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domingo, dezembro 28, 2025

ROSA MONTERO, ROCÍO SILVA-SANTISTEBAN, DANICA MCKELLAR, PAZ SOLÍS DURIGO & CRISTINA TAVARES

 

 Imagem: Acervo ArtLAM.

Ao som dos álbuns The Reign of Her (Frameworks Records, 2025) & Beyond Reach (Frameworks Records, 2023), da premiada violonista italiana-estadunidense Marisa Sardo.

 

A mulher do livro & a farra dos eunucos... - Quem é aquela, hem? Rapaz, eu soube que é uma ET que escapou daquelas FRBs quando o Oumuamua deu as caras e se passando por gente humana, para preparar o terreno pruma invasão do planeta e aterrorizar acabando com tudo! Valei-me! Não sabia não? Ô compadres, eu mesmo, soube doutra coisa diferente sobre ela: Dona Oblatedilta me disse que o nome dela é Resusci Anne, uma robô criada por IA, feita daquela morta desconhecida de Paris, que ficou famosa como a mulher mais beijada do mundo. E quais as intenções dela? Investigar a gente tudo para depois escravizar e matar. ChaosGPT? Pior! É mesmo? Que fatalidade! Olha lá, dona Jubilosita tá vindo aí: A senhora sabe quem é aquela, mesmo? Apurei e descobri que é a maldosa viking morta que ressuscitou depois dos testes de DNA da que foi achada lá em Beach Head, sabe, dos restos mortuários de East Sussex, na Inglaterra, e que veio pra cá esculhambar com a vida da gente! Uma assombração? Veio transformar isso aqui num inferno de Dante! Benzodeus! Vocês não sabem? Não, dona Esmaragda. Ah! Averiguei que é a tal da Malèna de Tornatore, a viúva daquele zé-ruela que se alistou voluntariamente para defender a Ucrânia e foi morto pelos russos! Nunca tinha visto e nem ouvido falar do casal. Ah, foi ela que mandou o marido pra morrer na guerra e quer só arranjar um outro abobado pra sustentá-la, por isso que anda toda reboculosa, não sabem a carniceira que ela é. Num diga! Aquela bonitona? Isso mesmo! Ô, dona Clarivaldícia, não será a sádica viúva Brynhild Sorenson Gunness, aquela Belle que já matou não sei quantos maridos e não deixou vivo nenhum namorado das suas filhas? É mesmo! Oxe, vocês estão todas equivocadas: É a perigosa Leanan Sidhe, que seduz para roubar a vitalidade do amante. Pela santa saúde que eu não tenho! Vamos apedrejá-la! Veja, ela para toda vez e fica diante daquela Espada-de-Iansã, toda vez, tá vendo? E num é! Ô, dona Margarildita, não é língua-de-sogra, não? A mesma coisa de rabo-de-lagarto, de sanseviéria, tudo uma coisa só, ZéBocó; o certo é que ela é catimbozeira devota de Oyá e das tamposas de sasanha e abô, de deixar a vítima ressequida e morrer na hora, pode crer! Danou-se! Nunca soube! O que a gente vai fazer? Oxe! É nada: é o fantasma misterioso duma tal de Jennifer Fairgate, que foi encontrada morta num hotel da Noruega e veio praqui pra atormentar as noites da gente. Um espectro ameaçador? Piorou! Vamos exorcizá-la logo! Dizem mesmo que ela é a condessa sangrenta que fugiu da Hungria pra não ser presa e o nome dela é uma tal de Isabel num sei que lá Báthory, cometeu uma série de crimes hediondos e não saciou de matar gente. U-lalala! Chama a polícia! Pelamordedeus! Soube que é a perversa nazista Ilse Koch, aquela Cadela-Bruxa de Buchenwald, que coleciona pedaço de peles de seus prisioneiros, para confeccionar seus souvenirs. Como é? Santa crueldade! Vamos estropiá-la! Cochicham mesmo que ela é a cruel socialite assassina, chamada de uma tal de Delphine LaLaurie que torturou, mutilou e matou não sei quantos escravos negros e fugiu para caçar mais. Cadê, todo mundo tá armado com seu cacete pra lascá-la toda? Pro araque-de-polícia, ZéCadeia, ela é a crudelíssima assassina Mary Ann Cotton que atrai o macho para envenená-lo com arsênio e depois ficar com toda herança do cabra. Vigarista duma figa! Vamos escorraçá-la! Nada, é aquela escravocrata foragida do FBI, uma tal de Margarida Bonetti, que vivia escondida numa mansão arruinada de São Paulo e, agora, veio atuar aqui caçando os pretos todos, lembram? Que rapina! Queremos justiça! Se ela correr, a gente pega; se ela ficar, a gente estraçalha ela toda! Ô dona Zefinha-Pesão, espie: o seu Gervasildo tá todo embecado com manemolências pras bandas dela, mire! Vou estropiar aquele cafajeste! É preciso cuidar, ela é a traiçoeira encantada Morgan Le Fay, a Fada Morgana, que aprisiona qualquer um que dela se aproxima para levá-lo escravo pro seu palácio de cristal no Estreito de Messina. Que gatuna duma figa! Vamos logo dar uma sarrabulhada boa nessa puta! Tem que pegar logo aquela falsa Mulher de Torenza, viúva do homem de Taured, ninguém sabe o nome dela, mas ela só quer enganar todo mundo pra surrupiar o que você tiver. Que mulher mais picareta! Vocês estão falando da mesma pessoa? Vamos amarrá-la e arrastá-la pelas ruas pra ela ver o que é bom pra tosse! É isso mesmo, ela é uma Qarinah, uma ruindade islâmica que persegue as pessoas. Isso tudo? Tem muito mais escondido dela por aí. Vocês não estão enganadas? Ora! Ela num pode ser tudo isso não! Quem mandou ela mexer com a gente? Aquela ali é a ninfa Ondina, que saiu das águas procurando homens casados para humanizar-se roubando a alma do coitado, que resta mortinho. Pronto! Ah, a gente tem que dar cabo dessa destruidora de lar! Se não fizermos logo, a sinistra mulher da neve, a Yuki-onna, veja a palidez e os lábios roxos, ela basta olhar pro homem que ele vira estátua de gelo na hora. Vixe! Que safada! Vamos esquartejá-la! Vamos logo estuporar aquela ardilosa alvenha, que saiu do rio para enfeitiçar incautos para depois afogá-los. Que bandida! É um sacrilégio! É uma súcubus, tenho certeza! Vamos tocar fogo nessa coisa ruim! Ela é capaz de ser a múmia da Senhora Dourada que saiu do sarcófago e está sem a touca para enganar os homens, vejam! Essa mulher é a heresia em pessoa, vamos sacrificá-la! Num pode! E se for uma das holandesas desaparecidas no Panamá, ninguém sabe ao certo qual delas, se é a Kris Kremers ou Lisanne Froon, qual delas? E o que viriam fazer aqui, seu beócio? Oxe, assombrar a gente, ora! Vamos rasgá-la toda de porrada! Só pode ser a Alamoa! Desde quando? É uma galega falsa, veja! Que miséria! Vamos rachá-la em bandas, simbora! Aquilo é o demônio Hannya, aposto! Isso é um estrupício! O padre disse na missa que ela deve ser a demoníaca Jahi da luxúria! Por isso mesmo, vamos esfaqueá-la toda! É uma jorogumo, uma traiçoeira aranha que vira mulher para enredar qualquer um, pode ir ver, na batata! Cruz-credo! O pastor disse no culto que ela é a devoradora Ammit camuflada: tem cabeça de crocodilo, corpo de leão e bunda de hipopótamo, só pra comer o coração do desavisado. Isso é um desmantelo! E prefeito não faz nada! Oxe, tá ele, o delegado, os vereadores, o juiz, toda autoridade tá lá apaixonado por ela! Tudinho? Ora, se. Por isso digo: é a fingida bruxa Empusa, vá ver, foi o bispo que disse! Olha o ZéSitonho lá, chega tá de queixo caído! Vou pegar aquele velho desgramado e lascar as gaias dele, marido meu não se enrabicha pra sirigaita nenhuma! Convoca a multidão! Danou-se tudo! É a Lilith que foi banida do Jardim do Éden para atanazar os homens. Vamos acabar logo com isso, avante! Uma quenga de Caravaggio! Calma, que hestória mais escabrosa, gente! Sai da frente! Ela pode ser enigmática, parece sim, mas não tão diabólica! Vá e se iluda! Não me segura não! Dona Clessivalda, a senhora não acha que todas vocês não estão exagerando na dose demais não? A gente vai caçá-la agorinha mesmo, antes que a macharia toda seja aprisionada, a gente não quer enviuvar assim! O seu marido tá lá todo de farol baixo e arreado por ela, já viu? Vamos capturá-la já! Calma, gente! Olhe seu TóZeca, se o senhor ficar na frente e atrapalhar a gente, vai morrer da maior camada de pau com ela junto, viu? A senhora tá invocada! Eu só não, todas daqui; porque eu mesmo já estou fervendo pelas tampas com essa rameira! Ela não é o que vocês estão pensando. A gente sabe bem quem ela é e não sairá viva hoje dessa praça! Ela veio só falar comigo, mora num livro e escapole das páginas de lá da biblioteca, todo dia de tarde, porque a praça é o sonho dela. Um fantasma da biblioteca? Agora mesmo ela está toda Lulu de Almudena, vestida como se fosse a Francesca Neri na cena de Bigas Luna. Num sei do que o senhor está falando, acho que tá enrolando a gente para protegê-la. Vamos logo tascar fogo! O senhor vai apanhar por defendê-la, seu TóZeca. Capa ele logo! Vaza! Olhem vocês que eu viro a desgraça e não sobra uma só pra fuxicar depois! Saia da frente! Pisa ele! Olhe só: o seu esposo, dona Quartuda, tá lá! Aquele gaiúdo me paga, fio-duma-égua! Passa por cima dele! Também o de dona Maria-Banguela, o da dona Sula-Arrepeada, o da dona Maria-Boqueira, o da Sinhá-Peituda, o de dona Gracivalda, vejam, todos estão lá, babando! Filhos da puta, vou lascar o quengo dele! Que babãos mais safados! Isso, vão é tomar satisfação dos seus e deixem a moça em paz preu namorar! Vamos pegar os salafrários! Isso, vão-se embora, peguem seus maridos abiscoitados, sigam pras suas casas e danem uma pisa boa e bem dada no toitiço deles lá, arrochem neles, que é o que eles merecem. Vou castrar aquele corno! Isso, mandem ver nas caçaroladas, nas cabadas de vassoura, os penicos nas fuças, as paneladas no juízo, peixeiradas no bucho, cortem as asas e o pingolim, arranquem um dos ovos pra ficarem rancolhos, deem umas lamboradas boas nesses apaideguados preles aprenderem! Vamos deixar esses marmanjos tudo emasculados! Eita, que o trupé vai comer e o pencó vai pegar! Vão virar tudo eunuco! Toca! Ora, ora. Bem feito. Ih! Esse o povinho pacato de Alagoinhanduba! Foi. Até mais ver.

 

Joan Didion: Não estou dizendo para você tornar o mundo melhor, porque não acho que o progresso faça parte necessariamente disso. Estou apenas dizendo para você viver nele. Não apenas suportá-lo, não apenas sofrê-lo, não apenas atravessá-lo, mas vivê-lo. Observá-lo. Tentar compreendê-lo. Viver sem medo. Arriscar. Criar seu próprio trabalho e se orgulhar dele. Aproveitar o momento... Veja mais aqui, aqui, aqui & aqui.

Elena Ferrante: A vida toda é assim: numa vez você apanha, noutra, recebe beijos... toda escolha tem sua história, muitos momentos de nossa vida estão espremidos num canto só esperando uma brecha, e no final essa brecha aparece... Veja mais aqui, aqui, aqui & aqui.

Rita Lino: Passei muitos anos trabalhando com minha própria identidade, minha própria vida, minhas diferentes personas, então quero fazer algo diferente, mas ainda assim permanecer fiel a mim mesma... Veja mais aqui.

 

EL ÁNGEL NEGRO DE COPLEY SQUARE (RILKE)

Imagem: Acervo ArtLAM.

Para onde voou o anjo que me prometeste? \ Onde se escondem suas asas fuliginosas? Em que \ paraíso ela se refugiou? Por que \ deixei de ser sua protegida? \ Quais os efeitos das minhas \ palavras ruins? \ que outra heroína ele escolheu? para quem \ ele está cavando entre as pedras hoje? \ de quem \ são essas inúmeras quedas? Que obstáculo cotidiano se abriu como um \ precipício? Que obsessão sombria se dissolveu \ entre suas asas? Sob que poder ela curva a cabeça hoje? \ Em que pescoço subjugado ela ergue suas garras? \ Por que o fizeste descer a escada? \ Para onde o levarão seus desejos? \ De que posição temporal não confessada \ ele retorna? \ Quem ele liberta da pestilência? \ Diga-me, diga-me, diga-me, \ que música toca sua harpa? Que \ costas congelam seus anseios? \ Que caminho ela começa a percorrer às apalpadelas? \ E eu não te ouvi. \ E você tinha me avisado: \ Todo anjo é terrível.

Poema da escritora, acadêmica, ativista e jornalista peruana Rocío Silva-Santisteban (Rocío Yolanda Angélica Silva-Santisteban Manrique), que representa a Frente Ampla como membro do Congresso pelo distrito de Lima e autora das obras poéticas Asuntos circunstanciales (1984), Ese oficio no me gusta (1987), Mariposa negra (1993), Condenado amor (1995), Maternidad (1996), Turbulencia (2005), Las hijas del terror (2007) e La máquina de limpiar la nieve (2024).

 

A CARNE - [...] A vida é um pequeno espaço de luz entre dois anseios: o anseio por aquilo que você ainda não experimentou e o anseio por aquilo que você jamais experimentará. E o momento preciso da ação é tão confuso, tão fugaz e tão efêmero que você o desperdiça olhando ao redor atordoado. [...] Ser amaldiçoado é saber que suas palavras não encontram eco, porque não há ouvidos que possam compreendê-las. Nisso, assemelha-se à loucura — Soledad exclamou de repente. Ser amaldiçoado é estar fora de sintonia com seu tempo, sua classe social, seu ambiente, sua língua, a cultura à qual você deveria pertencer. Ser amaldiçoado é querer ser como todos os outros, mas não conseguir. E querer ser amado, mas inspirar apenas medo ou talvez riso. Ser amaldiçoado é ser incapaz de suportar a vida e, acima de tudo, ser incapaz de suportar a si mesmo. [...] Ah, aquelas outras infinitas vidas possíveis que se abriram como a cauda de um pavão ao redor da nossa existência, todas aquelas modificações do nosso destino que poderiam ter ocorrido simplesmente variando um pequeno detalhe. [...] Às vezes, o destino, ironicamente, diverte-se emparelhando fenômenos semelhantes. Quando alguém tem azar, os infortúnios parecem se acumular e acabam caindo sobre essa pessoa como um dilúvio. [...] A vida é um pequeno espaço de luz entre dois anseios: o anseio por aquilo que você ainda não experimentou e o anseio por aquilo que você jamais experimentará. E o momento preciso da ação é tão confuso, tão fugaz e tão efêmero que você o desperdiça olhando ao redor atordoado. [...]. Trechos extraídos da obra La carne (Alfaguara, 2016), da escritora e jornalista Rosa Montero. Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.

 

ARTE & MENTE AGUÇADA - A matemática é o único campo onde verdade e beleza significam a mesma coisa... A matemática é como ir à academia para o cérebro. Ela aguça a mente... Pensamento da atriz, escritora e matemática estadunidense Danica McKellar, que explicou que: Eu fiz uma pausa na atuação por quatro anos para obter um diploma em matemática na UCLA, e durante esse tempo eu tive a rara oportunidade de realmente fazer pesquisa como estudante de graduação. E eu e duas outras pessoas foram co-autoras de um novo teorema: Percolation e Gibbs States Multiplicity for Ferromagnetic Ashkin-Teller Models on Two Dimensions, ou Z2. Ela ainda expressa: Encontre seu amor-próprio agora. Não se rebaixem. Pensem em si mesmas como capazes e merecedoras de encontrar um cara que também as respeite. É tão importante, quero dizer, e a confiança que vocês ganham ao se sentirem inteligentes e enfrentarem algo como matemática, que é um desafio, certo? Matemática é difícil... Veja mais aqui.

 

UMA ATIVISTA & AMOR DE SARTRE

[...] seremos nós, mulheres em luta, cidadãs que haveremos de escrever na Constituinte plena liberdade e contra a discriminação. [...]

Pensamento da jornalista e ativista deputada Cristina Tavares (Maria Cristina de Lima Tavares Correia – 1934-1992), extraído da dissertação de mestrado cuja temática está definida como A trajetória política de Cristina Tavares: a redemocratização e os direitos das mulheres na Constituição Cidadã 1978 – 1988 (Unicap, 2021), do professor e pesquisador Edvaldo dos Santos Silva. Ela é autora de obras como Atuação parlamentar (Coordenação de Publicações, 1980), Eleições em Pernambuco (Centro Teotônio Vilela, 1987) e A Última Célula (Paz e Terra, 1989), entre outros. Ela conheceu o casal Jean-Paul Sartre e Simone de Beauvoir, que passou pelo Recife, na década de 1960. Consta que o filósofo teve uma paixão por ela, tendo sido, inclusive, o romance entre ambos assinalado pela própria Beauvoir, conforme registrado no livro Tête-à-tête (Objetiva, 2006), da escritora e biógrafa australiana, Hazel Rowley. Veja mais aqui.

&

GUARANGA, DE PAZ SOLÍS DURIGO

Guaranda (Caburé Libros, 2024) é a primeira novela da escritora, professora e musicista argentina, Paz Solís Durigo, que também é autora do livro Contra todos los males (Avagata, 2023) com letras de suas canções em guarani e castelhano. Ela é cofundadora e codirige a revista digital e popular La Lechiguana e anuncia para 2026, o lançamento de sua novela infanto-juvenil Los gatos de la abuela Queché (Boris Ediciones). Veja mais aqui & aqui.

 

ITINERARTE – COLETIVO ARTEVISTA MULTIDESBRAVADOR:

Veja mais sobre MJ Produções, Gabinete de Arte & Amigos da Biblioteca aqui.

 


domingo, novembro 05, 2017

LAFCADIO HEARN, JOAN DIDION, FEDERICO FELLINI, ERNST BLOCH, BERTRAND TAVERNIER, CIDADE, CULTURA, LITERÓTICA & ARTERÓTICA

A arte da fotógrafa francesa Laure Albin Guillot (1879-1962). Veja mais aqui.

LITERÓTICA: NOSSA FESTA - Toda sexta-feira, meio-dia em ponto, eu bato meu ponto pro que der e vier. Meio dia em ponto, toda sexta-feira eu chego já pronto e o que é o que é. E ela vem de viés com toda surpresa, rompendo a represa de querer mais. É tudo demais e ela só me fascina, jóia excepcional, uma real mina, bailarina de Degas. Ou nua vestal, dançarina de fuá. E eu sentimental com toda destreza arrasto essa presa, astuta indefesa do pito voar. E para empenar tomo a pele e o pulso, a deixo em soluço a gemer de manhar. A se espernear no corpo rendido, eu domino o seu urânio enriquecido pronto pra explodir e eu só pra acudir num bote certeiro, quando vou de matreiro adornar seus quadris. E se faz bela atriz ensaiando sem medo a me ter entre os dedos, a me lamber num enredo de São Paulo a Paris. O que eu sempre quis e me morde abusada, se entope e se engasga entornando o seu mel. Eu adoço seu fel e vou de gandaia com minha azagaia no seu beleléu. Já sou réu condenado a morrer um bocado no meio do céu. Onde ela faz escarcéu, reluta e se esgana, ela goza sacana no maior pitéu. Ao léu a valer, ela não satisfez. E vem tudo de novo pra glória de um rei, ela sabe e eu não sei, o que importa é viver e venha tudo outra vez. OUTRA VEZ: Toda sexta-feira, meio dia em ponto, ela apronta de tudo comigo e pronto! Ela chega e me olha e toda se desfolha para o bem-me-quer. Ela se abre mulher e eu sorrio, ela se rela e vira cadela no cio e me abraça e me beija, e se faz de puta e princesa quando me quer e eu sou sua passarela onde o sangue dá na canela pro que der e vier. Ela ronda, me cheira e me fela, ela usa e lambuza, se descabela e me acusa de só abusar dela. Ela lambe e abocanha, ela vence e me ganha na melhor de três. Ela me agarra medonha, ela me bate uma bronha na maior maciez. Ela chupa e me suga, ela aponta pra fuga e me faz descortês. Ela agita e me alisa, ela grita e repisa que é a última vez. E nem bem recomeça, ela me prega uma peça e posa sisudez. Ela bole, suspira e rebola, ela delira e quase degola a minha rigidez. E se aninha e engalfinha, ela jura que é minha por mais de um mês. Ela assunta e se enrosca, ela se faz mesa posta e eu seu freguês. Ela ajeita e retruca, ela monta mutuca e diz que não fez. Ela esfrega e renega, ela rega e pula a janela da minha timidez. Ela atiça e se esfola, ela então faz escola pela insensatez. Ela aguça e me inflama, ela me queima na chama da sua nudez. Ela se arrisca de fato, ela fica de quatro na maior viuvez. Ela torce e retorce, ela morde, rejeita e se ajeita e nem se refez. Ela goza e remexe, ela arrocha e debocha na maior altivez. Ela treme e me grita e quer sair muito bem nessa fita com toda malvadez. E quando eu gozo espalhafato de folia de bombo. Ela sorri que de fato fui salvo pela zoada do gongo. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais abaixo & mais aquiaqui.


DITOS & DESDITOS - Em vários aspectos, escrever é o ato de dizer Eu, de se impor sobre as outras pessoas, de dizer escute-me, veja pelo meu lado, mude de ideia. É um ato agressivo, até mesmo hostil. Pensamento da escritora e jornalista estadunidense Joan Didion.

ALGUÉM FALOUCinema-verdade? Prefirto o cinema-mentira. A mentira é sempre mais interessante do que a verdade. Sempre faço o mesmo filme. Não consigo distinguir um dos outros. Pensamento do cineasta italiano Federico Fellini (1920-1993). Veja mais aqui, aqui e aqui.

HERANÇA DESTE TEMPO – [...] Nem todos estão presentes no mesmo tempo presente. Aparentemente estão porque é possível vê-los aqui e agora. Mas não é só por isso que uns e outros vivem no mesmo tempo. Pelo contrário, alguns possuem um passado que se intromete. [...] Tempos mais antigos que os atuais continuam a viver nas camadas mais antigas [...] “As velhas formas”, dizia ele, colaboram em parte para a novidade, quando elas são bem dispostas. O inimigo viu melhor [...] que essas formas são extremamente eficazes. É tempo de recuperar algumas velhas coisas, a urgência da hora nos ordena. A indolente arrogância com que um Kautsky zombava dos “heróis” ou das “pequenas amostras da mística apocalíptica” e se contentava em ridicularizá-las está ultrapassada, tanto na teoria quanto na prática [...]. Trechos extraídos da obra Herança deste tempo (Payol, 1978), do filósofo alemão Ernst Bloch (1885-1977). Veja mais aqui.

CIDADE: A SEDUÇÃO DO LUGAR – [...] Mesmo com as instituições públicas distanciadas, a sensação da cidade e o seu tecido físico estão sempre presentes para os habitantes e visitantes. Apreciado, visto, tocado, cheirado adentrado, consciente ou inconscientemente, esse tecido é uma representação tangível daquela coisa intangível, a sociedade que ali vive e suas aspirações [...]. Trecho extraído da obra A sedução do lugar (Martins Fontes, 2004), do professor e historiador de arte britânico Joseph Ryckert.

QUANDO TUDO COMEÇA – O filme Quando tudo começa (1999), de Bertrand Tavernier, trata sobre a direção de uma escola pública infantil mutirracional, em uma pequena cidade francesa, com alto índice de desemprego. A situação confronta o cotidiano profissional, refletindo sobre o desempenho e o comportamento dos alunos. Utiliza historias reais relatadas por professores, discutindo problemas de educação, de comunidades excluídas, problemas éticos relacionados à exclusão socioeconômica, participação da comunidade, cidadania e solidariedade.


ARTERÓTICA –A coleção Erótica (Taschen, 2001), reunindo a arte de 17th – 18th Century: from Rembrandt to Fragonard, 19th Century: from Courbet to Gaugin, 20th Century Volume I – From Rodin to Picasso & 20th Volume II – From Dali to Grumb, do historiador e editor de arte francês Giles Néret, reúne a expressão artistica erótica dos séculos XVII ao XX. Veja mais aqui.

PROMESSA QUEBRADA - [...] Nada aconteceu que pudesse perturbar a felicidade da jovem esposa até o sétimo dia após o casamento, quando seu marido foi convocado para executar algumas tarefas que exigiam a presença dele no castelo durante a noite. Na primeira vez que foi obrigado a deixá-la sozinha, ela se sentiu indisposta de um modo que não soube explicar, vagamente assustada sem saber por quê. Quando se deitou, não conseguiu dormir. Podia sentir uma estranha opressão na atmosfera, uma densidade inexplicável, como ocorre algumas vezes nos momentos que precedem uma tempestade. Quase na Hora do Boi, ela ouviu, no lado de fora, um sino tocar, o sino dos peregrinos budistas; e se perguntou que peregrino poderia estar passando pelo bairro do samurai àquelas horas. Logo em seguida, após uma pausa, o sino soou muito mais perto. Com certeza, o peregrino estava se aproximando da casa; mas por que o faria pelos fundos, onde sequer havia uma rua?… De repente, os cães começaram a ganir e uivar de uma maneira incomum e apavorante; e ela sentiu-se tomada pelo medo, como o medo que tinha dos sonhos… Aquele som vinha certamente do jardim… Ela tentou se levantar para acordar um serviçal. No entanto, percebeu que não conseguia se erguer, se mover e nem mesmo falar… E o som do sino mais perto, cada vez mais perto; e, nossa!, como os cães estavam uivando!… Então, ligeira como uma sombra furtiva, uma Mulher entrou no quarto, embora todas as portas estivessem trancadas e todas as janelas fechadas, era uma Mulher vestida numa mortalha , carregando um sino de peregrino. Cega, pois estava morta havia muito tempo, ela se aproximou… e seus cabelos soltos escorriam pelo rosto; e sem visão ela olhou através do emaranhado da sua cabeleira e falou sem a língua: — Você não pode ficar nesta casa! Ainda sou a senhora deste lar. Vá embora; e não diga a ninguém a razão de sua partida. Se contar para ELE, eu te deixarei em pedaços! Dizendo isso, a assombração desapareceu. A nova esposa do samurai ficou entorpecida de medo. E assim permaneceu até o dia raiar. Todavia, com a agradável luz da manhã, ela duvidou da realidade do que tinha visto e ouvido à noite. Entretanto, a lembrança daquela ameaça ainda pesava sobre ela com tanta força, que não ousou falar sobre a visão que tivera, nem com seu marido, nem com ninguém; acabou, porém, quase conseguindo persuadir a si mesma de que tudo havia sido apenas um pesadelo que a deixara indisposta. Na noite seguinte, porém, não teve dúvidas. Novamente, na Hora do Boi, os cães começaram a uivar e ganir; novamente o sino soou, aproximando-se lentamente pelo jardim; novamente ela tentou em vão se levantar e chamar alguém; novamente a falecida entrou no quarto e lhe sussurrou: — Vá embora; e não conte a ninguém o motivo de sua partida! Se você sequer contar para ELE, eu te deixarei em pedaços! Desta vez, a assombração chegou perto da cama, curvou-se sobre ela e murmurou, como se pairasse no ar… Na manhã seguinte, quando o samurai voltou do castelo, sua jovem esposa se prostrou diante dele e suplicou: — Eu imploro — disse ela —, perdoe minha ingratidão e minha extrema rudeza dirigindo-me desta forma a você: mas eu quero voltar para casa; quero ir embora imediatamente. — Você não é feliz aqui? — perguntou ele com sincera surpresa. — Alguém ousou ser indelicado com você na minha ausência? — Não, não é isso — soluçou a moça. — Todos têm sido muito bons co- migo… Mas não posso continuar sendo sua esposa; tenho que ir embora… — Minha querida — exclamou o samurai, incrivelmente espantado —, é muito doloroso saber que alguma coisa nesta casa causou-lhe infelicidade. Mas não posso imaginar um motivo para você ir embora, a menos que alguém tenha sido indelicado contigo… Espero que você não esteja dizendo que pretende se divorciar. Tremendo e chorando, ela respondeu: — Se você não me der o divórcio, morrerei! Ele ficou em silêncio durante um instante, tentando inutilmente descobrir alguma causa para aquela surpreendente declaração. Então, sem demonstrar qualquer emoção, disse: — Deixá-la voltar para sua família, sem nenhuma falha da sua parte, seria um ato vergonhoso. Se você me der uma boa razão para esta sua vontade, qualquer razão que me permita explicar honrosamente o que houve, eu concederei o divórcio. Mas, a menos que me dê uma razão, uma boa razão, você não terá o divórcio, pois a honra deste lar deve ser mantida acima de qualquer opróbrio. E assim ela se sentiu obrigada a falar; e lhe contou tudo, acrescentando, numa agonia de terror: — Agora que contei para você, ela me matará! Ela me matará!… Embora fosse um homem de coragem, e pouco inclinado a crer em fantasmas, o samurai ficou bastante sobressaltado por um instante. Mas uma explicação simples e natural logo veio-lhe ao espírito. — Minha querida __ disse ele —, você está muito nervosa agora; e receio que tenham lhe contado histórias absurdas. Não posso conceder-lhe o divórcio apenas porque você teve um pesadelo nesta casa. Mas lamento realmente que esteja sofrendo de tal modo durante minha ausência. Esta noite, também, tenho que ir ao castelo; mas você não ficará sozinha. Ordenarei a dois serviçais que vigiem seu quarto; e você poderá dormir em paz. São pessoas da minha confiança e cuidarão muito bem de você. Em seguida, falou com ela de um modo tão atencioso e afetuoso que a moça se sentiu quase envergonhada do seu terror, e resolveu permanecer naquela casa. Os dois serviçais encarregados de cuidar da jovem esposa eram homens simples, fortes e corajosos, que tinham experiência em proteger mulheres e crianças. Eles contaram à moça histórias divertidas para alegrá-la. Ela conversou com eles por um bom tempo, riu de suas tiradas bem-humoradas, e quase esqueceu seus receios. Quando finalmente ela se deitou para dormir, os dois guardiões tomaram seus lugares no canto do quarto, atrás da tela, e iniciaram um jogo de go, falando apenas em sussurros, para não incomodá-la. Ela adormeceu feito uma criança. Porém, mais uma vez, na Hora do Boi, ela despertou com um gemido de terror ao ouvir o sino lá fora!… O som já estava perto e cada vez se aproximava mais. Ela teve um sobressalto e gritou; mas não notou nenhum movimento no quarto, havia somente um silêncio sepulcral, um silêncio crescente, cada vez mais denso. Ela correu na direção de seus guardiões: estes estavam sentados diante do tabuleiro, imóveis, miravam-se um ao outro com os olhos fixos. A moça os chamou, os sacudiu: eles permaneceram paralisados, como se estivessem congelados… Mais tarde, eles disseram ter ouvido o sino, e também o grito da jovem esposa, até chegaram a sentir que ela os sacudia para despertá-los; e que, no entanto, não foram capazes de se mover nem de falar. No momento exato em que pararam de ouvir e enxergar, submergiram num sono sinistro. Ao entrar no quarto de casal, de madrugada, o samurai viu, na claridade de uma luz evanescente, o corpo sem cabeça de sua jovem esposa, deitado numa poça de sangue. Ainda agachados diante do jogo inconcluso, os dois serviçais dormiam. Ao ouvirem o grito do senhor eles despertaram, e com uma expressão estúpida, afrontaram o horror no chão… Não encontraram a cabeça; e a ferida horrenda mostrava que ela não havia sido cortada, mas arrancada. Um rastro de sangue se estendia do quarto até um ângulo da varanda, onde as portas que protegem das intempéries pareciam ter sido rachadas. Os três homens seguiram o rastro até o jardim, passando pelo gramado, pelos canteiros de areia, ao longo da margem de um lago iridescente sob a sombra espessa de cedros e bambus. E, repentinamente, num desvão, encontraram-se face a face com uma coisa horripilante que se agitava como um morcego: a figura da mulher há muito enterrada, ereta diante de seu túmulo, numa das mãos o sino, na outra a cabeça ainda gotejante… Por um momento, os três ficaram entorpecidos. Em seguida, um dos serviçais, pronunciando uma prece budista, avançou e desferiu um golpe sobre aquele vulto. Imediatamente o vulto se esfarelou no chão, não passava de um amon- toado de trapos de pano, ossos e cabelos; e o sino rolou retinindo para longe daquele dejeto humano. Mas a mão direita, descarnada, mesmo decepada do pulso, ainda se contorcia; e seus dedos comprimiam a cabeça ensangüentada, dilacerando-a e desfigurando-a, como as tenazes dos caranguejos amarelos estraçalhando uma fruta que caiu da árvore…— Esta é uma história cruel — disse eu ao amigo que acabara de contá-la. — Se a falecida queria se vingar de alguém, deveria ter escolhido o marido. — É assim que os homens pensam — respondeu. — Mas não é desse modo que as mulheres agem… Ele tinha razão. [...]. Trechos da obra do escritor japonês Lafcadio Hearn (1850-1904). Veja mais aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
A arte da fotógrafa francesa Laure Albin Guillot (1879-1962). 
Veja mais aquiaqui.

TODO DIA É DIA DA MULHER
Leitora Tataritaritatá.

Todo dia é Dia da Cultura
&
Cantarau Tataritaritatá!
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quinta-feira, fevereiro 18, 2016

TONI MORRISON, SCHELLING, DIDION, MICHELET, SARDUY, TED CHIANG, MONTELLIER & ZÉ BILOLA

 


UMAS DAS MAIORES DE ZÉ BILOLA – Estava ele aperreado com o andar da carruagem eleitoral e aos apupos: Pronde tu vais, Bilola-doida-da-peste!?! Ah, vão se lascar, comboio de fresco! Ele havia planejado um método de prospecção de eleitores e contabilizava diariamente o quanto de abraços, os bons dias, as boas tardes, boas noites, apertos de mãos, isso sem pregar o sono madrugada adentro, totalizando as contas, umas e outras, sem piscar o olho: Pelo jeito, tô ganho! Aí Ximênia, a patroa dele peiticou pela zoada: Vai dormir não, ô amolestado, ou vai virar tetéu? Eita! Já tá quase amanhecendo, seu canto gelado e como é? Quantas vezes eu já disse hoje que te amo? Nenhuma! Então vou dizer zilhões de vezes repetidamente e encarreado! Pare lá, se tais pensando que vai amolecer a decente aqui procê ganhar meu voto pra vereança, nem se ajeite e tire o pangaré da chuva: nunquinha! Engoliu seco o insulto, destá. Ô mulher braba da gota! E saiu chutando tudo afora, desencantado com sua performance na candidatura. O que é que eu faço? Como não decolava nem com pé-de-cabra na alavancagem, o negócio enfeiava pra banda do bocó. Tô endoidando! Ué, onde a manipulação? Era o seu desespero à flor da pele. Só havia uma saída: ou engrenava de vez ou largava tudo e se matava! Pronto. Cascavilhou e iluminou-se todo: Ou eu parto pra vender o voto, aí! Oxe, vendia o dele e o dos outros: da mãe, pai, irmãos perdidos, primos dos descampados, parentes distantes, achegados. E tapiava, se fazendo que mantinha a candidatura que já foi prele mesmo pro espaço: Todo castigo pra corno é pouco! Como ele nunca deu certo em nada, um ninguém esmolambado que só tinha de seu o esculhambado corpo e ideias, seguiu firme: Sou o imperador de Alagoinhanduba! Oxe, o Barão quando soube mandou logo os capangas dar um peteleco nele: Cara, você é um bosta, pura doidice, vou perder meu tempo com você não, foda-se! Mas, mas... E fugiu da bronca, andou que só a má notícia, até bater no cansaço de cair sem saber nem onde estava. Anoitecia lua cheia, as altas marés, a agitação insone, o lobisomem rondando e a bala de prata perdida, o urutau enxugando as lágrimas prateadas de Mama Quilla e ele se remoendo: mais fracassou na carreira fugindo duma capivara, de se ver desolado aos pensamentos tomados no meio duma violência de trapaceiros e mercenários das gangs de rua, a precariedade e os estropiados esmoleres, gente de duas caras, as bruscas mudanças climáticas e as drogas pros fungados, a sordidez das guerras e o sexo jejuado, o efeito Mandela e a pirataria de tudo, o ódio na gritaria dos crentes, paranoias de assombrados, tudo aquilo era um zoo de coisas estranhas e aterradoras, monstruosidades inomináveis, que o tolhiam no seu abandono. Desprevenido foi agarrado e injetaram na sua veia coisa de malignidade irônica: De novo? Ah, não. Fui enrabado! E teve alucinações, ouvia vozes e sentia coisas do outro mundo, demônios persecutórios bafejavam na sua cachola e uma voz buzinava ao ouvido: Vou te pegar! Saía escapando das táticas do perseguidor, desembestado que só. Foi tangido por uma multidão de zombeteiros, entrou na briga e defenestrou seu anfitrião que presenciava ali ao cisma da confusão. O que é isso? Parou confuso e cismava: estava diante da múmia Itsaria de Nazca, impressionado com os seus 3 dedos levantados e cabeça alongada, dizendo: Deus o quer mulher. Oxe! Lascou! E é o Schreber? Tô mole. Espie direito, alesado! Um recado cifrado? O seu juízo tosco só entendia que forças intergalácticas, reptilianos ou sabe-se lá, estavam prontas pro ataque. Vixe! Enrolou-se com os teoremas da imersão de Nash, teorias conspiratórias, coisas do outro mundo e pernas no mundo. Esse cara ou é um idiota ou um mitômano muito doido! Ih! O apocalipse? Vou alertar todo mundo! Danou a língua nos dentes e aos gritos, só parou porque o deus calango Lango Tango queria ser jacaré! Agora, deu! A deusa guardiã de Opará, Piratininga, apareceu-lhe e ofereceu o copo com o doçor das águas da inundação catastrófica e uma rapadura mágica: Coma, pra se salvar! Tomou e, com a primeira dentada. passou a adivinhar as coisas: previu a queda do ovo da pata do colo de Ilmatar. Eita, é mesmo! E as coisas endoidaram todas: coaxavam muitos sapos e rãs ao seu redor, uivos de tantos lobos por todos os lados, traquinagens de coelhos e lebres aos montes pra lá dá cá e além de acolá, por onde vinha Lara Croft nuazinha de braços abertos. Corre, fidapeste! Ouviu e se amedrontou: Que foi? Ela vem te matar, desgraçado! Na correria, quase coração saindo pela boca, língua de fora estirada: pra Serra da Prata? Sim, achar o caminho de Peabiru pra Yvy Maraey. Pra quê? Ora, corre! Findaram atolados quando as águas do riacho contaram da Guata Porã. Como é que é? Desconfiado, fez uma simulação – achava que seu corpo era imortal, não era, estava todo desconjuntado pra morrer. Tá doido? Na defensiva viu o papavento depois da trovoada: Olha o sinal! Uma chuvada com o arco-íris: Quanta doidice! É o rato de Rockland – o rato de 11 milhões de anos? Não, o híbrido demiurgo que vai salvar tua tontice! Foge! Pé na bunda. Só despertou atarantado, às cabeçadas pelas paredes, arranchando-se num canto da casa, desvalido, fazendo bico aos estalos, vibrato ao mexido do dedo na boca, besourado blu-blu, zunido estralado, bilu teteia nos beiços. Ih, pirou de vez! Oxe, lascou-se mesmo! Arreda.

 

CAMPANHA DO ZÉBILOLA

NO BIG SHIT BOBRAS

ZÉ BILOLA ACENDE O FACHO & TOMA NA TARRAQUETA

XOXOTOPOLIS: QUANDO ZÉ BILOLA ACHA O CAMINHO DA CASA DA PESTE!!!!

OLIMPÍADAS DE ALAGOINHANDUBA

DEPOIS DA TEMPESTADE NEM SEMPRE UMA BONANÇA

QUANDO NÃO É NA ENTRADA É NA SAÍDA

MAIOR ARRANCA-RABO!

 A ÚLTIMA: ZÉ BILÔLA NA FITA

 

PS: Ximênia não se fez rogada, fitou o estado deplorável dele e sapecou: Bem empregado, eu que num vou ter pena de cuidar dessa trepeça! E foi-se. Veja mais dela ingicada aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.

 


DITOS & DESDITOS - Aproveite o momento. E, se você me perguntar por que deveria se dar ao trabalho de fazer isso, eu poderia dizer que o túmulo é um lugar belo e reservado, mas acho que ninguém se abraça lá. Nem cantam, nem escrevem, nem discutem, nem veem a pororoca no Amazonas, nem tocam em seus filhos. E é isso que há para fazer: aproveitar enquanto pode — e boa sorte nessa empreitada... Pensamento da jornalista, escritora e ensaísta estadunidense Joan Didion (1934-2021). Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.

 

ALGUÉM FALOU: Eles não se reconhecem nas imagens de mulheres. Elas os desestabilizam. Sem mencionar o medo da castração... Pensamento da quadrinista, cartunista editorial, escritora e pintora francesa, Chantal Montellier, a primeira cartunista editorial feminina na França e pioneira no envolvimento das mulheres em histórias em quadrinhos..

 

TONI MORRISON – No livro Amada (Companhia das Letras, 2007), da escritora estadunidense e ganhadora do Prêmio Nobel de Literatura de 1993, Toni Morrison, conta a história de uma ex-escrava que foge duma fazenda para refugiar-se numa cidade, na qual ela se vê envolvida com o fantasma de uma filha morta dezoito anos atrás. Da obra destaco o trecho: [...] Dez minutos para cinco letras. Com mais dez ela podia ter conseguido “Bem” também? Não tinha pensado em perguntar a ele e ainda a incomodava aquilo ter sido possível — que em troca de vinte minutos, meia hora digamos, ela podia ter conseguido a coisa toda, todas as palavras que tinha ouvido o pregador dizer no enterro (e tudo o que havia para dizer, com certeza) entalhado na lápide: Bem-Amada. Mas o que ela havia conseguido, que escolhera, era a única palavra que importava. Ela achou que podia bastar, copular entre as lápides com o entalhador, o filho dele, menino, olhando, tão velho o ódio em seu rosto; bem novo o apetite nesse rosto. Aquilo com certeza devia bastar. Bastar para responder a mais um pregador, a mais um abolicionista e a uma cidade cheia de aversão. Contando com a quietude de sua própria alma, ela esquecera a outra: a alma de sua filha bebê. Quem haveria de dizer que um velho bebezinho pudesse abrigar tanta raiva? Copular entre as lápides sob os olhos do filho do entalhador não bastou. Não só ela teve de viver seus anos numa casa paralisada pela fúria do bebê por lhe terem cortado a garganta, como aqueles dez minutos que passou esmagada contra a pedra cor de amanhecer salpicada de lascas de estrelas, os joelhos tão abertos como o túmulo, foram os mais longos de sua vida, mais vivos e mais pulsantes que o sangue do bebê que encharcaram seus dedos como óleo. [...]. Veja mais aqui, aqui, aqui, aquiaqui.


A FILOSOFIA DE SCHELLING – O volume Obras escolhidas, do filósofo do Idealismo alemão, Friedrich Wilhelm Joseph von Schelling (1775-1854), reúne na primeira, as dez cartas filosóficas sobre o dogmatismo e o criticismo em que se opõe à chamada moral da existência de Deus e mostrando que para o criticismo que se contrapõe ao dogmatismo a destinação do homem é o esforço pela autonomia inalterável pela liberdade incondicionada, o programa sistemático que marca o surgimento do idealismo alemão e do movimento romântico, a exposição da ideia universal da filosofia em geral e da filosofia da natureza como parte integrante da primeira, a Divina Comédia e a Filosofia na qual o autor mostra como a obra de Dante é o modelo exemplar da poesia moderna, Bruno ou do principio divino e natural das coisas no qual o autor desenvolve um diálogo que caminha para a discussão das noções de unidade, absoluto, infinito ideal e real, e, por fim, a História da Filosofia Moderna em que o autor aborda sobra Hegel interpretando a relação existente entre a lógica hegeliana e o Absoluto. O filósofo em estudo partiu de sua adesão aos escritos do sistema fichtiano, libertando-se em seguida do seu mestre por constatar insuficiente a tese de que a natureza é apenas uma resistência oposta à atividade infinita do eu e produzida por essa atividade. Schelling passa a defender a ideia de que a natureza é tão real e tão importante quanto o eu, afirmando ser tanto a natureza como a objetividade, aquilo que fornece à consciência material para reproduzir. Para ele, a essência do eu é espírito, a da natureza é matéria e a da matéria é força. Com isso ele apresenta uma espécie de naturalismo organicista procurando resolver os problemas colocados pelas ciências físicas, acreditando que o objetivo fundamental das ciências fosse a interpretação da natureza como um todo unificado. A partir da valorização da natureza, ele transita coerentemente através da ideia de desenvolvimento dialético, chegando a uma concepção mais ampla que denominou de Sistema de Idealismo Transcendental, expondo o desdobramento da consciência absoluta em suas relações com a dialética da filosofia da natureza e apresentando as ideias sobre o desenvolvimento da consciência no curso da história. A estética elaborada nesse sistema sustenta que, na obr de arte, a inteligência se torna totalmente autoconsciência, enquanto que na filosofia a inteligência é abstrata e limitada em suas tentativas de exprimir uma potencialidade infinita. Na obra de arte a inteligência realiza toda a sua potencialidade, porque está livre da abstração. Dessa forma, a arte seria o objetivo último para o qual tende toda a inteligência. A arte seria a verdadeira filosofia, na medida em que, nela se reconciliam a natureza e a história. Veja mais aquiaqui.

REFERÊNCIA
SCHELLING, Friedrich; Obras escolhidas. São Paulo: Abril Cultural, 1979.

 

A BRUXA, BELLADONNA - [...] O homem caça e luta. A mulher trama e sonha; ela é a mãe da fantasia dos deuses. Ela possui a segunda visão, as asas que lhe permitem voar em direção ao infinito do desejo e da imaginação. [...] Trecho extraído da obra La Sorcière (Garnier-Flammarion, 1966), do historiador e filósofo francês Jules Michelet (1798-1874), que inspirou o filme de animação japonês do gênero drama erótico, Kanashimi no Belladonna (1973), realizado e escrito por Eiichi Yamamoto, a terceira parte da trilogia de filmes eróticos Animerama. Veja mais aqui.

 

HISTÓRIA DA SUA VIDA – [...] Apesar de conhecer a jornada e aonde ela leva, eu a abraço e acolho cada momento. [...] O amor incondicional não pede nada, nem mesmo que seja retribuído. [...] A liberdade não é uma ilusão; ela é perfeitamente real no contexto da consciência sequencial. No contexto da consciência simultânea, a liberdade não tem sentido, mas a coerção também não; é simplesmente um contexto diferente, nem mais nem menos válido do que o outro. É como aquela famosa ilusão de ótica: o desenho que pode ser visto tanto como uma jovem elegante, de rosto voltado para longe do observador, quanto como uma velha de nariz verrugoso e queixo encostado no peito. Não existe uma interpretação “correta”; ambas são igualmente válidas. Mas não se consegue ver as duas ao mesmo tempo. Da mesma forma, o conhecimento do futuro era incompatível com o livre-arbítrio. O que tornava possível exercer a liberdade de escolha também tornava impossível conhecer o futuro. Por outro lado, agora que conheço o futuro, jamais agiria de modo contrário a ele — o que inclui contar aos outros o que sei: aqueles que conhecem o futuro não falam sobre ele. Aqueles que leram o Livro das Eras jamais admitem tê-lo feito [...]. Trechos do conto extraído da obra Stories of Your Life and Others (Tor Books, 2002), do escritor taiwanês Ted Chiang, que inspirou o drama de ficção científica Arrival (2016), dirigido por Denis Villeneuve e escrito por Eric Heisserer.

 

VEJA, PERMANEÇA NA INFINIDADE SEM ESTRELASQue o infinito seja sem estrelas, \ que a curva do tempo se endireite. \ E perca seu brilho, \ quando um planeta oscila no wensu e nos vestígios da explosão primordial. \ Categoria: Aquelas notícias recebidas \ desde o início das galáxias, do imenso vazio, \ Hoje, luz fóssil. \ Belos paradoxos que anunciam \ o que passou e postulam o futuro no passado. \ Universo de puro sopro: \ um espaço que flui como um rio \ e um tempo sem presente, opaco e frio. \ O tempo da espera e do esquecimento. Poema do escritor, jornalista e crítico cubano, Severo Sarduy (1937-1993).

 


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