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quinta-feira, março 19, 2020

MERLEAU-PONTY, ALDA ESPÍRITO SANTO, HERMILO & PATTIE BOYD


ORA, QUANDO NÃO VAI DUM JEITO, VAI DOUTRO - UMA: OUTRA DE FABOS & CAFOS - Entre 1988-2010, a coisa parecia que ia mesmo dessa vez no Brasil. Parecia, só. Na verdade se arrastava e empancava, ia e vinha, seguia rebocada assim meio de banda, aos empurrões, lerda e quase na má vontade. Mas, ia. Bastou virar a curva da última década, a força das verdinhas dos interesses estadunidenses mandaram ver com suas manguinhas de fora e a vaca foi pro brejo ultimamente - como naquela década 1954-64, dois anos a mais, apenas. Foi. Em nome de uma sede de “justiça”, passaram grandes empresas, corruptores e corrompidos num lava jato de num sobrar nem os farelos delas nem de mais nada do que restava de uma meio fajuta democracia. Foi pinote como a praga! É que queriam passar a limpo, mas tudo findou naquela do Fecamepa: o dia que o país resolveu ser levado a sério. Vazou o jato. Não foi dessa vez. Quase acreditei que seria, um pé lá e outro cá, claro. Muito estardalhaço pra findar na maior melecada. Havia uma catinga de golpe no ar e teve gente que se enganou e está até hoje fraudado pela cor da chita. Pois a enrolada espremeu tudo, menos uns tantos achegados saltitantes. Pois foi, era a vez da manobra: defenestraram a governante e pegaram o suposto vilão pelos colhões, pronto, tudo resolvido, agora era só inventar história. As abrobrinhas reinaram em cadeia nacional e horário nobre, de tão repetidas pareciam na vera. Teve até quem rezasse genuflexo embaixo da maior trovoada! Amém. E deu certo: Drácula ressuscitou no VladTemer que impune abocanhou o que queria com seus acoloiados vampiros, armou o circo pro Coisonário que empestou metade do país com a trupe de coisominions, e o desdobramento foi despachar a vertigem agora na guerra com o Covid-19. Nossa! Pois foi mesmo. E agora? Fico com a do Marcelo Gleiser: Há algo de muito patológico numa espécie que se diz inteligente, mas só é capaz de garantir sua sobrevivência pelo acúmulo de armas. Tá vendo? Mesmo que a gente esteja careca de saber sobre o lamentável expediente da guerra, nessa, acho, que todos nos ferramos do primeiro ao quinto, com centena e milhar. DUAS: UM DOMINGO DESSE AÍ - Ia passando uma malta aguerrida – na verdade, uns gatos pingados em marcha de Cafos -, com palavras de ordem em apoio ao Coisonario. Na calçada apreciando a paisagem, uma distinta senhora muito bem aquinhoada de gestos e modos, nem prestava atenção direito ao que ocorria. Logo, um repórter de uma dessas tevês chapa branca, aproximou-se dela, indagando o que achava do evento. Ela respondeu simplesmente: Nada. Como assim? E coisa e tal. Diante da insistência do profissional por chamar-lhe a atenção, ela dispensou à la Mae West: Ama o teu próximo – e, se ele for alto, moreno e bonitão, será muito fácil. O beijo do homem é a sua assinatura. O cara espantou-se: O que tem a ver uma coisa com outra? E ela charmosamente e sob a mesma rubrica da diva, arrematou: Quando sou boa, sou ótima. Mas, quando sou má, sou muito melhor! Viva ela! TRÊS: AH, SOBRE COPERNICANISMO AO CONTRÁRIO. DE NOVO? Falei outro dia aqui do copernicanismo ao contrário. Hem? Aliás, vez em quando menciono aqui. Como? Isso mesmo. E toda vez que faço menção, há sempre aquelas pestanas inquiridoras pra minha banda. Que droga é nove, meu? Tá, explico usando o autor da ideia, Augusto Boal: é quando os povos descobrem que são o sujeito da história, o motor da sociedade, o centro do nosso universo: não mais satélites. O que? Adiantou nada, as sobrancelhas cerradas continuam na mesma, não tem quem entenda assim de chapa, quem sabe um dia. E vamos aprumar a conversa! © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados. Veja mais abaixo e aqui.

DITOS & DESDITOS: [...] enquanto habito um “mundo físico”, em que “estímulos” constantes e situações típicas se reencontram – e não apenas o mundo histórico em que as situações nunca são comparáveis –, minha vida comporta ritmos que não têm sua razão naquilo que escolhi ser, mas sua condição no meio banal que me circunda. Assim, em torno de nossa existência pessoal aparece uma margem de existência quase impessoal, que é por assim dizer evidente, e a qual eu reporto o zelo de manter-me em vida, em torno do mundo humano que cada um de nós faz, aparece um mundo em geral ao qual é preciso pertencer em primeiro lugar para poder encerrar-se no ambiente particular de um amor ou uma ambição. [...]. Trecho extraído da obra Fenomenologia da percepção (Martins Fontes, 1999), do filósofo fenomenólogo francês Maurice Merleau-Ponty (1908-1961). Veja mais aqui.

AS MULHERES DA MINHA TERRA - Irmãs, do meu torrão pequeno / Que passais pela estrada do meu país de África / É para vós, irmãs, a minha alma toda inteira / — Há em mim uma lacuna amarga — / Eu queria falar convosco no nosso crioulo cantante / Queria levar até vós, a mensagem das nossas vidas / Na língua maternal, bebida com o leite dos nossos primeiros dias / Mas irmãs, vou buscar um idioma emprestado / Para mostrar-vos a nossa terra / O nosso grande continente, / Duma ponta a outra. / Queria descer convosco às nossas praias / Onde arrastais as gibas da beira-mar / Sentar-me, na esteira das nossas casas, / Contar convosco os dez mil réis / Do caroço vendido / Na loja mais próxima, / Do vinho de palma / Regateado pelos caminhos, / Do andim vendido à pinha, / Às primeiras horas do dia. / Queria também / Conversar com as lavadeiras dos nossos rios / Sobre a roupa de cada dia / Sobre a saúde dos nossos filhos / Roídos pela febre / Calcurreando léguas a caminho da escola. / Irmã, a nossa conversa é longa. / É longa a nossa conversa. / Através destes séculos / De servidão e miséria... / É longa a estrada do nosso penar. / Nossos pés descalços / Estão cansados de tanta labuta... / O dinheiro não chega / Para vencer a nossa fome / Dos nossos filhos / Sem trabalho / Engolindo a banana sem peixe / De muitos dias de penúria. / Não vamos mais fazer “nozados” longos / Nem lançar ao mar / Nas festas de Santos sem nome / A saúde das nossas belas crianças, / A esperança da nossa terra. / Uma conversa longa, irmãs. / Vamos juntar as nossas mãos / Calosas de partir caroço / Sujas de banana / “Fermentada” no “macucu” / Na nossa cozinha / De “vá plegá”... / A nossa terra é linda, amigas / E nós queremos / Que ela seja grande... / Ao longo dos tempos!... / Mas é preciso, Irmãs / Conquistar as Ilhas inteiras / De lés a lés. / Amigas, as nossas mãos juntas, / As nossas mãos negras / Prendendo os nossos sonhos estéreis / Varrendo com fúria / Com a fúria das nossas “palayês” / Das nossas feiras, / As coisas más da nossa vida. / Mas é preciso conversar / Ao longo dos caminhos. / Tu e eu minha irmã. / É preciso entender o nosso falar / Juntas de mãos dadas, / Vamos fazer a nossa festa...! / A festa descerá / Ao longo de todas as vilas / Agitará as palmeiras mais gigantes / E terá uma força grande / Pois estaremos juntas irmãs / Juntas na vida / Da nossa terra / Mas é preciso conhecer / A razão das nossas secretas angústias. / Procurar vencer Irmãs / A fúria do rio / Em dias de tornado / Saber a razão / Encontrar a razão de tudo... / “Os nossos filhos / O nosso filho morreu / Roído pela febre”... / Muitos pequeninos / Morrem todos os dias / Vencidos pela febre / Vencidos pela vida... / Não gritaremos mais / os nossos cânticos dolorosos / Prenhes de eterna resignação... / Outro canto se elevará Irmãs, / Por cima das nossas cabeças. / Vamos procurar a razão. / A hora das nossas razões vencidas / Se avizinha. / A hora da nossa conversa / Vai ser longa. / De roda do caroço / De roda das cartas / escritas por outrém, / Porque a fome é grande / E nós não sabemos ler. / Não sabemos ler, irmãs / Mas vamos vencer o medo. / Vamos vencer nosso medo / De sermos sós na terra imensa. / Jamais estaremos solitárias... / Porque a nossa força há-de crescer. / E então conquistaremos / para nós / para os filhos gerados no nosso ventre, / Nas nossas horas de Angústia / — Para nós — / A nossa bela terra / No dia que se avizinha / Saindo das nossas bocas, / Uma palavra bela / Bela e silenciosa / A palavra mais bela / Ciciada no nosso crioulo, / A palavra sem nome / Entoada no silêncio / Num coro gigante / Correndo ao longo das nossas cascatas, / Das cachoeiras mais distantes, / O canto do silêncio, Irmãs / Há-de soar / Quando chegar a Gravana. / E por hoje, Irmãs / Aguardemos a gravana / Ao longo das nossas conversas / No serão das nossas casas / sem nome. Poema extraído da obra É nosso o solo sagrado da terra (Ulmeiro, 1978), da poeta são-tomense Alda Espírito Santo (1926-2010).

ESPETÁCULOS POPULARES DO NORDESTE
[...] fornecer aos leigos um resumo fiel dos espetáculos do povo do Nordeste; [...] preservar a arte popular e fornecer elementos aos artistas eruditos que descubram o verdadeiro caminho do teatro brasileiro.
ESPETÁCULOS POPULARES DO NORDESTE - A obra Espetáculos populares do Nordeste (Massangana, 2007), do advogado, escritor, crítico literário, jornalista, dramaturgo, diretor, teatrólogo e tradutor Hermilo Borba Filho (1917-1976), trata sobre o bumba-meu-boi, fandango, mamulengo e pastoril, com uma bibliografia e cronologia. Veja mais aqui & aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
Não posso reescrever a história. Sempre estará ligada a Beatles, George e Eric.
PATTIE BOYD – A arte da fotógrafa, atriz e ex-modelo britânica Pattie Boyd, que foi musa e casada com George Harrison e Eric Clapton. Foi modelo de sucesso internacional durante as décadas de 1960-70, tornando-se fotógrafa profissional com exposições em galerias ao redor do mundo. Ela escreveu um livro de memórias, Wonderful tonight: George Harrison, Eric Clapton and me. Veja mais aquiaqui.

PERNAMBUCO ART&CULTURAS
CONVERSA DE CAMARIM
A obra Conversa de camarim: o teatro no Recife na década de 1960 (SC/FCCR, 2007), do dramaturgo, filósofo, jornalista, professor, poeta, diretor, encenador e crítico de teatro, Benjamim Santos, aqui.
A obra do poeta, contista, cronista, dicionarista e jornalista, Artur Griz aqui & aqui.
Cais Companhia de Dança & Dielson Pessoa aqui.
Célia Labanca & Das coisas da minha terra aqui.
Asas do tempo, do escritor Fernando Nascimento Barreto aqui.
A música do poeta e multiartista Fábio de Carbalho aqui, aquiaqui.
A arte de Mabelle Batista aqui.
O mamulengo de Glória do Goitá aqui.
A fúria dos inocentes aqui.
O município de Bezerros aqui & aqui.
&
OFICINAS ABI – 2º SEMESTRE 2020
Veja detalhes das oficinas da ABI aqui, aqui, aqui, aqui, aqui & aqui.
 

quinta-feira, junho 11, 2015

SCHOPENHAUER, EURÍPEDES, KAWABATA, BRENNAND, STRAUSS, GERALDO CARNEIRO, MAE WEST, FORTUNA, CONSTABLE & ARTETERAPIA!!!


O MUNDO COMO VONTADE DE REPRESENTAÇÃO – A obra O mundo como vontade de representação (Die Welt als Wille und Vorstellung, 1919 - Unesp, 2005), do filósofo alemão Arthur Schopenhauer (1788-1860), é dividida em quatro livros e um apêndice da crítica da filosofia kantiana. O primeiro livro aborda sobre a teoria do conhecimento – O mundo como representação, primeiro ponto de vista: o objeto da experiência e da ciência. Nessa parte o autor considera que "O mundo é a minha representação", tendo por ideia básica a concepção filosófica de que o mundo só é dado à percepção como representação, definindo que o mundo é representação e vontade. O segundo livro trata sobre a filosofia da natureza – O mundo como vontade, primeiro ponto de vista: a objetivação da vontade. Nessa parte, o autor entende que a totalidade do mundo como representação é o espelho da vontade, só existindo na manifestação concomitante e recíproca das diferentes ideias. O terceiro livro aborda sobre a metafísica do belo - O mundo como representação, segundo ponto de vista: a representação independente do princípio de razão & a ideia platônica, objeto da arte. Para o autor, é na arte que se adquire o conhecimento da representação independentemente do princípio de razão, uma vez que ele estuda as mais diversas formas de arte procurando a demonstração de que todas elas buscam permitir o conhecimento das objetividades adequadas da vontade, das mais simples às mais complexas. O quarto livro trata sobre a ética – O mundo como vontade, segundo ponto de vista: atingindo o conhecimento de si, afirmação ou negação da vontade, no qual revela a fonte para o existencialismo e niilismo, a partir do questionamento de Hamlet: ser ou não ser? Com essa condução investiga a vida e a morte, a liberdade, conhecimento e sofrimento, a afirmação e negação da vontade, trazendo a demonstração de que a dor não se interrompe porque toda vida é sofrimento. Por conclusão, a sua filosofia entende que na vida humana as dores superam os prazeres e a felicidade é inalcançável, vez que a vida humana é má e que o mundo, em sua totalidade, é uma manifestação de força irracional como vontade de vida: “Todo querer se origina da necessidade, portanto, da carência, do sofrimento. A satisfação lhe põe um termo; mas para cada desejo satisfeito, dez permanecem irrealizados [...] a vida não admite nenhuma felicidade verdadeira”. Veja mais aqui.

Imagem: Study of a female nude, seen from behind, do pintor inglês John Constable (1776-1837).

Curtindo o álbum Also Sprach Zarathustra – Tone Poem For Large Orchestra Op. 30 (Deutsche Grammophon, 1974), do compositor alemão Richard Strauss (1864-1949), com regência de Herbert von Karajan na Berliner Philharmoniker, inspirado na obra homônima do filósofo e poeta alemão Friedrich Nietzsche (1844-1900). Veja mais aquiaquiaqui e aqui.

VAMOS APRUMAR A CONVERSA? (Imagem: Fortuna – 1637, do pintor do Barroco flamengo Peter Paul Rubens – 1599-1640) Ou vamos agarrar a ocasião pelos cabelos? É o que diz o provérbio, porque oportunidade aparecida, se não for aproveitada, será bem desaparecida. Ou como diz o Corvo de Poe: Nunca mais. Ou se agarra por onde e como se possa, ou ficará: não deu, só na outra. Isso se houver outra sorte. A propósito, os gregos e os romanos, em suas fábulas, descreviam a deusa Fortuna ou Ocasião, como uma mulher nua, cega e calva, com asas nos pés, um deles sobre uma roda, ou seja a roda da Fortuna, e outro no ar. É, portanto, dificílima de agarrar. O fabulista Fedro diz que a Fortuna é calva, mas tem um tope de cabelos na testa, por onde convém segurá-la, e se uma vez escapa, Non ipse possit Jupiter reprehendere. O poeta grego Posídipo escreveu um epigrama, em que há um diálogo com a Fortuna: - Por que tua cabeleira está na testa? - Para que me agarrem quando me encontrarem. – E por trás por que Zeus te fez calva? – Para aqueles que me deixaram passar com meus pés alados não possam mais me agarrar. Também o poeta francês Tristan L ´Hermite rimou: A ocasião é calva e pronta a fugir; / assim que se oferece, deve-se agarrá-la. Já Shakespeare diz na II cena do primeiro ato da comédia As you Like It (Como quiserdes): Sentemo-nos e zombemos da fortuna com a sua roda, que seus dons serão daí em diante partilhados igualmente. Na mitologia grega Tique ou Tiquê era a divindade da prosperidade e da fortuna, destino e sorte, cuja deusa era envolvida de repleta violência arbitrária e de reveses desprovidos significados para o mundo helenístico. Entendia-se que Tique, amante cega da Fortuna, governava a humanidade com inconstância, razão pela qual se explicava as vicissitudes da época. Até o historiador grego Políbio creditou a ocorrência de secas, geadas ou enchentes à justiça de Tique. Já Sófocles, na sua peça Édipo Rei, menciona a sua crença nela como sendo sinônimo do acaso divino. O seu caprichoso poder alcançou respeitabilidade entre os filósofos, enquanto que os poetas a insultavam como uma meretriz inconstante. Na mitologia romana adotou o nome de Fortuna, identificada como a deusa da sorte, seja ela boa ou má, e da esperança. Era representada portando uma cornucópia e um timão, simbolizando a distribuição de bens e a coordenação da vida dos homens, distribuindo os desígnios aleatoriamente. Tanto é que na arte medieval ela passou a ser representada portando uma cornucópia, um timão emblemático e a roda da fortuna, presidindo sobre o circulo do destino. Entre os romanos, o dia 11 de junho era consagrado à sua veneração. E até hoje ela é almejada por muitos. E vamos aprumar a conversa aqui.

PERCURSOS EM ARTETERAPIA – A coleção Percursos em arteterapia (Summus, 2004), organizada pela Gestalt-terapeuta Selma Ciornai, traz no primeiro volume temas como arteterapia gestaltica, a arte em psicoterapia e sua supervisão, abordando as vertentes pioneiras, os fundamentos epistemológicos e filosóficos correlatos, o pensamento terapêutico, a prática e os novos paradigmas da terapia social, grupos e artepsicoterapia com crianças e adolescentes, os recursos artísticos, fotografia, entre outros. No segundo volume trata do ateliê terapêutico, da arteterapia no trabalho comunitário, integrando trabalhos plásticos e linguagens expressivas, arteterapia e história da arte, abordando temas como o resgate do universo feminino, a preparação psicológica de atletas, oficina educacional e terapêutica integrando musicoterapia, psicodrama, corpo e literatura, a criação literária, contar história como possibilidade de tecer o invisível, as emoções, o olhar poético para a história pessoal. O terceiro volume envolve a arteterapia no contexto educacional, psicopedagógico e saúde, abordando sobre a relação dialógica entre o terapeuta e o cliente, educador e aprendiz, processo terapêutico de crianças com dificuldades de aprendizagem, arte, filosofia e antropologia, arte e corpo como cura, fonoaudiologia, a cor e a emoção da linguagem, trabalho com dependentes químicos em instituição de saúde pública, profilaxia para o estresse do profissional de saúde, hemodialisart: arteterapia para pacientes em programa crônico de diálise, arte no cuidado com pacientes com HIV e câncer, arte-reabilitação em enfermaria infantil e com portadores de paralisia cerebral e vítimas de dano cerebral. Veja mais aqui e aqui.

A CASA DAS BELAS ADORMECIDAS – O livro A casa das belas adormecidas (1961 – Estação Liberdade, 2004), do escritor japonês ganhador do Prêmio Nobel de Literatura Yasunari Kawabata (1899-1972), demonstra a virtuosa descritiva imbuída de um erotismo inusitado contando a história de um senhor idoso frequentador de bordel de mulheres adormecidas por narcóticos e jovens virgens, na busca dos prazeres perdidos, recheada de fantasia e rememorações. Da obra destaco o trecho: [...] Na sala de visitas, um banquete havia sido preparado para recepcionar os recém-casados. Depois de receber os cumprimentos da jovem esposa, a mãe foi à cozinha para esquentar a sopa. De lá vinha um cheiro de pargos assados. Eguchi foi ao corredor olhar as flores. A jovem esposa seguiu-o. Que lindas flores! — exclamou ela. Sim. — Eguchi, para não assustá-la, omitiu o fato de que elas não estavam ali antes. No momento em que ele olhava fixamente uma das mais graúdas, uma gota de sangue pingou de uma das pétalas. Ah! — gemeu ele. O velho Eguchi abriu os olhos. Balançou a cabeça, mas estava tonto devido ao sonífero. Tinha- se virado para o lado da garota escura. O corpo dela estava frio. Ele sentiu um arrepio. A garota não respirava. Colocou a mão no coração dela, mas não sentiu suas batidas. Eguchi pulou do leito. Cambaleou e caiu. Com o corpo todo tremendo, saiu para o quarto contíguo. Olhou à sua volta e viu a campainha ao lado do tokonoma. Apertou o botão com força durante muito tempo. Ouviu os passos na escada. “Teria eu apertado o pescoço da garota sem saber enquanto dormia?” Voltou quase engatinhando e olhou o pescoço dela. Aconteceu alguma coisa? — perguntou a mulher da casa. Esta menina está morta — os dentes de Eguchi batiam. A mulher permaneceu calma e, esfregando os olhos, disse: Morta? Não pode ser. Morta, sim. Ela não está respirando. E o pulso está parado. Enfim, a mulher empalideceu. E ajoelhou-se na cabeceira da garota escura. Não vê que está morta? A mulher levantou a coberta e examinou a garota. Senhor, fez alguma coisa a ela? Não fiz nada. Ela não está morta. O senhor não precisa se alarmar com nada... — a mulher se esforçava para se manter fria e impassível. Ela está morta. Chame logo o médico! O que a senhora deu a ela? Pode ser que ela seja alérgica. Por favor, senhor, não faça alarde! Prometo que não vamos lhe causar nenhum incômodo... seu nome nem aparecerá... Estou dizendo que ela está morta! Estou certa de que ela não morreu. Que horas são agora? Já passa das quatro. A mulher levantou a garota escura totalmente nua e cambaleou. Deixe que eu lhe ajude. Não é necessário. Há um homem lá embaixo... Mas a menina é pesada. Não se preocupe com os assuntos da casa. Volte a descansar, por favor. Ainda há uma garota. “Ainda há uma garota.” Não havia nada que ferisse mais a fundo o velho Eguchi do que aquelas palavras. De fato, no leito do quarto ao lado ainda restava a garota clara. Mas como? Não vou conseguir dormir! — na voz furiosa do velho Eguchi misturavam-se covardia e medo. — Também vou-me embora. Não faça isso, por favor. Se o senhor sair a esta hora poderá levantar suspeitas... Não vou conseguir dormir. Vou lhe trazer mais comprimidos. Ouviu-se o barulho da mulher arrastando o corpo da garota escura escadaria abaixo. O velho, que vestia apenas o yukata, só agora sentira o frio penetrar seu corpo. A mulher retornou com os comprimidos brancos. Por favor, tome isto e amanhã de manhã fique descansando à vontade. Está bem. — O velho abriu a porta do quarto contíguo, onde as cobertas estavam jogadas como tinham sido deixadas havia pouco. A nudez da garota clara continuava estendida em sua beleza deslumbrante. Ah! — contemplou-a Eguchi. Ouviu distanciar-se o carro que levava o corpo da garota escura. Seria levado para aquela suspeita hospedaria de águas termais, para onde fora carregado o cadáver do velho Fukura? Esta obra inspirou duas outras: Memória das minhas putas tristes (2004), do escritor colombiano Gabriel García Márquez (1927-2014) e da peça teatral The House of Sleeping Beauties (1983), do dramaturgo, libretista e roteirista estadunidense David Henry Hwang. Veja mais aqui.

JARDIM DAS DELÍCIAS: BELLADONA & OLHOS DE RESSACA – Como já dissera, conheci a obra do escritor, compositor e roteirista Geraldo Carneiro por intermédio da arte de Egberto Gismonti, quando mantive os primeiros contatos com o compositor lá pelos idos dos anos 1970. Depois encontrei Geraldinho no grupo Cardiem, hoje Arremesso, do poetamigo e compositor Felipe Cerquize. Foi daí que pude ter contato com sua obra admirável, desde o seu Verão Vagabundo (1980), Piquenique em Xanadu (1988), Pandemônio (1993), Bandeira cinco mil reais, folias metafísicas (1995) e Leblon: crônica dos anos loucos (1996). Da sua poesia destaco Jardim das Delícias: nesta madrugada de 7 de outubro / não farei previsões de estranhos / no Parque / enquanto caminho nas mesmas aléyas / que guardam traços do seu gesto claro / e a alameda das acácias exala / odores de memória e medo / “I sit and watch the children playing” / você descobre o alarido das crianças / e parece se assustar a cada grito / reverberado nas paredes de granito das / estátuas e você se encanta quando recai / o silêncio sobre as paredes ainda marcadas / de luz e estrelas. Também Belladona, lady of the rocks: você pode mexer com as quatro cabeças / sem que elas tragam algum malefício / sem que elas exalem o cheiro terroso / das raízes / você pode mexer com as quatro cabeças / e ocultá-las sob o lençol / debaixo das telhas / você pode espremer as quatro cabeças / e fazer com que escorra seu caldo grosso / para dar de beber aos estranhos / para dar de beber à família / você pode dançar sobre as quatro cabeças / sem que sintam sua falta no Jantar de Bodas / sem que sintam sua falta / depois você se tranca no quarto / e põe um disco na vitrola. Por fim, Olhos de ressaca: minha deusa negra quando anoitece / desce as escadas do apartamento / e procura a estátua no centro da praça / onde faz o ponto provisoriamente / eu fico na cama pensando na vida / e quando me canso abro a janela / enxergando o porto e suas luzes foscas / o meu coração se queixa amargamente / penso na morena do andar de baixo / e no meu destino cego, sufocado / nesse edifício sórdido & sombrio / sempre mal e mal vivendo de favores / e a minha deusa corre os esgotos / essa rede obscura sob as cidades / desde que a noite é noite e o mundo é mundo / senhora das águas dos encanamentos / eu escuto o samba mais dolente & negro / e a luz difusa que vem do inferninho / no primeiro andar do prédio condenado / brilha nos meus tristes olhos de ressaca / e a minha deusa, a pantera do catre / consagrada à fome e à fertilidade / bebe o suor de um marinheiro turco / e às vezes os olhos onde a lua / eu recordo os laços na beira da cama / percorrendo o álbum de fotografias / e não me contendo enquanto me visto / chego à janela e grito pra estátua / se não fosse o espelho que me denuncia / e a obrigação de guerras e batalhas / eu me arvoraria a herói como você, meu caro / pra fazer barulho e preservar os cabarés. Tive oportunidade, inclusive, de entrevistá-lo no meu Guia de Poesia. Confira aqui, aqui e aqui.

IFIGÊNIA ENTRE OS TAUROS – A tragédia grega Ifigênia entre os tauros (Annablume/Universidade de Lisboa, 2014), faz parte da trilogia troiana do poeta trágico grego Eurípedes (480aV-406aC), contando a história das relações familiares e o exílio de Ifigência – que na mitologia grega simboliza o autosacrificio feminino, significando seu nome forte desde o nascimento -, em terras bárbaras para desempenhar a função de sacerdotisa de Ártemis. Conta, portanto, que se pai Agamêmnon, rei de Micenas, terá de sacrificar sua filha Ifigênia para que ganhe o apoio e a calmaria da deusa Ártemis, para o ataque de Troia. Com a chegada inesperada de Clitemnestra e Aquiles, a trama se complica. Destaco o trecho na tradução de Nuno Simões Rodrigues: [...] (Ifigénia entra no templo e Orestes e Pílades aparecem.) Orestes Fica atento! Mantém-te vigilante, não vá aparecer alguém no caminho! Pílades Estou atento! Mantenho-me alerta. Vou olhando em todas as direcções. Orestes Achas que é este o templo da deusa, Pílades, para onde navegaram as nossas naus desde que saíram de Argos? Pílades Sim, acho que sim, Orestes! E não há razão para não concordares comigo. Orestes É então este o altar, de onde corre sangue helénico? Pílades Sim, e olha como está vermelho, por efeito do sangue... Orestes Estás a ver os troféus, pendurados nas cornijas? Pílades Vejo! Juntamente com as cabeças de estrangeiros mortos. Mas temos de estar atentos a tudo o que nos cerca. (Pílades olha à sua volta.) Orestes Ó Febo! Que armadilha é esta a que me conduziste, através do teu oráculo? Expulsos da nossa terra, temos vindo a fugir das Erínias, que se revezam para me perseguir, desde que honrei o sangue do meu pai, matando a minha mãe. Já percorri muitos caminhos sinuosos, depois de ter ido perguntar-te como podia terminar com esta loucura que me traz desvairado e com as penas [por que passei, às voltas pela Hélade]. Disseste-me que viesse aos confins da terra táurica, onde Ártemis, tua irmã, tem altares, e que me apoderasse da estátua da deusa, a mesma que dizem que caiu do céu neste templo. Que a tomasse ou pela argúcia ou pela sorte e que, depois de ter corrido esse perigo, a levasse para o território dos Atenienses. (Além disso, nada mais me revelaste). Apenas que, assim que cumprisse as tuas ordens, aliviaria as minhas penas. Obedecendo às tuas palavras, cheguei a esta terra desconhecida, inóspita. Pergunto-te, ó Pílades, (pois tens-me ajudado nestes trabalhos), o que fazemos agora? Vês como é alta a parede que muralha o recinto? Devemos subir até ao templo? E como fazer para não sermos vistos? Partimos as barras de bronze com um bastão? Mas não sabemos quais delas partir! E se nos apanharem a abrir a porta e a prepararmo-nos para entrar, morremos. Portanto, antes que tal aconteça, fujamos para a nau que aqui nos trouxe. [...] Veja mais aqui e aqui.

I´M NO ANGEL – A comédia I’m no Angel (1933), dirigido pelo cineasta estadunidense Wesley Ruggles (1889-1972), é considerada pela crítica especializada como o melhor filme realizado pela atriz estadunidense Mae West (1893-1980), vivendo a personagem de uma estrela de circo e que é assediada por muitos homens admiradores que lhe presenteiam joias, colares e pulseiras, que se transforma em domadora de leões para garantir renda extra, até alcançar a simpatia de milionários que a cumulam de presentes, até se tornar noiva de um ricaço, envolvendo-se numa trama com maquinações do dono do circo que não quer perder a sua principal atração. O filme no seu lançamento teve problemas com a censura por causa das frases engraçadas e de duplo sentido, causando polêmicas e fama para a atriz. Veja mais aqui.

IMAGEM DO DIA
 Arte do escultor, ceramista e artista plástico Francisco Brennand.

TODO DIA É DIA DOS NAMORADOS!!!!!
Confira aqui. (Imagem Jules Feiffer).

Veja mais sobre:
Domingo do que fui e não sou, O erotismo de Georges Bataille, a poesia de Federico Garcia Lorca, Os segredos da ficção de Raimundo Carrero, a música de Laurie Anderson, a pintura de Marta Nael & Cecily Brown, a xilogravura de MS, a arte de Benedict Olorunnisomo & Paula Valéria de Andrade aqui.

E mais:
Vamos aprumar a conversa: a questão ambiental, O retorno da deusa de Edward C. Whitmont, Baú de ossos de Pedro Nava, Pequeno poema infinito de l Federico García Lorca, Zuzu Angel & Sérgio Rezende, a pintura de Tereza Costa Rego, a música de Martha Argerich & Kenny G aqui.
Dia Branco, A jaca na cabeça de Isaac Newton, a literatura de Ítalo Calvino & Mark Twain, Meio Ambiente, a música de Geraldo Azevedo, A promessa do behaviorismo de John B. Watson & Programa Tataritaritatá aqui.
Todo dia é dia do meio ambiente aqui.
LAM no Bom Dia, Alagoas da TV Gazeta de Alagoas, Conteúdo, didática & educação aqui.
Por você, a fotografia de Kate Winslet & a gravura de Franz von Bayros aqui.
Inclusão social pelo trabalho & Washignton Novaes, o pensamento de Pitágoras, A imprensa de Ralph M. Lewis, O romance reportagem de José Louzeiro, Doces palavras de Ednalva Tavares, A entrevista de Samir Yazbek, o cinema de Jacques Rivette, a pintura de Xue Yanqun, a arte de Lisa Lyon, Conselho do Doro, Cantadores populares & Responde a roda outra vez aqui.
Miolo de pote na volta da teibei aqui.
O que tiver de ser, será, A sociedade dos indivíduos de Norbert Elias, A morte como efeito colateral de Ana Maria Shua, a coreografia de Nadja Sadakova, a escultura de Zhang Yaxi, o teatro do grupo Tá na Rua, o cinema de Cristoph Stark & Cristoph Stark, a pintura de Mino Lo Savio & Pavlos Samios, a arte de Gustav Klimt & Lola Astanova, Brincar para aprender, a entrevista de Clara Redig & A sedução da serpente aqui.
Literatura & pós-modernidade, Só desamparo no descompromisso social, Cidadania de Evelina Dagnino, Quadrinho de história de Gláucia Vieira Machado, a música de Viviane Hagner, a coreografia de Yi-chun Wu, a escultura de Michael Talbot, Outro cântico de Micheliny Verunschk, o teatro de Buraco d’Oráculo, o cinema de Niki Caro & Keisha Castle-Hughes, a pintura de Oresteia Papachristou & Hajime Sorayama, A menina do sorriso ensolarado, a arte de Márcio Baraldi & Luciah Lopez aqui.
Escapando & vingando sonhos, A imprensa & O colapso do neoliberalismo de Nilson Araújo de Souza, a música de Bob Dylan, Fenomenologia do olhar de Alfredo Bosi, A memória coletiva de Maurice Halbwachs, Dinheiro roubado de Ricardo Piglia, a coreografia de Sandro Borelli, Lume Teatro, o cinema de Álex de La Iglesia & Rosie Perez, a escultura de Johann Heinrich von Dannecker, a pintura de Pablo Picasso & Roberto Chichorro, a fotografia de Roberta Dabdab, a arte de Marcos Carrasquer & Eugene Reunier, a entrevista de Leila Miccolis, Cidadania na escola & O poeta chora aqui.
Só a poesia torna a vida suportável, Adeus ao trabalho de Ricardo Antunes, Trabalho & capital monopolista de Harry Braverman, a música de Nadja Salerno-Sonnenberg, a fotografia de Dane Shitagi, Escambo de Teatro Livre de Rua, Cinema de Rua, a escultura de Kvitka Anatoly, a entrevista de Cláudia Telles, a pintura de Eugene Huc, a arte do Eduardo Paolozzi & Coletivo Transverso, Quando Tomé mostrou ao que veio & Arte na rua dos municípios aqui.
Poema em voz alta, Cidadania & Meio Ambiente, Ciranda dos libertinos de Marquês de Sade, O corpo obsceno de Maryam Namazie, A mulher suméria, O erotismo de Georges Bataille, a pintura de Paul Cézanne & Olivia de Berardinis, a escultura de Leroy Transfield, Decameron de Pier Paolo Pasolini, a coreografia de Ângelo Madureira & Ana Catarina Vieira, a música de Karina Buhr, Núpcias do NUA, a entrevista de Frederico Barbosa & a arte de Mozart Fernandes aqui.
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quarta-feira, abril 22, 2015

BACH, KANT, ELIOT, NABOKOV, MENUHIN, CATXERÊ, MAE WEST, SIEFFERT, NATANAEL LIMA, O JACARÉ & A PRINCESA.


O JACARÉ E A PRINCESA – Era uma vez uma moça linda que ambicionava se tornar princesa. Para tanto, ela tinha que domar um jacaré terrível que aterrorizava a população. Ela se dispôs a esse propósito e faz com que uma história de desafios e possibilidades possam realizar sonhos, anseios e desejos. Confira aqui e aquiLEMBRETE: Hoje é dia de reprise do programa Brincarte do Nitolino pras crianças de todas as idades. Horário das reprises: 10hs e 15hs, no projeto MCLAM, com apresentação de Ísis Corrêa Naves. Para conferir online é só clicar aqui ou aqui.

Imagem: Reclining Nude (female back), do pintor francês Paul Sieffert (1874-1957). Veja mais aqui.

Ouvindo Violinkonzerte nº13 - Concertos pour violons Festival Orchestra (EMI, 1990), do compositor alemão Johann Sebastian Bach (1685-1750), com o violinista e maestro estadunidense de origem britânica-suíça Yehudi Menuhin (1916-199)

CATXERÊ, A MULHER ESTRELA (Imagem: ilustração de J. Lanzelotti)Esta é a estória de Catxerê, a mulher estrela, que desceu do céu, dormiu com o índio e ensinou os Craó a plantar e preparar o milho, batata, inhame, mandioca e amendoim. Foi assim: o último rapaz solteiro da tribo dormia sozinho, sobre a sua esteira, no pátio da aldeia. Uma estrela o viu lá de cima, e, condoída, resolveu casar com ele. Para isso, transformou-se num sapo e, pula que pula, trepou no seu peito. O dorminhoco acordou assustado e, com um tapa, atirou-o no chão. Mas o sapo virou formosa mulher e dormiu com o jovem. De manhã, a cunhantã diminuiu de tamanho, ficou assinzinha, e pediu ao noivo que a guardasse no porongo que estava pendurado no fumeiro. Durante o dia, o índio tirou o porongo do lugar, destampou-o e sorriu para a moça que lá estava encerrada. Depois, tampou-o, amarrou a tampa e pendurou-o de novo no fumeiro. Quando saiu para caçar, recomendou que ninguém mexesse naquilo, mas a irmã dele, cheia de curiosidade, abriu-o e descobriu lá dentro a minúscula mulher. Ao voltar, examinou o nó tradicional da sua tribo e compreendeu que alguém havia violado o seu segredo. Zangado, declarou que viveria com Catxerê, como marido e mulher. – Não vou dormir mais no pátio, como os solteiros! A irmã arrumou as suas camas dentro da casa. De noite, ele tirou a moça da cumbuca e Catxerê cresceu, tornando-se alta e bonita. De manhã, foram banhar-se juntos no rio, e ela viu uma árvore grande, cheia de espigas, que os periquitos bicavam. Catxerê ensinou aos Craó como se planta, colhe e prepara o milho, assim como a mandioca, o inhame e o amendoim, que até então não eram conhecidos, pois os indígenas alimentavam-se de pau puba. Mandou o rapaz fazer uma roça. Ensinou-o a derrubar com o facão, a carpir, a plantar. Depois, disse: - Agora, vou ao céu, onde vivem meus parentes, a fim de trazer mudas de batata, inhame, mandioca e amendoim, para plantar na roça. Logo depois voltou; a roça foi plantada e os índios adotaram para sempre as plantas ali cultivadas. Uma noite, porém, quando o rapaz andar a caçar, apareceram em sua casa cinco homens que, sabendo da sua ausência, violentaram a mulher-estrela. Depois, foram dormir. Ela aproveitou o sono e cuspiu na boca de todos eles, um por um, matando-os. Os Craós ligam grande importância a mágica do cuspo. Quando o marido voltou, contou-lhe tudo e subiu para o céu. E nunca mais voltou. (Recolhido de SHULTZ, Harald. Lendas dos índios Craó. Revista do Museu Paulista, Nova Série, Vol. IV, pp. 83-86, São Paulo, 1950). Veja mais aqui, aquiaqui.

FUNDAMENTAÇÃO DA METAFÍSICA DOS COSTUMES – A obra Fundamentação da metafísica dos costumes (1785, 70LDA, 2007), do filósofo alemão Immanuel Kant (1724-1804), aborda com profundidade o problema do imperativo moral, irredutível a qualquer outro fundamento anterior, trazendo da primeira parte a transição do conhecimento moral da razão para o conhecimento filosófico. Na segunda parte aborda a transição da filosofia moral popular para a metafísica dos costumes e, na terceira e última seção, transição da metafisica dos costumes para a crítica da razão prática. Da obra destaco o trecho a seguir: [...] O uso especulativo da razão, com respeito à natureza, conduz à absoluta necessidade de qualquer causa suprema do mundo; o uso prático da razão, com respeito à liberdade, conduz também a uma necessidade absoluta, mas somente das leis das ações de um ser racional como tal. Ora, é um princípio essencial de todo o uso da nossa razão levar o seu conhecimento até à  consciência da sua necessidade (pois sem. ela não seria nunca conhecimento da razão). Mas também é uma limitação igualmente essencial da mesma razão não poder ela conhecer a necessidade nem do que existe ou acontece, nem do que deve acontecer, sem pôr uma condição sob a qual isso existe ou acontece ou deve acontecer. Desta sorte, porém, pela constante pesquisa da condição, vai sendo sempre adiada a satisfação da razão. Por isso ela busca sem descanso o incondicional necessário e vê-se forçada a admiti-lo, sem meio algum de o tornar concebível a si mesma; feliz bastante quando pode achar já só o conceito que se compadece com este pressuposto. Não é, pois, nenhum defeito da nossa dedução do princípio supremo da moralidade, mas é sim uma censura que teria de dirigir-se à razão humana em geral, o ela não poder tornar concebível uma lei prática incondicionada (como tem que sê-lo o imperativo categórico) na sua necessidade absoluta; pois não há que censurá-la por que ela o não queira fazer por meio de uma condição, quer dizer por meio de qualquer interesse posto por fundamento, porque então não seria uma lei moral, isto é, uma lei suprema da liberdade. E assim nós não concebemos, na verdade, a necessidade prática incondicionada do imperativo moral, mas concebemos, no entanto, a sua inconcebibilidade, e isto é tudo o que, com justiça, se pode exigir de uma filosofia que aspira a atingir, nos princípios, os limites da razão humana. Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui, aquiaqui.

LOLITA – O romance Lolita é a obra mais célebre do escritor russo Vladimir Nabokov (1899-1977), contando a história da relação amorosa entre um intelectual de meia idade e uma jovem adolescente. Da obra destaco o seguinte trecho: [...] Se comparecesse a julgamento perante mim próprio, aplicaria a Humbert, pelo menos, trinta e cinco anos de cadeia por violentação e retiraria todas as outras acusações. Mas, mesmo assim, Dolly Schiller sobreviver-me-á, provavelmente, muitos anos. Tomei a decisão seguinte, com todo o impacte e toda a validade de um testamento assinado: desejo que este relato só seja publicado quando Lolita já não viver. Assim, nenhum de nós estará vivo quando o leitor abrir este livro. Mas, enquanto o sangue latejar na minha mão que escreve, tu continuarás a fazer parte da abençoada matéria, tanto como eu, e ainda poderei falar contigo, daqui para o Alasca. Sê fiel ao teu Dick. Não deixes outros tipos tocarem-te. Não fales com desconhecidos. Espero que ames o teu bebé, assim como espero que o teu marido te trate sempre bem, pois de contrário o meu espírito descerá sobre ele como fumo negro, como gigante dementado, e destrui-lo-á nervo por nervo. E não lamentes C. Q. Havia que escolher entre ele e H. H. e desejava que H. H. existisse pelo menos mais uns meses, para que tu vivesses no espírito de futuras gerações. Penso em auroques e anjos, no segredo dos pigmentos duráveis, em proféticos sonetos, no refúgio da arte. E essa é a única imortalidade que tu e eu podemos compartilhar, minha Lolita. Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aquiaqui.

O SIMBOLISMO DO TEATRO – No texto O simbolismo do teatro (Estética teatral, 1980), o poeta, dramaturgo, crítico literário inglês e Prêmio Nobel de 1948, Thomas Stearns Eliot (1888-1965), assinala que: [...] Temos de um lado o drama poético, imitação do grego, imitação do isabelino ou filosófico-moderno. Do outro a comédia de ideias de Shaw a Galsworthy, até a comedia social vulgar. A farsa mais raquítica de Guitry tem no final uma ideia ou comentário mesquinho sobre a vida posto na boca de uma das personagens. Diz-se que o palco pode ser usado para uma multiplicidade de objetivos, e que talvez só um deles esteja unido à arte literária. Um teatro mudo é uma possibilidade (não me refiro ao cinema); o ballet é uma realidade (embora subíntima); a ópera uma instituição; mas quando temos o palco, imitações de vida com fala, o único padrão que podemos permitir é o da obra de arte, tendo como objetivo a mesma intensidade a que aspira a poesia e outras formas de arte. Nesta perspectiva o drama de Shaw é tão híbrido como o de Maeterlink e não precisamos nos admirar por pertencerem á mesma época. Ambas as filosofias são popularizações; no momento em que uma ideia é transformada do seu estado puro para se tornar compreensível a uma inteligência inferior, perdeu o contato com a arte. Só se pode manter pura se for posta simplesmente na forma de verdade geral ou se for transmutada, tal como a atitude de Flaubert para com o pequeno-burguês se transforma na Education Sentimentales: identificou-se de tal forma com a realidade que já não conseguimos dizer qual é a ideia. O essencial não é, evidentemente, que o drama seja escrito em verso, ou que nós possamos expiar o prazer de uma farsa ordinária com a assistência esporádica a uma peça de Eurípedes com a tradução do Prof. Murray à venda na porta do teatro. O essencial é por no palco esta expressão precisa da vida que é ao mesmo tempo um ponto de vista, um mundo – um mundo que a mente do autor sujeitou a um processo completo de significação. Não me parece que qualquer drama que encarne uma filosofia do autor (como Flaust) ou que ilustre uma teoria social (como a de Shaw) possa preencher os requisitos – embora possamos deixar um lugar a Shaw, senão a Goethe. Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aquiaqui, aqui, aqui e aqui.

POEMA A CÉU ABERTO – O poeta pernambucano Natanael Lima Júnior é autor de diversos livros, editor do blog Domingo com Poesia e membro da Associação de Blogs Literários do Nordeste (ABLNE), bem como de diversas academias literárias, tornando-se um divulgador proeminente e um agitador cultural de relevo para a poesia e o fazer poético. Entre os seus poemas destaco Poema a céu aberto: As noites passam ávidas. / Por vezes, / levianas, desregradas. / Algumas revelam / sombrias angústias / algemadas por paixões dissolventes. / Noutras se revelam / pálidas, tímidas. / Por vezes as desejo / obscenas, insanas, / dominadoras, cruéis. / E quando a noite cessa, / o poema se revela / a céu aberto. Veja mais do poeta aqui e aqui.


LE GENOU DE CLAIRE – O filme francês Le genou de Claire (O joelho de Claire, 1970), dirigido por Éric Rohmer, conta a história de um diplomata de carreira que de férias e às vésperas do seu casamento, recebe a visita de uma ex-namorada, através da qual, conhece uma jovem que possui uma irmã, Claire, que será cobiçada por ele, com a fantasia de acariciar o seu joelho. Veja mais aqui, aquiaqui.

IMAGEM DO DIA
Todo dia é dia da atriz estadunidense Mae West (1893-1980). Veja mais aqui & aqui.


Veja mais sobre:
A vida, a terra, o homem & a bioética, Grande sertão: veredas, de João Guimarães Rosa, A condição humana de Hannah Arendt, A cronologia pernambucana de Nelson Barbalho, Pau-Brasil de Oswald de Andrade, a poesia de Patativa de Assaré, a música de Elomar Figueira de Mello, a pintura de Fernand Khnopff, Shere Crossman & Antonio Cláudio Mass aqui.

E mais:
O sol nasce paratodos aqui.
A lição de casa amanhecer, A lenda da origem do Solimões, a escultura de Lorenzo Quinn, a música de Anne Schneider, a arte de Alice Soares, O lobisomem zonzo & Edla Fonseca aqui.
Brincarte do Nitolino, Hino ao Sol de Akhenaton, O fundador de Nélida Piñon, a música de Kitaro, Manifesto Pau-Brasil de Oswald de Andrade, Medeia de Eurípedes, Belfagor: O arquidiabo de Nicolau Maquiavel, a poesia de Percy Bysse Shelley, O dicionário do Aurélio, o cinema de François Truffaut, a pintura de Otto Lingner & Nina Kozoriz aqui.
Alvoradinha, o curumim caeté, a literatura de Lygia Fagundes Telles, a poesia de Manuel Bandeira, o teatro de Qorpo Santo, Psicologia social: infância, imagem e literatura, a pintura de Fernando Botero, a arte de Marilyn Monroe & Ashley Judd, Jayne Mansfield, a música de Roberto Carlos & O sabor da fonte de todos os gozos aqui.
Se um dia o sonho da vez, Expressões enganadoras de Gilbert Ryle, a poesia de Elizabeth Bishop, Os nascimentos de Eduardo Galeano, a música de Dandara & Paulo Monarco, a pintura de Carla Shwab & Lavinia Fontana, a arte de Rosa Esteves & W. G. Collingwood aqui.
A vida se desvela nos meus olhos fechados, Ensaios filosóficos de John Langshaw Austin, a literatura de Dostoiévski & Georg Eliot, a música de Mísia, a fotografia de Edward Weston, Rico Lins & Krzyzanowski Art, a arte de Top Thumvanit & Stephanie Sarley aqui.
Carta de amor, Espécies naturais de Willard Van Orman Quine, Madre Teresa de Calcutá, a música de Dori Caymmi, a literatura de Alicia Dujovne Ortiz, a arte de Henry Monnier & Tanja Ostojić, a fotografia de João Roberto Riper & Luciah Lopez aqui.
A fome e a laranjeira, Princípios da filosofia do direito de Hegel, O espírito de Romain Rolland, O diário de Frida Kahlo, a música de Bach & Janine Jansen, a fotografia de Sebastião Salgado, a xilogravura de Fernando Saiki, a arte de David Padworny & Tempo de amar de Genésio Cavalcanti aqui.
Papo de Fabos, Escarafunchando Friederich Perls, O castelo de Franz Kafka, a literatura de Machado de Assis, a música do Discantus, a pintura de Renato Guttuso & Luba Lukova, a arte de Carmela Gross & Paulo Ito aqui.
Barulho da miséria, Escritos lógico-linguisticos de Peter Strawson, a literatura de Baronne de Staal & Mary Shelley, a música de Shania Twain, a escultura de Ben Weily, a pintura de Anna Miarczynska, o grafite de Magrão Bz, a arte de Fabio de Brito & a poesia de Livia De La Rosa aqui.
Repente qualquer jeito para ver como é que fica, A servidão humana de Baruch de Espinoza, A tecnologia na arte de Edmond Couchot, A vida antes do homemd e Margaret Atwood, a música de Jackson do Pandeiro, a escultura de Antonio Corradini, a fotografia de Nikolai Endegor, a arte de Victoria Selbach & Leonel Mattos aqui.
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DIDI-HUBERMAN, LINDA DEANE, ADALYN GRACE & MARINÊS

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