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domingo, junho 14, 2026

FRANÇOIS JULLIEN, EILEEN CHONG, STARHAWK & GUEL ARRAES

 

 Imagem: Acervo ArtLAM.

Ao som dos álbuns Glamorous Life (2017), Very Special (2017), Tea Times (2016), Self Portrait (1997) e Cruisin' (1993), da pianista japonesa Junko Onishi.

 


O sacrifício da heroína & as façanhas acanhadas do mancebo... - Aperturam libra: Zeca Biu já contava com seus 17 castos anos e a mãe dele, dona Adélia, desde que vencida a puerícia dele, se corroía há tempos por preocupações: o alistamento militar e cadê a namoradinha dele? Toda mãe é sagrada, há de se perdoar até as ideias extravagantes dela: Será? O filho até então não se servia pro metier, ou se passasse a desmunhecar e, o pior: a zooerastia, valei-me, afora o risco da peste no pipocar dos furúnculos. Em confidências hesitantes e sucessivas com a Viscondessa, a constatação do pânico: Puxou ao pai? Talqualzinho. O mal-estar angustiante: careciam de providências urgentíssimas. Idas e vindas. Ele lá alheio a tudo: inepto donzelo Príapo, no vice-versa da escola pro oitão da bicharada: seu meio de ganho com estimado gosto, cada dia o seu pão e sequer um sinalzinho dum pé de gente por amizade. Nem se incomodava mais com o desplante dos vizinhos furiosos com o fedor do criatório. A genitora partiu pra cima da vocação hereditária, traquejo da vida, que seja: ou vai ou racha! Inventava todo dia um folguedo pra reunir as amigas e suas filhas, esperançosa de que dali uma que fosse caísse nas graças dele. E inventava pândegas de Príncipe Encantado, levada pela festa do boi do Barão, tudo para destabocar a curiosidade das convidadas, resultando, ao final de cada festejo, num desfile amuado de Zeca Biu, todo sem jeito, só pra que todas vissem a filiação de um bom partido. Não dava cloro. Apelou pro anjo da guarda deles, fez careta com as omissões, a cada batida do coração uma vontade escapulia e quase tudo se perdia, de não desperdiçar outra vez, uma chance, a única, descartada? Nunca. Desenganava: Ele que bote suas astúcias pra fora, lavo as mãos não. O pubescente parecia já ter tirado a catinga do mijo e de tão tabacudo nem aí. Ela fez finca-pé: recorreu à inarredável Viscondessa e lá, na sepultura dela, ajoelhava-se de rezar e orar por horas, pedia permissão e rogava um sinal de seu consentimento. Na hora: uma nuvem larga escureceu e caiu o maior pé d’água, logo o Sol raiou: casamento da raposa. Era o que precisava, saiu efusiva pronta pra deixar tudo nos conformes, louvando seus rogos pro Santoínho. Dissimulada lá e cá, dissuadia: Cadê a paquera? Ele gaguejava retraído, desconversava, tudo vez nada: quão e tão sombra sem voga, pernas e braços cruzados, todo encabulado quanto ao assunto, constrangia-se a qualquer insinuação. Ô meu filho, tá na hora de pensar em casar, num tá não? Casar? Ora, se. O mancebo alesado: Quem? Um espirro, só na babaquice de queijudo. Ô homem sem jeito! Sujeito retraído, abria e fechava os olhos; levantou-se e foi até longe no alto do morro e confidenciou sua indignação: Casar? Foi pra casa dormir que já era breu pra madrugar. Aí ele sonhou com uma cigana jeitosa: Qual a sua missão? Despertou agoniado sem entender patavina. Eis que amanhecera e distraído no quintal, apareceu do nada Dorcelimesia, a Dodô, também afeiçoada a bicho. Ela trouxe pela coleira um gambá de estimação – tipo rato-do-mato. Ele receptivo: Também gosto de cassaco, saruê, mucura, timbu, sariguê, tenho desses não no meu zoo, só uma ticaca perdida por aí. Quer? Pra você eu dou. É macho? Sei lá. Deixe ver: agora temos um casal. E riram-se. É que a mãe dela ralhava: Quero isso aqui não, rouba ovos de galinha. Oxe! E se riam da leseira dela. Assim se viam manhãs, tardes e noites, até foram juntos prum concurso e todo mundo fugiu. Ué! Quem aguentaria a bufa dum da orelha-preta? Nisso a felizarda genetriz benzeu-se, foi ver de perto e um tênue alívio repousara no seu coração: estava ali, naquela menina, a sua redenção. Aproveitou-se achegando-se: aguava o pagode ensinando as manhas pra moça e tudo fez força preles se estreitarem: No dia dos namorados, Almofadinha e Melindrosa, brincava. A menina gostou tanto, da viúva sogra, dela correr antecipada pros pais da afeiçoada: Vamos ajeitar o casório! Como? Está mais do que na hora de juntar os dois pombinhos. E virava os olhos sonhando com epitalâmios no ritual do matrimônio e bruguelos saltando pelo himeneu: Vovó! Voltou pra casa e contou logo pra sua agora suposta nora: Pronto, agora vão brincar no quintal com a Paz de Deus. Oxe! Os dois subiam e desciam pelas árvores, buliam com a bicharada, pulavam muro, escorregavam no pó-de-serra, atravessavam o brejo, viravam cambota, bundacanasca. A cunhã viçava, mais atirada, taluda, destemida, determinada, o instinto materno adotivo; ele tão medroso na estase franzina da ingenuidade, achava dela uma coisa tão chochinha, vixe! Passava. E se empolgaram tanto dele contar um segredo. Havia do que se falar: juntando montes e esburacados, deu numa panela cheia, dinheirama. Mesmo? Uma botija por achado, segredou. E aí? Fez pelos avessos: dividiu em caçarolas menores para semear em pequenas covinhas esparsas pela imensidão. Tais rico, então? Só eu e você, chiiiii. Daí ele pegava o chilreio da passarada para guardá-lo atrevido no bolso da blusinha dela: Pra você, todos! Ela sorria dourada quase tarde ensolarada. E roubavam algodão doce das nuvens baixinhas ao alcance das mãos, botando os pedaços um na boca do outro. Se sentiam como na epopeia do camelo & a zebra, era a amizade deles nascendo escondido, tímida, clandestina, embaixo de 7 capas. Não despregava as vistas da titela dela que cochichava cócegas às suas ouças; o riso, respiração profunda. Trocavam azuis por rosas, roxos por amarelos, verdes por vermelhos. Ela gostava de ver o bando dos bichos, até da criatura com o dobro de braços e pernas. Quem? Oxe, apareceu agora. Deu fé até dum ET. Danou-se tudo! Aí ardiloso pras bandas dela: Vê aquele negócio ali! Ela foi, arreou-se conferente e ele, inadvertidamente, viu-lhe o cofrinho robusto no lance da calcinha. Caiu a ficha, zarolho, empertigado: Fazer o quê, meu Deus? Um inadvertido prurido ventral emergiu com a brejeirice dela sem empecilhos, descobria a polução involuntária, aprendia a função onanista. O zerola lambia os beiços, súbito fugitivo. Dodô virou-se: Cadê-lo. Sumira. Caçou-lo pela redondeza e pegou-lo acuado ensandecido numa touceira escondida. Cobra? Foi ajudá-lo e pegou dum jeito que ele sentiu o efeito na hora: maior meladeiro. O que foi isso? Titubeou desajeitado, mas e nãos e sins. Não é venenosa não, né? Não era. Ela apurou direito dos olhos quase pularem fora: Você tem três pernas ou isso é um aleijão? Tartamudeava lívido, acabrunhado. Deixe ver direito? Um abismo. Não! Ele fugou aos desembestos. Ela no encalço. Cansados da correria, se agacharam esbaforidos à sombra do cajueiro. Tomavam fôlego. Cabeça baixa, olhos fechados, ele não sabia o que dizer, língua enrolada, juízo deu nó. Quando ela olhou pra ele ali acocorado, arregalou-se com o bico da piroca pendurada, escapulindo coxa abaixo. Que bicho é esse? Hum? Não se mexa, vou pegar! E, como a maior de todas as heroínas, encarou destemida. Deu-se a lavação da jega, dele bater forte nos possuídos dela, uma peiada macha, de levá-lo à rebordosa: viciado, via-se logo famélico, olhos fundos, desapaziguado, só os ossos. Qualquer gesto dela e sacudia-se, deseganchado da toleima, atirava-se sobre os seus costados deles esquecerem o almoço depois do meio dia, a janta na boquinha da noite e assaltados pela surpresa de que já era tarde da noite, hora de cada um se recolher-se ao seu domicílio. Não era de reprimenda e apartavam-se meio que desastrados até bufarem sono pesado pela noite folgazã, cada qual na sua cama. No outro dia Zeca Biu, todo ancho, procurou Dodô. O canto mais limpo. Cadê-la? Os pais se mudaram. Pra onde? Quem sabe! O seu mundo pipocou esfarelado e, na mais espessa escuridão, piongos, mãe e filho, desconsoláveis: fazer o quê dali pra diante. Dias depois bateram à porta. Duas envelopes por baixo da porta. Inadvertida a mãe as apanhou: É pra você! Escolheu logo a da caligrafia dela estampada no bilhete: Vou fugir de casa praí! Ele alvoroçou-se todo. Contudo, conteve-se: os olhos maternos chorosos: Que foi? Entendeu-lhe o papel: era hora de servir a uma das forças armadas. Acta est fabula. Até mais ver.

 

Jürgen Habermas: Somente quem assume o controle da própria história de vida pode enxergar nela a realização de si mesmo. A responsabilidade de assumir o controle da própria biografia significa ter clareza sobre quem se quer ser... Veja mais aqui, aqui & aqui.

Joyce Carol Oates: Somos todos regionalistas em nossas origens, por mais 'universais' que sejam nossos temas e personagens, e sem nossas queridas cidades natais e paisagens infantis para nos nutrir, seríamos como plantas colocadas em solo raso. Nossas almas devem criar raízes - quase literalmente... Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.

Salman Rushdie: Sociedades livres... são sociedades em movimento, e com o movimento vêm a tensão, a dissidência, o atrito. Pessoas livres produzem faíscas, e essas faíscas são a melhor prova da existência da liberdade... Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.

 

BÚSSOLA

Imagem: Acervo ArtLAM.

EU - Minha mãe me colocou na água. \ Ela me deitou de costas. Algum instinto \ manteve meu pescoço rígido e minha cabeça erguida. \ A fotografia se perdeu. No álbum \ da minha mente, vejo o pânico nos meus punhos cerrados. \ Ainda sinto o frio da água ao meu redor.

II - Ele disse que iríamos jogar um jogo. \ Todos nós pulamos de susto. Ele segurou minha mão com força. \ No fundo, contamos. Bolhas \ prateadas subiram à superfície. Então, eu saí correndo. \ de ar. Eu não conseguia me soltar. Ao \ subir, ele me chutou. A água: tão pesada.

III - À tarde, eu tinha muita alegria \ em encher a pequena chaleira e levá-la \ para o meu avô na sala de estar. \ Ele colocava a chaleira na chapa quente e deixava \ a água ferver. Folhas de chá na chaleira. \ O aroma de bambu. A infusão amarga.

IV - Meu pai sempre dizia: onde há água, \ há chineses; onde há chineses, \ há hakka. Tenho cinco frases: \ comer, dormir, tomar banho, cagar, não entendo. \ Para contar os inhames: descascamos os inhames. \ Cozinhamos, amassamos, adicionamos farinha e amassamos \ até virar massa. As mulheres em fila, moldando \ as bolinhas com covinhas. Nunca entendi toda essa confusão. \ Óleo cobre meus lábios, meus dentes e minha língua.

V - Sinto muita falta da banheira. \ Nas manhãs de inverno, eu acordava e preparava \um banho quente. Um calor insuportável, escaldante. \ Vapor subindo da água. Sal dissolvendo-se \ instantaneamente. A imersão sublime — \ um retorno ao útero, ou a um caixão.

VI - Às três horas da manhã, \ minha avó resolveu esfregar \ o chão do banheiro. \ Ela escorregou, cortou a testa \ num cano e caiu de cara no chão. \ Sangue e dois olhos roxos. \ Essa mulher lutou a vida inteira. \ À noite, trava uma batalha consigo mesma. \ O suor encharca seus lençóis.

VII - Nunca soube que tinha um gosto doce. \ Como mel da rocha— \ Sermões monótonos ecoavam pelo meu teto \ enquanto eu lia o Cântico em silêncio. \ De cânticos, salmos e provérbios. \ Versículos como as marés. Meu primeiro \ Poema, o oceano da minha ruína.  \ No fundo: uma bússola de lata, \ sua agulha selvagem e inquisitiva.

Poema da poeta singapuriana Eileen Chong (Eileen Chong Pei Shan), radicada na Austrália e autora dos livros Burning Rice (2012), Peony (2014), Painting Red Orchids (2016) e Rainforest (2018).

 

CIDADE DE REFÚGIO - […] Que o vento carregue seu espírito suavemente, que o Fogo liberte sua alma, que a Água a purifique, que a Terra a acolha, que a Deusa a tome em seus braços e a guie para o renascimento. [...] Mesmo uma gota de felicidade poderia colorir um poço inteiro de miséria. [...] Trabalhamos muito, estávamos conseguindo nos manter — aí eles aumentaram as taxas de juros, ou fecharam as escolas, ou mudaram as leis... [...]. Trechos extraídos da obra City of Refuge: The Fifth Sacred Thing (Califia Press, 2016), da escritora e ecofeminista estadunidense Starhawk (Miriam Simos), que no seu livro The Earth Path: Grounding Your Spirit in the Rhythms of Nature (HarperCollins, 2004), ela expressou que: […] A energia se move em ciclos, círculos, espirais, vórtices, redemoinhos, pulsações, ondas e ritmos — raramente, ou nunca, em linhas retas simples. [...] Como tudo é interdependente, não existem causas e efeitos simples e isolados. Cada ação cria não apenas uma reação igual e oposta, mas uma teia de consequências que se propagam. [...] Uma relação real com a natureza é vital para o nosso desenvolvimento mágico e espiritual e para a nossa saúde psíquica e espiritual. É também uma base vital para qualquer trabalho que façamos para curar a Terra e transformar os sistemas sociais e políticos que a atacam diariamente. [...] Mas um quebra-vento também é um grande professor, para mim, sobre não-violência. Como respondemos a forças intensas — raiva, fúria, até mesmo ataques físicos — sem nos tornarmos violentos em resposta? Como reagimos a críticas bem-intencionadas, porém duras (sejam elas bem-intencionadas ou intencionalmente ofensivas)? Se nos tornarmos uma muralha, bloqueando as energias que nos atingem, podemos, na verdade, fortalecer a raiva da oposição. Por outro lado, se simplesmente ignorarmos ou rejeitarmos as críticas, a oposição pode expandir suas críticas para incluir nossas reações. Mas há uma terceira alternativa: se aprendermos com as árvores, podemos absorver e transformar a energia que nos atinge. Fazemos isso mantendo a calma, o equilíbrio e o centramento, ouvindo em vez de responder, balançando com o vento e deixando-o dissipar-se. [...] Não acredito que tudo em nossas vidas seja uma questão de escolha. Em círculos da Nova Era, ouço frequentemente pessoas dizerem: "Criamos nossa própria realidade". Essa é uma compreensão simplista e míope de como a realidade funciona. Não escolhemos todas as nossas circunstâncias, nem todas as nossas opções. Os pobres geralmente não escolhem morrer de fome, nem os oprimidos escolhem a opressão, e as vítimas da guerra não escolhem morrer. Mas podemos escolher como reagir às circunstâncias que nos são apresentadas. [...]. Ela também é autora de outros livros como Webs of Power: Notes from the Global Uprising (2002), Walking to Mercury (1997), The Pagan Book of Living and Dying: Practical Rituals, Prayers, Blessings, and Meditations on Crossing Over (1997), The Fifth Sacred Thing (1993), Truth or Dare: Encounters with Power, Authority, and Mystery – Creative Alternatives for Positive Change in Our Lives and World (1987), Dreaming the Dark : Magic, Sex, and Politics (1982) e The Spiral Dance: A Rebirth of the Ancient Religions of the Great Goddess (1979).

 

NÃO HÁ IDENTIDADE CULTURAL – […] tratar a diversidade das culturas em termos de diferença levará a querer isolá-las e fixá-las na sua identidade. [...]. Trecho extraído da obra No hay identidad cultural (Taurus, 2017), do filósofo francês François Jullien, que em sua outra obra The Silent Transformations (Seagull Books, 2009), ele expressa que: [...] O que resta, de fato? O que mais nos resta além da grama que cresce e das montanhas que se erodem, corpos que se tornam pesados e rostos que se emaciam, a vida que fecunda, ou se exaure, ou melhor, que, enquanto fecunda, já começa a se exaurir? E vagas expectativas que se cristalizam em paixão febril, ou então em encontros que se tornam menos frequentes. Ou cumplicidades amorosas que, sem serem confessadas, se transformam em relações de poder? Ou revoluções heroicas que (sem que possamos precisar quando) se transformam em privilégios do Partido? Ou então as feridas de ontem que são deslocadas, enterradas e condensadas, e então se transcrevem em representações criptografadas de sonhos – e obras que amadurecem em silêncio? [...]. No livro La china da que pensar (Anthropos, 2005), ele reflete que: [...] ao que foi aprendido, enquanto se continua aprendendo. [...], acrescentando noutra obra, The Propensity of Things: Toward a History of Efficacy in China (Zone Books, 1995), que: […] No estágio mais embrionário, a tendência à plenitude da atualização já está latente. [...]

 


O UNIVERSO DE MACHADO DE ASSIS - Esquecer é uma necessidade. A vida é uma lousa, em que o destino, para escrever um novo caso, precisa de apagar o caso escrito... Pensamento do escritor Machado de Assis (Joaquim Maria Machado de Assis – 1839-1908). Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.

 

A ARTE DE GUEL ARRAES

[...] Eu entrei em cinema no começo dos anos 70, bem por acaso. Na época, todo mundo fazia um pouco de Super-8, que corresponde ao vídeo de hoje em dia. Na Universidade de Paris VII, eu fazia um curso de antropologia e havia umas cadeiras de cinema. Como eu já fazia filme em Super-8, optei por cadeiras relacionadas a cinema, etnologia e etnofilmes. Foi quando comecei a ver os filmes de Jean Rouch e fiquei fascinado [...] Eu cheguei no Brasil em dezembro de 79. Cheguei no Rio em abril de 80 e seis meses depois eu estava na televisão, já na Globo, já em novela. Eu comecei como estagiário e uns seis meses depois comecei a dirigir. Minha ida para a Globo também foi por acaso. [...] O que eu faço no cinema é comédia maluca. Gosto do cinema burlesco, da comédia, da farsa mas nesse gênero de filme não se explora a paisagem, planos em contra-luz. Não dá tempo para se ter muitas panorâmicas, por exemplo. O cinema que eu faço não tem a pretensão de ser um cinema de arte. Não precisa ser julgado dentro dessa regras. Há eixos nos meus trabalhos e são eles que precisam ser analisados: há essa mistura de ficção e realidade, há o apelo à metalinguagem, o burlesco, por exemplo. [...] O Auto surgiu quando a gente já estava começando a cansar de novo da TV. [...] Na maioria das histórias, a gente teria que cortar muito para colocar tudo em um único episódio; não haveria como aproveitar mais cenas difíceis e caras de produzir, foi quando então a gente propôs o formato seriado, em capítulos. Foi o que fizemos com o Auto da Compadecida, Luna Cliente e, mais tarde, com Caramuru. [...] Com a transformação do Auto da Compadecida em filme, ficou bem claro que a leitura no cinema é mesmo outra, permite um grau de sofisticação maior. [...] Mas, para muita gente o Auto, no cinema, foi uma coisa inteiramente nova. Isso só mostra que, na televisão, às vezes, a gente “vê e não vê”. Se ficasse só na TV, teria sido só mais um excelente programa; no cinema, virou uma interpretação clássica de um clássico de Ariano Suassuna. No entanto, era a mesma coisa. O cinema cria uma outra relação. [...] Parecia ser possível então educar um público pra ver diferente: se o programa tem equilíbrio, desperta curiosidade, desperta interesse, o espectador começa a sentir que pra ver aquilo ele tem que prestar atenção, e ele começa a prestar atenção porque se ele virar, piscar, pode perder uma piada. Isso eu acho que, de alguma maneira, começou a acontecer com os programas que a gente fez [...].

Trechos recolhidos da entrevista Subvertendo as fórmulas, reiventando os formatos: entrevista com Guel Arraes (Galáxia, 2002), dos jornalistas Alexandre Figueirôa e Yvana Fechine, concedida pelo cineasta, roteirista e diretor Guel Arraes (Miguel Arraes de Alencar Filho), diretor de filmes como Doris para maiores (1991), A comédia da vida privada (1997), O auto da compadecida (2000), Caramuru – a invençãodo Brasil (2001), Lisbela e o prisioneiro (2003), O bem amado (2010), Grande sertão (2024) e Fábrica de sonhos (2024), entre outros. Veja mais aqui.

 

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domingo, fevereiro 22, 2026

MARIANA ENRÍQUEZ, NILGÜN MARMARA, MARIANA MAZZUCATO & NEGRITUDE SEM IDENTIDADE

 

 Imagem: Acervo ArtLAM.

Ao som dos concertos Suíte Brasileira (2023) e Cantata Ayabás (2025), da maestra, pesquisadora, compositora e pianista Andréa Huguenin Botelho.

 


As viúvas do sobrado... - Adélia se sentia uma das Little Women de Alcott – a caçula entre as 4, antes 5, meninas órfãs do sobrado de Hermilo, a viver oniricamente vestida de flores, mansidão de pássaros, delicada juventude. E crescia viçosa, aformoseando-se a tal ponto de cair nas graças dum mulato estranho, logo apresentado como banqueiro Benedito. Desde então passou a suspirar pelos cantos e a ter sonhos com todo tipo de bicharada. Era vigiada pela centenária Viscondessa e a sua inseparável ama Bernarda, ocupando muito mais a matriarca que vivia tal Penélope de Ulisses – o marido combatente no Paraguai nunca mais voltou. Não demorou muito e logo o casal se estreitou de papel passado em ruidosa cerimônia e, a partir de então, o festivo foco das atenções naquela família de enlutadas. Com o matrimônio, o que mais a envaidecia era se tornar duas vezes Silva ao seu extensíssimo sobrenome aristocrático – ela reunia a extensa linhagem dos germânicos Guimarães, dos florentinos Cavalcantes, dos lusitanos Alves e agora senhora Silva dos ibéricos e mais um Silva acrescido: o do Biu banqueiro. Pouco mais de um mês depois da lua de mel, a tragédia: a matrona consolava a viuvez de todas as suas irmãs – escapou apenas Amélia, que faleceu antes de contrair núpcias. Lá estavam chorosas Amália, Anália e Adália abraçadas com Adélia, arrimadas pela genearca. As primeiras solidárias a chegarem para engrossar o plangente momento foram as amigas próximas da progenitora e lá estavam ao vivo e em cores no recinto, segurando os lencinhos e vestes escuras: a Catarina de Lencastre, Ana Plácido, a da Luz, a de Arcozelo e a de Cavalcanti. Logo providenciaram o velório ajudadas por inúmeras serviçais. Fraquejava ali Adélia sentindo na pele a árdua tribulação da Pelágeya de Gorki. E passou mal, logo a Bernarda chamou outra empregada: Pegaí o picão-do-padre! Foi um Deus nos acuda! Oxe! Trouxeram o chá calmante de cravo-de-defunto e as pálpebras destilavam prantos por seu saudoso marido. Mantinham os preparativos pro funeral e um entre e sai de gente, cochichos, horas de espera. De repente o alvoroço, a pompa fúnebre transformou o salão da casa numa câmara-ardente, repleta de flores e velas acesas, numa decoração religiosa. O corpo estava desfigurado e foi preciso quase dois dias para recompô-lo e, de tão remendado, teve de ser exposto num caixão lacrado – Ora, por que? Respeitava-se a dignidade do falecido, os presentes e, sobretudo, a garantia de segurança sanitária: ninguém sabia do que ele tinha morrido até então. E era pra enterrar logo, no mesmo dia; mas a Viscondessa determinou que só sepultaria no dia seguinte: Vai que ele ressuscita, hem? Mas já havia passado mais de 48 horas, exigência inútil, ela bateu o pé e assim foi. Adélia debruçou-se ao esquife, enquanto as madames iniciavam as exéquias como salvaguarda dum lugar especial no céu pro cadáver putrefato. Começava a vigília das orações, com mortificadas novenas, penitências, as excelenças ao pé do morto para que ele recebesse o perdão dos pecados e sua alma recomendada ao melhor lugar do paraíso: Uma incelença preste que se foi, duas pra onde irá... As cantadeiras imploravam clemência: Já é uma hora e ele vai, ele vai, vai ganhar a salvação... Duas horas e ele vai, vai, vai salvo pela extrema-unção...  Três horas... Era tudo muito enfadonho, as ladainhas, os pêsames para lá, choramingados para cá e lá pras tantas decidiram todas fazerem quarto ao defunto, de sentinela com tudo pronto para renderem as últimas homenagens, que, inclusive, logo foram suspensas com a invasão de autoridades que exigiam a necrópsia policial no IML, o boletim de ocorrência, o protocolo e todas as medidas de praxe, incluindo um furioso legista que queria abrir a fim da força o caixão para confirmar o corpo: era que o FBI, com agentes engravatados ali presentes, suspeitava de atentado comunista. Como pode? Ele foi encontrado quase-morto, de morrer no hospital. Não e pronto! Um impasse resolvido na marra, quando um agente grandalhão da CIA passou às mãos da anciã madrinha, o volumoso calhamaço capa dura com as inscrições: Ex Libris – Private/Top Secret. E foi chegando gente e uma situação bizarra foi tomando conta porque ali dava as caras o execrável vampiro golpista Miguelilulia – mais conhecido como o marido da Marcela, que logo topou com o Barão de Drummond e, com ele, a corriola toda  capitaneada pelo Pedro II, os Marechais das Alagoas, os generais da Velha e Nova Repúblicas, todas as patentes das Forças Armadas, Ministros das Supremas Cortes, coronéis de fitas e de mandos, desembargadores, deputados, senadores, chefes de Executivo, cardeais e arcebispos do Vaticano, integrantes disfarçados da Ndrangheta, Cosa Nostra, Yacuza, Los Zetas, Camorra e todos os COT, desde os albaneses, do cartel de Sinaloa, da tríade chinesa, da Bratva russa, mais os encapuzados da Klu Klux Klan, comandos da capital e vermelho, magnatas do Epsteim, das  Americanas e do Banco Master, até o Barão de Alagoinhanduba – que a Viscondessa detestava -, de abraços com o juiz Teje-Preso, que foram saudados pelo prefeito Zé Peiúdo, dedicando a eles sua vitória na eleição e, no meio do discurso, não só foi esnobado como barrado do velório. Como é que pode? Enxotaram-no. Tinha muita gente mais um tanto. Adélia asfixiada com o aglomerado de embecados no salão, recolheu-se sozinha e ficou debruçada na janela dos fundos, olhando pro nada, quase adormecendo e, num cochilo, sentiu-se grávida, barriga pela boca, prestes a dar a luz. Repentinamente ouviu um choro de criança e despertou, quando, subitamente, testemunhou a chegada de verdadeira fauna invadindo o quintal, todos, cada um, com os olhos fixados nela. Arregalou-se. Conferia ali desde potoquinhas invertebradas quase imperceptíveis aos estrondosos vertebrados de darem susto e medo em qualquer um, reunindo tudo que existisse de eucariontes, multicelulares e heterotróficos, ali espremidos naquele imenso horto. O que era de quadrúpedes, bípedes, avoantes, rastejadores, peludos e pelados, não estava no gibi. Destemida, ela foi ver mais de perto e conferiu todo tipo de selvagens e mansos, quando se deparou com um bebê entre eles. Tomou-o pela mão, agarrou-se com ele e foi depressa pra dentro de casa, deu-lhe banho, perfumou e com a melhor veste se fez regozijada: era seu filho e o menino se chamaria Pavel; não, melhor não. E mais pensava: agora teria de definitivamente protagonizar o seu destino. Precisava providenciar, tão logo ocorresse o sepultamento, o batizado do neném e foi pras irmãs e a Viscondessa para acertarem os detalhes anunciando a boa nova. O infante de braço em abraços e a mãe viu-se na obrigação de seguir sua vida como os cem anos de solidão de Úrsula Iguarán: estava resolvida, resignada. Aí anunciou que o filho se chamaria como o pai: Benedito. Nessa hora, a Viscondessa ciosa logo insinuou as secretas práticas escusas do morto e, evitando anátema, Benedito que seja, Pavel não, mas preferiu chamar o bruguelo por Zeca e assim ficou Zeca Biu. Ocorria no salão a liturgia das horas, com o ofício de defuntos, terços e rosários no rito da última encomendação e despedida, contritos na maior taciturnidade e, ao presenciarem a chegada dela com o garotinho no braço, o padre Quiba logo proclamou salves e vivas, propondo canonizar Benedito como o Benfeitor que patrocinaria muita Festa no Céu – e o epíteto foi incorporado na hora ao sobrenome da viúva e do filho: os Silva e Silva Benfeitor. Era a hora da bênção da sepultura e seguiram todos para o cemitério local, acompanhados por diversas agremiações futebolísticas e carnavalescas puxando a multidão com um samba-frevo composto especialmente pro evento. Chegando lá, a maior comoção popular pro cerimonial sob a marcha fúnebre de Chopin. E entre salves, tiros e vivas, sacudiram o ataúde na cova mortuária e meteram cimento pra cima e pra baixo. Mal fechavam a catacumba, Uiraçu pousou no topo do mausoléu como um agouro, grasnando pela chegada das Harpias que levariam a alma do de cujus pras Fúrias Ctônicas da vingança. Arrepiou geral e foi pernas-pra-que-te-quero pra todo lado. Ninguém se atreveu por mais tempo homenagear aquele suposto benfeitor santificado de última hora, que foi esquecido lá para sempre. E não era só uma vez... Até mais ver.

 


Gayatri Spivak: Sempre de olho no futuro que já está conosco, à vontade, em algum lugar ao nosso redor... Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.

Judith Butler: A vida precisa ser protegida. Ela é precária. Eu diria até que a vida precária é, de certa forma, um valor judaico para mim... Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.

Ann Leckie: O luxo sempre vem à custa de alguém. Uma das muitas vantagens da civilização é que, geralmente, não precisamos ver isso, se não quisermos. Somos livres para desfrutar de seus benefícios sem perturbar nossa consciência... Veja mais aqui, aqui, aqui & aqui.

 

SIMILE DE CALIDOSCÓPIO OTIMISTICAMENTE

Imagem: Acervo ArtLAM.

A dor do afastamento estabelecido. \ Seus próprios inimigos, sem amor ou compreensão, \ e uma frase negra acorrentada por mariscos impiedosos. \ Uma razão para um estranho? \ Uma razão para o estabelecimento? \ Uma razão para um estranho estabelecido? \ Enquanto silenciavam a linguagem do infinito, \ delineando a verdade de fora com a \ linha grossa, grande e imunda da precisão. \ Ao olhar através do caleidoscópio, \ a possibilidade de colorir as partículas \ no fundo \ nega e seca as expectativas estéreis, \ os deuses tradicionais, a realidade árida dos rebanhos \ e a obtenção de asas para viver na dispersão de cada um... \ Deslize suavemente a mão para a direita e observe \ como ela se move levemente para a direita \ (Uma rosa é uma rosa é uma rosa é uma rosa). \ Agora, a distinção de cores renovada é visível. \ Dê quatro passos, gire o querido \ objeto vermelho quatro vezes (vermelho foi o primeiro e único) \ Olhe para o que você vê com paixão \ Quatro vezes diferentes, quatro efeitos diferentes... \ Abrace, toque aqueles que são como você... \ Alegria sensorial de uma qualidade desconhecida, \ semelhante à identidade de pequenas divisões coloridas, \ tão bonitas, tão organizadas, tão bagunçadas, \ mudanças tão inimagináveis nos espaços! \ Sequencie seus versos de poesia espontaneamente, por conta própria. \ Vire seu brinquedo e aproxime seu olhar. \ Não seria a sequência de fragmentos apropriada \ para palavras que surgem espontaneamente? \ Não pergunte! Oh, será que nunca há sombra, \ mas sempre uma luz para a escuridão estagnada e desordenada \ que flui da janela para o seu coração? \ Temendo a fratura de objetos translúcidos, \ a perda de partículas, à deriva no poderoso \ vento confiscador do distante, \ em direção a outras geografias. \ Afaste a possibilidade carregada de emoções sombrias com o \ poder da sua consciência, \ sem deixar que suas formas façam incisões em sua alma — \ Encontre novos caleidoscópios após a desilusão. \ Se estiver oculto de você, estabeleça a autocriação \ da sua inocência. \ Tão capaz quanto seu coração, \ crie seu simulacro. \ Seres mais poderosos e distinções autênticas \ o aguardam em seus esforços. \ Você se surpreenderá com seu coração delicado \ e com seu talento elegante. \ Não espere um instante, deixe que sua libertação venha \ de cores vibrantes e \ sonhos com migalhas de prazer na escuridão abstrata, \ encontrando paz na consciência das ruas. \ Expectativas que não podem se dar conta da infantilidade \ que se embriagou sorrateiramente e através de funis, \ pela astúcia daqueles que espalham \ a influência contra a resistência... \ Lancem sentenças de carrasco com todas as suas células! \ E depois gritem orgulhosamente para a posteridade \ com as bolinhas de gude únicas que vocês jogam!

Poema da poeta turca Nilgün Marmara (1958-1987).

 

NOSSA PARTE DA NOITE - [...] O primeiro que se perdeu dos ausentes é a voz [...] Renunciar é fácil quando você tem muito, pensei. Ele nunca teve nada. [...] Quando não se pode pelejar, a única maneira de estar em paz é render-se. [...] Não há maior decepção do que acreditar ser o escolhido e não ser. [...]. Trechos extraídos da obra Nuestra parte de noche (Anagrama, 2020), da premiada escritora, jornalista e professora argentina Mariana Enríquez. Veja mais aqui & aqui.

 

MISSÃO ECONÔMICA – [...] Compreender melhor as estruturas organizacionais que incentivaram a resolução de problemas, a tomada de riscos e as colaborações horizontais é, portanto, fundamental para entender a onda de mudanças radicais que virá a seguir. [...] A inovação e a comercialização de ideias não acontecem porque você quer: elas acontecem no processo de resolução de problemas maiores. O programa Apollo foi um exemplo do que pode ser feito se a ambição for inspiradora e concreta. [...] Aplicar o pensamento orientado por missões em nossos tempos exige não apenas adaptação, mas também inovações institucionais que criem novos mercados e reformulem os existentes. E, principalmente, exige também a participação cidadã. [...]. Trechos extraídos da obra Mission Economy: A Moonshot Guide to Changing Capitalism (Penguin, 2023), da economista italiana Mariana Mazzucato, autora de obras como O valor de tudo: produzir e apropriar-se na economia global (2020) e O Estado empreendedor: desmistificando os mitos do setor público e privado (Porfolio/Pengoin, 2014).

 

NEGRITUDE SEM IDENTIDADE, DE ÉRICO ANDRADE

[...] A negritude não é uma condição ontológica, mas uma experiência estética de se inscrever na resistência de uma identidade colonial. É um contraponto à categoria de raça. [...] Não há maior insubmissão do que nossos corpos viverem a singularidade de nossa existência [...] A negritude não é uma linha ou um ponto, mas sobretudo uma roda. [...]

Trechos extraídos da obra Negritude sem identidade: sobre as narrativas singulares das pessoas negras (n-1, 2023), do filósofo, psicanalista e professor da UFPE, Érico Andrade, na qual o autor realiza uma análise profunda da temática da identidade, empregando ferramentas do discurso filosófico, da narrativa autobiográfica e da psicanálise, destacando o conceito de branquitude, explorando o papel crucial da filosofia na sua construção e examinando como a identidade negra foi moldada por um projeto da modernidade. Criticamente a obra aborda a tradição filosófica, não excluindo-a, mas utilizando-a para fundamentar sua posição, contribuindo para a consolidação de um parâmetro de valor vinculado às identidades, com a brancura representando a humanidade, enquanto a negritude é relegada a um lugar de exclusão. O autor é pesquisador do CNPq, possui doutorado com estudos na Sorbonne e atua no Departamento de Filosofia da UFPE. Veja mais aqui.

 

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segunda-feira, dezembro 01, 2025

ROSA MECHIÇO, ČHIRANAN PITPREECHA, ALYSON NOEL, INDÍGENAS & DITADURA MILITAR

 

 Imagem: Acervo ArtLAM.

Ao som de Uma Antologia do Violão Feminino Brasileiro (Sesc Consolação, 2025), da violonista, cantora, compositora e arranjadora Helô Ferreira. Ela é bacharela e mestre em violão, produtora do Samba das Mulheres e do Festival Cancioneiras: Música Feminina em Primeira Pessoa, além de consultora do Instituto OuvirAtivo.

 

De festa em tragédia se desfaz e refaz... – Era dia de boi do barão, o mais festivo de Alagoinhanduba, eructação extravagante do bafo pros pipocos louvadores do maioral arrojado. Não só, girândolas de atrativos demorados, mais de semana no giro de roda gigante, montanha russa, tobogãs, escorregos, barcaças, tiro ao alvo, barracas de fogos e jogos, artistas variados no palanque e, embaixo, o desfile vistoso de curau do muito com domingueira nos trinques, dentes no quarador de bumba-meu-boi, mesuras adiantadas pra matuta bonita dos olhos vivos nas tranças de sonsa: Roda a saia, fulô, pro aroma do amor. De todo canto, caravanas; comitivas das lonjuras mais ignotas. Era gente como a praga! Chega dava gosto de ver, maior arrocho, entre transeuntes de fisionomia ignorada. Zeca Biu mesmo queria era se aproveitar dos muitos festejos, dava uma de vaqueiro aos traques para render o Espácio, tudo no faz de conta, peido-de-véia nos cascos do que foi Surubim, batia pé no Rabicho da Geralda, ou vaias pro Mão-de-pau, danças do Boi-Barroso que não tolerava apartação, nem vaquejada; e o mimoso Pintadinho na queda de rabo da mucica ou de vara pra virar o mocotó e o pescoço quebrado: Hê, Zebedeu, ô boi do cu cagado! Aboio do tanto pro ABC do Boi Prata, aplausos pra décima do Bico Branco, claque convocada pro romance do Boi Liso, qual boi-de-mamão, se passando por calemba, de fita ou de reis, ou vai na-vara quem não foi boi-santo, o zebu Mansinho do Padre Cícero; e praquele que morreu na boiada, mandava logo buscar outro lá no Piauí, pra festa de solfas e gestas, no meio dum feixe de capim verde, jogado num roçado qualquer pra ouvir aqueles da conversa de Rosa. Um primor de variedades. De repente, maior rebuliço! O que foi? Corre! E pé na bunda, saia na cabeça, zigue-zague, puxavanques, barruada de fuças, pernas enganchadas, a roda virou e girou os assustados, correria em todas as direções. A confusão exorbitou de quase ninguém sair do lugar, travados de pavor. O pânico formou alarido, assombrados metiam-se dentro de loca que fosse escapando do obnóxio. Esconderijos impossíveis arranjados na hora, escondidos no desembesto. Que droga é nove? Trancados e trêmulos, onde estavam apavorados, nem podiam sequer falar, nem se entendiam. Zeca Biu coração saindo pela boca, tremia mais que vara verde, os dentes chacoalhavam no queixo. Via-se gente desmaiando, morto carregando vivo, todos na carreira pra se abrigar, menino que perdeu os pais, mulher à procura do marido, quem perdeu a fé desgraçado, quem escafedeu de nunca mais voltar, quem perdeu a coragem paralisado, quem perdeu o norte e se desencontrou, quem cegou de vez, ou emudecia pra sempre, ou endoidava, como se safar daquela tragédia, um escarcéu. Oxe! O que foi? Não viu o boi brabo da venta fumaçando? Quem viu nada não. Balbuciou-se: Será a volta do feroz Jauaraicica que saiu do remoinho do Uirapiá? Danou-se! Cadê um vaqueiro bom nessa hora? Era. Tanger como? Perigava era mais penar. Parece mais o touro de Pasifae! Vixe! Isso é peta! Quem não soubera da fúria majestosa dum bicho desse pelos arredores, hem? Mesmo. E agora? O desencontro tamanho de nem darem fé de armas, espingardas, rifles, pistolas, garruchas que espoletas, pólvoras, coisas do tipo: Cadê moral pra mira? Brabo perdia a homência ofendendo a coragem com o serviço efetivo de dar cabo daquela rumorosa situação vexatória; certificava-se a frouxidão, o que de enorme se fizera. Isso não tem cabimento! O povo amuava. Alguém afirmou solene e saiu: É Ápis! Quem? Um boi endemoninhado! Como assim? Oxe, o cara foi lá no boi! Quem é esse lelé? Eis que um incipiente anônimo discípulo do doutor Zé Gulu esclareceu respostante: É Apolônio. O marido da Maria Biruteia? Não, o de Tiana. Ficou no mesmo, nunca vi mais gordo! Parece mais um metido a Jesus! Pois é, o mundo é muito grande para um único salvador... Essa é boa, conta outra! Ora, vamos tomar pé da situação, gente! E quem é esse tal de Ápis tão brabo? Um deus egípcio associado com Ptah e que personifica a Terra! Entendi nada, de novo. Como é que é? Simboliza a vida e a morte, era venerado em Mênfis! Pronto. Conversa! Pelo jeito quer matar a gente tudinho! Será? E tem muitos outros nomes! E quem és tu, cara pálida falador? George de Wells. Quem? Deixa pra lá, ouça! Num pode! Veja! E o medo virou curiosidade e, desta, expectativa: O que vai fazer aquele embirutado ali? Ouve-se um berrante, o boi se aquieta diante da presença daquele estranho: O boi sentou-se sobre o silêncio de Deus... Pronto, agora é o Touro Sentado. Chi! Silêncio. E explicou a cena: Apascentou a fera. Vixe! E era hora vagarosa, o barbatão moroso, os chifres retiniam afoiceados, o focinho estremecedor, o mugido trovejado, bulia as ventas estarrecedor, afinal refestelava com aquele que parecia domá-lo, estalando os dedos e, ambos, pareciam numa amizade antiga e tomaram apaziguada direção de sumirem por léguas. Aaaaaaahhhhhhh! Aos poucos cabeças apareciam às portas que se abriam furtivas, janelas escancaravam com esmaecidas luzes acesas, conversagens, remoques, corajosos atrasados e o converseiro tomou conta: havia quem quisesse pegar aquele que escapava de todas as emboscadas, não temia nem vaqueiro nem cavalo, mas cadê coragem? Daria um bom repasto! Heresia! Oxe! Quem não quer? Aquele porte, que lombo! Sequiosos, lambiam os beiços: o coração, fígado, os quartos, saborosos. E queriam o sebo pra temperar feijão e fazer sabão; queriam o couro vacum pra fazer surrão e carregar farinha; queriam a língua fritada pros comensais; queriam os miolos pruma panelada, os cascos pra canoa, os olhos pro botão das casacas, os chifres para colher temperar banquetes, as costelas pro cavador de cacimbas, as canelas pra mão pisar milho, a pá pra tamborete, o rabo pra bastão nas mãos das velhas, o esterco pra estrume embelezar florada, a baba pra remédio, os pelos pra amuleto, a urina pra remédios, o sangue pra cabidela, o nome pras gestas e solfas e o resto que sobrasse pras relíquias de sortilégios do beato Zé Lourenço. E depois colocar um boi Ápis de barro numa manjedoura encantada pros milagres cotidianos. Doer de bicho é graça! Desalmado, o boi também é gente, também sofre o sentimento. Os temores se dissipavam, ressabiados iam íntimos pras suas casas. Foram então surpreendidos pelos retardatários capangas do barão à caça do fabuloso boi, agora já era tarde. Zeca Biu ainda tomado pelo susto, seguia mais que impressionado, a ponto de não conseguir pregar os olhos: a imagem viva do perigo e a desgraça de quase morrer. Cochilava aos sobressaltos, com pesadelos recorrentes. Passou a noite dorminhoco, assaltado pela ameaça dum ataque, de ver o dia amanhecer e não dormir quase nada. Enfim, despertou sonolento, ainda tomado pelo susto. Abriu a porta e fez menção de ir pro quintal, cismou, bateu os pés e paralisou aterrorizado: o boi estava lá, entre os seus tantos outros bichos, maior intimidade. E agora? Até mais ver.

 

Florbela Espanca: O meu mundo não é como o dos outros, quero demais, exijo demais, há em mim uma sede de infinito, uma angústia constante que eu nem mesmo compreendo, pois estou longe de ser uma pessimista; sou antes uma exaltada, com uma alma intensa, violenta, atormentada, uma alma que se não sente bem onde está, que tem saudades... sei lá de quê!... Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.

Willa Cather: Os tolos acreditam que ser sincero é fácil; só o artista, o grande artista, sabe o quão difícil é... Há coisas que se aprendem melhor na calmaria e outras na tempestade... Os mortos bem que poderiam tentar falar com os vivos, assim como os velhos com os jovens... Veja mais aqui, aqui, aqui & aqui.

Camille Claudel: Caí num abismo. Vivo num mundo tão curioso, tão estranho. Do sonho que era a minha vida, isto é o meu pesadelo... Há sempre alguma coisa que falta e que me atormenta... Não quero dizer nada porque sei que não posso protegê-lo do mal que vejo... Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.

 

A REBELDIA DE UMA FLOR

Imagem: Acervo ArtLAM.

A mulher tem duas mãos \ Agarrar com força a essência da vida \ Os tendões retorcidos são dilacerados pelo trabalho. \ Não se enfeitando com sedas brilhantes. \ A mulher tem dois pés. \ Para alcançar seus sonhos, \ Para permanecermos unidos, firmes \ Não se alimentar do trabalho alheio. \ A mulher tem olhos \ Em busca de uma nova vida. \ Para olhar para longe, através da Terra. \ Não lançar olhares amorosos em tom de flerte. \ Mulher de coração, \ Uma chama constante \ Aumentar a força, criar uma massa, \ Porque ela, ela é uma pessoa. \ A mulher tem uma vida. \ Apagar os vestígios do mal com a razão. \ Ela tem valor como pessoa livre. \ Não como servo da luxúria. \ Uma flor tem espinhos afiados. \ Não desabrochando para um admirador \ Ela floresce para criar \ A glória da terra.

Poema da premiada poeta e feminista tailandesa Čhiranan Pitpreecha (Čhiranan Prasertkul ou Phitprīchā).

 

EM BUSCA DA ETERNIDADE – [...] Fico impressionada com o fato de que o que antes parecia uma revelação devastadora e transformadora agora é apenas mais um evento infeliz em uma longa série deles. O tempo e a clareza têm o poder de suavizar as arestas. [...] Às vezes, a explicação mais simples é aquela que está bem na sua frente. [...] O amor não te enlouquece. Não é drama, caos e insegurança. Não quando é verdadeiro. O amor é ancorador, curador, a força mais estabilizadora do mundo. [...]. Trechos extraídos da obra Chasing Eternity (Entangled Publishing, LLC, 2024), da escritora estadunidense Alyson Noel, que na sua obra Ruling Destiny (Entangled Publishing, LLC 2023), ela expressou que: […] Não importa o que nos separe — oceanos, continentes ou até mesmo o próprio tempo — sempre encontraremos o caminho de volta um para o outro. [...] Ao longo da história, são os inconformistas que realmente desbravam o mundo em seu tempo. [...] Homens fracos sempre foram aterrorizados pelo poder inato das mulheres fortes — de todas as mulheres, na verdade. E mulheres que temem seu próprio poder sempre apoiaram esses mesmos homens fracos. Um ciclo vicioso. [...]. Também noutro de seus livros, o Stealing Infinity (Entangled: Teen, 2022), ela menciona que: […] A combinação inebriante de extremo conforto e luxo, aliada à monotonia da rotina, faz com que os dias se misturem tão perfeitamente que é fácil esquecer a que mundo realmente pertenço. [...]. Ela é autora de obras como Saving Zoë (2019), Dark Flame (2010), Evermore (2009), Blue Moon (2009) e Shadowland (2009). Veja mais aqui, aqui, aqui & aqui.

 

A BANALIZAÇÃO DA VIDA HUMANA - [...] por que será que se banaliza a vida humana? Por qual razão os homens optam pela violência para reivindicar o que quer que seja ao invés de optarem pela via do diálogo e consenso? O que move e/ou motiva um ser humano a tirar a vida de outro humano? Por que Deus, sendo um Deus Bondoso, Omnipotente, e com todos os atributos belos que tem, conforme os meus pais e os catequistas me ensinavam, permite ou deixa que tais atrocidades aconteçam? Por que será que um Deus Justo consente tanta injustiça sobre os inocentes? Por que será que ele, sendo um Deus Bom, fez homens bons e dobem e, de modo igual, em contrapartida, homens maus, adeptos do mal e, em função disso, impendiosos? O que impede que os homens vivam em paz e em harmonia uns com os outros? Qual será a raiz da maldade e da violência existente no interior do homem e, por conseguinte, no mundo? Se sou ensinada que Deus fez-nos (criou-nos) à sua imagem e semelhança será que, pelo facto de existirem homens bons e maus, ele também é, simultaneamente, bom e mau, bondoso e maldoso, justiceiro e vingativo? Afinal quem é esse Deus, ou que Deus é esse, tão poderoso, que admite e/ou autoriza os maus a tomarem conta dos bons, que permite que a maldade (o mal e o mau) prevaleça sobre a bondade (bem e bom) e não o contrário? Será por isso que, após a morte, existe o paraíso como recompensa para os bons e o inferno como castigo para os maus? Estas e outras questões, de forma recorrente, atravessavam o meu juízo, se quisermos pensamentos e, de certo modo, pelo facto de, intrinsecamente, constituírem uma preocupação, sobretudo pela incapacidade de, na altura, poder ter ou dar uma resposta cabal às mesmas, mais do que me interessavam, lamentavelmente, acabavam sufocando e perturbando o meu juízo. Talvez, no fundo, o que realmente me interessava era que nós, o povo moçambicano, vivêssemos em paz e harmonia. Era o fim da guerra. Era, mais do que a possibilidade, a necessidade premente de termos uma vida digna, uma vida isenta de todo o tipo de escassez. [...] Cada país subdesenvolvido/pobre assume uma função produtiva. Os subdesenvolvidos ficam responsáveis com a parte de produção sem muito valor agregado e os desenvolvidos/ricos ficam responsáveis pela marca, montagem e venda do produto e com o lucro final, que é a “maior parte do bolo”. Assim, seria oportuno notarem (os estudantes) que este panorama marcou o início das transnacionais, cuja sede é, por via de regra, estabelecida no país rico e as filiais, quase sempre, nos países pobres. O país rico somente tem o controle da economia e da indústria. É a hegemonia globalizada. [...] Trechos da entrevista Relatos de uma Filósofa: Entrevista com Rosa Mechiço (Abatirá - Revista de Ciências Humanas e Linguagens, 2021), concedida pela filósofa e professora moçambicana Rosa Mechiço.

 

INDÍGENAS & DITADURA MILITAR

O livro Indígenas e ditadura: crimes e corrupção no SPI e na FUNAI (Telha, 2024), do historiador e professor da Rede Estadual de Pernambuco, Rodrigo Lins Barbosa, é a continuidade dos estudos realizados para a dissertação de mestrado O Estado e a questão indígena: crimes e corrupção no SPI e na FUNAI (1964-1969) (UFPE,2016), na qual trata sobre a política indigenista no Serviço de Proteção aos Índios, o governo militar e a questão indígena, a violência contra indígenas e corrupção no SPI e na FUNAI, concluindo que: [...] os crimes contidos no extenso Relatório Figueiredo, que se situa em torno dos 20 anos finais do SPI, envolvendo a existência de casos de abandono e de violência contra indígenas em várias regiões do Brasil, principalmente, na Amazônia e no Centro-Oeste. Observamos que os indígenas, muitas vezes, resistiram na defesa de suas terras contra fazendeiros, seringueiros, grileiros, garimpeiros, madeireiros e à instalação de empresas seringalistas, mineradoras e madeireiras. Entre os casos, nos chama à atenção a existência de funcionários e diretores do SPI que se omitiram aos casos de violência e invasões em terras indígenas, sendo coniventes e até participantes das negociações e delitos. [...] Casos de violências contra índios ocorreram ao mesmo tempo do avanço das frentes de expansão nas regiões da Amazônia e do Centro-Oeste, observando várias formas de usurpação e exploração das terras indígenas. Algo que provocaria mudanças drásticas nos modos de vida e na cultura dos índios [...] as violências contra indígenas existiram e continuam existindo independente se o governo tem uma postura ditatorial ou democrática, porque os interesses econômicos sempre tem se sobressaído aos Direitos e garantias desses povos, que almejam viver em suas terras e manterem seus costumes. Os trabalhos da Comissão Nacional da Verdade tiveram o papel de trazer para a visibilidade estas “violações de direitos humanos por agentes do Estado na repressão aos opositores”. Cabe ao Estado apurar as denúncias e investigar os casos de violências, em especial, às comunidades e indivíduos indígenas, mas não apenas a esses, bem como às pessoas mortas porque recusavam os ditames negligentes, repressivos e autoritários do Governo Militar, coadunado com os interesses das corporações agroindustriais. No Brasil, as questões econômicas sempre influenciaram a realidade dos povos indígenas, por interesses de fazendeiros, seringalistas, grileiros, empresas mineradoras, madeireiras, bem como políticos e o próprio Estado com a implantação de projetos governamentais, como a recente construção da Hidrelétrica Belo Monte que, se concluída, além de trazer danos ambientais, como a inundação das matas com o desvio do rio Xingu, e a escassez de animais nativos para a caça e a pesca das populações locais que sobrevivem da terra, mas também o desalojamento de comunidades pertencentes à terra. No momento, a Hidrelétrica Belo Monte está sendo debatida e criticada por ambientalistas, antropólogos, promotores públicos e pelos índios. [...]. Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.

 

&

USINA DE ARTE

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ITINERARTE – COLETIVO ARTEVISTA MULTIDESBRAVADOR:

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ANNA LEMBKE, RIN USAMI, BIRHAN KESKIN, ANTÔNIO MARIA & YAYOI KUSAMA

    Imagem: Acervo ArtLAM .   Cambalhotas & as coisas nunca davam certas... - Zé Lua vivia por aí, todo acanhado sob a aba do boné, ...