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domingo, maio 07, 2023

MARGE PIERCY, VIRGINIA WOOLF, GAUGUIN, TONI MORRISON, PALAHNIUK, WENDY BROWN & ASCENSO

 

 Imagem: Acervo ArtLAM.

Ao som dos álbuns Tous des Oiseaux (ECM, 2019), Concerto em Atenas (ao vivo – ECM, 2013) e Trojan Women (ECM, 2001), da compositora grega Eleni Karaindrou. Veja mais aqui.

 

KOAN ENTRE NOIT&DIAS Tem vexame não! Nestes tempos de frangofilia exacerbada, simulacros emulantes e teorias da conspiração, gestos e atitudes vão muito além de crimes e castigos, se quiserem! Quão verídica seja a emoção, coisas que não se dizem nem palavras algumas comportam entre o impreciso e o inadequado, transcendem intenções e linguagens. Ouvi Colette no meio da noite: Não chore, não junte os dedos em súplica, não se revolte: é preciso envelhecer... Era, na verdade, a ressurreta Catxerê que novamente invadia meus sentidos para me dá conta de que definira a minha face antes mesmo de eu nascer. Mostrava-me o quintal do brejo da Água Preta como prova cabal, lá onde eu menino a vi pela primeira vez como irmã entre as Marias de Órion e amigas das da Queiroz Rachel, quase as mesmas das cenas de Abranches, e recém-chegada das nuvens estelares. Dessa vez ela me falou que adorava a moda das crinolinas e as mortes um tanto glamurosas por afogamento ou incêndio – como a que ocorrera com a Frances do Longfellow e as irmãs de Oscar Wilde. Que coisa mais estranha, era. E jurou que um dia ainda usaria aquelas tournures para se sentir pavoneada, ao me explicar que cobra não se enrosca em pavão, o que para ela premiaria os olhos de Argos, a comer venenos para sobreviver imune, enquanto mudava de pele a cada estação. Aí coibiria o tráfico das penas pro carnaval do Sambódromo, afora perseguir os responsáveis impunes dos estupros e a coerção fanática religiosa aos abortos: coisas mais sem cabimento. Um tanto pensativa ruminou quem guardaria a sua dor, se já foi Zenóbia vencida pela fome e decapitada pela rebelião de Palmira. E como nada concluído nem anonimamente publicado, expressou-se Cornel West: Nunca esqueça que a justiça é como o amor se parece em público... Você não pode liderar o povo se não o ama. Você não pode salvar o povo se não servir ao povo... Se nada entendia, logo me alertou que já foi também a Creuza raptada pelo amor no Mysterioso Alado de Melchiades e que fora eu mesmo quem isso fizera a ela. Como? Disso nada sabia, nem pudera. Se as estranhices de sua deposição eram insinuantes, sua nudez era para lá de aprazíveis na minha vitalidade. Outras vidas dela tivera e a mim ternamente debulhou para se achegar ao meu peito tão vulnerável quanto cúmplice. Insinuou meus fracassos e me permitiu sonhar em seu corpo cósmico. Entroutras cenas me fez sentir Angelopoulos diante do Hino à Liberdade: O que pode o poeta fazer diante da morte?... Um dia apenas e a eternidade, era nela apenas o que me restara. Até mais ver.
 
DITOS & DESDITOS:
Imagem: Acervo ArtLAM.
[...] a vida é árdua, os fatos inflexíveis, e que a passagem para essa terra fabulosa onde nossas esperanças mais brilhantes se extinguem e nossas frágeis críticas malogram na escuridão exige, acima de tudo... coragem, lealdade e perseverança [...].
Trecho extraído da obra Rumo ao farol (Globo, 2003), da escritora inglesa Virginia Woolf (1882-1941). Veja mais aqui, aqui e aqui.
 
AMADA – [...] Libertar-se era uma coisa, reivindicar a posse desse eu liberto era outra. [...] O amor é ou não é. Amor fino não é amor de jeito nenhum. [...] Ela é uma amiga da minha mente. Ela me pega, cara. Os pedaços que eu sou, ela os junta e os devolve para mim na ordem certa [...] Conversas doces e malucas cheias de meias frases, devaneios e mal-entendidos mais emocionantes do que o entendimento jamais poderia ser. [...] As definições pertencem aos definidores, não aos definidos. [...]. Trechos extraídos da obra Beloved (Vintage, 2004), da escritora estadunidense e ganhadora do Prêmio Nobel de Literatura de 1993, Toni Morrison, autora da pérola: Se há um livro que você quer ler, mas ainda não foi escrito, então você deve escrevê-lo. Esta obra foi transformada em filme Bem-amada (1998), dirigido por Jonathan Demme, protagonizado, proposto e produzido pela jornalista, atriz, psicóloga e editora estadunidense Oprah Winfrey, que a respeito do projeto expressou: “E toda manhã, depois de meditar, eu chamava os nomes desses escravos, um por um. E dizia: estou fazendo isto por você, para que vocês tenham voz. Vocês nunca tiveram voz, por isso eu lhe estou emprestando a minha. E eu sentia que eles estavam comigo o tempo todo”. A história se passa depois da Guerra Civil Americana (1861-1865) e é inspirada na história de Margaret Garner, que escapou da escravidão em 1856. Conta a história de Sethe e sua filha Denver depois de sua fuga. Sua casa em Cincinnati é assombrada por um fantasma, que eles acreditam ser de uma das filhas de Sethe, morta quando era um bebê. Paul D, um ex-escravo da mesma plantação que Sethe era escrava, chega na casa e passa a viver com as duas mulheres e acabando com as assombrações. Mas uma mulher misteriosa chamada Beloved aparece na porta da casa, iniciando uma série de mudanças na vida dos três e fazendo-os confrontar seus passados. Veja mais aqui, aqui e aqui.
 
GAUGUIN: [...] Queres saber quem sou; minhas obras não são suficientes para ti. Inclusive no momento em que escrevo, só estou revelando o que quero revelar. E que acontece se às vezes me vês assim, nu? Não há problema; é o homem interior o que queres ver. Além disso, eu mesmo não me vejo sempre muito claramente. [...]. Texto escrito pelo pintor do pós-impressionismo francês Paul Gauguin (1848-1903), extraído da obra Gauguin: gênios da arte (Girassol, 2007), de Silvia Muñoz de Imbert e coordenado por Jan-Ramón Triadó Tur. Veja mais aqui.
 
THE LOW ROAD
Imagem: Acervo ArtLAM.
O que eles podem fazer com você?  
O que eles quiserem...  
Eles podem armar para você, prendê-lo,  
podem quebrar seus dedos,  
queimar seu cérebro com eletricidade,  
borrá-lo com drogas até que você  
não consiga andar, não consiga se lembrar.  
eles podem tirar seus filhos,  
cercar seu amante;  
eles podem fazer qualquer coisa que você não pode impedi-los de fazer.  
Como você pode detê-los?  
Sozinho você pode lutar, você pode recusar.  
Você pode se vingar de qualquer maneira,  
mas eles passam por cima de você.
 Mas duas pessoas lutando costas contra costas  
podem cortar uma multidão  
uma fogueira dançante de cobra
pode romper um cordão de isolamento,
cupins podem derrubar uma mansão
Duas pessoas podem manter a sanidade uma da outra
pode dar apoio, convicção,
amor, massagem, esperança, sexo.
Três pessoas são uma delegação
uma célula, uma cunha.
Com quatro você pode jogar
e começar um coletivo.
Com seis você pode alugar uma casa inteira,
comer torta no jantar sem segundos
e fazer sua própria música.
Treze formam um círculo,
cem preenchem um corredor.
Mil têm solidariedade
e boletim próprio;
dez mil comunidades
e seus próprios papéis;
cem mil, uma rede de comunidades;
um milhão de nosso próprio mundo.
Vai um de cada vez.
Começa quando você se preocupa em agir.
Começa quando você faz de novo
depois que eles dizem não.
Começa quando você diz nós
e sabe quem você quer dizer;
e cada dia você significa mais um.
Poema da escritora e ativista social estadunidense Marge Piercy. Veja mais aqui.
 
ESTADOS DE LESÃO - [...] Esse esforço para estabelecer o racismo, o sexismo e a homofobia como moralmente hediondos na lei, também lança a lei em particular e o estado em geral como árbitros neutros de danos, em vez de investidos do poder de ferir. Assim, o esforço para "proibir" a injúria social legitima poderosamente a lei e o Estado como protetores apropriados contra injúrias e lança os indivíduos lesados como necessitando de tal proteção por tais protetores. [...]. Trecho extraído da obra States of Injury: Power and Freedom in Late Modernity (Princeton University Press, 1995), da professora e pesquisadora estadunidense Wendy L. Brown, autora da pérola: Esteja alguém lidando com o estado, a máfia, pais, cafetões, policiais ou maridos, o alto preço da proteção institucionalizada é sempre uma medida de dependência e concordância em cumprir as regras do protetor... Veja mais aqui.
 
DIARIO – [...] É tão difícil esquecer a dor, mas é ainda mais difícil lembrar a doçura. Não temos nenhuma cicatriz para mostrar a felicidade. Aprendemos tão pouco com a paz. [...]. Trecho extraído do Diary (Anchor, 2004) do escritor estadunidense Chuck Palahniuk. Veja mais aqui e aqui.
 
UNA-SE, O RIO É SEU... ASCENSO FERREIRA.
Sentes que a minha vida é um rio caudaloso, \ tomado do delírio das enchentes, \ correndo alucinado para o mar! \ E te assombras, com medo dos abismos, \ onde as águas nos seus loucos paroxismos \ te possam arrastar... \ No entanto, sobre a flor dessas águas tempestuosas, \ leve com as espumas vaporosas, \ hás de sempre boiar... \ Sentindo a sensação deliciosa \ de que as águas arrogantes, tumultuosas, \ estão cantando para te ninar.
Nana, Nanana, poema do poeta Ascenso Ferreira (1895-1965). Veja mais aqui, aqui, aqui & aqui.

 



segunda-feira, maio 01, 2023

CAITLIN MORAN, ALMODÓVAR, AMANDA GORMAN, ZUMTHOR, SHERRY TURKLE, FENOGLIO & & AGRESTINA

 

Imagem: Acervo ArtLAM.

Ao som do Concerto Elegia (Elegia, Solilóquio e Final) para Flauta e orquestra de cordas (2015), da compositora estadunidense Ellen Taaffe Zwilich. Veja mais aqui e aqui.

 

ENTRELINHAS DO PAIDEUMA – Na travessia do dia nada mais que noitescuridão, nem nada lisonjeiro, por enquanto, acredito: o aversivo não dura a vida inteira, impossível. Uma estrela solitária pisca pra mim na lonjura da galáxia e quase nem vejo. O surpreendente é que ela desce vertiginosamente e, antes de espatifar na queda, levita qual águia bicéfala rondando meus domínios. Depois de volteios e flertes ela aterrissa elegantemente. Aos poucos se transforma na linda e nua Catxerê. Aproxima-se a me dizer que traz revelações poimândricas – ali eu me via atordoado com aquela chegada, parecia mais que era eu Asclépio insone nos confins de tudo. Passou-me um volume e logo abriu para me mostrar a folha de rosto na qual estava impresso no centro o quadrado sator em alto relevo. Mencionou tratar-se de textos do Ayvú rapyta. Fitei-a e voltei para a caligrafia colorida dos escritos ininteligíveis: estava em bustrofédon, salientou receptiva. Diante da minha interrogação a respeito, senti-me numa viagem noética de Stephan Dédalus errante numa Dublin inexistente, como um retrato de Telêmaco apagado da Odisseia, ou imprudente Ícaro a confrontar o labirinto do pai na vez de ir embora e no meio de um diário inquisidor de quem esquecera as lições de Frobenius, em total apostasia para distinguir o responsável pela desgraça humana se não o próprio. Ouvi furioso Hamlet: a racionalidade é covardia. Ela apenas me olhava e eu sabia: os mortos clamavam por justiça no buraco azul de Belize. Era como se ela me interrogasse de quem ainda hoje olha pro céu quando não o umbigo altivo, se estava selado o divórcio com o divino e que todos erramos como quem descura da vida. Não via salvação alguma, sentia-me um mentiroso contingente que singrava o tempo ao lado dela com o blues de Crumb: porque haverá amanhã mesmo no meio da maior celebração da dança da morte pelas redondezas dos paradoxos! Ela parecia me entender e lia minha revolta em meus pensamentos: Ah, seres permeáveis olvidam a alquimia fogáguas, um tanto desolador por tão sombrio. Sim, mas ela sabia de mim: como dois e dois são seis já sou sete vezes noves fora um! Colherei o que semeei, pelo menos. Onde o problema se não em nós mesmos: estragamos tudo, emporcalhamos o planeta, desgraçamos a vida. Eu sei: tudo por fazer. Sim. Estendeu-me as mãos e sorriu, era apenas uma estrela e me entregou a luz possível. Até mais ver.

 

DITOS & DESDITOS

Imagem: Acervo ArtLAM.

O desejo é uma coisa irracional pela qual você sempre tem que pagar um preço alto. Felizmente, a natureza me dotou de uma curiosidade irracional, mesmo para as coisas mais triviais. Isso me salva. A curiosidade é a única coisa que me mantém à tona. Todo o resto flui para mim. Ah! E vocação. Não sei se conseguiria viver sem ela. Há uma grande beleza na deterioração física. Você nem sempre será jovem, digo por experiência própria. Dor e vergonha também são uma prisão.

Pensamento do cineasta Pedro Almodóvar. Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui, aqui e aqui.

 

SOZINHOS JUNTOS – […] Esperamos mais da tecnologia e menos uns dos outros. […] As mensagens de texto oferecem a quantidade certa de acesso, a quantidade certa de controle. Ela é uma Cachinhos Dourados moderna: para ela, enviar mensagens de texto coloca as pessoas nem muito perto, nem muito longe, mas na distância certa. O mundo agora está cheio de Cachinhos Dourados modernos, pessoas que se confortam em estar em contato com muitas pessoas que também mantêm afastadas. [...]. Trechos extraídos da obra Alone Together: Why We Expect More from Technology and Less from Each Other (Basic Books, 2012), da socióloga, psicóloga e psicanalisya estadunidense Sherry Turkle, autora de obras como The Second Self (1984), Life on the Screen (1995) e Reclaming Conversation (2015). Dela a expressão: Os relacionamentos humanos são ricos, confusos e exigentes. E nós os limpamos com tecnologia. Mensagens de texto, e-mail, postagem, todas essas coisas nos permitem apresentar o eu como queremos ser. Podemos editar, e isso significa que podemos deletar, e isso significa que podemos retocar, o rosto, a voz, a carne, o corpo -- nem pouco, nem muito, apenas certo...

 

COMO SER UMA MULHER - [...] Precisamos recuperar a palavra 'feminismo'. Precisamos muito da palavra 'feminismo' de volta. Quando as estatísticas dizem que apenas 29% das mulheres americanas se descreveriam como feministas - e apenas 42% das mulheres britânicas - eu costumava pensar: o que vocês acham que é o feminismo, senhoras? Que parte da 'libertação para as mulheres' não é para você? É liberdade de voto? O direito de não ser propriedade do homem com quem você se casou? A campanha pela igualdade salarial? 'Vogue' de Madonna? Jeans? Toda aquela merda boa TE DEU NERVOSO? Ou você estava apenas BÊBADA NO MOMENTO DA PESQUISA? [...] Não consigo entender os argumentos antiaborto centrados na santidade da vida. Como espécie, demonstramos de forma bastante abrangente que não acreditamos na santidade da vida. A aceitação indiferente da guerra, fome, epidemia, dor e pobreza ao longo da vida nos mostra que, não importa o que digamos a nós mesmos, fizemos apenas o mais débil dos esforços para realmente tratar a vida humana como sagrada. [...] Quando uma mulher diz: 'Não tenho nada para vestir!', o que ela realmente quer dizer é: 'Não há nada aqui para quem eu deveria ser hoje. [...]. Trechos extraídos da obra How to Be a Woman (Harper Perennial, 2012), da escritora, jornalista e radialista inglesa Caitlin Moran.

 

IN THIS PLACE

(Imagem: Acervo ArtLAM)

Há um poema neste lugar— \ nos passos nos corredores \ na batida silenciosa dos assentos.\ É aqui, na cortina do dia, \ onde a América escreve uma letra \ você deve sussurrar para dizer.

Há um poema neste lugar—\ na pesada graça, \ a face alinhada deste nobre edifício, \ coleções queimadas e renascidas duas vezes.

Há um poema na Copley Square de Boston \ onde cantos de protesto \ rasgar o ar\ como lençóis de chuva, \ onde o amor de muitos\ engole o ódio de poucos.

Há um poema em Charlottesville \ onde tochas tiki encadeiam um anel de chamas \ apertado em volta do pulso da noite \ onde homens tão brancos que brilham em azul— \ parecem estátuas \ onde os homens amontoam aquela longa queima de cera \ cada vez mais alto \ onde Heather Heyer \ floresce para sempre em um prado de resistência.

Há um poema no grande gigante adormecido \ do Lago Michigan, levantando desafiadoramente \ sua grande cabeça azul para Milwaukee e Chicago— \ um poema iniciado há muito tempo, queimado em solo congelado, \ desfilando para cima e brilhando.

Há um poema na Flórida, no leste do Texas \ onde as ruas incham em um nexo \ de rios, vacas flutuando como bóias manchadas no marrom, \ onde a coragem agora é tão comum \ que Jesus Contreras, de 23 anos, resgata pessoas de enchentes.

Há um poema em Los Angeles \ bocejando como a maré do Pacífico \ onde uma mãe solteira sufoca \ em uma sala de aula sem janelas, ensinando \ estudantes negros e pardos em Watts \ para soletrar seus pensamentos \ para que sua filha possa escrever \ este poema para você.

Há uma letra na Califórnia \ onde milhares de estudantes marcham por blocos, \ sem documentos e sem medo; \ onde minha amiga Rosa encontra o poder de florescer \ em um impasse, seu espírito é o alicerce de sua comunidade. \ Ela sabe que a esperança é como um teimoso \ navio segurando uma doca, \ uma verdade: que você não pode parar um sonhador \ ou derrubar um sonho. Como isso não poderia ser a cidade dela \ sua nação \ nosso país \ nossa América, \ nossa letra americana para escrever— \ um poema do povo, dos pobres, \ o protestante, o muçulmano, o judeu, \ o nativo, o imigrante, \ o preto, o moreno, o cego, o bravo, \ os indocumentados e implacáveis, \ a mulher, o homem, o não-binário, \ o branco, o trans, \ o aliado de todos os itens acima \ e mais? Os tiranos temem o poeta. \ Agora que sabemos disso \ não podemos explodi-lo. \ Nós devemos isso \ para mostrar \ não diminua isso \ Apesar disso \ dói para costurar \ quando o mundo \ saias abaixo dela. \ Ter esperança- \ devemos concedê-lo \ como um pavio no poeta \ para que cresça, iluminada, \ trazendo com ele \ histórias para reescrever— \ a história de uma cidade do Texas esgotada, mas não derrotada \ uma história escrita que não precisa ser repetida \ uma nação composta, mas ainda não concluída.

Há um poema neste lugar— \ um poema na América \ um poeta em cada americano \ que reescreve esta nação, que conta \ uma história digna de ser contada neste peixinho de uma terra \ para insuflar esperança num palimpsesto do tempo— \ um poeta em cada americano \ quem vê que nosso poema escrito \ não significa o fim do nosso poema.

Há um lugar onde este poema habita— \ é aqui, é agora, na canção amarela do sino da aurora \ onde escrevemos uma letra americana \ estamos apenas começando a contar.

Poema da poeta estadunidense Amanda Gorman.

 

A PERMANÊNCIA DA VOZ – [...] Devido a um preconceito há vários séculos arraigado nas mentalidades e no gosto do Ocidente, só admitimos os produtos da arte e da língua sob forma escrita, abrindo uma única exceção para o teatro [...]. Trecho extraído da obra A Permanência da Voz (O Correio/FGV, outubro 1985), do historiador, linguista e medievalista suíço Paul Zumthor (1915-1995).

 

O PARTIDÁRIO – [...] Foi tremendamente emocionante e comovente marchar escada abaixo naquela suspensão de partidarismo. Johnny sentiu-se como um padre católico à paisana ou um militar à paisana pode sentir: as armas racionalmente escondidas sob o vestido, o sinal estava sempre sobre ele: partidário in aeternum [...] Espancado. Eu amo homens espancados. [...] Então a onda de medo da batalha repensada subiu por sua espinha, longa e lenta. [...]. Trechos extraídos da obra Il Partigiano Johnny (Einaudi, 2014), do escritor italiano Giuseppe Fenoglio (1922-1963). Veja mais aqui.

 

VALUNA: AGRESTINA

(Imagem: Acervo ArtLAM).

Passageiro do tempo noitedia pelo que inexistia e não, outonos a mais e volta ao mundo, as raízes do chão e do céu, pés e cabelos, dos tempos da seca devastadora que jorrava o Bebedouro e os milagres da talha de Santo Antônio...

Homenagem ao Município de Agrestina – Pernambuco. Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui, aqui e aqui.

 


terça-feira, agosto 14, 2018

LE CLEZIO, MARIA CALLAS, EAGLETON, CARLINHOS OLIVEIRA, SYLVIE GUILLOT & CATXERÊ.


TODA MULHER É UMA ESTRELA – Imagem: arte da artista francesa Sylvie Guillot. - Uma estrela levitava, eu vi, desceu aos poucos, lá atrás do morro, desapareceu. Fui lá, às carreiras, queria vê-la. Fui num pé só. Andei quanto não sei, cheguei lá, não a vi. Nem podia, cadê-la. Como poderia saber? Bati os quatro cantos, atrás das moitas, toda a chã, terreiros, descampados. Muito depois soubera: transformara-se numa rã, pula, pula. Refiz o trajeto e nem sinal da descida da estrela. Ah, como andei e depois de muito, desisti, voltava pra casa, uma rã pulou no meu peito. Com a mão, joguei fora. Quando olhei de novo, era uma bela mulher, branca e nua. Pé atrás, fiquei mirando. Vixe! Tão branca chega brilhava e lá vinha ela em minha direção. Dei uns passos pra trás, olhei dum lado pra outro, não havia ninguém. E ela pediu-me guardá-la num porongo. Que é isso? Não sabia. Mostrou-me uma cabaça, para colocá-la sobre o fumeiro. Peguei a cabaça e guardei-a lá, levei para casa. Lá abri, ela saiu e ensinou-me a vida: das coisas de antes da criação, de como tudo foi feito, da vida, gentes e bichos. Aprendi com ela: toda mulher é feita de luz. Contou-me histórias de Sheherazade, das mil e todas as noites, zis dias, eras e etéreas. Flagrei sua ternura quente: toda mulher não é apenas uma, mas muitas, se não todas, parece até nenhuma quando minguante. É só entrega no amor, amabilidade no seu jeito esguio, suor escorrendo lágrimas, brasa aquecida no coração: nave da vida, de nascença. O seu prazer é foguete singrando os céus pelo infinito, entresseios, entressalas, curvas, quadris, a passear por aí, pés no chão e pernas nuas desfiando labirintos pro abrigo das coxas ao porto seguro do ventre morno pronto pra combustão: uma fogueira em ebulição. E isso de norte a sul, leste a oeste, quantas rotações tantas translações. É preciso saber. Mais tivesse ela para que eu seja maior que sou, a dormir e a sonhar, o sonho vale muito mais, desvelando segredos no que é dela, tudo que se esvai e não foi em vão, enfim. E eu cantasse O amor, não seria nada, apenas homenagem passageira e fosse pouco assim mesmo perto da sua grandeza demais da conta, grandeza de Fonte e foz pro mar sem fim. É ela. E novamente no vaso, desfrutava do aprendizado, o que sabia, mais queria. E retornava de noite pra ela me contar das suas até o amanhecer, eu tinha que trabalhar. E me premiava com um sorriso para que meu dia fosse de paz. Certa feita, ao chegar em casa, alguém violara o meu segredo. Quem poderia? Cismei na zanga, porque ela, Catxerê fugiu, subiu aos céus e de lá brilha todas as noites na minha solidão. PS: Recriação da lenda Catxerê, a mulher estrela, recolhido das Lendas dos índios Craó (Revista do Museu Paulista, 1950), de Harald Shultz. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais abaixo & mais aqui e aqui.

RÁDIO TATARITARITATÁ:
Hoje na Rádio Tataritaritatá especial com a música da soprano grega Maria Callas (1923- 1977): Casta diva, O mio bambino caro, Carmen de Bizet (Habaniera) & Mon coeur s’ouvre a ta voix & muito mais nos mais de 2 milhões & 500 mil acessos ao blog & nos 35 Anos de Arte Cidadã. Para conferir é só ligar o som e curtir. Veja mais aqui, aqui, aqui e aqui.

PENSAMENTO DO DIA – [...] O papel do escritor é dar voz aos silenciados, colocar a linguagem onde as coisas estão aparentemente sem palavras [...]. Pensamento extraído da obra História do pé e outras fantasias (Cosac & Naif. 2012), do escritor franco-mauriciano e Prêmio Nobel de Literatura de 2008, Jean-Marie Gustave Le Clezio.

O PÓS-MODERNO [...] Talvez haja consenso quanto a dizer que o artefato pós-moderno típico é travesso, auto-ironizador e até esquizoide; e que ele reage à austera autonomia do alto modernismo ao abraçar impudentemente a sua relação com a tradição cultural, é de pastiche irreverente, e sua falta de profundidade intencional solapa todas as solenidades metafisicas, por vezes através de uma brutal estética da sordidez e do choque [...]. Trecho extraído de Awakenig from modernity (Tomes Literary Suplement, 20 de janeiro de 1987), do filósofo e crítico literário britânico Terry Eagleton. Veja mais aqui

ADÃO E EVA Relendo velhos textos, observo que a todo instante me preocupa uma única situação. A solidão do homem, a solidão da mulher. Não a solidão dos homens, do gênero humano: do homem com relação à mulher e vice-versa. Suspeito que o momento supremo da nossa aventura ocorreu quando o Senhor Deus exorbitou de suas funções, por assim dizer. Ele já havia feito tudo e só lhe restava descansar, pois era domingo, e, sábado, toda a Criação tinha passado a noite no Jirau, inclusive Ele. Mas parece que o Homem, Adão, achava aquela festa muito aborrecida, pois não dançou com ninguém, bebeu demais e é possível até que tenha dado um vexame. Suponho que no meio da noite ele tenha decidido apanhar de qualquer maneira a fêmea do Canguru, aliás exímia dançarina de twist, e senhora um tanto leviana, pois mal emergira da argila e já se punha a flertar com o Rei da Criação. Mas não fica bem, a um cavalheiro, estar a julgar a conduta da mulher alheia: esqueçamos isso e voltemos a Adão, ébrio e cafardento, lançado num Paraíso em que todos os bichos estavam acompanhados, menos ele. Todo o mundo reparou que ele não estava feliz. As senhoras, no toalete, não fizeram outro comentário — todas elas dispostas a fazer qualquer coisa para consolá-lo, porque os machos tristonhos sempre gozaram de grande prestígio junta às fêmeas de toda a escala zoológica, e o Senhor Deus, psicólogo de rara penetração, adivinhou que o Paraíso estava resvalando para o perigoso terreno da galhofa — como diria, muitos milhões de anos depois, um cronista particularmente femeeiro… Não apenas estávamos à beira do adultério, como diante de algo muito mais grave — uma degradação. Imaginem se Adão, no auge do pileque, fazendo um papel muito mais feio do que Noé, inaugurasse o cruzamento de homem com, digamos, sapo, ou percevejo, ou jacaré, ou cobra d’água! Felizmente — ou graças a Deus: parece que ele, em sua infinita sabedoria, foi servindo mais e mais uísque à medida que Adão esvaziava o copo, de modo que o velho Adão foi apagando, apagando e — zás! emborcou. …Foi quando extraímos uma costela, com a qual esculpimos uma forma nova, cheia de graça, com cabelos habilmente manipulados pelo Reinaud e tendo sobre o alvo ventre uma folha de parreira confeccionada por José Ronaldo… Assim nasceu Dona Eva, na intimidade Vivi sem sobrenome, porque não tinha pai nem mãe. E ela chamou Adão para irem ao Bob’s, digo, ao bosque, onde estava a afamada Árvore da Sabedoria. E a serpente disse a Eva: “Olha, Eva, a coisa mais bacaninha que há para fazer, hoje em dia é comer daquela maçã que você vê ali naquela árvore. É a coqueluche de Paris — todo mundo comendo maçã no New Jimmys, no Maxim’s, no Plaza Athenée Rellays, no Bois de Bologne!” Eva achou a idéia fabulosa e perguntou a Adão que tal lhe parecia. Adão no momento não tinha dinheiro no bolso (estava nu, coitado), mas a Serpente emprestou, Adão comprou a maçã e Eva disse: “Morde aqui”.Adão mordeu. Eva também. Foi quando dos grandes Céus os exércitos de anjos desceram céleres sobre o Paraíso, e suas vozes faziam um clamor de tempestade, e eles clamavam: “Nós também queremos! Nós também queremos!”. Mas só Adão e Eva tiveram permissão. Na verdade, Eva é que acabou sendo a dona do negócio, tanto que certa ocasião, depois de folhear a revista Playboy, Adão lhe aplicou um beijo no cangote e disse: “Vamos comer maçã? Que dia lindo para comer maçã!” E Eva, bocejante, sob os cabelos enrolados em bob: “Hoje não, Adão. Hoje estou com muita dor de cabeça”. Conto do escritor José Carlos Oliveira (1934-1986), celebre pela criação da Patetocracia: Contra a censura, pela cultura - Todo dia um pateta qualquer enfia sua pata numa peça de teatro e corta as frases que lhe parecem atentatórias à moral, aos bons costumes e à democracia. Não se passa uma tarde sem que outro pateta dê o ar de sua graça, cortando sequências inteiras de filmes

DOIS POEMASUMA DÁLIA – Ó cortesã de seio duro e olho sem lume / como o de um boi aberto / lento e sem esforço / como um mármore novo luz teu grande torso / flor rica e gorda em torno a ti não há perfume / nenhum flutuando e de teu corpo e calma graça / impecáveis acordes desenrola baça / tu bem sabes a carne, este gosto que ao menos / vão exalando aquelas que vão fanando os fenos / e pompeias em meio a incensos não sentidos / - Assim a dália, esta tainha de esplendor / eleva seu orgulho a fronte sem odor / irritante no meio de jasmins atrevidos. MAS O SOL AMANHÃ – Mas o sol amanhã doce redoura e aquece / o centeio e os trigais que a brisa ainda umedece / com o azul conservou a frescura noturna ;/ sai-se só por sair logo a gente se enfurna / ao longo da ribeira, toda arbustos calmos / um caminho de alfombra circundado de almas / o ar é vivo; eis que uma ave atravessa a atmosfera / no bico de alguma palha ou algum fruto da hera / deixa na água o reflexo após suas passagem / é tudo / e o sonhador adora esta paisagem / cuja clara doçura de pouco acariciou / seu sonho de ventura imensa e acalentou / a saudade de flor, desta jovem infanta / nevada aparição que cintila e que canta / e que ao poeta é sonho e ao homem nostalgia / evocando em seus votos, de que talvez se ria / esta alma que ele enfim encontrou, esta data / que sua alma em soluços ainda reclama. Poemas extraídos da obra Poema (Difel, 1962), do poeta francês Paul Verlaine (1844-1896). Veja mais aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
A arte da artista francesa Sylvie Guillot
Veja mais aqui.

AGENDA
Festival de inverno da Várzea (FIV) - 24 & 25 de agosto, 6hs, Praça Pinto Dâmaso (Praça Da Várzea), Av. Afonso Olindense, Recife – PE & muito mais na Agenda aqui.
&
Catxerê, a mulher estrela aqui
&
A vida na janela, A criança de Henri Wallon, As veias da América de Eduardo Galeano, Perdas & Ganhos de Lya Luft, Fernando & Isaura de Ariano Suassuna, Contrastes Filosóficos, Fecamepa, a poesia de cordel de João de Castro, a arte de Rivail Azevedo, Ginásio Municipal dos Palmares & Políticas em Debate aqui.


quarta-feira, abril 22, 2015

BACH, KANT, ELIOT, NABOKOV, MENUHIN, CATXERÊ, MAE WEST, SIEFFERT, NATANAEL LIMA, O JACARÉ & A PRINCESA.


O JACARÉ E A PRINCESA – Era uma vez uma moça linda que ambicionava se tornar princesa. Para tanto, ela tinha que domar um jacaré terrível que aterrorizava a população. Ela se dispôs a esse propósito e faz com que uma história de desafios e possibilidades possam realizar sonhos, anseios e desejos. Confira aqui e aquiLEMBRETE: Hoje é dia de reprise do programa Brincarte do Nitolino pras crianças de todas as idades. Horário das reprises: 10hs e 15hs, no projeto MCLAM, com apresentação de Ísis Corrêa Naves. Para conferir online é só clicar aqui ou aqui.

Imagem: Reclining Nude (female back), do pintor francês Paul Sieffert (1874-1957). Veja mais aqui.

Ouvindo Violinkonzerte nº13 - Concertos pour violons Festival Orchestra (EMI, 1990), do compositor alemão Johann Sebastian Bach (1685-1750), com o violinista e maestro estadunidense de origem britânica-suíça Yehudi Menuhin (1916-199)

CATXERÊ, A MULHER ESTRELA (Imagem: ilustração de J. Lanzelotti)Esta é a estória de Catxerê, a mulher estrela, que desceu do céu, dormiu com o índio e ensinou os Craó a plantar e preparar o milho, batata, inhame, mandioca e amendoim. Foi assim: o último rapaz solteiro da tribo dormia sozinho, sobre a sua esteira, no pátio da aldeia. Uma estrela o viu lá de cima, e, condoída, resolveu casar com ele. Para isso, transformou-se num sapo e, pula que pula, trepou no seu peito. O dorminhoco acordou assustado e, com um tapa, atirou-o no chão. Mas o sapo virou formosa mulher e dormiu com o jovem. De manhã, a cunhantã diminuiu de tamanho, ficou assinzinha, e pediu ao noivo que a guardasse no porongo que estava pendurado no fumeiro. Durante o dia, o índio tirou o porongo do lugar, destampou-o e sorriu para a moça que lá estava encerrada. Depois, tampou-o, amarrou a tampa e pendurou-o de novo no fumeiro. Quando saiu para caçar, recomendou que ninguém mexesse naquilo, mas a irmã dele, cheia de curiosidade, abriu-o e descobriu lá dentro a minúscula mulher. Ao voltar, examinou o nó tradicional da sua tribo e compreendeu que alguém havia violado o seu segredo. Zangado, declarou que viveria com Catxerê, como marido e mulher. – Não vou dormir mais no pátio, como os solteiros! A irmã arrumou as suas camas dentro da casa. De noite, ele tirou a moça da cumbuca e Catxerê cresceu, tornando-se alta e bonita. De manhã, foram banhar-se juntos no rio, e ela viu uma árvore grande, cheia de espigas, que os periquitos bicavam. Catxerê ensinou aos Craó como se planta, colhe e prepara o milho, assim como a mandioca, o inhame e o amendoim, que até então não eram conhecidos, pois os indígenas alimentavam-se de pau puba. Mandou o rapaz fazer uma roça. Ensinou-o a derrubar com o facão, a carpir, a plantar. Depois, disse: - Agora, vou ao céu, onde vivem meus parentes, a fim de trazer mudas de batata, inhame, mandioca e amendoim, para plantar na roça. Logo depois voltou; a roça foi plantada e os índios adotaram para sempre as plantas ali cultivadas. Uma noite, porém, quando o rapaz andar a caçar, apareceram em sua casa cinco homens que, sabendo da sua ausência, violentaram a mulher-estrela. Depois, foram dormir. Ela aproveitou o sono e cuspiu na boca de todos eles, um por um, matando-os. Os Craós ligam grande importância a mágica do cuspo. Quando o marido voltou, contou-lhe tudo e subiu para o céu. E nunca mais voltou. (Recolhido de SHULTZ, Harald. Lendas dos índios Craó. Revista do Museu Paulista, Nova Série, Vol. IV, pp. 83-86, São Paulo, 1950). Veja mais aqui, aquiaqui.

FUNDAMENTAÇÃO DA METAFÍSICA DOS COSTUMES – A obra Fundamentação da metafísica dos costumes (1785, 70LDA, 2007), do filósofo alemão Immanuel Kant (1724-1804), aborda com profundidade o problema do imperativo moral, irredutível a qualquer outro fundamento anterior, trazendo da primeira parte a transição do conhecimento moral da razão para o conhecimento filosófico. Na segunda parte aborda a transição da filosofia moral popular para a metafísica dos costumes e, na terceira e última seção, transição da metafisica dos costumes para a crítica da razão prática. Da obra destaco o trecho a seguir: [...] O uso especulativo da razão, com respeito à natureza, conduz à absoluta necessidade de qualquer causa suprema do mundo; o uso prático da razão, com respeito à liberdade, conduz também a uma necessidade absoluta, mas somente das leis das ações de um ser racional como tal. Ora, é um princípio essencial de todo o uso da nossa razão levar o seu conhecimento até à  consciência da sua necessidade (pois sem. ela não seria nunca conhecimento da razão). Mas também é uma limitação igualmente essencial da mesma razão não poder ela conhecer a necessidade nem do que existe ou acontece, nem do que deve acontecer, sem pôr uma condição sob a qual isso existe ou acontece ou deve acontecer. Desta sorte, porém, pela constante pesquisa da condição, vai sendo sempre adiada a satisfação da razão. Por isso ela busca sem descanso o incondicional necessário e vê-se forçada a admiti-lo, sem meio algum de o tornar concebível a si mesma; feliz bastante quando pode achar já só o conceito que se compadece com este pressuposto. Não é, pois, nenhum defeito da nossa dedução do princípio supremo da moralidade, mas é sim uma censura que teria de dirigir-se à razão humana em geral, o ela não poder tornar concebível uma lei prática incondicionada (como tem que sê-lo o imperativo categórico) na sua necessidade absoluta; pois não há que censurá-la por que ela o não queira fazer por meio de uma condição, quer dizer por meio de qualquer interesse posto por fundamento, porque então não seria uma lei moral, isto é, uma lei suprema da liberdade. E assim nós não concebemos, na verdade, a necessidade prática incondicionada do imperativo moral, mas concebemos, no entanto, a sua inconcebibilidade, e isto é tudo o que, com justiça, se pode exigir de uma filosofia que aspira a atingir, nos princípios, os limites da razão humana. Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui, aquiaqui.

LOLITA – O romance Lolita é a obra mais célebre do escritor russo Vladimir Nabokov (1899-1977), contando a história da relação amorosa entre um intelectual de meia idade e uma jovem adolescente. Da obra destaco o seguinte trecho: [...] Se comparecesse a julgamento perante mim próprio, aplicaria a Humbert, pelo menos, trinta e cinco anos de cadeia por violentação e retiraria todas as outras acusações. Mas, mesmo assim, Dolly Schiller sobreviver-me-á, provavelmente, muitos anos. Tomei a decisão seguinte, com todo o impacte e toda a validade de um testamento assinado: desejo que este relato só seja publicado quando Lolita já não viver. Assim, nenhum de nós estará vivo quando o leitor abrir este livro. Mas, enquanto o sangue latejar na minha mão que escreve, tu continuarás a fazer parte da abençoada matéria, tanto como eu, e ainda poderei falar contigo, daqui para o Alasca. Sê fiel ao teu Dick. Não deixes outros tipos tocarem-te. Não fales com desconhecidos. Espero que ames o teu bebé, assim como espero que o teu marido te trate sempre bem, pois de contrário o meu espírito descerá sobre ele como fumo negro, como gigante dementado, e destrui-lo-á nervo por nervo. E não lamentes C. Q. Havia que escolher entre ele e H. H. e desejava que H. H. existisse pelo menos mais uns meses, para que tu vivesses no espírito de futuras gerações. Penso em auroques e anjos, no segredo dos pigmentos duráveis, em proféticos sonetos, no refúgio da arte. E essa é a única imortalidade que tu e eu podemos compartilhar, minha Lolita. Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aquiaqui.

O SIMBOLISMO DO TEATRO – No texto O simbolismo do teatro (Estética teatral, 1980), o poeta, dramaturgo, crítico literário inglês e Prêmio Nobel de 1948, Thomas Stearns Eliot (1888-1965), assinala que: [...] Temos de um lado o drama poético, imitação do grego, imitação do isabelino ou filosófico-moderno. Do outro a comédia de ideias de Shaw a Galsworthy, até a comedia social vulgar. A farsa mais raquítica de Guitry tem no final uma ideia ou comentário mesquinho sobre a vida posto na boca de uma das personagens. Diz-se que o palco pode ser usado para uma multiplicidade de objetivos, e que talvez só um deles esteja unido à arte literária. Um teatro mudo é uma possibilidade (não me refiro ao cinema); o ballet é uma realidade (embora subíntima); a ópera uma instituição; mas quando temos o palco, imitações de vida com fala, o único padrão que podemos permitir é o da obra de arte, tendo como objetivo a mesma intensidade a que aspira a poesia e outras formas de arte. Nesta perspectiva o drama de Shaw é tão híbrido como o de Maeterlink e não precisamos nos admirar por pertencerem á mesma época. Ambas as filosofias são popularizações; no momento em que uma ideia é transformada do seu estado puro para se tornar compreensível a uma inteligência inferior, perdeu o contato com a arte. Só se pode manter pura se for posta simplesmente na forma de verdade geral ou se for transmutada, tal como a atitude de Flaubert para com o pequeno-burguês se transforma na Education Sentimentales: identificou-se de tal forma com a realidade que já não conseguimos dizer qual é a ideia. O essencial não é, evidentemente, que o drama seja escrito em verso, ou que nós possamos expiar o prazer de uma farsa ordinária com a assistência esporádica a uma peça de Eurípedes com a tradução do Prof. Murray à venda na porta do teatro. O essencial é por no palco esta expressão precisa da vida que é ao mesmo tempo um ponto de vista, um mundo – um mundo que a mente do autor sujeitou a um processo completo de significação. Não me parece que qualquer drama que encarne uma filosofia do autor (como Flaust) ou que ilustre uma teoria social (como a de Shaw) possa preencher os requisitos – embora possamos deixar um lugar a Shaw, senão a Goethe. Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aquiaqui, aqui, aqui e aqui.

POEMA A CÉU ABERTO – O poeta pernambucano Natanael Lima Júnior é autor de diversos livros, editor do blog Domingo com Poesia e membro da Associação de Blogs Literários do Nordeste (ABLNE), bem como de diversas academias literárias, tornando-se um divulgador proeminente e um agitador cultural de relevo para a poesia e o fazer poético. Entre os seus poemas destaco Poema a céu aberto: As noites passam ávidas. / Por vezes, / levianas, desregradas. / Algumas revelam / sombrias angústias / algemadas por paixões dissolventes. / Noutras se revelam / pálidas, tímidas. / Por vezes as desejo / obscenas, insanas, / dominadoras, cruéis. / E quando a noite cessa, / o poema se revela / a céu aberto. Veja mais do poeta aqui e aqui.


LE GENOU DE CLAIRE – O filme francês Le genou de Claire (O joelho de Claire, 1970), dirigido por Éric Rohmer, conta a história de um diplomata de carreira que de férias e às vésperas do seu casamento, recebe a visita de uma ex-namorada, através da qual, conhece uma jovem que possui uma irmã, Claire, que será cobiçada por ele, com a fantasia de acariciar o seu joelho. Veja mais aqui, aquiaqui.

IMAGEM DO DIA
Todo dia é dia da atriz estadunidense Mae West (1893-1980). Veja mais aqui & aqui.


Veja mais sobre:
A vida, a terra, o homem & a bioética, Grande sertão: veredas, de João Guimarães Rosa, A condição humana de Hannah Arendt, A cronologia pernambucana de Nelson Barbalho, Pau-Brasil de Oswald de Andrade, a poesia de Patativa de Assaré, a música de Elomar Figueira de Mello, a pintura de Fernand Khnopff, Shere Crossman & Antonio Cláudio Mass aqui.

E mais:
O sol nasce paratodos aqui.
A lição de casa amanhecer, A lenda da origem do Solimões, a escultura de Lorenzo Quinn, a música de Anne Schneider, a arte de Alice Soares, O lobisomem zonzo & Edla Fonseca aqui.
Brincarte do Nitolino, Hino ao Sol de Akhenaton, O fundador de Nélida Piñon, a música de Kitaro, Manifesto Pau-Brasil de Oswald de Andrade, Medeia de Eurípedes, Belfagor: O arquidiabo de Nicolau Maquiavel, a poesia de Percy Bysse Shelley, O dicionário do Aurélio, o cinema de François Truffaut, a pintura de Otto Lingner & Nina Kozoriz aqui.
Alvoradinha, o curumim caeté, a literatura de Lygia Fagundes Telles, a poesia de Manuel Bandeira, o teatro de Qorpo Santo, Psicologia social: infância, imagem e literatura, a pintura de Fernando Botero, a arte de Marilyn Monroe & Ashley Judd, Jayne Mansfield, a música de Roberto Carlos & O sabor da fonte de todos os gozos aqui.
Se um dia o sonho da vez, Expressões enganadoras de Gilbert Ryle, a poesia de Elizabeth Bishop, Os nascimentos de Eduardo Galeano, a música de Dandara & Paulo Monarco, a pintura de Carla Shwab & Lavinia Fontana, a arte de Rosa Esteves & W. G. Collingwood aqui.
A vida se desvela nos meus olhos fechados, Ensaios filosóficos de John Langshaw Austin, a literatura de Dostoiévski & Georg Eliot, a música de Mísia, a fotografia de Edward Weston, Rico Lins & Krzyzanowski Art, a arte de Top Thumvanit & Stephanie Sarley aqui.
Carta de amor, Espécies naturais de Willard Van Orman Quine, Madre Teresa de Calcutá, a música de Dori Caymmi, a literatura de Alicia Dujovne Ortiz, a arte de Henry Monnier & Tanja Ostojić, a fotografia de João Roberto Riper & Luciah Lopez aqui.
A fome e a laranjeira, Princípios da filosofia do direito de Hegel, O espírito de Romain Rolland, O diário de Frida Kahlo, a música de Bach & Janine Jansen, a fotografia de Sebastião Salgado, a xilogravura de Fernando Saiki, a arte de David Padworny & Tempo de amar de Genésio Cavalcanti aqui.
Papo de Fabos, Escarafunchando Friederich Perls, O castelo de Franz Kafka, a literatura de Machado de Assis, a música do Discantus, a pintura de Renato Guttuso & Luba Lukova, a arte de Carmela Gross & Paulo Ito aqui.
Barulho da miséria, Escritos lógico-linguisticos de Peter Strawson, a literatura de Baronne de Staal & Mary Shelley, a música de Shania Twain, a escultura de Ben Weily, a pintura de Anna Miarczynska, o grafite de Magrão Bz, a arte de Fabio de Brito & a poesia de Livia De La Rosa aqui.
Repente qualquer jeito para ver como é que fica, A servidão humana de Baruch de Espinoza, A tecnologia na arte de Edmond Couchot, A vida antes do homemd e Margaret Atwood, a música de Jackson do Pandeiro, a escultura de Antonio Corradini, a fotografia de Nikolai Endegor, a arte de Victoria Selbach & Leonel Mattos aqui.
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