem sentido e confirmam a sua sobrevivência. [...] A vida é uma série de problemas. Principalmente quando se é casado e tem família. Porque mesmo quando você consegue evitar os problemas do mundo exterior e voltar para casa em segurança, sua família está lá esperando com um conjunto totalmente diferente de problemas próprios. [...]. Trechos extraídos da obra Cursed Bunny (Honford Star, 2021), da premiada escritora e tradutora sul-coreana Bora Chung.

 

ÉTICA, FILOSOFIA, GÊNERO & RAÇA - Para o sujeito negro, viver é o seu maior ato de afronta... Eu encho meus filhos de amor para que, quando eu me tornar ancestral, seja merecedora de seu respeito e reverência e possa, assim, zelar diretamente por eles e pela minha descendência... Pensamento da filósofa Aza Njeri (Viviane Moraes), que na obra Amor: um Ato Político-Poético - Ética e filosofia: gênero, raça e diversidade cultural (Fi, 2020), expressa que: [...] Nosso maior Ato Político-Poético é amar. Como já abordado neste ensaio, não o Amor alienante ocidental, mas as pluriformas possíveis de Outridade no amar. É libertador, para nós, o “Outro”, perceber que Amor não é o conto de fadas das adormecidas e abobalhadas princesas europeias à procura de um patife que passou a vida inteira sendo servido por mulheres como eu; nem volúpia sexual, que faz com que se fique três dias e três noites entregues aos “desejos da carne”; não tem coraçõezinhos pulsando, nem canção, muito menos loucura insana e mortal. [...] Compreender que não existe verdade única que determina uma experiência universal una dentro de um mosaico plural que é a Humanidade. O Amor, portanto, pode ser entendido a partir de uma pluriversalidade de cosmovisões, e neste artigo, busquei sulear minhas reflexões, para pensar o Amor enquanto energia fundante de movimento, necessária para a luta dos oprimidos no Ocidente. Longe de querer destituir o Ocidente para impor uma verdade afroperspectivada universal, ao contrário, almejei nessa discussão o diálogo que aponta para a necessidade do Outro falar e experienciar diversas formas de amar que estejam mais em sintonia com sua experiência no mundo que é atravessada pelo Presságio do Abismo, Monstro do Genocídio e pela fratura banzística de insílio. [...]. Já no seu texto Imprevisibilidade da Vida (Coletivo Indra, 2021), ela expressa que: [...] uma das minhas piores características é ser controladora. Gosto de ser organizada e ter controle sobre minhas pesquisas, aulas, vídeos, família, casa, Vida. Tenho consciência dessa amarra e trabalho diariamente para me desapegar e entender que viver é uma experiência radical e imprevisível.  Nesses 36 anos recém-completados, aprendi a necessidade dos três S: Solaridade, Sabedoria e Silêncio. Com eles, exercito a minha vitalidade atenta diante das peripécias do viver. Setembro foi um mês de muitas reviravoltas. Cíclico e potente, me chacoalhou dizendo: você não tem controle. Então sigo repetindo, sem controle da Vida, que Viver é um ato de afronta fundamental para resistir à desgraça coletiva do Brasil. Vou vivendo-sendo. Organizada, mas ainda impotente. Atenta e resiliente. Saúdo a Primavera, plantando girassóis solares no peito de cada um. [...].

 

ENQUANTO DEUS NÃO ESTÁ OLHANDO...

[...] Eu era incapaz de chegar a um lugar e dizer o que queria. Sempre envolvida pelas possibilidades de estar querendo—ou acreditando querer—a coisa errada. Sempre que eu ia a uma lanchonete com meu pai, eu precisava ver o cardápio inteiro, todas as vitrines de bolos, ponderando, desesperadamente, sobre as opções. Ele sempre se impacientava com isso. Em lanchonetes, ele caminhava decidido ao balcão e, sem perguntar o que serviam, sem ter em mãos o cardápio, pedia: Um misto quente e um café. Ele não se preocupava com as opções. E por que deveria? Eu é que tive opções demais na vida. Ele, não. Ele sabia o que queria. Adaptou-se ao fato de que qualquer birosca ofereceria misto quente e café. Ele teve uma só possibilidade. [...] Pessoas assim nunca vão crescer, de fato. Pensei, desanimada, sobre minha própria incompetência para uma vida adulta [...].

Trecho extraído da obra Enquanto deus não está olhando (Record, 2014), da escritora e jornalista, Débora Laís Ferraz, autora de obras como Os anjos (2003) e o conto O filhote de terremoto (Prêmio SESC de Contos Machado de Assis em 2012), adaptado para o cinema pelo curta-metragem Catástrofe (2012), dirigido por Gian Orsini. Veja mais aqui.

 

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Poemagens & outras versagens aqui.

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Crônica de amor por ela aqui.

 


ANNA LEMBKE, RIN USAMI, BIRHAN KESKIN, ANTÔNIO MARIA & YAYOI KUSAMA

    Imagem: Acervo ArtLAM .   Cambalhotas & as coisas nunca davam certas... - Zé Lua vivia por aí, todo acanhado sob a aba do boné, ...