Mostrando postagens com marcador Iemanjá. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Iemanjá. Mostrar todas as postagens

quarta-feira, maio 20, 2020

LILIANE GIRAUDON, LYDIA CABRERA, TOSHIE KOBAYASHI & DÉBORA BRITTO


DIÁRIO DE QUARENTENA – UMA: PERDI A NOÇÃO DE TUDO - Não sei direito que dia é hoje, ou se ainda é ontem, muito menos se amanheci amanhã e agora sem tempo, sou apenas o espaço do isolamento. Para quem nunca teve, manter a sanidade até que não é lá tão difícil, o pior é ter que sobreviver entre ilações e vitupérios. Embora Clara Schumann sussurre ao meu ouvido: Todos têm os seus defeitos, eu tenho e você também - permita-me dizê-lo! Eu sei, sabemos. Nada é fácil. E ela ainda é generosa comigo: Se eu tivesse encontrado mais dificuldades na minha juventude, eu teria conhecido mais alegrias. No reino dos paradoxos, um a mais não deprime tanto, talvez desendoideça de vez. DUAS: DOS NEGACIONISTAS & OUTRAS RETAS & TERRAPLANAS - Enquanto eu me desligo enlouqueço os algoritmos. Rompendo bolhas, sarava! E os médicos da verdade coisonária distribuem cloroquina de graça pro meu povão desavisado. Escroques! Sou lá de ficar na gaiola de Skinner com a moçada da mamadeira de piroca que elegeu a coisa no Brasil, pegadinhas na festa da Lei de Moore e no meio dos insultos para validação das curtidas que nem são para mim ouro da dopamina, nada disso, estou mais com os 10 motivos de Jaron Lanier, porque sou Gutenberg de hoje na fala de Paul Ricoeur: Nós somos hoje responsáveis pelo futuro mais longínquo da humanidade. Em uma escala cósmica, nossa vida é insignificante, mas esse breve período em que aparecemos no mundo é o momento em que todas as questões significativas surgem. Pois é. Enquanto os reclinados desconvêm de tudo em defesa do seu eugênico holocausto, suas estultices odientas a desconcordarem coisados com suas injúrias enfurecidas e thanatizadas o que é de fato e de direito, eu vou lamentando os meus que sucumbem em covas emergenciais, Deus nos tenha. TRÊS: O AMOR, NUNCA O ÓDIO – Chega de falar de ódio, deve-se combatê-lo, não propagá-lo. É preciso cobrar do Congresso Nacional e do STF por tanta inação diante de tantos descalabros coisonários e escusas intervenções e Centrãos e o diabo a quatro – ou será colusão para deixar correr para ver como é que fica, ou desbrio mesmo jogando um pro outro, sei lá. Sem esmorecer nem perder a ternura jamais, vou de Balzac: O amor não é apenas um sentimento: é também uma arte. O amor é a poesia dos sentidos. Ou é sublime, ou não existe. Quando existe, existe para todo o sempre e aumenta cada vez mais. Não só sinto, eu vivo. E se eu tiver algo a dizer, melhor calado, menor será a minha estupidez. Vamos aprumar a conversa, gente! Até amanhã! © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais abaixo e aqui.

DITOS & DESDITOS: [...] Sonho do livro sem título. Seu espectro, sempre invisível. Acu­mular notas. Olhar. Ouvir. Andar por essa cidade sem nome de rua como uma completa imbecil. Cabeça coberta. Tornozelos cobertos. Mangas compridas. Ruas destruídas onde andar exige uma atenção permanente (pavor de quebrar uma perna, acabar num hospital). Sem esgotos funcionando. Cortes de eletricidade todas as noites. Por vezes durante o dia. Esta poeira em tudo. Em suspensão no ar. Depositada em tudo que se mexe e também nos objetos. Coisas mortas ou vivas. Escrever com as mesmas ferramentas que as com­pradas para desenhar [...] Os americanos não dão atenção (uma vez que a heroína não se exporta prioritariamente aos EUA, que consomem principal­mente cocaína). Nenhum desses superpoliciais parece acreditar na possibilidade de uma solução democrática. Uma economia globalizada (droga, ONG, dinheiro dos aliados, ajudas internacionais sob a égide americana) faz desse país um barril de pólvora. Pobreza, analfabetismo, injustiças, incoerências e violências do sistema alimentam os grupos islamistas radicais, fazendo com que alguns até lamentem o desaparecimento do reino dos talibãs. Isto é: 1. Interdição às mulheres de tirar o véu (e de circular sem estarem acompanhadas por um parente do sexo masculino). 2. Interdição de música (fitas e músicas proibidas nos comércios, nos hotéis e nos veículos de transporte). 3. Interdição aos homens de se barbear. 4. Obrigação de rezar. (É obrigatório ir à mesquita durante a reza). 5. Interdição de jogos de pombos e de lutas de pássaros. 6. Eliminação da droga e de seus consumidores. 7. Interdição de empinar papagaios de papel. (As lojas que vendem papagaios são eliminadas). 8. Interdição da idolatria (imagens e retratos devem ser eliminados dos veículos, lojas, casas, hotéis, museus, livrarias, etc.) 9. Interdição de jogos a dinheiro (jogadores presos durante um mês). 10. Interdição dos cortes de cabelo ingleses ou americanos (os homens de cabelo comprido são presos e rapados). 11. Interdição de lucros sobre empréstimos, comissões de câmbio e taxas sobre transações. 12. Interdição às mulheres de lavar roupa nas margens dos rios urbanos. 13. Interdição de música e de dança durante os casamentos. 14. Interdição de tocar instrumentos de percussão. 15. Interdição aos alfaiates de tomar medidas de mulheres e de lhes confeccionar roupas (revistas de moda proibidas). 16. Interdição de feitiçaria (livros queimados). A esses 16 pontos acrescentava-se uma mensagem às mulheres pedindo-lhes que não saíssem mais de casa. [...] Pergunta feita a mim mesma: Como a água pode lavar uma cor visível mas sem existência real? Agora o efeito de um leve flutuar tão agradável (tira-se o caranguejo, o corpo, o medo da morte) parece ter-se diluído. O arranhar da caneta no papel não é uma ilusão. O ar está carregado de cinza. Sobre a grama escassa, um pássaro de bico amarelo olha para mim. Trechos da obra Os talibãs não gostam de ficção (ALEA, 2008), da escritora francesa Liliane Giraudon, um caderno de viagem ao Afeganistão, em que, em meio a uma multidão povoada de burkas e de homens armados, as palavras captam sensações, odores, pai­sagens e corpos urbanos, humanos.

IEMANJÁ DE LYDIA CABRERA
[...] Iemanjá é a Rainha Universal, porque é a água, a salgada e a doce, o Mar, a Mãe de tudo que foi criado [...]. Sem água não existe vida. De Iemanjá nasceu a vida. E do Mar nasceu o santo [...]. As filhas de Iemanjá são voluntariosas, fortes, rigorosas, protetoras, altivas e, algumas vezes, impetuosas e arrogantes; têm o sentido da hierarquia, fazem-se respeitar e são justas mas formais; põem à prova as amizades que lhes são devotadas, custam muito a perdoar uma ofensa e, se a perdoam, não a esquecem jamais. Preocupam-se com os outros, são maternais e sérias. Sem possuírem a vaidade de Oxum, gostam do luxo, das fazendas azuis e vistosas, das joias caras. Elas têm tendência à vida suntuosa mesmo se as possibilidades do cotidiano não lhes permitem um tal fausto. [...].
LYDIA CABRERA - Trechos extraídos da obra Iemanjá e Oxum (Edusp, 2002), da antropóloga e poeta cubana Lydia Cabrera (1899-1991). Também para Iemanjá, um poema de Manuel Bandeira: D. Janaína/ Sereia do mar/ D. Janaína/ De maiô encarnado/ D. Janaína/ Vai se banhar./ D. Janaína/ Princesa do mar/ D. Janaína/ Tem muitos amores/ É o rei do Congo/ É o rei de Aloanda/ É o sultão-dos matos/ É S. Saravá!/ Saravá saravá/ D. Janaína/ Rainha do mar!/ D. Janaína/ Princesa do mar/ Daime licença/ Pra eu também brincar/ No vosso reinado. Veja mais aqui, aqui & aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
Um espírito de disciplina e de rigor muito sérios imbuíam a transmissão do conhecimento do balé. Como toda arte, a dança exige anos de prática e de dedicação. Como o brasileiro não tem essa paciência toda, eles acabam voltando para o Brasil. No retorno, dão de cara com uma concorrência acirrada e se vêm obrigados a se aperfeiçoar cada vez mais, inclusive em técnicas contemporâneas. Nesse sentido, a mentalidade do brasileiro melhorou muito. Bato nesta tecla: bailarino tem que ter estudo. Com muito cuidado, procuro falar, ensinar e encaminhar. É preciso amar muito o que se faz. Tiro leite de pedra!
TOSHIE KOBAYASHI – A arte da bailarina, professora e coreógrafa Toshie Kobayashi (1946-2016), que iniciou sua carreira aos 10 anos de idade, ao se matricular na Escola Municipal de Bailados (EMB) de São Paulo - atual Escola de Dança de São Paulo, atuando na escola por 35 anos, ao inaugurar o estúdio Ballet Toshie Kobayashi e se tornar membro da Royal Academy of Dance, de Londres. Veja mais aqui & aqui.

PERNAMBUCULTURARTES
antes fosse a poesia / disfarçada por recursos e lírica / antes fosse, antes fosse. / antes fosse a minha sorte / que no lugar de você / fosse qualquer sorte ou azar. / mas foi minha, minha poesia / e te fez sorte, / e te trouxe disfarçada. / antes fosse azar escancarado / antes admitisse o veneno, / que, por um beijo, me contaminasse. / antes fosses anunciado / azar meu, sorte minha / antes levasse a poesia, / e me deixasse intacta / antes meu azar do que isto / isto que não restou e / e.
toda sorte, poema da jornalista e poeta Débora Britto, que é integrante do Fórum Pernambucano de Comunicação (FOPECOM) e repórter da Marco Zero Conteúdo. Ela edita o blog ideias soltas e devaneios atemporais.
&
A arte da poeta e artista plástica Jussara Salazar aqui.
A música da cantora e compositora Maria Dapaz aqui.
A corrupção de um juiz (Patativa, 1998), do controvertido advogado criminalista Gil Teobaldo de Azevedo (1932-2017) aqui.
A arte do fotógrafo Osmário Marques aqui.
A arte do Mestre José Duda do Zumbi (José Galdino da Silva Duda – 1866-1931) aqui.
História do Soldado 100 anos da Orquestra de Câmara de Pernambuco aqui.
O faz-tudo, a bronca & a borreia aqui.
 

quarta-feira, agosto 14, 2019

ANTÔNIO TORRES, FRANTZ FANON, CECÍLIA KERCHE, IEMANJÁ & CARTA DE AGOSTO


OUTRA CARTA DE AGOSTO - Há quem ame em silêncio para se eternizar, porque se é verdade ali se sustenta e persegue duradouro como passagem e sustentáculo sobre o abismo da existência e resiste e se enreda e se refaz para ir mais longe do que se espera. Há também aquelaqueles que por uma ou outras razões desistem ou sujeitam o amor à morte prematura, escravos de si próprios: colecionam aventuras só por passatempo ou na coisitude do aqui-agora. E findam carregando quatrocentos mil grilhões desse mundo e tudo que há nele, no vazio ou ruínas de desamor: despenca porque não era de verdade, só simulacro para volúveis e voláteis que ditam prazo e sofisma, com seus caprichos de infelizes carentes egoístas, usurários de paixões frívolas que ficam pelo caminho à espera de novos episódios pros seus ardilosos corações que parecem padecer com derramados prantos por nunca terem sido amados quando, na verdade, nunca tiveram a capacidade de amar ou sequer amaram. Mera encenação. Havia de ter um mínimo de consideração. Mas, não. Tudo agora é tão descontínuo, descartável. Ah, deixa para lá. Do muito tido e havido, algo mais que a vida e anseios recíprocos, eu mesmo cruzei até as terras do futuro desde quando acabei de nascer. Quantas vezes, passado para trás, segui adiante, como não havia de ser nada, não conto derrotas mesmo arrasado entre imposturas. Só há caminho para quem anda e segue, mesmo aos solavancos, por trajetos que nunca estancam no que há de mais improvável, íngremes e desfeitos, estéreis e refeitos, vez que o Sol cresce, a Lua mingua, o dia anoitece e volta a amanhecer, não precisa que acredite ser tudo possível ou não. Muitas vezes fechava os olhos na tentativa de dormir – tormentos que inflamavam latejando no corpo a buscar forças na dor inigualável e compartilhada por incontáveis dias, o mundo na cacunda e punhais enfiados no dorso. Afinal, não há escuros nem palpos de aranhas, qualquer momento é hora de libertação. É só seguir em paz. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.

DITOS & DESDITOS:
[...] E era assim que ela ia: sonhando. Feliz, feliz. E quando o caminhão alcançou o topo da ladeira do cruzeiro, o motorista jogou para a direita, desviando-se da estrada. Parou. Desligou o motor e ficou olhando para ela. – Me abraça – ele disse. Ela o abraçou. – Me beija. – Ela o beijou. – Que tal a gente começa por aqui? – ele disse. Ela não o ouviu, ou fez de conta que não tinha ouvido, nem entendido. Continuava a beijá-lo. Então ele repetiu a pergunta e ela disse: - O quê? – E ele: - O amor. – Virinha respondeu, entre soluços: - Ah, o amor. O amor é bom. Que bom que você gosta. – Então vamos descer e começar por aqui. – Começar o quê? – O amor. – Mas nós já começamos. – Sim, começamos. Estamos no bom. Agora vamos ao melhor. – Melhor ainda? – ela disse. – Claro, ainda vai ser melhor – ele disse, desvencilhando-se de seus braços e abrindo a porta e descendo e dando a volta para abrir a outra porta para que ela descesse. Virinha desceu, sem dizer nada, sem perguntar nada. Ele pegou em sua mão e foi andando. Era como um sonho: tudo acontecia tão depressa. – Ali – ele disse, puxando-a para um regueirão que os encobria da estrada. [...].
Trechos extraídos da obra Adeus, velho (Ática, 1985), do premiadíssimo escritor, jornalista e ocupante da cadeira 23 da Academia Brasileira de Letras, Antônio Torres. Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui, aqui .

IEMANJÁ
Art by Patricia Ariel
[...] Cercada de algas e estrelas-do-mar, peixes, corais, conchas de madrepérola, Iemanjá se estabeleceu na superfície das águas junto ao continente. Era a nova senhora do mar, a filha dileta de Olocum. Iemanjá casou-se com seu irmão Aganju, e dessa união nasceu Orugã. Um dia, aproveitando-se da ausência do pai, Orungã raptou e violentou a mãe. Aflita e entregue a total desespero, Iemanjá desprendeu-se dos braços do filho incestuoso e fugiu. Orungã a perseguiu. Quando ele estava prestes a alcançá-la, ela caiu desfalecida. Então seus seios cresceram desmedidamente, a barriga inchou até ficar do tamanho do mundo e se rompeu. Do ventre aberto nasceram todos os orixás que ainda não haviam nascido. [...].
Trecho extraído da obra Contos e lendas afro-brasileiros: a criação do mundo (Companhia das Letras, 2007), de Reginaldo Prandi. Veja mais aqui, aqui, aqui & aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
Um espetáculo perfeito me faz sentir realizada. É como um cientista descobrir a cura para uma doença importante.
A arte da bailarina Cecília Kerche. Veja mais aqui, aqui e aqui.

A OBRA DE FRANTZ FANON
No mundo pelo qual viajo, estou me criando infinitamente. O que importa não é conhecer o mundo, mas modificá-lo.
A obra do psiquiatra, filósofo e ensaísta francês da Martinica, Frantz Fanon (1925-1961) aqui.


quinta-feira, junho 02, 2016

GINSBERG, FAYGA OSTROWER, BELTRÁN MASSÉS, CLAUDIA ANDUJAR, CONSUELO DE PAULA, BETÚLIA, PORTO CALENDÁRIO, PETROLINA & TEATRO


BETÚLIA, A BELEZURA E OS RESTOS NOS CONFINS DO MUNDO (Imagem: A Sônia, da série O sonho dos outros – da exposição da fotógrafa Claudia Andujar: No lugar do outro) – Betúlia, linda, amável, gentil, educadíssima, nascida em berço de ouro. Tão formosa e sempre na dela, não dava trela pra ninguém. Sempre terna e atenciosa com todos, índole materna, uma vistosa filantropa de assistir crianças, marmanjos, idosos. Sempre dedicada, elegante, obsequiosa e tão nobre na finura do trato com pobres e oprimidos, sempre com um sorriso deferente nos lábios, uma palavra de conforto, um abraço amigo. Uma perfeição encantadora em forma de gente. Um dia seu coração palpitou, abriu mão de tudo: riqueza, família, amigos. Enrabichou-se por um certo Jorgão Bezário, um inculto vistoso, sem eira nem beira, tosco jumento e grosso que só papel de enrolar prego, que se encontrava de passagem por sua cidade. Porte atlético, musculoso, cabeça de fósforos, homem de poucas palavras e brabeza nos gestos. Com todos esses atributos insuportáveis, fora ele responsável por ela abdicar de tudo e findar em Alagoinhanduba depois de perder os três vinténs, o juízo, a vida. Agora tinha um dono, um tosco Apolo pras vistas dela, o seu deus em carne e osso a quem estava reduzida, nada mais. Com seu ar desabrido e todo pavoneado, ele a exibia com seu jeito agreste como um troféu. De forma tarasca e com beijos arrancados na marra, exigência de bruto: - Minha quenga! E ela se ria, enamorada. Toda elegante fineza dela, ao lado do mais brucutu dos descorteses mandonistas. Não havia por ali quem não arregalasse os olhos, caísse o queixo e não cobiçasse aquela engenhosidade do Criador. Ao mesmo tempo que estranhavam como havia de uma belezura daquela, se visse atraída por bonitão tão primitivo. Coisas de catimbó, só sendo. É certo que ele já fora a perdição de muita moça donzela por onde passou. Mas daí admitir a conquista do coração de Betúlia, já era exagero da sorte. Logo ela que parece ter saído por encomenda: lindíssima das faces graciosas, formas assimétricas perfeitas, jeito fascinante, uma maravilha jamais vista de boniteza em qualquer pessoa. Aonde ele chegasse, rispidamente apresentava: - Eis minha quenga, pessoal. Respeitem sempre que sou o macho dela! E ela toda faceira, encantada de andar nas nuvens, enfeitiçada pelo amor. Anos se passaram e a cidade inteira nunca se cansara do assombro com beleza tão refulgente. Cada dia ela se tornava mais bonita. Por onde passasse era admirada, cultuada, reverenciada, invejada até. Certo dia ele chegara duma viagem sozinho e entrara no bar para tirar a poeira da garganta. Alguns desconhecidos numa mesa de perto, exaltavam a beleza de certa mulher. Ele se virou pra eles e disse sem a menor parcimônia: - É porque vocês nunca viram a minha quenga, não existe mulher mais bonita no mundo! Dito isso de peito inchado com toda soberba, tomou uma lapada da aguardente e foi ao sanitário arriar o mijo. De lá ouviu a gritaria: - É ela! É ela! Aquilo que é mulher gostosa! -, comentava um mais afoito do trio visitante. - Aquela merece o cara arriscar a vida pra botar uma gaia! -, arguiu um dos petulantes. E a risadagem corria solta. Ao retornar, Jorgão pega o copo com nova lapada da pinga e foi até a porta vê quem era que os caras estavam elogiando, enquanto degustava do aperitivo. Era ela. Virou-se pra eles e perguntou: - É aquela que vocês acham a belezura que querem foder, é? Eles se levantaram às pressas, conferiram e responderam: - É aquela gostesuda mesmo, aquilo que é uma mulher gostosa de verdade! Nem terminou a frase, o bofete comeu no centro. Jorgão estava mais brabo do que sempre fora. E em meio às tapas, deu pernadas a três por quatro, mãozadas distribuídas a granel. No meio da confusão entrou uma grossa turma do deixa disso, apartando a briga. Os três desafetos insolentes foram prum lado e Jorgão, mais que injuriado, foi pro outro. Ele fumaçava, de cabeça quente. Ruminando sua raiva, resolveu ir proutro bar encher o tampo. Entupiu-se de esborrar e foi pra casa trocando as pernas. Capenga, mal conseguiu entrar em casa aos gritos: - Cadê ele? Ele quem? O macho que tá me botando gaia! Não tem ninguém aqui, meu amor. Meu amor, uma porra! Vou matar esse macho! E saiu revirando às quedas quartos, sala, cozinha, banheiro, até escorregar no lodo do quintal e dar trabalho pra ser levado pra cama. Dormiu de roncar a noite toda e metade da manhã. Acordou-se virado num saco de pentelho arrepiado, aos palavrões e mordido do porco: - Cadê o macho? Que macho? Tô sentindo cheiro de macho! Não tem macho nenhum, meu amor. Meu amor, uma porra! E assim foi-se o dia, entrou pelo outro, uma semana, meses, quase ano, ele brigando com um e com outro, até chegar um dia em casa e fazer do inferno que virou a vida de Betúlia, um momento do mais autêntico terror. Um brilho sinistro no olhar, uma assustadora maldade nas suas faces. A culpa é sua, sua quenga! Você que é a culpada! E partiu pra cima dela, esmurrando, chutando com a fúria dos horrores. Ela se defendia como podia, ele a estapeava, dava-lhe chutes e murros em todas as partes do corpo, até ela cair, aos prantos, arriada num canto da sala. Ele então saca de uma faca peixeira e dá-lhe um talho na face esquerda, na perna direita, na coxa esquerda, numa das mãos. Quanto mais ela tentava se desvencilhar dos golpes, mais o sangue espirrava. E sussurrava irado, vingativo: - Esse é um sangue amaldiçoado! E mais desferia golpes, ela cada vez mais encolhida no canto da sala, não sabia o que fazer. Ele arreou de cócoras para fitar bem seus olhos e bafejou maledicência na sua cara, enquanto deslizava a faca amolada na pele dela, abrindo a carne aos poucos nos braços, pernas, passando a esmurrá-la até cravar várias peixeiradas no dorso, no ventre, nas faces, pescoço, nos seios e membros, arrancar-lhe um a um dos olhos, retalhar os seios, até deixá-la completamente desfigurada. Insatisfeito, saiu arrancando a pele dela, até deixá-la em carne viva. Depois saiu esquartejando, quebrando os ossos, reduzindo-a a pequenos pedaços. Uma calma estranha se apoderava dele, parecendo mais que abatia o mais feroz e odiado animal. Começou a ensacar os pedaços dela: mãos, pés, crânio, tripas e carne. Acomodou tudo num saco grande e depositou ao pé da cama, enquanto foi tomar banho e remover toda a sujeira de sangue. Completamente restabelecido, vestiu-se da domingueira, perfumou-se, armou-se do saco com os restos delas e partiu assobiando como se nada tivesse acontecido para nunca mais ser visto dali. Dezesseis anos depois reaparece ele pelas bandas de Alagoinhanduba, multimilionário, impune e sorridente, adquirindo terras e outras posses, acoloiado de uma tuia de baba-ovo que o endeusa até hoje. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui e aqui.

Imagem: Mujeres, do pintor cubano Federico Beltrán Massés (1885 - 1949)


Curtindo o álbum Dança das rosas (Tratore, 2006), da cantora e compositora Consuelo de Paula. Veja mais aqui.

PESQUISA
Evolução e sentido do teatro (Zahar, 1964), do educador, professor e crítico de teatro e mitologia Francis Fergusson (1904-1986), tratando sobre o ritmo trágico da ação, o teatro da razão, o teatro da paixão, o teatro moderno, a poesia e o poeta no teatro, entre outros assuntos. Veja mais aqui.

LEITURA 
 Foi na proa da Boa Paisagem que apareceu pela primeira vez a figura de uma mulher mirando o rio. Xico Baquiba me disse: amigo Cipriano, tenho encomenda do capitão Zé Custódio, de Juazeiro, de uma carranca diferente. Penso em muitos assucedidos e um me vem na cabeça. Era a estória de Siana Branca. Foi numa noite no Alto do Menino Deus, eu maginava olhando pro céu: oo que irá acontecer no dia em que a arca de Noé, navegando, for se aprotar nas Tres Marias? De repente – e me benzi – uma cuereira veio por cima da minha cabeça e foi sentar-se no cruzeiro. Apagaram-se as luzes do firmamento e tudo ficou escuro. Foi quando um resplendor se abriu e vi o desencantamento. A ave virou uma mulher e veio rezar por seus pecados. Vi suas feições e elas ficaram direitinhas nos meus olhos tal qual Xico Biquiba fez a cabeça da Boa Paisagem. Subiu mais um degrau da escada e continuava, arrebatado: - Nunca vouve por todo o São Francisco e os corghos mulher tão bonita como esta Siana Branca de Correntina. Desgraçada, por si nunca aceitou um homem por mais rico e poderoso que fosse e, só aos remeiros dava seu amor. Um belo dia vinha chegando uma barca embalada na cantiga de quem chega sorrindo. Neste tempo passava uma menina com uma rosa para o altar de Nossa Senhora e Siana Branca lhe disse: - Menina, me vende essas rosas... – Não vendo, não. É promessa de minha mãe... Se dava; as mulheres nos porotos enfeitavam a cabeça com flores no dia em que chegavam os seus amigos, e Siana Branca entrou na igreja e roubou as rosas para botar nos seus cabelos castanhos. Quando a barca encostou foram para sua casa e estava vazia. Por mais que procurassem nunca mais foi vista. Nem na Barra, nem em Juazeiro, nem em Januária e por aqui, e tudo se esclareceu. Siana Branca, pelo seu pecado, tinha virado uma cuereira. E entrando por um bico de pinto e saindo por um bico de pato, eu lhes digo meus meninos: deste dia em diante as cuereiras que eram brancas, acordam cedo para tingirem na madrugada suas penas com a cor das rosas. Agora, nas noites de lua, a Boa Paisagem, na parada dos pousos, se ouve a modinha de eu sou como a garça triste e a tripulação acorda chorando com saudade de alguém [...].
Trecho do romance Pôrto Calendário: romance do São Francisco (Francisco Alves, 1961), do romancista, alfaiate e militante comunista Osório Alves de Castro (1898-1978). Veja mais aqui, aqui e aqui.

PENSAMENTO DO DIA:
[...] Eu, de qualquer forma, talvez tão velho como o universo – e penso que ele morre conosco – o suficiente para cancelar o que vem depois – Aquilo que veio parte sempre cada vez – isso é bom! Assim, não há do que arrepender-se – nada de radiadores de medo, desamor, tortura, até dor de dento no final – embora ao vir seja um leão devorando a alma – e o cordeiro a alma em nós, ah! Oferecendo-se em sacrifício para a feroz fome da mudança – pelo e dentes – e o rugido da dor nos ossos, crânio, pelado, costela quebrada, pele rasgada, implacabilidade Ai, ai! Cada vez pior! Estamos numa fria! E você está fora, a Morte deixou-a fora, a Morte teve piedade, você passou pelo século, passou por Deus, passou pelo caminho que chega lá – finalmente passou por você mesma – pura – de volta à escuridão Bebê anterior a seu Pai, anterior a todos nós, anterior ao mundo – lá, repousa. Mais nada de sofrimento para você. Seu para onde foi, tudo bem. [...]
Trecho do poema Kadish da obra Uivo, Kadish & outros poemas (1953-1960 - L&PM, 1984), do poeta estadunidense da geração beat Allen Ginsberg (1926-1997). Veja mais aqui e aqui.

IMAGEM DO DIA
Estátua de Iemanjá, Mãe D’Água, Rio São Francisco – Petrolina – PE. Veja mais aqui.

Veja mais sobre Brincarte do Nitolino, Allen Ginsberg, José Lins do Rego, Alain Resnais, Catherine Deneuve, Raoul Dufy, Charles Lecocq, Signo Teatral & O Choque das Civilizações aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
Imagem: Klimt plus Fayga, da pintora, gravadora, desenhista, ilustradora, professor e teórica de arte brasileira nascida na Polônia, Fayga Ostrower.
Veja mais aqui, aqui e aqui.

CANTARAU: VAMOS APRUMAR A CONVERSA
Recital Musical Tataritaritatá
Veja aqui.

GLAUCE ROCHA, KRISZTINA TÓTH, JERRY JENKINS, JACQUES VALLÉE & OLINDA.

    Imagem: Ensaio de múltiplas dimensões , da série Caosmose & O poema nasce do visinvisível - Acervo ArtLAM . Do lançamento TTTTT e...