Mostrando postagens com marcador Tatiana Cobbett. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Tatiana Cobbett. Mostrar todas as postagens

terça-feira, fevereiro 13, 2018

SARAMAGO, NATALIE DESSAY, AGOSTINHO DA SILVA, BARBARA STIMOLI, WACQUANT, ANDREA BACAL, SUZANA SANCHES, TATIANA COBBETT & MARCOLIVA

É HOJE O DIA DE CARNAVAL – Imagem: Art by Andrea Bacal - UMA: A LA URSA – A La Ursa quer dinheiro, quem não dá é pirangueiro! Isso era Clodovilson, entrava ano e saía ano, desde que a Gervasilva, aquele mulherão de parar o trânsito, instalou-se na sua vida. Pra quem vivia morrendo na mão ou pegando pigu no passo da primeira catraia que embeiçasse sua feiura, topar um monumento daqueles, assim do nada, era o mesmo que ganhar na loteria. Se era, hem? A mulher era bonitona, olhos, beiços, cara, peitos, bunda, pernas e coxas, corpulenta de chamar atenção, majestosa de ter tudo aos seus pés, colossal de endoidar santos, inocentes, anciões e endiabrados. Tanta coisa bonita num só mesmo lugar, só graça de Deus! Oxe, ele nem nem, só pendurado na garupa do bundão dela, agarrado ao seu pescoço, sai pra lá que essa aqui tem dono. E tinha, ele não largava do pé dele, nem ela do dele, parecia mais feito um pro outro. Bastava o apito anunciar o carnaval, ele devidamente trajado, tomava a posse da festa e segurava o rojão como podia. Ela mesma sugeriu uma coleira, adepta que era de BDSM, adorava ser dominada, pisoteada, maltratada por seu macho e submissa somente a ele, ô cara sortudo esse, diziam todos, e era mesmo. Quem chegasse ao desaviso de visitá-lo, encontrava-a quase nua, de quatro, lambendo os pés dele e tudo o mais. Tinha até plateia do outro da rua defronte a casa dele, espiando todo pelas brechas da sua casa, uma janela esquecida aberta, uma portinhola escancarada, na varanda, terraço, ou na cozinha por cima do muro no quintal. Havia sempre um jeito de se atrepar para ver as paparicadas dela pra cima dele. Só no carnaval que ela botava a cara na rua, trancada às setecentas chaves o resto do ano. No carnaval ela aparecia depravada, uma perdição geral, com tão pouca roupa que não cobria quase nada, quase tudo de fora, aliás, pouquíssima coisa deixava de ser vista, e ele lá rei do pedaço, dono da mais fantástica entre todas as mulheres do planeta. Todo mundo limpava as vistas com saracoteado dela e qualquer que se abestalhasse com a sua exuberância, dava de cara com a La Ursa, verdadeiro chega pra lá. O que tinha de gente maldizendo da vida e invejando Clodovilson, era da muita, e ele mão de figa, gritava: Tire o olho gordo do meu pirão, não é pro seu bico, essa aqui tem dono e sou eu, arreda que aqui só quem reina sou eu! DOIS: O HOMEM DA MEIA NOITE, A MULHER DO MEIO DIA – Assim é a vida: ele zanzava de noite, donzelão, quanta mulher vistosa, exóticas, todas assanhadas e prontas, sem um centavo no bolso, via com o umbigo, lambia com a testa, não dava conta, só pinguço aguenta. Ela voava de dia, arredia, a vida traz a conta, sabia, desenganada do amor, não existia pecado ao sul do Equador, não era pra ela, pudica, aliás, sonsa, se guardava pro princípe encantado. As razões mais absurdas, até as pedras se encontram, não seria eles o desencontro. Em uma esquina, ao crepúsculo, ela se recolhia, ele saía pra vida, um encontrão: Quem é você? Colombina, Pierrot. Nada mais romântico, ele a levou na noite, ela raiou no dia dele, indômitos, olhos nos olhos, mão na mão, parecia mais um feito pro outro. Trocaram de fuso horário, ela nua exaltada na noite, gemendo égua no cio, ele priápico no pino do meio dia, enganchado nela como que engatados pelo amor. E foram felizes pra sempre, ninguém sabe, o Homem da Meia Noite, a Mulher do Meio Dia. TRÊS: EDUCAÇÃO X ESCOLARIZAÇÃO – Tem chato de galocha de todo jeito, valha-me tanta carne de pescoço. De uma vez por todas: educação nunca foi escolarização, no máximo esta é apenas uma mínima parte daquela, provavelmente uma ferramenta, um instrumento. Principalmente no Brasil em que a tragédia educacional perpassa as redes pública e privada, moldando apenas o aprendiz pro mercado e mais nada, cidadania e dignidade humana, solidariedade que é bom, passam ao largo, descaradamente. Pra você ver, um dia desses uns alunos duns cursos de uma distinta faculdade, falavam pra mim que um certo professor de Ciências Sociais mestre em não sei o quê, disse no meio da aula que odiava Marx e que, por isso, não falaria de marxismo nem coisa que valha, preferindo elogiar com o título de filósofo um certo político que enganou todo mundo na caça aos marajás, reconhecendo nele o ideal de ser humano. Cada coisa que me aparece. Ainda me deram de bandeja que nas provas desse tal professor mestre em não sei o quê, tem sempre um ou dois quesitos com caça-palavras, indisfarçamente com nomes pra lá de duvidos e que são exaltados por ele, inclusive, confidenciando outros mais achegados que ele anda com os dois colhões pro lado direito, repetindo frases que um certo tido por intelectual, plantado de tédio e angústia em Miami, ejacula de sua masturbação mental pelos quatro cantos. Eu, hem! Cada uma que me aparece, pra onde me viro só vejo assombração. Isto é Brasilzilzilzilzil!!! E vamos aprumar a conversa. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.

RÁDIO TATARITARITATÁ:
Hoje na Rádio Tataritaritatá é dia de especial com Frevo & Folia Caeté no Dia Mundial da Rádio & a duplamiga Tatiana Cobbett & Marcoliva: Parceiros, Bendita companhia, Corte & costura, Sawabona Shikoba, Na Vera & Taleban & muito mais nos mais de 2 milhões de acessos ao blog & nos 35 Anos de Arte Cidadã. Para conferir é só ligar o som e curtir. 

PENSAMENTO DO DIA – Se eu chegasse a ser dum Outro / mas de mim não me perdendo / e esse Outro todos os outros / que comigo estão vivendo / não só homens mas também / os animais e as plantas / e os minerais ou os ares / e as estrelas tais e tantas / terei decerto cumprido / meu destino e com que sorte / para gozar de uma vida / já ressurecta da morte. Poema do filósofo, poeta e ensaísta português Agostinho da Silva (1906-1994), extraído de Uns poemas de Agostinho (Ulmeiro, 1990), que traz também: Crente é pouco sê-te Deus / e para o nada que é tudo / inventa caminhos teus. Veja mais aqui e aqui.

GUETO & PRISÃO - [...] Para perceber o parentesco profundo que liga o gueto e a prisão, parentesco que contribui para explicar como o declínio estrutural e a obsolescência funcional de um pôde conduzir à ascensão inesperada e à extraordinária expansão da outra no último quarto de século, é necessário antes caracterizar corretamente o gueto. Mas diante disso nos vemos confrontados com um problema preocupante: as ciências sociais falharam em desenvolver um conceito analítico sólido de gueto; elas se contentaram, a cada época, em tomar emprestado o conceito indígena corrente no debate sociopolítico e no discurso comum. Donde uma grande confusão, que fez com que o gueto fosse assimilado incorretamente, segundo os casos, a uma zona segregada, um bairro étnico, um território de grande pobreza ou habitat deteriorado ou, até mesmo, com a emergência nestes últimos anos do mito político-universitário da “underclass”, a uma simples acumulação de patologias urbanas e de comportamentos anti-sociais [...] A extensão e os meios destas leis variam de uma jurisdição e de uma cidade para outra. Em certos estados, a notificação é “passiva”: deve ser iniciada pelo público e frequentemente às suas custas; em outros, ela é “ativa”: são as autoridades que tomam a iniciativa e assumem os custos de difusão da informação junto à população. Aqui, ela diz respeito apenas a certas categorias de “sex offenders” consideradas perigosas e tendentes à recidiva, que a lei chama de “predadores sexuais”; lá, ela se aplica ao conjunto dos condenados por costumes [...] Por seu questionamento crítico, baseado na observação e na comparação, os pesquisadores têm um papel motor a desempenhar para reformular em termos audaciosos e ao mesmo tempo realistas a questão do castigo e para tentar, com todos aqueles que trabalham a seu redor e em seu seio, advogados, interventores externos, militantes, presos e suas famílias, fazer, enfim, que a prisão entre na cidade. Trechos extraídos da obra Punir os pobres: a nova gestão da miséria nos Estados Unidos (Revan, 2003), do sociólogo e pesquisador francês Loïc Wacquant, tratando sobre a criminalização da m iséria, a “reforma” da assistência social para vigiar e punir, a prosperidade do Estado penal, o “Grande Confinamento” do fim de século, 0 “Big Government” carcerário e seus custos, alvos privilegiados, a nova “instituição peculiar” dos Estados Unidos: a prisão como substituto do gueto, as presas fáceis: a caça aos delinqüentes sexuais, a prisão é uma instituição fora-da-lei, entre outros assuntos, analisando o processo contemporâneo do desenvolvimento do capitalismo, principalmente nos Estados Unidos, mas com extensão a todo o mundo. Em condições nas quais o capitalismo gera mais desemprego do que emprego, tendo lugar a criminalização da pobreza, a passagem do Estado de Bem-Estar Social ao Estado Penal, quando os serviços sociais perdem a função assistencial para transformar-se em instrumentos de vigilância e controle das novas classes perigosas. Veja mais aqui.

NINGUÉM SE BANHA DUAS VEZES NO MESMO RIO - Estou deitado na margem. Dois barcos, presos a um tronco de salgueiro cortado em remotos tempos, oscilam ao jeito do vento, não da corrente, que é macia, vagarosa, quase invisível. A paisagem em frente, conheço-a. Por uma aberta entre as árvores, vejo as terras lisas da lezíria, ao fundo uma franja de vegetação verde-escura, e depois, inevitavelmente, o céu onde boiam nuvens que só não são brancas porque a tarde chega ao fim e há o tom de pérola que é o dia que se extingue. Entretanto, o rio corre. [...] Três metros acima da minha cabeça estão presos nos ramos rolos de palha, canalhas de milho, aglomerados de lodo seco. São os vestígios da cheia. À esquerda, na outra margem, alinham-se os freixos que, a esta distância, por obra do vento que Ihes estremece as folhas numa vibração interminável, me fazem lembrar o interior de uma colmeia. [...] Entretanto, enquanto vou pensando, o rio continua a passar, em silêncio. Vem agora no vento, da aldeia que não está longe, um lamentoso toque de sinos: alguém morreu, sei quem foi, mas de que serve dizê-Io? Muito alto, duas garças brancas (ou talvez não sejam garças, não importa) desenham um bailado sem princípio nem fim: vieram inscrever-se no meu tempo, irão depois continuar o seu, sem mim. Olho agora o rio que conheço tão bem. A cor das águas, a maneira como escorregam ao longo das margens, as espadanas3 verdes, as plataformas de limos onde encontram chão as rãs, onde as libélulas (também chamadas tira-olhos) pousam a extremidade das pequenas garras - este rio é qualquer coisa que me corre no sangue, a que estou preso desde sempre e para sempre. Naveguei nele, aprendi nele a nadar, conheço-lhe os fundões e as locas onde os barbos pairam imóveis. É mais do que um rio, é talvez um segredo. E, contudo, estas águas já não são as minhas águas. O tempo flui nelas, arrasta-as e vai arrastando na corrente líquida, devagar, à velocidade (aqui, na terra) de sessenta segundos por minuto. Quantos minutos passaram já desde que me deitei na margem, sobre o feno seco e doirado? Quantos metros andou aquele tronco apodrecido que flutua? O sino ainda toca, a tarde teve agora um arrepio, as garças onde estão? Devagar, levanto-me, sacudo as palhas agarradas à roupa, calço-me. Apanho uma pedra, um seixo redondo e denso, lanço-o pelo ar, num gesto do passado. Cai no meio do rio, mergulha (não vejo, mas sei), atravessa as águas opacas, assenta no lodo do fundo, enterra-se um pouco. [...] Desço até à água, mergulho nela as mãos, e não as reconheço. Vêm-me da memória outras mãos mergulhadas noutro rio. As minhas mãos de há trinta anos, o rio antigo de águas que já se perderam no mar. Vejo passar o tempo. Tem a cor da água e vai carregado de detritos, de pétalas arrancadas de flores, de um toque vagaroso de sinos. Então uma ave cor de fogo passa como um relâmpago. O sino cala-se. E eu sacudo as mãos molhadas de tempo, levando-as até aos olhos - as minhas mãos de hoje, com que prendo a vida e a verdade desta hora. Trechos extraído da obra Deste mundo e do outro (Caminho, 1985), do escritor, teatrólogo, jornalista e dramaturgo português José Saramago (1922-2010) – Prêmio Nobel de Literatura de 1998. Veja mais aqui.

TRÊS POEMAS – 1 - por vezes o poema engasga / (tal como a fúria daqueles) / que espetam garfos quando pensam / não é que isso seja grave / (terrível é olhar para ti e sentir) / que és matéria inexistente. 2 - nos pingos de chuva que caem / há violinos com saudades do mar / impera no céu enegrecido / o voo obliquo de gaivotas / com fome e sede dos búzios / rendilhados de espuma e naufrágios. / quem dera soubesses entender / (tal como eu, neste instante...) / que nenhum sol se atreverá a mudar / esse tempo em que te lembro a chorar. 3 - porque andam "azedas" / as pessoas? / o acto da cordialidade vai se perdendo / (mais do que isso...) / parece que se disputa a bestialidade humana. Poemas da poeta Suzana Sanches.

CLEÓPATRA DE NATALIE DESSAY
Curtindo o CD/DVD Árias do compositor George Frideric Händel, Giulio Cesare (Virgin, 2011), no qual a soprano francesa Natalie Dessay interpreta Cleópatra, com a orquestra Le Concert d’Astrpée, Chorus of Opéra National de Paris e regência de Emmanuelle Haïm. Veja mais aqui.

Veja mais:
Tem hora pra tudo e a vida é outra coisa, a música do Quinteto Armorial, a arte de Emilia Kallock, os cordéis de Ciro Veras & Alexandra Lacerda aqui.
A Uiara do Jaraguá aqui.
Quebra de Xangô, Yulia Gorodinski, Relacionamentos Afetivos, Psicologia Jurídica & Criminologia aqui.
Deusa Vesta, Daniel Goleman & Foco, Crimes Tributários, Psicologia & Pesquisa aqui.
Gilles Deleuze & Félix Guattari, Peter Gabriel, Catarina Eufémia, Sam Mendes, Vicente Caruso, Mena Suvari, O Rádio & Radiodifusão, Psicopatologia & Memória, Sandra Fayad & Janne Eyre Melo Sarmento aqui.
Direito Ambiental aqui.
Tolinho & Bestinha: quando a lei do semideus é cachaça, tapa e gaia aqui.
Psicopatologia & Orientação, Psicologia Jurídica & Agências Reguladoras aqui.
A festa no céu do amor aqui.
A Utopia de Thomas More aqui.
Dois poemetos em prosa de amor pra ela aqui.
Psicopatologia & Atenção, Psicodrama & Crimes contra a administração pública aqui.
A contenda do amor aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
A arte da dançarina e coreografa alemã Barbara Stimole, na premiada obra La teoria delle stringhe - La Badini, de Fabrizio Zamero.
Veja mais aqui.
 

quinta-feira, setembro 21, 2017

JULIO VERNE, JOÃO GONÇALVES, EDUCAÇÃO INCLUSIVA & ACESSIBILIDADE NA BIBLIOTECA FENELON!

O ESPADACHIM DO CANAVIAL – Imagem do artista plástico João Gonçalves - O que Zedonho tinha de ocrídio, tinha de trabalhador. Pense num sujeito apegado aos afazeres de só parar quando vencia o prometido. Pra se ter ideia, quando menino de rua, órfão de pai e mãe que nem sabia de qualquer parente nem aderente, pedia pra limpar o mato do terreiro, varrer as calçadas e as ruas, carregar uma mala, engraxar um sapato, coisas do tipo, mas como era criança ninguém levava a sério. – Meu filho cadê seus pais? Tenho não. Ué, você nasceu aonde? Nasci e vivo nas ruas. Era sempre assim. Até o dia em que um idoso japonês que apareceu por essas bandas, inadvertidamente deixou cair umas moedas no chão que rolaram rua abaixo espalhadas, ele recolheu uma a uma na maior das ligeirezas e correu pro ancião devolvendo-as: - Olhe, é do senhor, tinha caído e nem viu! O macróbio ficou tão admirado: - Ah, que bom! Você mora aonde? Na rua. Na rua? Sim. Então, venha. Pegou sua mão e o levou pra uma casa esquisita, nunca tinha visto daquele tipo e ficou maravilhado com o tanto de coisas estranhas que tinha dentro. – Já comeu hoje? Não. Venha, vamos pro desjejum. Que é isso? Venha. È sentaram-se ao chão, ao redor de uma mesinha. Enquanto o longevo nipônico manipulava uns hashis levando aquela comida esquisita à boca, ele fitava detalhadamente, engolindo seco. – Vá, pode comer! Aí ele tentou. – Ah, pegue o hashi assim! Olhou, olhou, nada de aprender, o velho se ria com sua inabilidade. Aí ele invocou-se e meteu a mão na comida, ingerindo tudo duma só vez. Novas risadas do anoso que bateu palmas, dele perguntar: - Tem mais? Uma jovem nissei adentrou trazendo um prato com comidas que lhe foram oferecidas. Nem esperou pela anuência do anfitrião e já foi logo metendo a mão à boca, de fazer bochecha pra engolir. Tem mais? Outros pratos vieram dele se empanzinar de tanto comer, se encostando a um canto e pegar no sono. Quando acordou já era quase noite e ele ficou de olhos esbugalhados com o tanto de comida que estava servida à mesinha. Para mim? Com a anuência do dono da casa, ele avançou e se empanturrou até ficar amolecido de bucho cheio. Um tempo depois a nissei voltou para apanhá-lo e encaminhá-lo pro banho; depois do asseio, já trocado de roupa feito um japonesinho, foi conhecendo cada parte da casa, até descobrir o seu dormitório. Nem esperou ela terminar de falar e já caiu na cama, só acordando no dia seguinte. Assim se passaram dias, semanas, meses, anos, aprendendo artes marciais e os serviços gerais da casa. Já com quase dezessete anos, o seu protetor faleceu, deixando-lhe duas espadas de samurai por presente de herança. O restante, os familiares vieram, limparam tudo, findaram por despejá-lo de não saber o que poderia fazer nem pra onde ir. Era época do inicio de moagem da safra canavieira em Alagoinhanduba, ele aproveitou e se inscreveu no que estavam precisando: cortador de cana. Quando chegou empurrado na plantação, pediu para que escolhessem um pedaço de terra para ele trabalhar. Acharam que era petulância do novato e logo apontaram pruma área só pra vê-lo morrer de trabalhar dias a fio. Duas horas e meia depois apareceu ele pedindo que demarcassem outra área porque aquela já estava pronta. Foram ver e ficaram de queixo caído: não só deu vencimento, como deixou tudo devidamente organizado pra colhedeira passar e pegar. – Como foi que você fez isso, seu cabra? Fazendo. Faça de novo preu ver ali. Apontaram e lá foi ele, a área era maior que a anterior e ficaram só olhando pra caírem na gaitada com a melada dele. Nem notou o sarcasmo de todos, logo se encaminhou pra plantação, sacando as duas espadas e golpeando a cana que já caía certinha aos montinhos. Como é? Ficaram de olhos arregalados, nem acreditaram no que viram e já botaram ele pra outra empreitada maior que as anteriores. Oxe! Nem, nem. O que ele fez num dia, somando a tarefa de todos por um mês, multiplicado por duas vezes e, ainda assim, não davam vencimento. – Ô, mô fio, você aparentado com quem, hem? Eu só órfão de pai e mãe, não tenho parente não. Isso é um apaideguado dum broco, tô perguntando se você é aparentado com Superhomem, com o cabrunco, com coisas do outro mundo, ou o quê? Não, senhor, sou apenas trabalhador mesmo. Isso é o fim do mundo. Vá-se embora e amanhã esteja no ponto no mesmo horário. Todo dia ele batia o recorde e no final da safra foi o campeão com direito a prêmio, festa e tudo. Como estava famoso, logo angariou a simpatia das moçoilas mais matutas, chegando mesmo a se amasiar de uma que nem bola pra ele dava. Ano após ano foi nascendo um bruguelo atrás do outro e ele, quando findava a safra em Alagoinhanduba, ia pro Centro-Sul pra botada das usinas de lá, não se atrapalhava com entressafra, só voltando seis meses depois. Anos e décadas se passando, foi cortando cana que ele montou a casa, educou os filhos, tudo formado com graduação e pós-graduações, tem até um que o mês passado foi laureado com o doutoramento numa universidade da França, e tem mais três que estão terminando o mestrado também no exterior. Quando soube disso, o Gal Langal não acreditou: - Sou que nem São Tomé, só acredito se eu ver com esses olhos que a terra um dia vai ter o trabalho de comer. Verdade. Provaram por a+b, tintim por tintim, testemunhas muitas, fama do homem ia longe, mesmo assim, não acredito. Tiraram a prova dos nove com ele, chamaram Zedonho: - Nada, eu só trabalhei pesado e muito! Nada demais. Estão vendo, cambada? Nada, vá na casa dele e tire a sua conclusão. Gal Langal foi lá, conferiu tudo, confirmou tudo. Mas não acredito. Esse cara deve de ter outra profissão, não pode ser. Não tinha. Ô Zedonho, que danado que você faz pra ter essas coisas e viver desse jeito? Nada, só corto cana. Foi quando souberam que até a polícia desconfiou dele, vez que um sujeito havia cometido um crime e havia escapulido justo pro canavial dele. Ah, eu num disse? Tem coisa. Tinha não. Quando a polícia foi investigar, o bandido estava todo cortado dentro do canavial, até inocentaram o Zedonho porque o sujeito era de alta periculosidade, num foi, Zedonho? Foi isso mesmo, meu senhor. Danou-se. Ô Zédonho e o que tu queres mais da vida, hem homem? Queria só que o mundo vivesse em paz, mais nada. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.

RÁDIO TATARITARITATÁ:
Hoje na Rádio Tataritaritatá especiais com o violoncelista estadunidense de origem chinesa Yo Yo Ma, executando Brasileirinho, Obrigado Brazil & Cinema Paradiso com participações de Chris Botti, Carlos Prieto & Brasil Guitar; da pianista francesa Khatia Buniatishvili interpretando Concerto de Grieg eRachmaninov & Pictures at na exhbition de Mussorgsky; o guitarrista e violonista Hélio Delmiro com seus álbuns Chama, Emotiva & Compassos; e a dupla formada pela bailarina, cantora e compositora Tatiana Cobbett e o músico e compositor Marcoliva com seus álbuns Parceiros, Bendita Companhia, Corte e Costura & Sawabona Shikoba. Para conferir é só ligar o som e curtir.

PENSAMENTO DO DIA – [...] Assim pois Phileas Fogg tinha ganho sua aposta. Tinha feito em oitenta dias a viagem ao redor do mundo! Tinha empregado para fazê-la todos os meios de transporte, paquetes, railways, carruagens, iates, navios mercantes, trenós, elefante. O excêntrico gentleman tinha desenvolvido nesta empresa suas maravilhosas qualidades de sangue frio e de exatidão. Mas afinal? O que tinha ganho neste deslocamento? O que alcançara com esta viagem? Nada, diriam? Nada, vá lá, a não ser uma sedutora mulher, que — por mais inverossímil que possa parecer — o tornou o mais feliz dos homens! Na verdade, não faríamos, por menos que isso, a Volta ao Mundo? Trecho extraído da obra Volta ao mundo em 80 dias (Melhoramentos, 2009), do escritor francês Julio Verne (1828-1905), autor de frases célebres como “Os obstáculos existem para serem vencidos; quanto aos perigos,quem pode se orgulhar de fugir deles? Tudo é perigo na vida” e “A imbecilidade humana não tem limite”. Veja mais aqui.

EDUCAÇÃO INCLUSIVA – Uma educação que seja inclusiva tem sido desejada por muitos sujeitos que, de diferentes ligações sociais, acalentam a ideia de construir uma escola que consiga trabalhar conjuntamente diversidade e conhecimento. Essa proposta tem-se tornado bandeira de muitos movimentos sociais que constantemente levam a publico situações educacionais marcas pelas dificuldades em lidar, no universo da escola, com as diferenças subjetivas. São situações de disseminação social, de gênero, de condição social, de sexualidade, de diferenças físicas, mentais e tantas outras, que são absorvidas pela cultura escolar e transformadas em cenas corriqueiras, nas quais a ausência de um estranhamento e de um desconforto impede mudanças. Silenciadas nos contextos disciplinares e nos aspectos mais formais da escola, essas ideias muitas vezes ficam restritas às vivências socializadoras dos alunos. [...] Dessa forma, aprendizagens caricatas sobre as diferentes vão-se tecendo no espaço escolar, alargando e fomentando preconceitos construídos pela humanidade [...]. Trechos extraídos do artigo Educação especial à educação inclusiva, de Margareth Diniz e Mônica Rahme, extraído da obra Pluralidade cultural e inclusão na formação de professoras e professores: gênero, sexualidade, raça, educação especial, educação indígena e educação de jovens e adultos (Formato, 2004), organizada por Margareth Diniz e Renata Nunes Vasconcelos. Veja mais aqui, aqui, aqui e aqui.

 
PROJETO ACESSIBILIDADE DA BIBLIOTECA FENELON BARRETO - Participação na reunião do Projeto Acessibilidade/Inclusão da Biblioteca Municipal Fenelon Barreto, no último dia 20/09/2017, com as professoras Rute Costa da SEMED-Palmares & Silvana Neves – Coordenadora do Programa de Educação Inclusiva da SEMED-Palmares, e o jornalista Luiz Heitor, da Fundação Casa da Cultura Hermilo Borba Filho. Esta reunião é o resultado das reuniões ocorridas nos dias 31/08 e 20/09, dando andamento à esquematização de ações que propiciem o envolvimento de alunos com deficiência visual, auditiva e cadeirantes para visita à Biblioteca no sentido de levantar as dificuldades encontradas por esse público-alvo, entre outras que serão estudadas para viabilização, resultado de parceria com o IFPE. Veja mais aqui e aqui.

Veja mais:
A história da minha vida de Helen Keller aqui.
Minha alegria de viver de Denise Legrix aqui.
O lamentável expediente da guerra aqui.
Dia Internacional da Paz aqui e aqui.
A literatura de Herberto Sales aqui.
A adolescência no Dia do Adolescente aqui e aqui.
A poesia de Luis Cernuda aqui.
A arte musical de Tatiana Cobbett & Marcoliva aqui e aqui.
A arte do poeta e filósofo latino Virgilio aqui e aqui.
Dia do Radialista aqui.
O pensamento do filósofo alemão Arthur Schopenhauer aqui, aqui e aqui.
A arte musical de Yo Yo Ma aqui.
Faça seu TCC sem Traumas: livro, curso & consultas aqui.
Livros Infantis do Nitolino aqui.
&
Agenda de Eventos aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
A arte do artista plástico João Gonçalves.
Veja mais aqui.
 

NÊGO BISPO, IA GENBERG, JOUMANA HADDAD & FUXICO CULTURAL

  Imagem: Acervo ArtLAM . Bródio na pareidolia do perdulário pendular... - Alagoinhanduba estava em polvorosa com os estardalhaços causad...