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segunda-feira, dezembro 10, 2018

KLIMT, FAYGA OSTROWER, SELMA DO COCO, NITOLINO & AS MULHERES AMADAS


AS MULHRES AMADAS – The kiss (1907-1908), do pintor simbolista austríaco Gustav Klimt (1862-1918). - Sou o crepúsculo na tarde azul da Áustria para que elas sejam flores na paisagem campestre de Bauerngärten e no cenário dourado de todos os jardins dos céus e da terra, todas elas desabrochando da art nouveau para serem amadas e eternizadas por todos os tempos e espaços. É da candura e fortaleza delas a se mostrarem com suas curvas de verdadeiras joias seminuas e provocantes, com suas túnicas de estampagem africana que são as armadilhas de sedução num mundo conservador. Ah é de uma delas que recolho o beijo nos braços de Emilie Flöge e me insinuo pelas madeixas das ruivas pré-rafaelitas e pela geografia das sereias dos mais profundos mares perdidos, até sentir-me senhor da nudez fatal da dominação de Judith no palácio de Nínive expondo a cabeça do general assírio que sou eu vencido aos seus encantos e feitiços. É nelas que sou herança da ouriversaria para expressá-las nuas nos painéis da Universidade, tudo queimado pela perseguição nazista aos judeus, cinzas redescobertas ao vento de todas as direções. Elas em mim resistem e renascem Danae, Adele Bloch Bauer, Serena, Mada, Fritza, Adele, as de Toulouse e aquelas entre morangos bizantinos com suas almas ao som Schubert, muitas, todas, entre quatro paredes e na orgia da cor, para amá-las no universo de dourada vida, no floral que emana de seus corpos, no tom pastel que me encanta e nas pinceladas impressionistas que as revivem na viúva Úrsula, em Gertrud Loew e as que emergiram no sanatório da convivência com Mahler e Wittgenstein, e habitam nuas e recolhidas no atelier intacto com milhares de rascunhos e em desenhos e quadros preservados que resistiram até sucumbir à apoplexia. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais abaixo & mais aqui e aqui.

DITOS & DESDITOS:
[...] As potencialidades e os processos criativos não se restringem, porém, à arte. [...] O criar só pode ser visto num sentido global, como um agir integrado em um viver humano. De fato, criar e viver se interligam. [...] Criar é, basicamente, formar. É poder dar uma forma a algo novo. [...] O ato criador abrange, portanto, a capacidade de empreender; e esta, por sua vez, a de relacionar, ordenar, configurar, significar. [...] Nós nos movemos entre formas. Um ato tão corriqueiro como atravessar a rua – é impregnado de formas. [...] As formas de percepção não são gratuitas nem os relacionamentos se estabelecem ao acaso. [...] Nessa busca de ordenações e de significados reside a profunda motivação humana de criar. Impelido como ser consciente, a compreender a vida, o homem é impelido a formar. Ele precisa orientar-se, ordenando os fenômenos e avaliando o sentido das formas ordenadas; precisa comunicar-se com outros seres humanos, novamente através de formas ordenadas. [...] Ainda vinculado aos mesmos padrões coletivos, ele se desenvolverá enquanto individualidade, com seu modo pessoal de agir, seus sonhos, suas aspirações e suas eventuais realizações. [...]
Trechos extraídos da obra Criatividade e processos de criação (Vozes, 1997), da pintora, gravadora, desenhista, ilustradora, professor e teórica de arte brasileira nascida na Polônia, Fayga Ostrower (1920-2001). Veja mais aqui e aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
A arte do pintor simbolista austríaco Gustav Klimt (1862-1918). Veja mais aqui, aqui, aqui e aqui.

AGENDA:
Livros pras crianças & muito mais na Agenda aqui.
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&
A teia de Ixchel, Chantal Mouffe, Judith Butler, Lourenço Mutarelli, Viviane Mosé, Esther Erlich, Tamandaré, Vilmar Carvalho & Admmauro Gommes & Eliete Carvalho & Cavalcanti, Tom Jobim, Sarah Chang, John Lennon & Sinéad O'Connor aqui.

RÁDIO TATARITARITATÁ:
Hoje curta na Rádio Tataritaritatá a música da saudosa cantora e compositora Selma do Coco (1935-2015): Minha história Músicas do Nordeste, Jangadeiro, Areia & Meu sabiá & muito mais nos mais de 2 milhões & 960 mil acessos ao blog & nos 35 Anos de Arte Cidadã. Para conferir é só ligar o som e curtir. Foto de Andréa Rêgo Barros/PCR. Veja mais aqui.
 

segunda-feira, abril 16, 2018

VERLAINE, ESPINOZA, FAYGA OSTROWER, MARGUERITE DURAS, KLIMT, AMBROSE AKINMUSIRE & GRACE CHUNG

O OUTRO LADO DAS COISAS - Imagem: arte do pintor simbolista austríaco Gustav Klimt (1862-1918). - Entre os Zés que conheci, o Bornal era o mais engraçado: riso estampado na cara, pau pra toda obra, viver é bom demais. Isso mesmo, o Zé Bornal, chovesse ou fizesse sol, dia santo ou feriado, estava lá, pronto pro que fosse, bronca que viesse e um sorriso nos lábios: Agora mesmo! É pra já! Ô cabra bão! Não lembro, nessa vida toda de mais de trinta anos de convivência, ouvi-lo dizer não ou apresentar cara feia com notícia ruim, ou coisa desandada. Isso não quer dizer que ele se apresentasse indiferente ao problema dos outros; não, não é isso; bastava quem quer que fosse convalescer, lá estava ele, contrito, solidário. Não perdia missa de sétimo dia de conhecidos ou não, à beira de leitos hospitalares, socorrendo necessitados, trocados na algibeira pros pedintes, uma mão amiga a qualquer solicitação. Sempre sorrindo. Ao contrário, a senhora dele, distante, reticente no seu mutismo. Como é que pode Zé Bornal esbanjar felicidade e a mulher dele com cara de sacrifício inacabado, ah, era preciso saber das fases passadas da lua, dos dias esquecidos nos calendários pretéritos, daquelas coisas que não se sabe ou mesmo esquecidas, ou que se fez que nem viu. Deles, aos poucos, a memória da perda do filho, coisa de doença, e mãe é mãe. Não só isso: quantas Zé não embarcou nas voltas de findar sozinho e sem ter a quem recorrer, quantas não remaram juntos, ele uma mão na frente outra atrás, situação estreita, apertos de torar tudo, e ela lá, ao lado dele. Se ele sorria enfrentando qualquer guerra, ela desarmava as travas com uma mínima lágrima, e a dela, era carregada de profundo sentimento, daquelas que descem face abaixo inalterada, uma por uma, lentamente. Não há nada mais comovente que uma lágrima de mulher, talvez seja isso a felicidade de Zé: ela pranteava o infortúnio dele para lavar sua alma, como se, depois disso, nada mais houvesse acontecido. Vez em quando a via vestido esvoaçante, seminua nos remoinhos de ventos, a jogar vidrinhos no quintal. Eram lacrimários, nunca tinha visto aquilo, reunia gota a gota do seu choro, resignada, imolando suas dores, no minúsculo invólucro, para jogá-los fora, exorcizando seus temores e malsinações, refazendo a vida depois dos reveses. Lições pra Zé, expurgos dela. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.

RÁDIO TATARITARITATÁ:
Hoje na Rádio Tataritaritatá especial com a música do trompetista de jazz estadunidense Ambrose Akinmusire: Live At Jazz Standard Jazzmix in New Tork, Confessions to my ymborn daughter & Dreams of the Mabahsniese; da pianista taiwanesa Grace Chung: Concerto n 21 Mozart, Sonata C Minor Grieg & Recital at USC; & muito mais nos mais de 2 milhões de acessos ao blog & nos 35 Anos de Arte Cidadã. Para conferir é só ligar o som e curtir.

PENSAMENTO DO DIA – Tenho-me esforçado por não rir das ações humanas, por não deplorá-las nem odiá-las, mas por entendê-las. Pensamento do filósofo racionalista holandês Baruch Espinoza (1632-1677). Veja mais aqui.

CRIAÇÃO & ESTILO - Basta ver a alegria das crianças, intensamente envolvidos em satisfazer, para se ter uma ideia da grande aventura que é criar. Aventura, entrega e conquista, rumo a novas experiências e novos mundos. É como se as crianças desde sempre, soubessem colher a essência do ser. E em nós, adultos, perdeu-se o olhar aberto das crianças? [...] o potencial criador não é outra senão esta disponibilidade interior, esta plena entrega de si e a presença total naquilo que se faz. Ela vem acompanhada do senso do maravilhoso, da eterna surpresa com as coisas, que se renovam no cotidiano. [...]. Trecho extraído da obra Acaso e criação artística (Campus, 1999), da pintora, gravadora, desenhista, ilustradora, professor e teórica de arte brasileira nascida na Polônia, Fayga Ostrower (1920-2001). Veja mais aqui.

O AMANTE – [...] Sobre as ripas da ponte, sobre os adros do barco, sobre o mar, se esforça e se destrói, com a mesma lentidão, uma escritura, ilegível e dilacerantes de sombras, de arestas, de traços de luz entrecortada e refratada nos ângulos, nos triângulos de uma geometria fugaz, que se escoa ao sabor das sombras das vagas do mar. Para em seguida, mais uma vez, incansavelmente, continuar a existir [...]. Trecho extraído da obra O amante (L´Amant - Prêmio Goucourt, França 1984 - Nova Fronteira, 1985), da romancista, novelista, roteirista, poeta, diretora de cinema e dramaturga francesa Marguerite Duras (1914-1996). Veja mais aqui.

CANÇÃO DE OUTONO – As pulsações / dos violões / outonais / fazem o ser / esmorecer / sempre iguais / e todo arfando / pálido, quando / soa a hora, / minha alma invade / velha saudade / e após chora. / Se eu assim vago, / vento pressago / me transporta / ao-deus-dará, / semelhante à / folha morta. Poema extraído da obra Poemas (Difusão Europeia do Livro, 1962), do poeta francês Paul Verlaine (1844-1896). Veja mais aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
A arte do pintor simbolista austríaco Gustav Klimt (1862-1918).
Veja mais aqui.



O XXVIII Congresso da ANPPOM & muito mais na Agenda aqui.
&
Dos beijos e beijares, o teatro de Nelson Rodrigues, a pintura de Auguste Rodin, a música de Sérgio Sampaio & a arte de Soaring Turkeys aqui.



domingo, dezembro 17, 2017

RUBEM FONSECA, FAYGA OSTROWER, HUIZINGA, ELIAS JOSÉ, LIEBLING, MARLENE DUMAS, LITERÓTICA, QUADRINHOS, SKETCBOOKS, LIVROS BRINCARTE & CANTARAU TATARITARITATÁ!

A arte da artista sul-africana Marlene Dumas. Veja mais aqui.

LITERÓTICA: CHEGADA - Ela vem nua e linda com os olhos que roubam a minha vida. Nua e linda ela vem e veio como quem havia de alcançar a última esperança perdida. E eu a tomei tão contida como quem chega de um fiapo de luz e se faz de bem acolhido com a querência de terra revolta no ventre pegando fogo, lábios tremendo de rogo, o sexo de fora e o olhar de desmaio, os desejos todos num balaio com relevos da carne de peitinhos empinados e nenhuma rédea no juízo. E nua e linda chegou com gosto de saudade. De lembrança de coisas guardadas e sentidas. Chegou pronta para ser servida, nua e linda, querente, requerente, quente de pegar fogo, boca aberta, língua de fora, ah, felação, engolia a minha vida e o que restava de mim, ávido guerreiro, espada luminosa e pulsante nas estrelas do céu da sua boca, garganta gulosa, lambidas e sugadas, ah, era ela, tudo dela, louca lambuzada, fruta boa para ela pronta para a montaria, amazona nua, trotando aos raios dos cabelos soltos, fera abatida, irrequieta, vingativa, aos pulos e trepadas, ah, tudo dela, inteiro dentro, gozo afora. Até arriar mansa, vencida. Chegou e ficou resolvida a morar pro resto da vida dentro de mim. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais abaixo & mais aqui & aqui. 


DITOS & DESDITOS – As pessoas não param de confundir com noticias o que lêem nos jornais. Pensamento do jornalista estadunidense Abbott Joseph Liebling (1904-1963).

ALGUÉM FALOU: Nunca terminamos uma obra, simplesmente somos obrigados a abandoná-la. Pensamento do escritor e roteirista de cinema Rubem Fonseca. Veja mais aqui.

CIVILIZAÇÃO OCIDENTAL – [...] Esta herança secular chamada civilização ocidental foi-nos confiada para a transmissão às futuras gerações, preservada, protegida, se for possivel, enriquecida e melhorada; empobrecida se assim tivber de ser; em qualquer dos casos, tão pura quanto nos é possivel conservá-la. A fé no trabalho, a crença na possibilidade de salvação e a coragem para a conseguirmos, ninguém nos poderá privar de tudo isso. Pouco importa quem irá colher os frutos dos nossos suores. [...] A obra continua [...]. Trechos extraídos da obra Nas sombras do amanhã: diagnóstico da enfermidade espiritual do nosso tempo (Armênio Amado, 1944), do professor e historiador neerlandês Johan Huizinga (1872-1945). Veja mais aqui e aqui.

CRIATIVIDADE & PROCESSO DE CRIAÇÃO - [...] a criação é um perene desdobramento e uma perene reestruturação. É uma intensificação da vida. Não haveria como compreender de outro modo o curso de crescimento nos grandes artistas. Sua capacidade de se tornar mais amplos e de uma simplicidade no sentido de uma redução ou eliminação. Trata-se de um adensamento, onde nada fica perdido e tudo é reelaborado com mais coerencia e maior multiplicidade. [...] Trecho extraído da obra Criatividade e processos de criação (Vozes, 2002), da pintora, gravadora, desenhista, ilustradora, professor e teórica de arte brasileira nascida na Polônia, Fayga Ostrower (1920-2001), trazendo um referencial da arte com temática interdisciplinar e encarando a criatividade como um potencial próprio de todos os humanos, notadamente quanto aos processos criativos que em geral importam, tais como percepção, formas, intuição e imaginação, assim como o crescimento e a maturidade das pessoas. Veja mais aqui e aqui.

O BILHETE DE AMOR - Logo que colocou os objetos embaixo da carteira Pitu encontrou o bilhete. Leu, ficou vermelho, colocou no bolso, não mostrou pra ninguém. De vez em quando, mordia-lhe uma curiosidade grande, uma vontade de reler pra ter certeza. Era uma revelação que ele não estava esperando. Não podia dizer que estivesse achando ruim, pelo contrário... ele estava com vontade de olhar pra trás, para procurar uma resposta com o olhar. Era um tímido e não encorajava. A professora explicava num mapa as regiões do Brasil e ele viajava num rumo diferente. Ainda bem que ela não estava olhando para ele, nem fazendo perguntas, só estava expondo a matéria. Na hora da verificação, acabaria saindo-se mal. Não gostava de ignorar as coisas perguntadas. Estava meio perdido nos pensamentos confusos. O bilhete queimando no bolso. Interessante, não era um bilhete bem escrito, tinha até erro de Português – porque a curiosidade? Só ele sabia dele, não foi como no dia do correio-elegante, pai, mãe e seu Francisco do armazém querendo saber, dando palpites, agora, tinha um bilhete que trazia uma declaração de amor e uma assinatura. Trazia mais: um convite para um bate-papo na praça, às duas horas, se ele quisesse namorar de verdade. Marina era bonitinha, ele queria. Faltava-lhe jeito de dizer, tinha que escrever um bilhete respondendo, era mais fácil. No intervalo, escreveu o bilhete, fechado no banheiro. Quando ela chegou, a resposta esperava na carteira. Quase no fim da aula, ele criou força e olhou para trás. Marina sorria, confirmando. Ele sorria também. Os dois estavam vivendo uma ternura primeira e não sabiam escondê-la mais. Tanto assim que a professora pediu que ele virasse para frente, observasse o que ela estava pedindo pra pesquisa do fim de semana. Naquele fim de semana, ele iria pesquisar alguma coisa nova que não tinha experimentado, como alguns outros da sua idade e turma. Conto extraído da obra As curtições de Pitu (Melhoramentos, 1976), do escritor Elias José (1936-2008).



SKETCHBOOKS - A obra Sketcbooks: as páginas desconhecidas do processo criativo (Ipsis. 2010), de Cesar Almeida & Roger Barreto, reúne o trabalho desenvolvido por Alarcão, Alex Hornest, Amanda Grazini, Angeli, Artur D’Araujo, Bruno Kurru, Carla Caffé, Claudio Gil, Eduardo Berliner, Eduardo Recife, Elisa Sassi, Fernanda Guedes, Guto Lacaz, Hiro Kawahara, Kako D'Angelo, Kiko Farkas, Leo Gibran, Lollo, Lourenço Mutarelli, Montalvo Machado, Mulheres Barbadas (Henrique Lima e Julio Zukerman), Orlando, Rafael Grampá, Roger Cruz, Titi Freak e Yomar Augusto.

HISTÓRIA EM QUADRINHOS – A obra Dominio público: literatura em quadrinhos (Organizadores, 2006), organizada por Christiano Mascaro, João Lin e Mário Hélio, reúne em quadrinhos as histórias de Bram Stoker, Richard Middleton, Isaac Babel, Guy de Maupassant, Esopo e Henrich von Kleist, por quadrinistas como Gabriel Goes, Samuel Casal, Mascaro, João Lin, Fernando Lopes e Guazzelli. Veja mais aqui. Veja mais aqui e aqui.

A IDENTIDADE COMO INTERPRETAÇÃO
Mesmo quando pinto um ser vivo, crio sempre apenas uma imagem, uma coisa, não um ser humano.
A arte da artista sul-africana Marlene Dumas. Veja mais aqui.


LIVROS PRAS CRIANÇAS

Todo dia é dia de presentear livros pras crianças!
Veja detalhes aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
Leitora Tataritaritatá!!!
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CANTARAU TATARITARITATÁ
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quarta-feira, novembro 15, 2017

BACHELARD, MORIN, FAYGA OSTROWER, ANA PAULA TAVARES & SIRINHAÉM

ESTRELAS, OURO & TODAS AS COISAS - Imagem: Litografia (1981), da pintora, gravadora, desenhista, ilustradora, professora e teórica de arte brasileira nascida na Polônia, Fayga Ostrower (1920-2001). - Quem dera, o cansaço conciliasse o sono desgovernado das andanças de estradeiro, no galope de correr trocando as pernas na lapada do mundo ao deus-dará, já de sobreaviso e a vida no pêndulo ao derredor das circunstâncias, léguas pelos vales de porteira escancarada e o que mais poderia querer na boca da noite, afora do oco vazio prosperando a pulso e o remorso no marulhar das águas, sozinho no terraço. No meio da noite, de um lado, o esplendor da Natureza com tudo e todas as coisas; de outro, a danação da miséria: uns com tanto na servidão de suas mesquinharias e a festa de teres e haveres que são poeiras mais cedo ou mais tarde pras infelizes ganâncias; outros, com tão pouco, quase nada ou nada mesmo e sem ter pra onde ir, se um centavo era seu, por que não, de nada adianta as garras afiadas a mando do umbigo estraçalhado, coisa de quem mata por querer o do outro que não é seu para ser seu a qualquer custo e já agorinha mesmo senão eu morro com um troço atravessado no peito do desgosto. Isso não me interessa, viro pro lado e brinco de rio e mar por entrerrios e outros meios, dizeres de pedras, quantos ontens, recolho estrelas – pra que serve? Se tudo vale ou não, prossigo como quem chuta uma pedra e a estrela sentiu na estrada. A gota da minha lágrima transbordou no copo. Parece que criei meu próprio infortúnio engolfado em negros pensamentos, fraquezas, paradas, tentações. É era pro passo decisivo: não tenho mais pressa, respiro profundamente porque chegou a hora de por termo ao caos de mim mesmo. Agora, adiante. Vez em sempre, sou senhor de mim, não mais escravo do reino manifesto, nem sucumbo ao desânimo. Ouvi o chamamento da sutil e suave voz dentro de mim. Tranquilizei meu intelecto ao saciar a sede de saber, olhos no escuro, silenciei minha voz. Dentro de mim nasce o Sol na manhã e sou a Terra na imensidão do universo. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.

RÁDIO TATARITARITATÁ:
Hoje na Rádio Tataritaritatá Poema on Guitar, Jazz Samba & Afro-Samba, do músico e compositor Baden Powell de Aquino (1937-2000); o Concer to the memorian on the Angel Berg, Violin Bach & Ysaÿes Sonata nº 3 Balade com a violinista russa Alina Ibragimova; o Concert Chello Elga e concertos do violoncelista Antônio Meneses com a pianista Maria João Pires e a Orquestra Jovem de São Paulo; e Variations Goldberg Bach, Bethoven op. 26 e Sonata KV 279 de Mozart com a pianista taiwanesa Pi-Hsien Chen. Para conferir é só ligar o som e curtir.

PENSAMENTO DO DIA - [...] Devemos fazer tudo para desenvolver nossa racionalidade, mas é em seu próprio desenvolvimento que a racionalidade conhece os limites da razão e efetua seu diálogo com o irracionalizável [...] Doravante, aqui residirão nosso único fundamento e nosso único recurso possível [...] no esforço da compreensão e não da condenação, no autoexame que comporta a autocrítica e que se esforça em reconhecer a mentira para si próprio. [...]. Trechos extraídos da obra Amor, poesia, sabedoria (Bertrand Brasil, 2012), do antropólogo, sociólogo e filósofo francês Edgar Morin. Veja mais aqui e aqui.

CRIAÇÃO & CRIATIVIDADE - [...] Criar é, basicamente, formar. É poder dar uma forma a algo novo. Em qualquer que seja o campo de atividade, trata-se, nesse 'novo', de novas coerências que se estabelecem para a mente humana, fenômenos relacionados de modo novo e compreendidos em termos novos. O ato criador abrange, portanto, a capacidade de compreender; e esta, por sua vez, a de relacionar, ordenar, configurar, significar. [...] ao aprender o mundo, o homem aprenda também o próprio ato de apreensão, permite que, aprendendo, o homem compreenda [...] poderia encontrar uma pessoa na rua e nesse encontro notar certos detalhes, o tom de voz, determinados gestos, olhares, a roupa, a pressa com que caminha, ou outros aspectos isolados; talvez tais aspectos tornem o encontro significativo num sentido inteiramente imprevisto. Isto está fora das possibilidades dos animais, que reagem a situações globais concretas [...] Temos de levar em conta que uma realidade configurada exclui outras realidades, pelo menos em tempo e nível idênticos. É nesse sentido, mas só e unicamente nesse, que, no formar, todo construir é um destruir. Tudo o que num dado momento se ordena, afasta por aquele momento o resto do acontecer. É um aspecto inevitável que acompanha o criar e, apesar de seu caráter delimitador, não deveríamos ter dificuldades em apreciar suas qualificações dinâmicas. Já nos prenuncia o problema da liberdade e dos limites. [...] Criar é poder relacionar com precisão. Ou melhor ainda, criar é relacionar com adequação. O referencial dos limites permite que nos relacionamentos se use o senso de proporção, se avalie a justeza no que se faça. Se por algum motivo tivéssemos que estabelecer uma única qualificação condicional para o que é criativo, essa qualificação seria a da adequação, não seria a inovação nem a originalidade. seria a maneira justa e apropriada por que se corresponderiam as delimitações de um conteúdo expressivo e as delimitações de uma materialidade (os meios usados para se configurar). Não teríamos menos do que no caso fosse necessário, pois o resultado seria pobre, insuficiente e não-criativo, mas também não teríamos mais do que o necessário, cujo resultado por sua vez seria não-criativo no sentido de não-verdadeiro, irreal, excessivo, talvez até bombástico e vazio (consequentemente, a originalidade em si não é critério de criação) [...]. Trechos extraídos da obra Criatividade e processos de criação (Vozes, 2002), da pintora, gravadora, desenhista, ilustradora, professor e teórica de arte brasileira nascida na Polônia, Fayga Ostrower (1920-2001), trazendo um referencial da arte com temática interdisciplinar e encarando a criatividade como um potencial próprio de todos os humanos, notadamente quanto aos processos criativos que em geral importam, tais como percepção, formas, intuição e imaginação, assim como o crescimento e a maturidade das pessoas. Veja mais aqui.

A POESIA & O DIREITO DE SONHAR - [...] A poesia é uma metafísica instantânea. Num curto poema deve dar uma visão de universo e o segredo de uma alma, ao mesmo tempo um ser e objetos. Se simplesmente segue o tempo da vida, é menos do que a vida; somente pode ser mais do que a vida se imobilizar a vida, vivendo em seu lugar a dialética das alegrias e dos pesares. Ela é então o princípio de uma simultaneidade essencial, na qual o ser mais disperso, mais desunido, conquista unidade  [...]. Trecho extraído da obra O direito de sonhar (Difel, 1986), do filósofo, crítico literário e epistemólogo francês Gaston Bachelard (1884-1962). Veja mais aqui e aqui.

SIRINHAÉM – O distrito de Sirinhaém foi criado por Alvará datado de 28 de junho de 1759, tinha por vila a denominação de Formosa, criada em 01 de julho de 1627, en2quanto que a Vila Formosa de Sirinhaém criada em 19 de junho de 1627 e instalada em 01 de julho de 1627. A localidade começou a povoar-se em princípios do século XVII. Em 1614, ediciou-se a capelinha de São Roque. De 1620 e 1621, já bem servida a povboação, foi levantada a igreja de Nossa Senhora da Conceicção. Em 1621’, foi elevada à categoria de fregusia, sendo constituído em município autônomo em face da Lei estadual 52 – Lei Organica do Municipios -, datada de 03 de agosto de 1892. Administrativamente, Sirinhaém é formado pelos distritos-sede, Barra de Sirinhaém e Ibiratinga, e pelos povoados da Usina Trapiche e Santo Amaro. Anualmente, no dia 06 de janeiro, comemora a sua emancipação política, conforme a Enciclopédia dos Municipios do Interior de Pernambuco (FIAM/DI, 1986). Veja mais aqui.

O LAGO, DE ANA PAULA TAVARES
Tão manso é o lago dos teus olhos
que temo avançar a mão
cortar as águas
e semear o espanto
na descoberta
da minha sede antiga
Poema extraído do livro Dizes-me coisas amargas como os frutos (Caminhos, 2001), da poeta e historiadora angolana Ana Paula Tavares. Veja mais aqui.

Veja mais:
A poesia de Jorge de Lima aqui.
A literatura de José Saramago aqui.
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CRÔNICA DE AMOR POR ELA
A arte da pintora, gravadora, desenhista, ilustradora, professora e teórica de arte brasileira nascida na Polônia, Fayga Ostrower (1920-2001). Veja mais aqui & aqui.
 

quinta-feira, junho 02, 2016

GINSBERG, FAYGA OSTROWER, BELTRÁN MASSÉS, CLAUDIA ANDUJAR, CONSUELO DE PAULA, BETÚLIA, PORTO CALENDÁRIO, PETROLINA & TEATRO


BETÚLIA, A BELEZURA E OS RESTOS NOS CONFINS DO MUNDO (Imagem: A Sônia, da série O sonho dos outros – da exposição da fotógrafa Claudia Andujar: No lugar do outro) – Betúlia, linda, amável, gentil, educadíssima, nascida em berço de ouro. Tão formosa e sempre na dela, não dava trela pra ninguém. Sempre terna e atenciosa com todos, índole materna, uma vistosa filantropa de assistir crianças, marmanjos, idosos. Sempre dedicada, elegante, obsequiosa e tão nobre na finura do trato com pobres e oprimidos, sempre com um sorriso deferente nos lábios, uma palavra de conforto, um abraço amigo. Uma perfeição encantadora em forma de gente. Um dia seu coração palpitou, abriu mão de tudo: riqueza, família, amigos. Enrabichou-se por um certo Jorgão Bezário, um inculto vistoso, sem eira nem beira, tosco jumento e grosso que só papel de enrolar prego, que se encontrava de passagem por sua cidade. Porte atlético, musculoso, cabeça de fósforos, homem de poucas palavras e brabeza nos gestos. Com todos esses atributos insuportáveis, fora ele responsável por ela abdicar de tudo e findar em Alagoinhanduba depois de perder os três vinténs, o juízo, a vida. Agora tinha um dono, um tosco Apolo pras vistas dela, o seu deus em carne e osso a quem estava reduzida, nada mais. Com seu ar desabrido e todo pavoneado, ele a exibia com seu jeito agreste como um troféu. De forma tarasca e com beijos arrancados na marra, exigência de bruto: - Minha quenga! E ela se ria, enamorada. Toda elegante fineza dela, ao lado do mais brucutu dos descorteses mandonistas. Não havia por ali quem não arregalasse os olhos, caísse o queixo e não cobiçasse aquela engenhosidade do Criador. Ao mesmo tempo que estranhavam como havia de uma belezura daquela, se visse atraída por bonitão tão primitivo. Coisas de catimbó, só sendo. É certo que ele já fora a perdição de muita moça donzela por onde passou. Mas daí admitir a conquista do coração de Betúlia, já era exagero da sorte. Logo ela que parece ter saído por encomenda: lindíssima das faces graciosas, formas assimétricas perfeitas, jeito fascinante, uma maravilha jamais vista de boniteza em qualquer pessoa. Aonde ele chegasse, rispidamente apresentava: - Eis minha quenga, pessoal. Respeitem sempre que sou o macho dela! E ela toda faceira, encantada de andar nas nuvens, enfeitiçada pelo amor. Anos se passaram e a cidade inteira nunca se cansara do assombro com beleza tão refulgente. Cada dia ela se tornava mais bonita. Por onde passasse era admirada, cultuada, reverenciada, invejada até. Certo dia ele chegara duma viagem sozinho e entrara no bar para tirar a poeira da garganta. Alguns desconhecidos numa mesa de perto, exaltavam a beleza de certa mulher. Ele se virou pra eles e disse sem a menor parcimônia: - É porque vocês nunca viram a minha quenga, não existe mulher mais bonita no mundo! Dito isso de peito inchado com toda soberba, tomou uma lapada da aguardente e foi ao sanitário arriar o mijo. De lá ouviu a gritaria: - É ela! É ela! Aquilo que é mulher gostosa! -, comentava um mais afoito do trio visitante. - Aquela merece o cara arriscar a vida pra botar uma gaia! -, arguiu um dos petulantes. E a risadagem corria solta. Ao retornar, Jorgão pega o copo com nova lapada da pinga e foi até a porta vê quem era que os caras estavam elogiando, enquanto degustava do aperitivo. Era ela. Virou-se pra eles e perguntou: - É aquela que vocês acham a belezura que querem foder, é? Eles se levantaram às pressas, conferiram e responderam: - É aquela gostesuda mesmo, aquilo que é uma mulher gostosa de verdade! Nem terminou a frase, o bofete comeu no centro. Jorgão estava mais brabo do que sempre fora. E em meio às tapas, deu pernadas a três por quatro, mãozadas distribuídas a granel. No meio da confusão entrou uma grossa turma do deixa disso, apartando a briga. Os três desafetos insolentes foram prum lado e Jorgão, mais que injuriado, foi pro outro. Ele fumaçava, de cabeça quente. Ruminando sua raiva, resolveu ir proutro bar encher o tampo. Entupiu-se de esborrar e foi pra casa trocando as pernas. Capenga, mal conseguiu entrar em casa aos gritos: - Cadê ele? Ele quem? O macho que tá me botando gaia! Não tem ninguém aqui, meu amor. Meu amor, uma porra! Vou matar esse macho! E saiu revirando às quedas quartos, sala, cozinha, banheiro, até escorregar no lodo do quintal e dar trabalho pra ser levado pra cama. Dormiu de roncar a noite toda e metade da manhã. Acordou-se virado num saco de pentelho arrepiado, aos palavrões e mordido do porco: - Cadê o macho? Que macho? Tô sentindo cheiro de macho! Não tem macho nenhum, meu amor. Meu amor, uma porra! E assim foi-se o dia, entrou pelo outro, uma semana, meses, quase ano, ele brigando com um e com outro, até chegar um dia em casa e fazer do inferno que virou a vida de Betúlia, um momento do mais autêntico terror. Um brilho sinistro no olhar, uma assustadora maldade nas suas faces. A culpa é sua, sua quenga! Você que é a culpada! E partiu pra cima dela, esmurrando, chutando com a fúria dos horrores. Ela se defendia como podia, ele a estapeava, dava-lhe chutes e murros em todas as partes do corpo, até ela cair, aos prantos, arriada num canto da sala. Ele então saca de uma faca peixeira e dá-lhe um talho na face esquerda, na perna direita, na coxa esquerda, numa das mãos. Quanto mais ela tentava se desvencilhar dos golpes, mais o sangue espirrava. E sussurrava irado, vingativo: - Esse é um sangue amaldiçoado! E mais desferia golpes, ela cada vez mais encolhida no canto da sala, não sabia o que fazer. Ele arreou de cócoras para fitar bem seus olhos e bafejou maledicência na sua cara, enquanto deslizava a faca amolada na pele dela, abrindo a carne aos poucos nos braços, pernas, passando a esmurrá-la até cravar várias peixeiradas no dorso, no ventre, nas faces, pescoço, nos seios e membros, arrancar-lhe um a um dos olhos, retalhar os seios, até deixá-la completamente desfigurada. Insatisfeito, saiu arrancando a pele dela, até deixá-la em carne viva. Depois saiu esquartejando, quebrando os ossos, reduzindo-a a pequenos pedaços. Uma calma estranha se apoderava dele, parecendo mais que abatia o mais feroz e odiado animal. Começou a ensacar os pedaços dela: mãos, pés, crânio, tripas e carne. Acomodou tudo num saco grande e depositou ao pé da cama, enquanto foi tomar banho e remover toda a sujeira de sangue. Completamente restabelecido, vestiu-se da domingueira, perfumou-se, armou-se do saco com os restos delas e partiu assobiando como se nada tivesse acontecido para nunca mais ser visto dali. Dezesseis anos depois reaparece ele pelas bandas de Alagoinhanduba, multimilionário, impune e sorridente, adquirindo terras e outras posses, acoloiado de uma tuia de baba-ovo que o endeusa até hoje. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui e aqui.

Imagem: Mujeres, do pintor cubano Federico Beltrán Massés (1885 - 1949)


Curtindo o álbum Dança das rosas (Tratore, 2006), da cantora e compositora Consuelo de Paula. Veja mais aqui.

PESQUISA
Evolução e sentido do teatro (Zahar, 1964), do educador, professor e crítico de teatro e mitologia Francis Fergusson (1904-1986), tratando sobre o ritmo trágico da ação, o teatro da razão, o teatro da paixão, o teatro moderno, a poesia e o poeta no teatro, entre outros assuntos. Veja mais aqui.

LEITURA 
 Foi na proa da Boa Paisagem que apareceu pela primeira vez a figura de uma mulher mirando o rio. Xico Baquiba me disse: amigo Cipriano, tenho encomenda do capitão Zé Custódio, de Juazeiro, de uma carranca diferente. Penso em muitos assucedidos e um me vem na cabeça. Era a estória de Siana Branca. Foi numa noite no Alto do Menino Deus, eu maginava olhando pro céu: oo que irá acontecer no dia em que a arca de Noé, navegando, for se aprotar nas Tres Marias? De repente – e me benzi – uma cuereira veio por cima da minha cabeça e foi sentar-se no cruzeiro. Apagaram-se as luzes do firmamento e tudo ficou escuro. Foi quando um resplendor se abriu e vi o desencantamento. A ave virou uma mulher e veio rezar por seus pecados. Vi suas feições e elas ficaram direitinhas nos meus olhos tal qual Xico Biquiba fez a cabeça da Boa Paisagem. Subiu mais um degrau da escada e continuava, arrebatado: - Nunca vouve por todo o São Francisco e os corghos mulher tão bonita como esta Siana Branca de Correntina. Desgraçada, por si nunca aceitou um homem por mais rico e poderoso que fosse e, só aos remeiros dava seu amor. Um belo dia vinha chegando uma barca embalada na cantiga de quem chega sorrindo. Neste tempo passava uma menina com uma rosa para o altar de Nossa Senhora e Siana Branca lhe disse: - Menina, me vende essas rosas... – Não vendo, não. É promessa de minha mãe... Se dava; as mulheres nos porotos enfeitavam a cabeça com flores no dia em que chegavam os seus amigos, e Siana Branca entrou na igreja e roubou as rosas para botar nos seus cabelos castanhos. Quando a barca encostou foram para sua casa e estava vazia. Por mais que procurassem nunca mais foi vista. Nem na Barra, nem em Juazeiro, nem em Januária e por aqui, e tudo se esclareceu. Siana Branca, pelo seu pecado, tinha virado uma cuereira. E entrando por um bico de pinto e saindo por um bico de pato, eu lhes digo meus meninos: deste dia em diante as cuereiras que eram brancas, acordam cedo para tingirem na madrugada suas penas com a cor das rosas. Agora, nas noites de lua, a Boa Paisagem, na parada dos pousos, se ouve a modinha de eu sou como a garça triste e a tripulação acorda chorando com saudade de alguém [...].
Trecho do romance Pôrto Calendário: romance do São Francisco (Francisco Alves, 1961), do romancista, alfaiate e militante comunista Osório Alves de Castro (1898-1978). Veja mais aqui, aqui e aqui.

PENSAMENTO DO DIA:
[...] Eu, de qualquer forma, talvez tão velho como o universo – e penso que ele morre conosco – o suficiente para cancelar o que vem depois – Aquilo que veio parte sempre cada vez – isso é bom! Assim, não há do que arrepender-se – nada de radiadores de medo, desamor, tortura, até dor de dento no final – embora ao vir seja um leão devorando a alma – e o cordeiro a alma em nós, ah! Oferecendo-se em sacrifício para a feroz fome da mudança – pelo e dentes – e o rugido da dor nos ossos, crânio, pelado, costela quebrada, pele rasgada, implacabilidade Ai, ai! Cada vez pior! Estamos numa fria! E você está fora, a Morte deixou-a fora, a Morte teve piedade, você passou pelo século, passou por Deus, passou pelo caminho que chega lá – finalmente passou por você mesma – pura – de volta à escuridão Bebê anterior a seu Pai, anterior a todos nós, anterior ao mundo – lá, repousa. Mais nada de sofrimento para você. Seu para onde foi, tudo bem. [...]
Trecho do poema Kadish da obra Uivo, Kadish & outros poemas (1953-1960 - L&PM, 1984), do poeta estadunidense da geração beat Allen Ginsberg (1926-1997). Veja mais aqui e aqui.

IMAGEM DO DIA
Estátua de Iemanjá, Mãe D’Água, Rio São Francisco – Petrolina – PE. Veja mais aqui.

Veja mais sobre Brincarte do Nitolino, Allen Ginsberg, José Lins do Rego, Alain Resnais, Catherine Deneuve, Raoul Dufy, Charles Lecocq, Signo Teatral & O Choque das Civilizações aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
Imagem: Klimt plus Fayga, da pintora, gravadora, desenhista, ilustradora, professor e teórica de arte brasileira nascida na Polônia, Fayga Ostrower.
Veja mais aqui, aqui e aqui.

CANTARAU: VAMOS APRUMAR A CONVERSA
Recital Musical Tataritaritatá
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GONÇAL MAYOS, MARINE PETROSSIAN, PÉTER NÁDAS & IRANDHIR SANTOS

  Imagem: Arrostar aporias , da série Caosmose & O poema nasce do visinvisível - Acervo ArtLAM .   Fábula dos embeiçados desavindos... ...