quinta-feira, julho 17, 2008

JOHN BERGER, JOSÉ COSTA LEITE, ÉTIENNE DE LA BOÉTIE, CRUZ COSTA, KAPP, TELEVISÃO & BIG SHIT BÔBRAS


ZÉ BILOLA ACHA O CAMINHO DA CASA DA PESTE!!!! Agora que Zé Bilôla arrumou o caminho da casa da peste mesmo! Ôxe, foi um buruçú dos diabos. Apois, sim: com o intento de angariar uns votos a mais para a sua candidatura à vereança, o desgracento achou de pronunciar o nome do local aonde tinha ido para resolver uma pendenga ineivada. Mal pronunciara o nome do lugarejo, surgira do inopinado a sua distinta cônjuge Ximênia - a prinspa do coité -, armada do maior emputecimento que uma indignação feminina pode ser acometida. - Diga adonde que cê foi, lazarento? -, disse ela tascando uma penicada no quengo do estropiado. - Caima, mulé, é um lugareijo aqui pro perto! E quanto mais o seboso ousava pronunciar sílaba qualquer de explicação, mais o penico comia no centro. - Diga logo que é um puteiro, seu safado, diga logo! - Num é não, mulé! - Assuma sua safadezice, seu frouxo, assuma! - É não, mulé, num é coréia não! Ôxe, a mulher não arredou o pé e além do penico, armou-se de umas cabadas de vassoura boa no espinhaço do amolestado dele sair gritando pelo meio da rua: - Xoxotópolis, Xoxotópolis!!!! Num ria não que o negócio é sério. Taí a prova dos nove. Veja mais detalhes disso aqui.  


DITOS & DESDITOS - A primeira razão pela qual os homens servem com boa vontade é porque nascem servos e como tal são criados. Como é que o chefe ousaria pular em cima de vós, se vós não estivésseis de acordo? Pensamento do filósofo humanista francês Étienne de La Boétie (1530-1563).

ALGUÉM FALOU: A filosofia não é mera especulação no vácuo ou simples jogo de conceitos abstratos. É trabalho sobre a experiência real e que cumpre levar a cabo sem perder esse sentido do concreto. Pensamento do filósofo e professor João Cruz Costa (1904- 1978).

SISTEMA AUTOPROTETOR - [...] O esforço para assegurar a coerência (tauto)lógica de seus construtos e conclusões transforma a teoria em um sistema “auto-protetor”-- um sistema que possui uma forma quase automática de descartar evidências que possam repercutir negativamente sobre a doutrina. Quando esse ponto é atingido, pode-se dizer que a disciplina tornou-se um tipo de matemática disfarçada, nem capaz, nem interessada em descrever e prever a ação humana em seu contexto histórico real. [...] Não admira, portanto, que uma tal teorização compartimentalizada se torne irrelevante para a compreensão e a solução prática de nossos problemas contemporâneos. No esforço para ser precisa, através da escolha de uma ou algumas poucas variáveis; através da identificação última do empreendimento científico com a lógica da matemática; através da rejeição a todo esforço teórico que mantém-se próximo aos ‘fatos’ e, portanto, sujeito a verificações feitas à luz da observação empírica, a teoria econômica, em particular no campo do valor e da análise da utilidade, perdeu não apenas sua relação, como também sua relevância para a análise da realidade. Esta desenvolve-se cada vez mais independente e se parece cada vez menos com o produto de ‘forças impessoais’ automáticas de um mercado competitivo. [...]. Trechos da obra Toward a science of man in society – a positive approach to the integration of social knowledge (The Hage, 1961), do economist alemão Karl William Kapp (1910-1976).

FALSAS VERDADE DA TVTV é feita para educar – Não é. Pelo menos formalmente. É feita para educar de outra forma, para estimular a transgressão, por exemplo. TV de qualidade é a que reproduz conteúdo de qualidade. Errado. É a que cria seu próprio conteúdo, desenvolve modelos narretivos próprios. Do contrário, a transmissão de um bom jogo de futebol seria boa TV. TV por assinatura é o espaço da qualidade – Em grande medida, este virou o espaço da pasteurização, da acomodação ao obvio, do emburrecimento. Um minuto do Ratinho vale mais que toda a grade do People & Arts. TV nivela por baixo para ganhar audiência – Se fosse verdade, redes que operam com 2% do mercado estariam operando com 80%. Nivela-se por baixo quando não se saber fazer a coisa melhor. Palavras do jornalista, crítico e cineasta Nelson Hoineff, presidente do Instituto de Estudos da Televisão, durante o Semirário Esso -0 IETV Jornalismo (Bravo, maio-3005). Veja mais aqui.

O CASAMENTO - [...] A moto com os seus faróis acesos sobe em ziguezague a montanha. De vez em quando, desaparece por detrás de escarpas e rochas e sobe sempre e vai ficando mais pequena. Agora a luz oscila como a chama de uma pequena vela votiva de encontro a uma imensa face de pedra. Para ele é diferente. Vai furando a escuridão como uma toupeira fura a terra, o foco dos seus faróis rasga o túnel e as curvas do túnel à medida que a estrada vai curvando para contornar rochas e para subir. Quando volta a cabeça para olhar para trás — como acaba de fazer — não existe nada para além do farolim traseiro e de uma imensa escuridão. Aperta o depósito de gasolina com os joelhos. Cada curva, quando homem e máquina entram nela, recebe‑os e içaos com um sacão. Entram nelas devagar e saem rapidamente. Quando entram, inclinam‑se para a frente o mais possível, esperam que a curva lhes dê o seu arqueamento e depois saltam em frente. Entretanto, aquilo que estão a escalar tornase cada vez mais desolado. No escuro a desolação é invisível, mas o ferroviário consegue senti‑la no ar e nos sons. Voltou a abrir o visor. O ar é fino, gélido, húmido. O ruído do motor devolvido pelas rochas parece serrilhado. [...]. Trecho da obra O casamento (Relógio D’Água, 2018), do escritor, pintor e crítico de arte inglês John Berger (1926-2017).

DOIS POEMASI - O cordel já vem do sangue / Tinha recebido a seta / Da deusa da poesia / Numa paisagem direta / Olhando um dicionário / Pois não há Educandário / Que ensine a ser poeta / Pois a pessoa já nasce / Trazendo a poesia / No dia que ele morrer / Ela vai em companhia / Pois a poesia é bela / O vivente nasce com ela / E no juízo ela se cria. II - Um homem com sua esposa / vinham duma diversão: / O bode partiu em cima, / Botou o homem no chão, / O homem a faca puxou / Mas o bode o agarrou / E a faca caiu da mão / A mulher pegou a faca / Chorando e dando gemido / Disse: - Eu vou matar ele / Pra não matar meu querido! / Na confusão do pagode, / Ela foi matar o bode / Errou, capou o marido. Poemas do poeta cordelista e xilogravurista José Costa Leite. Veja mais aqui e aqui.




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