segunda-feira, novembro 10, 2014

MARGARETA EKSTROM, XIAO HONG, BONNAIRE, GRACE AGUILAR, BARBARA PAYTON & PISCOPIA

 


SALVE, ELENA – Imagem: estátua de Elena Piscopia - A delicadeza herdada da infância no Palazzo Loredan era inspiradora. Herdou da mãe a candura camponesa – uma servil parideira pro procurador de San Marco. Mesmo assim dedicou-se ainda menina às lições de latim e grego, chegando à adolescência dominando hebraico, castelhano, francês e árabe, uma poliglota aos meus olhos enamorados. Agraciada com o Oraculum Septilingue, logo demonstrava domínio nas áreas da matemática e filosofia. E eu a via saltitante de felicidade, dividindo comigo suas mais íntimas satisfações e explosões emotivas. Foi, então, que assumiu o hábito da Ordem Beneditina e, pra minha felicidade, não se fez freira. Graças, um desperdício da vida tão bela jovem enclausurada. As suas delicadas mãos de exímia executante enchiam meus ouvidos com acordes sacados ao violino, à harpa, ao clavicórdio ou ao cravo. E me embevecia com seu carinho às minhas faces, compondo canções para embalar-me, quando não lia a tradução que fez do Colloquio de Laspergio, o que a levou convites surpreendentes de sociedades acadêmicas. Tornou-se afamada e passou a presidir a Accademia dei Pacifici. Ambicionou a Cornaro em Pádua, mas foi recusada, consentindo-se, apenas, os estudos em filosofia. Quando menos esperava foi agraciada com a láurea filosófica. Fiz-lhe companhia em todas as suas palestras e encantava não só a mim, como aos acadêmicos oriundos de Veneza, Bolonha, Perugia, Roma e Nápoles. Por horas explanava as teorias aristotélicas, aplaudida com fervor pelos comparecentes em seus elóquios. Vi-lhe lindamente sorridente expor para mim a láurea, uma coroa de louros sobre a cabeça, o anel no dedo e a estola de arminho sobre os ombros – a eternizada cena no meu coração e no Vitral Cornaro, da Thompson Memorial Library, no Vassar College estadunidense. Admirada por suas conquistas foi levada a participar de diversas academias europeias, enquanto devotava aos estudos e à escrita de seus discursos e traduções. Sua generosidade era manifesta em ações caridosas, até ser surpreendida pela tuberculose que a levou à sepultura e uma estátua eternizada. Salve Elena Lucrezia Cornaro Piscopia (1646-1684), a primeira mulher a conquistar um diploma universitário. Veja mais aqui e aqui.

 


DITOS & DESDITOS - Costumo dizer que fé é acreditar na vida, e como amo a vida, procuro fazer dela o melhor, torná-la o mais serena e alegre possível... Pensamento da atriz e diretora francesa Sandrine Bonnaire. Veja mais aqui.

 

ALGUÉM FALOU: Oh, que na religião, como em tudo o mais, o homem julgasse seu irmão pelo seu próprio coração; e por mais querido e precioso que sua crença peculiar possa ser para ele, acredite, assim é com a fé de seu irmão! A Verdade é o sopro vital da Beleza; A beleza é a forma exterior da Verdade. Pensamento da escritora britânica Grace Aguilar (1816-1847). Veja mais aqui e aqui.

 

NÃO TENHO VERGONHA - [...] Eu estava perdida... perdida em um mundo prático... um enfeite com coração... [...] Os homens foram atrás do meu corpo e eu me ressenti disso – como todas as mulheres, eu queria ser amada por mim mesma – não apenas pelo meu corpo. Então, quando eu tinha certeza de que um homem só estava interessado no meu corpo, eu estava atrás dele e não fazia diferença quem ou o que ele era. Um produtor famoso, quando eu era uma grande estrela, me beliscou na bunda quando eu estava passando pela porta, enquanto dizia: “Vamos tomar uma bebida algum dia”. Eu tinha certeza de que ele não esperava que eu aceitasse seu convite. Mas eu tinha planos para ele. Ele tinha uma esposa que era rica e não gostava que o marido olhasse para outra mulher, muito menos saísse com uma. Quando eu disse “sim”, ele tentou se esquivar, mas eu o prendi em uma noite e até fui ao escritório dele para buscá-lo. Ele tentou me convencer a ir a um “pequeno restaurante charmoso na praia”, o que eu sabia que era apenas para me manter fora do caminho de sua esposa ou amigos. Insisti que fôssemos ao Chasen's, ao qual ele era violentamente contra, mas eu estava mostrando bastante decote e fazendo muitas promessas, então finalmente consegui que ele fosse, mas tarde da noite, o que foi meu acordo. Você deveria tê-lo visto olhando furtivamente em volta, esperando que um detetive saltasse das sebes. Ele estava até gaguejando. Ele só queria jantar logo para poder me colocar no feno. Ele apenas engoliu o jantar junto com vários uísques puros. Demorei, aproveitando a comida e a situação. Quando pedi a sobremesa, pensei que ele fosse desmaiar. Isso significou para ele mais vinte minutos de agonia. E só para pressionar um pouco mais, passei dez minutos no banheiro feminino. A coisa cruel que eu fiz foi deixá-lo me levar para casa e depois dispensá-lo. Mas isso foi muito fácil e rápido. Eu tive uma ideia melhor. Fomos para minha casa. Tomamos bebidas e eu protelei para que ele chegasse tarde em casa. Ele estava enxugando o suor da testa – uma combinação de preocupação, bebida e paixão. Ao amanhecer, fomos para a cama e, a essa altura, ele estava uma pilha de nervos. É uma maravilha que ele pudesse atuar. Nunca vi um homem partir tão rápido depois. Minha frase de despedida foi: “Sabe, Jean é uma boa amiga minha...” Jean era sua esposa e eu a conhecia. Achei que ele fosse cair da escada. Ele apenas gemeu e saiu. Tenho certeza que durante semanas depois ele sofreu agonia. E você sabe, aposto que isso o curou de beliscar bundas. Isso também me lembra que uma garota bonita em Hollywood, especialmente aquela que está conseguindo bons papéis e que tem uma carreira a seu favor, recebe propostas de casamento, bem como outras propostas, várias vezes por semana. A maioria das propostas de casamento são sinceras. Outros são oferecidos como isca para você ir para a cama. Como ou por que um homem promete casamento a uma garota que conhece há uma hora sempre foi um enigma para mim. Eu diria que uma mulher é como um iceberg. Apenas uma fachada aparece. O resto está escondido e leva meses, até anos, para descobrir os mistérios do que está por baixo. Juro, uma vez por semana seis homens me pediam em casamento! Eles apenas pedem para serem levados – com as leis de propriedade comunitária da Califórnia. Eu tinha um ódio profundo por homens que usavam uma proposta de casamento para colocar uma garota no feno. Se eles tivessem sucesso, você não conseguiria nem falar com eles por telefone. Numa época em que eu estava amargurado por causa de uma carreira em declínio (acho que porque estava bebendo demais e não prestando atenção nas pessoas certas), criei uma causa para prender esses bastardos na parede. Lembro-me de ter acabado de tirar uma foto com um homem gentil e gentil, Gary Cooper. A foto era Dallas, que foi muito bem. Foi realmente o contraste entre Cooper e este salto que me motivou. Foi no American Room do Hollywood Brown Derby. Ele era um ator que estava crescendo rapidamente. Os rumores eram de que ele era casado com uma jovem estrela. Ele negou. Muito mais tarde, descobriu-se que era verdade. De qualquer forma, esse salto veio até a área da poncheira da sala e enquanto conversava comigo apertou minha mão e me olhou nos olhos com seu olhar dito “irresistível”. Ele sugeriu uma viagem até a praia. Ele pensou que estava me guiando – mas era eu quem estava fazendo as manipulações. Dirigimos até a praia e estacionamos em Dead Man's Point. Ele não fez nenhum passe. A abordagem dele era mais sutil. Primeiro ele me contou a história de sua vida. Fato ou ficção, ele contou bem. E foi uma boa história. A história chegou a uma conclusão – que toda a sua vida foi direcionada para este momento, conhecer uma garota como eu. E ele não ia me deixar escapar, não facilmente, claro. Aí veio: “Bárbara, quero que você seja minha esposa. Eu te amo e este é um momento mágico. Dê-me a honra de se casar comigo. Decidi jogar direto. “João, eu também te amo. Eu concordo em ser sua esposa. Quando nos casaremos? Eu o peguei um pouco de surpresa. Ele estava acostumado a convencer uma garota depois de um período de tempo. "Oh . . . que tal na próxima quarta-feira? "Que tal hoje à noite?" Eu retruquei. “Poderíamos simplesmente acordar um Juiz de Paz e dar o nó, e depois divulgar a história aos jornais. Teríamos muito espaço.” Eu sabia que ele não iria gostar disso. “Você não acha que isso é um pouco rápido? Que tal neste domingo? “Não é uma má ideia”, eu disse. Ele se animou. “Mas vamos ligar para os jornais imediatamente!” Eu disse, sabendo que ele não aceitaria isso. “Vou te dizer uma coisa”, disse ele. “Casaremos no domingo e divulgaremos a história no sábado.” Foi apenas uma armadilha. Passaríamos esta noite juntos de forma agradável e aconchegante e então ele começaria uma briga e o casamento acabaria. Eu me tornei muito sábio com os lobos. Conversacionalmente, não havia muitos lugares onde ele pudesse ir com a minha verificação de seus modos reais. Achei que ele recorreria a um beijo romântico. Não apaixonado – apenas um beijo de amor. E ele fez. Apenas um leve toque nos lábios sem braços. “Querida”, disse ele. “Somos ambos pessoas ocupadas. Levaremos pelo menos alguns dias para colocar nossos assuntos em ordem. É um grande passo. Eu te amo e sinto que você me ama. O que são alguns dias de espera, se for preciso? “Querido,” eu disse, ainda sendo honesto. “Eu simplesmente não quero esperar. Podemos dirigir pela costa. . . e se casar em uma cerimônia simples.” Eu o mandei parar. Eu me perguntei o que ele iria inventar agora. “Vou te dizer uma coisa”, disse ele. “Vamos fazer isso amanhã à noite.” Balancei minha cabeça negativamente. “Espero que você não pense que sou teimoso, mas fico assim de vez em quando.” Coitado, eu o amarrei com nós. Eu sabia o que estava por vir. Foi sua única jogada. “Bárbara, sou louco por você. Eu só quero estar perto de você – intimamente. Esqueça todo o resto – só você e eu no mundo.” Ele me beijou apaixonadamente. “Então podemos conversar sobre casamento. Talvez decidamos no sábado ou domingo. Eu conheço exatamente o local. Fica a apenas alguns quilômetros da costa. O que você diz?" Eu deveria ter rido alto, mas não o fiz. “Eu gostaria”, respondi. “Mas eu me sentiria muito mais seguro se nos casássemos primeiro. Não é uma reação típica de uma garota?” Ele estava começando a ficar nervoso e até um pouco irritado. “Você não confia em mim?” ele perguntou piedosamente. “Se eu disser que nos casaremos, você pode apostar seu último botão nisso. Apenas acredite em mim. Sim. Isso foi tudo que tive que fazer – como todos os outros. Eu acabaria em um riacho de merda. Mas eu estava me divertindo demais para ficar com raiva. “Eu confio em você – claro que confio. Mas, com uma estrela e tudo, tenho que ter cuidado.” “Claro que sim”, ele respondeu. “E eu direi a você o que faremos. Ligaremos para Louella ou Hedda e contaremos nossos planos de casamento. Isso faria você se sentir melhor? Eu também fui sábio nessa jogada. Anunciávamos nosso casamento e, algumas horas depois, ele ligava e dizia que mudamos de ideia. “Querido,” eu disse, deixando minha verdadeira face aparecer. “Isso tudo está começando a me entediar. Se você quer se casar comigo, vamos nos casar agora mesmo e se não quisermos, por favor, me leve para casa.” Na verdade, eu não teria me casado com ele nem por um milhão de dólares. Eu esperava que ele agora ficasse com raiva. Mas ele não o fez. Ele agiu magoado. "Ok, se é isso que você quer, então vamos." Ele ligou o carro. Fiquei em silêncio. Depois que ele dirigiu por um tempo, percebi que estávamos indo na direção errada para minha casa. Chamei a atenção dele para isso. Ele era obstinado. “Eu só queria mostrar a você o adorável refúgio de que estava falando. Tomaremos uma bebida e depois iremos embora. Por mim estava tudo bem. Foi divertido dar-lhe bastante corda. Ele insistiu que tomássemos nossas bebidas em uma suíte da Band House, um lindo lugar de férias à beira-mar. Parei em um drinque e não tomei outro, mas ele bebeu. Agora estávamos chegando ao alicerce e à honestidade. Ele me olhou diretamente nos olhos. “Seu filho da puta”, disse ele. “Você vai tirar a roupa e deitar naquela cama ou não? Já estou farto desta merda. Quem diabos você pensa que é? Eu já tinha passado por esse tipo de coisa antes. Eu não estava com medo nenhum. Sorri e disse: “Quem eu devo ser para dizer 'não' para você, uma doninha mentirosa, estupradora de meninas? Na verdade, é com grande prazer que lhe digo que prefiro morrer a que você me toque. “Talvez você esteja”, ele respondeu melodramaticamente. Levantei-me, joguei uma estola sobre os ombros e fui em direção à porta. Eu sabia que poderia pegar um táxi se ele decidisse ficar para trás. Ele bloqueou meu caminho até a porta e disse: “Onde diabos você pensa que vai?” “Para casa”, eu disse baixinho, “e saia do meu caminho. E se você não fizer isso” – peguei uma garrafa – “você vai desejar ter feito isso.” Ele era um covarde e recuou. Ele sabia que eu usaria. A briga explodiu dentro dele e ele disse: “Vou te levar para casa”. Por mim estava tudo bem. Não conversamos durante todo o caminho para casa e ele me deixou sair do carro sem sair. Esse foi o fim de tudo. Mais tarde, ele se tornou uma estrela, por isso não posso nomeá-lo. [...]. Trechos da obra I Am Not Ashamed (Holloway House Pub Co, 2004), da escritora e atriz estadunidense Barbara Payton (1927-1967). Veja mais  aqui.

 

A FILHA DO TINTUREIRO - [...] Primavera - que pressa. Cada lugar parece estar pedindo que isso aconteça. Se atrasar um pouco a sua chegada, a luz do sol desaparece e a terra vira pedra. Especialmente as árvores não podem durar nenhum atraso. Deixe a primavera demorar, mesmo que brevemente, e muitas vidas serão perdidas [...] A vida é disso que se trata: você está ocupado, eu estou ocupado e o resultado final é a morte. Mais cedo ou mais tarde, é isso que acontece. [...]. Trechos extraídos da obra The Dyer's Daughter: Selected Stories of Xiao Hong (The Chinese University of Hong Kong Press, 2005), da escritora chinesa Xiao Hong (1911-1942). Veja mais aqui e aqui.

 

PARA USO DIÁRIO - Se a vida não fosse tão insubstituível \ talvez ousássemos utilizá-la.\ Porém arrumamo-la na prateleira\ como um vistoso par de sapatos\ que é bonito de se ver\ mas não para uso diário.\ Assim, continuamos por aí sentados \ numa expectativa descalça. Poema da escritora e tradutora sueca Margareta Ekstrom (Sigrid Margareta Ekström - 1930-2021).

 

LIÇÕES OUTRAS ESTUDADAS

 

UMA LENDA HINDU – Uma velha lenda hindu relata que houve um tempo em que todos os homens eram deuses. Mas eles abusaram tanto da sua divindade que Brahma, o mestre dos deuses, tomou a decisão de lhes retirar o poder divino; resolveu escondê-lo num lugar onde seria absolutamente impossível reencontrá-lo. Mas o grande problema era encontrar um esconderijo. Brahma convocou então um conselho dos deuses menores para resolver o problema: “Enterremos a divindade do homem na terra”, foi a primeira ideia dos deuses. “Não, isto não basta, pois o homem vai cavar e encontrá-la”, respondeu Brahma. Então os deuses retrucaram: “Então joguem a divindade no fundo dos oceanos”. Mas Brahma não aceitou a proposta, pois achou que o homem um dia iria explorar as profundezas dos mares e a recuperaria. Então os deuses menores concluíram: “Não sabemos onde escondê-la pois não existe na terra ou no mar lugar que o homem não possa alcançar um dia”. Então Brahma pronunciou: “Eis o que vamos fazer com a divindade do homem: vamos escondê0la na maior profundeza dele mesmo, pois é o único lugar onde ele jamais pensará em procurá-la”. Desde esse tempo, conclui a lenda, o homem fez a volta da Terra, explorou, escalou, mergulhou e cavou, em busca de algo que se encontra nele mesmo. (Recolhido de Pierre Weil, O novo paradigma holístico: ondas à procura do mar. In: BRANDÃO, Dênis; CRENA, Roberto. O novo paradigma holístico: ciência, filosofia, arte e mística. São Paulo: Summus, 1991). Veja mais aqui.


NOS DIAS DE HOJE – Ouvindo Cartomante, da dupla Ivan Lins & Victor Martins, paro pra pensar na frase “Nos dias de hoje...”, em que o professor doutor em matemática que atua em diversas universidades dos EUA e é pró-reitor da Unicamp, Ubiratan D´Ambrosio, no seu texto A ciência moderna em transição conceitual, dizia ser “[...] para manipular grupos de indivíduos, conduzindo-os a participar, individual e coletivamente, ativamente ou por consentimento passivo de atos de violência da maior barbárie, tais como o genocídio e a tortura física e mental, em dimensão e intensidade jamais imaginada em gerações anteriores, e que representam vergonha e culpa para cada geração. Meios inimagináveis de violência utilizam sofisticados avanços científicos e tecnológicos. E, talvez, o mais chocante dos resultados, uma destruição paulatina de inúmeras formas de vida no planeta, está ocorrendo em nome de algo confusamente chamado progresso. Aumenta-se a produção agrícola e se produzem desertos, buscar-se regular os regumes fluviais e se provocam dilúvios, consome-se a seiva fóssil e favorecem-se reações sísmicas. Sistemas escolares mantidos para estimular e desenvolver a criatividade facilitam o aparecimento de sistemas marginais, que acolhem crianças frustradas e angustiadas e as encaminham para manipulações criminosas. Sistemas econômicos concebidos para uma melhor distribuição de riquezas, para uma repartição igualitária dos frutos do trabalho coletivo, vêm reforçar desigualdades e injustiças, gerando e estimulando mecanismo de exploração do homem pelo homem e elevando o dinheiro a uma posição de poder absoluto. A mídia nos cerca de ilusões e fantasias, e princípios e ideologias são criados para justificar e propor explicações, numa tentativa de não nos deixar reconhecer um mundo infeliz, inseguro, injusto. Ao chegarmos a um semáforo, esperamos que a luz esteja verde para não sermos assediados por crianças de sete ou oito anos que vendem limão ou simplesmente pedem esmola, num país em que a educação primária, de oito anos de duração, é compulsória e obrigação do Estado. Mas se o sinal está melhor, imediatamente fechamos o vidro e olhamos para o outro lado, numa tentativa de nos isolarmos e não reconhecermos uma realidade suja e feia. E, ao retornarmos a viagem, vamos cinicamente para nossos escritórios de trabalho, onde apoiaremos uma emenda constitucional que estabelece o limite de catorze anos como idade mínima de trabalho do menor. Nesse meio de cinismo, de ignorância da realidade como ela é, e de falta de visão global dessa mesma realidade, o que chamamos progresso vem se instalando nas nossas sociedades. Todas essas manifestações de estupidez de nossa espécie estão amparadas por esquemas racionais e científicos, estruturados mediante conhecimento especializado, fragmentado e focalizado em apenas um ou, quando muito, em alguns poucos inúmeros parâmetros que compõem a realidade,c om absoluta ignorância de uma visão global dessa mesma realidade e mesmo com desprezo por essa visão. Os sucessos e resultados dessa análise de aspectos da realidade, amarrados e estruturados em esquemas em si muito elaborados, têm impedido reconhecer a limitação e a parcialidade desses enfoques, e o próprio aparecimento das disciplinas, talvez a invenção mais fundamental e mais característica da ciência moderna, deu origem ao afastamento da realidade em toda a sua plenitude”. No meio desse caos todo em que vivemos, o psicólogo norte-americano Carl Rogers (1902-1987), nos deixa pro discernimento: “Estamos enfrentando uma combinação de mudanças paradigmáticas que podem ser mais poderosas do que qualquer coisa que o mundo tenha visto antes. As possibilidades, tanto para a ruptura como para vida criativa, são enormes”. Veja mais aqui.

EVITANDO O APOCALIPSE – O biólogo e médico austríaco Konrad Lorenz, considerado o pai da Etologia e laureado com o Nobel de Medicina em 1973, dá a dica de como evitarmos o apocalipse que nos ronda na atualidade: “Para evitar o apocalipse que nos ameaça, é necessário justamente nos adolescentes e nos jovens sejam despertadas novamente as sensações valorativas que lhes permitam perceber o belo e o bom, sensações essas que são reprimidas pelo cientismo e pelo pensamento tecnomorfo [...]. Um contacto tão intimo quanto possível com a natureza viva, tão cedo quanto possível na vida das crianças, é um caminho altamente promissor para que se atinja esse objetivo” (Konrad Lorenz, A demolição do homem: crítica à falsa religião do progresso. São Paulo: Brasiliense, 1986). Veja mais aqui

HEIDEGGER E A PSICOLOGIA – O filósofo alemão Martin Heidegger (1889-1976), foi aluno e discípulo do fundador da fenomenologia, Edmundo Husserl, e do culturalista neokantiano Heinrich Ricket, é autor de diversas obras de importância máxima, a exemplo do “Ser e Tempo” e “Introdução à Metafísica”, entre outras. Em “Ser e Tempo” ele entende que o sentido da pergunta pelo ser foi perdido e caiu no esquecimento após as indicações de Platão e Aristóteles, formulando a sua Teoria do Ser que tem por propedêutica a analítica da existência humana, introduzindo o método fenomenológico do Dasein, a essência humana que consiste em sua existência na possibilidade de realização. Por conseguinte, para o filósofo o ser e o estar no mundo é a determinação fundamental do Dasein: o mundo, o ser do existente e o ser em ou no mundo – revelando as dimensões do tempo, o futuro, o presente e o passado. Para ele, o mundo não é uma soma de objetos, mas uma totalidade implícita nas coisas que o compõem. Apesar das criticas de quase incompreensibilidade de sua linguagem filosófica, do artificialismo das suas etimologias, do seu anti-humanismo e das decorrentes atividades políticas do pensador, Heidegger é considerado, por seu inegável esforço profundo na análise ontológica da existência, influenciando sobremodo muitos pensadores, a exemplo de Jean-Paul Sartre. O presente estudo está voltado para identificar a sua contribuição à Psicologia, objetivando por meio de uma revisão da literatura, observar de que forma o Dasein e todo o seu pensamento fenomenológico contribuiu para o desenvolvimento da ciência psicológica. O EXISTENCIALISMO HEIDEGGERIANO - O existencialismo heideggeriano, segundo Padovani e Castagnola (1978), é concebido a partir da filosofia do finito, ao defender que não é a essência que dá significado à existência, mas o contrário, uma vez que a existência é possibilidade que adquire uma essência. Ele compõe sua filosofia a partir da condição inicial do existente humano, o estar-no-mundo, o Dasein. E se firma na angústia que é a experiência radical do nada de todas as coisas. A teoria ser no mundo, segundo Heidegger (1989), aparece como ontologia fundamental na investigação fenomenológica, buscando as essenciais determinações do ser dos entes: "o ser é sempre o ser de um ente", ou dasein, o ser do homem. Essas ideias foram importantes para a psiquiatria. Para Almeida (2014, p. 19) Com Heidegger é que temos a criação da filosofia existencial em nosso século e ainda sua junção com a psicologia e a psiquiatria. A ontologia heideggeriana é de que o homem é um ser no mundo onde o homem tem sua existência por ser–no-mundo e o mundo tem sua existência porque há um ser para revelá-lo. O que nos leva a perceber a unicidade do ser e do mundo. Segundo Barbosa (1998, p. 42), a “Grande parte da importância do pensamento de Heidegger consiste em ter ele problematizado o ser-em da existência humana”. Assim, Heidegger, conforme Chauí (1979) vai abordar o problema do ser empregando o método fenomenológico de Husserl, levando-o a colocar como ponto de partida de sua reflexão aquele ser que se dá a conhecer imediatamente: o próprio homem. Heidegger (1989) abandona a intencionalidade e a consciência ao criticar Husserl e sua fenomenologia transcendental, buscando essência da consciência, insatisfeito com a metafísica husserliana: Dasein deve substituir 'sujeito' ou 'eu'. O termo Dasein, nessa perspectiva, refere-se ao existir humano que se dá como um acontecer (sein) que se realiza aí (Da), no mundo, sendo o próprio existir que consitui o aí em que se dá a existência. Nesse sentido, tendo-se em vista a "finitude" humana, a temporalidade e a historicidade serão fundamentais na análise heideggeriana do Dasein. INFLUÊNCIAS E CONTRIBUIÇÕES HEIDEGGERIANAS – Numa revisão efetuada a partir de Farias (1988), Fédier (1989), Loparic (2003), Pessanha (2003), Safranski (2000) e Duarte (2001), encontrou-se que Heidegger tornou-se, ao mesmo tempo, um ícone do pensamento do século XX por sua filosofia complexa, além de centro de escândalos por seu engajamento ao nazismo. Contudo, Queiroz (2005, p. 30) destaca o Dasein do pensamento heideggeriano, observando que: A Ontoterapia, com sua visão global do homem, aberta aos domínios do corpo, da alma e da espiritualidade, funda-se, principalmente, neste cuidado do ser. O cuidado reveste-se de dúplice forma. Pode-se falar do auto-cuidado e do hetero-cuidado. É o próprio Heidegger, na obra Ser e Tempo, que afirma que o Dasein ocupa-se essencialmente desse próprio Dasein, ao mesmo tempo em que este é determinado como um ser – uns com os outros original. Por isso o Dasein ocupa-se sempre também com os outros. Dá-se, segundo o autor mencionado, que a ontoterapia faz uso do cuidado de duas maneiras: cuidar de si e cuidar do outro, ou seja, preocupar-se consigo mesmo e, da mesma forma, preocupar-se em cuidar do outro. É esse pensamento solidário que vai possibilitar a identificação das inestimáveis contribuições de Heidegger à Psicologia. Dessa forma, para a Psicologia, segundo Sebit (2012), Heidegger exerceu importante influência por ter buscado nas suas ideias a nova perspectiva para a colocação dos problemas humanos, da questão do conhecimento, da ciência e da técnica, contribuindo, assim, não só com essa área do saber, como também com a sociologia, teologia, ecologia e educação. A contribuição inaugura – via fenomenologia do Dasein - a assim chamada fenomenologia existencial, base de escolas e linhas de pensamento contemporâneas em psicologia, psiquiatria, psicoterapia e psicopatologia, ainda que ele mesmo não se definisse como existencialista, no sentido de não pertencer ao Existencialismo enquanto movimento. Além disso, observa-se a aproximação da analítica do Dasein de Heidegger com a clínica - psiquiátrica ou psicológica - psicoterapêutica. A esse respeito, destaca Almeida (2014, p. 22) que: [...] a psicologia existencial pode ser definida como uma ciência humana que emprega o método da analise fenomenológica. Uma das principais particularidades da psicologia existencial em relação aos outros sistemas psicológicos se da pela oposição a aplicação do conceito de causalidade das ciências naturais aplicado as ciências humanas e especificamente à psicologia. Esse ser no mundo é o que vai marcar a operação de univocidade entre sujeito e objeto restaurando a unidade entre o homem e o mundo, mundo este marcado por três aspectos: as regiões fisiobiologicas, o ambiente humano e aquele no qual se acha a pessoa e seu eu, incluindo o corporal. A psicologia existencial que surgiu da filosofia e que desta guarda e mantém estreitas relações, teve grande repercussão sobre a teoria e à pratica da psicologia como um todo, fazendo surgir outras técnicas e pontos de vista tanto em campos do aconselhamento como da psicoterapia. Marca uma função de seguir as coisas em si mesmas na orientação de não se deixar perder no seu relacional, em seu contato com a experiência e ao cotidiano. Sua contribuição, conforme Barbosa (1998), se deu no campo da psicopatologia com o reconhecimento da enfermidade como um modo ou estilo particular de ser no mundo, a partir da utilização do método fenomenológico de reflexão com o objetivo de alcançar a essência da enfermidade por meio de suas manifestações concertas. Havia, então, o entendimento de que a enfermidade é uma distorção da estrutura do ser no mundo. Por isso, Barbosa (1998) observa que o sintoma, enquanto estilo de ser, encontra-se também no normal, ou no doente não apenas enquanto doente, e essa constatação permite compreender melhor o sentido da doença. Por consequência, a terapia é o ato de levar o doente a ver como está constituída a estrutura total da existência humana (ou ser no mundo), trazendo-o de volta. Além disso, registra Sebit (2012, p. 55) que: Diversos psicanalistas, psicólogos e psiquiatras desenvolveram teorias a partir de Heidegger e dos pensadores existencialistas. Entre estes, podemos destacar a obra de Viktor Frankl, Rollo May, Maslow, Carl Rogers, Allport, Erich Fromm e Buhler. Além desses, Ludwig Binswanger e Medard Boss foram daqueles que buscaram mais diretamente as consequências do trabalho de Heidegger para a psicoterapia e procuraram empregar na compreensão clínica os conceitos fundamentais elaborados por esse filósofo, embora se afastando dele em alguns casos e aspectos. Em vista disso, destaca Feijoo (2014) que é a dimensão da existência heideggeriana que vai possibilitar o desenvolvimento da psicologia sob a perspectiva fenomenológico-existencial. O percurso psicoterapêutico vai se dar de modo que o psicoterapeuta possa assumir o lugar de mensageiro do discurso do cliente, num processo mútuo de corresponder e desprender, tal como entendido por Heidegger em sua perspectiva ontológica. Mattar e Sá (2014), por sua vez, registra que Heidegger propôs aos psiquiatras e psicoterapeutas participantes a suspensão do olhar científico-natural, em que foram formados, para que pudessem ter acesso a uma atitude fenomenológica de atenção à realidade. A contribuição de Heidegger, segundo Moreira (2010) e Feijoo (2014b), está na psicoterapia de inspiração daseinsanalítica, pensando tanto no dualismo subjetividade/objetividade como na intersubjetividade que envolve o dualismo sujeito/sujeito. É que na perspectiva existencial a visualização do comportamento como atitude geral, como movimentação total da existência em um mundo. A esse respeito, assinala Feijoo (2014, p.11), que: [...] o psicoterapeuta de inspiração daseinsanalítica: 1)Ajuda como aquele que trata do modo de existir e não do funcionar do homem. 2)Liberta o homem do aprisionamento por tomar-se como um ente cujo modo de ser é simplesmente dado, esquecendo-se de sua condição de liberdade enquanto existente. 3)Facilita que as experiências se tornem presentes, sem condicioná-las causalmente ao somático ou ao psíquico, deixando ser o que a própria experiência revela; 4)Está atento às indicações, suspende a verdade postulada pelo senso comum, pela ciência e pela psicologia científica, permitindo que o fenômeno seja reconhecido como uma simples relação com o mundo; 5)Busca conduzir o homem a si mesmo, possibilitando a livre relação com aquilo que o encontra, apropriando-se destas relações e deixando-se solicitar por elas. 6)Relaciona-se através do modo de cuidado denominado por Heidegger como “antecipação libertadora”, que devolve o outro a si mesmo, liberando-o para seus modos próprios e singulares de ser. 7)Sustenta sua atenção na serenidade, estranhamento, aceitação e compreensão. Mediante o exposto, sintetiza Roeche (2012) que o trabalho de Heidegger assume importância por sua utilização na Psicologia sob os nomes de psicologia fenomenológica, psicologia existencial e, em menor escala, hermenêutica e psicologia humanista. Sua importância é também destacada por Mattar e Sá (2014) ao considerar que na época contemporânea, em que as demandas de sofrimento existencial, endereçadas à clínica psicoterápica, cada vez estão mais relacionadas ao nivelamento histórico do sentido ao que pode ser computado no cálculo global de exploração e consumo, é imprescindível, para que a psicoterapia possa se constituir em um espaço de reflexão crítica propiciador de outros modos de existir, que ela própria não permaneça acriticamente subordinada a esse mesmo horizonte histórico de redução de sentido. CONCLUSÃO – Muitas controvérsias permeiam os mais diversos debates acerca do homem e do pensamento de Heidegger. Distinguindo-se o homem da sua obra, ficou mais que evidenciada a contribuição heideggeriana às práticas psicoterápicas, notadamente a desenvolvida pela psicologia fenomenológica-existencial. Veja mais aqui e aqui.

REFERÊNCIAS
ALMEIDA, Alan. Psicologia existencial. Psicologia Clínica e Psicanálise. Disponível em http://www.allandeaguiar.com/2010/07/blog-post_2807.html. Acesso em 13 mar 2014.
BARBOSA, Marcio. A noção de ser no mundo em Heidegger e sua aplicação na psicopatologia. Psicologia:Ciência e Profissão, vol. 18, nº 3, Brasília, 1998.
BARRETO, Carmem Lucia. Ação clínica e os pressupostos fenomenológicos existenciais. São Paulo: USP, 2006.
BEZERRA, Marcia Helena. Um estudo crítico das psicoterapias fenomenológico-existenciais: terapia centrada na pessoa e Gesltat-terapia. Belém: UFPA/IFCH, 2007.
CHAUÍ, Marilena. Convite à Filosofia. São Paulo: Atica, 2002.
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