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quinta-feira, março 02, 2017

DINÁ DE OLIVEIRA, ALCESTE & EURÍPEDES, FERENC GAÁL & MOHAMMED AL-AMAR

Veja a Fanpage  aqui, os vídeos aqui e os poemas & canções aqui.

O SONHO DE INFÂNCIA &OS DISSABORES DA VIDA - Imagem: Exile From One's Country, art by Mohammed Al-Amar - A infância dela parecia sonho entre brinquedos e mimos. A falta de um irmãozinho era suprimida pela coleção de bonecas de todos os tamanhos. Não lhe faltavam atenções, manhas e presentes. Os pais sempre às voltas com surpresas e festas. Assim até à adolescência, dobraram-se os cuidados, tinha sempre um vigilante à espera para onde fosse: cinema, escola, cursos. O namorico inocente começou às escondidas, logo a desconfiança pairou sobre determinado rapaz, um ou outro na adivinhação dos protetores. Não demorou muito, resolveu de cara botar tudo em pratos limpos e logo passou as boas novas. Ledo engano, o pai não aprovou aquela sua paixão de debutante, não sabia ele que já suspirara por tantos que nem notavam sua presença, sempre levados por outras meninas mais afoitas que ela, a timidez atrapalhava. Mesmo assim manteve o idílio e quando se viu obrigada a afastar-se do tal, por vingança, entregou-se. Emprenhada, não esperava que o amado fugisse à responsabildiade, evadiu-se dela nunca mais saber dele. O genitor não lhe perdoou a fraqueza. A mão solidária, ranzinza e ríspida, não dava tréguas. A religiosidade deles não permitia o aborto sugerido pelas colegas e parentes, o filho dos sonhos de infância passava a ser um peso, nove meses e viu-ss mulher na marra, tinha que se virar e, depois de sério desentendimento, buscar sustento por subempregos, promessas de glamour no desfile de modelos. Duplo engano, sozinha, filho pra cuidar, suas fantasias de princesa se esvaíam em lágrimas e cada sapo beijado não se tornava no príncipe que lhe redimisse todas as dores e incertezas. Tentou fazer o certo, esforçou-se aproximar-se dos familiares e da religião, ou isso ou não tinha mais a quem recorrer, cabrestos dobrados, severidade aguda se quisesse alguma ajuda. Não dava mais pra pensar em dançar balé ou funk, ou ser atriz de novela ou cantora de sucesso, tudo se apagara com os pesadelos, não queria esperar a vida inteira por um milagre, foi à luta. Mais ousava, mais se rendia. Aprendeu que o amor é lindo, mas em nada se parecia com o que dizia os poemas dos homens e o que lhe queimava por dentro: o amor era mesmo incompreensível. A vida, pior, era um quebra-cabeça complicado pela escola, pelos professores, familiares e todos que queriam meter o bico na sua vida, sentindo-se por isso ora Eva, culpada pela queda dos homens, ora Lilith, dolosamente desamada. Aprendia da forma mais amarga, a indiferença doía como uma punhalada funda no peito. Viu-se chantageada, ludibriada, usada e corrompida. Na volta do dinheiro, tudo é bom. Porém, para tê-lo teria que abrir as pernas, deixar-se possuir por qualquer um e fingir o gozo nunca tido. A história continuava contando só pra quem venceu, aos perdedores o fel do fracasso e anonimato, o estigma dos malditos. Ela acreditava na felicidade, ao mesmo tempo que sabia impossível ser feliz, coisa só pros outros, ela já estava condenada a sofrer. Mesmo que gritasse: Eu existo! Nada adiantaria, sua vida, pra ela mesmo, não tinha mais conserto, só fugazes prazeres fingidos e tudo uma droga, ou se sujeitava ao braço do macho, ou amargaria o sabor da incompreensão. Não. Mil vezes disse não e mil vezes mais repetiu que jamais cederia e cedia a cada vez mais que negasse e via-se sem saída, cuspida, ultrajada, seviciada. Ah, pensava consigo, existe um outro jeito de ser feliz, há de haver e sonhava. Aos poucos percebeu que tudo era só sonho, no chão a sua vida. Ah, vou à luta! E foi, de novo, saias ao vento, coração na mão, a vida que fosse o que Deus quisesse. © Luiz Alberto Machado. Veja mais aqui.

ONDE ANDARÁ MARIA?
Antigamente quando eu ouvia
Vindo de longe a orquestra do meu bloco
De braços dados com Maria
Cantava alegre até o romper do dia.
Meu Deus do céu
Meu Deus do céu
Onde andará Maria?
Maria Sorrindo, o povo na rua
Cantava, cantava, cantava.
Maria dançando, o mundo que gira
Parava, parava, parava.
Em toda a cidade o que era tristeza
Virava alegria e eu era feliz
Carregando em meus braços Maria.
Onde andará Maria, premiado frevo-de-bloco da atriz, instrumentista e compositora Diná de Oliveira (1907-1998).

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DESTAQUE: ALCESTE DE EURÍPEDES
[...] Estão me arrastando.... eu o sinto! Alguém me oprime... tu não vês? Arrastam--me para a mansão dos mortos... É Plutão!... ele mesmo!.... com suas asas... e seus olhos horrendos, cercados de negras sobrancelhas... oh! Que fazes? Deixa-me! Pobre de mim! Que caminho sombrio é este, por onde me conduzem? [...] bem vês a que extremidade cheguei; desejo, antes de morrer, que ouças o que te quero revelar. Amando-te sinceramente, e dando minha vida para que continues a ver a luz, morrerei por ti quando poderia viver por longo tempo ainda, receber por esposo aquele, dos tessálios, que eu preferisse, e habitar o palácio real. Mas recusei-me a viver privada de tua companhia, e a ver meus filhos sem pai; não me poupei, dispondo embora dos dons da mocidade e dos meios de os usufruir. Traíram-te teu pai e tua mãe, sim! Pois sua avançada idade lhes permitiria uma morte gloriosa, salvando o filho por um rasgo meritório. És, com efeito, o filho único que possuem; após tua morte, nenhuma esperança lhes seria possível, de ter ainda prole no futuro. E eu continuaria a viver, tu não sofrerias por toda a vida, a falta de uma esposa, e não serias forçado a educar filhos órfãos de mãe.. mas um deus quis que as coisas tomassem este rumo... seja! De tua parte, e porque sempre te hás-de lembrar disto, concede-me uma graça, em troca; não igual à que te faço, pois não há bem mais precioso que a vida; mas juta, como tu mesmo reconhecerás. Tu amas a nossos filhos tanto quanto eu, se teu coração é sincero e honesto. Que sejam eles os donos de nosso lar! Não os submetas, nunca, à autoridade de uma madrasta, que seria certamente inferior a mim, e que, impelida pelo ciúme, maltrataria essas pobres crianças que são teus filhos, mas também são meus! Eu te conjuro: não faças tal coisa! A madrasta que sucede à esposa é inimiga dos filhos do primeiro matrimônio, e em nada inferior a uma víbora. O filho varão tem, no pai, um protetor; corre para ele, e o pai o protege. Mas quanto a minha filha, como poderá ser honestamente educada durante a sua virgindade? Ó minha filha! Que segunda esposa de teu pai mandará sobre ti? Receio bem que, lançando sobre tua reputação uma nódoa infamante, possa ela amargurar tua juventude, e impedir que realizes um ditoso casamento. Tua mãe nada poderá fazer pelo teu consórcio; nem estará a teu lado quando vierem ao mundo teus filhos, quando não há companhia mais querida que a de uma boa mãe. Devo morrer; e este cruel trespasse não será amanhã, nem no terceiro dia do mês; mas dentro de alguns momentos já estarei incluída entre os mortos. Meu esposo, sê feliz... tu bem te podes gloriar de ter possuído a mais amorosa das esposas, e vós, queridos filhos, de terdes tido a mais carinhosa das mães!
Trecho da peça teatral Alceste, do poeta trágico grego Eurípedes (480-460aC), contando a história de uma princesa que, na mitologia grega, torna-se célebre pelo amor dedicado ao seu marido. Veja mais aqui e aqui.

CRÔNICA DE AMOR POR ELA
A arte do pintor e artista gráfico húngaro Ferenc Gaál (1891-1956).
Veja mais aquiaqui e aqui.

CANTARAU: VAMOS APRUMAR A CONVERSA
Paz na Terra
Recital Musical Tataritaritatá - Fanpage.
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quinta-feira, junho 11, 2015

SCHOPENHAUER, EURÍPEDES, KAWABATA, BRENNAND, STRAUSS, GERALDO CARNEIRO, MAE WEST, FORTUNA, CONSTABLE & ARTETERAPIA!!!


O MUNDO COMO VONTADE DE REPRESENTAÇÃO – A obra O mundo como vontade de representação (Die Welt als Wille und Vorstellung, 1919 - Unesp, 2005), do filósofo alemão Arthur Schopenhauer (1788-1860), é dividida em quatro livros e um apêndice da crítica da filosofia kantiana. O primeiro livro aborda sobre a teoria do conhecimento – O mundo como representação, primeiro ponto de vista: o objeto da experiência e da ciência. Nessa parte o autor considera que "O mundo é a minha representação", tendo por ideia básica a concepção filosófica de que o mundo só é dado à percepção como representação, definindo que o mundo é representação e vontade. O segundo livro trata sobre a filosofia da natureza – O mundo como vontade, primeiro ponto de vista: a objetivação da vontade. Nessa parte, o autor entende que a totalidade do mundo como representação é o espelho da vontade, só existindo na manifestação concomitante e recíproca das diferentes ideias. O terceiro livro aborda sobre a metafísica do belo - O mundo como representação, segundo ponto de vista: a representação independente do princípio de razão & a ideia platônica, objeto da arte. Para o autor, é na arte que se adquire o conhecimento da representação independentemente do princípio de razão, uma vez que ele estuda as mais diversas formas de arte procurando a demonstração de que todas elas buscam permitir o conhecimento das objetividades adequadas da vontade, das mais simples às mais complexas. O quarto livro trata sobre a ética – O mundo como vontade, segundo ponto de vista: atingindo o conhecimento de si, afirmação ou negação da vontade, no qual revela a fonte para o existencialismo e niilismo, a partir do questionamento de Hamlet: ser ou não ser? Com essa condução investiga a vida e a morte, a liberdade, conhecimento e sofrimento, a afirmação e negação da vontade, trazendo a demonstração de que a dor não se interrompe porque toda vida é sofrimento. Por conclusão, a sua filosofia entende que na vida humana as dores superam os prazeres e a felicidade é inalcançável, vez que a vida humana é má e que o mundo, em sua totalidade, é uma manifestação de força irracional como vontade de vida: “Todo querer se origina da necessidade, portanto, da carência, do sofrimento. A satisfação lhe põe um termo; mas para cada desejo satisfeito, dez permanecem irrealizados [...] a vida não admite nenhuma felicidade verdadeira”. Veja mais aqui.

Imagem: Study of a female nude, seen from behind, do pintor inglês John Constable (1776-1837).

Curtindo o álbum Also Sprach Zarathustra – Tone Poem For Large Orchestra Op. 30 (Deutsche Grammophon, 1974), do compositor alemão Richard Strauss (1864-1949), com regência de Herbert von Karajan na Berliner Philharmoniker, inspirado na obra homônima do filósofo e poeta alemão Friedrich Nietzsche (1844-1900). Veja mais aquiaquiaqui e aqui.

VAMOS APRUMAR A CONVERSA? (Imagem: Fortuna – 1637, do pintor do Barroco flamengo Peter Paul Rubens – 1599-1640) Ou vamos agarrar a ocasião pelos cabelos? É o que diz o provérbio, porque oportunidade aparecida, se não for aproveitada, será bem desaparecida. Ou como diz o Corvo de Poe: Nunca mais. Ou se agarra por onde e como se possa, ou ficará: não deu, só na outra. Isso se houver outra sorte. A propósito, os gregos e os romanos, em suas fábulas, descreviam a deusa Fortuna ou Ocasião, como uma mulher nua, cega e calva, com asas nos pés, um deles sobre uma roda, ou seja a roda da Fortuna, e outro no ar. É, portanto, dificílima de agarrar. O fabulista Fedro diz que a Fortuna é calva, mas tem um tope de cabelos na testa, por onde convém segurá-la, e se uma vez escapa, Non ipse possit Jupiter reprehendere. O poeta grego Posídipo escreveu um epigrama, em que há um diálogo com a Fortuna: - Por que tua cabeleira está na testa? - Para que me agarrem quando me encontrarem. – E por trás por que Zeus te fez calva? – Para aqueles que me deixaram passar com meus pés alados não possam mais me agarrar. Também o poeta francês Tristan L ´Hermite rimou: A ocasião é calva e pronta a fugir; / assim que se oferece, deve-se agarrá-la. Já Shakespeare diz na II cena do primeiro ato da comédia As you Like It (Como quiserdes): Sentemo-nos e zombemos da fortuna com a sua roda, que seus dons serão daí em diante partilhados igualmente. Na mitologia grega Tique ou Tiquê era a divindade da prosperidade e da fortuna, destino e sorte, cuja deusa era envolvida de repleta violência arbitrária e de reveses desprovidos significados para o mundo helenístico. Entendia-se que Tique, amante cega da Fortuna, governava a humanidade com inconstância, razão pela qual se explicava as vicissitudes da época. Até o historiador grego Políbio creditou a ocorrência de secas, geadas ou enchentes à justiça de Tique. Já Sófocles, na sua peça Édipo Rei, menciona a sua crença nela como sendo sinônimo do acaso divino. O seu caprichoso poder alcançou respeitabilidade entre os filósofos, enquanto que os poetas a insultavam como uma meretriz inconstante. Na mitologia romana adotou o nome de Fortuna, identificada como a deusa da sorte, seja ela boa ou má, e da esperança. Era representada portando uma cornucópia e um timão, simbolizando a distribuição de bens e a coordenação da vida dos homens, distribuindo os desígnios aleatoriamente. Tanto é que na arte medieval ela passou a ser representada portando uma cornucópia, um timão emblemático e a roda da fortuna, presidindo sobre o circulo do destino. Entre os romanos, o dia 11 de junho era consagrado à sua veneração. E até hoje ela é almejada por muitos. E vamos aprumar a conversa aqui.

PERCURSOS EM ARTETERAPIA – A coleção Percursos em arteterapia (Summus, 2004), organizada pela Gestalt-terapeuta Selma Ciornai, traz no primeiro volume temas como arteterapia gestaltica, a arte em psicoterapia e sua supervisão, abordando as vertentes pioneiras, os fundamentos epistemológicos e filosóficos correlatos, o pensamento terapêutico, a prática e os novos paradigmas da terapia social, grupos e artepsicoterapia com crianças e adolescentes, os recursos artísticos, fotografia, entre outros. No segundo volume trata do ateliê terapêutico, da arteterapia no trabalho comunitário, integrando trabalhos plásticos e linguagens expressivas, arteterapia e história da arte, abordando temas como o resgate do universo feminino, a preparação psicológica de atletas, oficina educacional e terapêutica integrando musicoterapia, psicodrama, corpo e literatura, a criação literária, contar história como possibilidade de tecer o invisível, as emoções, o olhar poético para a história pessoal. O terceiro volume envolve a arteterapia no contexto educacional, psicopedagógico e saúde, abordando sobre a relação dialógica entre o terapeuta e o cliente, educador e aprendiz, processo terapêutico de crianças com dificuldades de aprendizagem, arte, filosofia e antropologia, arte e corpo como cura, fonoaudiologia, a cor e a emoção da linguagem, trabalho com dependentes químicos em instituição de saúde pública, profilaxia para o estresse do profissional de saúde, hemodialisart: arteterapia para pacientes em programa crônico de diálise, arte no cuidado com pacientes com HIV e câncer, arte-reabilitação em enfermaria infantil e com portadores de paralisia cerebral e vítimas de dano cerebral. Veja mais aqui e aqui.

A CASA DAS BELAS ADORMECIDAS – O livro A casa das belas adormecidas (1961 – Estação Liberdade, 2004), do escritor japonês ganhador do Prêmio Nobel de Literatura Yasunari Kawabata (1899-1972), demonstra a virtuosa descritiva imbuída de um erotismo inusitado contando a história de um senhor idoso frequentador de bordel de mulheres adormecidas por narcóticos e jovens virgens, na busca dos prazeres perdidos, recheada de fantasia e rememorações. Da obra destaco o trecho: [...] Na sala de visitas, um banquete havia sido preparado para recepcionar os recém-casados. Depois de receber os cumprimentos da jovem esposa, a mãe foi à cozinha para esquentar a sopa. De lá vinha um cheiro de pargos assados. Eguchi foi ao corredor olhar as flores. A jovem esposa seguiu-o. Que lindas flores! — exclamou ela. Sim. — Eguchi, para não assustá-la, omitiu o fato de que elas não estavam ali antes. No momento em que ele olhava fixamente uma das mais graúdas, uma gota de sangue pingou de uma das pétalas. Ah! — gemeu ele. O velho Eguchi abriu os olhos. Balançou a cabeça, mas estava tonto devido ao sonífero. Tinha- se virado para o lado da garota escura. O corpo dela estava frio. Ele sentiu um arrepio. A garota não respirava. Colocou a mão no coração dela, mas não sentiu suas batidas. Eguchi pulou do leito. Cambaleou e caiu. Com o corpo todo tremendo, saiu para o quarto contíguo. Olhou à sua volta e viu a campainha ao lado do tokonoma. Apertou o botão com força durante muito tempo. Ouviu os passos na escada. “Teria eu apertado o pescoço da garota sem saber enquanto dormia?” Voltou quase engatinhando e olhou o pescoço dela. Aconteceu alguma coisa? — perguntou a mulher da casa. Esta menina está morta — os dentes de Eguchi batiam. A mulher permaneceu calma e, esfregando os olhos, disse: Morta? Não pode ser. Morta, sim. Ela não está respirando. E o pulso está parado. Enfim, a mulher empalideceu. E ajoelhou-se na cabeceira da garota escura. Não vê que está morta? A mulher levantou a coberta e examinou a garota. Senhor, fez alguma coisa a ela? Não fiz nada. Ela não está morta. O senhor não precisa se alarmar com nada... — a mulher se esforçava para se manter fria e impassível. Ela está morta. Chame logo o médico! O que a senhora deu a ela? Pode ser que ela seja alérgica. Por favor, senhor, não faça alarde! Prometo que não vamos lhe causar nenhum incômodo... seu nome nem aparecerá... Estou dizendo que ela está morta! Estou certa de que ela não morreu. Que horas são agora? Já passa das quatro. A mulher levantou a garota escura totalmente nua e cambaleou. Deixe que eu lhe ajude. Não é necessário. Há um homem lá embaixo... Mas a menina é pesada. Não se preocupe com os assuntos da casa. Volte a descansar, por favor. Ainda há uma garota. “Ainda há uma garota.” Não havia nada que ferisse mais a fundo o velho Eguchi do que aquelas palavras. De fato, no leito do quarto ao lado ainda restava a garota clara. Mas como? Não vou conseguir dormir! — na voz furiosa do velho Eguchi misturavam-se covardia e medo. — Também vou-me embora. Não faça isso, por favor. Se o senhor sair a esta hora poderá levantar suspeitas... Não vou conseguir dormir. Vou lhe trazer mais comprimidos. Ouviu-se o barulho da mulher arrastando o corpo da garota escura escadaria abaixo. O velho, que vestia apenas o yukata, só agora sentira o frio penetrar seu corpo. A mulher retornou com os comprimidos brancos. Por favor, tome isto e amanhã de manhã fique descansando à vontade. Está bem. — O velho abriu a porta do quarto contíguo, onde as cobertas estavam jogadas como tinham sido deixadas havia pouco. A nudez da garota clara continuava estendida em sua beleza deslumbrante. Ah! — contemplou-a Eguchi. Ouviu distanciar-se o carro que levava o corpo da garota escura. Seria levado para aquela suspeita hospedaria de águas termais, para onde fora carregado o cadáver do velho Fukura? Esta obra inspirou duas outras: Memória das minhas putas tristes (2004), do escritor colombiano Gabriel García Márquez (1927-2014) e da peça teatral The House of Sleeping Beauties (1983), do dramaturgo, libretista e roteirista estadunidense David Henry Hwang. Veja mais aqui.

JARDIM DAS DELÍCIAS: BELLADONA & OLHOS DE RESSACA – Como já dissera, conheci a obra do escritor, compositor e roteirista Geraldo Carneiro por intermédio da arte de Egberto Gismonti, quando mantive os primeiros contatos com o compositor lá pelos idos dos anos 1970. Depois encontrei Geraldinho no grupo Cardiem, hoje Arremesso, do poetamigo e compositor Felipe Cerquize. Foi daí que pude ter contato com sua obra admirável, desde o seu Verão Vagabundo (1980), Piquenique em Xanadu (1988), Pandemônio (1993), Bandeira cinco mil reais, folias metafísicas (1995) e Leblon: crônica dos anos loucos (1996). Da sua poesia destaco Jardim das Delícias: nesta madrugada de 7 de outubro / não farei previsões de estranhos / no Parque / enquanto caminho nas mesmas aléyas / que guardam traços do seu gesto claro / e a alameda das acácias exala / odores de memória e medo / “I sit and watch the children playing” / você descobre o alarido das crianças / e parece se assustar a cada grito / reverberado nas paredes de granito das / estátuas e você se encanta quando recai / o silêncio sobre as paredes ainda marcadas / de luz e estrelas. Também Belladona, lady of the rocks: você pode mexer com as quatro cabeças / sem que elas tragam algum malefício / sem que elas exalem o cheiro terroso / das raízes / você pode mexer com as quatro cabeças / e ocultá-las sob o lençol / debaixo das telhas / você pode espremer as quatro cabeças / e fazer com que escorra seu caldo grosso / para dar de beber aos estranhos / para dar de beber à família / você pode dançar sobre as quatro cabeças / sem que sintam sua falta no Jantar de Bodas / sem que sintam sua falta / depois você se tranca no quarto / e põe um disco na vitrola. Por fim, Olhos de ressaca: minha deusa negra quando anoitece / desce as escadas do apartamento / e procura a estátua no centro da praça / onde faz o ponto provisoriamente / eu fico na cama pensando na vida / e quando me canso abro a janela / enxergando o porto e suas luzes foscas / o meu coração se queixa amargamente / penso na morena do andar de baixo / e no meu destino cego, sufocado / nesse edifício sórdido & sombrio / sempre mal e mal vivendo de favores / e a minha deusa corre os esgotos / essa rede obscura sob as cidades / desde que a noite é noite e o mundo é mundo / senhora das águas dos encanamentos / eu escuto o samba mais dolente & negro / e a luz difusa que vem do inferninho / no primeiro andar do prédio condenado / brilha nos meus tristes olhos de ressaca / e a minha deusa, a pantera do catre / consagrada à fome e à fertilidade / bebe o suor de um marinheiro turco / e às vezes os olhos onde a lua / eu recordo os laços na beira da cama / percorrendo o álbum de fotografias / e não me contendo enquanto me visto / chego à janela e grito pra estátua / se não fosse o espelho que me denuncia / e a obrigação de guerras e batalhas / eu me arvoraria a herói como você, meu caro / pra fazer barulho e preservar os cabarés. Tive oportunidade, inclusive, de entrevistá-lo no meu Guia de Poesia. Confira aqui, aqui e aqui.

IFIGÊNIA ENTRE OS TAUROS – A tragédia grega Ifigênia entre os tauros (Annablume/Universidade de Lisboa, 2014), faz parte da trilogia troiana do poeta trágico grego Eurípedes (480aV-406aC), contando a história das relações familiares e o exílio de Ifigência – que na mitologia grega simboliza o autosacrificio feminino, significando seu nome forte desde o nascimento -, em terras bárbaras para desempenhar a função de sacerdotisa de Ártemis. Conta, portanto, que se pai Agamêmnon, rei de Micenas, terá de sacrificar sua filha Ifigênia para que ganhe o apoio e a calmaria da deusa Ártemis, para o ataque de Troia. Com a chegada inesperada de Clitemnestra e Aquiles, a trama se complica. Destaco o trecho na tradução de Nuno Simões Rodrigues: [...] (Ifigénia entra no templo e Orestes e Pílades aparecem.) Orestes Fica atento! Mantém-te vigilante, não vá aparecer alguém no caminho! Pílades Estou atento! Mantenho-me alerta. Vou olhando em todas as direcções. Orestes Achas que é este o templo da deusa, Pílades, para onde navegaram as nossas naus desde que saíram de Argos? Pílades Sim, acho que sim, Orestes! E não há razão para não concordares comigo. Orestes É então este o altar, de onde corre sangue helénico? Pílades Sim, e olha como está vermelho, por efeito do sangue... Orestes Estás a ver os troféus, pendurados nas cornijas? Pílades Vejo! Juntamente com as cabeças de estrangeiros mortos. Mas temos de estar atentos a tudo o que nos cerca. (Pílades olha à sua volta.) Orestes Ó Febo! Que armadilha é esta a que me conduziste, através do teu oráculo? Expulsos da nossa terra, temos vindo a fugir das Erínias, que se revezam para me perseguir, desde que honrei o sangue do meu pai, matando a minha mãe. Já percorri muitos caminhos sinuosos, depois de ter ido perguntar-te como podia terminar com esta loucura que me traz desvairado e com as penas [por que passei, às voltas pela Hélade]. Disseste-me que viesse aos confins da terra táurica, onde Ártemis, tua irmã, tem altares, e que me apoderasse da estátua da deusa, a mesma que dizem que caiu do céu neste templo. Que a tomasse ou pela argúcia ou pela sorte e que, depois de ter corrido esse perigo, a levasse para o território dos Atenienses. (Além disso, nada mais me revelaste). Apenas que, assim que cumprisse as tuas ordens, aliviaria as minhas penas. Obedecendo às tuas palavras, cheguei a esta terra desconhecida, inóspita. Pergunto-te, ó Pílades, (pois tens-me ajudado nestes trabalhos), o que fazemos agora? Vês como é alta a parede que muralha o recinto? Devemos subir até ao templo? E como fazer para não sermos vistos? Partimos as barras de bronze com um bastão? Mas não sabemos quais delas partir! E se nos apanharem a abrir a porta e a prepararmo-nos para entrar, morremos. Portanto, antes que tal aconteça, fujamos para a nau que aqui nos trouxe. [...] Veja mais aqui e aqui.

I´M NO ANGEL – A comédia I’m no Angel (1933), dirigido pelo cineasta estadunidense Wesley Ruggles (1889-1972), é considerada pela crítica especializada como o melhor filme realizado pela atriz estadunidense Mae West (1893-1980), vivendo a personagem de uma estrela de circo e que é assediada por muitos homens admiradores que lhe presenteiam joias, colares e pulseiras, que se transforma em domadora de leões para garantir renda extra, até alcançar a simpatia de milionários que a cumulam de presentes, até se tornar noiva de um ricaço, envolvendo-se numa trama com maquinações do dono do circo que não quer perder a sua principal atração. O filme no seu lançamento teve problemas com a censura por causa das frases engraçadas e de duplo sentido, causando polêmicas e fama para a atriz. Veja mais aqui.

IMAGEM DO DIA
 Arte do escultor, ceramista e artista plástico Francisco Brennand.

TODO DIA É DIA DOS NAMORADOS!!!!!
Confira aqui. (Imagem Jules Feiffer).

Veja mais sobre:
Domingo do que fui e não sou, O erotismo de Georges Bataille, a poesia de Federico Garcia Lorca, Os segredos da ficção de Raimundo Carrero, a música de Laurie Anderson, a pintura de Marta Nael & Cecily Brown, a xilogravura de MS, a arte de Benedict Olorunnisomo & Paula Valéria de Andrade aqui.

E mais:
Vamos aprumar a conversa: a questão ambiental, O retorno da deusa de Edward C. Whitmont, Baú de ossos de Pedro Nava, Pequeno poema infinito de l Federico García Lorca, Zuzu Angel & Sérgio Rezende, a pintura de Tereza Costa Rego, a música de Martha Argerich & Kenny G aqui.
Dia Branco, A jaca na cabeça de Isaac Newton, a literatura de Ítalo Calvino & Mark Twain, Meio Ambiente, a música de Geraldo Azevedo, A promessa do behaviorismo de John B. Watson & Programa Tataritaritatá aqui.
Todo dia é dia do meio ambiente aqui.
LAM no Bom Dia, Alagoas da TV Gazeta de Alagoas, Conteúdo, didática & educação aqui.
Por você, a fotografia de Kate Winslet & a gravura de Franz von Bayros aqui.
Inclusão social pelo trabalho & Washignton Novaes, o pensamento de Pitágoras, A imprensa de Ralph M. Lewis, O romance reportagem de José Louzeiro, Doces palavras de Ednalva Tavares, A entrevista de Samir Yazbek, o cinema de Jacques Rivette, a pintura de Xue Yanqun, a arte de Lisa Lyon, Conselho do Doro, Cantadores populares & Responde a roda outra vez aqui.
Miolo de pote na volta da teibei aqui.
O que tiver de ser, será, A sociedade dos indivíduos de Norbert Elias, A morte como efeito colateral de Ana Maria Shua, a coreografia de Nadja Sadakova, a escultura de Zhang Yaxi, o teatro do grupo Tá na Rua, o cinema de Cristoph Stark & Cristoph Stark, a pintura de Mino Lo Savio & Pavlos Samios, a arte de Gustav Klimt & Lola Astanova, Brincar para aprender, a entrevista de Clara Redig & A sedução da serpente aqui.
Literatura & pós-modernidade, Só desamparo no descompromisso social, Cidadania de Evelina Dagnino, Quadrinho de história de Gláucia Vieira Machado, a música de Viviane Hagner, a coreografia de Yi-chun Wu, a escultura de Michael Talbot, Outro cântico de Micheliny Verunschk, o teatro de Buraco d’Oráculo, o cinema de Niki Caro & Keisha Castle-Hughes, a pintura de Oresteia Papachristou & Hajime Sorayama, A menina do sorriso ensolarado, a arte de Márcio Baraldi & Luciah Lopez aqui.
Escapando & vingando sonhos, A imprensa & O colapso do neoliberalismo de Nilson Araújo de Souza, a música de Bob Dylan, Fenomenologia do olhar de Alfredo Bosi, A memória coletiva de Maurice Halbwachs, Dinheiro roubado de Ricardo Piglia, a coreografia de Sandro Borelli, Lume Teatro, o cinema de Álex de La Iglesia & Rosie Perez, a escultura de Johann Heinrich von Dannecker, a pintura de Pablo Picasso & Roberto Chichorro, a fotografia de Roberta Dabdab, a arte de Marcos Carrasquer & Eugene Reunier, a entrevista de Leila Miccolis, Cidadania na escola & O poeta chora aqui.
Só a poesia torna a vida suportável, Adeus ao trabalho de Ricardo Antunes, Trabalho & capital monopolista de Harry Braverman, a música de Nadja Salerno-Sonnenberg, a fotografia de Dane Shitagi, Escambo de Teatro Livre de Rua, Cinema de Rua, a escultura de Kvitka Anatoly, a entrevista de Cláudia Telles, a pintura de Eugene Huc, a arte do Eduardo Paolozzi & Coletivo Transverso, Quando Tomé mostrou ao que veio & Arte na rua dos municípios aqui.
Poema em voz alta, Cidadania & Meio Ambiente, Ciranda dos libertinos de Marquês de Sade, O corpo obsceno de Maryam Namazie, A mulher suméria, O erotismo de Georges Bataille, a pintura de Paul Cézanne & Olivia de Berardinis, a escultura de Leroy Transfield, Decameron de Pier Paolo Pasolini, a coreografia de Ângelo Madureira & Ana Catarina Vieira, a música de Karina Buhr, Núpcias do NUA, a entrevista de Frederico Barbosa & a arte de Mozart Fernandes aqui.
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segunda-feira, maio 18, 2015

ROGERS, RUSSEL, WAKEMAN, HILTON, DELACROIX, CAPRA, PELÉ, MOVIMENTO, ABUSO SEXUAL & LUTA ANTIMANICOMIAL.


VAMOS APRUMAR A CONVERSA? – Tenho estudado e produzido trabalhos acadêmicos nas áreas de Psicologia, Direito e Educação, sobre a temática do Abuso Sexual. Essa prática se realiza por meio de um jogo em que o agente abusador impõe geralmente à criança ou adolescente, por meio de persuasão, indução, ameaça e violência física para prática e satisfação sexuais. Tais práticas são traumáticas, causando danos físicos e psicológicos. Já recolhi diversos depoimentos a respeito, dando conta de que a vítima carrega essa marca por toda vida, desenvolvendo, por consequência, comportamentos patológicos desde a avesão a parceiros, como a promiscuidade e sexualidade descontoladas, entre outros. Curiosamente, a grande maioria dos fatos ocorre dentro do próprio lar da vítima, até com conivência dos genitores. Como em nosso país a prática preventiva é colocada em último lugar e a educação passa por uma calamidade que se soma à nossa tragédia, o abuso sexual se mantém nos altos índices estatísticos. Não se pode aceitar que o Estado e as autoridades continuem omissos em tais casos, precisa-se de participação de cada um para que possamos coibir tal prática. Você também é responsável. E vamos aprumar a conversa aqui, aqui e aqui.

Imagem: Trois etudes pour autoportrait (1976) & Tríptico (1974-77), do artista plástico anglo-irlandês de pintura figurativa Francis Bacon (1909-1992).

Curtindo o álbum conceitual de rock progressivo Criminal Record (1977), do músico e compositor britânico, integrante da banda Yes, Rick Wakeman. Veja mais aqui e aqui.

TORNAR-SE PESSOA – O livro Tornar-se pessoa (Martins Fontes, 2007), do psicólogo norte-americano e criador da abordagem psicoterapeuta Terapia Centrada na Pessoa, Carl Ransom Rogers (1902-1987), aborda temas como algumas hipóteses com relação à facilitação do cres cimento pessoal, as características de uma relação de ajuda, o que se sabe da psicoterapia objetiva e subjetivamente, o processo de tornar-se pessoa, as ciências do comportamento e a pessoa, o poder crescente das ciências comportamentais, uma filosofia da pessoa, o lugar do indivíduo no mundo novo das ciências do comportamento, uma teoria da criatividade, entre outros assuntos. Da obra destaco o seguinte trecho: [...] Como poderei ajudar os outros? Por mais de vinte e cinco anos venho tentando responder a esse tipo de desafio. Isso fez com que recorresse a todos os elementos de minha formação profissional: os rigorosos métodos de medição de personalidade que aprendi pela primeira vez no Teacher’s Coliege, Colúmbia; os insights e métodos psicanalíticos freudianos do Instituto para Orientação da Criança, onde trabalhei como interno; os desenvolvimentos contínuos na área de psicologia clínica, com a qual estou estreitamente associado; a exposição mais breve ao trabalho de Otto Rank, aos métodos de trabalho social psiquiátrico, e outros recursos demasiado numerosos para serem mencionados. Porém, mais do que tudo, isto significou um aprendizado contínuo a partir de minhas próprias experiências e daquela de meus colegas do Centro de Aconselhamento, à medida que tentamos descobrir por nós mesmos meios eficazes de trabalhar com pessoas perturbadas. Gradualmente, desenvolvi uma maneira de trabalhar que se origina dessa experiência, e que pode ser testada, refinada e remodelada por experiências e pesquisas adicionais. Uma hipótese geral: Uma maneira breve de descrever a mudança que se efetuou em mim seria dizer que nos primeiros anos de minha carreira profissional eu me fazia a pergunta: Como posso tratar ou curar, ou mudar essa pessoa? Agora eu enunciaria a questão desta maneira: Como posso proporcionar uma relação que essa pessoa possa utilizar para seu próprio crescimento pessoal? Foi quando cheguei a colocar a questão desta segunda maneira que percebi que o que quer que tenha aprendido é aplicável a todos às minhas relações humanas, não só ao trabalho com clientes com problemas. É por esta razão que sinto ser possível que os aprendizados que tiveram significado para mim em minha experiência podem ter algum significado para você em sua experiência, já que todos nós estamos envolvidos em relações humanas. Talvez devesse começar por um aprendizado negativo. Fui me dando conta de maneira gradual de que não posso oferecer ajuda a esta pessoa perturbada por meio de qualquer procedimento intelectual ou de treinamento. Nenhuma abordagem que se baseie no conhecimento, no treinamento, na aceitação de algo que é ensinado, se mostra útil. Estas abordagens parecem tão tentadoras e diretas que, no passado, fiz uso de muitas delas. É possível explicar uma pessoa a si mesma, prescrever passos que devem conduzi-la para frente, treiná-la em conhecimentos sobre um modo de vida mais satisfatório. Porém tais métodos se mostram, em minha experiência, fúteis e inconsequentes. O máximo que podem alcançar é alguma mudança temporária, que logo desaparece, deixando o indivíduo mais do que nunca convencido de sua inadequação. O fracasso de quaisquer destas abordagens através do intelecto me forçou a reconhecer que a mudança parece surgir por meio da experiência em uma relação. Dessa forma, estou tentando afirmar de forma muito breve e informal, algumas das hipóteses essenciais relativas a uma relação de ajuda que pareceu angariar confirmação crescente tanto a partir de experiência quanto de pesquisa. Posso enunciar a hipótese geral em uma sentença, como se segue. Se posso proporcionar um certo tipo de relação, a outra pessoa descobrirá dentro de si a capacidade de utilizar esta relação para crescer, e mudança e desenvolvimento pessoal ocorrerão. A relação: Mas o que estes termos significam? Deixe-me tomar separadamente as três frases principais nesta sentença e indicar algo do significado que elas encerram para mim. Qual é esse certo tipo de relação que gostaria de proporcionar? Descobri que quanto mais conseguir ser genuíno na relação, mais útil esta será. Isso significa que devo estar consciente de meus próprios sentimentos, o mais que puder, ao invés de apresentar uma fachada externa de uma atitude, ao mesmo tempo em que mantenho uma outra atitude em um nível mais profundo ou inconsciente. Ser genuíno também envolve a disposição para ser e expressar, em minhas palavras e em meu comportamento, os vários sentimentos e atitudes que existem em mim. É somente dessa maneira que o relacionamento pode ter realidade, e realidade parece ser profundamente importante como uma primeira condição. É somente ao apresentar a realidade genuína que está em mim, que a outra pessoa pode procurar pela realidade em si com êxito. Descobri que isto é verdade mesmo quando as atitudes que sinto não são atitudes com as quais estou satisfeito, ou atitudes que parecem conducentes a uma boa relação. Parece extremamente importante ser real. Como uma segunda condição, acho que quanto mais aceitação e apreço sinto com relação a esse indivíduo, mais estarei criando uma relação que ele poderá utilizar. Por aceitação, quero dizer uma consideração afetuosa por ele enquanto uma pessoa de autovalia incondicional —de valor, independente de sua condição, de seu comportamento ou de seus sentimentos. Significa um respeito e apreço por ele como uma pessoa separada, um desejo de que ele possua seus próprios sentimentos à sua própria maneira. Significa uma aceitação de suas atitudes no momento ou consideração pelas mesmas, independente de quão negativas ou positivas elas sejam, ou de quanto elas possam contradizer outras atitudes que ele sustinha no passado. Essa aceitação de cada aspecto flutuante desta outra pessoa constitui para ela uma relação de afeição e segurança, e a segurança de ser querido e prezado como uma pessoa parece ser um elemento sumamente importante em uma relação de ajuda. Também acho que a relação é significativa na medida em que sinto um desejo contínuo de compreender —uma empatia sensível com cada um dos sentimentos e comunicações do cliente como estes lhe parecem no momento. Aceitação não significa muito até que esta envolva a compreensão. É somente à medida que compreendo os sentimentos e pensamentos Como poderei ajudar os outros? que parecem tão terríveis para você, ou tão fracos, ou tão sentimentais, ou tão bizarros —é somente quando eu os vejo como você os vê, e os aceito como a você, que você se sente realmente livre para explorar todos os cantos recônditos e fendas assustadoras de sua experiência interior e freqüentemente enterrada. Essa liberdade constitui uma condição importante da relação. Aqui está implicada uma liberdade para explorar a si próprio tanto com níveis conscientes quanto inconscientes, o mais rápido que se puder embarcar nessa busca perigosa. Há também uma liberdade completa de qualquer tipo de avaliação moral ou diagnóstica, já que todas estas avaliações são, a meu ver, sempre ameaçadoras. Dessa forma, a relação que considerei útil é caracterizada por um tipo de transparência de minha parte, onde meus sentimentos reais se mostram evidentes; por uma aceitação desta outra pessoa como uma pessoa separada com valor por seu próprio mérito; e por uma compreensão empática profunda que me possibilita ver seu mundo particular através de seus olhos. Quando essas condições são alcançadas, torno-me uma companhia para o meu cliente, acompanhando-o nessa busca assustadora de si mesmo, onde ele agora se sente livre para ingressar. Nem sempre sou capaz de alcançar esse tipo de relacionamento com o outro, e algumas vezes, mesmo quando sinto tê-lo alcançado em mim mesmo, a outra pessoa pode estar demasiado assustada para perceber o que lhe está sendo oferecido. Mas eu diria que quando sustenho em mim o tipo de atitude que descrevi, e quando a outra pessoa pode até certo grau vivenciar estas atitudes, então eu acredito que a mudança e o desenvolvimento pessoal construtivo ocorrerão invariavelmente e eu incluo a palavra “invariavelmente” apenas após longa e cuidadosa consideração. Veja mais aqui, aqui, aqui, aqui e aqui.

PORQUE NÃO SOU CRISTÃO – O livro Porque não sou cristão e outros ensaios sobre religião e assuntos correlatos (Exposiçaõ do Livro, 1972), do filósofo e matemático britânico Bertrand Russel (1872-1970), trata sobre análise das contribuições úteis da religião à civilização, sobrevivência à morte, céticos católicos e protestantes, a vida na Idade Média, o destino de Thomas Paine, a ética sexual, a liberdade e os Colleges, a existência de Deus, o poder da religião na cura das preocupações humanas, religião e moral, entre outros assuntos. Da obra destaco o trecho: [...] Multa gente nos diz que sem crença em Deus o homem não poderá ser feliz nem virtuoso. Quanto à virtude, posso apenas falar por observação, e não por experiência pessoal. Quanto à felicidade, nem a experiência, nem a observação, me levaram a pensar que os crentes são mais felizes ou infelizes, em média, do que os que não crêem. Costuma-se encontrar “grandes” razões para a infelicidade, porque é mais fácil à gente sentir-se orgulhoso de poder atribuir a própria miséria à falta de fé do que colocar a razão disso em nosso próprio fígado. Quanto ao que concerne à moralidade, depende muito de como se compreende esse termo. De minha parte, penso que as virtudes importantes são a bondade e a inteligência. A inteligência encontra obstáculo em qualquer credo, não importa qual – e a bondade é inibida pela crença no pecado e castigo (crença que, digase de passagem, é a única que o governo soviético tomou do cristianismo ortodoxo). Há, na prática, vários modos pelos quais a moralidade tradicional interfere com o que é socialmente desejável. Um deles, é a prevenção das doenças venéreas. Mais importante é a limitação da população. Progressos verificados na medicina tomaram este assunto muito mais importante do que jamais o foi antes. Se as nações e as raças que ainda são tão prolíficas como eram os ingleses de há cem anos não mudarem seus hábitos a este respeito, não há esperança alguma para a humanidade, exceto guerra e miséria. Todo estudante inteligente sabe disso, mas não o reconhecem os teólogos dogmáticos. Não creio que uma decadência da crença dogmática possa produzir outra coisa senão o bem. Apresso-me a admitir que os novos sistemas de dogmas, tais como os dos nazistas e dos comunistas, são ainda piores do que os velhos sistemas, mas jamais teriam podido dominar o espírito dos homens, se hábitos dogmáticos ortodoxos não tivessem sido instilados na juventude. A linguagem de Stalin é cheia de reminiscências do seminário teológico em que ele foi educado. O que o mundo precisa não é de dogma, mas de uma atitude de investigação científica, aliada à crença de que a tortura de milhões de indivíduos não é coisa desejável, quer seja infligida por Stalin ou por uma Deidade imaginada à semelhança daquele que acredita. Veja mais aqui.

MEDEIA – Imagem Medeia, do pintor do Romantismo francês Eugène Delacroix (1798-1863). A tragédia Medeia, do poeta trágico grego Eurípedes (480-406aC), conta o drama de uma mulher que deixou tudo para trás, sua pátria e família para seguir ao lado de um grande amor, até ser traída por ele. Jasão, líder dos argonautas, parte para Cólquida em busca do Velocino de Ouro, missão que lhe é imposta para que consiga retomar o trono de Iolco. No caminho conhece e se apaixona por Medéia que, embora filha de rei, ela usa seus poderes de feiticeira para ajudar Jasão a vencer os obstáculos impostos por seu pai. Saem vitoriosos, porém Medéia é traída pelo marido que a abandona para se casar com a filha do rei Creonte. Injustiçada e furiosa, a feiticeira não poupa esforços para vingar-se de Jasão. Mata os filhos que teve com o marido e lança sobre ele terrível maldição. Da obra destaco o trecho: [...] MEDEIA - Ó Zeus, ó Justiça, filha de Zeus, e luz do Sol68, vitoriosos estamos agora, ó amigas, sobre os nossos inimigos, e entramos já no caminho. Agora há esperança de fazer justiça sobre os nossos inimigos. Porque este homem, quando penávamos na maior aflição, apareceu como um porto de abrigo das minhas decisões. A eles prenderemos as amarras da popa69, dirigindo-nos para a fortaleza e cidade de Palas. Os meus planos, já tos vou dizer todos. Mas não recebas as minhas palavras a título de deleite. A Jasão alguém mandarei, dentre os meus servidores, pedindo-lhe que compareça à minha presença. E, quando ele chegar, dir-lhe-ei palavras brandas, de como também eu sou desse parecer, que estão bem as núpcias reais, que traindo-me, ele celebra, e que belo é o partido e bem calculado. Pedirei que os meus filhos fiquem , não para os deixar em terra hostil, a fim de serem mal tratados pelos inimigos, mas para tratar ardilosamente a filha do rei. Mandálos-ei então com presentes nas mãos71, um peplos sutil e uma coroa de ouro lavrado. E quando ela pegar nesses enfeites e os cingir ao seu corpo, terá uma morte horrorosa, assim como todo aquele que tocar na donzela. Tais serão os venenos com que eu hei de ungir os presentes. Mas neste ponto eu suspendo as minhas palavras. Gemo ao pensar na ação que em seguida tenho de praticar. Porque eu vou matar os meus filhos. Não há quem os possa livrar. E, depois de ter derrubado toda a casa de Jasão, saio do país, fugindo do assassínio dos meus filhos adorados, eu, que ousei a mais ímpia das ações. É que não se pode tolerar que os inimigos escarneçam de nós, ó amigas. Vamos. De que me vale viver? não tenho pátria, não tenho casa, não tenho refúgio para esta calamidade. Errei uma vez, quando abandonei a casa paterna, confiada nas palavras de um grego, que, com a ajuda do deus, sofrerá a nossa justiça. Porque não tornará a ver com vida, daqui por diante, os filhos que de mim teve, nem gerará nenhum da noiva recém casada, porque será forçoso que essa má tenha má sorte com os meus venenos. Ninguém me suponha fraca ou débil, nem sossegada; outro é o meu caráter: dura para os inimigos, benévola para os amigos. Porque de tais pessoas a vida é gloriosíssima [...] Veja mais aqui e aqui.  

CASA PELÉ – Acontecerá entre os dias 18 e 23 de maio, em Três Corações (MG), a 13ª Semana Nacional de Museus - 2015, na Casa Pelé, sobre o tema deste ano será “Museus para uma sociedade sustentável”. Trata-se de uma promoção do Instituto Brasileiro de Museus/IBRAM, para comemorar o Dia Internacional de Museus (18 de maio), ocasião em que museus, Casas de Cultura e Centros Culturais, convidados pelo instituto desenvolvem programação especial alusiva à data. Confira detalhes aqui.

HORIZONTE PERDIDO – O livro Horizonte perdido (Lost Horizont, 1933), do escritor britânico James Hilton (1900-1954), conta a história de um grupo de pesoas que, fugindo da guerra, é sequestrado para uma longínqua montanha do Tibete, Shangri-lá. De acesso quase impossível para quem não conhecesse perfeitamente o caminho, as pessoas, que lá chegavam não tinham a mínimia possibilidade de voltar. Foram maravilhosamente recebidos, mas na realidade estavam prisioneiros. Na pequena aldeia havia um mosteiro, fundado por um francês. E, como os que lá habitavam tinham uma vida muito longa, ele ainda era o Lama Superior. Pressentindo que seu fim se aproximava, escolhera o líder do grupo sequestrado para ser seu sucessor. Mas este se vê forçado a levar seus companheiros de volta. Da obra destaco o trecho: [...] Falamos por algum tempo sobre a guerra e seus efeitos em diversas pessoas, e finalmente ele continuou: — Mas há ainda um pormenor a que devo referirme... e talvez, em muitos sentidos, o mais estranho de todos. Veio-me ao conhecimento quando fazia indagações no hospital da missão. Todos fizeram o possível para me auxiliar, como deve supor, mas não podiam recordar muita coisa, sobretudo porque naquela ocasião tinham estado muito ocupados com uma febre epidêmica. Uma das questões que procurei esclarecer desde logo foi o modo como Conway havia chegado ao hospital — se se apresentara por si mesmo ou se, tendo sido encontrado doente, fora trazido ali por alguma pessoa. Não se lembravam bem — afinal de contas, fazia tanto tempo! —, mas de repente, quando eu já ia desistir do interrogatório, uma das freiras observou incidentalmente que "parecia ter ouvido do doutor que ele fora trazido por uma mulher". Era tudo o que me podia dizer, e como o doutor já houvesse deixado a missão, nenhuma confirmação era possível obter no momento. Mas, tendo eu já chegado tão longe, é claro que não estava disposto a suspender minhas investigações. Soube que esse doutor se transferira para um hospital mais importante, em Xangai, de modo que me informei sobre o seu endereço e fui até lá, na intenção de me avistar com ele. Foi logo depois dos reides aéreos dos japoneses e o aspecto da cidade era sinistro. Já conhecia esse médico, com quem travara relações durante minha primeira visita a Chung-Kiang. Foi muito polido, mas naquele momento estava terrivelmente ocupado — sim, terrivelmente é a palavra porque, acredite-me, os vôos dos alemães sobre Londres nada foram, comparados com o que os nipônicos fizeram nas zonas nativas de Xangai. "'Oh! sim', disse sem hesitar, 'lembro-me do caso daquele inglês que perdeu a memória". 'É verdade que ele foi trazido ao hospital da missão por uma mulher?', perguntei. 'Sim, sim, por uma mulher, uma chinesa.' 'Lembra-se de alguma coisa a respeito dela?' 'Nada', respondeu, 'salvo que la também estava atacada de febre e veio a morrer quase em seguida..."Nesse instante houve uma interrupção. Trouxeram um grupo de feridos e as padiolas atravancaram os corredores, pois as enfermarias já estavam repletas. Eu não podia tomar o tempo do homem, tanto mais que troavam os canhões em Woosung, advertindo-lhe que teria ainda muito que fazer. Quando voltou para junto de mim, com uma expressão animada apesar de todos aqueles horrores, só lhe fiz uma derradeira pergunta, que você com certeza adivinha qual fosse. " 'E essa mulher chinesa', disse eu, 'era jovem?' " Rutherford sacudiu nervosamente as cinzas do charuto, como se a narrativa o tivesse excitado tanto quanto esperava fazê-lo a mim. Depois continuou: — O doutorzinho olhou-me por um momento com ar solene e então respondeu, nesse inglês comicamente truncado que os chineses educados usam: " 'Oh! não, ela era muito velha, a mulher mais velha que vi até hoje.' [...] Foi adaptado para o cinema em 1937, pelo cineasta italiano Frank Capra (1897-1991), premiado com o Oscar (1938). Veja mais aqui.
  
IMAGEM DO DIA
Imagem do periódico Movimento que circulou entre os anos de 1975-1981, com o seu conselho editorial formado por Hermilo Borba Filho, Chico Buarque, Alencar Furtado, Orlando Villas-Boas, Audálio Dantas, Edgar da Mata Machado e Fernando Henrique Cardoso.


Veja mais sobre:
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Matizes, a poesia de Luís Vaz de Camões, a literatura de Jean de La Fontaine, O cartesianismo científico de Paulo Cesar Sandler, A lenda do Cavalo sem cabeça de Luís da Câmara Cascudo, Hécuba de Eurípedes, a música de Villa-Lobos & Celine Imbert, Clítia & a escultura de Hiram Powers, a arte de Esther Góes, o cinema de Woody Allen, Tiradas do Doro, a pintura de Hans Hassenteufel & Gustave Courbet aqui.
Brincarte do Nitolino, a literatura de Nélida Piñon, a música de Igor Stravinski, a poesia de Augusto dos Anjos, O antiteatro de Eugène Ionesco, o cinema de Graeme Clifford & Jessica Lange, a arte de Frances Farmer, a pintura de Joan Miró, As emoções de Suely Ribella, Papel no Varal & Ricardo Cabus aqui.
Freyaravi & o circo dos prazeres, Cultura de consumo pós-moderna de Mike Featherstone, Os contos brasileiros de Julieta de Godoy Ladeira, O kama sutra de Vātsyāyana, a música de Marisa Monte, a fotografia de Ralf Mohr, a pintura de Crystal Barbre & Luciah Lopez aqui.
Lualmaluz, De segunda a um ano de John Cage, Técnica e ciência de Jürgen Habermas. a História da literatura de Nelson Werneck Sodré, a música de Sally Seltmann, a performance de Marni Kotak, a pintura de Théodore Géricault, a escultura de George Kurjanowicz, a arte de Moisés Finalé & Luciah Lopez aqui.
Quando tudo é manhã do dia pra noite, A agonia da noite de Jorge Amado, a música de Bizet & Adriana Damato, o Folclore musical de Wagner Ribeiro, a pintura de Aleksandr Fayvisovich, Postuman bodies de r Judith Halbertam & Ira Livingstone, a fotografia de Christian Coigny & Bryan Thompson, a arte de Mirai Mizue & Luciah Lopez aqui.
Uma coisa quando outra, o pensamento de Marshall Berman, a literatura de Adolfo Casais Monteiro, Arquiteturas líquidas de Marcos Novak, a música de Tom Jobim & Maucha Adnet, Adriana Garambone, a pintura de Renie Britenbucher, a arte de Alyssa Monk & Luciah Lopez aqui.
Feliz aniversário: resiliência, perspectivas & festas, o pensamento de Paulo Freire, a literatura de Octavio Paz, A resiliência de Makilim Nunes Baptista, a música de Midori Goto, a pintura de Luis Crump, Babi Xavier, a arte de Fabrice Du Welz & Luciah Lopez aqui.
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ALI COBBY ECKERMANN, MAGGIE O'FARRELL, LORRAINE DASTON & ANITA PAES BARRETO

    Imagem: Acervo ArtLAM . Ao som dos álbuns The Road... (Shanachie Records, 2011), Soul Quest (Shanachie Records, 2013) e Journey to t...