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domingo, maio 07, 2023

MARGE PIERCY, VIRGINIA WOOLF, GAUGUIN, TONI MORRISON, PALAHNIUK, WENDY BROWN & ASCENSO

 

 Imagem: Acervo ArtLAM.

Ao som dos álbuns Tous des Oiseaux (ECM, 2019), Concerto em Atenas (ao vivo – ECM, 2013) e Trojan Women (ECM, 2001), da compositora grega Eleni Karaindrou. Veja mais aqui.

 

KOAN ENTRE NOIT&DIAS Tem vexame não! Nestes tempos de frangofilia exacerbada, simulacros emulantes e teorias da conspiração, gestos e atitudes vão muito além de crimes e castigos, se quiserem! Quão verídica seja a emoção, coisas que não se dizem nem palavras algumas comportam entre o impreciso e o inadequado, transcendem intenções e linguagens. Ouvi Colette no meio da noite: Não chore, não junte os dedos em súplica, não se revolte: é preciso envelhecer... Era, na verdade, a ressurreta Catxerê que novamente invadia meus sentidos para me dá conta de que definira a minha face antes mesmo de eu nascer. Mostrava-me o quintal do brejo da Água Preta como prova cabal, lá onde eu menino a vi pela primeira vez como irmã entre as Marias de Órion e amigas das da Queiroz Rachel, quase as mesmas das cenas de Abranches, e recém-chegada das nuvens estelares. Dessa vez ela me falou que adorava a moda das crinolinas e as mortes um tanto glamurosas por afogamento ou incêndio – como a que ocorrera com a Frances do Longfellow e as irmãs de Oscar Wilde. Que coisa mais estranha, era. E jurou que um dia ainda usaria aquelas tournures para se sentir pavoneada, ao me explicar que cobra não se enrosca em pavão, o que para ela premiaria os olhos de Argos, a comer venenos para sobreviver imune, enquanto mudava de pele a cada estação. Aí coibiria o tráfico das penas pro carnaval do Sambódromo, afora perseguir os responsáveis impunes dos estupros e a coerção fanática religiosa aos abortos: coisas mais sem cabimento. Um tanto pensativa ruminou quem guardaria a sua dor, se já foi Zenóbia vencida pela fome e decapitada pela rebelião de Palmira. E como nada concluído nem anonimamente publicado, expressou-se Cornel West: Nunca esqueça que a justiça é como o amor se parece em público... Você não pode liderar o povo se não o ama. Você não pode salvar o povo se não servir ao povo... Se nada entendia, logo me alertou que já foi também a Creuza raptada pelo amor no Mysterioso Alado de Melchiades e que fora eu mesmo quem isso fizera a ela. Como? Disso nada sabia, nem pudera. Se as estranhices de sua deposição eram insinuantes, sua nudez era para lá de aprazíveis na minha vitalidade. Outras vidas dela tivera e a mim ternamente debulhou para se achegar ao meu peito tão vulnerável quanto cúmplice. Insinuou meus fracassos e me permitiu sonhar em seu corpo cósmico. Entroutras cenas me fez sentir Angelopoulos diante do Hino à Liberdade: O que pode o poeta fazer diante da morte?... Um dia apenas e a eternidade, era nela apenas o que me restara. Até mais ver.
 
DITOS & DESDITOS:
Imagem: Acervo ArtLAM.
[...] a vida é árdua, os fatos inflexíveis, e que a passagem para essa terra fabulosa onde nossas esperanças mais brilhantes se extinguem e nossas frágeis críticas malogram na escuridão exige, acima de tudo... coragem, lealdade e perseverança [...].
Trecho extraído da obra Rumo ao farol (Globo, 2003), da escritora inglesa Virginia Woolf (1882-1941). Veja mais aqui, aqui e aqui.
 
AMADA – [...] Libertar-se era uma coisa, reivindicar a posse desse eu liberto era outra. [...] O amor é ou não é. Amor fino não é amor de jeito nenhum. [...] Ela é uma amiga da minha mente. Ela me pega, cara. Os pedaços que eu sou, ela os junta e os devolve para mim na ordem certa [...] Conversas doces e malucas cheias de meias frases, devaneios e mal-entendidos mais emocionantes do que o entendimento jamais poderia ser. [...] As definições pertencem aos definidores, não aos definidos. [...]. Trechos extraídos da obra Beloved (Vintage, 2004), da escritora estadunidense e ganhadora do Prêmio Nobel de Literatura de 1993, Toni Morrison, autora da pérola: Se há um livro que você quer ler, mas ainda não foi escrito, então você deve escrevê-lo. Esta obra foi transformada em filme Bem-amada (1998), dirigido por Jonathan Demme, protagonizado, proposto e produzido pela jornalista, atriz, psicóloga e editora estadunidense Oprah Winfrey, que a respeito do projeto expressou: “E toda manhã, depois de meditar, eu chamava os nomes desses escravos, um por um. E dizia: estou fazendo isto por você, para que vocês tenham voz. Vocês nunca tiveram voz, por isso eu lhe estou emprestando a minha. E eu sentia que eles estavam comigo o tempo todo”. A história se passa depois da Guerra Civil Americana (1861-1865) e é inspirada na história de Margaret Garner, que escapou da escravidão em 1856. Conta a história de Sethe e sua filha Denver depois de sua fuga. Sua casa em Cincinnati é assombrada por um fantasma, que eles acreditam ser de uma das filhas de Sethe, morta quando era um bebê. Paul D, um ex-escravo da mesma plantação que Sethe era escrava, chega na casa e passa a viver com as duas mulheres e acabando com as assombrações. Mas uma mulher misteriosa chamada Beloved aparece na porta da casa, iniciando uma série de mudanças na vida dos três e fazendo-os confrontar seus passados. Veja mais aqui, aqui e aqui.
 
GAUGUIN: [...] Queres saber quem sou; minhas obras não são suficientes para ti. Inclusive no momento em que escrevo, só estou revelando o que quero revelar. E que acontece se às vezes me vês assim, nu? Não há problema; é o homem interior o que queres ver. Além disso, eu mesmo não me vejo sempre muito claramente. [...]. Texto escrito pelo pintor do pós-impressionismo francês Paul Gauguin (1848-1903), extraído da obra Gauguin: gênios da arte (Girassol, 2007), de Silvia Muñoz de Imbert e coordenado por Jan-Ramón Triadó Tur. Veja mais aqui.
 
THE LOW ROAD
Imagem: Acervo ArtLAM.
O que eles podem fazer com você?  
O que eles quiserem...  
Eles podem armar para você, prendê-lo,  
podem quebrar seus dedos,  
queimar seu cérebro com eletricidade,  
borrá-lo com drogas até que você  
não consiga andar, não consiga se lembrar.  
eles podem tirar seus filhos,  
cercar seu amante;  
eles podem fazer qualquer coisa que você não pode impedi-los de fazer.  
Como você pode detê-los?  
Sozinho você pode lutar, você pode recusar.  
Você pode se vingar de qualquer maneira,  
mas eles passam por cima de você.
 Mas duas pessoas lutando costas contra costas  
podem cortar uma multidão  
uma fogueira dançante de cobra
pode romper um cordão de isolamento,
cupins podem derrubar uma mansão
Duas pessoas podem manter a sanidade uma da outra
pode dar apoio, convicção,
amor, massagem, esperança, sexo.
Três pessoas são uma delegação
uma célula, uma cunha.
Com quatro você pode jogar
e começar um coletivo.
Com seis você pode alugar uma casa inteira,
comer torta no jantar sem segundos
e fazer sua própria música.
Treze formam um círculo,
cem preenchem um corredor.
Mil têm solidariedade
e boletim próprio;
dez mil comunidades
e seus próprios papéis;
cem mil, uma rede de comunidades;
um milhão de nosso próprio mundo.
Vai um de cada vez.
Começa quando você se preocupa em agir.
Começa quando você faz de novo
depois que eles dizem não.
Começa quando você diz nós
e sabe quem você quer dizer;
e cada dia você significa mais um.
Poema da escritora e ativista social estadunidense Marge Piercy. Veja mais aqui.
 
ESTADOS DE LESÃO - [...] Esse esforço para estabelecer o racismo, o sexismo e a homofobia como moralmente hediondos na lei, também lança a lei em particular e o estado em geral como árbitros neutros de danos, em vez de investidos do poder de ferir. Assim, o esforço para "proibir" a injúria social legitima poderosamente a lei e o Estado como protetores apropriados contra injúrias e lança os indivíduos lesados como necessitando de tal proteção por tais protetores. [...]. Trecho extraído da obra States of Injury: Power and Freedom in Late Modernity (Princeton University Press, 1995), da professora e pesquisadora estadunidense Wendy L. Brown, autora da pérola: Esteja alguém lidando com o estado, a máfia, pais, cafetões, policiais ou maridos, o alto preço da proteção institucionalizada é sempre uma medida de dependência e concordância em cumprir as regras do protetor... Veja mais aqui.
 
DIARIO – [...] É tão difícil esquecer a dor, mas é ainda mais difícil lembrar a doçura. Não temos nenhuma cicatriz para mostrar a felicidade. Aprendemos tão pouco com a paz. [...]. Trecho extraído do Diary (Anchor, 2004) do escritor estadunidense Chuck Palahniuk. Veja mais aqui e aqui.
 
UNA-SE, O RIO É SEU... ASCENSO FERREIRA.
Sentes que a minha vida é um rio caudaloso, \ tomado do delírio das enchentes, \ correndo alucinado para o mar! \ E te assombras, com medo dos abismos, \ onde as águas nos seus loucos paroxismos \ te possam arrastar... \ No entanto, sobre a flor dessas águas tempestuosas, \ leve com as espumas vaporosas, \ hás de sempre boiar... \ Sentindo a sensação deliciosa \ de que as águas arrogantes, tumultuosas, \ estão cantando para te ninar.
Nana, Nanana, poema do poeta Ascenso Ferreira (1895-1965). Veja mais aqui, aqui, aqui & aqui.

 



segunda-feira, janeiro 16, 2023

RAQUEL LANSEROS, HALINA POŚWIATOWSKA, ADELA CORTINA, DONA DUDA DA CIRANDA & ANA DAS CARRANCAS

 

 Ao som dos álbuns Eternity and a Day (ECM 1998), Trojan Women (ECM 2001) e Tous des Oiseaux (ECM 2019), da compositora grega Eleni Karaindrou.

 

TRÍPTICO DQP: - Um dia e a eternidade... Chovia bastante e a cidade foi engolida como se roubasse o meu almoço e sequer soubesse no que me tornei. Uma criança estranha me dizia da vida como se eu cumprisse o roteiro na pele do Alexander de Theo Angelopoulos, recitando versos de Dionýsios Solomós: ... eu tenho medo \ Dos Mortos possam despertá-lo \ Silêncio, meu filho, os mortos \ seguram firmes em suas lápides!... Deu-me uma carta dos dias felizes e eu carregando o fardo de quantos janeiros pelos caminhos de Byron e o conselho de Goethe: entregar definitivamente a alma ao demônio. E já. Lá ia eu pela itinerância sem saber qual hospital me esperava nos olhos de Sêneca: ...mostremo-nos satisfeitos por tudo o que nos foi dado gozar... Era o meu confinamento e a eternidade se esgotava em um único dia, tudo estava suspenso na minha diegese como no verso de Raquel Lanseros: Quisera ter sido o horto do poeta... Só que muitas vezes a vontade não basta... O tempo também para mesmo quando passa inadvertidamente pelo presente nebuloso de todos os passados reconectados pelos olhares, gestos e sombras, dores e angústias. Lugar algum seria, sem praia, nem praça, nem pedestre na faixa de domingo – o ermo da existência... cedo ou tarde, eu sei, tudo termina.

 


Manhã de domingo... - Hora de voltar e eu sabia que a maldição do Horla de Maupassant me esperava em casa depois que enlouqueceu generais e golpistas com a mentalidade da turba na aporofobia de Adela Cortina: Os pobres não podem aspirar à felicidade... Naquele dia um comboio passou e ninguém se deu conta ou não se quis notá-lo. A passagem era escandalosa e escondia o terror enlouquecido: a epidemia da loucura. O alarido era ensurdecedor, repetiam não serem terroristas, sonâmbulos de drogas Z, seguindo os conselhos do marido da Marcela. Acontece que depois de tudo o que aquela criatura fantasmagórica queria era só me atormentar e “... fazer com o homem o que fizemos com o cavalo e o boi: sua coisa, seu servidor e seu alimento”. Já sabia que viera apenas para domar a humanidade, bebendo a vida das pessoas que definhavam febris pela noite dos pesadelos, e agora seguiam hipnotizados, vampirizados. Eu nunca fui um cavalheiro da Normandia e li a carta de primeira porque servia pro diário inacabado. Diante do espelho não vi o meu rosto, a jarra vazia era o incêndio da minha alma com toda a minha vida nas lembranças mortas.

 


Caminho do Leste... - Como me socorrer era nada mais restar. Quando sozinho havia o ermo e tudo podia acontecer. Sim. De repente Baubo chegou de uma fábrica estalar, montada num javali alado, com ramos de murta às mãos. Fez o divertimento e levantou a saia para mostrar o caminho na sua genitália. Glória! Um brinde das taças do kykeon. Tocou sua harpa primaveril na fonte do Rheitoi para me ensinar segredos órficos e eleusinos. E me fez dormir em paz sobre seu corpo divino com sonhos pelas constelações. Ao despertar ela trouxe Iambe com sua nudez para me oferecer um gole do sagrado vinho de cevada e juntas me ensinaram a viver alegria, morrer sem medo e ser no ciclo da terra. E me ensinaram a triunfar no pó e no vento com o Hino a Deméter e acabar definitivamente com a seca do sertão. E me embalaram com Dona Duda da Ciranda e me presentearam a arte de Ana das Carrancas. Já anoitecia quando Baubo me levou ao ponto nemo como se fosse Lea Massari com gestos de solidão, enquanto me recitava os versos de Halina Poświatowska: Procuro-te no pelo macio do gato \ em pingos de chuva \ numa cerca de estacas \ e, encostado no amável poste, \ obscurecido pela luz do sol \ - uma mosca numa teia de aranha - \ espero... Chegamos ao Telesterion e lá me mostrou que tudo passará, as muitas hestórias nas estações do ano em La Rinconada, onde me deitou na fogueira da imortalidade e me deu sementes de romã para que eu pudesse um dia segui-la pela caverna Plutoniana com a tocha dos hierofantes: o juramento da jornada da alma, o segredo, libações e as coisas mostradas do deiknymena pela Nebulosa do Cone. Eu mais que sabia: a partir dali tudo poderia ser desfeito, o que aprendi da solitude e o Sol pela estrada do Leste. Até mais ver.

Vem aí o PGM TTTTT. Veja mais aqui.

 


segunda-feira, fevereiro 22, 2016

AGNÉS VARDA, BEAUVOIR, KINSELLA, TUNGA, MILLÔR, GIUSEPPE BELLI, HÉLIO PELLEGRINO & LITERÓTICA

 


AGNÉS, OS CATADORES & EU... - A bela viúva trazia o semblante de cansaço sexagenário, a artista engajada retomava sua própria caminhada depois da Nouvelle Vague. Fixou seu olhar em suas próprias mãos enrugadas, enquanto escrevia o seu presente e o destino de todos: envelhecer e morrer são certezas na vida. Inspirada na Des glaneuses de Millet, nas leituras da Velhice de Beauvoir e nas pinturas de Jules Breton, Van Gogh e Utrillo, iniciava a trilogia do envelhecimento: uma autobiografia sobre o que viveu e a morte experienciada pela perda do seu amado. A partir de uma perspectiva estética, política e moral, ela testemunhou em sua viagem o trabalho dos respigadores – aqueles que percorriam campos já ceifados em busca do alimento deixado para trás. Investigava obsessiva o ato de catar e a história da humanidade. Antenada à reciclagem, ela flagrou também rebuscadores que tiravam no pé a sua alimentação e, sobretudo, o desperdício: quantos não teriam sido privados e morreriam de fome. Respigar era uma segunda oportunidade ao que já havia sido útil. As batatas em V e o relógio sem ponteiros, traçava assim o seu autorretrato: As pessoas precisam de poesia, de ler, de pinturas e de cinema sensível, um pouco alternativo, talvez, por isso não tenho tanto público. Faço cinema dizendo: "Vou amá-los, mas me amem". É normal, todos querem ser amados... Solidária apresenta-se em Les glaneurs et la glaneuse, uma história que nunca teria fim. Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.

 


DITOS & DESDITOS

Ah, se eu tivesse vivido num passado como o lembro agora!...

Pensamento do dramaturgo, humorista, escritor, tradutor e jornalista Millôr Fernandes (Milton Viola Fernandes – 1923-2012). Veja mais aqui.

 

ALGUÉM FALOU

Uma geração não é feita de idades, e sim de afinidades...

Pensamento do psicanalista e escritor Hélio Pellegrino (1924-1988). Veja mais aqui, aqui, aqui & aqui.

 

ENCONTRANDO AUDREY – [...] Acho que o que percebi é que a vida é sobre subir, cair e se levantar de novo. E não importa se você cair. Contanto que você esteja, de alguma forma, subindo. É tudo o que você pode esperar. Subir, mais ou menos. [...] O problema é que a depressão não vem com sintomas óbvios como manchas na pele e febre, então você não percebe de imediato. Você fica dizendo "Estou bem" para as pessoas quando não está. Você acha que deveria estar bem. E fica se perguntando: "Por que não estou bem?" [...]. Trechos extraídos da obra Finding Audrey (Delacorte Press, 2015), da escritora britânica Sophie Kinsella (Madeleine Sophie Townley), autora de obras como I've Got Your Number (2011), Twenties Girl (2009), Remember Me? (2008), Shopaholic & Baby (2007), The Undomestic Goddess (2005), Can You Keep a Secret? (2003), Shopaholic Takes Manhattan (2001) e Confessions of a Shopaholic (2000). Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.

 

A VELHICE – [...] Sou incapaz de conceber o infinito, e ainda assim não o aceito. Quero que esta aventura que é o contexto da minha vida continue sem fim. [...] O passado não é uma paisagem pacífica que se estende para trás de mim, um país onde posso passear à vontade e que gradualmente me revelará todos os seus recantos secretos. À medida que eu avançava, ele se desmoronava. A maior parte dos destroços visíveis é incolor, distorcida, congelada: seu significado me escapa... tudo o que resta é um esqueleto. Jamais reencontrarei meus planos, minhas esperanças e meus medos — jamais me reencontrarei. [...] A sociedade só se preocupa com o indivíduo na medida em que ele lhe é útil. Os jovens sabem disso. A ansiedade que sentem ao ingressar na vida social se equipara à angústia dos idosos ao serem excluídos dela. [...] Ninguém jamais poderá conhecer a si mesmo, apenas narrar a si mesmo. [...]. Trechos extraídos da obra La Vieillesse (Gallimard, 1970), da escritora e filósofa existencialista francesa Simone de Beauvoir (Simone Lucie-Ernestine-Marie Bertrand de Beauvoir – 1908-1986). Nesta obra ela aborda sobre o tema do envelhecimento, levantando dados de estudos científicos nos campos específicos da geriatria e da gerontologia, bem como revisando o texto de escritores que tematizaram seus envelhecimentos em obras literárias. É um ensaio pelo qual passa-se a entender seu próprio processo de envelhecimento, causando surpresa naqueles que julgavam que o tema ainda não tratava de algo que lhe pertencia. A autora questiona o juízo de valor que fundamenta uma hierarquia das idades, estando a ideia daquilo que desfavorece o indivíduo atribuído ao seu envelhecimento. Reitera que a velhice não é apenas um processo biológico, é também uma elaboração cultural e uma experiência plural: "Todos os homens são mortais: eles pensam nisso. Um grande número deles fica velho: quase nenhum encara com antecedência este avatar. Nada deveria ser mais esperado e, no entanto, nada é mais imprevisto que a velhice". Assim, ela busca o entendimento da percepção dos idosos pela sociedade, do tratamento que as sociedades primitivas davam aos idosos até conquistas e problemas existentes nas sociedades atuais, propondo uma mudança radical na sociedade, de forma a desmistificar as hipocrisias que cercam a velhice. A primeira metade é composta por uma visão de fora para dentro: como a sociedade e seus cidadãos veem a velhice, desde como as famílias tratam seus idosos até as visões de velhice dos filósofos e gigantes literários ao longo dos anos. Ela desmembra as influencias de filósofos e mostra como essas influências se sedimentaram na psique humana e estão incorporadas na sociedade da época. A segunda parte do livro é composta por uma visão de dentro para fora: a vida através dos olhos de um cidadão idoso, da pobreza à riqueza, assim como da fama ao desconhecimento, examinando os mitos e realidades de viver a velhice no mundo desenvolvido e apresenta provas de que apesar das expectativas da sociedade, os idosos ainda sentem as mesmas paixões que os mais jovens. Ela direciona e desafia criticamente a marginalização e negligência sofrida pelos cidadãos idosos, e desafia o leitor a mudar o seu futuro. Veja mais aqui.

 

A INSINUAÇÃO DELA

A língua aveludada passeia às voltas pelo batom rubro dos seus lábios de cangula.

A porta entreaberta do decote insinua os seus arfantes seios fartos.

A saia puxada expõe o lance estufado entre as suas coxas voluptuosas.

Assim ela está pronta muito mais pro meu insaciável ataque priápico.

(LAM)

Veja mais abaixo & aqui.

 


ULYSSES GAZE – Curtindo o cd da trilha sonora do filme Ulysses Gaze (Um Olhar a Cada Dia, 1995 – ECM Records), dirigido por Theo Angelopoulos, com músicas da compositora grega Eleni Karaindrou & performance da violinista estadunidense Kim Kashkashian, contando a história de um exilado cineasta grego que retorna à sua terra natal e inicia uma jornada através dos destruídos Balcãs, com a intenção de encontrar velhos rolos de filmes de um cineasta pioneiro, como sendo uma jornada interior, que o leva a descobrir um mundo dividido por guerras e ideologias. Veja mais aqui e aqui


Imagem: desenho do escultor, desenhista e ator de performance pernambucano de Palmares, Antonio José de Barros de Carvalho e Mello Mourão, o Tunga. Veja mais aqui, aqui e aqui.

GIUSEPPE GIOACHINO BELLI (1791-1863)

A EMBOCADURA

Que esfregações, gemidos, desbaratos!
Que arremessos a seco, numa enfiada!
Todos no alvo, por Cristo, desde a entrada:
Ficam bufando os dois como dois gatos.

Olhos vidrados, pior que de insensatos:
Pêlo com pêlo, boca a boca atada,
E enfia e empurra e bate sem parada;
Vai e vem, põe e tira num só ato.

Descalabro se um pouco mais durasse!
Chegada a brincadeira ao seu final,
Ficamos feito pedras, inconscientes.

É muito bom foder! Mas o ideal
Seria nos tornarmos realmente
Gertrudes toda cona e eu todo pau.
(Tradução de José Paulo Paes)

O PAI DOS SANTOS

O membro pode ser careca e anão
Estaca espada espeto espiga falo
Pavio bordão bengala pinto e galo
Palmito vara vassoura pilão

Mangalho manivela ou aguilhão
Ferro fumo porrete mastro malho
Lança-perfume fósforo caralho
Espingarda cacete obus canhão

Piroca pênis pau e pica e piça
Priapo prego porra pito e pino
Pirolito pistola pão rabiça

Mandioca nabo pimentão pepino
Banana macarrão peru lingüiça
Maçaranduba e mano pequenino
[tradução de Augusto de Campos]

A VIDA DO HOMEM

Nove meses no fedor, depois nas faixas,
por entre crostas, beijocas, lagrimonas,
depois à trela, na andadeira, em camisinha,
pára turras na testa, cueiros por calções.

Depois começa o tormento da escola,
o á bê cê, a vergasta e as frieiras,
a rubéola, a caca na cagadeira
e um pouco de escarlatina e de bexigas.

Depois o ofício, o jejum, a trabalheira,
a pensão a pagar, as prisões, o governo,
o hospital, as dívidas, a crica,

o sol no Verão, a neve no Inverno…
E por último – e que Deus nos abençoe –
vem a morte, e acaba no inferno.
(Trad. Alexandre O’Neill)

GIUSEPPE GIOACHINO BELLI (1791-1863) – Giuseppe Gioachino Belli foi autor de mais de dois mil sonetos e um poeta italiano, famoso por seus sonetos em romanesco, o dialeto de Roma.


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O viúvo do padre aqui.

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MARY OLIVER, ROSI BRAIDOTTI, VERONICA GORRIE & CHACRINHA

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