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domingo, novembro 05, 2017

LAFCADIO HEARN, JOAN DIDION, FEDERICO FELLINI, ERNST BLOCH, BERTRAND TAVERNIER, CIDADE, CULTURA, LITERÓTICA & ARTERÓTICA

A arte da fotógrafa francesa Laure Albin Guillot (1879-1962). Veja mais aqui.

LITERÓTICA: NOSSA FESTA - Toda sexta-feira, meio-dia em ponto, eu bato meu ponto pro que der e vier. Meio dia em ponto, toda sexta-feira eu chego já pronto e o que é o que é. E ela vem de viés com toda surpresa, rompendo a represa de querer mais. É tudo demais e ela só me fascina, jóia excepcional, uma real mina, bailarina de Degas. Ou nua vestal, dançarina de fuá. E eu sentimental com toda destreza arrasto essa presa, astuta indefesa do pito voar. E para empenar tomo a pele e o pulso, a deixo em soluço a gemer de manhar. A se espernear no corpo rendido, eu domino o seu urânio enriquecido pronto pra explodir e eu só pra acudir num bote certeiro, quando vou de matreiro adornar seus quadris. E se faz bela atriz ensaiando sem medo a me ter entre os dedos, a me lamber num enredo de São Paulo a Paris. O que eu sempre quis e me morde abusada, se entope e se engasga entornando o seu mel. Eu adoço seu fel e vou de gandaia com minha azagaia no seu beleléu. Já sou réu condenado a morrer um bocado no meio do céu. Onde ela faz escarcéu, reluta e se esgana, ela goza sacana no maior pitéu. Ao léu a valer, ela não satisfez. E vem tudo de novo pra glória de um rei, ela sabe e eu não sei, o que importa é viver e venha tudo outra vez. OUTRA VEZ: Toda sexta-feira, meio dia em ponto, ela apronta de tudo comigo e pronto! Ela chega e me olha e toda se desfolha para o bem-me-quer. Ela se abre mulher e eu sorrio, ela se rela e vira cadela no cio e me abraça e me beija, e se faz de puta e princesa quando me quer e eu sou sua passarela onde o sangue dá na canela pro que der e vier. Ela ronda, me cheira e me fela, ela usa e lambuza, se descabela e me acusa de só abusar dela. Ela lambe e abocanha, ela vence e me ganha na melhor de três. Ela me agarra medonha, ela me bate uma bronha na maior maciez. Ela chupa e me suga, ela aponta pra fuga e me faz descortês. Ela agita e me alisa, ela grita e repisa que é a última vez. E nem bem recomeça, ela me prega uma peça e posa sisudez. Ela bole, suspira e rebola, ela delira e quase degola a minha rigidez. E se aninha e engalfinha, ela jura que é minha por mais de um mês. Ela assunta e se enrosca, ela se faz mesa posta e eu seu freguês. Ela ajeita e retruca, ela monta mutuca e diz que não fez. Ela esfrega e renega, ela rega e pula a janela da minha timidez. Ela atiça e se esfola, ela então faz escola pela insensatez. Ela aguça e me inflama, ela me queima na chama da sua nudez. Ela se arrisca de fato, ela fica de quatro na maior viuvez. Ela torce e retorce, ela morde, rejeita e se ajeita e nem se refez. Ela goza e remexe, ela arrocha e debocha na maior altivez. Ela treme e me grita e quer sair muito bem nessa fita com toda malvadez. E quando eu gozo espalhafato de folia de bombo. Ela sorri que de fato fui salvo pela zoada do gongo. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais abaixo & mais aquiaqui.


DITOS & DESDITOS - Em vários aspectos, escrever é o ato de dizer Eu, de se impor sobre as outras pessoas, de dizer escute-me, veja pelo meu lado, mude de ideia. É um ato agressivo, até mesmo hostil. Pensamento da escritora e jornalista estadunidense Joan Didion.

ALGUÉM FALOUCinema-verdade? Prefirto o cinema-mentira. A mentira é sempre mais interessante do que a verdade. Sempre faço o mesmo filme. Não consigo distinguir um dos outros. Pensamento do cineasta italiano Federico Fellini (1920-1993). Veja mais aqui, aqui e aqui.

HERANÇA DESTE TEMPO – [...] Nem todos estão presentes no mesmo tempo presente. Aparentemente estão porque é possível vê-los aqui e agora. Mas não é só por isso que uns e outros vivem no mesmo tempo. Pelo contrário, alguns possuem um passado que se intromete. [...] Tempos mais antigos que os atuais continuam a viver nas camadas mais antigas [...] “As velhas formas”, dizia ele, colaboram em parte para a novidade, quando elas são bem dispostas. O inimigo viu melhor [...] que essas formas são extremamente eficazes. É tempo de recuperar algumas velhas coisas, a urgência da hora nos ordena. A indolente arrogância com que um Kautsky zombava dos “heróis” ou das “pequenas amostras da mística apocalíptica” e se contentava em ridicularizá-las está ultrapassada, tanto na teoria quanto na prática [...]. Trechos extraídos da obra Herança deste tempo (Payol, 1978), do filósofo alemão Ernst Bloch (1885-1977). Veja mais aqui.

CIDADE: A SEDUÇÃO DO LUGAR – [...] Mesmo com as instituições públicas distanciadas, a sensação da cidade e o seu tecido físico estão sempre presentes para os habitantes e visitantes. Apreciado, visto, tocado, cheirado adentrado, consciente ou inconscientemente, esse tecido é uma representação tangível daquela coisa intangível, a sociedade que ali vive e suas aspirações [...]. Trecho extraído da obra A sedução do lugar (Martins Fontes, 2004), do professor e historiador de arte britânico Joseph Ryckert.

QUANDO TUDO COMEÇA – O filme Quando tudo começa (1999), de Bertrand Tavernier, trata sobre a direção de uma escola pública infantil mutirracional, em uma pequena cidade francesa, com alto índice de desemprego. A situação confronta o cotidiano profissional, refletindo sobre o desempenho e o comportamento dos alunos. Utiliza historias reais relatadas por professores, discutindo problemas de educação, de comunidades excluídas, problemas éticos relacionados à exclusão socioeconômica, participação da comunidade, cidadania e solidariedade.


ARTERÓTICA –A coleção Erótica (Taschen, 2001), reunindo a arte de 17th – 18th Century: from Rembrandt to Fragonard, 19th Century: from Courbet to Gaugin, 20th Century Volume I – From Rodin to Picasso & 20th Volume II – From Dali to Grumb, do historiador e editor de arte francês Giles Néret, reúne a expressão artistica erótica dos séculos XVII ao XX. Veja mais aqui.

PROMESSA QUEBRADA - [...] Nada aconteceu que pudesse perturbar a felicidade da jovem esposa até o sétimo dia após o casamento, quando seu marido foi convocado para executar algumas tarefas que exigiam a presença dele no castelo durante a noite. Na primeira vez que foi obrigado a deixá-la sozinha, ela se sentiu indisposta de um modo que não soube explicar, vagamente assustada sem saber por quê. Quando se deitou, não conseguiu dormir. Podia sentir uma estranha opressão na atmosfera, uma densidade inexplicável, como ocorre algumas vezes nos momentos que precedem uma tempestade. Quase na Hora do Boi, ela ouviu, no lado de fora, um sino tocar, o sino dos peregrinos budistas; e se perguntou que peregrino poderia estar passando pelo bairro do samurai àquelas horas. Logo em seguida, após uma pausa, o sino soou muito mais perto. Com certeza, o peregrino estava se aproximando da casa; mas por que o faria pelos fundos, onde sequer havia uma rua?… De repente, os cães começaram a ganir e uivar de uma maneira incomum e apavorante; e ela sentiu-se tomada pelo medo, como o medo que tinha dos sonhos… Aquele som vinha certamente do jardim… Ela tentou se levantar para acordar um serviçal. No entanto, percebeu que não conseguia se erguer, se mover e nem mesmo falar… E o som do sino mais perto, cada vez mais perto; e, nossa!, como os cães estavam uivando!… Então, ligeira como uma sombra furtiva, uma Mulher entrou no quarto, embora todas as portas estivessem trancadas e todas as janelas fechadas, era uma Mulher vestida numa mortalha , carregando um sino de peregrino. Cega, pois estava morta havia muito tempo, ela se aproximou… e seus cabelos soltos escorriam pelo rosto; e sem visão ela olhou através do emaranhado da sua cabeleira e falou sem a língua: — Você não pode ficar nesta casa! Ainda sou a senhora deste lar. Vá embora; e não diga a ninguém a razão de sua partida. Se contar para ELE, eu te deixarei em pedaços! Dizendo isso, a assombração desapareceu. A nova esposa do samurai ficou entorpecida de medo. E assim permaneceu até o dia raiar. Todavia, com a agradável luz da manhã, ela duvidou da realidade do que tinha visto e ouvido à noite. Entretanto, a lembrança daquela ameaça ainda pesava sobre ela com tanta força, que não ousou falar sobre a visão que tivera, nem com seu marido, nem com ninguém; acabou, porém, quase conseguindo persuadir a si mesma de que tudo havia sido apenas um pesadelo que a deixara indisposta. Na noite seguinte, porém, não teve dúvidas. Novamente, na Hora do Boi, os cães começaram a uivar e ganir; novamente o sino soou, aproximando-se lentamente pelo jardim; novamente ela tentou em vão se levantar e chamar alguém; novamente a falecida entrou no quarto e lhe sussurrou: — Vá embora; e não conte a ninguém o motivo de sua partida! Se você sequer contar para ELE, eu te deixarei em pedaços! Desta vez, a assombração chegou perto da cama, curvou-se sobre ela e murmurou, como se pairasse no ar… Na manhã seguinte, quando o samurai voltou do castelo, sua jovem esposa se prostrou diante dele e suplicou: — Eu imploro — disse ela —, perdoe minha ingratidão e minha extrema rudeza dirigindo-me desta forma a você: mas eu quero voltar para casa; quero ir embora imediatamente. — Você não é feliz aqui? — perguntou ele com sincera surpresa. — Alguém ousou ser indelicado com você na minha ausência? — Não, não é isso — soluçou a moça. — Todos têm sido muito bons co- migo… Mas não posso continuar sendo sua esposa; tenho que ir embora… — Minha querida — exclamou o samurai, incrivelmente espantado —, é muito doloroso saber que alguma coisa nesta casa causou-lhe infelicidade. Mas não posso imaginar um motivo para você ir embora, a menos que alguém tenha sido indelicado contigo… Espero que você não esteja dizendo que pretende se divorciar. Tremendo e chorando, ela respondeu: — Se você não me der o divórcio, morrerei! Ele ficou em silêncio durante um instante, tentando inutilmente descobrir alguma causa para aquela surpreendente declaração. Então, sem demonstrar qualquer emoção, disse: — Deixá-la voltar para sua família, sem nenhuma falha da sua parte, seria um ato vergonhoso. Se você me der uma boa razão para esta sua vontade, qualquer razão que me permita explicar honrosamente o que houve, eu concederei o divórcio. Mas, a menos que me dê uma razão, uma boa razão, você não terá o divórcio, pois a honra deste lar deve ser mantida acima de qualquer opróbrio. E assim ela se sentiu obrigada a falar; e lhe contou tudo, acrescentando, numa agonia de terror: — Agora que contei para você, ela me matará! Ela me matará!… Embora fosse um homem de coragem, e pouco inclinado a crer em fantasmas, o samurai ficou bastante sobressaltado por um instante. Mas uma explicação simples e natural logo veio-lhe ao espírito. — Minha querida __ disse ele —, você está muito nervosa agora; e receio que tenham lhe contado histórias absurdas. Não posso conceder-lhe o divórcio apenas porque você teve um pesadelo nesta casa. Mas lamento realmente que esteja sofrendo de tal modo durante minha ausência. Esta noite, também, tenho que ir ao castelo; mas você não ficará sozinha. Ordenarei a dois serviçais que vigiem seu quarto; e você poderá dormir em paz. São pessoas da minha confiança e cuidarão muito bem de você. Em seguida, falou com ela de um modo tão atencioso e afetuoso que a moça se sentiu quase envergonhada do seu terror, e resolveu permanecer naquela casa. Os dois serviçais encarregados de cuidar da jovem esposa eram homens simples, fortes e corajosos, que tinham experiência em proteger mulheres e crianças. Eles contaram à moça histórias divertidas para alegrá-la. Ela conversou com eles por um bom tempo, riu de suas tiradas bem-humoradas, e quase esqueceu seus receios. Quando finalmente ela se deitou para dormir, os dois guardiões tomaram seus lugares no canto do quarto, atrás da tela, e iniciaram um jogo de go, falando apenas em sussurros, para não incomodá-la. Ela adormeceu feito uma criança. Porém, mais uma vez, na Hora do Boi, ela despertou com um gemido de terror ao ouvir o sino lá fora!… O som já estava perto e cada vez se aproximava mais. Ela teve um sobressalto e gritou; mas não notou nenhum movimento no quarto, havia somente um silêncio sepulcral, um silêncio crescente, cada vez mais denso. Ela correu na direção de seus guardiões: estes estavam sentados diante do tabuleiro, imóveis, miravam-se um ao outro com os olhos fixos. A moça os chamou, os sacudiu: eles permaneceram paralisados, como se estivessem congelados… Mais tarde, eles disseram ter ouvido o sino, e também o grito da jovem esposa, até chegaram a sentir que ela os sacudia para despertá-los; e que, no entanto, não foram capazes de se mover nem de falar. No momento exato em que pararam de ouvir e enxergar, submergiram num sono sinistro. Ao entrar no quarto de casal, de madrugada, o samurai viu, na claridade de uma luz evanescente, o corpo sem cabeça de sua jovem esposa, deitado numa poça de sangue. Ainda agachados diante do jogo inconcluso, os dois serviçais dormiam. Ao ouvirem o grito do senhor eles despertaram, e com uma expressão estúpida, afrontaram o horror no chão… Não encontraram a cabeça; e a ferida horrenda mostrava que ela não havia sido cortada, mas arrancada. Um rastro de sangue se estendia do quarto até um ângulo da varanda, onde as portas que protegem das intempéries pareciam ter sido rachadas. Os três homens seguiram o rastro até o jardim, passando pelo gramado, pelos canteiros de areia, ao longo da margem de um lago iridescente sob a sombra espessa de cedros e bambus. E, repentinamente, num desvão, encontraram-se face a face com uma coisa horripilante que se agitava como um morcego: a figura da mulher há muito enterrada, ereta diante de seu túmulo, numa das mãos o sino, na outra a cabeça ainda gotejante… Por um momento, os três ficaram entorpecidos. Em seguida, um dos serviçais, pronunciando uma prece budista, avançou e desferiu um golpe sobre aquele vulto. Imediatamente o vulto se esfarelou no chão, não passava de um amon- toado de trapos de pano, ossos e cabelos; e o sino rolou retinindo para longe daquele dejeto humano. Mas a mão direita, descarnada, mesmo decepada do pulso, ainda se contorcia; e seus dedos comprimiam a cabeça ensangüentada, dilacerando-a e desfigurando-a, como as tenazes dos caranguejos amarelos estraçalhando uma fruta que caiu da árvore…— Esta é uma história cruel — disse eu ao amigo que acabara de contá-la. — Se a falecida queria se vingar de alguém, deveria ter escolhido o marido. — É assim que os homens pensam — respondeu. — Mas não é desse modo que as mulheres agem… Ele tinha razão. [...]. Trechos da obra do escritor japonês Lafcadio Hearn (1850-1904). Veja mais aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
A arte da fotógrafa francesa Laure Albin Guillot (1879-1962). 
Veja mais aquiaqui.

TODO DIA É DIA DA MULHER
Leitora Tataritaritatá.

Todo dia é Dia da Cultura
&
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quarta-feira, dezembro 31, 2014

PAULA SIMONETTI, LAUREN KATE, MARIANNE WILLIAMSON, JORDAN PETERSON, BASUKI & LITERÓTICA


 


CAPÉI, A DEUSA SELENE – A noite saiu do coco de Tucumã e a moça das águas da cachoeira, sozinha no fundo dos bosques, acendeu os vaga-lumes e à beira do lago sua imagem influenciou a natureza e regulou as marés, a germinação das sementes, o fluxo das mulheres, o nascimento das crianças e dos bichos e o brilho de certas pedras de cor. E a moça branca das águas da cachoeira vivia sozinha no fundo dos bosques, o meu amor proibido. Sua lágrima se fez Amazonas e alumiou meus versos de ermitão. E eu a segui até o terminadouro, navegante solitário, seguindo seus passos até me envolver em seu breu para nunca mais raiar o dia. Nela eu virei tetéu e se fez eterna guardiã para cantá-la: quero-quero e pra vigiar a volta do sol. E cantando comigo me fez Selenito, andejo da noite em que a coruja segura o ponta do céu como se o meu amor tivesse ido e se foi, o meu amor já se foi, já foi, foi... Era ela nua aos meus pés pagãos, um discípulo que dela se apropriou: ela diz que sou seu amor, ninguém sabe, desde então ela sempre me amou. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aquiaqui e aqui.

  


DITOS & DESDITOS - Insanidade é fazer a mesma coisa repetidamente esperando resultados diferentes. Não há progresso sem mudança de atitude. É melhor se arrepender de algo que você fez do que se arrepender de algo que não fez. O que define você é o que você faz quando se sente mais entediado... Pensamento do psicólogo, escritor e professor canadense Jordan Peterson, autor da obra Maps of Meaning: The Architecture of Belief (Routledge, 2000). Veja mais aqui.

 

ALGUÉM FALOU: O amor é com o que nascemos. O medo é o que aprendemos. A jornada espiritual é o desaprendizado do medo e dos preconceitos e a aceitação do amor de volta em nossos corações. O amor é a realidade essencial e nosso propósito na terra. Estar consciente disso, experimentar o amor em nós mesmos e nos outros, é o sentido da vida. O significado não está nas coisas. O significado está em nós... Pensamento da escritora estadunidense Marianne Williamson. Veja mais aqui.

 

QUEDA - [...] A confiança é, na melhor das hipóteses, uma busca descuidada. Na pior das hipóteses, é uma boa maneira de morrer. [...] A única maneira de sobreviver à eternidade é poder apreciar cada momento [...] Você sabe que todo mundo adora odiar um casal feliz de pombinhos. [...]. Trechos extraídos da obra Fallen (Galera, 2010), da escritora estadunidense Lauren Kate, que na obra Torment (Ember, 2011), expressou que: [...] Às vezes, coisas bonitas surgem em nossas vidas do nada. Nem sempre conseguimos entendê-los, mas temos que confiar neles. Eu sei que você quer questionar tudo, mas às vezes vale a pena ter um pouco de fé. [...] O amor nunca morre [...] A solidão no meio de uma multidão era o pior tipo de solidão, mas ela não conseguia evitar. [...]. Já na obra Rapture (Delacorte, 2014), expressou que: [...] Quero que você saiba que eu faria tudo de novo. Eu escolherei você todas as vezes. [...]. E na Passion (Ember, 2012), expressou que: […] Amarei você de todo o coração, em cada vida, em cada morte. EU não estarei vinculado a nada além do meu amor por você [...]. Além disso é autora de frases como: A sabedoria segura uma vela para a experiência, mas você tem que pegar a vela e caminhar sozinho... O passado é importante por todas as informações e sabedoria que contém. Mas você pode se perder nisso. Você precisa aprender a manter o conhecimento do passado com você enquanto busca o presente...

 

EU NÃO VOU FALAR - vou falar sobre outra coisa \ nunca é isso \ não vou te falar \ Suficiente \ Eu vou te desenhar assim sutil \ paraíso de papel \ sem te contar sobre os piolhos ou os sonhos \ o olhar que se abre para uma breve infância \ vou falar \ sobre as redes \ os rosários \ talvez você não reze \ que você não balançou \ ontem \ Manhã \ nunca \ Não vou retomar a conta \ hematomas que desaparecem, mas para dentro \ explodir novamente no gesto das crianças \ de seus filhos e ad eternum \ Vou esquecer mais tarde quando estiver falando \ a ninguém \ por Picasso \ isso \ machuca \ não sua mão firme como \ a rigidez de um louco \ você virou o rosto e outro voltou \ de uma só vez, seu filho se tornou um homem \ Você não vai me dizer que eles são crianças \ vou falar sobre outra coisa \ embora eu volte \ para este alfabeto \ que só fala de você e da minha infância \ nada mais \ não diz o suficiente \ Não foi feito para dizer o suficiente \ Não vou falar do golpe e da marca \ a maneira como sua mão esmaga o gesto \ do seu filho como se ele fosse uma mosca de verão \ Vou falar sobre a maneira como sua mão \ surge de dentro do poema \ e desfaz. Poema extraído da obra En la boca de los tristes (Editorial Lo que Vendrá, 2014), da poeta e professora Paula Simonetti.

 

AS MULHERES DE BASUKI ABDULLAH

A arte do pintor e professor indonésio Fransiskus Xaverius Basuki Abdullah (Muhammad Basuki Abdullah - 1915- 1993), espancado até a morte por três agressores durante a invasão de sua casa em Jacarta.

 

SACADOUTRAS

 


Ouvindo Alô, Alô, Marciano, de Rita Lee (1947-2023), na voz da inesquecível Elis Regina.

Alô, alô, marciano
Aqui quem fala é da Terra
Pra variar estamos em guerra
Você não imagina a loucura
O ser humano tá na maior fissura porque
Tá cada vez mais down the high society
Down, down, down
The high society
Down, down, down
The high society
Down, down, down
The high society
Down, down, down
Alô, alô, marciano
A crise tá virando zona
Cada um por si todo mundo na lona
E lá se foi a mordomia
Tem muito rei aí pedindo alforria porque
Tá cada vez mais down the high society
Down, down, down
The high society
Down, down, down
The high society
Down, down, down
The high society
Down, down, down
Alô, alô, marciano
A coisa tá ficando ruça
Muita patrulha, muita bagunça
O muro começou a pichar
Tem sempre um aiatolá pra atola, Alá
Tá cada vez mais down the high society
Down, down, down
The high society
Down, down, down
The high society
Down, down, down
The high society
Down, down, down
Alô, alô, marciano
Aqui quem fala é da Terra
Pra variar estamos em guerra
Você não imagina a loucura
O ser humano tá na maior fissura porque
Tá cada vez mais down the high society
Down, down, down
The high society
Down, down, down
The high society
Ui, gente fina é outra coisa, entende?
Down, down, down
High society
Down, down, down, down, down
High society
Hoje não se fazem mais countries como antigamente, não é?
High society, high society, high society, high society
Down, down, down
High society
Down, down, down, down down
High society
Ai que chique é o jazz, meu Deus
Down, down, down
High society
Down, down, down
Ah, Deus
(Alô, Alô, Marciano, Rita Lee e Roberto de Carvalho), Veja mais aqui.


Imagem: Nu allongé, do pintor francês Henri Matisse (1869-1954)

O SENTIMENTO TRÁGICO DE UNAMUNONão basta pensar, é preciso sentir nosso destino [...] A filosofia é um produto humano de cada filósofo, e cada filósofo é um homem de carne e osso que se dirige a outros homens de carne e ossos como ele. Faça o que fizer, filosofa, não apenas com a razão, mas com a vontade, com o sentimento, com a carne e com os ossos, com toda a alma e todo o corpo. Filosofa o homem. [...] A fé, a vida e a razão se necessitam mutuamente. O anseio vital não é propriamente problema, não pode adquirir estado lógico, não pode formular-se em proposições racionalmente discutíveis, mas se coloca a nós, como a nós se coloca a fome. Um lobo que se lança sobre a sua presa para devorá-la ou sobre a loba para fecundá-la também não pode colocar-se racionalmente, e como problema lógico, seu impulso. [...] Por minha parte, não quero celebrar a paz entre meu coração e minha cabeça, entre minha fé e minha razão; quero que combatam entre si. [...] Não faltará a tudo isso quem diga que a vida deve submeter-se à razão, ao que responderemos que ninguém deve o que não pode, e a vida não pode submeter-se à razão. “Deve, logo pode”, replicará algum kantiano. E contra-replicaremos: “Não pode, logo não  deve.” E não pode porque a finalidade da vida é viver, não compreender. [...] Aumentando o amor, esta ânsia ardorosa de ir mais longe e mais fundo vai-se estendendo a tudo o que se vê, a tudo o que se vai compadecendo de tudo. À medida que vais penetrando em ti mesmo, e mais fundo desces em ti mesmo, vais descobrindo a tua própria futilidade, que não és tudo o que não és, que não és o que gostarias de ser, que, em suma, não és mais do que uma ninharia. E ao tocares no teu próprio nada, ao não sentires o teu fundo permanente, ao não atingires nem a tua própria infinitude nem, mesmo, a tua eternidade, tendo lástima de todo o coração a ti próprio, inflamas-te em doloroso amor por ti mesmo, matando o que se chama amor-próprio, e não é mais do que uma espécie de deleite sensual de ti mesmo, algo assim como a carne da tua alma a gozar-se a si mesma. O amor espiritual a si mesmo, a compaixão que uma pessoa adquire para consigo própria, poderá, porventura, chamar-se de egotismo; mas é o que de mais oposto existe ao vulgar egoísmo. Porque deste amor ou compaixão de ti próprio, deste intenso desespero, porque, do mesmo modo que não eras antes de nasceres, também depois de morreres não serás, passas a ter compaixão, isto é, a amar todos os teus semelhantes e irmãos, em aparência miseráveis sombras que desfilam do seu nada ao seu nada, chispas de consciência que brilham um momento nas infinitas e eternas trevas. E dos demais homens, teus semelhantes, passando pelos que são mais semelhantes a ti, pelos que contigo convivem, vais-te compadecer de todos os que vivem, e até daquilo que, porventura, não vive, mas existe. Aquela longínqua estrela que brilha durante a noite, lá no alto, há-de apagar-se algum dia, e tornar-se-á pó, e deixará de brilhar e de existir. E, como ela, todo o céu estrelado. Pobre céu! E se é doloroso ter de deixar de ser algum dia, mais doloroso seria, talvez, continuar a ser sempre o mesmo, e só o mesmo, sem poder ser outro ao mesmo tempo, sem poder ser ao mesmo tempo tudo o resto, sem poder ser tudo. Se olhares para o universo do modo mais próximo e profundo que puderes olhar, que é em ti próprio; se sentires, e não só comtemplares, todas as coisas na tua consciência, onde todas elas deixaram a sua dolorosa marca, atingirás as profundezas do tédio da existência, o poço da vaidade das vaidades. E é assim como chegarás, a compadecer-te de tudo, ao amor universal. Para amares tudo, para teres compaixão de tudo, do humano e extra-hunamo, do que vive e não vive, é necessário que sintas tudo dentro de ti mesmo, que personalizes tudo. Porque o amor personaliza tudo quanto ama, tudo aquilo de que se compadece. Só nos compadecemos, isto é, só amamos, o que se nos assemelha, e assim aumenta a nossa compaixão, e com ela o nosso amor pelas coisas, à medida que descobrimos as semelhanças que têm conosco. Ou, melhor, é o nosso próprio amor, que por si só tende a crescer, o que nos revela essas semelhanças. Se consigo compadecer-me e amar a pobre estrela que um dia desaparecerá do céu, é porque o amor, a compaixão, me faz sentir nela uma consciência, mais ou menos obscura, que a leva a sofrer por não ser mais do que uma estrela e por ter de deixar de o ser, um dia. Pois toda a consciência o é de morte e de dor. Consciência, conscientia, é conhecimento partilhado, é consentimento, e con-sentir é con-padecer. O amor personaliza tudo o que ama. Só é possível apaixonarmo-nos por uma ideia personalizando-a. E quando o amor é tão grande e tão vivo e tão forte e transbordante que tudo ama, então, ele tudo personaliza, e descobre que o Todo total, o Universo, também é Pessoa. Tem uma Consciência, Consciência que, por sua vez, sofre, se compadece e ama, isto é, é consciência. E esta Consciência do Universo, que o amor descobre personalizando tudo o que ama, é o que chamamos Deus. E assim a alma compadece-se de Deus e sente que Ele se compadece dela, ama-o e sente-se amada por Ele, dando abrigo à sua miséria no seio da miséria eterna e infinita, que é, ao eternizar-se e tornar-se infinita, a própria felicidade. Deus é, pois, a personalização do Todo, é a Consciência eterna e infinita do Universo. Consciência presa da matéria e esforçando-se por se libertar dela. Personalizamos o Todo para nos salvarmos do Nada, e o único mistério verdadeiramente misterioso é o mistério da dor. A dor é o caminho da consciência, e é por ela que os seres vivos atingem a consciência de si. Porque ter consciência de si mesmo, ter personalidade, é saber-se e sentir-se distinto dos outros seres, e só se consegue sentir essa distinção com o choque, com a dor maior ou menor, com a sensação do próprio limite. A consciência de si mesmo não é mais do que a consciência da própria limitação. Sinto-me eu mesmo ao sentir que não sou os outros; saber e sentir até onde sou é saber onde deixo de ser, e a partir de onde não sou. E como saber que se existe não sofrendo nem muito nem pouco? Como voltar sobre si, lograr consciência reflexa, senão através da dor? Quando se tem prazer, esquecemo-nos de nós próprios, de que existimos, entramos noutra coisa, alienamo-nos. E só nos ensimesmamos, voltamos a nós próprios, a sermos nós, na dor. (Miguel de Unamuno y Jugo [1864-1936], O sentimento trágico da vida. São Paulo: Martins Fontes, 1996). Veja mais aqui.


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sábado, julho 05, 2014

ANN LECKIE, URSULA ANDKJÆR OLSEN, TAOS AMROUCHE & DIC’ARTES

 


DAS BRONCAS ROENDO O JUÍZO – Já vi de tudo: gente desenvultar depois de décadas; chutar a bola e correr pra comemorar um gol contra; cair de costa e quebrar o nariz; sujeito pára-raio: eita! Num é que o relâmpago pegou-lo do nada! O Brasil andar prá trás (ah, sempre!); olhar pra cima e cair no buraco – eita! Pegar carona pra casa da peste; errar o caminho e acertar na veia; jogar na loteria e acertar no jogo da velha; dar salto solto e bundacanasca, plantar bananeira e se esfolar no arame farpado; botar maior lábia e findar perebento de relar o couro no muro; bater pé firme no chão e se estrepar com a lapada no lombo pelo desafio; levar na cara o cuspe dado pra cima; penar pra fazer tudo certo pra se lascar enrolado na bronca. Ora, ora. Do jeito que o desembesto vai, não terá quem pegue a causa. O que tem de gente fabricando tempestade, uivando no bombo e andando como quem segura o peido, não tá no gibi, avalie! Cada um por conta própria nas ondas do desprezo, cada qual seu caritó de boca aberta e queixo caído. A coisa está mais praquela do ninguém tem nada a ver com isso! E antes que eu me esqueça: Vamos aprumar a conversa, gente! Veja mais aqui e aqui.

 


DITOS & DESDITOS - Se você vai fazer um ato de desafio desesperado e sem esperança, você deve fazer um bom ato. As coisas acontecem do jeito que acontecem porque o mundo é do jeito que é. Afinal, qual era o sentido da civilização senão o bem-estar dos cidadãos? São as pessoas sem dinheiro e sem poder, que querem desesperadamente viver, para essas pessoas as coisas pequenas não são nada pequenas. Pensamento da escritora estadunidense Ann Leckie. Veja mais aqui.

 

ALGUÉM FALOU: Grande parte do nosso trabalho na vida consiste em fugir de uma tarefa dolorosa ou desagradável. A melhor maneira de aprender é fazendo. O trabalho duro vence o talento quando o talento não trabalha duro. A chave do sucesso é a perseverança. Pensamento da médica e acadêmica estadunidense Alice Hamilton (1869-1970), uma das principais especialistas na área de saúde ocupacional, pioneira na toxicologia e a primeira mulher nomeada para o corpo docente da Universidade Harvard.

 

JACINTO PRETO - [...] Aqui está o que a senhorita Anatole me acusa: - Uma personalidade muito forte. - Uma escala de valores diferente da sua. - Opiniões, pensamentos, maneiras de falar que são específicas para mim. - Negar a vontade (!). - Falar de Rousseau e Gide em todos os momentos... Pensei encontrar em vocês - jovens com altos ideais - a verdadeira compreensão e não aquela que se prende às aparências... [...]; Trecho da obra Jacinthe noire (Joëlle Losfeld, 1996), da escritora e cantora argelina Taos Amrouche (1913-1976). Veja mais aqui.

 

DA MINHA CAIXA DE JOIASI - eu pinto brilho \ eu pinto brilho \ ao redor de tudo o que precisa brilho pintado ao redor dele \ sem a cobertura necessária \ sem o ouro necessário \ sem a prata necessária \ sem ter o que é necessário \ eu pinto isso \ e ninguém pode tirar isso de mim II - a criança que é tirada do cofre \ e não volta mais\ está em dívida, perdeu a falta de dívida e \ não é mais apenas\ um presente\ eu acalmo, diminuo, alivio \ sua vontade de\ seja um presente novamente \ (só você) III - o dom que vem antes da possibilidade do dom como \ um raio \ e o peito é \como uma pira \ como um oceano \ como uma pira em cima de um oceano\ o fato de que o presente vem antes do humano \ que o humano vem depois do presente\ no momento da culpa\ caindo dentro de sua culpa \ caindo fora de sua inocência IV - pessoas dizendo a outras pessoas para superarem \ seus sentimentos\ e eles estão errados V - estar 1:1 com o seu sentimento \ quando você sabe que não é o único sentimento presente \ em uma determinada situação, \ não é o único sentimento possível\ estar 1:1 com o seu sentimento, \ mesmo quando você sabe que não é o único sentimento presente, \nem o único sentimento possível \ em uma determinada situação\ deixe os outros serem 1:1 com os deles VI - distribuir pequenas doses de ódio para treinar o sistema \ quando a próxima dose chegar \ como um diamante \ vindo de fora \ de um ser inesperado, \ tudo estará pronto \ o cenário está \ pronto para receber \ distribuo pequenos diamantes \ em seus canais\ treinar \ para encontrar as configurações \ etc. VII - o que eu quero dizer é: \ quão difícil é deixar os outros sentirem o que eles sentem \ quão difícil é deixar os sentimentos dos \ outros estarem presentes \ na sala \ sem mudá-los\ quando você tiver conseguido isso, só então \ você deve cumprimentá-los com as \ mãos em concha\ aceite-os um por um \ enquanto eles chegam como \ diamantes de ódio vindos de veios de ouro \ leve-os para a floresta, para o oceano, para o céu, para a cozinha \ coloque-os na terra \ coloque-os na água \ coloque-os no vento \ coloque-os no fogo \ coloque-os em seus lugares e diga: \ esse sentimento nunca deve ser mudado VIII - talvez diga: \ vamos dar forma a esse sentimento, fazê-lo brilhar mais claro do que \ nunca\ esse sentimento deve brilhar em seu cenário. Poemas da escritora dinamarquesa Ursula Andkjær Olsen.

 

OUTRAS DIC’ARTES

 

 Imagem: foto Márcia Novo.
Ouvindo Márcia Novo cantando Possivelmente, parceria musical de Nilson Chaves & Felipe Cerquize:

Caso você queira
eu faço um mundo novo.
Posso girar ao contrário,
contrapondo o sentido horário,
até que me torne um menino
entregue ao meu contradestino.
Caso você queira,
eu faço brotar mil gerânios
no inverno de Leningrado.
O mundo está todo errado.
Quase tudo é possível:
a surpresa esperada,
o brilho da Lua nova,
Idiomas sem palavras,
céu azul de madrugada.
Caminhar sobre água corrente,
refrescar-se no sol do Atacama.
Ver no gelo incandescente
a paixão de quem não ama.
Caso seja seu desejo,
torno nosso amor possível.
por mais que seja improvável
por mais que isto seja incrível.


FELIPE CERQUIZE – Conheci o poetamigo, compositor e engenheiro químico Felipe Cerquize faz uma data. Não sei bem quando, sei que foi, acho, por volta de 1997 quando entrei internet, ou por aí. Batemos o centro da nossa amizade quando conheci o seu livro Rhumor (1996) e, logo depois, o seu ótimo cd com músicas autorais Léguas (1999). Trata-se de um escritor premiadíssimo: já arrebatou duas vezes o FEUC de Poesia (2003/2007), o Balada do Impostor (2007), o 140 Letras (2009), o internacional Nósside (Itália/2010), o IV Festival de Música das Rádios MEC e Nacional (2012), entre outras indicações e prêmios. Em 2005 ele lançou o livro Contos sinistros e, em seguida, lançou o Conversa Rimada em parceria com Luhli (premiado pela UBE/2007). Em 2011, foi a vez dele lançar o livro Pelos caminhos da estrada real e, por consequência, em 2012, lançou o cd Minas Real. E isso não fica por aí, pois, ele é parceiro do primeiro time da Música Brasileira: da Ana Terra, do Cláudio Nucci, do Fernando Brant, do saudoso poetamigo Anibal Beça, do George Israel (Kid Abelha), do Márcio Borges, do Murilo Antunes, do Tavito, do Sérgio Ricardo, do Roberto Menescal, do Mano Melo & etc e tal. Que timaço invejável! Para se ter ideia ele possui mais de 500 obras (e só não é meu parceiro musical por completa incompetência e desorganização minha, vez que duas letras dele que eu trabalhava foram pro beleléu quando pifou o HD do meu PC, destá!). Mas hoje é aniversário dele e, como sempre, eu na fila do gargarejo aplaudindo de pé este grande talento e desejando felicidades e sucesso universais!!!! Parabéns, amigo Cerquize! Veja mais aqui.


JEAN COCTEAU - Quando assisti pela primeira ao filme O sangue de um poeta (Le sang d´um poete, 1930), do escritor, cineasta, dramaturgo, desenhista e ator surrealista francês, Jean Cocteau (1889-1963), fiquei impressionado com o enredo enigmático e metafórico, as tramas sobre um mundo interior de poeta com seus medos e obsessões, a temática da morte e as dificuldades da criação artística, a música de Georges Auric e a lindeza da atriz Elizabeth Lee Miller (1907-1977, Lady Penrose). O filme conta a história de um artista sem nome que é transportado através do espelho para outra dimensão, viajando por diversos cenários bizarros, repletos de imagens surreais vindas em sequencias sem lógica aparente que o tornaria a representação máxima do cinema e da poética surrealista. Tudo começa quando um pintor vai desenhar um rosto e a boca desse desenho passa a ter vida, o que estranhamente o faz tentar apagá-la e, ao final vê-la impressa na sua própria mão. Tentando libertar-se da boca, só consegue ao passá-la para uma estátua que ganha vida e o aconselha a sair da sala pelo espelho onde aparecem diversas portas e em cada fechadura uma cena: um hermafrodita, um fumador de ópio, uma menina que aprende a voar, um revolucionário mexicano, um anjo negro, um casal que joga cartas, a estátua que surge com uma lira. Todo filme é impregnado por uma atmosfera onírica e um forte componente simbólico, como um conjunto de alegorias que levam ao significado da sua sensibilidade poética: “todo o poema é um brasão que tem de ser decifrado”. Pois, para ele: “O poeta lembra-se do futuro” e “A poesia é uma religião sem esperança”. Esse foi o primeiro filme da trilogia Órfica de Cocteau que incluiu depois Orphée (1950) e Le Testament d´Orhée (1960). Dele, um fragmento do seu belíssimo poema O mentiroso: “Gostaria de dizer a verdade.  Gosto da verdade. Mas ela não gosta de mim. A verdade é esta: a verdade não gosta de mim. Mal acabo de dizê-la, ela muda de rosto e volta-se contra mim. Tenho o ar de mentir e todos me olham de revés. E, no entanto, sou uma pessoa simples e não gosto da mentira. Juro. A mentira traz sempre complicações assustadoras. [...] Sou tomado de angústia, de receio, de medo do ridículo, e minto. Minto. Não há nada a fazer. Demasiado tarde para voltar atrás. Depois de se começar a mentir, tem de se continuar. E não é cômodo, juro. É tão fácil dizer a verdade. É um luxo de preguiçoso. [...] Chamam-me mentiroso e não respondo. Poderia responder: vocês mentem. Mas não encontro a força necessária para isso. Deixo-me insultar e rebento de raiva. E é esta raiva que se acumula, que se amontoa em mim, que me enche de ódio. [...] Vocês mentem com certeza! Vocês mentem todos. Mentem constantemente e gostam de mentir e de acreditar que não mentem. Vocês mentem a si próprios. Isso é que é grave. Porque eu não minto a mim próprio. Eu tenho a franqueza de confessar que minto, que sou um mentiroso. Mas vocês, vocês são uns cobardes. Escutam-me e pensam: coitado! E aproveitam-se da minha franqueza para dissimular as vossas mentiras. [...] É certo que a verdade tem o seu peso e consegue espantar-me. A verdade. As duas equivalem-se. Talvez a mentira lhe ganhe... embora eu nunca minta. O quê? Se já menti? Claro que sim. Menti quando lhes disse que mentia. Menti quando lhes disse que mentia ou quando lhes disse que não minto? Mentiroso, eu? No fundo, já não sei. Sinto-me confuso. Que tempo o nosso! Serei um mentiroso? Pergunto--lhes. Sou antes uma mentira. Uma mentira que diz sempre a verdade. Veja mais aqui


ELIZABETH LEE MILLER – A atriz estadunidense Elizabteh Lee Miller (1907-1977) do filme Sangue de um poeta, de Jean Cocteau, também era fotógrafa de moda e fine art, modelo de sucesso e correspondente de guerra da revista Vogue durante a II Guerra Mundial. Por suas atividades a Lady Penrose virou filme em 1995, num documentário feito por Sylvain Roumette com o título de Lee Miller: Trhough the Mirror, um filme narrado por seu único filho, o pintor Roland Penrose em que ele revela o diário da mãe, a vida dela com Cocteau e Picasso, a nudez no início da carreira para Man Ray, as capas das revistas Vogue e Blitz, películas e fotografias.



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