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domingo, maio 07, 2023

MARGE PIERCY, VIRGINIA WOOLF, GAUGUIN, TONI MORRISON, PALAHNIUK, WENDY BROWN & ASCENSO

 

 Imagem: Acervo ArtLAM.

Ao som dos álbuns Tous des Oiseaux (ECM, 2019), Concerto em Atenas (ao vivo – ECM, 2013) e Trojan Women (ECM, 2001), da compositora grega Eleni Karaindrou. Veja mais aqui.

 

KOAN ENTRE NOIT&DIAS Tem vexame não! Nestes tempos de frangofilia exacerbada, simulacros emulantes e teorias da conspiração, gestos e atitudes vão muito além de crimes e castigos, se quiserem! Quão verídica seja a emoção, coisas que não se dizem nem palavras algumas comportam entre o impreciso e o inadequado, transcendem intenções e linguagens. Ouvi Colette no meio da noite: Não chore, não junte os dedos em súplica, não se revolte: é preciso envelhecer... Era, na verdade, a ressurreta Catxerê que novamente invadia meus sentidos para me dá conta de que definira a minha face antes mesmo de eu nascer. Mostrava-me o quintal do brejo da Água Preta como prova cabal, lá onde eu menino a vi pela primeira vez como irmã entre as Marias de Órion e amigas das da Queiroz Rachel, quase as mesmas das cenas de Abranches, e recém-chegada das nuvens estelares. Dessa vez ela me falou que adorava a moda das crinolinas e as mortes um tanto glamurosas por afogamento ou incêndio – como a que ocorrera com a Frances do Longfellow e as irmãs de Oscar Wilde. Que coisa mais estranha, era. E jurou que um dia ainda usaria aquelas tournures para se sentir pavoneada, ao me explicar que cobra não se enrosca em pavão, o que para ela premiaria os olhos de Argos, a comer venenos para sobreviver imune, enquanto mudava de pele a cada estação. Aí coibiria o tráfico das penas pro carnaval do Sambódromo, afora perseguir os responsáveis impunes dos estupros e a coerção fanática religiosa aos abortos: coisas mais sem cabimento. Um tanto pensativa ruminou quem guardaria a sua dor, se já foi Zenóbia vencida pela fome e decapitada pela rebelião de Palmira. E como nada concluído nem anonimamente publicado, expressou-se Cornel West: Nunca esqueça que a justiça é como o amor se parece em público... Você não pode liderar o povo se não o ama. Você não pode salvar o povo se não servir ao povo... Se nada entendia, logo me alertou que já foi também a Creuza raptada pelo amor no Mysterioso Alado de Melchiades e que fora eu mesmo quem isso fizera a ela. Como? Disso nada sabia, nem pudera. Se as estranhices de sua deposição eram insinuantes, sua nudez era para lá de aprazíveis na minha vitalidade. Outras vidas dela tivera e a mim ternamente debulhou para se achegar ao meu peito tão vulnerável quanto cúmplice. Insinuou meus fracassos e me permitiu sonhar em seu corpo cósmico. Entroutras cenas me fez sentir Angelopoulos diante do Hino à Liberdade: O que pode o poeta fazer diante da morte?... Um dia apenas e a eternidade, era nela apenas o que me restara. Até mais ver.
 
DITOS & DESDITOS:
Imagem: Acervo ArtLAM.
[...] a vida é árdua, os fatos inflexíveis, e que a passagem para essa terra fabulosa onde nossas esperanças mais brilhantes se extinguem e nossas frágeis críticas malogram na escuridão exige, acima de tudo... coragem, lealdade e perseverança [...].
Trecho extraído da obra Rumo ao farol (Globo, 2003), da escritora inglesa Virginia Woolf (1882-1941). Veja mais aqui, aqui e aqui.
 
AMADA – [...] Libertar-se era uma coisa, reivindicar a posse desse eu liberto era outra. [...] O amor é ou não é. Amor fino não é amor de jeito nenhum. [...] Ela é uma amiga da minha mente. Ela me pega, cara. Os pedaços que eu sou, ela os junta e os devolve para mim na ordem certa [...] Conversas doces e malucas cheias de meias frases, devaneios e mal-entendidos mais emocionantes do que o entendimento jamais poderia ser. [...] As definições pertencem aos definidores, não aos definidos. [...]. Trechos extraídos da obra Beloved (Vintage, 2004), da escritora estadunidense e ganhadora do Prêmio Nobel de Literatura de 1993, Toni Morrison, autora da pérola: Se há um livro que você quer ler, mas ainda não foi escrito, então você deve escrevê-lo. Esta obra foi transformada em filme Bem-amada (1998), dirigido por Jonathan Demme, protagonizado, proposto e produzido pela jornalista, atriz, psicóloga e editora estadunidense Oprah Winfrey, que a respeito do projeto expressou: “E toda manhã, depois de meditar, eu chamava os nomes desses escravos, um por um. E dizia: estou fazendo isto por você, para que vocês tenham voz. Vocês nunca tiveram voz, por isso eu lhe estou emprestando a minha. E eu sentia que eles estavam comigo o tempo todo”. A história se passa depois da Guerra Civil Americana (1861-1865) e é inspirada na história de Margaret Garner, que escapou da escravidão em 1856. Conta a história de Sethe e sua filha Denver depois de sua fuga. Sua casa em Cincinnati é assombrada por um fantasma, que eles acreditam ser de uma das filhas de Sethe, morta quando era um bebê. Paul D, um ex-escravo da mesma plantação que Sethe era escrava, chega na casa e passa a viver com as duas mulheres e acabando com as assombrações. Mas uma mulher misteriosa chamada Beloved aparece na porta da casa, iniciando uma série de mudanças na vida dos três e fazendo-os confrontar seus passados. Veja mais aqui, aqui e aqui.
 
GAUGUIN: [...] Queres saber quem sou; minhas obras não são suficientes para ti. Inclusive no momento em que escrevo, só estou revelando o que quero revelar. E que acontece se às vezes me vês assim, nu? Não há problema; é o homem interior o que queres ver. Além disso, eu mesmo não me vejo sempre muito claramente. [...]. Texto escrito pelo pintor do pós-impressionismo francês Paul Gauguin (1848-1903), extraído da obra Gauguin: gênios da arte (Girassol, 2007), de Silvia Muñoz de Imbert e coordenado por Jan-Ramón Triadó Tur. Veja mais aqui.
 
THE LOW ROAD
Imagem: Acervo ArtLAM.
O que eles podem fazer com você?  
O que eles quiserem...  
Eles podem armar para você, prendê-lo,  
podem quebrar seus dedos,  
queimar seu cérebro com eletricidade,  
borrá-lo com drogas até que você  
não consiga andar, não consiga se lembrar.  
eles podem tirar seus filhos,  
cercar seu amante;  
eles podem fazer qualquer coisa que você não pode impedi-los de fazer.  
Como você pode detê-los?  
Sozinho você pode lutar, você pode recusar.  
Você pode se vingar de qualquer maneira,  
mas eles passam por cima de você.
 Mas duas pessoas lutando costas contra costas  
podem cortar uma multidão  
uma fogueira dançante de cobra
pode romper um cordão de isolamento,
cupins podem derrubar uma mansão
Duas pessoas podem manter a sanidade uma da outra
pode dar apoio, convicção,
amor, massagem, esperança, sexo.
Três pessoas são uma delegação
uma célula, uma cunha.
Com quatro você pode jogar
e começar um coletivo.
Com seis você pode alugar uma casa inteira,
comer torta no jantar sem segundos
e fazer sua própria música.
Treze formam um círculo,
cem preenchem um corredor.
Mil têm solidariedade
e boletim próprio;
dez mil comunidades
e seus próprios papéis;
cem mil, uma rede de comunidades;
um milhão de nosso próprio mundo.
Vai um de cada vez.
Começa quando você se preocupa em agir.
Começa quando você faz de novo
depois que eles dizem não.
Começa quando você diz nós
e sabe quem você quer dizer;
e cada dia você significa mais um.
Poema da escritora e ativista social estadunidense Marge Piercy. Veja mais aqui.
 
ESTADOS DE LESÃO - [...] Esse esforço para estabelecer o racismo, o sexismo e a homofobia como moralmente hediondos na lei, também lança a lei em particular e o estado em geral como árbitros neutros de danos, em vez de investidos do poder de ferir. Assim, o esforço para "proibir" a injúria social legitima poderosamente a lei e o Estado como protetores apropriados contra injúrias e lança os indivíduos lesados como necessitando de tal proteção por tais protetores. [...]. Trecho extraído da obra States of Injury: Power and Freedom in Late Modernity (Princeton University Press, 1995), da professora e pesquisadora estadunidense Wendy L. Brown, autora da pérola: Esteja alguém lidando com o estado, a máfia, pais, cafetões, policiais ou maridos, o alto preço da proteção institucionalizada é sempre uma medida de dependência e concordância em cumprir as regras do protetor... Veja mais aqui.
 
DIARIO – [...] É tão difícil esquecer a dor, mas é ainda mais difícil lembrar a doçura. Não temos nenhuma cicatriz para mostrar a felicidade. Aprendemos tão pouco com a paz. [...]. Trecho extraído do Diary (Anchor, 2004) do escritor estadunidense Chuck Palahniuk. Veja mais aqui e aqui.
 
UNA-SE, O RIO É SEU... ASCENSO FERREIRA.
Sentes que a minha vida é um rio caudaloso, \ tomado do delírio das enchentes, \ correndo alucinado para o mar! \ E te assombras, com medo dos abismos, \ onde as águas nos seus loucos paroxismos \ te possam arrastar... \ No entanto, sobre a flor dessas águas tempestuosas, \ leve com as espumas vaporosas, \ hás de sempre boiar... \ Sentindo a sensação deliciosa \ de que as águas arrogantes, tumultuosas, \ estão cantando para te ninar.
Nana, Nanana, poema do poeta Ascenso Ferreira (1895-1965). Veja mais aqui, aqui, aqui & aqui.

 



domingo, setembro 18, 2022

RITA RUDNER, INGRID JONKER, GRACE AGUILAR, MARIA CASADEVALL & NEIA GABINETARTE

 

 Ao som dos álbuns Nature (2020), Advice From a Caterpillar (2014) e a Live vanuit het Plein Theater Amsterdam (2020), da clarinetista holandesa Fie Schouten.

 

TRÍPTICO DQP: - Os sonhos renascem muitos… - Naquela manhã chovia torrencialmente e o rio ameaçava transbordar como no dia em que nasci. Eu vi, fui embora aos dois anos de idade... Ali minha mãe dissera o mesmo da do Sonho de Kurosawa. O meu quintal crescera naquele exílio, árvores imensas e, lá no fundo, a estrada de Badalejo. Embaixo do arco-íris as raposas não acasalavam, apenas o pife do Papafigo soava de não sei onde, trazendo todos os meus mortos em desfile. Eles ignoravam minha presença ali, parecia, pelo menos não tive que pedir perdão pelo degredo nem por nada. Quando se foram me vi nos labirintos de Borges: O sonho não passa de um mistério. E lá longe os estrépitos de Água Preta. No meio apareceu Deus que encarei como se fosse Shakespeare e só queria ser eu mesmo. Baixei as vistas e ao revê-lo era Esther Vilar com um meio sorriso: Ainda jogamos hoje os mesmos jogos da nossa infância? Claro que não. E mesmo, enquanto crianças, não tínhamos sempre as mesmas brincadeiras, brincávamos até nos apetecer. Não sabia como respondê-la, queria naquele dia fosse apenas uma criança, nada mais. E eu me reconciliasse: era a vida, os sonhos renasciam muitos...

 


O banquete do exílio... – Imagem do artista e ilustrador estadunidense Edward McGinnis – Atravessando as minhas proscrições de xexéu e meu desterro Arrabal, tudo ali me parecia como se eu cumprisse a maldição de Narciso na fonte, condenado ao Dorian Gray do retrato de Wilde no Reading. No meu desamparo foi Babette quem fez a festa e me acolheu: era apenas uma artista. E me contou a anedota do destino de Karen Blixen, e me chamou atenção para o que dissera António Agostinho Neto: Para alcançar a liberdade e sem o qual o comportamento do homem será o de quem sai de uma forma de discriminação para cair numa outra forma tão negativa como a primeira, uma simples inversão dos fatores intervenientes... Não entendia nada porque adolescia como quem perdia a inocência no seu decote. Logo chegaram os convidados do Discreto Charme de Buñuel e eram muitos e se pareciam meus algozes, eu só queria privar da intimidade dela. A primeira a se achegar atrapalhando todo meu intento foi Grace Aguilar, que logo me advertiu: Simpatia é o charme da vida humana. Poesia é um presente perigoso. Ao lado dela o antipático religioso francês Jacques-Bénigne Bossuet (1627-1704) com seu ar severo: Entre todas as paixões da mente humana, uma das mais violentas é o desejo de conhecer... Eu não tinha nada a ver com tudo aquilo, apenas fora levado pela generosidade da anfitriã, um peixe fora d’água que sonhava pelas anáguas e momentos íntimos dela na sua solidão. Mais satírico de todos Julos Beaucarne me puxava insistentemente quebrando o encanto: Anarquista, estou até o fundo dos meus sons! Anarquista, na minha opinião, isso significa que outros caminhos ainda não exploram as portas que ainda não foram abertas. Isso é o que estou fazendo há cinquenta anos. E gargalhava desbragadamente. Todos me pareciam fantasmas famintos na noite longa, sequer eu tinha para onde ir. No meu flagelo ela então apareceu como se fosse Nix e me fez Erebus para que eu soubesse do caos de sua íntima clausura.

 


Neia GabinetArte... – Imagem do escritor e pintor sul-africano Breyten Breutenbach - Amanheci de pé diante da porteira e dentro do cercado a inquieta e sorridente Neia me recepcionava de braços abertos. Naquela placidez pude respirar fundo e reviver o gosto de sentir-me em casa, outra vez menino que se esgueirou pelo mundo com todos os esconjuros. Ofereceu-me água quente para o café solúvel e nos aboletamos numa poltrona amigável. Ela se parecia com a comediantescritora estadunidense Rita Rudner: Eu amo dormir. Você? Não é ótimo? Realmente é o melhor dos dois mundos. Você fica vivo e inconsciente... E depois de mostrar suas traquinagens artísticas, arrematou ainda incorporada: Os homens esquecem tudo; as mulheres se lembram de tudo. É por isso que os homens precisam de repetição instantânea nos esportes. Eles já esqueceram o que aconteceu. Já passava do meio dia quando me convocou a atravessar o pântano: Vamos! Desbravamos passagem escorregadia e me exigiu perícia às marqens do primeiro pequeno açude. Meus pés se encharcaram nas proximidades do segundo e dei graças quando venci o terceiro. Foi então ela colher goiabas, eu restabelecia a respiração. Que coisa! E seguimos pelo caos e atravessamos umbrais como se recitasse a Face do amor de Ingrid Jonker. Quando enfim divisamos a liberdade ensolarada, ela se parecia a linda atriz Maria Casadevall como Guia Turística da Usina de Arte e lá eu me perdi entre as obras de Regina Silveira, a Diva da Juliana Notari, Frida Baranek, Os cabanos da Liliane Dardot, Os mandacarus da caçamba de lixo de Paulo Bruscky, O hangar das Ligas de José Rufino, A cabeça bandeirante de Flávio Cerqueira, A árvore de Hugo França, o Átrium de Marcelo Silveira, Data Vênia e Casa imaginária de Ricardo Pessoa de Queiroz, o Jardim Botânico, a Escola de Música, as três lagoas, a torre da Rádio Catimbó e o Festival Gastrô que virá. Ali eu sei o que já foi dor hoje paragem arejada para saltar aos olhos e entender que a vida é outra. Ainda bem que não sou nada, era mais eu que nunca... Até mais ver.

[...] A educação, como um valor social, extrapola os interesses circunstanciais de grupos isolados e passa a ser uma preocupação da sociedade global. Por que a decadência do ensino? Por que a perda do status do professor? Por que, aos poucos, a educação deixou de ser prioridade nacional, apesar do discurso político? Há toda uma rede de fatores confluentes e que se interpenetram gerando uma rede de causas, fatos e efeitos... [...].

Trecho extraído da obra Avaliação educacional: teoria, planejamento e modelos (Ibrasa, 2000), do educador, professor e pesquisador Heraldo Marelim Vianna (1927- 2013). Veja mais Educação & Livroterapia aqui e aqui.

 



quarta-feira, novembro 01, 2017

LIMA BARRETO, CASCUDO, GENI GUIMARÃES, MÃES & AVÓS, LAMPIÃO, ÁGUA PRETA & EXPOSIÇÃO NA BIBLIOTECA

O QUE SOU DE TODAS AS COISAS - Convivo com a indiferença do mundo nas muitas paisagens em que o Sol faz o espetáculo cada vez mais lindo e maravilhoso a cada dia e ninguém se dá conta com seus afazeres e compromissos cotidianos. E se a Natureza e o Universo com seus extraordinários esplendores não são o foco nem chamam atenção à sensibilidade dos tantos que seguem apressados com seus umbigos pra cima e pra baixo, não tenho nada que lamentar, sou apenas feliz ao meu modo, saudando a todos que dormem enquanto tantas maravilhas, muitas paragens, me extasiam e me ensinam viver: a correnteza pras quedas dos rios, as ondas dos mares, as flores dos jardins, as folhas dos quintais, o canto dos pássaros, o voo das borboletas, a brisa nas varandas, os montes do crepúsculo, o horizonte das manhãs, tudo em mim, paratodos. Eu sigo e se ninguém me vê eu abraço a alma de todos a todo instante: é quem passa que me faz existir, mesmo que nem queira sequer saber quem sou nem o que sinto, sou ninguém na multidão. Se acaso acordarem, estarei junto na viagem. E mesmo que nem despertem ou mantenham a sonolência dos seus sonhos nos mais altos níveis de seus prazeres e satisfações individuais, estarei insone a mostrar do visinvisivel que aprendi e me delicia viver: é a vida. Enquanto reduzem sua existência à cata do ouro da Terra pra viver, eu persigo o ouro do coração das pessoas que é muito maior e mais valioso, porque sou e todas as coisas. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.

RÁDIO TATARITARITATÁ:
Hoje na Rádio Tataritaritatá especiais especiais com as Cartas Celestes 1 e 8, Sonata 1 for guitar & o Concerto Fribourgeois do pianista e compositor de música erudita Almeida Prado (1943-2010); o Quartet piano nº 1 op 25 Brahms, Concerto nº5 Vieutxtemps & Israel Phylarmonic Zubim Mehta da premiada violinista alemã Viviane Hagner; Ter Pezzi per pianoforte do compositor, professor e musicólogo Hans-Joachim Koellreuter; e Sonata for cello & piano nº 1 op 38 de Brahms, Grand Tango de Astor Piazzolla, Água e Vinho de Egberto Gismonti & O canto do cisne negro de Villa-Lobos, da violoncelista francesa Ophélie Gaillard. Para conferir é só ligar o som e curtir.

PENSAMENTO DO DIA – [...] Havia-me preparado para todas as eventualidades da vida. Imaginei-me amarrado para ser fuzilado, esforçando-me para não tremer nem chorar; imaginei-me assaltado por facínoras e ter coragem par enfrenta-los; supus-me reduzido à maior miséria e a mendigar; mas por aquele transe eu jamais pensei ter de passar. Como é difícil controlar o amor. [...] Trecho extraído da obra Cemitério dos vivos (Planeta/FBN, 2004), do escritor Lima Barreto (1881-1922). Veja mais aqui e aqui.

A PRAIERA EM ÁGUA PRETA - [...] Água Preta figura como um dos pontos por onde passou a Revolução Praieira de 1848. Os revoltosos, que tinham pernoitado no engenho Araticum, do município de Barreiros, chegando ao Cachoeira, em 26 de outubro de 1848, bateram uma força encontrada aí, de paisanos governistas. A força de Cocal [...] seguiu pelo norte do rio Una, tiroteando aqui e ali, nos lugares mais estreitos do rio, em que se descobriram os revoltosos, que seguiam de estrada acima. Chegando no engenho Barra, Sebastião Alves da Silva passou o rio com um piquete e fez retroceder a tropa governista, que contava com seu chefe entre os feridos. Às oito horas da noite desse mesmo dia, os revoltosos entraram em Água Preta. Em 23 de dezembro, teve lugar o ataque de Almécega. [...] Administrativamente, o município é formado pelos distritos Água Preta (sede), Santa Terezinha e Xexéu, e pelo povoado de Campos Frios. Anualmente, no dia 03 de junho, Água Preta comemora a sua emancipação política. [...]. Trechos extraídos da Enciclopédia dos Municipios do interior de Pernambuco (FIAM, 1986). Atualmente é formado pelos distritos sede, Santa Terezinha e pelo povoado de Agrovila Liberal. Veja mais aqui, aqui, aqui e aqui.

LAMPIÃO INVULNERÁVEL – [...] Um chofer de praça, em Recife, dizia-me, anos passados, que o bandido Virgolino Ferreira, o “Lampião”, era invulnerável, por ter recebido um “patuá” da mão de um feiticeiro baiano. “Não há bala que não derreta como manteiga e faca se dobra como arame ao chegar em sua pele”, afirmava o negro motorista, sisudo e convencido. Quando Lampião morreu, casualmente encontrei meu informante e inquiri das virtudes mirificas do “patuá”. Não se perturbou: Lampião morreu porque deixara o “patuá” na barraca, quando fora tomar banho pela manhã. Não tivera tempo de recolocá-lo ao pescoço. Por isso morreu... [...]. Trecho extraído da obra Geografia dos mitos brasileiros (Global, 2002), do escritor e folclorista brasileiro Luís da Câmara Cascudo (1898-1986). Veja mais aqui, aquiaqui e aqui.

MÃES, AVÓS, MULHERES - [...] Sem dúvida, nossas avós e mães não eram santas, mas artistas, arrastadas para uma loucura entorpecida e sangrenta pelas fontes da criatividade nelas existentes e para as quais nçao havia escapatória. Sua arte não foi traduzida em poemas, músicas ou danças, mas na arte diária de cozinhar, do costurar, do bordar e de plantar jardins, que enfeitaram nossa infância e embelezaram nossas vidas. No mercado, na cozinha, no barrazão, na equipe de costura, na organização de festas e recepções, a mulher negra vem cumprindo os seus papéis. Arquétipos segundo os mitos africanos: nutre, protege, organiza, cria. [...]. Trecho extraído da obra A invenção do cotidiano (Vozes, 2000), de Michel de Certeau, Luci Giard e Pierre Mayol. Veja mais aqui.

CONSELHO DE GENI GUIMARÃES
Quem estanca o sangue
Que escorreu?
Quem sutura a língua e a boca
Arrancadas no meio da fala?
Quem devolve o feto primeiro
Da esperança trabalhada?
Quem resgata o tempo
E anula a doença
Que comeu a saúda da África?
Não perca tempo.
Não me procure para anular delitos
Que eu não posso e nem quero
Agasalhar memórias.
Não vou velar insônia de ninguém.
Poema extraído da obra Balé das emoções (Evergraf, 1993), da poeta e escritora Geni Guimarães. Veja mais aqui.

Veja mais:
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EXPOSIÇÃO PINTANDO NA PRAÇA
Participando da exposição do projeto Pintando na Praça, na Biblioteca Fenelon Barreto, com o poeta e artista plástico Paulo Profeta, o artista plástico José Duran y Duran, as professoras Sil & Rute Costa e funcionários da SEMED-Palmares-PE. Veja mais aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
Veja mais aqui.


sábado, julho 16, 2016

FERNANDO VERÍSSIMO, MEREDITH MONK, SÁBATO MAGALDI, SAMIRA NAHID, BABENCO, ROBERT LUCIANO, VLAHO BUKOVAC, VANICE ZIMERMAN & ÁGUA PRETA


A RODAGEM DE BADALEJO, A BODEGA DE ÁGUA PRETA – Quando minha irmã nasceu, tinha eu apenas dois anos de idade e já era os pés da doida: um fabricante do passaporte da minha mãe pro hospício, de tão treloso inheto a virar tudo de cabeça pra baixo. Por conta das minhas travessuras, fui gentilmente separado do meu lar, indo pro maior município do estado, Água Preta. Quando lá cheguei, a primeira constatação: se era o maior município, como todos diziam, lá só tinha uma rua só: a que entrava e saía; e com um detalhe: a que entrava era a mesma que saía; tanto que uma placa dava ao visitante o pé da situação: de um lado, seja bem-vindo; do outro, volte sempre. Ninguém se perdia lá. Nem eu. E lá, entre meus avós paternos, Arlindo e Benita, dei de cara com o paraíso: a bodega e o engenho. Na verdade, como primeiro neto da família e centro de todas as atenções, eu estava onde meu avô Arlindo estivesse: uns dias da semana no engenho Badalejo, no qual tive a primeira noção do reino encantado de todas as coisas; os outros, na bodega com minha avó Benita, pela qual tive acesso a fabrica de todos os brinquedos. Pronde meu avô fosse, lá estava eu reinando impune. No engenho, era o dia todo para futucar os animais na estrebaria – bois, vacas, cavalos, éguas não tinham sossego comigo, armado de fiapos de vassoura, enfiava na venta deles -, e os curaus por plateia pras invencionices de tagarela: bebedor de água de chocalho, parecia mais que eu contava as mil e uma noites reinventada ali na hora, reencarnando Sherazade pra peãozada, isso do início da tarde mormaçada até cair de sono num canto. Entrava eu pela perna de pinto, saía pela perna de pato e num tinha fim que desse na historia emendada com tantas outras, dos cabras todos ficarem tudo admirado com meu blábláblá. Quando não, esgueirava pela rodagem pegando bigu no carro de boi pra cima e pra baixo. Só parava mesmo quando meu avô me colocava na garupa da sela do cavalo e, atravessando rios e morros, dava na bodega da minha avó: nunca o mundo fora tão generoso comigo. Dos refrigerantes de todos os tipos, aos lanches de todos os sabores: rapadura, confeitos, pirulitos, biscoitos, bolos, doces e salgados. Era a hora que eu parava no tamarelado, ocupando a boca em provar de tudo quanto fosse guloseima. Enfim, foi no trâmite duns dois ou três anos de infância passados por lá, que aprendi a mentir imitando os violeiros e repentistas que apareciam na quinta que era o dia da feira, até o domingo, entretido com as glosadas no improviso dos motes; que senti a dor da lapada do chicote no toitiço pela compra desproposital de um tabuleiro de pirulito – a dor que nunca me saiu da alma; que, tantas vezes, quase morri afogado no brejo do quintal, no meio de pitus e cundudas no maior espalhafato; que levei uma carreira dum boi brabo no meio da festa da padroeira de quase não parar nunca pé na bunda até o fim do mundo – e ele atrás de mim; que conheci a força de cascudos, beliscadas e outros puxavanques, por ter a mania de querer me enfiar embaixo da toalha das tias quando elas saíam seminuas do banho; e a confundir o dia pela noite no arrepiado dos tremores com as histórias de trancoso, crimes, lendas e envultamentos do povinho bom daquelas paragens. A vida valia tanto que eu não perdi mais a graça do jeito infantil de ver todas as coisas e tudo, e ter desse tudo além da conta ajustada: é com o coração que se vive o tanto que possa o prazer de viver. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais aqui.

Imagem: a arte do pintor Robert Luciano.

 Curtindo o álbum Songs of Ascension (ECM, 2011), da compositora, performer, diretora, vocalista, cineasta, e coreógrafa estadunidense Meredith Monk.

PESQUISA:
[...] Por enquanto, o desejo de um bom teatro confunde-se com o propósito de uma vida digna para a humanidade e, num e noutro caso, há os que obedecem à risca ao imperativo da vocação, mesmo que as circunstancias exteriores não sejam favoráveis. O empenho pela afirmação do bom teatro identifica-se ao esforço por um mundo melhor.
Trecho da obra Iniciação ao teatro (Ática, 1985), do crítico teatral, teatrólogo, jornalista, professor, ensaísta e historiador Sábato Magaldi (1927-2016). Veja mais aqui e aqui.

LEITURA
[...] O tocador de tuba e o violoncelista atracam-se. Os outros membros do quarteto entram na briga. A platéia agora grita e pula. É o caos! Simbolizando, talvez, a falência final de todo o sistema de valores que teve inicio com o Iluminismo europeu ou o triunfo do instinto sobre a razão ou, ainda, uma pane mental do autor. Sobre o palco, um dos resultados da brigam é que agora quem está com o bigode ruivo é a violista. Vendo-a assim, o tocador de tuba para de morder a perna do segundo violinista, abre os braços e grita: “Mamãe!”. Nisso, entra no palco uma manda de zebus.
Trecho de O recital, extraído da obra O analista de Bagé (Círculo de Livro), do escritor, cartunista, tradutor, roteirista e autor teatral Luis Fernando Veríssimo. Veja mais aqui.

PENSAMENTO DO DIA: ENREDO
[...] No ritual de se pegar um livro para ler ou de se sentar à volta ou diante de um narrador, uma tela de cinema ou de TV, para ler/ver/ouvir contar-se uma história, desenrolar-se um enredo, tal como no exercicio do jogo, há a busca do prazer, há tensão, competição, há a máscara, a simulação, pode haver até vertigem.
Trecho de Narração e narrativas, extraído do livro O enredo (Ática, 1986), de Samira Nahid Mesquita, apresentando conceitos teóricos e aspectos técnicos acerca do enredo de forma didática.

IMAGEM DO DIA: 
Cartazes de alguns filmes do cineasta argentino radicado no Brasil, Hector Babenco (1946-2016). Veja mais aqui e aqui.

Veja mais sobre Cantando às margens do Una – Primeira Reunião, Heitor Villa-Lobos, Alexander Luria, Mayana Zatz, Reinaldo Arenas, Arthur Moreira Lima, Luchino Visconti, Joshua Reynolds, Ana Paula Arósio, Alida Valli, Marcella Mariani, Ginger Rogers, Carl Larsson & Líria Porto aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
Imagem: Reclining Nude (1887), do pintor croata Vlaho Bukovac (1855-1922).
Veja mais aquiaqui e aqui.

CANTARAU: VAMOS APRUMAR A CONVERSA
Arte da artista plástica e escritora Vanice Zimerman.
Recital Musical Tataritaritatá - Fanpage.
Veja aqui e aqui.


MARY OLIVER, ROSI BRAIDOTTI, VERONICA GORRIE & CHACRINHA

  Imagem: Acervo ArtLAM .   O segredo da brochura artesanal... - Uma fedentina tomou conta do lugar: Que fedor! De onde vem? Tem defunto...