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domingo, fevereiro 22, 2026

MARIANA ENRÍQUEZ, NILGÜN MARMARA, MARIANA MAZZUCATO & NEGRITUDE SEM IDENTIDADE

 

 Imagem: Acervo ArtLAM.

Ao som dos concertos Suíte Brasileira (2023) e Cantata Ayabás (2025), da maestra, pesquisadora, compositora e pianista Andréa Huguenin Botelho.

 


As viúvas do sobrado... - Adélia se sentia uma das Little Women de Alcott – a caçula entre as 4, antes 5, meninas órfãs do sobrado de Hermilo, a viver oniricamente vestida de flores, mansidão de pássaros, delicada juventude. E crescia viçosa, aformoseando-se a tal ponto de cair nas graças dum mulato estranho, logo apresentado como banqueiro Benedito. Desde então passou a suspirar pelos cantos e a ter sonhos com todo tipo de bicharada. Era vigiada pela centenária Viscondessa e a sua inseparável ama Bernarda, ocupando muito mais a matriarca que vivia tal Penélope de Ulisses – o marido combatente no Paraguai nunca mais voltou. Não demorou muito e logo o casal se estreitou de papel passado em ruidosa cerimônia e, a partir de então, o festivo foco das atenções naquela família de enlutadas. Com o matrimônio, o que mais a envaidecia era se tornar duas vezes Silva ao seu extensíssimo sobrenome aristocrático – ela reunia a extensa linhagem dos germânicos Guimarães, dos florentinos Cavalcantes, dos lusitanos Alves e agora senhora Silva dos ibéricos e mais um Silva acrescido: o do Biu banqueiro. Pouco mais de um mês depois da lua de mel, a tragédia: a matrona consolava a viuvez de todas as suas irmãs – escapou apenas Amélia, que faleceu antes de contrair núpcias. Lá estavam chorosas Amália, Anália e Adália abraçadas com Adélia, arrimadas pela genearca. As primeiras solidárias a chegarem para engrossar o plangente momento foram as amigas próximas da progenitora e lá estavam ao vivo e em cores no recinto, segurando os lencinhos e vestes escuras: a Catarina de Lencastre, Ana Plácido, a da Luz, a de Arcozelo e a de Cavalcanti. Logo providenciaram o velório ajudadas por inúmeras serviçais. Fraquejava ali Adélia sentindo na pele a árdua tribulação da Pelágeya de Gorki. E passou mal, logo a Bernarda chamou outra empregada: Pegaí o picão-do-padre! Foi um Deus nos acuda! Oxe! Trouxeram o chá calmante de cravo-de-defunto e as pálpebras destilavam prantos por seu saudoso marido. Mantinham os preparativos pro funeral e um entre e sai de gente, cochichos, horas de espera. De repente o alvoroço, a pompa fúnebre transformou o salão da casa numa câmara-ardente, repleta de flores e velas acesas, numa decoração religiosa. O corpo estava desfigurado e foi preciso quase dois dias para recompô-lo e, de tão remendado, teve de ser exposto num caixão lacrado – Ora, por que? Respeitava-se a dignidade do falecido, os presentes e, sobretudo, a garantia de segurança sanitária: ninguém sabia do que ele tinha morrido até então. E era pra enterrar logo, no mesmo dia; mas a Viscondessa determinou que só sepultaria no dia seguinte: Vai que ele ressuscita, hem? Mas já havia passado mais de 48 horas, exigência inútil, ela bateu o pé e assim foi. Adélia debruçou-se ao esquife, enquanto as madames iniciavam as exéquias como salvaguarda dum lugar especial no céu pro cadáver putrefato. Começava a vigília das orações, com mortificadas novenas, penitências, as excelenças ao pé do morto para que ele recebesse o perdão dos pecados e sua alma recomendada ao melhor lugar do paraíso: Uma incelença preste que se foi, duas pra onde irá... As cantadeiras imploravam clemência: Já é uma hora e ele vai, ele vai, vai ganhar a salvação... Duas horas e ele vai, vai, vai salvo pela extrema-unção...  Três horas... Era tudo muito enfadonho, as ladainhas, os pêsames para lá, choramingados para cá e lá pras tantas decidiram todas fazerem quarto ao defunto, de sentinela com tudo pronto para renderem as últimas homenagens, que, inclusive, logo foram suspensas com a invasão de autoridades que exigiam a necrópsia policial no IML, o boletim de ocorrência, o protocolo e todas as medidas de praxe, incluindo um furioso legista que queria abrir a fim da força o caixão para confirmar o corpo: era que o FBI, com agentes engravatados ali presentes, suspeitava de atentado comunista. Como pode? Ele foi encontrado quase-morto, de morrer no hospital. Não e pronto! Um impasse resolvido na marra, quando um agente grandalhão da CIA passou às mãos da anciã madrinha, o volumoso calhamaço capa dura com as inscrições: Ex Libris – Private/Top Secret. E foi chegando gente e uma situação bizarra foi tomando conta porque ali dava as caras o execrável vampiro golpista Miguelilulia – mais conhecido como o marido da Marcela, que logo topou com o Barão de Drummond e, com ele, a corriola toda  capitaneada pelo Pedro II, os Marechais das Alagoas, os generais da Velha e Nova Repúblicas, todas as patentes das Forças Armadas, Ministros das Supremas Cortes, coronéis de fitas e de mandos, desembargadores, deputados, senadores, chefes de Executivo, cardeais e arcebispos do Vaticano, integrantes disfarçados da Ndrangheta, Cosa Nostra, Yacuza, Los Zetas, Camorra e todos os COT, desde os albaneses, do cartel de Sinaloa, da tríade chinesa, da Bratva russa, mais os encapuzados da Klu Klux Klan, comandos da capital e vermelho, magnatas do Epsteim, das  Americanas e do Banco Master, até o Barão de Alagoinhanduba – que a Viscondessa detestava -, de abraços com o juiz Teje-Preso, que foram saudados pelo prefeito Zé Peiúdo, dedicando a eles sua vitória na eleição e, no meio do discurso, não só foi esnobado como barrado do velório. Como é que pode? Enxotaram-no. Tinha muita gente mais um tanto. Adélia asfixiada com o aglomerado de embecados no salão, recolheu-se sozinha e ficou debruçada na janela dos fundos, olhando pro nada, quase adormecendo e, num cochilo, sentiu-se grávida, barriga pela boca, prestes a dar a luz. Repentinamente ouviu um choro de criança e despertou, quando, subitamente, testemunhou a chegada de verdadeira fauna invadindo o quintal, todos, cada um, com os olhos fixados nela. Arregalou-se. Conferia ali desde potoquinhas invertebradas quase imperceptíveis aos estrondosos vertebrados de darem susto e medo em qualquer um, reunindo tudo que existisse de eucariontes, multicelulares e heterotróficos, ali espremidos naquele imenso horto. O que era de quadrúpedes, bípedes, avoantes, rastejadores, peludos e pelados, não estava no gibi. Destemida, ela foi ver mais de perto e conferiu todo tipo de selvagens e mansos, quando se deparou com um bebê entre eles. Tomou-o pela mão, agarrou-se com ele e foi depressa pra dentro de casa, deu-lhe banho, perfumou e com a melhor veste se fez regozijada: era seu filho e o menino se chamaria Pavel; não, melhor não. E mais pensava: agora teria de definitivamente protagonizar o seu destino. Precisava providenciar, tão logo ocorresse o sepultamento, o batizado do neném e foi pras irmãs e a Viscondessa para acertarem os detalhes anunciando a boa nova. O infante de braço em abraços e a mãe viu-se na obrigação de seguir sua vida como os cem anos de solidão de Úrsula Iguarán: estava resolvida, resignada. Aí anunciou que o filho se chamaria como o pai: Benedito. Nessa hora, a Viscondessa ciosa logo insinuou as secretas práticas escusas do morto e, evitando anátema, Benedito que seja, Pavel não, mas preferiu chamar o bruguelo por Zeca e assim ficou Zeca Biu. Ocorria no salão a liturgia das horas, com o ofício de defuntos, terços e rosários no rito da última encomendação e despedida, contritos na maior taciturnidade e, ao presenciarem a chegada dela com o garotinho no braço, o padre Quiba logo proclamou salves e vivas, propondo canonizar Benedito como o Benfeitor que patrocinaria muita Festa no Céu – e o epíteto foi incorporado na hora ao sobrenome da viúva e do filho: os Silva e Silva Benfeitor. Era a hora da bênção da sepultura e seguiram todos para o cemitério local, acompanhados por diversas agremiações futebolísticas e carnavalescas puxando a multidão com um samba-frevo composto especialmente pro evento. Chegando lá, a maior comoção popular pro cerimonial sob a marcha fúnebre de Chopin. E entre salves, tiros e vivas, sacudiram o ataúde na cova mortuária e meteram cimento pra cima e pra baixo. Mal fechavam a catacumba, Uiraçu pousou no topo do mausoléu como um agouro, grasnando pela chegada das Harpias que levariam a alma do de cujus pras Fúrias Ctônicas da vingança. Arrepiou geral e foi pernas-pra-que-te-quero pra todo lado. Ninguém se atreveu por mais tempo homenagear aquele suposto benfeitor santificado de última hora, que foi esquecido lá para sempre. E não era só uma vez... Até mais ver.

 


Gayatri Spivak: Sempre de olho no futuro que já está conosco, à vontade, em algum lugar ao nosso redor... Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.

Judith Butler: A vida precisa ser protegida. Ela é precária. Eu diria até que a vida precária é, de certa forma, um valor judaico para mim... Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.

Ann Leckie: O luxo sempre vem à custa de alguém. Uma das muitas vantagens da civilização é que, geralmente, não precisamos ver isso, se não quisermos. Somos livres para desfrutar de seus benefícios sem perturbar nossa consciência... Veja mais aqui, aqui, aqui & aqui.

 

SIMILE DE CALIDOSCÓPIO OTIMISTICAMENTE

Imagem: Acervo ArtLAM.

A dor do afastamento estabelecido. \ Seus próprios inimigos, sem amor ou compreensão, \ e uma frase negra acorrentada por mariscos impiedosos. \ Uma razão para um estranho? \ Uma razão para o estabelecimento? \ Uma razão para um estranho estabelecido? \ Enquanto silenciavam a linguagem do infinito, \ delineando a verdade de fora com a \ linha grossa, grande e imunda da precisão. \ Ao olhar através do caleidoscópio, \ a possibilidade de colorir as partículas \ no fundo \ nega e seca as expectativas estéreis, \ os deuses tradicionais, a realidade árida dos rebanhos \ e a obtenção de asas para viver na dispersão de cada um... \ Deslize suavemente a mão para a direita e observe \ como ela se move levemente para a direita \ (Uma rosa é uma rosa é uma rosa é uma rosa). \ Agora, a distinção de cores renovada é visível. \ Dê quatro passos, gire o querido \ objeto vermelho quatro vezes (vermelho foi o primeiro e único) \ Olhe para o que você vê com paixão \ Quatro vezes diferentes, quatro efeitos diferentes... \ Abrace, toque aqueles que são como você... \ Alegria sensorial de uma qualidade desconhecida, \ semelhante à identidade de pequenas divisões coloridas, \ tão bonitas, tão organizadas, tão bagunçadas, \ mudanças tão inimagináveis nos espaços! \ Sequencie seus versos de poesia espontaneamente, por conta própria. \ Vire seu brinquedo e aproxime seu olhar. \ Não seria a sequência de fragmentos apropriada \ para palavras que surgem espontaneamente? \ Não pergunte! Oh, será que nunca há sombra, \ mas sempre uma luz para a escuridão estagnada e desordenada \ que flui da janela para o seu coração? \ Temendo a fratura de objetos translúcidos, \ a perda de partículas, à deriva no poderoso \ vento confiscador do distante, \ em direção a outras geografias. \ Afaste a possibilidade carregada de emoções sombrias com o \ poder da sua consciência, \ sem deixar que suas formas façam incisões em sua alma — \ Encontre novos caleidoscópios após a desilusão. \ Se estiver oculto de você, estabeleça a autocriação \ da sua inocência. \ Tão capaz quanto seu coração, \ crie seu simulacro. \ Seres mais poderosos e distinções autênticas \ o aguardam em seus esforços. \ Você se surpreenderá com seu coração delicado \ e com seu talento elegante. \ Não espere um instante, deixe que sua libertação venha \ de cores vibrantes e \ sonhos com migalhas de prazer na escuridão abstrata, \ encontrando paz na consciência das ruas. \ Expectativas que não podem se dar conta da infantilidade \ que se embriagou sorrateiramente e através de funis, \ pela astúcia daqueles que espalham \ a influência contra a resistência... \ Lancem sentenças de carrasco com todas as suas células! \ E depois gritem orgulhosamente para a posteridade \ com as bolinhas de gude únicas que vocês jogam!

Poema da poeta turca Nilgün Marmara (1958-1987).

 

NOSSA PARTE DA NOITE - [...] O primeiro que se perdeu dos ausentes é a voz [...] Renunciar é fácil quando você tem muito, pensei. Ele nunca teve nada. [...] Quando não se pode pelejar, a única maneira de estar em paz é render-se. [...] Não há maior decepção do que acreditar ser o escolhido e não ser. [...]. Trechos extraídos da obra Nuestra parte de noche (Anagrama, 2020), da premiada escritora, jornalista e professora argentina Mariana Enríquez. Veja mais aqui & aqui.

 

MISSÃO ECONÔMICA – [...] Compreender melhor as estruturas organizacionais que incentivaram a resolução de problemas, a tomada de riscos e as colaborações horizontais é, portanto, fundamental para entender a onda de mudanças radicais que virá a seguir. [...] A inovação e a comercialização de ideias não acontecem porque você quer: elas acontecem no processo de resolução de problemas maiores. O programa Apollo foi um exemplo do que pode ser feito se a ambição for inspiradora e concreta. [...] Aplicar o pensamento orientado por missões em nossos tempos exige não apenas adaptação, mas também inovações institucionais que criem novos mercados e reformulem os existentes. E, principalmente, exige também a participação cidadã. [...]. Trechos extraídos da obra Mission Economy: A Moonshot Guide to Changing Capitalism (Penguin, 2023), da economista italiana Mariana Mazzucato, autora de obras como O valor de tudo: produzir e apropriar-se na economia global (2020) e O Estado empreendedor: desmistificando os mitos do setor público e privado (Porfolio/Pengoin, 2014).

 

NEGRITUDE SEM IDENTIDADE, DE ÉRICO ANDRADE

[...] A negritude não é uma condição ontológica, mas uma experiência estética de se inscrever na resistência de uma identidade colonial. É um contraponto à categoria de raça. [...] Não há maior insubmissão do que nossos corpos viverem a singularidade de nossa existência [...] A negritude não é uma linha ou um ponto, mas sobretudo uma roda. [...]

Trechos extraídos da obra Negritude sem identidade: sobre as narrativas singulares das pessoas negras (n-1, 2023), do filósofo, psicanalista e professor da UFPE, Érico Andrade, na qual o autor realiza uma análise profunda da temática da identidade, empregando ferramentas do discurso filosófico, da narrativa autobiográfica e da psicanálise, destacando o conceito de branquitude, explorando o papel crucial da filosofia na sua construção e examinando como a identidade negra foi moldada por um projeto da modernidade. Criticamente a obra aborda a tradição filosófica, não excluindo-a, mas utilizando-a para fundamentar sua posição, contribuindo para a consolidação de um parâmetro de valor vinculado às identidades, com a brancura representando a humanidade, enquanto a negritude é relegada a um lugar de exclusão. O autor é pesquisador do CNPq, possui doutorado com estudos na Sorbonne e atua no Departamento de Filosofia da UFPE. Veja mais aqui.

 

Joaquim Cardozo aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.

Nínive Caldas aqui.

Francisco Brennand aqui & aqui.

Kamila Cidrim aqui.

Nelson Ferreira aqui, aqui, aqui & aqui.

Tila Chitunda aqui.

Mestre Baracho aqui.

Fátima Quintas aqui, aqui & aqui.

Sebastião Vila Nova aqui & aqui.

Christina Machado aqui.

 


segunda-feira, fevereiro 24, 2025

JENNY ODELL, SALOMÉ ESPER, KATARINA FROSTENSON & APOCALIPSE LÍRICO

 

 Imagem: Acervo ArtLAM.

Ao som dos álbuns Refúgio (2000), Duas Madrugadas (2005), Eyn Okan (2011), Andata e Ritorno (2014), Retalhos do Brasil (2019) e Noites e dias (2022), da pianista, compositora, arranjadora e diretora musical, Christianne Neves, que é Mestre em Música pela Unicamp e integrou a Orquestra Heartbreakers e Havana Brasil.

 

Textículo capitular a contar hestórias nos dedos... - Ao Sol celebrei as mulheres: o canto da alma! Porque todo dia o mar é só o mar, o rio é só o rio e entre o prazer e o tédio sorrio surpreso com o sátiro dionisíaco, que teima invadir minha solidão, com piadas de pegar borboleta, queimar o arroz, plantar bananeira, dar o dedo, bater rebote, dribles de corpo, firulas, bundacanascas & escárnio às risadagens. O que havia de mim os dedos contavam coisas duma devoção esburacada por um bicho de não sei quantas cabeças, uma manhã a mais a renovar esperança. Tivesse eu tão perto e os longínquos sonhos arrefeceriam a cada passada. Dissesse o tanto que calei esborraria o peito e nada mais resistiria ao aceno ignorado. Se não soubesse o que vi e ouvi tudo seria obscuro. Só desci do morro da solitude porque não tinha nada mais para dizer: pétalas se aquietavam diante de uma mente parva, a flor fenecia com a aspereza dos que odeiam. Só havia o naufrágio do erro, o palimpsesto da treva. Documentos soterravam vivos duas vezes e a voz de fome inaudível antes que o dia esganasse a noite, quando ela, por vingança, escurecia para que tudo fedesse à guerra. Só sei que sobrevivo aos uivos de júbilos à miséria. E há muito ninguém mais sorriu, caíram de medo nos lábios trêmulos nada luzidios, ao que se deu e tomou até esmorecido feito e desfeito: ninguém viu as dores dos meus dias. Talvez uma hestória & duas outras coisas nada mais valessem para nem caberem em lugar algum na passagem das horas desencontradas. Ouvi o canto da luz eterna, o vento murmurava nas marés, como quem falava de amor e palavras de destino. Pudesse eu acaso vários versos também cantar quanto vivi e valeu quem soubesse onde o abrigo das mãos espalmadas. Quanto mais sentia, menos entendia e era bom: amar é ter alguém que não tenha mesmo nada pra dar. Isso, sim. Até mais ver.

 

Margaret Mead: Nunca duvide que um pequeno grupo de indivíduos comprometidos e pensativos pode mudar o mundo. Na verdade, é a única coisa que já mudou... Veja mais aqui, aqui, aqui & aqui.

Agneta Pleijel: Nós somos ficção. Nós nos construímos a partir de palavras... Eu resgatei detritos do passado, não podia usá-lo por muito tempo, ninguém quer isso... Veja mais aqui, aqui & aqui.

Ann Leckie: Unidade, pensei, implica a possibilidade de desunião. Começos implicam e requerem finais... Veja mais aqui, aqui & aqui.

 

DOIS POEMAS

Imagem: Acervo ArtLAM.

POSIÇÃO - Olha, lá está ela, a grande morta, no pálido \ brilho claro de um prado pantanoso muito próximo \ de uma cana. Virado e brilhando na lama. Dele \ cadáver, formigas caminham por ele melancolicamente \ na luz, a loira cacheada, e atormenta a carne \ abertamente. Olhe bem lá dentro, a fissura é deslumbrante. \ Sobre seu cadáver, onde tantos pensamentos brincavam, \ tecidos tensos e testas descansadas. Laranja \ cinza opaco da grama. É uma parte elevada do mundo \ à força com a testa contra o chão, com a carne estriada \ através das barras pálidas dos juncos. \ A testa dele cai sobre o corpo dela \ afundando em sua carne. Na lama da loira silenciosa. \ Nunca. Nunca, embora quase entorpecido, ele pensa: talvez \ Eu sou aquele que vive enterrado lá embaixo. O que ele vê e vivencia \ na perna dele: sobre meu cadáver eu sou aquele que \ está lá fora.

GARGANTA DE ECO - O osso vermelho, \ o recife do pescoço, \ onde ele fica? \ cortando e afiando \ sua serra \ Voz, que tipo de animal você é \ debaixo da pedra \ cinco braças \ de profundidade, o coral.

Poemas da escritora e dramaturga sueca Katarina Frostenson. Veja mais aqui.

 

A SEGUNDA VENDA – [...] Se houve dor em perder o que era seu, doeu em dobro perder o que se ganhou, o carinho conquistado, o abraço conquistado, a confiança conquistada. Para onde vai esse esforço quando é o outro quem desiste primeiro? Para onde vai a coragem que permitiu sair de si mesmo, forçando cada milímetro para chegar ao outro que habitava o mundo com facilidade? Para onde vão aqueles que ficam? [...] Deus estava lá, só que deformado e assustador, doloroso e zombeteiro, talvez por isso mais presente e real do que antes, agachado naquele quarto que começava a escurecer, olhando com desdém e olhos brilhantes, pronto para saltar com suas patas traseiras de lagosta, para usar seu poder ilógico em outras pessoas infelizes. [...] Minha mãe sempre diz que Deus nos dá o que podemos suportar, mas não acredito que isso seja verdade. Nós perseveramos porque eles nos ajudam. Você não pode nem ser feliz sozinho. [...]. Trechos extraídos da obra La segunda venida de Hilda Bustamante (Sigilo, 2023), da escritora argentina Salomé Esper.

 

NÃO FAZER NADA - […] O que significa construir mundos digitais enquanto o mundo real está desmoronando diante de nossos olhos? […] Nossa própria ideia de produtividade é baseada na ideia de produzir algo novo, enquanto não tendemos a ver manutenção e cuidado como produtivos da mesma forma. [...] Extrapolando isso para o reino dos estranhos, me preocupo que, se deixarmos que nossas interações na vida real sejam controladas por nossas bolhas de filtro e identidades de marca, também corremos o risco de nunca sermos surpreendidos, desafiados ou mudados — nunca ver nada fora de nós mesmos, incluindo nossos próprios privilégios. [...] Nós vivenciamos as externalidades da economia da atenção em pequenas gotas, então tendemos a descrevê-las com palavras de leve perplexidade como "irritante" ou "distraidor". Mas essa é uma grave interpretação errônea de sua natureza. No curto prazo, as distrações podem nos impedir de fazer as coisas que queremos fazer. No longo prazo, no entanto, elas podem se acumular e nos impedir de viver as vidas que queremos viver ou, pior ainda, minar nossas capacidades de reflexão e autorregulação, tornando mais difícil, nas palavras de Harry Frankfurt, "querer o que queremos querer". Portanto, há profundas implicações éticas espreitando aqui para a liberdade, o bem-estar e até mesmo a integridade do eu. [...] Minha experiência é aquilo que concordo em atender. Somente aqueles itens que percebo moldam minha mente — sem interesse seletivo, a experiência é um caos total. [...] Numa situação em que cada momento de vigília se tornou o tempo em que ganhamos a vida, e quando submetemos até o nosso lazer à avaliação numérica através de gostos no Facebook e Instagram, verificando constantemente o seu desempenho como se verifica uma ação, monitorizando o desenvolvimento contínuo da nossa marca pessoal, o tempo torna-se um recurso económico que já não podemos justificar gastar em “nada” [...] No final das contas, defendo uma visão do eu e da identidade que é o oposto da marca pessoal: algo instável e mutável, determinado por interações com outras pessoas e com diferentes tipos de lugares. [...].Trechos extraídos da obra How to Do Nothing: Resisting the Attention Economy (Melville House, 2019), da artista, escritora e educadora multidisciplinar estadunidense Jenny Odell.

 

APOCALIPSE LÍRICO, DE VCA.

A linguagem é uma descoberta diária \ algo que move a alma (imobilizada \ pela usura sucessiva dos dias prósperos \ e das noites morta e lúcidas) \ e invento o mundo. É o centro \ do dínamo, a máquina transformadora \ o que há de transcendente neles é a poesia [...].

Trecho do poema Introdução a mim, extraído do livro Apocalipse lírico (CriaArt, 2025), do poeta e advogado Vital Corrêa de Araújo. Veja mais aqui, aqui, aqui & aqui.

 

ITINERARTE – COLETIVO ARTEVISTA MULTIDESBRAVADOR

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terça-feira, fevereiro 27, 2024

OLGA RAVN, MARIANNE VAN HIRTUM, JAMES CLEAR & BABAU DA MÃO MOLENGA

 

 Imagem: Acervo ArtLAM.

Ao som de Der Freischütz J277: Overture (1997), da maestrina e compositora australiana Simone Young, regendo a NHK Symphony Orchestra.

 

SE DEU NÓ CEGO, VAMBORA DESATAR!... - Raiou o dia e quem saiu de casa guardou a direção do aceno. Outras são as instâncias do coração se não souber aonde vai dar o trajeto, qual lonjura de cafundó ou rincão. De uma hora pra outra perder-se é quase possível, nunca se sabe, nem sei quando, plagas outras à escolha. E a opção, mesmo muita, só uma. Voltar, refazer, outras alternativas pro tino. O que poderia ser não fazia a menor ideia: a vida nem sempre corre conforme pensa, às vezes passa sem noção. E o encontro, mais imprevisível. Assim a bela Senhora de Catuama, do alto de sua majestosa incandescência: O que é pragora não foi ontem nem amanhã, hoje se faz. A sede é grande e só resta o pó. Nó cego se desata. Trupé que seja, corre-se sempre o risco de cair na real, mesmo esvaindo-se entre golpes no perímetro da maldição ou bem-aventurança. Ainda ela Ann Leckie: A unidade implica a possibilidade de desunião. Começos implicam e exigem finais... Que cada ato seja justo, adequado e benéfico... Houvesse outro caminho, por certo, teria ido. Mas uma conversinha de pé-de-serra, clareando as ideias, não se abre facilmente a mão. Aí ela veio de Harold Pinter: Só se tem uma obrigação. Ser honesto. Não há mais nenhuma... Não existem distinções rígidas entre o que é real e o que não é, nem entre o que é verdade e o que é falso. Uma coisa não é necessariamente verdadeira ou falsa; pode ser verdadeira e falsa ao mesmo tempo... Nunca entendi muito essas coisas, muitas vozes no pandemônio do percurso interminável, por enquanto. Sei de muita gente que peleja sem um terém sequer, com a teima de salvar o canavial que não mais prospera há tempo, como coisas que custam enterrar e soçobram à beira da cova. Muitos recorrem à possibilidade de ter um sobrenome por ostentar, malfadada toada de uma prosa de não sei quantos pungentes versos. As dissensões trôpegas levaram às piores caretas, até quem sumítico das meias palavras desse a cara à tabica da finitude. Os antes gestos medidos sacudiram todos, arregaçaram as mangas e o despudor na ponta da língua cuspiu o diabo no meio das deshoras e cada um segurou como podia as pisadas nos calos, a repugnância e o delírio - valiam-se do que sequer possuíam. Nada a fazer, porventura fosse apenas estado de ânimo. Ela assistia a tudo e de soslaio: Bem-aventurados os que guardam mapas na planta dos pés e a minúcia na raiz do sangue. Com um meio sorriso ela era Amber Dawn: Quando este parágrafo terminar, esta história será toda sua... Deu uma gargalhada e desenvultou. Antes uma fumaça de adeus, pelo menos, mas não: sumiu que nem o cheiro ficou. Ficou a pinoia. Mantive a rota e a sina: descer Valuna e todo lugar por aqui se parece Dogville, avalie! Até mais ver.

 

NOITE MATEMÁTICA

Imagem: Acervo ArtLAM.

I - Enquanto meu fogo ferve, enquanto a lua beija minha porta, \ o dia rasteja, não mais circunscrito \ pelo rastro fumegante das estrelas. \ Ali! — A caixa verde na clareira dos mundos. \ Seu rosto falava sem parar, em saltos de doçura desconhecida. \ “Chegou a hora”, diz ela, “seu vestido agora está pronto”. \ Ela aponta uma grande ponte de balança: aquela mesma \ onde as cegonhas passeavam de muletas. \ Pergunto a ela se há mais temporadas. \ “Não”, ela diz, “já que você está nu na vida dos homens”. \ Mas esses soldadinhos risonhos não me importam. \ A única coisa que conta é este corpo, cujo sangue derramei \ para descobrir um ninho de abelhas vermelhas, \ todas ocupadas bebendo no rio das mulheres bêbadas. \ Aqueles que tanto amamos! \ Aqueles que são as nacelas do ar, \ semelhantes às corujas decapitadas \ cujas cabeças giram. \ Esses são chamados de anjos \ porque são tão instruídos quanto os demônios. \ O coração deles é uma flor silvestre \ com mais pétalas do que lágrimas. \ Em lágrimas – às vezes – \ ela passeia, como num barco louro. \ Sua comida é feita de moscas mortas \ que negligenciamos, esquecidos como estamos \ do importante papel da Geometria Rainha. \ Esta flor é a palavra que minha boca está prestes a dizer. \ Ou então cale-se: \ pois a fechadura da minha boca não tem chave. \ Esta chave não tem sexo, meu coração bate \ ao vê-la chegando, \ tão azul, na grande noite colorida.

II - Os grandes animais saíram pelas portas das sombras. \ Um pouco mais tarde, eles retornaram pelo portal \ de lesa-majestade. \ Um grande leão, afogado, flutuava na água açucarada. \Que silêncio sombrio nos palácios de neve! \ Do céu caía um calor negro, \ enquanto as moscas longas e pálidas nos acompanhavam \ até a noite, às vezes pegando nossas mãos. \ A almofada azul estava perdendo sangue, \ que escorria em jatos rápidos, \ a margarida lunar casando-se com uma camada de gelo. \ Cidade atravessada por inúmeros castiçais. \ Na margem do preto-violeta, \ o querido Dinossauro se espreguiça, \ puxando o lençol até a boca.

III - Achando-os muito secos, \ levamos em macas, \ em paletes, em carrinhos de mão. \ Em tudo que achamos mais suspeito \ de matéria queimada. \ Dispersámo-nos nos dois sentidos, \ mas sem esquecer a rosa do deserto: \ ela ainda está viva nos cais das algas moribundas \ onde estremece uma última papoula, \ sendo apenas o armistício de si mesma. \ Dark era o filho-chacal das florestas, \ sentado em seus quadrados de vento e grama. \ E sombrios os macacos, sentados em melancolia: \ mostraram-nos apenas as suas luvas cinzentas infalíveis.

IV - O pelo de sementes prateadas não estrela \com misturas arriscadas as cavernas \ onde o Ser de touca de dormir \ abre sua porta de troncos negros soprada pelo vento. \ Uma risada demente, um fogo azul circundado de raios de vespas \ seria o seu olho ali, oh reciprocidade que sempre te suspende \ no limiar das cavernas rejeitadas? \ De dia, o grande Lustucru, ciclâmen de gelo, carrega seus passos \ nas costas, o hospital mascarado para a festa. \ Se em sua testa você desenvolver \ uma inteligência lúcida de perdiz, \ ainda assim seus olhos ocultos perderão os pelos de amianto. \ Uma fonte mais cega que um surdo feito de resina. \ Persiga esses trens de miséria \ nos trilhos flamejantes de um beijo. \ A caverna é feita de tecido iridescente \ para quem não consegue pegá-la com os dedos do Padre Egito. \ Um fardo de feno ridículo surge \ onde nossos leões jovens não dormem. \ Aqui ninguém está com a cabeça virada para trás. \ O relógio anda muito devagar. \ Vamos morrer cada vez mais! \ Já sinto seu sabor maravilhoso \ em meus dentes distantes.

Poemas da escritora & artista surrealista belga Marianne Van Hirtum (1935-1988).

 

QUE TRABALHO É ESSE... – [...] Você provavelmente diria que é um mundo pequeno, mas não se precisar limpá-lo. [...] Eu pareço um humano e me sinto como os humanos. Eu consisto nas mesmas partes. Talvez tudo o que seja necessário seja que você altere meu status em seus documentos? É uma questão de nome? Eu poderia ser humano se você me chamasse assim? [...] Por que tenho todos esses pensamentos se o trabalho que faço é principalmente técnico? Por que tenho esses pensamentos se estou aqui principalmente para aumentar a produção? De que perspectiva esses pensamentos são produtivos? Houve um erro na atualização? Se houvesse, gostaria de ser reiniciado. [...] Aqui não voamos sob o céu, mas através de um infinito adormecido. [...] Você pode dizer o que quiser, mas eu sei que você não quer que nos tornemos também, bem, o quê? Muito humano? Muito vivo? Mas gosto de estar vivo. Eu olho para as profundezas infinitas do lado de fora das janelas panorâmicas. Eu vejo um sol. Eu queimo como o sol queima. Eu sei, sem dúvida, que sou real. Posso ter sido feito, mas agora estou me fazendo. [...] Sou humano ou humanóide? Eu fui sonhado em existir? [...] Você acha que alguém vai se lembrar de nós? Quem se lembra daqueles que nunca nasceram, mas ainda assim vivem? [...] Todos os dias, minhas mãos anseiam por cavar fundo no solo para que eu possa mergulhar em sua certeza, e a terra receba minha morte e me torne sua. [...] Eu sei, sem dúvida, que sou real. Posso ter sido feito, mas agora estou me fazendo. [...] É por isso que vim vê-lo hoje, na esperança de que possa haver alguma outra função na qual eu teria menos responsabilidade, sem ter que me relacionar com o fluxo de trabalho geral na mesma medida. Eu gostaria de ser designado para esse tipo de posição. Sei que as habilidades que me foram atribuídas não serão totalmente exploradas nesse caso, mas a dor que sinto não significa nada? Atrevo-me a sugerir que tal dor impacta a qualidade do meu trabalho e, além disso, pode influenciar negativamente o trabalho dos meus colegas. OK. Eu vejo. Então eu não teria o poder da fala? Não, eu entendo. Eu, por meio deste, consinto. Quando [...] Eu também tenho em mim palavras apagadas que deveria ter dito e já não sei mais o que significam. [...] Sou uma romã madura com sementes úmidas, cada semente é uma matança que irei realizar em algum momento futuro. Quando não tiver mais sementes dentro de mim, quando não houver mais nada além de carne, quero conhecer o homem que me criou. [...] Sou como uma planta onde tudo murchou, exceto um único broto verde que ainda está vivo, e esse broto é meu corpo e minha mente, e minha mente é como uma mão, ela toca em vez de pensar. [...] É fácil conversar com você. Parece que tudo o que eu digo está certo. Eu falo e você escreve o que eu digo. [...]. Trechos extraídos da obra The Employees: A Workplace Novel of the 22nd Century (Lolli, 2020), da premiada escritora dinamarquesa Olga Ravn. Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui e aqui.

 

POR QUE FATOS NÃO MUDAM NOSSA OPINIÃO – [...] Os humanos precisam de uma visão razoavelmente precisa do mundo para sobreviver. Se o seu modelo de realidade é totalmente diferente do mundo real, então você luta para tomar medidas eficazes todos os dias. No entanto, a verdade e a precisão não são as únicas coisas que importam para a mente humana. Os humanos também parecem ter um profundo desejo de pertencer. [...] Uma vez formadas as impressões são notavelmente perseverantes. [...] Apesar de suas crenças terem sido totalmente refutadas, as pessoas não conseguem fazer as revisões apropriadas nessas crenças [...] Compreender a verdade de uma situação é importante, mas permanecer parte de uma tribo também o é. Embora esses dois desejos muitas vezes funcionem bem juntos, ocasionalmente entram em conflito. [...] Convencer alguém a mudar de ideia é, na verdade, o processo de convencê-lo a mudar de tribo. Se abandonarem as suas crenças, correm o risco de perder os laços sociais. Você não pode esperar que alguém mude de ideia se você também tirar a comunidade dele. Você tem que dar a eles um lugar para ir. Ninguém quer que sua visão de mundo seja destruída se o resultado for a solidão. A maneira de mudar a opinião das pessoas é tornar-se amigo delas, integrá-las à sua tribo, trazê-las para o seu círculo. Agora, eles podem mudar suas crenças sem correr o risco de serem abandonados socialmente. [...] Talvez não seja a diferença, mas a distância que gera o tribalismo e a hostilidade. À medida que a proximidade aumenta, também aumenta a compreensão. [...] Há outra razão pela qual as más ideias continuam a existir: as pessoas continuam a falar sobre elas. O silêncio é a morte para qualquer ideia. Uma ideia que nunca é falada ou escrita morre com quem a concebeu. As ideias só podem ser lembradas quando são repetidas. Eles só podem ser acreditados quando são repetidos. Já mencionei que as pessoas repetem ideias para sinalizar que fazem parte do mesmo grupo social. Mas aqui está um ponto crucial que a maioria das pessoas não percebe: As pessoas também repetem ideias ruins quando reclamam delas. Antes de poder criticar uma ideia, você precisa fazer referência a essa ideia. Você acaba repetindo as ideias que espera que as pessoas esqueçam – mas, é claro, as pessoas não podem esquecê-las porque você continua falando sobre elas. Quanto mais você repete uma má ideia, maior é a probabilidade de as pessoas acreditarem nela. Vamos chamar esse fenômeno de Lei da Recorrência de Clear: o número de pessoas que acreditam em uma ideia é diretamente proporcional ao número de vezes que ela foi repetida durante o último ano – mesmo que a ideia seja falsa. Cada vez que você ataca uma má ideia, você está alimentando o mesmo monstro que está tentando destruir. [...] A maioria das pessoas argumenta para vencer, não para aprender. Como diz Julia Galef com tanta propriedade: as pessoas muitas vezes agem como soldados e não como batedores. Os soldados estão no ataque intelectual, procurando derrotar as pessoas que diferem deles. A vitória é a emoção operativa. Os escoteiros, por sua vez, são como exploradores intelectuais, tentando lentamente mapear o terreno com outros. A curiosidade é a força motriz. Se quiser que as pessoas adotem suas crenças, você precisa agir mais como um batedor e menos como um soldado. No centro desta abordagem está uma questão que Tiago Forte coloca lindamente: “Você está disposto a não vencer para manter a conversa?” [...] Quando você é gentil com alguém, significa que você o está tratando como uma família. Acredito que esse seja um bom método para realmente mudar a opinião de alguém. Desenvolva uma amizade. Compartilhe uma refeição. Presenteie um livro. Seja gentil primeiro, tenha razão depois... [...]. Trechos extraídos do estudo Why Facts Don’t Change Our Minds), do escritor estadunidense James Clear, autor da obra Atomic Habits: An Easy & Proven Way to Build Good Habits & Break Bad Ones (Avery, 2018), na qual ele expressa que: [...] Os humanos são animais de rebanho. Queremos nos ajustar, nos relacionar com outras pessoas e ganhar o respeito e a aprovação de nossos colegas. Essas inclinações são essenciais para nossa sobrevivência. Durante a maior parte de nossa história evolutiva, nossos ancestrais viveram em tribos. Ficar separado da tribo - ou pior, ser expulso - era uma sentença de morte. [...]. O autor neste sentido toca em aspectos importantes que refletem sobre o fato de o porquê as pessoas não mudarem de opinião, mesmo que suas crenças contrariem os fatos, a lógica e a sensatez quando elas estão convencidas que estão certas. Explica, portanto, como dialogar com pessoas irredutíveis, especialmente que não querem ouvir, com suas crenças e certezas inabaláveis, a outra face da realidade. Ele advoga a Lei da Recorrência de Clear que significa o efeito de mera exposição, ao abordar um tema que atravessa estudos da Agnotologia e da Etupidologia. Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui, aqui e aqui.

 

BABAU, DE CARLA DENISE

[...] Eu estou em todo lugar... E lugar de mamulengo é aqui na terra mesmo, pra fazer a alegria do povo [...].

Trecho extraído da obra Babau ou a história da vida desembestada do homem que tentou engabelar a morte (Cubzac, 2012), da premiada jornalista, dramaturga, escritora, atriz e produtora cultural, Carla Denise, integrante do coletivo Mão Molenga Teatro de Bonecos. Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.

 

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    Imagem: Acervo ArtLAM .   Revestrés escatológico pra bufos e ranas... - Para quem não sabia, fingiu ou olvidou, muita coisa passou p...