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segunda-feira, junho 04, 2018

KAFKA, AUDEN, PAULINA CHIZIANE, HERMETO, LUKÁCS, ALAIN RESNAIS, FLÁVIO DE CARVALHO & VITAL CORRÊA DE ARAÚJO


É CADA UMA QUE DÁ DEZ – Imagem: arte do arquiteto, pintor, teatrólogo e escritor Flávio de Carvalho (1899-1973). - Toda madrugada na janela eu converso com ela, a estrela libertária que me guia e ouve, falo pelos cotovelos todos os meus ais e paradoxos. Foi ela quem me ensinou a rir da minha loucura e admirar a dos outros, escondida – cada um esconde como pode; eu escancaro das tripas, coração. Daqui dá pra vê-la a me mostrar o pêndulo das pessoas no agito das vitrines e vidraças, rolês e danças, rodoviárias e aeroportos; ah, sou levado pros invisíveis nos antros dos guetos, abrigos, hospitais, presídios, quanta devastação e o meu coração dói. Vivemos, quer queira quer não, pelo apreço e sofrimento do que tenha ou não, do querem às mãos, braços dados e o que possa a imaginação dos quereres, quanta calamidade nos sentimentos arrebatados. Ninguém é poupado, vassalos da poção do amor na inquietude da paixão e o álibi luzente, as armadilhas dos amantes ancestrais e a vida é a vida, nada e nada mais. Do inopinado sempre o desaviso: o alerta dos sentidos no flerte e o prelúdio, tudo se mistura entre a mira e o alvo, prevalece o frêmito carnal, a chama eletrizante que pulsa na pele e veias, carecimentos e dissipações, clamores e entregas. Nesse torvelinho a razão é o estorvo, seja lá o que Deus quiser, príncipes encantados e donzelas imaculadas que sempre estiveram à espera do amor, o verdadeiro; e o sorvedouro idílico vai na valsa onírica de rosas e nuvens, nada pras ameaças que assomam tácitas entre passos e piruetas. No desfecho, quase impossível sobreviver à provação, quase se morre de tão obcecado e rendido. E em cada um os seus tenebrosos porões e sótãos, entre o que enobrece e o que aflige, o que ama e odeia. Até que a fera ruge, a luz se apaga no coração, quanta fúria e crueldade de sobra e por troco. Aprendi a domar meus monstros com as palavras suaves: o segredo da poesia. Ninguém merece nossos esturros, somos nós mesmos que pagamos o pato, ora. Isso eu sei, guardo comigo. Conquanto, soluções de plantão: é só passar a bronca pro outro, pronto, livrou-se, lavou as mãos, resolvido. No final, luzes e sombras, o casulo se esvai no escuro da solidão e silêncio. Contudo, quem aprende a lição, hem, na verdade olvida, como eu: fazendo uma merda atrás da outra. Porquanto tenha só abusado da sorte na areia da praia, lazer domingueiro ou de feriadão, o castelo de areia, lá vem o mar subindo manso, a maré e não, a onda, não, lá vem, não, pelo amor de Deus não, a água nem aí, não, acabou-se o que era doce. Pra quem vive na corda bamba qualquer sopapo é crucial e haja catabi entrando pela perna de pinto e saindo pela perna de pato. É a vida e lá se vão os ventos omnidirecionais com seus encantos e desamores no fortuito embalo das paixões. É cada uma que dá dez! © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.

RÁDIO TATARITARITATÁ:
Hoje na Rádio Tataritaritatá especial com a música do compositor e multi-instrumentista Hermeto Pascoal: Live in Montreaux, Zumbumbê bum-á, Slave Mass, Cérebro Magnético, Natureza Universal ao Vivo & Live in Jazz Sous Les Pommiers; & muito mais nos mais de 2 milhões de acessos ao blog & nos 35 Anos de Arte Cidadã. Para conferir é só ligar o som e curtir. Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aquiaqui, aqui, aqui e aqui.

PENSAMENTO DO DIA – [...] Ah, aprende-se o que é preciso que de aprenda! Aprende-se quando se quer uma saída; aprende-se a qualquer custo. Fiscaliza-se a si mesmo com o chicote; à menor resistência flagela-se a própria carne. A natureza do macaco escapou de mim frenética, dando cambalhotas, de tal modo que com isso meu primeiro professor quase se tornou ele próprio um símio, teve de renunciar às aulas e ser internado em um sanatório. Felizmente saiu logo de lá. [...] Seja como for, no conjunto eu alcanço o que queria alcançar. Não se diga que o esforço não valeu a pena. No mais, não quero nenhum julgamento dos homens, quero apenas difundir conhecimentos; [...]. Pensamentos extraídos de Um relatório para uma Academia (Companhia das Letras, 1999), do escritor tcheco Franz Kafka (1883-1924). Veja mais aqui.

ONTOLOGIA – [...] No trabalho estão contidas in nuce todas as determinações que, como veremos, constituem a essência do novo dentro do ser social. O trabalho pode ser considerado, pois, como fenômeno originário [Urphänomen], como modelo do ser social; o esclarecimento destas determinações proporciona já, portanto, uma imagem tão clara acerca de suas características essenciais, que parece metodologicamente vantajoso começar com sua análise [...] A posição do fim se origina numa necessidade humano-social; mas, a fim de que chegue a uma posição autêntica do fim, a investigação dos meios (isto é, o conhecimento da natureza) deve ter alcançado um determinado nível, coerente com esses meios; se esse nível ainda não foi alcançado, a posição do fim permanece como projeto meramente utópico, uma espécie de sonho [...]. O ponto, pois, no qual o trabalho se relaciona, desde o ponto de vista da ontologia do ser social, com o surgimento do pensamento científico e sua evolução, é precisamente o âmbito por nós denominado investigação dos meios [...] quando os resultados do reflexo não existente se cristalizam numa práxis estruturada em termos de alternativa, a partir daquilo que existe somente de maneira natural, pode surgir algo existente no marco do ser social – por exemplo, uma faca ou um machado –, isto é, surge uma forma de objetividade desse ser existente total e radicalmente nova. Pois, a pedra, na sua existência e em seu ser-em-si natural, nada tem a ver com a faca ou o machado [...] Enquanto ser biológico, o ser humano é um produto da evolução natural. Com sua autorrealização, que, naturalmente, também nele mesmo pode significar um retrocesso dos limites naturais, mas nunca o desaparecimento, a plena superação desses limites, o ser humano ingressa num novo ser e por ele mesmo fundado: o ser social [...] todas as representações ontológicas dos seres humanos, independentemente do grau de consciência em que isso ocorre, são amplamente influenciadas pela sociedade, e não vem ao caso se o componente dominante é o da vida cotidiana, o da fé religiosa etc. Essas representações cumprem um papel extremamente influente na práxis social dos seres humanos, condensando-se com frequência em um poder social real [...] superação da mudez meramente orgânica do gênero, sua continuação no gênero articulado, em desenvolvimento, do ser humano que se forma enquanto ente social, é – considerada desde um ponto de vista ontológico-genético – o mesmo ato que o do surgimento da liberdade [...]. Trechos extraídos da obra Ontología del ser social: el trabajo (Herramienta, 2004), do filósofo, crítico literário e teórico marxista húngaro Georg Lukács (1885-1971). Veja mais aqui e aqui.

BALADA DE AMOR AO VENTO - [...] Meu pai, minha mãe, meus avós e todos os defuntos. Aceitei esta oferta, esta humilhação, que é o testemunho da minha partida. Vou agora pertencer à outra família, mas ficam estas vacas que me substituem1. Que estas vacas lobolem mais almas, que aumentem o número da nossa família, que tragam esposas para este lar, de modo que nunca falte água, nem milho, nem lume [...] É como vos digo, cada mundo tem a sua beleza. No campo é mais belo o rosto queimado de sol. São belas as pernas fortes e musculosas, os calcanhares rachados que galgam quilómetros para que em casa nunca falte água, nem milho, nem lume. São mais belas as mãos calosas, os corpos que lutam ao lado do sol, do vento e da chuva para fazer da natureza o milagre de parir a felicidade e a fortuna [...] venceu-me a carne, venceu-me o coração, sou apenas a escrava do sentimento que é mais forte do que eu [...]. Trechos extraídos da obra Balada de amor ao vento (Ndjira, 2010), da escritora moçambicana Paulina Chiziane. Veja mais aqui e aqui.

DOS POEMAS BREVES E DOS POEMAS BREVES - I - Receio haja muitos caixa-d’óculos filisteus / que preferem o museu Britânico ao próprio Deus. II - Honremos, como ideal, / o homem vertical, / embora valorizemos / só o horizontal, mesmo. III - Rostos particulares em lugares públicos / É coisa mais gentil e mais sensata / Do que, em lugares particulares, rostos públicos. IV - a esperança de um poeta: ser, / Como os queijos de certos vales, / Local, mas estimado alhures. V - Quem poderá jamais imaginar / Calvino, Pascal ou Nietzsche / Como um róseo garoto rechonchudo? VI - sem mãe capaz de amá-lo / Descartes divorciou / a mente da matéria. Poemas do poeta, dramaturgo e editor britânico Wystan Hugh Auden (1907-1973). Veja mais aqui.

A ARTE DE ALAIN RESNAIS
Já destaquei aqui On connaît la chanson (Amores Parisienses, 1997) e o premiado documentário Noite e Neblina (Nuit et brouillard, 1955), do cineasta francês Alain Resnais (1922-2014). Poderia ter muitos outros destaques, a exemplo do polêmico e belíssimo drama-romance Hiroshima mon amour (1959), com roteiro da Marguerita Duras; o drama romântico Mélo (Melodia infiel, 1986), baseado na peça homônima de Henri Bernstein de 1929; o drama ficção científica Je t’aime, je t’aime (Eu te amo, eu te amo, 1968), contando uma viagem no tempo de um suicida que pode reviver; e o drama Muriel ou o Tempo de um Regresso (1963), e muitos tantos outros da lavra. Veja mais aqui e aqui.


O livro Ora pro nobis Scania Vabis, de Vital Corrêa de Araújo & muito mais na Agenda aqui.
&
CRÔNICA DE AMOR POR ELA
A arte do arquiteto, pintor, teatrólogo e escritor Flávio de Carvalho (1899-1973).
Veja mais aqui.
&
Devoção de amor, a literatura de Philip Roth, o teatro de Maria Clara Machado & a arte de Luciah Lopez aqui.
 

quarta-feira, dezembro 30, 2015

MANGUABA, CAMÕES, CASCUDO, BENTEVI, RESNAIS, BRIZZI, TRAPIÁ, VIVIANI DUARTE & MUITO MAIS!!!

VAMOS APRUMAR A CONVERSA? VIVA MANGUABA - Quando cheguei em Maceió no ano de 1994, conheci o parceiramigo Marcos Alexandre Martins Palmeira que, entre outras coisas, me presenteou com a contemplação do Alto do Cruzeiro, na Chã do Pilar, da panorâmica inenarravelmente maravilhosa da Lagoa Manguaba. O impacto que me provocou a visualização de toda extensão desse lindo complexo lagunar, da sua nascente em Pilar até a sua foz na Praia do Francês, em Marechal Deodoro, fez com que esse recurso natural passasse a compor as maravilhas que o meu coração jamais teria visto e sentido. Trata-se, portanto, da maior laguna do estado alagoano, com 42 quilômetros quadrados de extensão e formada dos estuários dos rios Paraíba do Meio e Sumaúma, e que passou a compor o cenário predileto das minhas incursões de lazer e arte. Por conta disso, participei efetivamente com a comunidade e multidão de turistas das várias edições do Festival do Bagre, fato que me levou a encampar, por iniciativa o citado parceiramigo, o projeto de Marketing Societal denominado de Folia Caeté, que contou com parceria do artista plástico Rollandry Silvério. Por causa desse projeto compus diversos frevos, entre eles o Manguaba, em homenagem às comunidades banhadas por esse fantástico recurso hídrico. Com esse projeto pude aprofundar meus estudos acerca das localidades alagoanas, culminando com a publicação do meu livro infantil Alvoradinha – Calango Verde do Mato Bom, em 2001 e, em seguida, escrever o livro Alvoradinha na Manguaba, este ainda inédito. Por consequência, dividi meu trabalho em duas frentes: com o espetáculo infanto-juvenil Nitolino no Reino Encantado de Todas as Coisas; e o show poético-musical Tataritaritatá – Vamos aprumar a conversa! Em ambos, eu fecho as apresentações com a execução do frevo Manguaba, deixando a mensagem e a minha homenagem à lagoa e suas comunidades. Deu-se, então, mais uma parceria com o amigo Palmeira, desta vez, com o projeto CDL Criança que proporcionou levar o meu trabalho artístico para diversas escolas e instituições de Pilar, São Miguel dos Campos e outras cidades da região. É quando recebo o convite do escritoramigo e secretário de cultura de Marechal Deodoro, Carlito Lima, para participar da 1ª edição da Festa Literária de Marechal Deodoro, especificamente na sua Flimarzinha, quando tive oportunidade de me apresentar em cada escola do Município. Um fato curioso aconteceu durante essas apresentações. Como eu fechava a minha contação e cantação de história com o frevo Manguaba, o meu personagem Nitolino, findava por perguntar onde ficava a referida lagoa para fechar a história e descobrir o reino encantado de todas as coisas, ao passo que ninguém, entre a garotada, sabia onde ficava. Deixei a mensagem no ar. Na 2ª edição da Flimar, a Flimarzinha aconteceu na orla lagunar e eu ganhei uma tenda que tinha a lagoa por cenário. Sempre que se aproximava o final de cada apresentação, eu repetia a pergunta acerca da localidade da lagoa em referência, ocorrendo o mesmo silêncio anterior: ninguém entre a garotada sabia. Foi quando na 3ª edição da Flimarzinha, o frevo não só ganhou vida como passou a ser o ponto alto das minhas apresentações, quando a garotada passou a participar festejando comigo o nosso encontro com a lagoa, ocasião em que criei a história do Bagre Zé & Zé Bagre, fato que me levou a participar das seguintes edições, inclusive, a deste ano em novembro passado. Durante todo esse tempo, a lagoa sofreu todo tipo de atentado oriundo do deságue do esgoto sanitário das áreas urbanizadas do entorno, da pesca predatória, do despacho de lixo e outras ações nefastas produzidas por tipo intervenção humana às suas águas agora poluídas, com grande concentração de coliformes fecais, provocando o desaparecimento de muitos peixes, entre eles tilápias e, inclusive, do seu maior símbolo o bagre, afora colocar em risco a saúde de todas as comunidades e do público turista. Por essa razão, começou-se uma movimentação envolvendo artistas, executivos, instituições de classe e comunidades, para a realização de um evento denominado Viva Manguaba, ocasião em que será apresentado o projeto de pesquisa, estágio e extensão voltado para a contribuição da arte – Literatura, Música, Teatro e Pintura – para a Psicologia Ambiental, Educação Ambiental e Direito Ambiental nas comunidades da Lagoa Manguaba, e com o objetivo de realizar intervenções acadêmicas e artísticas de recuperação, preservação e manutenção da lagoa. O movimento está crescente e, oxalá, a gente possa realizar alguma ação efetiva para chamar a atenção para essa importante lagoa. E vamos aprumar a conversa aqui e aqui.

PICADINHO
Imagem: Reclining nude, do artista plástico Larry Vincent Garrison (1923 – 2007). Veja mais aqui.


Curtindo o álbum internacional Brizzi do Brasil (Amiata Records, 2004), do compositor italiano Aldo Brizzi.

EPÍGRAFEQueira-me bem que não custa dinheiro!, frase recolhida do livro Locuções tradicionais no Brasil (EdUFPE, 1970), do escritor e folclorista Luís da Câmara Cascudo (1899-1986), como sendo uma frase muita antiga que tornou-se comum e vulgar, sendo utilizada pelo do poeta lusitano, poeta Luís de Camões (1524-1580), nos versos 433-434, de sua obra Eufatriões: - Não lhe negues teu querer, por te não custa dinheiro. Veja mais aqui, aqui e aqui.

A LITERATURA & A LITERATURA POPULAR - No livro Literatura oral no Brasil (Itatiaia, 1984), do escritor e folclorista brasileiro Luís da Câmara Cascudo (1898-1986), encontro que: [...] A literatura que chamamos oficial, pela sua obediência aos ritos modernos ou antigos de escolas ou de predileções individuais, expressa uma ação refletida e puramente intelectual. A sua irmão mais velha, a outra, bem velha e popular, age falando, cantando, representando, dançando no meio do povo, nos terreiros das fazendas, nos pátios das igrejas nas noites de novena, nas festas tradicionais do ciclo do gado, nos bailes do fim das safras de açúcar, nas salinas, festas dos padroeiros, potirum, ajudas, bebidas nos barracões amazônicos, espera de Missa do Galo; ao ar livre, solta, álacre, sacudida, ao alcance de todas as criticas de uma assistência que entende, letra e música, todas as gradações e mudanças do folguedo. Ninguém deduzirá como o povo conhece a sua literatura e defende as características imutáveis dos seus gêneros. É como um estranho e misterioso cânon para cujo conhecimento não fomos iniciados. Iniciação que é uma longa capitalização de contatos seculares com o espírito da própria manifestação da cultura coletiva. Veja mais aqui e aqui.

TRAPIÁ – No livro Trapiá (Francisco Alves, 1961); do escritor Caio Porfírio de Castro Carneiro, encontro a narrativa que leva o título desse tópico a seguir transcrita: Naqueles tempos, era só uma oiticica, dominando o descampado. E bem junto à grota, um velho trapiázeiro. Por ali se cruzavam os caminhos que iam da vila do Coité ao serrote do Machado e da fazenda Taimbé no rumo dos cafundós do sertão. Os cambiteiros arriavam suas cargas debaixo da oiticica e ficavam horas e horas gozando a fresca, pernas espichadas, no bem bom, descansando das caminhadas. Um dia, apareceram uns retirantes, dizem que vindos de Pernambuco, e armaram uma venda ao pé do trapiazeiro. Não demorou muito, chegaram outras famílias, tangids pela grande seca do setenta e sete. Construíram-se casebres, alguns espalhados no descampado. Aquilo tudo era terra muita, vastidão de caatinga sem serventia. Contam os mais antigos que o cangaceiro Neste Amaricio amanheceu um belo dia dependurado do galho de oiticica. Fora enforcado com a correia de cangalha de algum arrieiro. Os feitos de Nestor Amaricio corria mundo. Nem depois de falecido deu sossego aos vivos. Nas noites de temporal, seus gemidos vinham do pé da oiticica, ganhavam lonjura. Então, derrubaram a árvore. O espírito de Nestor Amaricio se aquietou. Ficou só o trapiazeiro dominando a paisagem, ali de junto à grota, no oitão da venda dos pernambucanos. E nas épocas de safra, o chão amanhecia coalhado de trapiás maduros. Até quando durou a vida do trapiazeiro ninguém dá noticia ao certo. A tradição guardou muitas datas. Negra velha Aparecida conta uma estória desconforme: a árvore se encantara. Para o violeiro Zé de Melo, dos Melo do pé da serra, ela fora derrubada a mando do vigário do Coité, para levantar uma capela. A velha capela de São Sebastião, mais tarde transformada em igreja, com o seu cruzeiro, onde os filhos dos cororeis, nas festas do padroeiro, amarravam seus cavalos para banhá-los com cerveja. Assim veio ao mundo a vila do Trapiá. Irmão de Taimbé, irmã de Pitombeira. Viu secas e viu farturas. Perdeu até muito sangue na briga que durou uns pares de anos dos Castros com os senhores das Contendas. E o grito dos comboieiros dentro da noite, tangendo as tropas, acompanha toda a sua estória. Veja mais aqui.

ÁGUA ESBORRA DE AÇUDE – No livro Desmanchando o nordeste em poesia (Bagaço, 1986), do poeta popular Manoel Bentevi, encontro no Livro das Glosas, o mote O açude de bom gosto se arrombou, todo peixe que tinha foi embora: O açude de bom gosto se arrombou todo peixe que tinha foi embora: Com certeza o paredão não aguentou / toda a água que veio na enxurrada. / Quando foi na primeira cabeçada, / o açude de Bom Gosto se arrombou, / toda água da várzea se espalhou, / faz absurdo por aquele mundo afora, / resolveu tudo em menos de uma hora: / arrancou cana, quebrou pau, encheu o rio, / o açude dessa vez ficou vazio; / todo peixe que tinha foi embora. Veja mais aqui e aqui.

TEATRO RENASCENTISTA – Na obra Teatro Vivo (Civita, 1976), organizada por Sábato Magaldi, encontro que: Na Itália, onde uma rica classe de banqueiros e comerciantes havia estabelecido as premissas do desenvolvimento capitalista do Ocidente, a nova cultura artística aflorou mais rapidamente. Assim, já em meados do século XVI, os atores e as companhias se profissionalizaram através da commedia dell’arte – uma forma de teatro popular surgida em oposição á comedia literária e erudita de Ludovico Ariosto (1474-1533), Pietro Aretino (1492-1556) e Nicolau Maquiavel (1469-1527), autores renascentistas que seguiam fielmente o modelo clássico romano estabelecido por Plauto e Terêncio. Veja mais aqui e aqui.

ON CONNAIT LA CHANSON – O filme On connaît la chanson (Amores Parisienses, 1997), do cineasta francês Alain Resnais (1922-2014), conta a história de envolvendo pessoas com díspares interesses que envolve amor, paixões, negócios e relações pessoais. A partir do tema das aparências, Resnais inspirado desta vez pelo autor Inglês Dennis Potter, usou para integrar canções completas no corpo de suas ficções para melhor castigar sociedade britânica, usando trechos de canções interpretadas em reprodução a intervir por associação livre, nos acontecimentos dos seis personagens principais. O destaque vai para a premiadíssima atriz e realizadora francesa Sabine Florence Azéma. Veja mais aqui e aqui.

IMAGEM DO DIA
A arte do ilustrador e artista visual Tomas Spicolli

DEDICATÓRIA
A edição de hoje é dedicada à amiga psicóloga, professora, arterapeuta e curadora Viviani Duarte.

AS PREVISÕES DO DORO PARA 2016
Confira as previsões dos signos e as simpatias aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA

LEITORA TATARITARITATÁ
 Veja mais aqui.

quarta-feira, junho 03, 2015

GINSBERG, RESNAIS, LINS DO REGO, DENEUVE, MILTON & BRANT, LECOCQ, DUFY, CIVILIZAÇÃO & SIGNO TEATRAL.


CANÇÃO – No livro Uivo, Kadish & outros poemas (1953-1960, L&PM, 1984), do poeta estadunidense da geração beat Allen Ginsberg (1926-1997), destaco o poema Canção, tradução de Claudio Willer: O peso do mundo / é o amor. / Sob o fardo / da solidão, / sob o fardo / da insatisfação / o peso / o peso que carregamos / é o amor. / Quem poderia negá-lo? / Em sonhos / nos toca / o corpo, / em pensamentos / constrói / um milagre, / na imaginação / aflige-se / até tornar-se / humano - / sai para fora do coração / ardendo de pureza - / pois o fardo da vida / é o amor, / mas nós carregamos o peso / cansados / e assim temos que descansar / nos braços do amor / finalmente / temos que descansar nos braços / do amor. / Nenhum descanso / sem amor, / nenhum sono / sem sonhos / de amor - / quer esteja eu louco ou frio, / obcecado por anjos / ou por máquinas, / o último desejo / é o amor / - não pode ser amargo / não pode ser negado / não pode ser contigo / quando negado: / o peso é demasiado / - deve dar-se / sem nada de volta / assim como o pensamento / é dado / na solidão / em toda a excelência / do seu excesso. / Os corpos quentes / brilham juntos / na escuridão, / a mão se move / para o centro / da carne, / a pele treme / na felicidade / e a alma sobe / feliz até o olho - / sim, sim, / é isso que / eu queria, / eu sempre quis, / eu sempre quis / voltar / ao corpo / em que nasci. Veja mais aqui e aqui.

Imagem: Nu, do pintor francês Raoul Dufy (1877-1953)

Curtindo a Opéra bouffe em trois actes La petit Mariée (1875), do compositor francês Charles Lecocq (1832-1918), com Renaissance Orquestra Lyric da RTF, sob a direção de Roger Ellis.

VAMOS APRUMAR A CONVERSA: REPRISE BRINCARTE – Há um menino / Há um moleque / Morando sempre no meu coração / Toda vez que o adulto balança / Ele vem pra me dar a mão / Há um passado no meu presente / Um sol bem quente lá no meu quintal / Toda vez que a bruxa me assombra / O menino me dá a mão / E me fala de coisas bonitas / Que eu acredito / Que não deixarão de existir / Amizade, palavra, respeito / Carater, bondade alegria e amor [...]; Com esses versos da música Bola de meia, bola de gude, da dupla Milton Nascimento & Fernando Brant, alimento todo dia a criança que se mantém viva dentro de mim. Percebo que apesar de cinquentão, essa criança é a maior e melhor parte que carrego em mim. Por isso, hoje pras crianças de todas as idades é dia de reprise do programa Brincarte do Nitolino, nos horários das 10hs e das 15hs, com apresentação encantadora de Isis Corrêa Naves, no blog do Projeto MCLAM. Para conferir online é só clicar aqui ou aqui.

MENINO DE ENGENHO – O livro Menino de engenho (1932 – José Olympio, 1980), do escritor José Lins do Rego (1901-1957), romance de estreia do autor na Literatura, dividido em trinta e três capítulos contando a história de um menino órfão de um pai que assassinara sua mãe e a descoberta do mundo no engenho do avô, um patriarca do coronelato da cana-de-açúcar nordestina. Da obra destaco o trecho inicial: Eu tinha uns quatro anos no dia em que minha mãe morreu. Dormia no meu quarto, quando pela manhã acordei com um enorme barulho na casa toda. Eram gritos e gente correndo para todos os cantos. O quarto de dormir de meu pai estava cheio de pessoas que eu não conhecia. Corri para lá e vi minha mãe estendida no chão e meu pai caído em cima dela como um louco. A gente toda que estava ali olhava para o quadro como se estivesse a assistir a um espetáculo. Vi então que minha mãe estava toda banhada em sangue, e corri para beijá-la, quando me pegaram pelo braço com força. Chorei, fiz o possível para livrar-me. Mas não me deixaram fazer nada. Um homem que chegou com uns soldados mandou então que todos saíssem, que só podia ficar ali a Polícia e mais ninguém. Levaram-me para o fundo da casa, onde os comentários sobre o fato eram os mais variados. O criado, pálido, contava que ainda dormia quando ouvira uns tiros no primeiro andar. E, correndo para cima, vira o meu pai ainda com o revólver na mão e a minha mãe ensanguentada. “O doutor matou a Dona Clarisse! Porquê?” Ninguém sabia compreender. O que eu sentia era uma vontade desesperada de ir para junto de meus pais, de abraçar e beijar minha mãe. Mas a porta do quarto estava fechada, e o homem sério que entrara não permitia que ninguém se aproximasse dali. O criado e a ama, diziam, estavam lá dentro em interrogatório. O que se passou depois não me ficou bem na memória. [...]. Veja mais aqui.

O SIGNO TEATRAL – O livro O signo teatral: a semiologia aplicada à arte dramática (Globo, 1977), de Roman Ingarden, Petr Bogatyrev, Jindrich Honzl e Tadeusz Kowzan, organizado e traduzido por Luiz Arthur Nunes, Regina Ziberman, Ana Mariza Tibeiro Filipouski, Tania Franco Carvalhal e Maria da Gloria Bordini, aborda temas como a semiologia e o espetáculo teatral, as funções da linguagem teatral, os signos do teatro, a mobilidade do signo teatral e o signo no teatro. Da obra destaco o trecho da parte introdutória Um campo inexplorado, dos organizadores: [...] Provavelmente pelo fato de o espetáculo tomar emprestados elementos de outras formas de expressão, a tendência foi, durante muito tempo, considera-lo uma manifestação híbrida, resultante de uma soma ou fusão de diversas artes. A teoria wagneriana da gesamtkunstwerk (obra de arte total), é o produto mais típico dessa linha de pensamento. Nos dias atuais, porém, tende-se a ver o espetáculo como expressão única e independente, embora possa nutrir-se de elementos de outras linguagens. Para esse reconhecimento da especificidade da arte do espetáculo, a semiologia, com sua abordagem rigorosamente formal e objetiva, tem muitíssimo a contribuir. As dificuldades acima apontadas constituem um sério entrave; no entanto, não impediram que surgissem, desde cedo, esforços no sentido de esboçar uma semiologia do teatro. [...] quando nada, pelo estimulo que possa vir a dar ao estudo e à compreensão dessa arte que, em nosso meio, apesar de tantas forças contrárias, teima em querer subsistir e progredir [...]. Veja mais aqui.

O CHOQUE DE CIVILIZAÇÕES – O livro O choque de civilizações e a recomposição da ordem mundial (Objetiva, 2010), do controvertido e conservador cientista político estadunidense Samuel P. Huntington (1927-2008), explora a importância da cultura e da religião como causas de aliança e choques entre os países, abordando temas como nova era da política mundial, bandeiras e identidade cultural, mundo multipolar e multicivilizacional, as civilizações na história e na atualidade, a natureza das civilizações, ocidentalização, poder, cultura, indigenização, La Revanche de Dieu, a ordem emergente das civilizações, em busca de agrupamentos, fracasso da mudança de civilização, círculos concêntricos e ordem civilizacional, universalismo ocidental, direitos humanos e democracia, imigração, das guerras de transição às guerras de linha de fratura, países afins e diásporas, entre outros assuntos. Destaco um dos trechos: [...] Na década de 50, Lester Pearson advertiu que os seres humanos estavam entrando numa era em que as diferentes civilizações terão que aprender a viver lado a lado num intercambio pacífico, aprendendo umas com as outras, estudando a história e os ideais e a arte e cultura uma das outras, enriquecendo-se mutuamente com as vidas umas das outras. A alternativa, nesse pequeno mundo superpovoado, é a incompreensão, a tensão, o choque e a catástrofe. O futuro da paz e o futuro da civilização dependem da compreensão e da cooperação entre os líderes políticos, espirituais e intelectuais das principais civilizações do mundo. No choque das civilizações, a Europa e os Estados Unidos se juntarão ou serão destruídos separadamente. No choque maior, o choque verdeiro, global, entre a civilização e a barbárie, as grandes civilizações do mundo, com suas ricas realizações em religião, arte, literatura, filosofia, ciência, tecnologia, moralidade e compaixão, também se juntarão ou serão destruídas separadamente. Na era que está emergindo, os choques das civilizações são a maior ameaça à paz mundial, e uma ordem internacional baseada nas civilizações é a melhor salvaguarda contra a guerra mundial. Veja mais aqui.


NOITE E NEBLINA – O premiado documentário Noite e Neblina (Nuit et brouillard, 1955), do cineasta francês Alain Resnais (1922-2014) por encomenda do Comitê Histórico da Segunda Guerra Mundial dez anos depois da guerra e inspirado no livro , Poèmes de la nuit et brouillard, (1946), do poeta e editor francês e Jean Cayrol (1911-2005), com música de Hanns Eisler. Trata-se de um guia para melhor compreensão do Holocausto, alternando imagens coloridas e em preto e branco, com fotos e filmes dos arquivos dos horrores nazistas. É um filme para reflexão, vez que registra pouco tempo depois do ocorrido e do que é a tragédia humana promovida por uma guerra - o lamentável expediente da guerra - que nos ronda no cotidiano,  nesses tempos de violência banalizada, impossibilidade de indignação. Veja mais aqui, aquiaqui.



IMAGEM DO DIA
 Todo dia é dia de homenagear a musa de todos os tempos e respeitadíssima atriz francesa Catherine Deneuve, considerada um modelo de elegância e beleza gálica. Veja mais aqui


Veja mais sobre:
Quando não é na entrada é na saída, O autor como produtor de Walter Benjamin, Antologia Pornográfica de Alexei Bueno, Linguística & Estilo, Fronteiriços de Anna Bella Geiger, a música de Andrea dos Guimarães, Wunderblogs, a ninfa Carna, a arte de Gilvan Samico & Matéria Incógnita aqui.

E mais:
Vamos aprumar a conversa, Pensamento complexo de Edgar Morin, Pirotécnico Zacarias de Murilo Rubião, As criadas de Jean Genet, o cinema de Rainer Werner Fassbinder & Hanna Schygulla, a arte de Hanna Schygulla, Imprensa, a música de Alanis Morissete & a pintura de Thomas Gainsborough aqui.
Credibilidade da imprensa brasileira, A imprensa & Millôr Fernandes, a música de Eduardo Gudin, História da Imprensa de Nelson Werneck Sodré, Beijo no asfalto de Nelson Rodrigues, a literatura de Cervantes & a arte da jornalista Enki Bracaj aqui.
Inclusão social pelo trabalho, Pitágoras, José Louzeiro, Samir Yazbek, Jacques Rivette, Xue Yanqun, Ednalva Tavares, Lisa Lyon, Música Folclórica Pernambucana & A imprensa na atualidade aqui.
A mulher do médico, Do sentir de Mario Perniola, a fotografia de Alfred Cheney Johnston, a arte de Sandra Cinto.& Akino Kondoh, Sonhos graúdos na diversão da mocidade aqui.
Mil sonhos na cabeça e o amanhã nas mãos, A pedra do sono de João Cabral de Melo Neto, a pintura de Omar Ortiz, a arte de Gary Jackson & Sean Seal aqui.
A vida em risco e o veneno à mesa, O direito dos povos de Amartya Kumar Sem, a pintura de Roberto Fernandez Balbuena & a arte de Kadee Glass aqui.
O brinde do amor, Pedagogia do oprimido de Paulo Freire, a música de Vanessa da Mata, a arte de Luciah Lopez, Project Global Peace Art & Havia mais que desejo na paixão feita do amor aqui.
Sexta postura, A arte de amar de Manuel Bandeira, a música de Al Di Meola, a escultura de Ambrogio Borghi, arte de Juli Cady Ryan & Quando amor premia o sábado aqui.
Desencontros de ontem, reencontros amanhã, Augúrios da inocência de William Blake, a música de Gonzaguinha, a arte de Duarte Vitória, a poesia de Tony Antunes & Alô, Congresso Nacional, ouça quem o elegeu aqui.
O que é ser brasileiro?, Sobre a violência de Hannah Arendt, a arte de Alex Grey, a música de Carol Saboya & Quem faz e não sabe o que fez é o mesmo que melar na entrada e na saída e nem se lembrou de limpar. Que meladeiro aqui.
Pra quem nunca foi à luta, está na hora de ir, a escultura de Phillip Piperides, a música de Duo Graffiti, a arte de Tracey Moffatt & Tanise Carrali aqui
Brincar para aprender aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.
Fecamepa – quando o Brasil dá uma demonstração de que deve mesmo ser levado a sério aqui.
Cordel Tataritaritatá & livros infantis aqui.
Lasciva da Ginofagia aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui e aqui.
História da mulher: da antiguidade ao século XXI aqui.
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CRÔNICA DE AMOR POR ELA
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CANTARAU: VAMOS APRUMAR A CONVERSA
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DIDI-HUBERMAN, LINDA DEANE, ADALYN GRACE & MARINÊS

    Imagem: Acervo ArtLAM .   Das loas & toadas no cavalo-marinho... - O afamado artesão Tirésia já nasceu assim: cego e vaticinado...