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sábado, junho 03, 2017

GARATUJA DE GINSBERG, REPARAÇÃO DE IAN MCEWAN, AS ESCULTURAS DE BIHOREL & PROGRAMA TATARITARITATÁ!

PROGRAMA TATARITARITATÁ – Tudo começou na primeira metade dos anos 1980, nas tardes das terças, quintas e sábados, quando apresentei ao lado de Gilberto Mélo, o programa HorAgá, na Rádio Cultura dos Palmares, com entrevistas, notícias, debates, músicas e entretenimento. Em 1986, assumi o Departamento de Jornalismo da Rádio Quilombo FM, em Palmares – PE, redigindo e apresentando de manhã o Grande Jornal Quilombo com a Crônica do Dia, ao meio dia a Tribuna do Povo e, nas tardes dos domingos, o programa Panorama, com músicas, curiosidades e entrevistas na seção Destaque, na qual tive a oportunidade de entrevistar grandes nomes da música brasileira, como Milton Nascimento, Geraldo Azevedo, Alceu Valença, Marina Lima, Beto Guedes, entre outros. Nesse período assumi a direção regional do Sindicato dos Radialistas de Pernambuco, na gestão de Roberto Calou. Na segunda metade dos anos 1990, editei o Boletim Nascente, oriundo do tablóide Nascente Lítero-Cultural, transformado em 1998 no Boletim Tataritraitatá, até 2002, ocasião em que ocorreu a criação do blog Tataritaritatá, numa parceria com a poeta e webdesigner Mariza Lourenço e o cartunista Márcio Baraldi. Em 2004 foi a vez da criação do Zine Tataritaritatá, uma parceria com a atriz Mirita Nandi, a psicóloga Ana Bia Luz e a saudosa webdesiner Derinha Rocha. Em 2006 transformamos em sítio na internet, com croniquetas, noveletas e eventos culturais e artísticos. Em 2007 passei a ministrar a palestra/oficina Tataritaritatá: Vamos aprumar a conversa, sobre literatura de cordel e arte popular, realizado em escolas e faculdades, a exemplo do Projeto Protejo do Ministério da Justiça, culminando, em 2008, com o lançamento do folheto de cordel Tataritaritatá. O resultado dessas atividades levou a criação e apresentação do programa Tataritaritatá, inserido no Alagoas Frente & Verso, do jornalista João Marcos Carvalho, na Rádio Difusora de Alagoas, em 2009. Por consequência, em 2010, transformei em show poético-musical, apresentado no projeto Palco Aberto, ArtNor e em outros eventos, tanto com a banda como em apresentação solo. Deu-se, então, em 2012, a inserção do programa na grade da Rádio Cidade FM, em Minas Gerais, passando a integrar o extinto Projeto MCLAM até 2015. Agora, completamente renovado e revigorado, volta com todo pique, no formato de um programa envolvendo o universo da arte com curiosidades, humor, música, notícias e entretenimento. A estréia será na próxima sexta-feira, dia 09 de junho, a partir da meia noite e você, pessoamiga, já está convidada a participar. Aguardo sua inestimável presença e participação. Vamos aprumar a conversa? Vamos juntos & tataritaritatá! © Luiz Alberto Machado. Veja mais aqui e aqui.

REPARAÇÃO DE IAN MCEWAN
[...] todo amor que não fosse fundado no bom senso estava fadado ao fracasso. [...] Porém, não havia gaveta oculta, diário com cadeado nem sistema de criptografia que pudesse esconder de Briony a verdade pura e simples: ela não tinha segredos. Seu desejo de viver num mundo harmonioso, organizado, negava-lhe as possibilidades perigosas do mal. A violência e a destruição eram caóticas demais para seu gosto, e além disso lhe faltava crueldade. Vivendo, na prática, como filha única, e numa casa relativamente isolada, permanecia, ao menos durantes as longas férias de verão, afastada das intrigas com as amigas. Não havia nada em sua vida que fosse interessante ou vergonhoso que chegasse para merecer ser escondido; ninguém sabia do crânio de esquilo debaixo de sua cama, mas também ninguém queria saber. Nada disso era particularmente aflitivo; ou melhor, só passou a ser visto assim em retrospecto, depois que uma solução foi encontrada. [...] então o mundo, o mundo social, era insuportavelmente complicado, dois bilhões de vozes, os pensamentos de todo mundo a se debater, todos com igual importância, investindo tanto na vida quanto os outros, cada um se achando o único, quando ninguém era único. [...].
Trechos da obra Reparação (Companhia das Letras, 2001), do escritor britânico Ian McEwan, contando a história de uma menina inocente que sonha em ser escritora e não entende o mundo adulto da paixão e da sexualidade, acusando injustamente o seu irmão de criação. Esse drama psicológico que trata de sentimento de culpa, arrependimento, esperança e das tensões de classe da sociedade britânica durante a Segunda Guerra Mundial, foi transformado para o cinema em 2007, com o título de Desejo & Reparação (Atonement), dirigido por Joe Wright, premiado com o Globo de Ouro em 2008, e com destaque para atuação da atriz e modelo britânica Keira Knightley.

Veja mais sobre:
Betúlia, a belezura e os restos nos confins do mundo, Kadish de Allen Ginsberg, Porto calendário de Osório Alves de Castro, Evolução do teatro de Francis Fergusson, a pintura de Federico Beltrán Massés & Fayga Ostrower, a arte de Claudia Andujar, Iemanjá, Mãe D’Água de Petrolina – PE & a música de Consuelo de Paula aqui.

E mais:
Terra do que sou, vida que me cabe, O vento geral de Thiago de Mello, Elogio da madrasta de Mario Vargas Llosa, Galalaus & batorés de Mário Souto Maior, a pintura de Natalia Goncharova, a videoinstalação de Rachel Mascarenhas & Ana Paula Pessoa, a fotografia de Yan Pierre, a música de Eduardo Ponti, a arte de Shelley Bain & Taha Hassaballa Malasi aqui.
Uivo & outros poemas de Allen Ginsberg aqui.
Brincarte do Nitolino, Menino de engenho de José Lins do Rego, Noite & neblina de Alain Resnais, a música de Charles Lecocq, Canção de Allen Ginsberg, Signo Teatral, Choque das civilizações de Samuel P. Huntington, a arte de Catherine Deneuve, a pintura de Raoul Dufy, Milton Nascimento & Fernando Brant aqui.
Velho Chico, o Rio São Francisco, Virgulino Ferreira Lampião de Isabel Lustosa, Violão Brasil de Turíbio Santos, Música & saúde de Even Ruud, Sonetos de Cláudio Manuel da Costa, Amor em campo minado de Dias Gomes, Vai trabalhar, vagabundo de Hugo Carvana, Paulette Goddard, a pintura de Natalia Goncharova, a arte de Ítala Nandi & Neila Tavares aqui.
A surpresa no reino do amor aqui.
Por um novo dia, O evangelho segundo Padre Bidião, Nada de novo sob o Sol de Ayn Rand, Elucubrações pós-modernas de Christopher Hitchens, Iconoclastia de Mirian Macedo & Os lixões das cidades aqui.
A espera de Bia, ariana, Crônica de amor por ela & Elas fazem poesia & sexo aqui.
LAM na Educativa FM & Marco Antonio, Tributos & direito tributário aqui.
A teoria política do individualismo possessivo de Hobbes a Locke aqui.
Direito: teorias, interpretação e aplicação aqui.
A qualidade na gestão escolar aqui.
Fecamepa no aluado mundo mágico aqui.
A poesia de Catarina Maul aqui.
A vida por uma peínha de nada, As mil & uma noites, A crise da atualidade de Ivo Tonet, O leitor e a leitura de Roger Chartier, a pintura de Umberto Boccioni, Violência & drogas de Necilda de Moura Santana, a coreografia de Angelin Preljocaj, Um número de Caryl Churchill, a escultura de Kaleb Martyn, o cinema de Christine Jeffs & Alicia Fulford-Wierzbicki, A gaia ciência de Friedrich Nietzsche, a música de Eveline Hecker, a arte de Luciah Lopez & Sonho real amanhecido aqui.
Tem dia pra tudo, até pro que eu não sei, Uso & abuso da história de Moses Finley, A mulher fenícia & os fenícios, A era do globalismo de Octavio Ianni, A grande transformação de Karl Polanyi, Tarde demais de Antonio Tabuchi, Blasted de Sarah Kane, a coreografia de Béjart Ballet Lausanne, Narradores de Javé de Eliane Caffé, entrevista de Mano Melo, A gaia ciência de Friedrich Nietzsche, a arte de Sueli Finoto, a música de Clara Sandroni, a pintura de Shahla Rosa & Arthur Hunter-Blair aqui.
De perto ninguém é mesmo normal, O coração do homem de Erich Fromm, A civilização dos astecas de Jean Marcilly, A carta roubada de Edgar Allan Poe, Os sertões de Euclides da Cunha & José Celso Martinez Corrêa, o cinema de Peter Greenaway & Federico Fellini, A gaia ciência de Friedrich Nietzsche, a pintura de Paul-Albert Besnard, Jean-Paul Riopelle & Beatriz Milhazes, a música de Maya Beiser, a coreografia de Martha Graham, a escultura de Auguste Clésinger, a fotografia de Luiz Garrido, entrevista de Geraldo Carneiro & As mil faces do disfarce aqui.
O equilíbrio mortevida do malabarista, A divina comédia de Dante Alighieri, Educação & contemporaneidade de Antonio Dias Nascimento & Tânia Maria Hetkowski, A autobiografia de Vladimir Maiakovski, A divina comédia de William Blake, entrevista de Silviane Bellato, A gaia ciência de Friedrich Nietzsche, a pintura de José Manuel Merello & Camila Soato, a arte de Victoria Soyanova, a música de Nádia Figueiredo, a coreografia de Svetlana Zakharova, Teatro de Anônimo, Billion Dollar Crop & Nega Besta aqui.
Todo dia é dia da criança, Formação social da mente de Lev Vygotsky, Escrita das crianças de Paulo Freire, Jogos infantis de Eliza Santa Roza, Futuro de nossas crianças de Clara Bellar, entrevista de Rachel de Oliveira Pereira Lucena, Crônica de amor por ela, Esculturas de Protásio de Morais & Dona Irinéia, a Galeria do Dim, a xilogravura de Amaro Francisco, Bumerangue do Grop, art naif de Ronaldo Mendes, Teatro infantil & Lobisomem Zonzo aqui.
História da mulher: da antiguidade ao século XXI aqui.
Palestras: Psicologia, Direito & Educação aqui.
Livros Infantis do Nitolino aqui.
&
Agenda de Eventos aqui.

GARATUJA DE ALLEN GINSBERG
Rexroth, seu rosto refletindo a cansada
Bem-aventurança humana
Cabelo branco, sobrolho vincado
Bigode tagarela
Flores jorrando
Da cabeça triste,
Ouvindo Edith Piaf e suas canções de rua
Enquanto ela passeia com o universo
E toda sua vida que passou
E as cidades que desapareceram
Só ficou o Deus do amor
Sorrindo.
Poema extraído da obra Uivo, Kadish & outros poemas (1953-1960, L&PM, 1984), do poeta estadunidense da geração beat Allen Ginsberg (1926-1997), Uivo, Kadish e outros poemas (L&PM, 1984). Veja mais aqui, aqui, aqui e aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
Imagens: esculturas digitais do artista francês Jean-Michel Bihorel.
Veja mais aqui.

CANTARAU: VAMOS APRUMAR A CONVERSA
Paz na Terra: Recital Musical Tataritaritatá - Fanpage.
Veja os vídeos aqui & mais aqui e aqui.
 

quinta-feira, junho 02, 2016

GINSBERG, FAYGA OSTROWER, BELTRÁN MASSÉS, CLAUDIA ANDUJAR, CONSUELO DE PAULA, BETÚLIA, PORTO CALENDÁRIO, PETROLINA & TEATRO


BETÚLIA, A BELEZURA E OS RESTOS NOS CONFINS DO MUNDO (Imagem: A Sônia, da série O sonho dos outros – da exposição da fotógrafa Claudia Andujar: No lugar do outro) – Betúlia, linda, amável, gentil, educadíssima, nascida em berço de ouro. Tão formosa e sempre na dela, não dava trela pra ninguém. Sempre terna e atenciosa com todos, índole materna, uma vistosa filantropa de assistir crianças, marmanjos, idosos. Sempre dedicada, elegante, obsequiosa e tão nobre na finura do trato com pobres e oprimidos, sempre com um sorriso deferente nos lábios, uma palavra de conforto, um abraço amigo. Uma perfeição encantadora em forma de gente. Um dia seu coração palpitou, abriu mão de tudo: riqueza, família, amigos. Enrabichou-se por um certo Jorgão Bezário, um inculto vistoso, sem eira nem beira, tosco jumento e grosso que só papel de enrolar prego, que se encontrava de passagem por sua cidade. Porte atlético, musculoso, cabeça de fósforos, homem de poucas palavras e brabeza nos gestos. Com todos esses atributos insuportáveis, fora ele responsável por ela abdicar de tudo e findar em Alagoinhanduba depois de perder os três vinténs, o juízo, a vida. Agora tinha um dono, um tosco Apolo pras vistas dela, o seu deus em carne e osso a quem estava reduzida, nada mais. Com seu ar desabrido e todo pavoneado, ele a exibia com seu jeito agreste como um troféu. De forma tarasca e com beijos arrancados na marra, exigência de bruto: - Minha quenga! E ela se ria, enamorada. Toda elegante fineza dela, ao lado do mais brucutu dos descorteses mandonistas. Não havia por ali quem não arregalasse os olhos, caísse o queixo e não cobiçasse aquela engenhosidade do Criador. Ao mesmo tempo que estranhavam como havia de uma belezura daquela, se visse atraída por bonitão tão primitivo. Coisas de catimbó, só sendo. É certo que ele já fora a perdição de muita moça donzela por onde passou. Mas daí admitir a conquista do coração de Betúlia, já era exagero da sorte. Logo ela que parece ter saído por encomenda: lindíssima das faces graciosas, formas assimétricas perfeitas, jeito fascinante, uma maravilha jamais vista de boniteza em qualquer pessoa. Aonde ele chegasse, rispidamente apresentava: - Eis minha quenga, pessoal. Respeitem sempre que sou o macho dela! E ela toda faceira, encantada de andar nas nuvens, enfeitiçada pelo amor. Anos se passaram e a cidade inteira nunca se cansara do assombro com beleza tão refulgente. Cada dia ela se tornava mais bonita. Por onde passasse era admirada, cultuada, reverenciada, invejada até. Certo dia ele chegara duma viagem sozinho e entrara no bar para tirar a poeira da garganta. Alguns desconhecidos numa mesa de perto, exaltavam a beleza de certa mulher. Ele se virou pra eles e disse sem a menor parcimônia: - É porque vocês nunca viram a minha quenga, não existe mulher mais bonita no mundo! Dito isso de peito inchado com toda soberba, tomou uma lapada da aguardente e foi ao sanitário arriar o mijo. De lá ouviu a gritaria: - É ela! É ela! Aquilo que é mulher gostosa! -, comentava um mais afoito do trio visitante. - Aquela merece o cara arriscar a vida pra botar uma gaia! -, arguiu um dos petulantes. E a risadagem corria solta. Ao retornar, Jorgão pega o copo com nova lapada da pinga e foi até a porta vê quem era que os caras estavam elogiando, enquanto degustava do aperitivo. Era ela. Virou-se pra eles e perguntou: - É aquela que vocês acham a belezura que querem foder, é? Eles se levantaram às pressas, conferiram e responderam: - É aquela gostesuda mesmo, aquilo que é uma mulher gostosa de verdade! Nem terminou a frase, o bofete comeu no centro. Jorgão estava mais brabo do que sempre fora. E em meio às tapas, deu pernadas a três por quatro, mãozadas distribuídas a granel. No meio da confusão entrou uma grossa turma do deixa disso, apartando a briga. Os três desafetos insolentes foram prum lado e Jorgão, mais que injuriado, foi pro outro. Ele fumaçava, de cabeça quente. Ruminando sua raiva, resolveu ir proutro bar encher o tampo. Entupiu-se de esborrar e foi pra casa trocando as pernas. Capenga, mal conseguiu entrar em casa aos gritos: - Cadê ele? Ele quem? O macho que tá me botando gaia! Não tem ninguém aqui, meu amor. Meu amor, uma porra! Vou matar esse macho! E saiu revirando às quedas quartos, sala, cozinha, banheiro, até escorregar no lodo do quintal e dar trabalho pra ser levado pra cama. Dormiu de roncar a noite toda e metade da manhã. Acordou-se virado num saco de pentelho arrepiado, aos palavrões e mordido do porco: - Cadê o macho? Que macho? Tô sentindo cheiro de macho! Não tem macho nenhum, meu amor. Meu amor, uma porra! E assim foi-se o dia, entrou pelo outro, uma semana, meses, quase ano, ele brigando com um e com outro, até chegar um dia em casa e fazer do inferno que virou a vida de Betúlia, um momento do mais autêntico terror. Um brilho sinistro no olhar, uma assustadora maldade nas suas faces. A culpa é sua, sua quenga! Você que é a culpada! E partiu pra cima dela, esmurrando, chutando com a fúria dos horrores. Ela se defendia como podia, ele a estapeava, dava-lhe chutes e murros em todas as partes do corpo, até ela cair, aos prantos, arriada num canto da sala. Ele então saca de uma faca peixeira e dá-lhe um talho na face esquerda, na perna direita, na coxa esquerda, numa das mãos. Quanto mais ela tentava se desvencilhar dos golpes, mais o sangue espirrava. E sussurrava irado, vingativo: - Esse é um sangue amaldiçoado! E mais desferia golpes, ela cada vez mais encolhida no canto da sala, não sabia o que fazer. Ele arreou de cócoras para fitar bem seus olhos e bafejou maledicência na sua cara, enquanto deslizava a faca amolada na pele dela, abrindo a carne aos poucos nos braços, pernas, passando a esmurrá-la até cravar várias peixeiradas no dorso, no ventre, nas faces, pescoço, nos seios e membros, arrancar-lhe um a um dos olhos, retalhar os seios, até deixá-la completamente desfigurada. Insatisfeito, saiu arrancando a pele dela, até deixá-la em carne viva. Depois saiu esquartejando, quebrando os ossos, reduzindo-a a pequenos pedaços. Uma calma estranha se apoderava dele, parecendo mais que abatia o mais feroz e odiado animal. Começou a ensacar os pedaços dela: mãos, pés, crânio, tripas e carne. Acomodou tudo num saco grande e depositou ao pé da cama, enquanto foi tomar banho e remover toda a sujeira de sangue. Completamente restabelecido, vestiu-se da domingueira, perfumou-se, armou-se do saco com os restos delas e partiu assobiando como se nada tivesse acontecido para nunca mais ser visto dali. Dezesseis anos depois reaparece ele pelas bandas de Alagoinhanduba, multimilionário, impune e sorridente, adquirindo terras e outras posses, acoloiado de uma tuia de baba-ovo que o endeusa até hoje. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui e aqui.

Imagem: Mujeres, do pintor cubano Federico Beltrán Massés (1885 - 1949)


Curtindo o álbum Dança das rosas (Tratore, 2006), da cantora e compositora Consuelo de Paula. Veja mais aqui.

PESQUISA
Evolução e sentido do teatro (Zahar, 1964), do educador, professor e crítico de teatro e mitologia Francis Fergusson (1904-1986), tratando sobre o ritmo trágico da ação, o teatro da razão, o teatro da paixão, o teatro moderno, a poesia e o poeta no teatro, entre outros assuntos. Veja mais aqui.

LEITURA 
 Foi na proa da Boa Paisagem que apareceu pela primeira vez a figura de uma mulher mirando o rio. Xico Baquiba me disse: amigo Cipriano, tenho encomenda do capitão Zé Custódio, de Juazeiro, de uma carranca diferente. Penso em muitos assucedidos e um me vem na cabeça. Era a estória de Siana Branca. Foi numa noite no Alto do Menino Deus, eu maginava olhando pro céu: oo que irá acontecer no dia em que a arca de Noé, navegando, for se aprotar nas Tres Marias? De repente – e me benzi – uma cuereira veio por cima da minha cabeça e foi sentar-se no cruzeiro. Apagaram-se as luzes do firmamento e tudo ficou escuro. Foi quando um resplendor se abriu e vi o desencantamento. A ave virou uma mulher e veio rezar por seus pecados. Vi suas feições e elas ficaram direitinhas nos meus olhos tal qual Xico Biquiba fez a cabeça da Boa Paisagem. Subiu mais um degrau da escada e continuava, arrebatado: - Nunca vouve por todo o São Francisco e os corghos mulher tão bonita como esta Siana Branca de Correntina. Desgraçada, por si nunca aceitou um homem por mais rico e poderoso que fosse e, só aos remeiros dava seu amor. Um belo dia vinha chegando uma barca embalada na cantiga de quem chega sorrindo. Neste tempo passava uma menina com uma rosa para o altar de Nossa Senhora e Siana Branca lhe disse: - Menina, me vende essas rosas... – Não vendo, não. É promessa de minha mãe... Se dava; as mulheres nos porotos enfeitavam a cabeça com flores no dia em que chegavam os seus amigos, e Siana Branca entrou na igreja e roubou as rosas para botar nos seus cabelos castanhos. Quando a barca encostou foram para sua casa e estava vazia. Por mais que procurassem nunca mais foi vista. Nem na Barra, nem em Juazeiro, nem em Januária e por aqui, e tudo se esclareceu. Siana Branca, pelo seu pecado, tinha virado uma cuereira. E entrando por um bico de pinto e saindo por um bico de pato, eu lhes digo meus meninos: deste dia em diante as cuereiras que eram brancas, acordam cedo para tingirem na madrugada suas penas com a cor das rosas. Agora, nas noites de lua, a Boa Paisagem, na parada dos pousos, se ouve a modinha de eu sou como a garça triste e a tripulação acorda chorando com saudade de alguém [...].
Trecho do romance Pôrto Calendário: romance do São Francisco (Francisco Alves, 1961), do romancista, alfaiate e militante comunista Osório Alves de Castro (1898-1978). Veja mais aqui, aqui e aqui.

PENSAMENTO DO DIA:
[...] Eu, de qualquer forma, talvez tão velho como o universo – e penso que ele morre conosco – o suficiente para cancelar o que vem depois – Aquilo que veio parte sempre cada vez – isso é bom! Assim, não há do que arrepender-se – nada de radiadores de medo, desamor, tortura, até dor de dento no final – embora ao vir seja um leão devorando a alma – e o cordeiro a alma em nós, ah! Oferecendo-se em sacrifício para a feroz fome da mudança – pelo e dentes – e o rugido da dor nos ossos, crânio, pelado, costela quebrada, pele rasgada, implacabilidade Ai, ai! Cada vez pior! Estamos numa fria! E você está fora, a Morte deixou-a fora, a Morte teve piedade, você passou pelo século, passou por Deus, passou pelo caminho que chega lá – finalmente passou por você mesma – pura – de volta à escuridão Bebê anterior a seu Pai, anterior a todos nós, anterior ao mundo – lá, repousa. Mais nada de sofrimento para você. Seu para onde foi, tudo bem. [...]
Trecho do poema Kadish da obra Uivo, Kadish & outros poemas (1953-1960 - L&PM, 1984), do poeta estadunidense da geração beat Allen Ginsberg (1926-1997). Veja mais aqui e aqui.

IMAGEM DO DIA
Estátua de Iemanjá, Mãe D’Água, Rio São Francisco – Petrolina – PE. Veja mais aqui.

Veja mais sobre Brincarte do Nitolino, Allen Ginsberg, José Lins do Rego, Alain Resnais, Catherine Deneuve, Raoul Dufy, Charles Lecocq, Signo Teatral & O Choque das Civilizações aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
Imagem: Klimt plus Fayga, da pintora, gravadora, desenhista, ilustradora, professor e teórica de arte brasileira nascida na Polônia, Fayga Ostrower.
Veja mais aqui, aqui e aqui.

CANTARAU: VAMOS APRUMAR A CONVERSA
Recital Musical Tataritaritatá
Veja aqui.

quarta-feira, junho 03, 2015

GINSBERG, RESNAIS, LINS DO REGO, DENEUVE, MILTON & BRANT, LECOCQ, DUFY, CIVILIZAÇÃO & SIGNO TEATRAL.


CANÇÃO – No livro Uivo, Kadish & outros poemas (1953-1960, L&PM, 1984), do poeta estadunidense da geração beat Allen Ginsberg (1926-1997), destaco o poema Canção, tradução de Claudio Willer: O peso do mundo / é o amor. / Sob o fardo / da solidão, / sob o fardo / da insatisfação / o peso / o peso que carregamos / é o amor. / Quem poderia negá-lo? / Em sonhos / nos toca / o corpo, / em pensamentos / constrói / um milagre, / na imaginação / aflige-se / até tornar-se / humano - / sai para fora do coração / ardendo de pureza - / pois o fardo da vida / é o amor, / mas nós carregamos o peso / cansados / e assim temos que descansar / nos braços do amor / finalmente / temos que descansar nos braços / do amor. / Nenhum descanso / sem amor, / nenhum sono / sem sonhos / de amor - / quer esteja eu louco ou frio, / obcecado por anjos / ou por máquinas, / o último desejo / é o amor / - não pode ser amargo / não pode ser negado / não pode ser contigo / quando negado: / o peso é demasiado / - deve dar-se / sem nada de volta / assim como o pensamento / é dado / na solidão / em toda a excelência / do seu excesso. / Os corpos quentes / brilham juntos / na escuridão, / a mão se move / para o centro / da carne, / a pele treme / na felicidade / e a alma sobe / feliz até o olho - / sim, sim, / é isso que / eu queria, / eu sempre quis, / eu sempre quis / voltar / ao corpo / em que nasci. Veja mais aqui e aqui.

Imagem: Nu, do pintor francês Raoul Dufy (1877-1953)

Curtindo a Opéra bouffe em trois actes La petit Mariée (1875), do compositor francês Charles Lecocq (1832-1918), com Renaissance Orquestra Lyric da RTF, sob a direção de Roger Ellis.

VAMOS APRUMAR A CONVERSA: REPRISE BRINCARTE – Há um menino / Há um moleque / Morando sempre no meu coração / Toda vez que o adulto balança / Ele vem pra me dar a mão / Há um passado no meu presente / Um sol bem quente lá no meu quintal / Toda vez que a bruxa me assombra / O menino me dá a mão / E me fala de coisas bonitas / Que eu acredito / Que não deixarão de existir / Amizade, palavra, respeito / Carater, bondade alegria e amor [...]; Com esses versos da música Bola de meia, bola de gude, da dupla Milton Nascimento & Fernando Brant, alimento todo dia a criança que se mantém viva dentro de mim. Percebo que apesar de cinquentão, essa criança é a maior e melhor parte que carrego em mim. Por isso, hoje pras crianças de todas as idades é dia de reprise do programa Brincarte do Nitolino, nos horários das 10hs e das 15hs, com apresentação encantadora de Isis Corrêa Naves, no blog do Projeto MCLAM. Para conferir online é só clicar aqui ou aqui.

MENINO DE ENGENHO – O livro Menino de engenho (1932 – José Olympio, 1980), do escritor José Lins do Rego (1901-1957), romance de estreia do autor na Literatura, dividido em trinta e três capítulos contando a história de um menino órfão de um pai que assassinara sua mãe e a descoberta do mundo no engenho do avô, um patriarca do coronelato da cana-de-açúcar nordestina. Da obra destaco o trecho inicial: Eu tinha uns quatro anos no dia em que minha mãe morreu. Dormia no meu quarto, quando pela manhã acordei com um enorme barulho na casa toda. Eram gritos e gente correndo para todos os cantos. O quarto de dormir de meu pai estava cheio de pessoas que eu não conhecia. Corri para lá e vi minha mãe estendida no chão e meu pai caído em cima dela como um louco. A gente toda que estava ali olhava para o quadro como se estivesse a assistir a um espetáculo. Vi então que minha mãe estava toda banhada em sangue, e corri para beijá-la, quando me pegaram pelo braço com força. Chorei, fiz o possível para livrar-me. Mas não me deixaram fazer nada. Um homem que chegou com uns soldados mandou então que todos saíssem, que só podia ficar ali a Polícia e mais ninguém. Levaram-me para o fundo da casa, onde os comentários sobre o fato eram os mais variados. O criado, pálido, contava que ainda dormia quando ouvira uns tiros no primeiro andar. E, correndo para cima, vira o meu pai ainda com o revólver na mão e a minha mãe ensanguentada. “O doutor matou a Dona Clarisse! Porquê?” Ninguém sabia compreender. O que eu sentia era uma vontade desesperada de ir para junto de meus pais, de abraçar e beijar minha mãe. Mas a porta do quarto estava fechada, e o homem sério que entrara não permitia que ninguém se aproximasse dali. O criado e a ama, diziam, estavam lá dentro em interrogatório. O que se passou depois não me ficou bem na memória. [...]. Veja mais aqui.

O SIGNO TEATRAL – O livro O signo teatral: a semiologia aplicada à arte dramática (Globo, 1977), de Roman Ingarden, Petr Bogatyrev, Jindrich Honzl e Tadeusz Kowzan, organizado e traduzido por Luiz Arthur Nunes, Regina Ziberman, Ana Mariza Tibeiro Filipouski, Tania Franco Carvalhal e Maria da Gloria Bordini, aborda temas como a semiologia e o espetáculo teatral, as funções da linguagem teatral, os signos do teatro, a mobilidade do signo teatral e o signo no teatro. Da obra destaco o trecho da parte introdutória Um campo inexplorado, dos organizadores: [...] Provavelmente pelo fato de o espetáculo tomar emprestados elementos de outras formas de expressão, a tendência foi, durante muito tempo, considera-lo uma manifestação híbrida, resultante de uma soma ou fusão de diversas artes. A teoria wagneriana da gesamtkunstwerk (obra de arte total), é o produto mais típico dessa linha de pensamento. Nos dias atuais, porém, tende-se a ver o espetáculo como expressão única e independente, embora possa nutrir-se de elementos de outras linguagens. Para esse reconhecimento da especificidade da arte do espetáculo, a semiologia, com sua abordagem rigorosamente formal e objetiva, tem muitíssimo a contribuir. As dificuldades acima apontadas constituem um sério entrave; no entanto, não impediram que surgissem, desde cedo, esforços no sentido de esboçar uma semiologia do teatro. [...] quando nada, pelo estimulo que possa vir a dar ao estudo e à compreensão dessa arte que, em nosso meio, apesar de tantas forças contrárias, teima em querer subsistir e progredir [...]. Veja mais aqui.

O CHOQUE DE CIVILIZAÇÕES – O livro O choque de civilizações e a recomposição da ordem mundial (Objetiva, 2010), do controvertido e conservador cientista político estadunidense Samuel P. Huntington (1927-2008), explora a importância da cultura e da religião como causas de aliança e choques entre os países, abordando temas como nova era da política mundial, bandeiras e identidade cultural, mundo multipolar e multicivilizacional, as civilizações na história e na atualidade, a natureza das civilizações, ocidentalização, poder, cultura, indigenização, La Revanche de Dieu, a ordem emergente das civilizações, em busca de agrupamentos, fracasso da mudança de civilização, círculos concêntricos e ordem civilizacional, universalismo ocidental, direitos humanos e democracia, imigração, das guerras de transição às guerras de linha de fratura, países afins e diásporas, entre outros assuntos. Destaco um dos trechos: [...] Na década de 50, Lester Pearson advertiu que os seres humanos estavam entrando numa era em que as diferentes civilizações terão que aprender a viver lado a lado num intercambio pacífico, aprendendo umas com as outras, estudando a história e os ideais e a arte e cultura uma das outras, enriquecendo-se mutuamente com as vidas umas das outras. A alternativa, nesse pequeno mundo superpovoado, é a incompreensão, a tensão, o choque e a catástrofe. O futuro da paz e o futuro da civilização dependem da compreensão e da cooperação entre os líderes políticos, espirituais e intelectuais das principais civilizações do mundo. No choque das civilizações, a Europa e os Estados Unidos se juntarão ou serão destruídos separadamente. No choque maior, o choque verdeiro, global, entre a civilização e a barbárie, as grandes civilizações do mundo, com suas ricas realizações em religião, arte, literatura, filosofia, ciência, tecnologia, moralidade e compaixão, também se juntarão ou serão destruídas separadamente. Na era que está emergindo, os choques das civilizações são a maior ameaça à paz mundial, e uma ordem internacional baseada nas civilizações é a melhor salvaguarda contra a guerra mundial. Veja mais aqui.


NOITE E NEBLINA – O premiado documentário Noite e Neblina (Nuit et brouillard, 1955), do cineasta francês Alain Resnais (1922-2014) por encomenda do Comitê Histórico da Segunda Guerra Mundial dez anos depois da guerra e inspirado no livro , Poèmes de la nuit et brouillard, (1946), do poeta e editor francês e Jean Cayrol (1911-2005), com música de Hanns Eisler. Trata-se de um guia para melhor compreensão do Holocausto, alternando imagens coloridas e em preto e branco, com fotos e filmes dos arquivos dos horrores nazistas. É um filme para reflexão, vez que registra pouco tempo depois do ocorrido e do que é a tragédia humana promovida por uma guerra - o lamentável expediente da guerra - que nos ronda no cotidiano,  nesses tempos de violência banalizada, impossibilidade de indignação. Veja mais aqui, aqui & aqui.



IMAGEM DO DIA
 Todo dia é dia de homenagear a musa de todos os tempos e respeitadíssima atriz francesa Catherine Deneuve, considerada um modelo de elegância e beleza gálica. Veja mais aqui. 


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Quando não é na entrada é na saída, O autor como produtor de Walter Benjamin, Antologia Pornográfica de Alexei Bueno, Linguística & Estilo, Fronteiriços de Anna Bella Geiger, a música de Andrea dos Guimarães, Wunderblogs, a ninfa Carna, a arte de Gilvan Samico & Matéria Incógnita aqui.

E mais:
Vamos aprumar a conversa, Pensamento complexo de Edgar Morin, Pirotécnico Zacarias de Murilo Rubião, As criadas de Jean Genet, o cinema de Rainer Werner Fassbinder & Hanna Schygulla, a arte de Hanna Schygulla, Imprensa, a música de Alanis Morissete & a pintura de Thomas Gainsborough aqui.
Credibilidade da imprensa brasileira, A imprensa & Millôr Fernandes, a música de Eduardo Gudin, História da Imprensa de Nelson Werneck Sodré, Beijo no asfalto de Nelson Rodrigues, a literatura de Cervantes & a arte da jornalista Enki Bracaj aqui.
Inclusão social pelo trabalho, Pitágoras, José Louzeiro, Samir Yazbek, Jacques Rivette, Xue Yanqun, Ednalva Tavares, Lisa Lyon, Música Folclórica Pernambucana & A imprensa na atualidade aqui.
A mulher do médico, Do sentir de Mario Perniola, a fotografia de Alfred Cheney Johnston, a arte de Sandra Cinto.& Akino Kondoh, Sonhos graúdos na diversão da mocidade aqui.
Mil sonhos na cabeça e o amanhã nas mãos, A pedra do sono de João Cabral de Melo Neto, a pintura de Omar Ortiz, a arte de Gary Jackson & Sean Seal aqui.
A vida em risco e o veneno à mesa, O direito dos povos de Amartya Kumar Sem, a pintura de Roberto Fernandez Balbuena & a arte de Kadee Glass aqui.
O brinde do amor, Pedagogia do oprimido de Paulo Freire, a música de Vanessa da Mata, a arte de Luciah Lopez, Project Global Peace Art & Havia mais que desejo na paixão feita do amor aqui.
Sexta postura, A arte de amar de Manuel Bandeira, a música de Al Di Meola, a escultura de Ambrogio Borghi, arte de Juli Cady Ryan & Quando amor premia o sábado aqui.
Desencontros de ontem, reencontros amanhã, Augúrios da inocência de William Blake, a música de Gonzaguinha, a arte de Duarte Vitória, a poesia de Tony Antunes & Alô, Congresso Nacional, ouça quem o elegeu aqui.
O que é ser brasileiro?, Sobre a violência de Hannah Arendt, a arte de Alex Grey, a música de Carol Saboya & Quem faz e não sabe o que fez é o mesmo que melar na entrada e na saída e nem se lembrou de limpar. Que meladeiro aqui.
Pra quem nunca foi à luta, está na hora de ir, a escultura de Phillip Piperides, a música de Duo Graffiti, a arte de Tracey Moffatt & Tanise Carrali aqui
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